Inseminação artificial em tempo fixo utiliza hormônios para sincronizar o ciclo reprodutivo das vacas. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RR
Uma produtora rural de Roraima encontrou na inseminação artificial em tempo fixo (IATF) uma alternativa para melhorar a qualidade genética do rebanho e aumentar a produtividade da fazenda. A técnica apresenta resultados positivos em uma propriedade localizada a 62 quilômetros de Boa Vista.
A inseminação artificial em tempo fixo utiliza hormônios para sincronizar o ciclo reprodutivo das vacas, permitindo que o produtor saiba exatamente o período em que os animais estarão prontos para a inseminação.
Com isso, não é necessário esperar ou identificar os sinais naturais do cio, o que facilita o manejo do rebanho, reduz falhas na reprodução e ajuda a organizar etapas como cruzamentos genéticos, previsão de partos e acompanhamento dos animais na fazenda.
Produtora investe em inseminação artificial em tempo fixo e amplia rebanho em Roraima. Foto: Divulgação
Inseminação artificial tem se mostrado eficaz
A fazenda Rancho Grande trabalha com pecuária desde 2016. A produtora Erôni Teles Bettanin passou a investir na IATF com uso de sêmen de touros europeus para acelerar o melhoramento genético do gado.
“Com esse método a gente tem o total controle entre uma gestação e outra, sem contar nas vantagens de poder ter mais bezerros em pouco tempo. Assim que a vaca tem o bezerro, a gente já faz o protocolo de inseminação pra próxima gestação”, conta a produtora.
Para aplicar a técnica na fazenda, há o acompanhamento com aplicação de medicamentos hormonais, seguindo um calendário definido conforme o tamanho do rebanho e a rotina da propriedade. Entre os benefícios apontados estão a melhora na reprodução das matrizes e a redução do tempo entre um parto e outro.
Com o investimento em tecnologia e manejo, a produtora afirma já perceber aumento da produtividade e melhora no desempenho dos animais.
“Comecei em 2016 com apenas 20 vacas. Depois aumentou para 80 e atualmente tenho mais de 1.200 vacas de raças de alto padrão genético. Não foi fácil, mas hoje colho os resultados de tudo isso”, explica.
Desde 2016, quando começou com 20 vacas, a produtora ampliou o rebanho para mais de 1,2 mil animais. Foto: Reprodução/Rede Amazônica RR
O veterinário Rafael Souza acompanha o processo na fazenda há quatro anos. Ele destaca a importância do acompanhamento profissional durante o protocolo. “É importante ressaltar que se deve usar medicamentos de forma correta”, alertou.
O melhoramento genético já pode ser observado na prática. Atualmente, a fazenda possui bezerros com idades entre dois e seis meses, resultado do uso de materiais genéticos das raças Nelore e Angus.
Durante o protocolo, os medicamentos estimulam um novo ciclo reprodutivo nas vacas e aumentam as chances de prenhez. O acompanhamento veterinário é considerado essencial para garantir que todo o processo aconteça no momento adequado. Cadastro de rebanhos é obrigatório em Roraima.
A abertura do 12º Festival Safra da Castanha Nova reuniu, no dia 17 de maio, cerca de 950 atletas indígenas na Aldeia Kupēkatê Kyikatejê, localizada na Terra Indígena Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins, no sudeste do Pará. Com apoio da Secretaria de Estado dos Povos Indígenas (Sepi), o encontro segue até o dia 23 de maio, e marca o início da colheita da castanha-do-pará, além de fortalecer o intercâmbio cultural entre diferentes etnias.
A programação de abertura contou com a entrada das delegações indígenas, apresentações de cânticos, danças tradicionais e pinturas corporais, além de pronunciamentos de lideranças indígenas, autoridades e representantes institucionais. O momento também foi marcado por homenagens a parentes falecidos, com um minuto de silêncio.
Festival Safra da Castanha Nova reúne cerca de 950 atletas indígenas no sudeste do Pará. Foto: Divulgação
A secretária interina da Sepi, Roseli Cavalcante, destacou o papel do festival na valorização das culturas indígenas e no fortalecimento das políticas públicas voltadas aos povos originários.
“Este festival é um espaço de valorização das culturas indígenas e de fortalecimento das identidades. A presença da Sepi reafirma o compromisso do Estado em apoiar os povos indígenas, ouvindo suas demandas e incentivando o diálogo e a construção de políticas públicas que respeitem os territórios e os modos de vida”, afirmou.
Integração entre etnias e fortalecimento cultural
O festival reúne delegações de pelo menos sete etnias de outros estados, como Maranhão e Mato Grosso do Sul, além de cerca de 500 atletas da própria Terra Indígena Mãe Maria. Povos como Canela, Gavião do Maranhão e Terena participam das atividades, reforçando o caráter interestadual do encontro.
Festival Safra da Castanha Nova reúne cerca de 950 atletas indígenas no sudeste do Pará. Foto: Divulgação
Segundo o secretário adjunto da Sepi, Wiratan Sompré, o evento representa um importante espaço de integração entre os povos indígenas do sul e sudeste paraense.
“Este é um dos maiores momentos de integração dos povos indígenas do sul e sudeste do Pará. Além da celebração da colheita da castanha, o festival fortalece a cultura por meio da troca de saberes, cantos, tradições e da participação nos esportes tradicionais. Também é um espaço que movimenta a economia local, com artesãos expondo seus produtos em um evento aberto ao público”, destacou.
A estrutura do festival inclui praça de alimentação aberta aos visitantes, área de acampamento e um refeitório que serve mais de 600 refeições por dia.
As competições começaram na segunda-feira dia 18 de maio, em uma arena de terra preparada especialmente para os jogos tradicionais indígenas. Entre as modalidades disputadas estão corrida de tora, arco e flecha, cabo de força e arremesso de lança, práticas que unem esporte, ancestralidade e tradição cultural.
Festival Safra da Castanha Nova reúne cerca de 950 atletas indígenas no sudeste do Pará. Foto: Divulgação
A cofundadora da Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) e uma das organizadoras do Festival Safra da Castanha Nova, Concita Sompré, ressaltou o significado histórico e cultural do encontro.
“A safra da castanha celebra não apenas a colheita, mas também a resistência do povo. Este território já foi um dos maiores produtores de castanha e sofreu impactos de grandes empreendimentos. Hoje, o festival representa uma colheita de boas relações, de intercâmbio entre os povos e de fortalecimento da identidade cultural”, afirmou.
Programação cultural
A programação cultural também integra as atividades do festival, com apresentações da aparelhagem Tupinambá, do grupo Caferana e da cantora Keila, vocalista da Gangue do Eletro. A abertura contou ainda com apresentação do DJ Erik Terena.
A Polícia Civil de Roraima (PCRR) realizou visita técnica ao Complexo Barreira, localizado na região de Caracaraí, para acompanhar de perto as atividades de pesquisa mineral em uma das áreas com maior concentração de terras raras do Brasil.
Com mais de 36 hectares devidamente licenciados pelo órgão ambiental estadual, a área reúne 16 elementos de terras raras, minerais de alta complexidade de extração e considerados estratégicos para diversas cadeias produtivas e tecnológicas no cenário mundial.
A delegada-geral da Polícia Civil, Simone Arruda, participou da agenda acompanhada pela delegada titular da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Administração Pública (DRCAP), Ana Paula Lima; pelo delegado da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Julio Cesar da Rocha; além de uma equipe técnica formada pelos peritos Érica Veras, bióloga, especialista e mestre em Recursos Naturais e doutora em ciências ambientais; Teodoro Gauzzi, perito papiloscopista e doutor em Geologia; João Euclides, engenheiro agrônomo; bem como professores e acadêmicos da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
A visita teve como objetivo ampliar o conhecimento técnico sobre as trincheiras de pesquisa, os processos minerários, as metodologias de campo e os aspectos legais que envolvem a exploração mineral, permitindo à Polícia Civil compreender melhor a dinâmica da atividade e atuar de forma estratégica na prevenção e repressão de possíveis ilícitos em uma região de grande relevância para o desenvolvimento econômico de Roraima.
Segundo a delegada-geral Simone Arruda, a presença da instituição na área demonstra o compromisso da Polícia Civil com a fiscalização, a legalidade e a proteção dos recursos naturais do estado.
“Quando falamos em uma descoberta mineral de grande impacto econômico, como a das terras raras, também precisamos falar sobre responsabilidade, legalidade e segurança pública. Uma movimentação econômica dessa magnitude pode gerar disputas fundiárias, grilagem, ameaças, fraudes documentais a atuação de organizações criminosas interessadas na exploração ilegal dessas áreas”, destacou.
Simone Arruda ressaltou ainda que acompanhar de perto projetos estratégicos é essencial para que a Polícia Civil compreenda antecipadamente os desafios que podem surgir, contribuindo para a segurança da população e para a proteção do patrimônio público e ambiental.
“Nosso papel é estar atentos desde o início, compreendendo o cenário, prevenindo conflitos e garantindo que o desenvolvimento aconteça dentro da legalidade, com segurança para a população e proteção para o patrimônio do estado”, observou.
O chá de canela é bom para a digestão, enquanto o chá de cipó-alho funciona para melhorar sintomas gripais. Mas você sabia que, além de servirem à medicina tradicional, os óleos essenciais dessas plantas podem ter usos mais elaborados? A estudante de Biomedicina no Pará, Viviane Ribeiro Santos é responsável por uma pesquisa que investiga a utilização de óleos essenciais de cipó-alho e canela para tratar células cancerígenas no organismo humano.
O estudo buscou compreender se compostos naturais podem ajudar no combate ao câncer de forma mais seletiva, ou seja, atacando principalmente as células tumorais e preservando as células saudáveis. Esse é um dos grandes desafios dos tratamentos oncológicos atuais.
Segundo Viviane, a escolha por esse óleos se deu a partir do trabalho contínuo do Núcleo de Pesquisas em Oncologia com produtos naturais.
“Nosso laboratório recebe vários óleos essenciais por meio de colaborações. A gente faz uma triagem inicial e avalia quais apresentam resultados interessantes. A canela e o cipó-alho chamaram atenção logo nos primeiros testes”, explicou.
Além dos resultados preliminares, a orientadora da pesquisa, professora Ingryd Nayara de Farias Ramos, reforça que o uso popular dessas plantas também pesou na decisão.
“São produtos muito presentes no dia a dia da população, usados em chás, remédios caseiros e na medicina tradicional. A ideia é justamente verificar se esse uso empírico tem base científica”, complementou a docente.
Apesar de ainda estar em uma fase inicial, a pesquisa dialoga diretamente com um problema concreto: os efeitos colaterais dos tratamentos contra o câncer. A quimioterapia, por exemplo, não diferencia células tumorais de células saudáveis, o que causa diversos efeitos danosos aos pacientes.
“A principal lacuna dos tratamentos atuais é a falta de seletividade”, explicou Ingryd. “Eles funcionam, mas afetam todo o organismo. O que buscamos são moléculas que consigam agir mais especificamente nas células do câncer”, afirmou.
A pesquisadora reforça que os óleos essenciais podem, futuramente, ser incluídos como parte de terapias combinadas. “Se uma substância natural ajudar na redução da dose de um quimioterápico, por exemplo, já é um grande avanço para o paciente”, comentou Viviane.
Método simples e acessível com recorte regional
A pesquisa foi realizada totalmente em laboratório, por meio de testes in vitro, utilizando diferentes linhagens de células cancerígenas, como do câncer gástrico, melanoma e do câncer pulmonar. Também foi utilizada uma linhagem de células não tumorais, etapa fundamental para avaliar se os óleos são seletivos celulares.
Para medir a viabilidade celular, os pesquisadores utilizaram o ensaio de MTT, um teste bastante comum em pesquisas desse tipo. “É um método simples e acessível. As células metabolicamente ativas transformam o reagente em uma substância roxa. Quanto mais roxa a placa fica, mais células viáveis ainda existem”, explica a estudante.
Além disso, foi analisado como essas células morrem após o tratamento com os óleos. Para isso, se utilizou a citometria de fluxo, técnica que permite a identificação de células com precisão para, assim, distinguir o padrão de morte celular gerado pelos óleos.
A escolha das linhagens celulares a serem analisadas também teve um recorte regional. “A gente trabalha com câncer gástrico porque ele tem alta incidência aqui na região Norte. Inclusive, algumas linhagens que usamos foram estabelecidas a partir de tumores de pacientes da própria região”, destaca a orientadora da pesquisa.
Os resultados mostraram que o óleo essencial de canela teve um efeito interessante sobre as células de câncer gástrico. “A linhagem celular tumoral foi cerca de cinco vezes mais sensível ao óleo do que a linhagem não tumoral, o que indica um bom nível de seletividade deste ativo”, afirmou Viviane.
Já o óleo essencial de cipó-alho apresentou um efeito ainda mais amplo, reduzindo significativamente a viabilidade de várias linhagens cancerígenas. Em alguns casos, a redução aconteceu já nas menores concentrações testadas. “Isso indica que o óleo tem um potencial citotóxico forte contra células tumorais”, explica a pesquisadora.
Um dos pontos que mais chamou atenção na análise foi o tipo de morte celular observado experimentalmente. “Os trabalhos com produtos naturais normalmente indicam padrão de morte por apoptose (mecanismo biológico que resulta na morte controlada das células), porém, nos nossos estudos, achamos predominantemente necrose (forma patológica de morte celular)”, relatou a professora Ingryd.
Segundo a orientadora, esse resultado gerou novas perguntas dentro da pesquisa. “O teste que usamos não diferencia necrose de necroptose, que é uma forma de necrose programada. Então levantamos a hipótese de que esteja ocorrendo necroptose, que é uma via importante para contornar a resistência das células tumorais”, explicou a professora.
Apesar dos bons resultados já alcançados, as pesquisadoras reforçam que o estudo ainda está em fase inicial. “É uma pesquisa de base. Antes de pensar em qualquer aplicação clínica, a gente precisa entender melhor os mecanismos moleculares envolvidos”, afirmou Viviane.
Os próximos passos dos estudos incluem análises de biologia molecular para identificar quais genes e vias celulares estão sendo ativados, além de testes mais complexos, como culturas 3D e, futuramente, estudos in vivo. “É um caminho longo a ser percorrido, mas essencial para garantir a segurança e a eficácia do método”, destaca a orientadora.
Para a professora Ingryd, a pesquisa também evidencia o potencial da biodiversidade amazônica. “A nossa região é extremamente rica em compostos naturais. Estudar essas moléculas é uma forma de transformar a biodiversidade em conhecimento científico e, quem sabe, em soluções futuras para a saúde”, concluiu.
Sobre a pesquisa de óleos essenciais
A pesquisa intitulada “Avaliação do efeito de óleos essenciais em linhagens neoplásicas in vitro”, – premiada no XXXVI Seminário de Iniciação Científica da UFPA – foi desenvolvida por Viviane Ribeiro Santos, sob orientação da professora Ingryd Nayara de Farias Ramos, atuante no Laboratório de Citogenética Humana (UFPA) e no Núcleo de Pesquisas em Oncologia (NPO), do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB).
Sobre a pesquisadora
Viviane Ribeiro Santos, 22 anos, se interessou por pesquisa ainda como caloura de Biomedicina. Ela pretende seguir na carreira acadêmica, em cursos de mestrado e doutorado. No seu tempo livre, a jovem gosta de ler, assistir filmes e fazer crochê. Sua dica para quem deseja ingressar na área é: “Correr atrás da vontade mesmo com medo de tentar coisas novas. As recompensas são lindas”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Luiza Amâncio
Durante pandemia, Brasil já registrou 191 mil mortes por covid-19 em 2020. Foto: Alex Pazuello/Semcom Manaus
Uma análise do Estudo Carga Global de Doenças, publicada na revista científica The Lancet, apontou que a expectativa de vida no Amazonas caiu 5,84 anos durante a pandemia de covid-19. A queda representa a segunda maior redução do país, atrás apenas de Rondônia, com redução de 6,01 anos.
O estudo mostra ainda que os três estados mais afetados do país ficam na Região Norte: além de Rondônia e Amazonas, Roraima registrou queda de 5,67 anos na expectativa de vida. De acordo com os pesquisadores, a mortalidade no Brasil aumentou 27,6% durante a pandemia, o que levou a uma redução média de 3,4 anos na expectativa de vida da população brasileira.
Para os autores do levantamento, o cenário foi agravado pela condução do governo federal na época, durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“As autoridades enfraqueceram as orientações científicas – rejeitando o distanciamento social, disseminando desinformação, promovendo medicamentos sem eficácia comprovada, atrasando a aquisição de vacinas, sob a justificativa de isso protegeria o país de um colapso econômico”, diz o trecho do estudo.
Cemitério do Tarumã recebia enterros em valas coletivas. Dezenas de covas tiveram de ser abertas para atender a demanda provocada pelas mortes na pandemia. Imagem de abril de 2020. Foto: Alex Pazuello/Semcom Manaus
Números e impactos da pandemia
O estudo avalia o impacto de doenças e fatores de risco em mais de 200 países e aponta diferenças significativas entre os estados brasileiros. Enquanto a Região Norte concentrou as maiores perdas, estados do Nordeste tiveram os menores recuos na expectativa de vida: Maranhão com 1,86 anos; Alagoas com 2,01; e Rio Grande do Norte com 2,11 anos.
Segundo os pesquisadores, a diferença está relacionada às medidas adotadas pelos governos estaduais durante a crise sanitária. “Na ausência de coordenação nacional, os governos estaduais do Nordeste formaram um consórcio com um comitê científico independente que implementou estratégias”.
O documento cita ações como distanciamento social, fechamento de escolas e comércios, obrigatoriedade do uso de máscaras, proteção a trabalhadores e monitoramento de dados em tempo real.
Os pesquisadores também afirmam que o impacto da pandemia poderia ter sido menor no país caso houvesse coordenação nacional alinhada às recomendações científicas.
O levantamento mostra ainda que o Brasil teve desempenho pior do que outros países do Mercosul, como Argentina e Uruguai, além de integrantes do Brics, como China e Índia.
“Um país com histórico bem-sucedido de cobertura vacinal como o Brasil ficou atrás na vacinação contra a COVID-19 devido à falta de organização, à demora na aquisição de vacinas e ao foco em medicamentos para ‘tratamento precoce’ sem evidências científicas de benefício”.
Avanços
Apesar do impacto da pandemia, o estudo aponta melhora nos indicadores de saúde brasileiros nas últimas décadas. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida no país aumentou 7,18 anos. No mesmo período, a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%, enquanto o índice que mede anos saudáveis perdidos por morte ou doença teve redução de 29,5%.
Os pesquisadores relacionam os avanços a melhorias no saneamento básico, crescimento econômico e expansão de políticas públicas de saúde, como o Sistema Único de Saúde e o Programa Saúde da Família.
O levantamento também mostra que quase todas as principais causas de morte tiveram redução nas últimas décadas. As exceções foram Alzheimer e outras demências, com aumento de 1%, e doença renal crônica, que cresceu 9,6% entre 1990 e 2023.
Em 2023, a principal causa de morte no Brasil foi a doença isquêmica do coração, seguida pelo AVC e pelas infecções do trato respiratório inferior. Já a principal causa de mortes prematuras foi a violência interpessoal.
*Com informações da Rede Amazônica AM e da Agência Brasil
Inspeção na Resex Jaci-Paraná. Foto: Grupo REC/CPT Rondônia
Durante a última semana, uma equipe do Supremo Tribunal Federal (STF) esteve na Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná, em Rondônia, realizando uma inspeção judicial. A vistoria faz parte de uma ação que discute a constitucionalidade de uma lei estadual criada para regularizar ocupações irregulares dentro da reserva e “perdoar” multas aplicadas por crimes ambientais.
A Reserva Extrativista Jaci-Paraná é uma unidade de uso sustentável, com quase 200 mil hectares, administrada pelo governo de Rondônia. A ocupação da área é permitida, mas com restrições: apenas populações tradicionais podem morar no local, desde que respeitem o plano de manejo da unidade.
A lei em questão foi aprovada pela Assembleia Legislativa de Rondônia (ALE-RO). O texto chegou a ser vetado pelo governador Coronel Marcos Rocha, mas os deputados estaduais derrubaram o veto e mantiveram a medida, que entrou em vigor no fim de abril de 2025.
Inspeção do STF na Resex Jaci-Paraná. Foto: Reprodução/TJ-RO
Em maio de 2025, o Partido Verde (PV) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a norma, alegando que ela representa um grave retrocesso ambiental. Segundo o partido, ao retirar consequências legais de crimes ambientais sob a justificativa de anuência do Estado, a lei acaba incentivando a impunidade e a continuidade das irregularidades na reserva.
Foi a própria ALE-RO que pediu a realização da inspeção judicial durante o andamento da ação. A Assembleia argumenta que as ocupações na área não seriam invasões clandestinas, mas resultado de um processo histórico tolerado e incentivado pelo próprio Estado.
A equipe responsável pela inspeção é formada pela juíza instrutora Caroline Santos Lima, acompanhada de técnicos do gabinete do ministro Cristiano Zanin e com apoio do Tribunal de Justiça de Rondônia.
Área da Resex Jaci-Paraná, em Porto Velho. Foto: Marcio Isensee e Sá/Oeco
STF ouve envolvidos
Durante três dias, o grupo de representantes do STF percorreu áreas da reserva e ouviu cerca de 100 pessoas, entre moradores, representantes de associações de extrativistas, ONGs, integrantes do Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e deputados estaduais.
O objetivo, segundo a decisão do ministro Zanin, é proporcionar uma melhor compreensão do conflito antes de decidir sobre a constitucionalidade da lei.
Em alguma sala de aula da Região Amazônica, neste momento, há um jovem que resolve problemas de forma diferente, conclui tarefas com rapidez e ainda encontra tempo para ajudar os colegas. Um estudante que sonha alto, mas que, muitas vezes, ainda não conhece os caminhos capazes de transformar potencial em oportunidade. É esse talento que o Ismart busca identificar, desenvolver e conectar a novas perspectivas de futuro.
O Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos) está com inscrições abertas para a Academia Digital 2027, programa gratuito e 100% online voltado a estudantes do 7º ao 9º ano do ensino fundamental. A iniciativa contempla jovens do Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia e Roraima, ampliando o acesso à formação de excelência e ao desenvolvimento de competências alinhadas às demandas do futuro.
Formação que transforma potencial em trajetória
Há 26 anos, o Ismart atua na identificação e no desenvolvimento de jovens talentos em situação de vulnerabilidade social. Ao longo desse período, mais de 9.300 estudantes já foram apoiados pelo instituto.
Os resultados refletem o impacto da iniciativa: 90% dos alunos dos programas presenciais conquistam aprovação no vestibular, 83% dos graduados atuam atualmente em posições de destaque no mercado de trabalho e os estudantes formados pelo instituto chegam a multiplicar em sete vezes a renda familiar per capita em comparação ao momento de ingresso no programa.
Somente em 2026, mais de 1.100 novos alunos passaram a integrar a rede Ismart. Para 2027, a instituição projeta ampliar ainda mais esse alcance e fortalecer a presença do programa em diferentes regiões do país.
“O talento não tem endereço. Ele está em qualquer sala de aula do Brasil. E o Ismart existe para encontrá-lo, potencializá-lo e mostrar que o esforço tem destino certo”, destacou Mariana Rego Monteiro, diretora executiva do Ismart.
Academia Digital amplia oportunidades para jovens da Amazônia
A Academia Digital é o programa online do Ismart e está disponível para estudantes de todo o Brasil. Mais do que uma formação complementar, a iniciativa oferece uma jornada de desenvolvimento acadêmico, tecnológico e pessoal.
Durante o programa, os participantes têm acesso a conteúdos de tecnologia e programação, raciocínio lógico, matemática, português e redação, além de integrarem uma comunidade ativa formada por alunos, mentores, universitários e ex-alunos do instituto.
Para participar, é necessário estar regularmente matriculado no 7º, 8º ou 9º ano do ensino fundamental e pertencer a famílias com renda de até dois salários mínimos por pessoa.
Rede de apoio acompanha estudantes até o mercado de trabalho
Mais do que oferecer capacitação, o Ismart acompanha os estudantes em diferentes etapas da formação acadêmica e profissional, promovendo pertencimento, apoio contínuo e conexões que fortalecem trajetórias de longo prazo.
“Durante o programa, realizei projetos que jamais tinha imaginado, especialmente na área de tecnologia. Aprendi a programar, conheci pessoas incríveis e descobri muito mais sobre matemática, linguagens e olimpíadas. Essa experiência me deixou mais motivada e confiante para alcançar meus objetivos”, afirmou Giovana De Biagi, aluna da Academia Digital Ismart.
O impacto do acompanhamento promovido pelo instituto também pode ser observado na trajetória da ex-aluna Rafaela Herrera Silva.
“O Ismart foi muito mais do que um programa. Ele foi o contexto de responsabilidade que se cria desde cedo. Entrei no programa com 12 anos, determinada a ser engenheira. Fui aprovada em uma excelente universidade pública, me formei, empreendi e hoje trabalho para formar jovens para o futuro. O Ismart plantou em mim a semente de que era possível ir além”, ressaltou Rafaela Herrera Silva, engenheira e empreendedora reconhecida pela Forbes entre os Under 30 mais influentes do Brasil.
O Ismart – Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos – é uma organização sem fins lucrativos que, desde 1999, amplia o acesso de jovens de baixa renda e alto desempenho acadêmico a oportunidades educacionais de excelência.
Por meio de programas presenciais e digitais, o instituto oferece bolsas de estudo, orientação profissional, formação em competências socioemocionais e preparação para universidades de referência no Brasil e no exterior. Mais de 9 mil estudantes já passaram pelo Ismart, que acredita na educação como instrumento de transformação social e no talento como força capaz de impulsionar mudanças para o futuro do país.
Mostra que está em cartaz na Galeria Samaúma, em Macapá, integra as comemorações do mês do Artista Plástico. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP
Em comemoração ao mês do Artista Plástico, a exposição ‘Amazônia em Traços – Unindo Gerações nas Artes Visuais’ está em cartaz na Galeria Samaúma, no bairro Araxá, Zona Sul de Macapá. A mostra reúne mais de 60 artistas que retratam, por meio de telas e fotografias, a paixão pela Amazônia.
A programação acontece em diferentes espaços culturais de Macapá e Santana promovendo integração. O objetivo é promover o diálogo entre artistas consagrados e novos talentos, celebrando a diversidade dos traços e a força da produção artística local.
Jeriel Luz idealizador da Exposição — Foto: Divulgação
Idealizador do projeto, o artista plástico Jeriel Luz destacou que a exposição nasceu da necessidade de unir experiências e trajetórias diferentes em torno da arte amazônica.
“A exposição nasce da necessidade de unir experiências, talentos e trajetórias diferentes em torno da arte amazônica. Estamos criando pontes entre artistas veteranos e novos criadores, fortalecendo a identidade cultural do Amapá e mostrando que a arte transforma vidas, preserva memórias e projeta novos futuros para a nossa cultura”, afirmou Jeriel Luz.
Programação da exposição
Em Macapá, a mostra acontece em:
Galeria Samaúma — Praça do Araxá, próximo ao Ministério Público Estadual
Palácio das Artes Mestre Jansen — Avenida Professora Cora de Carvalho, nº 1842, Centro
Visitação: das 8h às 11h30 e das 14h às 18h, até 21 de maio
Já na cidade de Santana, o evento ocorre nos seguintes locais:
Hall do Cine Teatro Municipal Silvio Romero
Abertura: 22 de maio, às 18h
Visitação: das 8h às 11h30 e das 14h às 18h, até 29 de maio
Iniciativa do FNDE valoriza os profissionais da alimentação escolar nas escolas públicas do país. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
A dedicação e o carinho colocados diariamente na preparação da merenda escolar agora ganharam destaque nacional. Três merendeiras da Rede Municipal de Ensino de Boa Vista estão entre as finalistas do Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar – 3ª edição, iniciativa promovida pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que valoriza os profissionais responsáveis pela alimentação nas escolas públicas do país.
São elas: Vânia Patrícia da Silva, Liliane da Silva Santos e Gleidiane Vale Marques. Representando Boa Vista, as servidoras concorrem com receitas criativas, nutritivas e preparadas exclusivamente para o concurso. Os pratos contam com ingredientes acessíveis, reforçando a importância da alimentação escolar na aprendizagem e no desenvolvimento dos alunos.
A votação popular inicia nesta sexta-feira, 15, e segue até o dia 30 de maio. Para votar, basta acessar o portal do FNDE, selecionar o estado de Roraima no mapa e escolher a receita favorita. O resultado será divulgado no dia 10 de junho. Ao todo, serão premiadas duas receitas de cada estado brasileiro e uma da rede federal de ensino, totalizando 55 merendeiras e merendeiros reconhecidos em todo o país.
As receitas vencedoras também irão compor uma publicação digital nacional, compartilhando experiências e valorizando os saberes culinários presentes nas escolas públicas brasileiras.
A merendeira Vânia Patrícia da Silva aposta em uma combinação saborosa e nutritiva: frango flambado com creme de abóbora, arroz, farofa e salada. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Conheça as autoras e seus pratos:
Amor pela culinária virou receita finalista
Representando a Escola Municipal José Arnóbio, a merendeira Vânia Patrícia da Silva concorre com a receita “Frango flambado com creme de abóbora”, prato acompanhado por arroz, farofa e salada. Apaixonada pela culinária, ela contou que o incentivo para participar veio da própria escola.
“A gestora me incentivou a participar e eu fui com tudo. Escolhi essa receita porque a abóbora é um ingrediente muito versátil e nutritivo. Dá para fazer muita coisa boa com ela. Além disso, é um prato que eu costumo preparar aos fins de semana para família e amigos”, afirmou.
A merendeira também destacou o carinho que coloca diariamente na preparação das refeições servidas aos estudantes. “Merendeira tem que trabalhar com amor. Pode ser uma comida simples, mas se for feita com dedicação, ela se torna especial. As crianças são minha inspiração. É por elas que eu faço tudo com muito carinho e cuidado”, disse.
Utilizando mamão e banana congelados, com leite, a merendeira Liliane inscreveu o Gelato de Frutas, uma combinação cremosa e refrescante. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Receita refrescante surgiu de cuidado com a família
Na Escola Municipal Jael Barradas, a merendeira Liliane da Silva Santos aposta no “Gelato de Frutas”, feito com banana, mamão e leite. A ideia nasceu dentro de casa, a partir da preocupação com a saúde da mãe.
“Ela é diabética e eu comecei a pesquisar receitas que pudesse consumir. Encontrei essa opção saudável e comecei a fazer em casa. Ela ama”, contou.
Pensando no clima quente de Roraima, Liliane decidiu se inscrever no concurso. “É uma receita simples, saudável, fácil de fazer e que as crianças gostaram muito quando provaram na escola”, destacou.
“Pratinho Feliz” nasceu do sorriso de um aluno
Já na Escola Municipal Vovó Eurídes, a merendeira Gleidiane Vale Marques concorre com a receita “Pratinho Feliz”, preparada com carne moída, creme de batata, leite, queijo, arroz branco e salada colorida. Segundo ela, o nome da receita surgiu a partir da rotina vivida dentro da unidade escolar.
“Temos alunos em situação de vulnerabilidade e um garotinho sempre pegava o prato com um sorriso enorme no rosto. Foi daí que surgiu o nome ‘Pratinho Feliz’”, relembrou.
Participando pela primeira vez do concurso, a merendeira comemora o reconhecimento. “Quando vimos que estávamos entre as melhores pontuações, ficamos muito felizes. Agora a expectativa está grande para a votação popular”, disse.
A merendeira Gleidiane apostou em uma receita saborosa e equilibrada: carne moída com creme de batata, queijo, arroz branco e salada. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Valorização das merendeiras e alimentação saudável
A nutricionista da Rede Municipal de Ensino, Elizabeth Batista, destacou que o concurso também representa uma oportunidade de reconhecer o trabalho desenvolvido diariamente pelas merendeiras nas escolas de Boa Vista.
“Essas receitas foram elaboradas com ingredientes que já fazem parte da alimentação escolar ofertada aos nossos alunos. O diferencial foi justamente a criatividade das merendeiras, que utilizaram os alimentos do cardápio para criar os pratos”, explicou.
Segundo ela, as receitas apresentadas podem, inclusive, futuramente integrar o cardápio oficial da rede. “A gente sempre escuta as merendeiras, porque elas estão no dia a dia com os alunos e percebem o que tem maior aceitação. Muitas vezes, elas trazem ideias, adaptações e formas diferentes de preparo que contribuem para melhorar ainda mais o nosso cardápio”, afirmou.
Elizabeth também ressaltou a importância das profissionais no ambiente escolar e no incentivo à alimentação saudável. “Elaboramos os cardápios pensando nas necessidades nutricionais dos alunos, mas são os merendeiros e merendeiras que colocam tudo isso em prática, com carinho e dedicação. Todos têm um papel fundamental na formação dos hábitos alimentares das crianças”, destacou.
Cardápio recém formulado
Este ano, a merenda escolar da Rede Municipal de Ensino de Boa Vista ficou ainda mais diversificada. O cardápio passou por reformulação e ganhou novas preparações que já integram a rotina das unidades, ampliando a variedade das refeições oferecidas diariamente aos estudantes.
Entre as novidades estão pratos como feijoadinha com arroz brasileirinho, arroz de horta, salpicão de frango, cuscuz nordestino e feijão tropeiro. As receitas foram planejadas para unir valor nutricional, identidade cultural e aceitação do público infantil. Mais informações no link: https://abre.ai/phMj.
Placa que marca o encontro entre Letícia e Tabatinga. Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
A cidade de Tabatinga, no interior do Amazonas, desafia as noções tradicionais de fronteira. Por lá, a divisão entre o território brasileiro e a cidade de Letícia, na Colômbia, não é feita por muros ou rios intransponíveis que separam os dois países, mas sim por uma simples via: a Avenida da Amizade.
Nesta fronteira seca, o vaivém de pedestres e motoristas é constante e não exige documentação, revista ou qualquer tipo de burocracia para que se entre ou saia dos dois países: basta atravessar a rua.
No local, apenas um letreiro simboliza essa divisão, que só divide mesmo na teoria. Na prática, a integração é tão profunda que pesquisadores a definem como uma “cidade gêmea” ou um organismo urbano único.
“A fronteira não é apenas um limite político-administrativo, mas um espaço vivido, onde as identidades se misturam e as práticas cotidianas ignoram as linhas dos mapas”, destaca o sociólogo e pesquisador, José Albuquerque.
Essa dualidade é sentida no comércio: de um lado, o português e o real; do outro, o espanhol e o peso colombiano.
Na comunicação, o “portunhol” é a língua franca que domina as interações sociais. Mas se engana quem pensa que isso gera problemas para quem vive no local.
Entrada de Tabatinga na fronteira com a Colômbia. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM
A professora de espanhol e Miss Tabatinga, Maria Rita, define a vivência na região como uma experiência que ignora as divisões cartográficas tradicionais. Para ela, a fronteira é sentida mais pela cultura do que pela burocracia.
“Viver na tríplice fronteira é experimentar uma geografia que desafia os mapas. Na prática, a fronteira é invisível na rotina. Atravessar a rua não é um ato burocrático de mudar de país, é um movimento natural de quem vive em um organismo único, onde Tabatinga e Letícia funcionam como bairros de uma mesma grande metrópole amazônica”, afirma Maria Rita.
Maria ainda diz que a condição de “cidade gêmea” reflete não apenas a proximidade física, mas uma estrutura mental diferenciada para quem nasce na região. Ela explica que a identidade de quem vive no extremo Oeste do Amazonas é ampliada pelo convívio binacional.
“Eu me sinto profundamente brasileira, mas ser de Tabatinga é possuir uma singularidade que o restante do país nem sempre compreende: eu sou uma brasileira da fronteira. Como pesquisadora, entendo que o cidadão que nasce e cresce aqui desenvolve uma estrutura cognitiva e cultural diferenciada. Nosso olhar para o mundo é mais ‘elástico’, porque fomos alfabetizados nesse contexto linguístico e pela convivência com o outro”, ressalta.
Desafios e potencialidade
Segundo José Albuquerque, apesar da riqueza cultural e da posição estratégica, a cidade enfrenta desafios proporcionais à sua complexidade. A segurança pública e a logística de transporte, que depende quase exclusivamente do Rio Solimões ou de voos, são temas recorrentes nas pesquisas acadêmicas locais.
Por outro lado, o potencial turístico é vasto. Quem visita Tabatinga pode:
Cruzar a fronteira a pé: basta caminhar pela Avenida da Amizade para trocar de país em segundos.
Explorar o Rio Solimões: passeios de barco que conectam comunidades indígenas e áreas de preservação.
Gastronomia mista: saborear desde o tacacá amazonense até a famosa patarashca colombiana, prato típico a base de peixe.
Veículo do exercito brasileiro com as bandeiras brasileiras e colombianas. Foto: Lucas Macedo/g1 Amazonas
Maria Rita ressalta que o acesso a serviços e opções de lazer em Letícia, na Colômbia, é feito sem burocracias, o que torna a rotina dos moradores mais diversificada. Para ela, a cidade vizinha funciona como uma extensão do quintal de casa.
“O acesso ao lazer e aos serviços na fronteira é vivido com total naturalidade. Não vemos como ‘ir a outro país’, mas como aproveitar o que a nossa cidade vizinha oferece de melhor. É uma dinâmica muito simples e funcional: usufruímos da gastronomia e da cultura de Letícia com a mesma facilidade com que circulamos em Tabatinga”, destaca Maria Rita.
Além da vizinhança terrestre com a Colômbia, Tabatinga também estabelece o limite do território brasileiro com o Peru. No entanto, a dinâmica com os peruanos ganha um contorno diferente: em vez de uma rua, a fronteira é ditada pelas águas do Rio Solimões. A travessia para a ilha de Santa Rosa, a localidade peruana mais próxima, é feita em poucos minutos por meio de pequenas embarcações, conhecidas na região como “peque-peques”.
Porta de entrada para tráfico internacional de drogas
Tabatinga também sofre com ações de organizações criminosas, a cidade apontada por estudos como o ponto inicial da chamada “Rota do Solimões”, um dos principais corredores de tráfico internacional de drogas na Amazônia. Devido a localização, a cidade funciona como porta de entrada da cocaína produzida nos países vizinhos, que segue pelos rios até Manaus e depois para outras regiões do Brasil e do exterior.
A vulnerabilidade social e a ausência de fiscalização permanente tornam o território estratégico para facções criminosas. De acordo com o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle da região, aproveitando-se da extensa fronteira fluvial e da circulação livre entre Tabatinga, Letícia, e Santa Rosa, no Peru.
Militares usam balaclava nas fiscalizações para se protegerem do crime organizado. Foto: Lucas Macedo/Rede Amazônica AM
A dinâmica na fronteira entre os territórios também proporcionou com que organizações criminosas brasileiras expandissem a atuação com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Em entrevista, o coronel colombiano Rodriguez Contreras Carlos detalhou que facções como o CV e o PCC mantêm parcerias estratégicas com guerrilheiros para o controle de crimes ambientais e o tráfico de drogas na região de fronteira.
“Esses grupos estão presentes na região fazendo negócio, narcotráfico, garimpo ilegal. Essas estruturas, esses grupos já ultrapassaram fronteiras”, afirmou.
Mesmo com as problemáticas, a via que une Brasil e Colômbia ainda consegue fazer sobressair na rotina dos moradores o significado que carrega no nome: a amizade entre duas nações.