Óleos essenciais da Amazônia são alternativa para tratamento de câncer, aponta estudo

Pesquisa avalia ação seletiva contra células tumorais

Foto: Alexandre de Moraes/UFPA

O chá de canela é bom para a digestão, enquanto o chá de cipó-alho funciona para melhorar sintomas gripais. Mas você sabia que, além de servirem à medicina tradicional, os óleos essenciais dessas plantas podem ter usos mais elaborados? A estudante de Biomedicina no Pará, Viviane Ribeiro Santos é responsável por uma pesquisa que investiga a utilização de óleos essenciais de cipó-alho e canela para tratar células cancerígenas no organismo humano.

O estudo buscou compreender se compostos naturais podem ajudar no combate ao câncer de forma mais seletiva, ou seja, atacando principalmente as células tumorais e preservando as células saudáveis. Esse é um dos grandes desafios dos tratamentos oncológicos atuais.

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Segundo Viviane, a escolha por esse óleos se deu a partir do trabalho contínuo do Núcleo de Pesquisas em Oncologia com produtos naturais.

“Nosso laboratório recebe vários óleos essenciais por meio de colaborações. A gente faz uma triagem inicial e avalia quais apresentam resultados interessantes. A canela e o cipó-alho chamaram atenção logo nos primeiros testes”, explicou.

Além dos resultados preliminares, a orientadora da pesquisa, professora Ingryd Nayara de Farias Ramos, reforça que o uso popular dessas plantas também pesou na decisão.

“São produtos muito presentes no dia a dia da população, usados em chás, remédios caseiros e na medicina tradicional. A ideia é justamente verificar se esse uso empírico tem base científica”, complementou a docente.

Apesar de ainda estar em uma fase inicial, a pesquisa dialoga diretamente com um problema concreto: os efeitos colaterais dos tratamentos contra o câncer. A quimioterapia, por exemplo, não diferencia células tumorais de células saudáveis, o que causa diversos efeitos danosos aos pacientes.

“A principal lacuna dos tratamentos atuais é a falta de seletividade”, explicou Ingryd. “Eles funcionam, mas afetam todo o organismo. O que buscamos são moléculas que consigam agir mais especificamente nas células do câncer”, afirmou.

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A pesquisadora reforça que os óleos essenciais podem, futuramente, ser incluídos como parte de terapias combinadas. “Se uma substância natural ajudar na redução da dose de um quimioterápico, por exemplo, já é um grande avanço para o paciente”, comentou Viviane.

Método simples e acessível com recorte regional

A pesquisa foi realizada totalmente em laboratório, por meio de testes in vitro, utilizando diferentes linhagens de células cancerígenas, como do câncer gástrico, melanoma e do câncer pulmonar. Também foi utilizada uma linhagem de células não tumorais, etapa fundamental para avaliar se os óleos são seletivos celulares.

Para medir a viabilidade celular, os pesquisadores utilizaram o ensaio de MTT, um teste bastante comum em pesquisas desse tipo. “É um método simples e acessível. As células metabolicamente ativas transformam o reagente em uma substância roxa. Quanto mais roxa a placa fica, mais células viáveis ainda existem”, explica a estudante.

Além disso, foi analisado como essas células morrem após o tratamento com os óleos. Para isso, se utilizou a citometria de fluxo, técnica que permite a identificação de células com precisão para, assim, distinguir o padrão de morte celular gerado pelos óleos.

A escolha das linhagens celulares a serem analisadas também teve um recorte regional. “A gente trabalha com câncer gástrico porque ele tem alta incidência aqui na região Norte. Inclusive, algumas linhagens que usamos foram estabelecidas a partir de tumores de pacientes da própria região”, destaca a orientadora da pesquisa.

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Resultados promissores

óleo de canela
Foto: Reprodução/Dentalis

Os resultados mostraram que o óleo essencial de canela teve um efeito interessante sobre as células de câncer gástrico. “A linhagem celular tumoral foi cerca de cinco vezes mais sensível ao óleo do que a linhagem não tumoral, o que indica um bom nível de seletividade deste ativo”, afirmou Viviane.

Já o óleo essencial de cipó-alho apresentou um efeito ainda mais amplo, reduzindo significativamente a viabilidade de várias linhagens cancerígenas. Em alguns casos, a redução aconteceu já nas menores concentrações testadas. “Isso indica que o óleo tem um potencial citotóxico forte contra células tumorais”, explica a pesquisadora.

Um dos pontos que mais chamou atenção na análise foi o tipo de morte celular observado experimentalmente. “Os trabalhos com produtos naturais normalmente indicam padrão de morte por apoptose (mecanismo biológico que resulta na morte controlada das células), porém, nos nossos estudos, achamos predominantemente necrose (forma patológica de morte celular)”, relatou a professora Ingryd.

Segundo a orientadora, esse resultado gerou novas perguntas dentro da pesquisa. “O teste que usamos não diferencia necrose de necroptose, que é uma forma de necrose programada. Então levantamos a hipótese de que esteja ocorrendo necroptose, que é uma via importante para contornar a resistência das células tumorais”, explicou a professora.

Apesar dos bons resultados já alcançados, as pesquisadoras reforçam que o estudo ainda está em fase inicial. “É uma pesquisa de base. Antes de pensar em qualquer aplicação clínica, a gente precisa entender melhor os mecanismos moleculares envolvidos”, afirmou Viviane.

Os próximos passos dos estudos incluem análises de biologia molecular para identificar quais genes e vias celulares estão sendo ativados, além de testes mais complexos, como culturas 3D e, futuramente, estudos in vivo. “É um caminho longo a ser percorrido, mas essencial para garantir a segurança e a eficácia do método”, destaca a orientadora.

Para a professora Ingryd, a pesquisa também evidencia o potencial da biodiversidade amazônica. “A nossa região é extremamente rica em compostos naturais. Estudar essas moléculas é uma forma de transformar a biodiversidade em conhecimento científico e, quem sabe, em soluções futuras para a saúde”, concluiu.

Sobre a pesquisa de óleos essenciais

A pesquisa intitulada “Avaliação do efeito de óleos essenciais em linhagens neoplásicas in vitro”, – premiada no XXXVI Seminário de Iniciação Científica da UFPA – foi desenvolvida por Viviane Ribeiro Santos, sob orientação da professora Ingryd Nayara de Farias Ramos, atuante no Laboratório de Citogenética Humana (UFPA) e no Núcleo de Pesquisas em Oncologia (NPO), do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB). 

Sobre a pesquisadora

Viviane Ribeiro Santos, 22 anos, se interessou por pesquisa ainda como caloura de Biomedicina. Ela pretende seguir na carreira acadêmica, em cursos de mestrado e doutorado. No seu tempo livre, a jovem gosta de ler, assistir filmes e fazer crochê. Sua dica para quem deseja ingressar na área é: “Correr atrás da vontade mesmo com medo de tentar coisas novas. As recompensas são lindas”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Luiza Amâncio

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