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Acreana transforma luto em artesanato com materiais reciclados: ‘A arte me salvou’

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Valdiza Muniz é servidora pública e fez da arte uma aliada à sustentabilidade e ao bem-estar pessoal. Foto: Yuri Marcel/Arquivo pessoal

Em meio à dor, veio a criação, o olhar aguçado e a vontade de contribuir com o desenvolvimento sustentável por meio da arte. Assim ocorreu com a acreana Valdiza Moniz, de 52 anos, que encontrou no artesanato o refúgio para enfrentar o luto pela morte do pai, no início de 2020, e o isolamento social ocasionado pela pandemia de Covid-19.

Ela é professora e servidora pública do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC). No mês em que o planeta é convocado a preservar o meio ambiente, Valdiza contou ao Grupo Rede Amazônica como o uso sustentável da natureza na arte mudou a vida dela, bem como a forma de enxergar o mundo e a de lutar, inclusive, contra os próprios medos.

Sem formação na área ou patrocínio inicial, a artista começou a recolher resíduos naturais e recicláveis nas ruas de Rio Branco e a transformá-los em peças únicas de artesanato sustentável, algumas já reconhecidas e enviadas para fora do estado.

“Eu troquei meu carro fechado por uma caminhonete só para poder catar com mais facilidade. Saía do tribunal e ia direto pra rua. Meus colegas até brincavam. No começo eu catava sem saber o que ia fazer. Agora não: eu olho e já vejo o que aquilo pode virar. É como se o olhar fosse se educando”, falou.

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Arte que vem do chão

Buriti, castanha, sementes, folhas secas, cascas de côco, palha de milho e até partes de móveis descartados. Nada escapa do olhar da artista, que foi sendo treinado aos poucos. O que para muitos seria lixo, para ela são insumos criativos.

“Antes disso, eu não tinha todo esse olhar para a natureza, eu não via [que] tanta coisa que vai para o lixo poderia virar renda, emprego. Eu vejo possibilidade, sim, de desenvolvimento sustentável com peças que são feitas com tudo o que a gente tem aqui, de forma bem abundante”, complementou.

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E é a partir desse olhar artístico e consciência ambiental que Valdiza produz quadros, arranjos florais com folhas desidratadas e até presépios temáticos com animais da fauna amazônica. Um deles, feito sob encomenda para uma clínica veterinária, incluiu capivaras, gatos e cachorros.

“Eu faço todo o processo: recolho, higienizo, impermeabilizo. É demorado, mas essencial. Um quadro como o mapa do Acre, por exemplo, leva cerca de cinco horas de produção, desde que o material já esteja limpo”, explicou.

Aliado ao bem-estar

Atualmente, Valdiza tem um ateliê. Mas o começo de tudo não foi assim. Todo o processo, que inclui o preparo do material até a confecção, era feito na própria residência dela. A inspiração, segundo ela, é a peça-chave para a produção.

“No pós-pandemia, todo mundo ficou no cenário de sobreviventes de guerra. Eu me identifiquei tanto com o artesanato que eu vi nele uma possibilidade de, por trabalhar muito com a mente, dar uma aliviada nos meus pensamentos. Consigo controlar a ansiedade quando estou criando, quando estou pensando”, falou

Após ver que familiares e amigos o apoiaram com a prática, ela começou a querer empreender com as artes. Então, Valdiza participou do projeto Inova Amazônia em 2021, iniciativa focada no fomento à bioeconomia e inovação na região amazônica, por meio de exposições de negócios e discussões de práticas que respeitem os ecossistemas e as comunidades locais.

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“No final de 2020, eu passei num processo seletivo do Inova Amazônia, do Sebrae. E aí, tivemos toda a questão de palestras, oficinas e uma espécie de incentivo para que a gente desenvolvesse uma startup. Eu segui nessa linha do artesanato com os recursos da natureza, desidratados, cascas de palmeiras. Então, hoje eu faço de tudo”, complementou.

Valdiza produz, dentre as artes, o mapa do Acre. Foto: Valdiza Moniz/Arquivo pessoal

Como parte do projeto, ela passou a ministrar cursos para compartilhar a arte e ajudar mais mulheres a desenvolver o dom do artesanato. As oficinas, todas gratuitas, são formas de democratizar o conhecimento, gerar renda para outras mulheres e de espalhar uma nova cultura de consumo.

“Nunca cobrei pelas oficinas, nem pelo material. Tenho tudo armazenado em várias etapas. A ideia é mostrar que é possível criar coisas lindas com o que temos aqui […] é uma forma de mostrar que o Acre também produz arte com identidade própria. Minhas peças, ninguém vai encontrar igual por aí”, diz.

Conexão com o meio ambiente e com o futuro

Com o passar dos anos, a partir das experiências obtidas, Valdiza melhorou as técnicas e, nesta nova fase da vida, não se vê mais sem o artesanato.

“Eu acho que essa possibilidade de você criar no olhar, isso não tem preço. A arte me salvou, e agora quero que ela salve outras pessoas também”, disse.

Peças são comercializadas por meio de encomendas. Sonho de Valdiza é aumentar equipe. Foto: Valdiza Moniz/Arquivo pessoal

A história dela mostra que da perda pode nascer propósito, e da simplicidade, inovação. Mais que peças artesanais, ela produz identidade, pertencimento e uma nova forma de se conectar com o meio ambiente por meio de descartes naturais.

“Quero compartilhar o que sei. Que outras pessoas, especialmente mães que precisam complementar renda, possam também produzir e vender. Eu fico com as peças mais exclusivas, e elas com as mais comerciais. Todo mundo ganha”, complementou.

Por Renato Menezes, da Rede Amazônica AC

Banana, tucupi e pirarucu: aprenda a fazer ceviche com toque regional

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

O ceviche é um prato baseado em peixe cru ou camarão marinado em suco de limão ou outro cítrico, reconhecido pela UNESCO como expressão da culinária tradicional peruana e patrimônio cultural imaterial da humanidade.

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Na Amazônia brasileira, o prato já ganhou diversas versões, como o que usa banana pacovã, tucupi e pirarucu. Os “toques regionais” foram dados pelas mãos do chef Fernando Souza, que criou o prato há oito anos. Confira a receita:

Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

Ingredientes

1 banana pacovã (comprida, da terra)
1 lombo de pirarucu
meia cebola roxa
meia cebola branca
500 ml de tucupi
100 ml de suco de limão
150 ml de azeite
pimenta dedo de moça a gosto
jambu a gosto
coentro a gosto

Modo de preparo

Pique a banana e reserve em uma vasilha com água e limão para ela não escurecer.

Para o molho: coloque meia cebola branca cortada, o tucupi, o suco de limão, o azeite, uma colher de sobremesa de pimenta dedo de moça, coentro e talos de jambu a gosto no liquidificador e bata até obter um molho homogêneo. O tempero pode ser ajustado conforme seu gosto.

O ideal é que o pirarucu seja feito com o lombo com a menor quantidade possível de gordura e fibra. Corte em cubos. Deixe-o marinar por pelo menos 5 minutos no molho feito com os demais ingredientes.

Retire a banana do caldo de limão e misture no molho com peixe. Sirva o ceviche em um prato ou cuia e acrescente coentro picado e cebola roxa cortada em tiras de meia lua.

Roraima lidera proporção de adeptos de tradições indígenas no Brasil, mostra Censo 2022

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Xamãs durante ritual na região de Palimiú, na Terra Yanomami. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR

Roraima é o estado com maior proporção de adeptos de tradições indígenas do país, segundo novos dados do Censo 2022 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, 8.488 declararam seguir tradições indígenas — número que representa 1,7% da população roraimense.

O estado também é proporcionalmente o estado mais indígena do Brasil, com 97.320 pessoas autodeclaradas. No entanto, o número dos adeptos das tradições indígenas é onze vezes menor do que o total de pessoas indígenas no estado.

Leia também: Amazonas e Roraima se destacam com maiores índices de população indígena

No Brasil todo, seguidores de tradições indígenas representam 0,1% da população. Destes, 74,5% se declaram indígenas. No Censo de 2022, para mapear o número em áreas indígenas, a pergunta foi feita de maneira diferente, como explica o Assessor Técnico Especializado em Roraima, Eduardo Frigério.

“Nos setores regulares da cidade, a pergunta era: qual é sua religião ou culto. Quando a o recenseador tava dentro da terra indígena, a pergunta era: qual a sua crença ritual indígena ou religião? Para ele entender que poderia escolher também alguma opção da crença do que ele vivencia lá na na comunidade”, disse.

Amajari é um município do norte do estado de Roraima em uma região que tem 8 Terras Indígenas, totalizando 19 comunidades indígenas, inclusive é famosa por conta da Serra do Tepequém. Foto: Reprodução/Prefeitura de Amajari

Em Roraima, Amajari é o município com a maior proporção de habitantes que seguem tradições indígenas: 25,38% da população, o que equivale a 2.540 pessoas. A região abriga oito Terras Indígenas, onde estão distribuídas 19 comunidades.

Em seguida vem Alto Alegre, com 23,58% da população — 3.588 pessoas — vinculada às tradições indígenas. O território do município inclui parte da Terra Indígena Yanomami.

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Além disso, o censo apontou que em números reais, 86.216 roraimenses não tem uma religião. Apesar disso, o catolicismo ainda é o mais praticado no estado: são 192.821 fiéis, o que corresponde a 30% da população — 636.707 habitantes.

A evangélica é a segunda religião com mais adeptos em Roraima, com 174.801 pessoas. A Umbanda, religião afro-brasileira, tem a menor concentração no estado, são apenas 1.551 praticantes declarados.

O estado também tem a maior proporção de pessoas com outras religiosidades: 7,8%. Os demais roraimenses estão divididos entre os que se declaram espíritas (3.245) e os que não sabem (518).

Em todo o Brasil, a proporção de brasileiros que se declaram católicos caiu ao menor nível já registrado desde 1872. Apesar da queda, o catolicismo ainda é a maior religião no país, seguido pela religião evangélica.

Leia também: Censo 2022 aponta que índice de alfabetização entre indígenas sobe, mas segue preocupante

O Censo

O Censo é uma pesquisa realizada pelo instituto para fazer uma ampla coleta de dados sobre a população brasileira. Ela permite traçar um perfil socioeconômico do país, já que conta os habitantes do território nacional, identifica suas características e revela como vivem os brasileiros.

No total, 8.488 declararam seguir tradições indígenas — número que representa 1,7% da população roraimense. Estado também é proporcionalmente o estado mais indígena do Brasil, com 97.320 pessoas autodeclaradas.

*Com informações da Rede Amazônica RR

Bosque Estadual Vandete Rocha reúne lazer, educação e sustentabilidade em Manaus

Foto: José Narbaes/Ipaam

Um refúgio verde em plena zona centro-sul de Manaus (AM): assim pode ser definido o Bosque Estadual Vandete Rocha, localizado na sede do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), na Avenida Mário Ypiranga, nº 3.280, bairro Flores. Aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h, o bosque reúne lazer, educação ambiental e atividades voltadas à sustentabilidade.

Leia também: 5 bosques para se aproximar da natureza na região amazônica

O Bosque Vandete Rocha ocupa uma área de 3 hectares de floresta equatorial, que inclui ambientes de terra firme e de charco, à margem do igarapé do Bindá. O espaço conta com espécies nativas e trilhas ecológicas que fazem alusão a lendas amazônicas, utilizadas em atividades de educação ambiental.

A proposta é aproximar a sociedade da natureza e promover a conscientização sobre a importância da preservação ambiental, valorizando também a cultura e os saberes tradicionais da região.

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Foto: José Narbaes/Ipaam

Criado a partir do aproveitamento desse fragmento florestal existente dentro da própria sede do Ipaam, o bosque é o primeiro do tipo implantado pelo Governo do Amazonas em uma área urbana.

A inauguração aconteceu dentro da programação ‘Junho Ambiental‘ do Ipaam, campanha anual que neste ano trabalha com o tema ‘Somos o Clima que Criamos’.

Segundo o Ipaam, a proposta do bosque é clara: reconectar a população com a natureza, mesmo em meio à cidade. “O bosque é uma oportunidade de resgatar essa convivência das pessoas com o meio ambiente, sem sair da cidade. Ele representa o compromisso do Governo do Estado com o futuro. É um espaço que educa, acolhe e inspira”, afirmou o diretor-presidente do Ipaam, Gustavo Picanço.

Atrativos

  • Entre os atrativos do Bosque Vandete Rocha estão:
  • trilhas ecológicas em meio à vegetação nativa,
  • uma quadra de areia para práticas esportivas,
  • parquinho infantil,
  • academia ao ar livre,
  • mirante com vista da copa das árvores,
  • biblioteca infantil com foco em temas ambientais,
  • uma maloca com exposição de brinquedos e miniaturas feitas de materiais recicláveis,
  • lanchonete
  • e um viveiro de mudas, com espécies nativas como açaí, cupuaçu e andiroba.
Foto: José Narbaes/Ipaam

A analista ambiental do Ipaam, Maria do Carmo, destaca a importância do espaço como ferramenta de educação e bem-estar: “A ideia é mostrar como é importante termos esse tipo de espaço dentro da área urbana, não só na zona rural. Isso contribui para melhorar nossa qualidade de vida e saúde”.

Além da visitação livre durante a semana, o bosque também abriga atividades educativas, feiras sustentáveis, mutirões ambientais e visitas escolares.

Homenagem

Homenagem à servidora pública Vandete Rocha, que dedicou grande parte de sua vida profissional ao Ipaam e à causa ambiental no Amazonas, o bosque também representa um tributo ao legado daqueles que trabalharam pela preservação do meio ambiente.

Escolas interessadas em agendar excursões ou visitas guiadas podem entrar em contato diretamente pelo número (92) 98455-6013, da Gerência de Educação Ambiental do Instituto, de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h.

*Com informações do Ipaam

Professora ganha prêmio por tese sobre práticas curandeiras entre mulheres em Oiapoque

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Professora é premiada por trabalho que destaca práticas curandeiras tradicionais. Foto: Evelanne Silva (Ilustrações de Igum Djorge)

Evelanne Silva é professora do curso de História no campus binacional da Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Oiapoque, fronteira com a Guiana Francesa. A docente levou o título de vencedora da melhor tese no Prêmio Emanoel Gomes de Moura de Teses e Dissertações da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).

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Na tese ‘Vovó me disse que isso também cura!: práticas populares de cura entre mulheres em Oiapoque – Amapá. Contribuição para uma educação escolar insurgente’, e o produto ‘Vovó me disse que isso também cura!’, a professora aborda a tradição curandeira de sua própria ancestralidade.

“A ideia foi por causa da minha vida pessoal, que eu sou neta de mulheres que usavam esses saberes. Isso estava presente na minha desde a infância, sempre vi elas curarem, benzerem […]. Minha bisavó por parte de pai era parteira também. Então isso sempre me chamou a atenção”, explicou Evelanne ao Grupo Rede Amazônica.

Leia também: Quebranto, peito aberto e mau-olhado: conheça 6 doenças tratadas pelas benzedeiras da Amazônia

Professora Evelanne e o barbatimão, um dos materiais usados para práticas curandeiras. Foto: Evelanne Silva/Acervo pessoal

O produto em questão se trata de um e-book, que está disponível na internet de forma gratuita. O novo formato de trabalho surge como uma ferramenta educacional tecnológica, para que o saber tradicional possa ser trabalhado de forma lúdica em sala de aula.

Confira a tese AQUI e leia o livro AQUI.

O trabalho foi desenvolvido pela doutora por meio do primeiro Doutorado Profissional do Programa de Pós-graduação em História da Uema (PPGHist). São destacadas as práticas como:

  • Puxações;
  • Benzimentos;
  • Rezas;
  • Interdições alimentares;
  • Confecção de remédios.

Uma infinidade das experiências passadas de geração para geração também são destacadas. A ideia da abordagem surge a partir da perspectiva da professora de que o assunto das práticas antigas não era tão abordado na educação da fronteira franco-brasileira.

Ausência do assunto na educação é citada na obra. Foto: Evelanne Silva (Ilustrações de Igum Djorge)

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Reconhecimento dos saberes tradicionais

A professora notou que os saberes indígenas são presentes na população e circulam diariamente de forma comum, mas, são pouco discutidos em sala de aula.

“Quando fui trabalhar na docência, trabalhei no ensino básico antes de trabalhar no ensino superior, percebi a ausência dessa abordagem que tem a ver com saberes étnicos, saberes ancestrais, de matriz africana, indígena, saberes afro indígenas […] Então percebi essa ausência, apesar das leis que defendem a cultura indígena e africana”, disse.

A professora explicou que o estudo busca acima de tudo, suprir uma lacuna educacional. Visto que, mesmo com a lei 10.639/03 que torna obrigatório os estudos da história e cultura africana nas escolas, ampliada pela lei 11.645/08 que inclui os povos indígenas, ainda há obstáculos na prática.

“Materiais didáticos e literários ainda carecem de circular para o auxílio dos professores. O meu objetivo foi, a partir do estudo da fronteira-brasileira contribuir para superar essa lacuna […] Encontrar formas de viabilizar através de produtos técnicos e tecnológicos que isso circule na educação de uma maneira mais ampla”, disse.

Trecho do produto da pesquisa produzida por Evelanne. Foto: Evelanne Silva (Ilustrações de Igum Djorge)

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Evelanne destacou ainda que apesar de receber o prêmio de grande relevância acadêmica, o ganho maior é o reconhecimento da riqueza étnica e cultural dos povos que residem na fronteira.

“A gente sente que cumpriu o dever de dar lugar aos sujeitos que antes não apareciam nos livros de história. Então, eu sinto um reconhecimento do trabalho e sinto que é uma colocação merecida para esses sujeitos que vivem aqui no Amapá”, completou.

Descoberta sobre a Mãe Luzia

Durante as pesquisas, a professora descobriu novas informações sobre a figura emblemática no Amapá que dá nome à Maternidade do estado, Mãe Luzia. Evelanne revelou que além de lavadeira e parteira, Mãe Luzia era perita em crimes sexuais contra mulheres.

“A partir dos estudos documentais dos arquivos do Tjap, no fórum de Macapá, eu descobri então que ela era perita em crimes sexuais contra mulheres [..] Então é um papel social que não se sabia, é uma faceta da Mãe Luzia que a gente não conhecia, e através dessa pesquisa foi possível perceber isso”, destacou a professora.

Durante as entrevistas com mulheres curandeiras de Oiapoque para a pesquisa, Evelanne conseguiu perceber o quão os saberes tradicionais ainda são presentes, não somente no local de sua área de atuação, mas na Amazônia como um todo.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Armando Sõpre Xerente é o 1° de seu povo a alcançar título de doutor em Educação na Amazônia, pela UFT

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Armando Sõpre Xerente durante evento cultural no Centro de Ensino Médio Indígena Xerente (Cemix). Foto: Cesar Diniz/Cemix

O dia 29 de maio de 2025 vai ficar marcado na história da etnia Xerente, no Tocantins. Nesta data, Armando Sõpre Xerente tornou-se o primeiro doutor em Educação na Amazônia, pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) via Programa de Pós-Graduação em Educação na Amazônia (PGEDA/Educanorte).

A tese de Sõpre é sobre ‘A educação tradicional do povo Akwẽ e o processo de formação dos jovens na era Warã’. Sõpre frisa que é preciso incluir os anciões no processo educativo formal.

“Eles (os anciões) são doutores no conhecimento tradicional”, defende Sõpre.

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O novo doutor pela UFT diz que “antigamente, os anciões é que eram os professores nas aldeias. Eles tinham que contar tudo, ensinar aos jovens. É por isso que me interessei de pesquisar esse tema, para que possamos trazer de volta esses anciões, para o ensino no mundo moderno”.

Sõpre defende a reintegração formal da figura dos anciões no currículo escolar. “Até porque a nossa escola é um centro de ensino médio (o Centro de Ensino Médio Indígena Xerente Warã – Cemix) e precisamos de nossos anciões lá dentro”, defende.

Desafios linguísticos e tradução

Sõpre contou que seu maior desafio foi o de traduzir da língua materna xerente para o português os diversos conceitos relacionados ao ensino das tradições orais de seu povo. “

Eu tive de me concentrar bastante, pegando a informação da língua materna e traduzindo para a língua portuguesa. Tive de me deslocar para ir coletar os dados diretamente com os anciões sobre o warã. Foi o maior desafio que enfrentei”, diz.

Leia também: Educação em língua indígena: fortalecimento da cultura dos povos originários da Amazônia

O novo doutor indígena levou para a execução de sua tese a experiência de colaborar na tradução do Novo Testamento (da Bíblia) para o povo xerente. Ele, juntamente com outros indígenas, ajudou na correção e tradução do Novo Testamento que foi desenvolvida por missionários batistas (pastor Günther Krieger e sua esposa Vanda Krieger; e pastor Rinaldo de Matos – falecido recentemente – e sua esposa Gudrum).

Armando durante a defesa da tese. Foto: Reprodução

Ele conta que foi a partir desse trabalho de auxílio na tradução que decidiu fazer graduação na área de Letras. “Fiz Ciência da Linguagem na Universidade Federal de Goiás (UFG); continuei estudando e decidi também fazer mestrado na área, para conhecer mais a estrutura da língua portuguesa. Os pastores Gunther e Rinaldo foram instrumento para mim, me incentivaram a estudar”, diz Sõpre.

Ele acredita que seu trabalho de doutorado vai ajudar no desenvolvimento de políticas públicas para incluir os anciões e beneficiar a educação escolar indígena.

“Esse trabalho, inédito, serve também para provocar as autoridades, para servir de base para educação escolar indígena de nosso povo, e buscar a reintegração do ancião, como antigamente, com direito a receber salário, como nós; afinal, eles também são mestres e doutores”, enfatiza Armando Sõpre.

Defesa em solo natal

A defesa da tese de doutorado de Sõpre não ocorreu entre quatro paredes, nas dependências da Universidade. A escolha do local, com anuência da coordenação do programa de pós-graduação, foi no Centro de Ensino Médio Indígena Xerente Warã (Cemix), no território indígena que fica município de Tocantínia, cidade a 86 quilômetros de Palmas.

Ele diz que a escolha foi estratégica, no sentido de também incentivar os jovens indígenas a continuarem estudando. “A comunidade me acolheu, os pais dos alunos, enfim, e a imagem influencia, é a minha imagem de professor em que os alunos podem se espelhar com minha trajetória e os desafios que enfrentei para chegar até aqui”, pontua.

A orientadora da tese, professora Dr.ª Neila Osório, também coordenadora do programa de extensão Universidade da Maturidade (UMA/UFT), destacou a importância da abertura da Universidade para outras formas de conhecimento: “A universidade precisa aprender a se abrir para outras formas de comunicação e expressão, linguagem, conhecimento e metodologia. Quem mais ganha com isso, nesse momento, certamente é a universidade”.

Segundo a professora Jocyléia Santana, coordenadora do Doutorado em Educação, PGEDA/UFT, a evasão de estudantes indígenas ainda é um grande desafio, especialmente na graduação. “Na pós-graduação, o perfil do estudante é mais maduro, mas as dificuldades ainda são grandes: deslocamento, custo de vida nas cidades, exigências acadêmicas elevadas e o racismo institucional”, aponta.

Ela ressalta que a UFT, tem se destacado nacionalmente pela formação de indígenas na graduação e, agora, com maior presença também na pós-graduação. No entanto, as estruturas institucionais ainda precisam se adaptar para acolher as singularidades de cada estudante.

Além da orientadora Neila, participaram da banca de Sõpre os professores: Dr. Luiz Sinésio Silva Neto (coorientador); Dr. Djanires Lageano Neto de Jesus (membro externo/UEMS/Profeduc); Dr. Rui Miguel Duarte Santos (membro externo/Instituto Politécnico de Leiria/Programa de Pós-Graduação em Direção de Organizações de Intervenção Social); Dr.ª Rosilene Lagares (membro interno/UFT-PGEDA) e Dr.ª Reijane Pinheiro da Silva (membro interno/UFT).

*Com informações da UFT

Saiba quais são as três cobras mais venenosas da Amazônia

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Fotos: Reprodução

Atualmente, somente em Rondônia são conhecidas mais de 118 espécies de serpentes, das quais 18 são consideradas peçonhentas. Mas você sabe quais delas são as mais venenosas? O Grupo Rede Amazônica conversou com o biólogo Adriano Martins, especialista em herpetologia, que explicou características que destacam a Jararaca-da-Amazônia (Bothrops atrox), Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) e Coral-verdadeira (Micrurus spp.) como as cobras mais perigosas e temidas da região.

Leia também: Portal Amazônia responde: Cobra e serpente são diferentes?

Segundo Adriano, as cobras venenosas têm glândulas que produzem veneno e dentes especiais que conseguem injetá-lo, o que pode causar acidentes. Na Amazônia, três delas lideram a quantidade de acidentes ofídicos.

Jararaca-da-Amazônia (Bothrops atrox)

A Bothrops atrox é a principal causadora de acidentes ofídicos em Rondônia e em toda a Amazônia brasileira. É uma serpente de hábitos terrestres, geralmente encontrada em áreas de floresta, margens de rios, roçados e até mesmo em áreas urbanas periféricas.

Saiba mais: Conheça as cobras mais encontradas em áreas urbanas da Amazônia e entenda os perigos

Veneno: proteolítico e coagulante, causa dor intensa, inchaço, necrose, sangramentos e, em casos graves, choque e insuficiência renal.

Comportamento: geralmente noturna, pode atacar se ameaçada ou surpreendida.

Importância médica: representa mais de 70% dos acidentes ofídicos na região.

Jararaca-da-Amazônia também é conhecida como jararaca-do-norte. Foto: Vanessa Gama/MUSA

Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta)

Conhecida por ser a maior serpente peçonhenta das Américas, podendo ultrapassar 3 metros de comprimento, a surucucu é rara e perigosa. Vive em áreas de floresta densa e pouco alterada, sendo mais difícil de ser encontrada.

Veneno: semelhante ao da jararaca, com ação hemorragia e necrose, mas também com efeitos cardiovasculares (hipotensão).

Comportamento: pode vibrar a cauda como forma de alerta. Costuma evitar o contato humano.

Curiosidade: ao contrário da maioria das serpentes peçonhentas da América do Sul, a Lachesis é ovípara (bota ovos).

Surucucu-pico-de-jaca é vista com menos frequência na natureza. Foto: Willianilson Pessoa/Arquivo pessoal

Coral-verdadeira (Micrurus spp.)

As corais verdadeiras são serpentes de pequeno porte, coloração vibrante (anéis vermelhos, pretos e brancos), e comportamento discreto. Apesar de não serem responsáveis por muitos acidentes, seu veneno é altamente tóxico.

Veneno: neurotóxico, age diretamente no sistema nervoso, podendo causar paralisia muscular e respiratória.

Comportamento: fossorial (vive enterrada), tímida e raramente entra em confronto com humanos.

Perigo: acidentes são raros, mas potencialmente letais se não tratados rapidamente.

Coral-verdadeira (Micrurus frontalis) é considerada a cobra mais letal do Brasil, pela toxicidade de seu veneno. Foto: Josh Vandermeulen/iNaturalist

Onde vivem as serpentes?

O estado de Rondônia, na região Norte do Brasil, é reconhecido por sua expressiva diversidade biológica, integrando o bioma amazônico, um dos ecossistemas mais ricos do planeta. É nessa diversidade de ambientes que vivem as serpentes.

Segundo Adriano, elas estão nos mais variados nichos ecológicos, como florestas densas, áreas alagadas, campos abertos e bordas de matas.

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“Por conta disso, a maioria dos acidentes ocorrem em áreas rurais, durante atividades como a agricultura, coleta de frutos, caça ou pesca”, explica o especialista.

Apesar do risco do contato direto com essas espécies, Adriano ressalta que as serpentes são fundamentais para o equilíbrio da natureza, sendo responsáveis pelo controle natural de pragas, além de servirem como alimentos para aves de rapina, felinos e outros.

“A extinção dessas espécies causaria desequilíbrio na cadeia alimentar. Sem serpentes, populações de roedores, por exemplo, cresceriam descontroladamente, afetando plantações e a saúde pública”, afirma.

Contribuições à ciência

As serpentes peçonhentas contribuem significativamente para a ciência. Atualmente, elas auxiliam no desenvolvimento de medicamentos anti-hipertensivos, como o captopril, derivado do veneno de jararaca.

Segundo Adriano, também há estudos em andamento sobre o uso de venenos para promover a coagulação e a regeneração tecidual, além de pesquisas sobre o uso das neurotoxinas para tratar doenças neurológicas e dores crônicas.

Leia também: Guia ilustrado de serpentes da Amazônia encanta crianças e até pesquisadores

Cuidados ao acessar áreas de mata

Entre as maneiras mais eficientes de evitar acidentes com serpentes peçonhentas estão:

  • Usar botas e perneiras;
  • Caminhar com atenção, evitando folhas secas e troncos caídos;
  • Não colocar as mãos em buracos ou sob pedras;
  • Evitar sair à noite em áreas de mata densa;
  • Manter-se atento ao ambiente e evitar manusear serpentes.

Orientações do que fazer caso seja picado por uma cobra:

  • Lavar o local da picada com água e sabão
  • Ficar deitado com o membro picado elevado
  • Afastar-se da cobra
  • Tentar ficar calmo e parado
  • Retirar qualquer joia, acessório ou roupa apertada da área mordida
  • Não cortar, furar, fazer compressas ou torniquetes no local da mordida
  • Não usar nenhum medicamento local ou por via oral, na tentativa de aliviar os sintomas
  • Manter a pessoa hidratada
  • Procurar o serviço médico mais próximo
  • Se possível, leve o animal ou tente tirar uma foto da cobra para que ela possa ser identificada.
  • É recomendado o repouso de 10 à 14 dias após a picada de cobra.

*Por Agaminon Sales, da Rede Amazônica RO

Sem floresta, não há água: o alerta que o Brasil precisa ouvir

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Foto: Olímpio Guarany/Acervo pessoal

Por Olímpio Guarany

Os dados divulgados nesta semana pelo INPE revelam uma verdade incômoda: o desmatamento voltou a crescer na Amazônia. A área sob alertas de desmatamento aumentou 92% em maio, comparado com maio/2024, atingindo 960 km². Após meses de tímidos sinais de desaceleração, o ritmo da destruição aumentou — e com ele, a urgência de repensarmos nossas escolhas.

A floresta não é apenas um conjunto de árvores. É um sistema vivo, pulsante, que regula os ciclos da água e do clima em grande parte do território brasileiro. Cortar a floresta é secar o futuro.

A máxima “sem floresta, não há água” não é retórica — é ciência. O bioma amazônico produz seus próprios rios voadores: massas de umidade que se formam a partir da evapotranspiração das árvores e que alimentam as chuvas em todo o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quando a cobertura vegetal é destruída, esse ciclo se rompe. E o que vem depois é estiagem, colapso hídrico, perdas na agricultura, impacto direto na vida das pessoas.

Não é por acaso que, mesmo com o atual período de chuvas, especialistas já alertam para o risco de uma estiagem severa no segundo semestre. Os sinais estão aí — visíveis no leito mais baixo dos rios, no atraso das chuvas, na instabilidade do clima. E os dados do INPE apenas confirmam que não estamos fazendo o suficiente para mudar essa rota.

Seca na Amazônia. Foto: Reprodução/Arquivo Rede Amazônica

Preservar a floresta não é um gesto simbólico. É uma estratégia de sobrevivência.

É preciso retomar com força os programas de controle do desmatamento, apoiar as comunidades que protegem a floresta de dentro para fora, e, sobretudo, construir uma governança das águas que integre ciência, saberes tradicionais e vontade política.

A Amazônia não precisa de discursos. Precisa de compromisso.

Cada hectare preservado é um reservatório de chuva que se mantém.

Cada nascente protegida é uma comunidade que segue viva.

Os povos da floresta, os cientistas e os movimentos sociais já entenderam isso. Falta o restante do país entender também. Porque a Amazônia não é um problema distante — é o centro da vida brasileira.

Ainda dá tempo. Mas o relógio corre.

E o futuro — como a água — pode escorrer pelas nossas mãos.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). Atualmente é apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Festival dos Povos da Floresta encerra primeira etapa em Porto Velho: cultura viva

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Festival contou com 11 dias de programação. Foto: Divulgação/Rioterra

Após 11 dias de intensa programação artística e formativa, o Festival dos Povos da Floresta concluiu sua estreia em Porto Velho (RO) com um público estimado em 35 mil pessoas. Diversas atividades gratuitas – entre shows musicais, exposições, oficinas, apresentações indígenas e rodas de conversa – foram realizadas e o evento marcou o início de uma jornada nacional que reconhece e celebra a produção cultural viva, múltipla e contemporânea da Amazônia.

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Idealizado pelo Centro de Inovação da Amazônia Rioterra e apresentado pela Petrobras através do programa Petrobras Cultural, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com realização do Ministério da Cultura e do Governo Federal, o Festival dos Povos da Floresta se firma como uma iniciativa essencial para promover a justiça cultural e o protagonismo amazônico em escala nacional.

O evento propõe uma mudança de paradigma: a Amazônia não como um espaço apenas de preservação ou extração, mas como centro de criação e protagonismo cultural.

De acordo com a organização, esse tipo de iniciativa representa “um avanço concreto na valorização de artistas da floresta que, até então, tinham pouca ou nenhuma visibilidade fora de seus próprios territórios. Ao oferecer uma plataforma de alcance nacional, o Festival permite que suas vozes, sons, imagens e histórias alcancem novos públicos e circulem em contextos mais amplos”.

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Para a população local, o evento também é transformador, pois gera pertencimento, promove o orgulho da identidade regional e amplia o acesso à cultura de qualidade, fortalecendo laços entre tradição e contemporaneidade.

Cantor Lenine participou do evento em Porto Velho. Foto: Divulgação/Rioterra

A programação diversa atraiu milhares de pessoas ao Palco Petrobras, com apresentações de artistas como Gabriê, Patrícia Bastos, Ernesto Melo, Nilson Chaves, Quilomboclada e dos povos Gavião, Arara, Aruá, Tupari e Zoró, além do show de encerramento com Lenine, que selou a conexão entre o Brasil urbano e as vozes da floresta.

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Na exposição Juvia, encerrada em 8 de junho, o público teve acesso a um retrato plural da arte amazônica, com obras de artistas indígenas, coletivos locais e nomes consagrados como Gustavo Caboco e Paula Sampaio. Oficinas, vivências e rodas de conversa completaram a experiência, integrando formação de público, escuta ativa e fortalecimento de identidades coletivas.

Exposição Juvia em Porto Velho. Foto: Divulgação/Rioterra

Segundo Fabiana Gomes, diretora de projetos da Rioterra, “o impacto dessa primeira edição vai além dos números. Ele está na potência dos encontros, na visibilidade conquistada pelos artistas e mestres da floresta, e na abertura de caminhos para que a cultura amazônica seja reconhecida como parte central da identidade brasileira”.

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Com uma trajetória itinerante, o Festival dos Povos da Floresta agora se prepara para sua próxima parada: Boa Vista (RR), onde seguirá promovendo intercâmbios culturais, protagonismo indígena e valorização dos territórios tradicionais.

As demais etapas ocorrerão em Macapá (AP), Belém (PA) e o encerramento será em Brasília (DF), consolidando um circuito cultural inédito e de alcance nacional. As datas ainda serão anunciadas.

“Ao reunir artistas, mestres da tradição e novos criadores, o Festival dos Povos da Floresta revela que a Amazônia é também um território de arte, invenção e futuro. É um Brasil que precisa ser escutado com atenção e respeito”, afirma a curadora Aline Moraes.

Redes comunitárias fornecem sementes do Xingu para restauração ambiental

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Homem carregando saco de sementes. Foto: Reprodução/OTCA

Vera Oliveira, como toda amante da natureza, adora observar e ter contato com as plantas. Moradora de Nova Xavantina, Mato Grosso, essa ex-doméstica de 55 anos, encontrou, na coleta de frutos e sementes, não apenas uma forma de viver em contato com o meio ambiente, como também sua única fonte de renda.

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“Eu me criei na fazenda. Quando a gente era pequenininho, papai sempre ensinava o nome das árvores. Então eu já tinha um conhecimento da natureza e gostava muito de sair andando pelo mato”, conta Vera.

Há quase uma década, Vera começou a trabalhar junto com uma rede de coletores na região do Xingu, que, juntos, fornecem sementes para projetos de restauração florestal.

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Redes comunitárias fornecem sementes
Colheita de sementes em Porto Velho. Foto: Felipe Ribeiro/Prefeitura de Porto Velho

“Faço essas coletas dentro da cidade, na área urbana e área rural também, na beira de estrada. A gente vai até Pindaíba, que é uma cidade mais próxima, até perto de Água Boa, Campinápolis. E a gente coleta também nessas redondezas, nas fazendas”, conta.

Ela é uma das 700 pessoas que coletam para a Rede de Sementes do Xingu (RSX), rede que nasceu em 2004, a partir de uma campanha para restaurar as margens degradadas do rio Xingu, que nasce entre as serras do Roncador e Formosa, no Mato Grosso, e desemboca próximo à foz do rio Amazonas, no estado do Pará. Nesse trajeto, flui pelos biomas do Cerrado e da Amazônia.

“A Rede de Sementes do Xingu surge como resultado da busca por uma solução para cuidar da saúde do rio. O que a gente podia ser feito para cuidar da saúde do Rio? Plantar às margens e nas cabeceiras do rio. E para plantar, era preciso ter sementes”, conta Lia Domingues, da coordenação da rede.

Em 2007, a campanha, coordenada pelo Instituto Socioambiental (ISA), se transformou em uma rede de sementes que, com o passar do tempo, passou a fornecer esse material também para empresas, fazendeiros e instituições interessadas em realizar restaurações florestais.

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Sementes. Foto: Ronaldo Rosa/VALE

A proposta da rede é fornecer insumos para restaurações realizadas a partir da semeadura de uma mistura de sementes de diferentes espécies, técnica conhecida como “muvuca de sementes”. Uma vez coletadas e entregues aos compradores interessados na restauração ambiental, as sementes misturadas são espalhadas pelo terreno a ser restaurado.

“O modelo de plantar com mudas, que é uma técnica possível de restauração ecológica, não apresentava bons resultados aqui na região. Então o pessoal começou a experimentar uma outra técnica, que é a semeadura direta de muvuca de sementes”, conta Lia.

O trabalho é feito ao longo de todo o ano. No início de cada ano, os coletores, que se estruturam em diferentes grupos, informam à coordenação da rede, qual é o potencial de coleta daquele ano, em relação tanto às espécies quanto à quantidade de sementes.

A rede então cria um catálogo de sementes disponíveis, que são repassados aos interessados nas restaurações ambientais. A partir das encomendas feitas pelas empresas, fazendeiros e outras instituições, os coletores passam alguns meses recolhendo as sementes.

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Restauração

Depois da coleta, essas sementes são separadas por espécie e, posteriormente, misturadas em lotes de muvucas, que estão prontas para serem dispersadas no solo.

“Esse plantio imita muito o processo natural do meio ambiente. As espécies nascem quando há um ambiente propício para isso. Não é como a muda que a gente coloca lá e acaba tendo uma grande mortalidade. [Na semeadura por muvuca], a gente joga todos os grupos funcionais de espécies e, conforme encontram o ambiente propício, vão crescendo no seu melhor momento”, explica a engenheira florestal e mestra em Ecologia e Conservação, Aline Ferragutti.

Sementes de açaí. Foto: divulgação

Aline trabalha como analista técnica do Redário, projeto do Instituto Socioambiental que articula 27 redes de sementes dos biomas da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, entre elas a RSX.

Ela explica que, como a mistura de sementes inclui espécies com diferentes formas e ciclos de vida, o processo de restauração por meio da muvuca simula uma regeneração que a própria natureza faria, de forma mais demorada, se tivesse oportunidade.

Fazem parte da mistura, por exemplo, espécies sazonais como o feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), feijão-guandu (Cajanus cajan), abóbora (Cucurbita sp.), gergelim (Sesamum indicum) e girassol (Helianthus annus). A maioria dessas espécies nem sequer é nativa do Brasil, mas elas germinam mais rápido e servem para impedir a profusão de outras plantas que atrapalham o processo de restauração, como capins invasores africanos.

E, como são espécies de ciclo de vida curto, que dura alguns meses, elas não permanecerão na vegetação permanente. Uma vez finalizado seu ciclo de vida, seu material orgânico ajuda a adubar o solo, contribuindo para a germinação das sementes de espécies nativas, que também integram a muvuca de sementes e que permanecerão no local.

O que acontece em seguida é um processo de sucessão ecológica natural. As plantas que crescem primeiro criam um ambiente para que outras possam germinar e prosperar.

“Além da facilidade na implantação, da possibilidade de inserir espécie de diferentes ciclos de vida, como arbustos e ervas, na restauração e do grande número de plantas estabelecidas por área, uma das vantagens da semeadura é que, diferente do plantio de mudas, as espécies não são plantadas do mesmo tamanho no mesmo momento. Primeiro há a germinação da adubação verde, que fará a cobertura do solo e deixará ele mais rico para o estabelecimento das demais espécies, seguido das pioneiras e secundárias, conforme a sucessão ecológica.”, afirma Aline.

Empresas

Em 2024, as redes comercializaram, com a ajuda do Redário, 18,5 toneladas de sementes de 186 espécies. Mas nem todas as negociações com empresas restauradoras ocorrem através do Redário.

No ano passado, a RSX comercializou, de forma independente, uma quantidade considerável de suas sementes coletadas. No total, a rede forneceu 30 toneladas, ou seja, até mais que o próprio Redário.

Sementes diversas. Foto: Divulgação

Para as empresas, a compra de sementes dessas redes é uma forma eficaz e barata de fazer a restauração de áreas degradadas. Por meio de um projeto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), chamado de Floresta Viva, a empresa de energia Energisa aproveitou para restaurar 700 hectares de vegetação nativa na região do Xingu.

“A gente tem uma atuação muito forte dentro da Amazônia e a gente direcionou o nosso foco para esse bioma. Apesar de a gente ter um negócio que dialoga muito com a transição energética, a gente sabe que existem impactos. A nossa existência [como pessoa] gera impacto, imagina um negócio. Então a ideia é mitigar aquilo que que está gerando impacto negativo”, afirma a coordenadora de Gestão da Sustentabilidade da empresa, Michelle Almeida.

Renda

Além de fornecer insumo para instituições interessadas na restauração ambiental, as redes de sementes têm um outro lado, a geração de renda para famílias de indígenas, quilombolas, agricultores familiares e até mesmo moradores de cidades, como é o caso da dona Vera, do início da nossa reportagem.

“Tem famílias hoje em dia que têm, na renda das sementes, a maior renda deles. Tem pessoas que conseguiram comprar carros. As indígenas falam muito que hoje elas conseguem usar óculos, porque elas conseguem na cidade comprar os seus óculos para ter conseguir trabalhar e viver melhor”, explica Aline.

Segundo Lia Domingues, a coleta de sementes não apenas gera renda para as comunidades, mas como impacta outras dimensões da vida dessas pessoas.

“A gente está fazendo um levantamento agora com as mulheres de como a rede de sementes cria redes de afeto e de amizade, elas aprendem muitas coisas novas, muitas delas desenvolvem qualidade de liderança, elas viajam, tem uma dimensão espiritual da coleta também, sobretudo dentro das comunidades indígenas. É bom para saúde mental delas”.

Dona Vera conta que hoje a coleta de sementes e frutos garante a segurança financeira de sua família.

“Quando eu parei de trabalhar como doméstica, minha filha achou que a gente ia passar fome. Com as sementes, eu consegui comprar uma bicicleta nova, depois uma moto e um carro. E também arrumei minha casa. Foi aí que minha filha passou a acreditar que a gente não ia mais passar fome”.

*Com informações da Agência Brasil