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Carta produzida por mais de cinco mil mulheres indígenas é entregue ao governo

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Grupo de mulheres indígenas entregou carta após marcha. Foto: Mariana Soares/ISA

No início de agosto, a IV Marcha das Mulheres Indígenas levou os cantos, danças e reivindicações de cerca de 5 mil mulheres indígenas, de mais de 100 povos, às ruas de Brasília. Organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), a Marcha é realizada a cada dois anos, e reúne mulheres indígenas de todos os biomas do país para debater pautas como a demarcação de seus territórios, violência contra a mulher indígena, saúde, educação e bem-viver. 

Leia também: Conferência Nacional estima reunir 5 mil mulheres indígenas em Brasília

A caminhada em direção à Praça dos Três Poderes terminou com um uma sessão solene em homenagem à IV Marcha das Mulheres Indígenas, no plenário da Câmara dos Deputados, onde ocorreu a entrega ao Congresso Nacional da Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida.

“Para nós, mulheres, é sempre um grande desafio oportunizar esse grande encontro, mas principalmente, esse grande debate que nós, mulheres indígenas, fazemos acerca dos temas que são prioritários para nós e que queremos trazer a Brasília para a gente poder ecoar as nossas vozes, ecoar os nossos desejos, mas ecoar também a defesa dos nossos direitos” , afirmou Joziléia Kaingang, diretora-executiva da Anmiga, na plenária.

Na ocasião, a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, destacou a importância do momento: “Estar hoje no Congresso Nacional é reafirmar direitos e também as nossas capacidades”. Ela lembrou ainda as mudanças no cenário político nos últimos três anos, fruto da luta indígena.

Leia também: Saiba o que é a Marcha das Mulheres Indígenas

Veta, Lula!

Na plenária e nas ruas, o grito “veta, Lula” fortalecia o protesto das mulheres pelo veto à ao Projeto de Lei nº 2159/21, conhecido como PL da Devastação, que coloca em risco a proteção ambiental de seus territórios.

“Esse PL vai causar um grande dano à nossa vida, à nossa saúde, mudando os nossos modos de viver. Porque nós, pajés, vivemos de oração, de cura, das ervas medicinais que ali se encontram e para nós isso é indispensável. Nós protegemos as nossas matas, nós não derrubamos mata em pé.”, lamentou a Pajé Analice Tuxá, do povo Tuxá, em repúdio ao PL.

Ainda na sexta-feira (08/08), o presidente Lula assinou o veto parcial, excluindo 63 dos 400 dispositivos da lei. Agora, o projeto volta ao Congresso, que pode aprovar ainda a derrubada dos vetos.

Pressão política e eleições 2026

Uma das principais pautas anunciadas na mobilização foi a ampliação no número de mulheres indígenas eleitas no pleito do próximo ano. Atualmente, o Congresso Nacional conta com apenas duas representantes da Bancada do Cocar: Célia Xakriabá e Juliana Cardoso.

“Nós iremos eleger dez deputadas federais para enfrentar a bancada que mais tem atacado o direito dos povos indígenas. Vamos aldear a política e replantar nossas vozes”, bradou Célia Xakriabá, durante sessão solene no plenário.

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Carta produzida por mais de cinco mil mulheres indígenas é entregue ao governo
Foto: André Corrêa/MPI

Carta final

A leitura da carta final da IV Marcha das Mulheres Indígenas, “Carta dos Corpos-Territórios em Defesa da Vida”, aconteceu na noite da quinta-feira, e contou com uma apresentação da rapper MC Anarandá, do povo Guarani Kaiowá e um desfile ancestral. “Somos guardiãs do planeta pela cura da terra. Nosso corpo é território. É terra, é água, é semente. E pela força do que somos, vamos transformar o mundo. Estamos em Marcha e caminharemos sempre pelo bem-viver”, afirma o documento.

Leia a carta na íntegra aqui.

Conferência histórica e a construção coletiva de políticas públicas

A IV Marcha também foi palco da 1ª Conferência Nacional das Mulheres Indígenas. Realizada entre os dias 4 e 6 de agosto, a Conferência é fruto de uma parceria da Anmiga com os Ministérios dos Povos Indígenas e das Mulheres e integrou a programação da semana.

“Essa conferência nos deu a oportunidade de colocar na mesa do governo federal as propostas prioritárias nos eixos de saúde, educação, emergência climática, defesa dos nossos corpos e gestão ambiental e territorial”, avaliou Joziléia Kaingang.

Ao longo do evento, grupos de trabalho se debruçaram em discussões acerca de cinco eixos temáticos: Direito e Gestão Territorial; Emergência Climática; Políticas Públicas e Violência de Gênero; Saúde; e Educação e a Transmissão de Saberes Ancestrais para o Bem Viver.

Ao fim das discussões, foram priorizadas 49 propostas que integraram o Caderno de Resoluções da Conferência, entregue às ministras Sonia Guajajara e Márcia Lopes em cerimônia de encerramento. O Caderno intitulado “Carta Pela Vida e Pelos Corpos-Territórios: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!”, foi resultado de um processo iniciado nas sete etapas regionais e concluído na Conferência.

Leia o documento completo aqui.

Na cerimônia de encerramento, foi anunciada a assinatura de uma portaria que instaura um Grupo de Trabalho responsável por consolidar as propostas trazidas no Caderno de Resoluções a fim de estabelecer a normativa da Política Nacional para Mulheres Indígenas (PNMI), também anunciada durante o evento. O GT recém instaurado terá caráter interministerial e colaborativo, reunindo diferentes atores como órgãos do governo, lideranças indígenas e representantes da sociedade civil.

A criação do Prêmio Nega Pataxó também foi oficializada na ocasião. Uma homenagem à pajé Maria de Fátima Muniz Andrade, conhecida como Nega Pataxó, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, o programa tem como objetivo o fortalecimento da autonomia, da participação política e da proteção integral das mulheres indígena.

Além disso, também foi anunciada a criação do Prêmio Mre Gavião, para comunicadores indígenas, em homenagem a Mre Gavião, fotógrafo e servidor do MPI que faleceu neste ano. Por fim, foi anunciada a reestruturação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) pela presidenta Joenia Wapichana, que se comprometeu a lutar por um orçamento digno para apoiar as necessidades específicas das mulheres indígenas.

Na cerimônia de encerramento da Conferência, também foram anunciadas as homologações de três Terras Indígenas no Ceará. São elas: A Terra Indígena Pitaguary, do povo Pitaguary; Lagoa Encantada, do povo Jenipapo-Kanindé; e Tremembé de Queimadas, do povo Tremembé. A assinatura das portarias aconteceu no Palácio do Planalto, na quarta-feira (06).

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, escrito por Mariana Soares

Colheita de soja 2025 tem previsão de ultrapassar mais de 430 mil toneladas em Roraima

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Abertura da colheita da soja. Foto: Reprodução/Governo de Roraima

As imensas colheitadeiras que cruzam o lavrado de Roraima mostram que começou uma das etapas mais importantes do ciclo da soja: a colheita do grão. Em Alto Alegre, na fazenda Ouro Verde, o agricultor Jorge Fukuda acompanha de perto o início dos trabalhos. Paranaense e filho de agricultores, herdou da família o gosto pelo campo.

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Ao chegar a Roraima, encontrou clima favorável para investir no cultivo de grãos. “Queria ampliar a produção e achei que Roraima era um bom lugar. Quero deixar tudo isso para meus filhos e netos porque eu penso na sucessão familiar”, afirmou.

Em Roraima, o ciclo da soja ocorre de abril a outubro: do plantio à colheita, período que coincide com a entressafra do restante do Brasil, que é o intervalo em que as lavouras de outras regiões estão fora de produção, o que torna a produção roraimense estratégica.

Na safra 2025, Fukuda plantou mais de três mil hectares de soja entre abril e maio. Agora, com a produção amadurecida, ele diz que alcançou uma boa produtividade.

Leia também: Produtores usam fungos e bactérias para combater pragas e doenças em lavouras de soja em Roraima

“Nós fizemos investimento em tecnologia e manejo. Pelo que estamos observando, a safra tem apresentado bons números”, conta.

O cenário otimista não é apenas na propriedade dele. Segundo a Associação dos Produtores de Soja de Roraima (Aprosoja), o estado deve colher, até outubro, cerca de 430 mil toneladas do grão com média de produtividade de 55 sacas por hectare. A área plantada chegou a 132 mil hectares. A movimentação econômica estimada ultrapassa R$ 900 milhões.

colheita de soja
Abertura da colheita de soja. Foto: Reprodução/ Governo de Roraima

Colheita de 2025 representa avanço

Para o presidente da Aprosoja, Murilo Ferrari, o avanço é resultado de investimentos em tecnologia, mecanização e boas práticas agrícolas. Ele destaca que produtores vêm adotando técnicas mais sustentáveis, como rotação de culturas e uso de produtos biológicos para combate a pragas e doenças.

“A produção agrícola depende de um solo saudável e bem cuidado, por isso, nós temos trabalhado bastante essa questão da manutenção do solo. Isso vai garantir a produtividade a longo prazo também”, pontuou.

Leia também: Roraima celebra colheita recorde de grãos com evento em Alto Alegre

A cadeia produtiva da soja é considerada atualmente uma das mais importantes da economia roraimense. Conforme a Aprosoja, além de garantir renda para os agricultores, gera empregos diretos e indiretos, desde a preparação do solo até o transporte e o processamento industrial. Atualmente, o grão é cultivado em 10 dos 15 municípios do estado e ocupa o primeiro lugar nas exportações.

Mas nem tudo são facilidades. Questões como logística, custos de produção e transporte e infraestrutura ainda geram desafios à produção.

Apesar disso, os agricultores dizem que Roraima tem espaço para crescimento e vão seguir apostando no grão. “A crise tá aí e os desafios existem! Mas, o agricultor não desiste fácil. O agricultor é trabalhador e resiliente para seguir em frente”, destacou Jorge Fukuda.

Oficialmente, a colheita da soja iniciou no dia 9 de agosto em Roraima. No entanto, desde julho alguns produtores começaram a colher o grão.

*Por Raquel Maia, da Rede Amazônica RR

Ensinar para transformar: educação e desenvolvimento sustentável na Amazônia

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Foto: Reprodução

Por Olímpio Guarany

A Amazônia vive um tempo decisivo. As mudanças climáticas avançam com intensidade, impactando comunidades, florestas e rios. Ao mesmo tempo, cresce no mundo a expectativa de que a região lidere soluções de sustentabilidade, especialmente no caminho para a COP 30, que será realizada em Belém. Mas como preparar a Amazônia para enfrentar esse desafio civilizatório? A resposta passa, inevitavelmente, pela educação.

Educar, na Amazônia, não é apenas transmitir conhecimento. É abrir caminhos para que jovens, professores e comunidades compreendam a realidade que os cerca e sejam capazes de transformá-la. É nesse ponto que a educação se revela como pilar do desenvolvimento sustentável: sem ela, não haverá conservação da floresta, nem alternativas econômicas duradouras, nem justiça social.

A reitora da UNAMA, professora Betânia Fidalgo, em entrevista ao nosso programa Amazônia em Pauta, lembra que a educação tem papel central na formação de cidadãos críticos e conscientes. As universidades da Amazônia não formam apenas profissionais: formam líderes, articuladores sociais e agentes de mudança. Ao articular ciência, tecnologia e cultura local, a educação superior pode potencializar vocações da bioeconomia, desenvolver inovação a partir da biodiversidade e preparar quadros para enfrentar os dilemas da transição ecológica.

Mas a educação que transforma não está apenas nas universidades. No Amapá, o professor Ivan Rubens coordena o projeto “Educação para Resiliência às Mudanças Climáticas em Escolas Rurais na Amazônia Brasileira”. Ali, escolas do campo e agroextrativistas se tornam espaços de escuta, experimentação e protagonismo juvenil. Jovens de comunidades tradicionais compartilham vivências, refletem sobre as mudanças no clima e propõem soluções para o futuro de seus territórios. É a prática concreta de que a educação pode ser também resistência e inovação social.

O que une essas experiências é uma visão de futuro: só haverá Amazônia viva se houver Amazônia educada. A floresta precisa de guardiões preparados, capazes de dialogar com o conhecimento científico sem abrir mão dos saberes tradicionais. A sociedade precisa de políticas públicas que garantam acesso universal à educação de qualidade, conectada à realidade dos povos e ao desafio global da sustentabilidade.

Educar, portanto, é plantar esperança. É dar às novas gerações não apenas instrumentos técnicos, mas também consciência ética e compromisso coletivo. Ensinar para transformar é a única forma de assegurar que a Amazônia continue sendo, ao mesmo tempo, lar de povos diversos e patrimônio vital para o planeta.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). Atualmente é apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Turismo sustentável é incentivado nas margens do Arapiuns, em Santarém

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Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

A Prefeitura de Santarém (PA), por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), promoveu ações de qualificação em comunidades da região do Rio Arapiuns entre os dias 21 e 31 de julho. Os moradores de São Marcos e Tucumã participaram de cursos voltados ao turismo de base comunitária e à culinária regional.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

As formações tiveram como objetivo fortalecer a autonomia local, valorizar os saberes tradicionais e preparar os comunitários para receber visitantes de forma consciente e sustentável.

turismo de base comunitária em arapiuns
Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Em São Marcos, os cursos voltados ocorreram de 21 a 25 de julho, nos turnos da manhã e da tarde. Ediane Lavor conduziu os encontros, enquanto o chef Alcimar Feitosa ministrou as aulas de culinária regional. A programação também contou com a participação de moradores das comunidades vizinhas de São Miguel, Vila Brasil e Vila Coroca.

“As comunidades estão buscando independência e valorizando seus saberes. O turismo sustentável permite que elas sejam protagonistas da própria história, trabalhando em parceria e fortalecendo sua identidade cultural”, destacou Ediane.

De 28 a 31 de julho, foi a vez de Tucumã sediar os cursos, também com turmas nos dois turnos. As aulas foram conduzidas por Soraya Amaral, e as de culinária regional, pelo chef Nixon Ferreira. Participaram comunitários de Tucumã, São Miguel e Nova Sociedade, totalizando cerca de 30 alunos.

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“Foi como um renascimento da culinária ancestral. As pessoas começaram a reconhecer o valor dos ingredientes que já existiam no território, como ervas e frutas, e aprenderam a utilizá-los de forma criativa e contemporânea, sem abrir mão de suas raízes”, explicou Nixon.

Soraya reforçou que capacitar as comunidades ribeirinhas é também uma forma de proteger seus modos de vida e fortalecer vínculos.

“Preparar essas populações para o turismo é valorizar seus saberes, recursos naturais e modos de viver. É promover intercâmbios culturais em que o turista aprende com o ribeirinho e vice-versa. Isso gera pertencimento, autoestima e desenvolvimento sustentável”, destacou.

Foto: Reprodução/Prefeitura de Santarém

Turismo com olhar nacional

Durante a formação em Tucumã, também foi trabalhada a campanha nacional “Turismo que Protege”, iniciativa do Ministério do Turismo de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. A ação orientou os participantes sobre como identificar e agir diante de situações de risco.

“Com o turismo vem o desenvolvimento, mas também maiores responsabilidades. As comunidades precisam estar preparadas para proteger suas crianças e adolescentes e se tornarem multiplicadoras dessa consciência”, completou Soraya.

O ministro Celso Sabino tem sido um importante incentivador. “O que tem motivado ainda mais a gestão municipal de turismo em Santarém,” pontua o Secretario Municipal de Turismo de Santarém, Emanuel Júlio Leite.

As capacitações integram a primeira etapa do programa da Semtur que busca transformar comunidades ribeirinhas em referências na região.

Segundo o titular da pasta, Emanuel Júlio Leite, o programa de capacitação e fomento é construído a partir do diálogo com os moradores.

“Primeiro ouvimos a comunidade e identificamos suas potencialidades. Depois, oferecemos formações alinhadas à realidade local. O mais importante é ver que as comunidades querem fazer acontecer e isso mostra que o turismo responsável tem um futuro promissor na região”, disse.

*Com informações da Prefeitura de Santarém

Nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental compromete autonomia municipal, alerta CNM

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Foto: Adriano Gambarini/MMA

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) avalia que a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025), sancionada, no dia 8 de agosto deste ano, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, compromete a autonomia das prefeituras na gestão ambiental.

Leia também: Lula sanciona lei do licenciamento ambiental com 63 vetos

O principal ponto de crítica é o veto que impede estados e municípios de definirem seus próprios padrões e critérios para o licenciamento, medida que, segundo a entidade, enfraquece a capacidade de adaptação às realidades locais e pode atrasar decisões para o desenvolvimento e a preservação.

“Os vetos presidenciais ainda serão avaliados pelo Congresso Nacional, podendo ser mantidos ou revertidos. No entanto, o atual texto já aponta para um enfraquecimento da autonomia municipal na gestão ambiental, o que preocupa gestores e especialistas da área”, afirma a CNM.

Para a confederação, a nova lei inclui um ponto sensível para a gestão ambiental municipal. Ela avalia que o artigo 17 elimina a exigência de apresentação da certidão de uso, parcelamento e ocupação do solo urbano nos processos de licenciamento ambiental. “Essa medida resulta na exclusão da consulta dos municípios em decisões de licenciamento sob responsabilidade de órgãos estaduais e federais”, ressalta

A CNM destaca que a alteração enfraquece o papel das prefeituras no ordenamento do território, contrariando o artigo 30 da Constituição Federal, que atribui aos municípios a competência de promover o adequado ordenamento territorial por meio do planejamento e controle do uso, parcelamento e ocupação do solo urbano.

Lei Geral de Licenciamento Ambiental  afeta florestas nacionais
Foto: Reprodução/TV Brasil

Leia também: Instituições ambientais reagem à aprovação do PL do Licenciamento Ambiental

Alterações da Lei

Segundo a entidade, ao reduzir a participação dos municípios, aumenta-se o risco de decisões desalinhadas aos interesses locais e que possam afetar a qualidade de vida da população.

O texto sancionado, originado do PL 2.159/21, foi aprovado com 63 vetos. O governo justificou as alterações como forma de equilibrar celeridade, segurança jurídica e proteção ao meio ambiente. Entre os principais vetos estão a limitação da Licença por Adesão e Compromisso (LAC) a atividades de baixo potencial poluidor, a manutenção de proteção reforçada à Mata Atlântica e a exigência de consulta a povos indígenas e quilombolas, mesmo sem terras homologadas.

O Executivo também assinou a Medida Provisória 1.308/25, que institui a Licença Ambiental Especial (LAE) para empreendimentos estratégicos, com prazos definidos e equipes dedicadas, e enviará ao Congresso um projeto de lei em regime de urgência para regulamentar pontos não contemplados pela sanção.

*Com informações do Brasil 61

Expedições às Serras Guerreiras de Tapuruquara unem turismo e vivências na Amazônia indígena

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Expedições começam com o início do verão. Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA

Quando as chuvas intensas no noroeste da Amazônia começam a diminuir, é sinal que o verão vem logo ali. As águas do Rio Negro começam a baixar e a paisagem passa a ganhar um contorno branco das praias de areia fina em contraste com as águas escuras e o verde intenso das árvores.

É chegada a hora da temporada de expedições do projeto de turismo de base comunitária Serras Guerreiras de Tapuruquara, que proporciona aos visitantes uma imersão no território, cultura e saberes dos povos indígenas do Rio Negro.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

Serras Guerreiras de Tapuruquara: terras sagradas

As Serras Guerreiras de Tapuruquara — Iwitera Maramuywera Tapuruquara Suiwara, na língua geral Nheengatu — são sagradas para os povos indígenas da região. Contam os antigos que elas eram um grupo de guerreiros que desceu da Colômbia para travar uma batalha contra a serra localizada do outro lado do rio. Amanheceu o dia, os guerreiros viraram pedra e ali estão até hoje.

Elas estão localizadas nas Terras Indígenas Médio Rio Negro I e Médio Rio Negro II, no município de Santa Isabel do Rio Negro (AM). Uma área estratégica, onde parte do território se sobrepõe ao Parque Nacional do Pico da Neblina.

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Expedições às Serras Guerreiras de Tapuruquara
Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA

Desde a primeira expedição, em 2017, o projeto vem contribuindo para a geração de renda e autonomia de mais de 200 famílias e para o fortalecimento da organização coletiva frente às ameaças que cercam o território, como a mineração, a pesca predatória, o desmatamento e outras atividades ilegais.

Nas expedições, os visitantes são conduzidos por guias indígenas em dois roteiros imersivos desenvolvidos por eles mesmos: o Maniaka e Iwitera. Ambas oferecem experiências de vivência cultural, como festas, danças e rituais, além do contato com saberes tradicionais e paisagens naturais da floresta amazônica.

A diferença entre eles é que um, o Iwitera, é mais focado no ecoturismo, com maior intensidade de trilhas na floresta, remadas nos rios e igapós e incursão às serra sagradas. Já o Maniaka proporciona uma imersão no etnoturismo, com uma vivência mais intensa no dia a dia das comunidades e seus modos de vida, e que inclui visita ao sistema agrícola tradicional, contação de histórias com os sabedores mais velhos e a experimentação da produção de artesanatos tradicionais, como cerâmica e cestarias.

Expedições

As expedições partem de Manaus e os pacotes incluem transporte de barco até as comunidades, alimentação e todas as atividades previstas nos roteiros. Para saber mais sobre cada um deles, acesse o site do projeto: www.serrasdetapuruquara.org.br.

As vagas são limitadas e, para garantir a sua, entre em contato com a Poranduba, operadora parceira do projeto.

Próximas datas:

2025

Roteiro Maniaka – 18 a 25 de outubro
Roteiro Iwitera – 15 a 22 de novembro (confirmado)

2026

Roteiro Iwitera – 24 de janeiro a 03 de fevereiro

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ISA

O que nos mantém felizes? O que dizem os estudos e a vida?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Uma pesquisa científica realizada recentemente com jovens da geração Y perguntou quais eram os seus objetivos mais importantes na vida. Oitenta por cento responderam que era ganhar dinheiro. Desse grupo, metade mencionou que um segundo objetivo era ficar famoso. Quem cita os dados é Robert Waldinger, em sua palestra no TED Talks. Ele é o quarto diretor do estudo mais longo já realizado sobre felicidade e desenvolvimento humano.

Realizado pela Universidade de Harvard, o estudo perdura por 75 anos e teve como propósito acompanhar 724 jovens de diferentes classes sociais, todos, à época, com 18 ou 20 anos. No momento, 60 destes homens, agora na faixa dos 90 e poucos anos, ainda vivem e, em determinado momento, suas esposas também se incorporaram ao estudo. Foram acompanhados a cada um ou dois anos, com entrevistas, questionários, vídeos e diferentes registros sobre cada fase da vida.

A maior parte teve momentos em que a resposta não foi diferente da geração Y. Dinheiro, fama e trabalho eram as prioridades. Lá pelos 50 anos, porém, já se percebia uma mudança nos valores, assim como apareciam sinais entre os que viveriam mais e que seriam mais felizes numa idade mais avançada, especialmente depois dos 80 anos. A conclusão para os pesquisadores é incontestável: vivem mais aqueles que nutrem relacionamentos próximos saudáveis. São os que sabem hoje que podem contar com a família, com amigos ou com o companheiro, mesmo que com pequenos conflitos aqui e ali.

Waldinger afirma convicto: bons relacionamentos nos mantêm mais felizes e saudáveis. Mesmo em momentos de dor, o humor é diferente das pessoas que estão sós. O cérebro se renova nos que se sentem amparados e se deteriora mais rápido para os que sentem solidão. Boas conexões sociais nos mantêm vivos. A solidão mata.

Não é à toa que relações saudáveis constituem uma das dimensões da felicidade, como demonstram os estudos de Martin Seligman, um dos pais da psicologia positiva. Elas são tão importantes quanto os momentos de prazer ou um propósito na vida, dentre outras dimensões da felicidade.

Constato isto de perto, com o casal Moreira e Lourdinha. Eles se tornaram meus sogros quando eu tinha mais de 50 anos, o que, para mim, era uma novidade. Quando me casei pela primeira vez, minha esposa já não tinha pais. Em compensação, eu me tornei sogro cedo, sendo pai de duas filhas. Acostumei-me ao papel. Viúvo, fui apresentado aos pais de quem viria a ser a minha segunda esposa, ou seja, meus sogros. Situação estranha para mim. Lembro que a primeira coisa que disse para eles foi que iria fazer a filha deles feliz. É o que todo pai quer que o genro faça, mesmo que ninguém possa garantir isto. Mas eu pensava com a cabeça de sogro.

Moramos hoje na mesma cidade e já posso desfrutar melhor deste papel e principalmente da companhia deles, um exemplo vivo do que os estudos de Harvard demoraram 75 anos até aqui para comprovar.

Ambos estão na faixa dos oitenta anos. Ela está aposentada há algum tempo, ao contrário dele que parou de trabalhar há apenas quatro ou cinco anos. Para quem trabalhou a vida inteira, desde cedo, poderia ser difícil se adaptar a uma rotina sem os compromissos, as diversões e, mesmo as ilusões, que o trabalho nos propicia, nos mantendo ocupados a maior parte do tempo.

Não foi o que aconteceu. Eles criaram um novo propósito, que é cuidar um do outro. Minha esposa se dedica a eles na maior do tempo, com espírito de amor e gratidão. Os outros dois irmãos estão sempre presentes, se deslocando de onde estiverem, sejam em datas festivas (que para eles são muitas), seja ao menor sinal de que eles necessitam de algo. Estão sempre recebendo em casa, netos, sobrinhos, irmãos e amigos de longa data. Fazem viagens em grupo e estão sempre buscando novos locais para conhecerem, seja o novo restaurante do bairro ou um lugar distante.

Dependendo do estágio de vida que estamos, pode fazer sentido ter como objetivo principal ganhar dinheiro, ser famoso ou ter sucesso profissional, mas é bom ter a visão do que realmente nos fará felizes, mais à frente na jornada. É o que dizem os estudos. É o que nos comprova a vida.

Penso que vale a reflexão: Como andam os nossos relacionamentos próximos?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Perdas de água crescem nas 100 maiores cidades do país, aponta Ranking do Saneamento 2025

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Rio Branco está dentre as cidades com perdas de água. Foto: Junior Andrade/Rede-Amazonica-AC

De acordo com o Ranking do Saneamento 2025, o indicador médio de perdas na distribuição nas 100 maiores cidades do país foi de 45,43% em 2023, o que representa uma piora significativa em relação aos 35,04% computados em 2022. Tal valor é superior à média nacional divulgada no SINISA (2023), que foi de 40,3%.

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Perdas de água crescem nas 100 maiores cidades do país
Macapá, Belém, Cuiabá e Rio Branco são as cidades da Amazônia Legal que estão no ranking de perdas de água. Foto: Tiago Correa – UGPE

Leia também: 5 das 7 capitais da Região Norte figuram nas últimas posições do Ranking do Saneamento 2025

Essas perdas, que são o volume de água que se perde no processo de abastecimento antes de chegar ao consumidor, ocorrem por diversos motivos, como vazamentos na rede, erros de medição ou consumos não autorizados. Tais desperdícios trazem impactos negativos ao meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas de saneamento, elevando o custo do sistema como um todo e prejudicando, em última instância, todos os usuários do serviço de abastecimento.

No Brasil, a definição de nível aceitável de perdas de água foi definida pela Portaria 490/2021, do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), que indica que para um município contar com níveis excelentes de perdas, deve ter no máximo 25% de perdas na distribuição.

Entre os 100 municípios considerados, 32 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 30%. Outros 26 municípios perdem mais de 45% da água antes de chegar nas residências da população. Os pontos de máximo e mínimo correspondem, respectivamente aos municípios de Maceió (AL), com 71,73%, e Suzano (SP), com 0,88%.

Leia também: Manaus avança 15 posições no Ranking do Saneamento e é capital do Norte com mais investimentos no setor

Reduzir as perdas de água é, portanto, uma medida essencial para garantir que mais habitantes tenham acesso ao recurso hídrico, sem sobrecarregar as fontes naturais de abastecimento. Diante de um cenário de mudanças climáticas, onde os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes, a eficiência na gestão da água e o combate ao desperdício são indispensáveis para garantir a segurança hídrica.

*Com informações do Trata Brasil

Avenida Eduardo Ribeiro, a avenida que um dia foi o coração de Manaus

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Avenida Eduardo Ribeiro, esquina da Avenida Sete de Setembro. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

Ao discutir o urbanismo de Manaus, na última passagem do século, retoma-se mais uma vez a concepção de Haussmann, com seu modelo de cidade com largas avenidas, praças e a instalação de serviços de melhoramento urbanos que se difundiram nas cidades brasileiras comprometidas com a modernidade da última passagem do século.

Ao iniciar o período republicano, a cidade de Manaus não tinha grandes avenidas, a maior parte de suas ruas era acanhada e irregular. A rua municipal, atual Avenida Sete de Setembro, era uma das artérias mais importantes da capital, talvez a mais extensa, mas tinha vários inconvenientes: era muito estreita, ondulada e cortada por vários igarapés. Faltava-lhe a monumentalidade requisitada pelo modelo das modernas avenidas. Logo nos primeiros anos da administração do governador Eduardo Ribeiro, procurou-se dotar a cidade com nova feição e, nesse sentido, foram tomadas algumas providências para melhorar o trânsito e embelezar as vias públicas.

Assim, em 1892, foi autorizado o aterro de alguns igarapés, incluindo o Espirito Santo, que ocupava um espaço destacado no plano de embelezamento da cidade, planejado por Ribeiro, pois dependia dessa obra o prolongamento da rua Comendador Clementino, que na época da construção do palácio é citada com frequência nos relatos como Avenida do Palácio e, atualmente, denomina-se Avenida Eduardo Ribeiro. Uma das primeiras menções sobre o projeto da referida avenida foi feita pelo diretor de Obras Públicas, Armênio de Figueiredo, em junho de 1893, ao afirmar que a mesma teria trinta metros de largura e mil e sessenta de comprimento e se estendia entre a nova rampa e a fachada de novo palácio e, transformaria as péssimas condições de trânsito que mantinha (FIGUEIREDO, 1893, pág.: 10).

Avenida Eduardo Ribeiro, no Centro de Manaus. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Em junho do mesmo ano, o governador dava maiores dados sobre a obra ao comunicar a desapropriação de vários terrenos daquela rua, justificando que com esse ato estava transformando-a assim em uma avenida de um belo aspecto (RIBEIRO, 1893, pág.: 12). Em junho de 1894, o governador Eduardo Ribeiro, previa que as obras da Avenida do Palácio estariam concluídas até os dois últimos meses daquele ano (RIBEIRO, 1894, pág.: 30), no entanto, em 1 de março de 1896, o governador lamentava que o serviço de aterro do igarapé onde deveria prolongar-se a referida avenida não tinha progredido tanto quanto se esperava, contudo, esperava que dentro de noventa dias a obra estaria concluída (RIBEIRO, 1893, pág.: 24).

Apesar de todos os esforços empregados, é provável que essa obra não estivesse totalmente concluída até 1899, conforme uma fotografia de Arturo Luciane em um álbum editado naquele ano, pode ser que estivesse concluído o aterro do igarapé, mas a avenida mantinha-se em obras, seu calçamento em paralelepípedo iniciava a partir do encontro com a rua Municipal (atual Avenida Sete de Setembro) e aparentava regularidade até o topo da avenida, onde se erguia a construção do palácio. O aspecto da Avenida Eduardo Ribeiro era um tema frequente nos relatórios e mensagens governamentais, também dos jornais e da população.

Em 17 de fevereiro de 1900, o jornal ‘A Federação’ apresenta um texto sem assinatura, que discorria sobre o embelezamento da cidade e sugeria que adotassem na Avenida Eduardo Ribeiro uma adaptação do jardinamento da Avenida Liberdade em Lisboa, prevendo que com esse melhoramento, Manaus ficaria com a rua mais pitoresca e aprazível de todas as cidades do Brasil, considerando que seria um melhoramento de primeira ordem e que não existia em nenhuma das capitais da União. Ao finalizar a nota, afirmava-se que o assunto merecia um estudo especial. Sem dúvida naquela época, a avenida já apresentava um aspecto mais cuidado, levando o governador Ramalho Júnior a afirmar, em julho daquele ano, que era nossa mais luxuosa avenida (RAMALHO Júnior, 1900, pág.: 26).

No álbum do Amazonas, editado em 1902, publicou-se fotografias de Fidanza mostrando a Avenida Eduardo Ribeiro inteiramente concluída. O fotógrafo responsável pelo álbum afirmava que, apesar de ser recente a sua construção, já estava quase totalmente edificada e nela ficavam localizados os principais estabelecimentos da capital, com certeza os mais elegantes, tais como armazéns de moda e de exposição e vendas de objetos de arte, atelier de modistas e de alfaiates, inúmeros hotéis e restaurantes dos quais muitos eram espaçosos e montados com luxo verdadeiramente europeu.

Primeira bomba de gasolina instalada em Manaus, 1922. Foto do dia da inauguração no canteiro central da Avenida Eduardo Ribeiro com a Sete de Setembro. Fonte: Manaus Sorriso/Acervo Edlúcio Castro Alves

A importância assumida pela Avenida Eduardo Ribeiro é confirmada em 1904 pelos médicos paulistas Godinho e Lindenberg (1906, pág.: 66), os quais diziam ser essa a avenida o coração da cidade. Nas suas vizinhanças ficam os mais ricos estabelecimentos comerciais, as casas de moda, os armarinhos e as redações dos jornais. Afirmavam ainda que na cidade existia, em profusão, botequins e mercearias muito frequentados, notando, ainda, um hábito muito europeu das mesinhas dispostas nos passeios dos boulevards ou avenidas, nos trottoirs, como se diria em Paris.

Apesar de crise anunciada desde o início do século XX, em 1909, a aparência da cidade com sua efervescência parecia a mesma e o jornalista carioca Anibal Amorim (1917, pág.: 153-154) notava, também, que era na Avenida Eduardo Ribeiro que se encontrava instalada as principais casas comerciais e redações dos jornais. Destacando que, a noite, o movimento na avenida era enorme quando os passeios ficavam cobertos de mesas, onde serviam sorvetes e toda a sorte de bebidas que envenenam os organismos ainda não aclimatados naquela terra. O carioca impressionava-se com a intensa corrente de automóveis, carruagens descobertas e de tramways (bondes) elétricos pela grande artéria e afirmava ter-se a impressão de um notável centro de vida como todo o conforto e requinte de mundo contemporâneo.

Sem dúvida, a Avenida Eduardo Ribeiro atendia ao modelo de espaço público requisitado pela burguesia, onde o consumo e o lazer assumiam importantes papéis, e surpreendia ao viajante porque era como encontrar uma cópia fiel dos grandes centros civilizados em pleno coração da selva amazônica. Por muitas décadas, essa avenida manteve-se como a principal via da cidade, mesmo depois do advento da Zona Franca, com o crescimento acelerado da cidade e com a intensificação do trânsito, tornou-se proporcionalmente pequena.

Permanece como uma avenida comercial de grande importância para a cidade, mas, ultimamente foram lhe impostas algumas modificações em função da facilitação do trânsito de veículos, não havendo, todavia, maior preocupação com o seu embelezamento sua arborização encontra-se quase totalmente extinta e as fachadas de antigas construções camufladas por grandes placas de propagandas ou descaracterizadas por um verticalismo destituído de senso estético.

Praça do Relógio, no Centro de Manaus. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Amazônia ainda pode evitar colapso ecológico, diz estudo liderado pelo IPAM

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Estudo elaborado por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e de instituições nacionais e internacionais mostra que a recuperação de boa parte da Amazônia ainda é possível — desde que sejam adotadas medidas urgentes e coordenadas de conservação. A informação consta no artigo “Pontos de não retorno das florestas amazônicas: para além dos mitos e em direção a soluções”, publicado na revista científica Annual Review of Environment and Resources.

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Amazônia
Foto: Pedro Devani/Secom

No documento, os pesquisadores argumentam que ainda há grandes incertezas sobre o entendimento de um tipping point (ponto de não retorno, em português) único para todo o sistema amazônico. Segundo o estudo, há, na realidade, múltiplos riscos para colapsos ecológicos com diferentes características para diferentes regiões da Amazônia, que resultam de combinações de desmatamento, mudanças climáticas, perda de fauna e incêndios florestais. No entanto, a boa notícia é que vários desses riscos podem ser evitados com ações ambiciosas e imediatas.

“Embora as mudanças climáticas e os distúrbios locais já estejam provocando grandes transformações negativas na Amazônia, a falta de evidências de um colapso florestal iminente causado exclusivamente pelo clima (sem o fator fogo) também representa uma janela crucial de oportunidade. O destino da Amazônia não está predeterminado por um único ponto de não retorno — as escolhas, políticas e ações tomadas hoje podem direcionar a região para um futuro mais sustentável”, diz o artigo.

Segundo Paulo Brando, pesquisador do IPAM que liderou o estudo, a hipótese de um tipping point que pode levar a Amazônia a entrar em uma “espiral da morte” é importante para as políticas públicas e para a percepção do público. Porém, de acordo com o artigo, “enfatizar demais” a iminência do ponto de não retorno sem levar em consideração algumas das suas incertezas pode resultar em um sentimento de fatalismo, reduzindo possíveis respostas proativas.

parques nacionais
Foto: Reprodução/123 ecos

“Se o conceito de ponto de não retorno – associado aos efeitos amplificadores entre a floresta e o clima – pretende realmente orientar políticas e ações de conservação, ele precisa ser comunicado de forma a destacar os riscos e deixar claros os caminhos viáveis para a intervenção. As mensagens mais eficazes são as que equilibram a urgência das ameaças com a ênfase nas possibilidades de agir e implementar soluções”, afirma o documento.

“Efeito martelo”

Para além do conceito de tipping point climático, Brando afirma que há um outro tipo de hipótese relacionada ao potencial colapso da floresta que é ainda mais urgente: o chamado “efeito martelo”.

Sobrevoo no sul do Amazonas e no norte de Rondônia para monitorar o desmatamento e queimadas em julho de 2024. Foto: Greenpeace Brasil

“O ‘efeito martelo’ é como se a gente colocasse uma pressão tão grande nos ecossistemas que acaba resultando na perda de grande parte da biodiversidade e dos serviços dessas regiões mesmo sem um tipping point climático evidente. É uma pressão direta que está acontecendo agora, e não daqui décadas devido a um potencial colapso climático”, afirma.

Doutor em Ecologia Interdisciplinar e professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, Brando defende que o “efeito martelo” seja interrompido imediatamente para mantermos os serviços ecossistêmicos da Amazônia. O fenômeno é citado pelo artigo como sendo um dos principais motores para as perdas de ecossistema e fauna na floresta, sendo que os seus efeitos estão sendo sentidos agora em quase toda a Amazônia.

Para Brando, o artigo trouxe a mensagem positiva de que as florestas que estão sob a pressão do “efeito martelo” têm uma alta resiliência. “Se a gente remover essa imensa pressão causada pela fragmentação, defaunação, fogo, exploração madeireira, dentre outras, as florestas têm uma chance de sobreviver, principalmente, nas regiões mais conectadas e com o esforço de restauração”, declara.

Resiliência e medidas para reverter a perda da Amazônia

O artigo afirma que a resiliência da Amazônia ainda existe, embora esteja em declínio em algumas áreas. O estudo explica que a floresta segue tendo capacidade de regeneração, especialmente onde há continuidade de cobertura vegetal, diversidade de espécies e apoio das comunidades locais.

“Florestas inseridas em uma matriz com alta cobertura florestal podem recuperar rapidamente a biomassa e a riqueza de espécies arbóreas”, diz o texto.

Imagem aérea de desmatamento registrada durante sobrevoo no estado de Roraima em abril de 2021. Foto: Greenpeace

Na avaliação de Joice Ferreira, bióloga e pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a principal mensagem deixada pelo artigo é que eventuais tipping points não são o “ponto principal” no qual a sociedade e a comunidade científica deveriam focar. Ferreira afirma que, enquanto há incertezas sobre quando e onde pode ocorrer um ponto de não-retorno para a Amazônia, o estudo mostra que a atenção deve estar no que pode ser efeito para evitar essas alterações no clima — sejam elas abruptas ou graduais.

“Só existe uma certeza: temos que agir agora”, diz a pesquisadora. Ela acredita que, se a sociedade estiver mais bem informada sobre o que os riscos ambientais envolvendo a Amazônia podem representar para o futuro e para atividades essenciais para a economia brasileira — como a agricultura — , a população se engajaria mais em pautas envolvendo as mudanças climáticas.

Aproveitando a resiliência da floresta e a sua capacidade de regeneração, o artigo propõe um conjunto de estratégias imediatas para evitar danos irreversíveis para a região. Dentre eles, estão:

  • redução do desmatamento — a medida é citada pelo artigo como a “primeira linha de defesa” para evitar o colapso das florestas amazônicas;
  • restauração de paisagens;
  • manejo de incêndios florestais;
  • fortalecimento de políticas públicas; e
  • cooperação com povos indígenas e comunidades tradicionais para a conservação do bioma.

Ferreira explica que as medidas citadas são interligadas. Por exemplo, ao conservar as florestas e tornar as paisagens mais sustentáveis, através da restauração, a presença do fogo é naturalmente reduzida. Ela defende a criação de uma “cultura de proteção” por meio do aumento de governança e de melhorias no cenário das leis de proteção nacional como uma forma de incentivar uma sociobioeconomia, ou, como ela define, “uma economia que mantém a floresta de pé”.

Para Liana Anderson, pesquisadora do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) que também assina o estudo, a mensagem que fica é que é possível “remover” a pressão causada pelos seres humanos. Ela defende que essa ideia sugere um caminho seguro, que permitiria um desenvolvimento sustentável e uma melhora na qualidade de vida da floresta e, consequentemente, para a população mundial e para o setor produtivo do Brasil — que depende da existência da floresta.

“Independentemente de as mudanças ocorrerem de forma gradual ou abrupta, as soluções ambientais permanecem as mesmas: exigem intervenções que estabilizem o clima global, fortaleçam a governança ambiental, reduzam o aquecimento local por meio do controle do desmatamento e da restauração, e promovam o manejo do fogo. Essas estratégias já são bem conhecidas, mas implementá-las e mantê-las em larga escala continua sendo um grande desafio”, concluíram os autores, que destacaram a necessidade de um “compromisso político duradouro”, envolvendo os tomadores de decisão da Amazônia, a transformação da economia regional e liderança das comunidades locais.

*Com informações do IPAM.