O programa ‘Entrevistas‘, exibido pelo canal Amazon Sat, uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica voltada às discussões que ocorrem em Brasília e impactam diretamente a região amazônica, recebe neste episódio a diretora do Departamento de Novas Economias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Sissi Alves da Silva.
A conversa teve como tema o Programa Selo Amazônia, que visa a certificação de produtos e serviços da bioeconomia produzidos com insumos da Amazônia Legal. A iniciativa voluntária, criada pelo Governo Federal, objetiva a valorização dos produtos da região, além de agregar valor, gerar renda e fortalecer bionegócios.
Comandado pelo jornalista e apresentador do programa, Welliton Lopes, a edição abordou sobre a implementação do programa, destacou sobre as diretrizes nacionais para a certificação voluntária de produtos e serviços industrializados e comprovadamente produzidos na Amazônia Legal e quais critérios as empresas devem respeitar para receber o Selo Amazônia.
Durante a entrevista, Sissi Alves explicou sobre os objetivos do programa Selo Amazônia:
“O objetivo principal do Programa Selo Amazônia é o aumento de renda e desenvolvimento econômico para a região amazônica, valorizando os produtos que são feitos a partir dos insumos do bioma Amazônia e que são produtos nos estados da Amazônia Legal. Isso permite que haja uma agregação de valor e abertura de mercado tanto nacional quanto nacional e esse selo vai formar um referencial teórico único para que você possa comprovar os requisitos de sustentabilidade, sociais, de governança e econômicos”, explicou a diretoria da MDIC.
Instituído pelo Decreto nº 12.285/2024, o Programa Selo Amazônia é uma certificação de terceira parte que estará disponível a todos os produtos e serviços da bioeconomia e da bioindústria produzidos na Amazônia Legal, a partir de insumos da biodiversidade do bioma da Amazônia e que preencham os critérios de sustentabilidade que serão definidos no âmbito do Programa.
Reconhecimento alcançará toda a cadeia produtiva, desde aquele que trabalha na matéria-prima até a empresa que industrializa o produto. Foto: Divulgação/MDIC
Inclusão produtiva
Segundo Sissi, a certificação é voltada para os produtos industrializados com insumos da biodiversidade amazônica, no entanto, o reconhecimento também valorizará toda a cadeia produtiva, desde os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.
“Uma parte importante do selo é justamente a inclusão produtiva, a gente tem foco nos povos originários, comunidades tradicionais e também nos agricultores familiares que produzem esses insumos. E como que a gente alcança essa cadeia? Através dessas empresas que produzem alguma espécie de industrialização de produtos, elas vão precisar comprar mais e valorizar esse outro elo da cadeia de insumos. A certificação rastreia toda a cadeia produtiva, com isso, toda ela será valorizada”, afirmou Alves.
O Programa Selo Amazônia visa a certificação para produtos e serviços produzidos na Amazônia Legal, com insumos da região e em respeito a critérios de sustentabilidade ambiental e social. Foto: Divulgação/MDIC
Implementação do Selo Amazônia
Ao longo da conversa, a diretora do MDIC explicou que a implementação do Programa Selo Amazônia está na fase de elaboração de normas técnicas e a previsão é que o primeiro produto certificado saia no segundo semestre de 2027.
“O programa Selo Amazônia tem etapas bem definidas, a gente já tem a norma-mãe, que foi lançada no começo de setembro e agora a norma setorial para o primeiro produto deve sair em janeiro de 2027. Como é uma certificação de terceira parte, ou seja, envolve outras entidades, a expectativa é que até o segundo semestre a gente já tenha o primeiro produto certificado”, estima Sissi.
Além desse tema, Sissi Alves também comentou sobre os critérios necessários para certificação do Selo Amazônia e quais requisitos as empresas deverão ter para obter o reconhecimento. A entrevista completa você confere aqui:
‘Entrevistas’
O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.
Programa Entrevistas conversou com Sissi Alves, diretora de Novas Economias do MDIC. Foto: Reprodução/Amazon Sat
Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.
‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições: quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT-4).
Antes de se tornar brinquedo e peça de decoração, a exemplo de uma canoa ou até um pássaro, o miriti passa pelas mãos de quem aprendeu a transformar uma palmeira da Amazônia em arte, cultura e renda. Em Abaetetuba, no interior do Pará, esse conhecimento atravessa gerações da família de José Roberto Ferreira, o Mestre Beto. Hoje, ele mantém uma tradição de décadas que aprendeu ainda menino e se tornou seu modo de vida.
Mas a história de Beto com o miriti também se funde com outra tradição paraense: o Círio de Nazaré. Durante muito tempo, era a proximidade da festa religiosa que marcava o início da produção dos brinquedos. O trabalho começava por volta de agosto e seguia até o momento de levar as peças a Belém, onde encontravam uma multidão de romeiros, visitantes e compradores em meio às celebrações.
Em sua trajetória, a bioeconomia amazônica ganha contornos concretos: está na matéria-prima retirada da floresta, no conhecimento transmitido entre gerações e na renda que permanece ligada ao território. Para ele, o valor do miriti ilustra exatamente essa linha do tempo e não pode ser separado da própria história familiar.
“Minha família está perto de completar 90 anos nessa atividade, uma das pioneiras a trabalhar com o miriti. Aos 11 anos, herdei essa arte. Via meu pai trabalhando e, na época, a gente não trabalhava diariamente, era só para o Círio de Nazaré, porque o brinquedo de miriti não tinha visibilidade em outro momento. Com 11 anos, comecei a fazer meus primeiros brinquedos. Estou nessa atividade há 42 anos, indo direto para o Círio de Nazaré”, relembrou o artesão.
Mestre Beto e sua família, que mantém a tradição de trabalhar com miriti há 42 anos. Foto: José Roberto Ferreira/Arquivo pessoal
Quarenta e dois Círios depois, o calendário de Mestre Beto já não se limita aos meses que antecedem a festa. O miriti deixou de ser uma atividade sazonal para ocupar praticamente todos os seus dias. Além de produzir e comercializar as peças, Beto é professor de artesanato. Mesmo quando não está em sua banca, leva consigo o material para seguir trabalhando.
“Através do meu pai, fui pegando um amor tão grande por essa arte. Quando ele faleceu, fiquei ainda mais dedicado ao miriti para levar o nome dele e da minha mãe adiante. Minha mãe, Maria Raimunda, foi a primeira mulher aqui em Abaetetuba a fazer brinquedo de miriti”, contou.
Quando a floresta também gera renda
O miriti, ou buriti, é uma palmeira presente na paisagem amazônica e aproveitada de distintas formas pelas populações locais. No artesanato, o material leve retirado de seus talos é moldado, cortado e pintado até se transformar em brinquedos e peças decorativas que retratam animais, embarcações, cenas e elementos do cotidiano amazônico.
Mestre Beto viu o valor da matéria-prima mudar ao longo do tempo. Ele lembra que, antes da expansão do artesanato, parte do miriti resultante de outras atividades era descartada nos rios. À medida que mais artesãos passaram a utilizá-lo, aquilo que tinha pouco valor ganhou mercado e passou também a representar uma fonte de renda para quem fornece a matéria-prima. Nas mãos de Beto, até os pedaços menores encontram destino.
“A gente trata o miriti como ouro. Qualquer pedacinho de miriti se transforma numa joia, numa biojoia. E o miriti é muito saudável porque, além de não derrubar a palmeira, ela é podada. Se tem dez braços, eles tiram quatro e deixam seis. Então, não se derruba a árvore, ela vai crescendo muito mais rápido e saudável”, disse.
Uma cultura viva
Pensar no futuro do artesanato significa, para Mestre Beto, pensar também na permanência da palmeira. O artesão defende políticas públicas que incentivem a manutenção e o plantio do miriti em áreas ribeirinhas, garantindo matéria-prima para uma atividade que atravessa gerações. “Para mim, os governos devem dar apoio para o manejo, não acabar”, comenta.
Mestre Beto e sua família, que mantém a tradição de trabalhar com miriti há 42 anos. Foto: José Roberto Ferreira/Arquivo pessoal
Em Abaetetuba, essa preocupação com a continuidade passa também pelas crianças. Beto cita iniciativas locais que aproximam os estudantes do Festival do Miriti e estimulam o contato com os brinquedos produzidos pelos artesãos da cidade. Para ele, apresentar esse universo às novas gerações é uma maneira de impedir que o conhecimento se perca com o tempo.
“O miriti é minha vida. O maior orgulho que eu tenho são meus filhos e a minha atividade. Se eu ficar um dia sem fazer uma peça, parece que o dia não presta. Eu amo esse artesanato, amo esse brinquedo que faço. Sou reconhecido, graças a Deus, pela minha arte, e isso me dá muito orgulho”, concluiu.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Mayara Subtil
Manaus amanheceu coberta por fumaça nesta quinta-feira (8), Fogo começou na terça-feira (6) em um lixão privado de 15.000 metros quadrados. Equipes continuam combatendo focos de incêndio no local. Foto: Manu Passos/Rede Amazônica AM
Manaus (AM) amanheceu coberta por uma densa camada de fumaça nesta quinta-feira (8). A baixa visibilidade e o forte cheiro de queimado foram percebidos por moradores em diferentes regiões da cidade.
Por volta das 6h30, a capital amazonense ocupava a primeira posição no ranking das cidades com o ar mais poluído do Brasil, segundo dados em tempo real da plataforma internacional IQAir.
De acordo com o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a qualidade do ar era considerada “péssima” na manhã desta quinta-feira.
Entre os locais mais afetados estavam o bairro Morro da Liberdade, o Educandos e áreas próximas, onde foram registrados índices de até 211 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de partículas poluentes.
A qualidade do ar é considerada boa pelo Selva quando a concentração de partículas fica entre 0 e 25 µg/m³. Acima desse nível, os índices passam por classificações que variam de moderada a péssimo, conforme a escala utilizada pelo Sistema Selva.
A piora das condições do ar ocorre enquanto equipes seguem combatendo um incêndio em uma área de descarte de resíduos no Distrito Industrial 2, na Zona Leste de Manaus. A fumaça gerada pelo fogo pode ter contribuído para o cenário observado na cidade.
Manaus também já vinha sendo impactada pelo tempo seco e pela fumaça de queimadas em outras regiões do Amazonas. Além disso, não há previsão de chuva para os próximos dias.
Incêndio em lixão aumenta fumaça
O fogo no lixão, que é particular e pertence ao Auto Posto Lima, até a noite de quarta (7), já havia atingido mais de 15 mil metros quadrados, segundo os bombeiros. O trabalho seguia no local para controlar focos em áreas profundas do terreno, mas até a última atualização desta reportagem, não havia atualização sobre a situação no local.
Incêndio em terreno na Zona Leste de Manaus continua no início da noite desta quarta-feira (7). Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM
Os bombeiros informaram que as causas do incêndio seguem sob investigação. A hipótese inicial é que uma fagulha ou outra fonte de ignição tenha provocado um pequeno foco, que se espalhou rapidamente com a ajuda do vento forte.
O fogo começou por volta de 15h da terça-feira (6) em uma área utilizada como lixão privado e se espalhou rapidamente. A região abriga diversas indústrias, algumas localizadas a poucos metros do foco do incêndio.
Funcionários de uma fábrica vizinha chegaram para trabalhar, mas precisaram ser dispensados devido à fumaça e do risco provocado pelas chamas.
Para ajudar no controle ao fogo, além de combate com água, um caminhão despejou barro sobre alguns dos pontos para ajudar a reduzir a intensidade das chamas.
Após uma fiscalização realizada nesta quarta-feira, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) aplicou multa de R$ 5,555 milhões à responsável pela área.
A empresa Auto Posto Lima, responsável pelo terreno, informou que as causas e a origem do fogo ainda são apuradas pelas autoridades, e disse estar colaborando com os órgãos responsáveis pela fiscalização e investigação.
Segundo monitoramento do Cemaden, Roraima enfrenta seca crescente desde julho. Em setembro, 11 municípios estavam em seca severa. Ponte dos Macuxis, no Rio Branco, em setembro de 2026. Foto: Ronny Alcântara/Rede Amazônica RR
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento administrativo para monitorar as ações de garantia de água potável em comunidades indígenas de Roraima. A medida foi publicada no dia 6 de outubro.
A medida preventiva também monitora as ações de proteção à saúde nas comunidades do estado. A iniciativa tem como objetivo reduzir os impactos da seca causada pelo El Niño, prevista para 2026 e 2027.
El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele pode alterar a circulação da atmosfera e mudar padrões de chuva, temperatura e vento em diferentes partes do mundo.
Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Proteção às comunidades
Na prática, com a instauração do procedimento, o MPF pode solicitar documentos, expedir notificações a órgãos públicos e acompanhar as políticas públicas da região continuamente.
O procedimento foi assinado pelo procurador da República em Roraima, Alisson Marugal. A ação não foi direcionada a nenhuma instituição em específica.
“Considerando que a adoção de medidas para acompanhar e fiscalizar, de forma continuada, políticas públicas ou instituições, com a expedição de notificações e requisição de documentos e/ou informações, pressupõe a existência de um procedimento formal e regularmente instaurado”, destaca trecho da determinação.
A medida está fundamentada na responsabilidade do MPF de defender os direitos fundamentais da população, fiscalizar serviços públicos essenciais e proteger os direitos das comunidades indígenas.
Estiagem
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) Roraima enfrenta uma onda crescente de seca desde julho. Segundo o Índice Integrado de Seca (IIS-3), em agosto todos os municípios já apresentavam alguma condição de seca.
No mês de setembro, 11 municípios foram classificados como estando em seca severa. Outros três foram considerados enfrentando seca moderada e apenas Uiramutã, ao Norte de Roraima, teve seca fraca.
Franci Silva é tratadora dos filhotes que chegam ao parque, geralmente resgatados, como a jaguatirica: “São como meus filhos”. Foto: Carla Sequeira/MPEG
O sol ainda não surgiu por inteiro quando Nazareno Dias chega ao Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), na região central de Belém (PA), às 5h da manhã. Da equipe de nove tratadores de animais, acrescida de dois folguistas, ele é o primeiro funcionário a verificar se os oito filhotes dormiram bem no berçário. Com papinhas e néctar nas seringas, Nazareno garante o desjejum de um beija-flor, de dois tamanduás-mirins, de um ratinho e de quatro preguiças. Começa, assim, a rotina destes profissionais que, no calendário internacional, possuem o dia 4 de outubro para demarcar a importância de seu trabalho para o bem-estar animal, mesma data em que se comemora o Dia Mundial dos Animais.
Com 131 anos em funcionamento, o Parque Zoobotânico é o espaço mais popular da instituição científica que completou 160 anos no dia 6 de outubro. Nele, vivem aproximadamente quatro mil animais, de cerca de 80 espécies, incluindo a “fauna livre”, que estão fora dos recintos, como as cotias, e as espécies visitantes, formadas, em boa parte, por lagartos e aves que não pertencem ao plantel do MPEG. Sob a orientação da bióloga Thatiana Figueiredo e dos veterinários Messias Costa e Mônica Coelho, os tratadores cumprem uma escala que envolve atenção extrema, pontualidade e diversos momentos de afeto.
Considerado um dos tratadores mais experientes da casa, Nazareno segue, depois do berçário, para o recinto da Luakã, a onça-pintada. Desde 2017 na função, o respeito ao território é a principal lição que ele aprendeu. “Com a onça, não se pode vacilar”, resume. Jamais ele fica no mesmo espaço que ela. Dividido por áreas que podem ser isoladas, o recinto é higienizado por partes para garantir a segurança.
Além de sinais que podem indicar problemas de saúde, como presença de vômito, falta de apetite, variações nas fezes, os tratadores estão atentos ao comportamento dos bichos. “Se você ver a Luakã inquieta, de um lado para o outro, é porque ela sabe que os podadores das árvores estão por perto”, explicou Nazareno. A onça não gosta de barulho. Por isso, nos dias de poda, ele a isola na área mais reservada do recinto. Por outro lado, ela adora brincar.
Nazareno com a Luakã: respeito e atenção máxima. Foto: Carla Serqueira/MPEG
“Não adianta vir aqui como um robô, limpar, colocar a comida e ir embora. Sempre brinco com um galho de palmeira pela grade, ela se deita com a barriga para cima”, conta, acrescentando que a Luakã também se diverte com o enriquecimento ambiental, quando, na rotina, os animais do Parque Zoobotânico recebem estímulos para exercitar a saúde física e mental.
Assim como a onça, as ariranhas, as antas, as cobras e os macacos-aranha exigem bom conhecimento por parte dos tratadores. Eduardo Santos está na função há mais de 20 anos. “Os macacos não aceitam qualquer um, eles podem morder, e se eu estiver com um perfume diferente, vão me estranhar”, explica.
Contrariando a percepção popular de que as antas são pouco inteligentes e passivas, Eduardo conta que já teve que correr delas. “Todo tratador precisa entender como os animais se defendem. Se algo incomoda as antas, por exemplo, elas vão correr e podem dar cabeçadas”.
Ele também cuida das cobras no Aquário Jacques Huber, o aquário público mais antigo do Brasil. “Estou sempre observando as fezes e a troca de pele. Se a pele sai inteira, as cobras estão bem. Se a pele sai aos pedaços, aviso à veterinária, porque é sinal de algum problema na saúde”, contou.
Nazareno com a Luakã: respeito e atenção máxima. Foto: Carla Serqueira/MPEG
No dia 1° de outubro, um peixe da espécie oscar estava separado dos outros 90, aproximadamente, que ficam expostos no aquário. O olhar clínico do tratador Rodrigo Gemaque percebeu a barriga inchada e o reservou para análise sob orientação da bióloga Camila Nunes, responsável pelos peixes do parque, incluindo os 33 que habitam os lagos da área externa ao aquário.
“Esse está com um parasita. Todos os dias, precisamos olhar um a um”, comenta. Da mesma forma, a verificação da qualidade da água é essencial. “Vejo se o filtro está saturado, se precisa lavar as esponjas, trocar a água”, detalha, explicando que a limpeza dos vidros para evitar acúmulo de amônia é outra tarefa rotineira, bem como manter a água alcalina.
Diferente do que muita gente possa imaginar, os peixes reconhecem os tratadores, segundo Rodrigo explicou, considerando a própria experiência. Ele está há dez meses no Parque Zoobotânico; antes, trabalhava em lojas de exportação de peixes ornamentais.
“Os peixes conseguem lembrar de ti. Acredito que eles associam a cor da roupa à chegada do alimento. Quando eu me aproximo para alimentá-los, todos nadam em minha direção. Eles não querem carinho, querem se alimentar”, ensina. Na relação diária com os peixes, o tratador conta o que aprende com eles. “Os peixes simplesmente estão satisfeitos, como se não precisassem de grandes objetivos para se sentirem tranquilos. Acho isso muito bacana para pensar a vida”, avalia o tratador.
O carinho é ingrediente da nutrição
O bem-estar dos animais, necessariamente, passa pelo setor operado por Elizete Nogueira e Benedito Barradas. Eles trabalham na cozinha. “Aqui é o ‘ifood’ dos animais”, brincou Elizete, há 15 anos preparando as refeições no Parque Zoobotânico. A produção começa cedo. “Nossa maior preocupação é com a contaminação cruzada. Por isso, em cada dia, quem trabalha na bancada da proteína, não trabalha na bancada das frutas”, justifica. Todo mês, 750 quilos de carnes passam pela bancada da proteína, sendo 150kg de carne vermelha, 300kg de frango, 150kg de peixe e 150kg de camarão. Já a bancada do hortifruti recebe 3,5 toneladas de frutas e tubérculos. A ração mensal chega a meia tonelada.
Quando fala sobre seu trabalho para pessoas externas ao Museu Goeldi, Elizete tem a chance de desconstruir alguns mitos. “Muita gente pensa que a alimentação dos animais é feita de qualquer jeito, que é o resto das feiras ou que vem de doações. As pessoas ficam surpresas quando eu falo que as refeições são todas preparadas no dia, com alimentos de qualidade verificada e acompanhada por biólogas e veterinárias. Cada animal recebe refeições específicas, levando em consideração o peso e a necessidade de nutrientes. A gente observa a aceitação, se precisa picar em tamanhos menores, tudo é controlado”, garante.
Rodrigo monitora a água todo dia. Foto: Carla Serqueira/MPEG
A papinha do tamanduá é um orgulho da equipe, uma receita que Elizete comemora. “Outro mito é que os tamanduás só comem formiga e cupim. Não é verdade. Aqui a gente prepara uma papinha com vários ingredientes”, anuncia, revelando os itens: “Para o tamanduá-bandeira, vai uma papa de frango feita por nós mesmos, com uma mistura que leva banana, maçã, ração e um suplemento vitamínico. Outra receita leva acelga, frango, ração e frutas”, especifica Elizete, sempre atenta às quantidades e aos protocolos de higiene.
Barradas é o parceiro de Elizete na cozinha. Está na nutrição depois de mais de 30 anos como tratador de animais, sendo o mais antigo da equipe. Ele começou a trabalhar no parque em 1994. “Na época, eu ainda tinha cabelo”, diverte-se, dizendo que a catarata encerrou suas atividades com os animais. A distância dos recintos é necessária devido ao cuidado para evitar infecções nos olhos. Tímido e sorridente, ele enfatiza que o carinho é o segredo da profissão. “Sem carinho, não adianta nada”, afirma.
Ele recorda de quando cuidou do peixe-boi Mayra, que morreu em 2008. “Quando ela ficava com raiva, era muito difícil. Ela não gostava de sombra, mas não podia ficar direto no sol, porque esturricava as costas. Então, eu ligava a torneira e ficava vigiando. Se mexesse muito com ela, ela se batia todinha. Tinha que fazer com carinho”, lembra.
Elizete monta as refeições que consomem por mês 750kg de proteína, 3,5 toneladas de frutas e tubérculos e 500kg de ração. Foto: Carla Serqueira/MPEG
As papinhas preparadas por Elizete e Barradas são resultados de adaptações bem sucedidas realizadas no setor veterinário, após observações constantes dos tratadores, entre eles, Franci Silva, que há 16 anos trabalha no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi. Nesse tempo, ela se formou como técnica de enfermagem e, atualmente, desempenha suas funções, prioritariamente, no berçário e na área da quarentena, onde ficam os animais em preparação para a soltura em seus habitats naturais.
A saudade dos animais que partiram parece ser comum entre os tratadores. Em pouco tempo de conversa, os olhos de Franci encheram de lágrimas. Ela lembrou da Aurora, uma tamanduá-mirim, que não resistiu às complicações de saúde e morreu após cerca de dois anos sob os seus cuidados. “Para mim, são como filhos.
Às vezes, acordo de madrugada, pensando no que posso fazer no outro dia para melhorar a qualidade de vida dos filhotes”, revela. Franci já cuidou de filhotes de lontra, jacaré, lagarto, preguiça, jaguatirica, ariranha, entre outros. “Quando a gente não consegue resolver algum problema de saúde, é muito triste. Mas é muito satisfatório quando eu vejo os filhotes ganhando autonomia para comer, até ficarem prontos para voltar ao seu ambiente natural”, alegra-se.
Barradas e a papa de tamanduá: um sucesso. Foto: Carla Serqueira/MPEG
Entre os tratadores mais antigos, também está Magno Ribeiro, com 23 anos de Museu Goeldi, 13 deles na tratação de animais. Ele lembra, saudoso, de alguns bichos que tiveram vida longa no parque: o peixe-boi Mayra, a onça Guma, a ariranha Erê, o jacaré Alcindo são alguns exemplos.
“Do Guma, eu cuidei até a hora da morte. Levava soro na água, botava do ladinho dele, ele lambia, mal olhava, a gente insistia, mas não teve jeito, morreu de velho. Fizemos o máximo que pudemos”, rememora. Pelo saber acumulado, ele passou a cuidar também das ariranhas, da onça, das antas e dos macacos.
Cuidar de animais em extinção: privilégio
Recentemente, num dia qualquer, uma conversa animada, pela manhã, podia ser ouvida no recinto da arara-azul. Era o tratador Jhon Castro chegando com a comida e se preparando para realizar a limpeza do espaço. Ele falava com a ave, que desceu de uma grade para bicar o cabo da vassoura aos seus pés, depois de receber um cafuné. Além da arara-azul, vivem no Museu Goeldi outras duas espécies ameaçadas de extinção: a onça-pintada e o tamanduá-bandeira. Presentes na lista de espécies vulneráveis, moram no parque quatro espécies: anta, tracajá, jacaré-açu e harpia. Jhon é um dos poucos que a arara-azul deixa entrar no recinto.
Como muitos tratadores, Jhon chegou no museu, há 16 anos, para trabalhar nos serviços gerais. Há três anos, ele desempenha a função de tratador. Está no setor das aves e interage com as araras, os papagaios, as corujas, os socó-boi, os guarás e o mutum-cavalo. De todas as vivências que já teve, uma faz brilhar seus olhos: o dia em que conseguiu segurar a arara-azul.
Nas lembranças mais valiosas para Jhon na função de tratador está o dia em que a arara-azul permitiu que ele a segurasse. Foto: Carla Serqueira/MPEG
“Eu não pegava nela, então eu fui, fui, fui, até que ela me aceitou. Foi muito gratificante. Falei: égua, legal! Ela era brava. Agora não, é só amor”, disse, sorrindo. Segundo ele, a conquista exigiu mais de um ano de paciência e confiança. “Com o tempo, ela percebeu que eu não apresentava risco, que eu fazia o bem, até que ela me aceitou”, comemora
Roberto Maria é o mais recente na equipe. É tratador há dois anos. Perto dos setores da biologia e da veterinária, ele ajuda a manter os recintos da quarentena limpos e com a alimentação servida. Nestes espaços, vivem sete animais resgatados e em processo de reabilitação, sendo três araras, uma jandaia, um bem-te-vi, um aracuã e uma jaguatirica.
Com o apoio dos colegas mais antigos, ele colabora com a manutenção dos lagos dos quelônios e é responsável por alimentar o tamanduá-bandeira. Ele também cuida do urubu-rei, dos jabutis e dos tamanduás-mirins. Antes de ser tratador, foi auxiliar administrativo, eletricista, auxiliar de carpintaria, vendedor de churros e de coxinha. Hoje, se vê como um privilegiado.
“Eu penso assim: a geração futura talvez nem veja um animal desse, só por foto. Então eu me acho um privilegiado, porque estou vendo o animal bem na minha frente, todos os dias. Sempre tento trazer a minha filha para ver também. Ela tem 11 anos. Ela ama ver os bichos e já fala que quer ser médica veterinária”, contou Roberto, acrescentando que sua meta atual é ganhar a confiança da Haru, a tamanduá-bandeira. “Enquanto eu limpo o recinto, fico de olho. É ela de um lado e eu de outro. Mas quando ela está comendo, aproveito, faço um cafuné para ela gostar de mim”, finalizou.
Magno e Roberto: um dos mais antigos tratadores e o mais recente na troca de experiências com o tamanduá-bandeira. Foto: Carla Serqueira/MPEG
A importância do descanso
Além dos nove tratadores do parque, dois folguistas, a Tatiana Dias e o Carlos Eduardo Carmo, garantem uma escala de trabalho que preserva o tempo de descanso da equipe. A bióloga Thatiana Figueiredo explica que a rotina é permanente. “Nossa equipe trabalha de domingo a domingo, incluindo os feriados. Por isso, a escala precisa ser bem construída.
O descanso é muito importante para que a atenção seja renovada. É um trabalho que não dá para ser feito no automático”, defende. Somada à atenção, a sensibilidade ao bem-estar dos animais é outro aspecto importante no perfil. “Além do bom caráter, os tratadores precisam ter um olhar apurado para a saúde e para o comportamento dos animais. Muitas vezes, eles trazem as primeiras informações que vão orientar a atuação das biólogas e dos veterinários”, explica.
Magno, Eduardo, Roberto, Barradas, Jhon, Nazareno, Elizete e Franci: equipe de tratadores de animais do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi. Foto: Carla Serqueira/MPEG
De acordo com Thatiana, não há, em Belém, cursos de formação profissional específicos para tratadores de animais. “Aqui, ensinamos as técnicas de contenção, as diferenças entre os grupos de animais: como um mamífero se comporta, uma ave, um réptil. O aprendizado é construído no dia a dia. Os mais experientes também auxiliam na formação dos mais novos.
Em outros locais do Brasil, existem treinamentos para tratadores. Na maioria dos zoológicos do centro-sul, os tratadores são veterinários e biólogos. Há uma tendência muito grande dos tratadores se tornarem biólogos e veterinários, principalmente biólogos”, analisa. Para estimular o reconhecimento da importância do trabalho dos trabalhadores de animais, em 2015, foi criado o Dia Internacional dos Tratadores de Animais, coincidindo, propositadamente, com o Dia Mundial dos Animais, instituído desde 1931.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, escrito por Carla Serqueira
O Festival Psica 2026 completa o line-up da edição que ocupa Belém (PA) nos dias 11, 12 e 13 de dezembro, reunindo mais de 40 atrações, entre artistas do Pará e de diferentes territórios da Amazônia, nomes de outras regiões do Brasil, encontros inéditos e aparelhagens.
Esta nova leva de anúncios reúne: Zeca Pagodinho, Alceu Valença, Don L, Rachel Reis, Mateus Aleluia, Ratos de Porão, Mad Professor, Boi Caprichoso & Boi Garantido, Cidadão Instigado, Black Pantera convida MC Taya, Nandatsunami convida Bia Soull, Banda AR15, Nazaré Pereira convida Lia de Itamaracá, Sayonara, MU540, Batucada Misteriosa, Carabao O Máximo do Marajó, Bumbá Beat, AQNO, Vita convida Katy e as Abusadas, DJ Hud O Brabo, Pantera Black convida Matemba, Radiola Black Star, Alex Roots, Nat/Esquema, Búfalo do Marajó A Força, Emiciomar, Bruna BG e Afrotonni, Baile do Mestre Cupijó convida Eloi Iglesias, Raízes Latinas convida Mestre Curica e Mestre Solano e Verocunt Ball convida Disputa Nervosa.
Os novos anunciados se juntam a atrações como Gaby Amarantos com Rock Doido, Criolo com Nó na Orelha, Marcelo D2 com Manual Prático do Novo Samba Tradicional, Fresno, Ebony, Ave Sangria, Os Amantes e Victor Xamã e mais durante os três dias de programação.
“O Festival Psica é um festival amazônida, preto e periférico. Então, o nosso posicionamento está muito alinhado com o que a gente é. É um festival que defende as políticas públicas de todo jeito, políticas públicas positivas para a periferia, para o Norte, para a Amazônia são fundamentais para a gente. A gente defende muito a cultura, a nossa principal pauta, mas a gente se preocupa com direitos iguais, como equidade de gênero e raça. O Festival Psica é um festival com uma identidade forte. Essa identidade forte vem a partir do protagonismo dos artistas do nosso território”, reflete Jeft Dias, diretor e curador do Psica.
Mais do que reunir diferentes gerações e gêneros, a curadoria parte do conceito que orienta toda a edição: “Nosso Tempo é o Norte”. Se em anos anteriores o Psica propôs contar outros Brasis a partir da Amazônia, em 2026 o movimento avança: o Norte deixa de ser apenas o ponto de onde se olha e se afirma também como referência para pensar cultura, território, preservação e futuro.
É uma continuidade da lógica que acompanha o festival há 14 edições, na qual a Amazônia não aparece como recorte, mas como centro da narrativa. Na edição de 2025, esse encontro reuniu 110 mil pessoas em três dias, com mais de 70 atrações, e consolidou o Psica como Patrimônio Cultural Imaterial de Belém.
“O processo de construção deste ano amadureceu para se tornar ainda mais coletivo, tecendo as múltiplas mentalidades e corações que sustentam o Festival Psica. Desde 2018, buscamos temas que traduzam a Amazônia real: nossas vivências, nosso modo de ver a vida e os sistemas de existência que criamos a partir do nosso território. A profundidade de ‘Nosso Tempo é o Norte’ reside exatamente nisso: ele não é uma ideia imposta de fora, ele nasce do que nós somos”, explica Bruna Suelen, diretora criativa e autora do Manifesto do Psica 2026.
Para Bruna, o conceito também propõe inverter referências historicamente estabelecidas sobre a produção cultural brasileira. “Em meio a tantos cataclismas e crises na contemporaneidade, propomos um novo referencial cultural com um olhar afirmativo, de quem conhece a própria grandeza. Sugerimos que o Norte seja o guia da produção cultural do Brasil. Temos aqui uma riqueza imensa: formas de vida em resistência, alegrias ancestrais milenares e as sabedorias da terra, da água e da floresta”.
Sexta-feira gratuita abre o Psica pela Cidade Velha
A abertura do festival, na sexta-feira (11), mantém uma das características centrais do Psica: a ocupação gratuita da Cidade Velha, transformando o centro histórico de Belém em território para cortejos, música, cultura popular, performances, radiolas e aparelhagens. Em 2026, essa primeira noite reúne Cortejo Encantado, Raízes Latinas convida Mestre Curica e Mestre Solano, Luxuosos Corações convidam Bell Brandão e Jhimmy Feiches, Verocunt Ball convida Disputa Nervosa, Baile do Mestre Cupijó convida Eloi Iglesias, Emiciomar, Nazaré Pereira convida Lia de Itamaracá, Coletivo Cabanus, Ave Sangria, Rachel Reis, Radiola Black Star e Icônico Tupinambá.
A escolha mantém a abertura como uma experiência especialmente ligada às expressões populares e periféricas da Amazônia. Em 2026, a programação aproxima gerações e territórios: Nazaré Pereira e Lia de Itamaracá se encontram no mesmo show; Mestre Curica e Mestre Solano são convidados do Raízes Latinas; Eloi Iglesias se junta ao Baile do Mestre Cupijó; enquanto aparelhagens e radiolas dividem a noite com rock psicodélico, música eletrônica, performance e novas produções amazônicas.
A gratuidade também reforça uma decisão histórica do festival de democratizar o acesso. No anúncio das datas deste ano, o Psica já havia destacado a abertura como um momento em que o centro histórico é tomado pela cultura popular e periférica, em uma vivência atravessada por tecnobrega, carimbó, reggae e pelas conexões da Amazônia com outros territórios.
O Norte comanda o Mangueirão
Depois da ocupação da Cidade Velha, o Psica segue para o Mangueirão, reunindo parte expressiva do line-up completo. Passam pelo estádio Alceu Valença, Zeca Pagodinho, Gaby Amarantos, Criolo, Marcelo D2, Fresno, Don L, Ebony, Mateus Aleluia, Os Amantes, Nandatsunami convida Bia Soull, Pinduca convida Eliana Pittman, Boi Caprichoso & Boi Garantido, Victor Xamã, Cidadão Instigado, Ratos de Porão, Black Pantera convida MC Taya, Mad Professor, Banda AR15, Bumbá Beat, Bruna BG e Afrotonni, AQNO, Vita convida Katy e as Abusadas, Sayonara, Os Renascentistas, Pantera Black convida Matemba, Batucada Misteriosa, Carabao O Máximo do Marajó, MU540 e Búfalo do Marajó A Força, além de sets de Rock dos Brabos, Alex Roots e Nat/Esquema.
A programação coloca lado a lado artistas que ajudam a contar diferentes momentos da música brasileira e projetos diretamente ligados às cenas amazônicas. Do samba de Zeca Pagodinho à trajetória de Alceu Valença; do rap de Don L, Ebony, Criolo, Marcelo D2, Nandatsunami e Victor Xamã ao rock de Fresno, Cidadão Instigado e Ratos de Porão; das aparelhagens e sonoridades periféricas amazônicas às manifestações populares representadas pelo encontro entre os bois Caprichoso e Garantido, o line-up parte do Norte para construir suas conexões.
Entre os encontros que ajudam a traduzir essa proposta estão os homenageados da edição Pinduca convida Eliana Pittman, já anunciado pelo festival. O Rei do Carimbó e a cantora se reencontram em um espetáculo que recupera dois percursos fundamentais para a circulação do gênero para além da Amazônia. Pinduca transformou o carimbó incorporando guitarras, teclados e referências caribenhas, enquanto Eliana ajudou a apresentá-lo a públicos de outras partes do Brasil e do mundo.
Outra imagem do território amazônico em diálogo aparece no encontro entre Boi Caprichoso & Boi Garantido, que leva ao festival duas das manifestações centrais da cultura popular do Amazonas. A presença dos bois se soma a uma programação em que artistas paraenses, amazonenses e de outras partes do Norte não funcionam como complemento de uma escalação nacional: estão no centro da construção artística do festival.
Essa perspectiva atravessa também a reflexão proposta por “Nosso Tempo é o Norte”. “A construção do line-up sempre se baseia no protagonismo dos artistas do Norte. Então, por isso faz muito sentido a gente trazer os bois de volta; Gaby Amarantos completando um ano de Rock Doido, que foi um álbum que ganhou o Brasil inteiro; botar o Pinduca em uma posição de destaque, de protagonismo também. Segue a nossa linha curatorial, que é justamente isso que eu falei: visibilidade para os nossos artistas, visibilidade para os artistas que já têm muito tempo de carreira”, afirma Gerson Dias, diretor e curador do Psica.
A dimensão nacional desse chamado já aparece também no público. Na última edição, 46% das pessoas que passaram pelo Psica vieram de fora de Belém, e 34% dos ingressos foram vendidos para outros estados, com presença de público de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Amapá, Amazonas e Bahia. Em 2026, o festival retoma esse movimento propondo outra direção para a bússola: “Nosso Tempo é o Norte”.
Line-up completo — Festival Psica 2026
Alceu Valença;
Alex Roots;
AQNO;
Ave Sangria;
Banda AR15;
Baile do Mestre Cupijó convida Eloi Iglesias;
Batucada Misteriosa;
Black Pantera convida MC Taya;
Boi Caprichoso & Boi Garantido;
Bruna BG e Afrotonni;
Búfalo do Marajó A Força;
Bumbá Beat;
Carabao O Máximo do Marajó;
Cidadão Instigado;
Coletivo Cabanus;
Cortejo Encantado;
Criolo apresenta Nó na Orelha;
Rock dos Brabos;
Don L;
Ebony;
Emiciomar;
Fresno;
Gaby Amarantos;
Icônico Tupinambá;
Luxuosos Corações convidam Bell Brandão e Jhimmy Feiches;
Mad Professor;
Marcelo D2 apresenta Manual Prático do Novo Samba Tradicional;
Mateus Aleluia;
MU540;
Nandatsunami convida Bia Soull;
Nat/Esquema;
Nazaré Pereira convida Lia de Itamaracá;
Os Amantes;
Os Renascentistas;
Pantera Black convida Matemba;
Pinduca convida Eliana Pittman;
Rachel Reis;
Radiola Black Star;
Raízes Latinas convida Mestre Curica e Mestre Solano;
Márcia Kambeba é doutora em Linguística, mestre em Geografia, escritora com 11 livros publicados, poeta, apresentadora, fotógrafa, compositora, cantora, palestrante sobre temas indígenas e ambientais, contadora de histórias e educador. Foto: Arquivo pessoal/Nonada
Na literatura brasileira, a realidade das urgências climáticas extrapola a ficção. Livros de diferentes gêneros abordam catástrofes ambientais ocorridas em várias regiões do país, percorrendo lugares e vivências que vão desde a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, às margens do Rio Xingu, no Norte do Pará, até as enchentes que inundaram todo o Rio Grande do Sul.
O universo literário consegue tensionar e ampliar a percepção que temos das destruições ambientais. É nesse movimento que algumas obras dialogam com o que se convencionou chamar de ficção climática, ou cli-fi, abreviação de climate fiction, termo associado ao jornalista estadunidense Dan Bloom, e popularizado a partir de meados de 2007.
Mais do que retratar fenômenos naturais e crimes ambientais, essas narrativas exploram seus impactos sobre pessoas e territórios, trazendo à tona questões como desigualdade social, racismo ambiental, deslocamentos forçados e o direito à memória e ao luto.
A escritora Natália Borges Polesso, referência nos debates sobre o Antropoceno no Brasil, amplia a discussão ao sustentar que a ficção científica se limita quando restringe sua abordagem às mudanças climáticas. Doutora em Teoria Literária e professora, ela defende que a questão climática é mais complexa e deve ser compreendida a partir das múltiplas relações que envolvem o Antropoceno. Natália explica:
Além da escrita, Natalia Borges Polesso se dedica à pesquisa sobre o Antropoceno e o aparecimento das questões climáticas na literatura. Foto: Arquivo pessoal/Nonada
“Não que mudanças climáticas seja algo desimportante, mas eu acho que elas são um sintoma de coisas muito maiores. Porque, por exemplo, as mudanças climáticas podem ser um resultado do neoliberalismo, dos processos da colonização. Quando houve a invasão das Américas pelos europeus, a gente teve uma grande mudança de biomas e do modo de habitar a terra”, reflete Polesso, autora de oito livros entre eles, Amora (2015), vencedor dos Prêmio Jabuti; Controle (2019), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e A extinção das abelhas (2021), finalista dos Prêmios Jabuti e São Paulo.
A autora afirma que a literatura brasileira vem sendo cada vez mais atravessada por questões ambientais em textos recentes e agrega, neste contexto, elementos de personagens, espaço e temporalidade. Ela afirma que as mudanças, nas últimas décadas, estão afetando o nosso modo de pensar, nossos imaginários, e, inclusive, nossa forma de conceber o futuro.
Segundo ela: “A presença de questões ambientais na literatura brasileira tem subido bastante”. A reflexão tem base na pesquisa Atlas do Antropoceno, realizada a partir de um levantamento feito na Escola de Humanidades da PUCRS, onde é professora.
O mapeamento, iniciado há cerca de um ano, já reúne 140 livros. A maior parte das obras foi publicada entre 2010 e 2026, mas o levantamento retrocede aos anos 2000, período em que o termo Antropoceno foi criado.
Em meio aos conceitos, as devastações ambientais ganham rostos, endereços, nomes e sentimentos. Como pontua Maria José Silveira, escritora e antropóloga goiana, sobre o romance Maria Altamira (2020).
“A literatura tem um grande trunfo: a possibilidade de criar personagens e entrar na subjetividade deles. Porque a literatura entra, e, é isso, a ficção. Assim, acontecimentos reais deixam de ser apenas fatos e ganham dimensão humana na ficção. A escritora também questiona a distância que alguns autores mantêm do que acontece ao redor: “Não querem olhar a realidade. Não se debruçam na janela para ver as coisas acontecendo”, afirma.
Muito antes de a ficção climática se tornar um conceito contemporâneo, a escrita indígena já trazia, em suas contações de histórias e fabulações de mundos, uma relação indissociável com a natureza. Na cosmovisão do povo Kambeba, prevalece a perspectiva de bem viver, baseada na relação com outros seres e com os encantados, em que ficção e realidade se entrelaçam. Em entrevista ao Nonada, Márcia Wayna Kambeba, escritora e geógrafa indígena do povo Omágua, do Alto Solimões, na Amazônia, conta sobre sua obra O Lugar do Saber Ancestral (2021), livro que reúne 44 poemas. Ela define a própria literatura: “Minha poesia é decolonial, ambiental e ecopoesia”.
Segundo a poeta, a matinta, o boto e o curupira, por exemplo, não são folclore, lenda ou fantasia, mas seres que integram a natureza e se comunicam. Para ela, o próprio território comunica, e tudo o que existe dentro dele também estabelece formas de comunicação. Essa forma de compreender o não humano também está presente na própria origem do povo Kambeba. Márcia explica que seu povo nasceu da água:
“O povo Kambeba, ao qual pertenço, nasceu de uma gota d’água. Então, o céu se abriu, uma grande chuva caiu, uma gota grande trouxe duas gotas menores. Então, elas vieram bailando e caíram no igarapé e nasceu o homem e a mulher. Isso para vocês (não indígenas) é mito, é lenda, é folclore, para a gente não é. Porque isso conta parte de um olhar amplo da vida”, explica.
A tradução da realidade vivida passa também pela linguagem e pelos significados das palavras. Márcia escreve seus livros em duas línguas como forma de aproximar diferentes públicos, permitindo que seus parentes nas aldeias também se reconheçam nas obras e se sintam representados. Para leitores não indígenas, as publicações contam com glossários que explicam palavras e expressões da língua tupi. Suas produções também chegam às salas de aula e ao Enem, evidenciando o alcance educativo de sua obra.
Conheça oito livros de ficção que abordam literatura ambiental por acontecimentos brasileiros
A Mancha, de Guilherme Gontijo Flores e Daniel Kondo (2021)
Foto: Divulgação
Em 2019, um derramamento de óleo espalhou uma enorme mancha de petróleo cru por mais de mil pontos do país, entre praias do Nordeste e parte do Sudeste, segundo um dos primeiros balanços do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A substância atingiu ecossistemas costeiros, como mangues e recifes de corais, além de diversos animais marinhos, entre eles tartarugas, aves e peixes. Esse episódio inspirou A Mancha (2021), obra dos autores Guilherme Gontijo Flores e Daniel Kondo, publicada pela editora FTD Educação. Em poesia para o público infantil, a obra constrói uma narrativa visual lúdica e vibrante em que a ameaça representada pelo petróleo se torna um risco à vida em sociedade.
Coração na aldeia, pés no mundo, de Auritha Tabajara (2018)
Foto: Divulgação
Nascida na aldeia Emburana, do povo Tabajara, no Ceará, Auritha revisita suas memórias ao narrar, em terceira pessoa, as saídas e os retornos ao território de origem em busca de uma vida melhor em Fortaleza. A experiência na cidade revela fronteiras linguísticas e geográficas, enquanto a narrativa percorre a maternidade, a descoberta de sua sexualidade lésbica e a relação com a mãe-avó e sua comunidade. Em versos de cordel, a autora transforma essas vivências em uma história de ritmo e rimas sobre ancestralidade, deslocamento e pertencimento.
Coração na aldeia, pés no mundo é uma autobiografia em cordel, lançada em 2018 pela Uk’a Editorial, com xilogravuras de Regina Drozina. O título sintetiza a relação de Auritha com o território: enquanto seus “pés estão no mundo”, seu “coração permanece na aldeia”, ligado às tradições de seu povo.
Corpos Benzidos em Metal Pesado, de Pedro Augusto Baía (2023)
Foto: Divulgação
A trama acompanha personagens que convivem com os impactos do garimpo ilegal, da mineração, da violência contra povos indígenas e quilombolas e da contaminação dos rios e dos próprios corpos por metais pesados na Amazônia. Em meio aos conflitos, a narrativa também encontra espaço para a ternura e a aproximação genuína. No conto “Carne de boi”, uma menina se pergunta: “como um rio limpinho consegue morar dentro de uma palavra tão pequena”.
Inspirado no cenário e nas vivências do Norte do país, o autor paranaense Pedro Augusto Baía lança seu livro de estreia, com 11 contos, publicado pela editora Record. As histórias percorrem diferentes facetas da região e misturam religiosidade, afetos, identidades e corpos às experiências de quem vive ali. Conforme os metais se entranham e vão tirando a vida ao redor, a oralidade presente no texto cumpre um papel na preservação da memória coletiva. A obra foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2022, na categoria Contos.
Maria Altamira, de Maria José Silveira (2020)
Foto: Divulgação
A história de Maria Altamira se entrelaça às experiências da própria escritora Maria José Silveira no Peru e no Xingu. Durante o período em que viveu no Peru, em meio ao exílio da ditadura militar brasileira, estudou antropologia. Em uma viagem pelos Andes, a autora passou por Yungay e fixou na memória as imagens da cidade soterrada. Anos depois, em 2015, acompanhou as manifestações contra Belo Monte na Avenida Paulista e esteve no Xingu, onde conheceu de perto os impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
“Conheci e tive assim uma vivência ali e por isso, eu voltei mudada de lá. Porque ao ver a força dos indígenas, como eles estavam lutando contra aquela devastação que estava ameaçando a vida deles”, afirma Maria.
No romance, um terremoto soterra Yungay, no Peru, em 1970. Entre as sobreviventes está Alelí, que atravessa a América do Sul até chegar ao Xingu. Anos depois, sua filha, Maria Altamira, acompanha os impactos de Belo Monte sobre comunidades ribeirinhas e indígenas. Ao aproximar Yungay e o Xingu, o romance conecta diferentes formas de devastação, deslocamento e perda. A trama atravessa fronteiras e conecta pessoas de diferentes países, mas também encontra espaço para mostrar a alegria, a cultura e a existência dos povos originários.
O lugar do saber ancestral, de Márcia Wayna Kambeba (2021)
Foto: Divulgação
A poesia indígena ora se torna mãe natureza, ora o próprio povo. Nos textos de Márcia Kambeba, essa relação parte de uma compreensão de que natureza, memória, identidade e vida não se separam. Para a escritora e compositora, a literatura nasce de uma realidade vivida no cotidiano, como explica em entrevista:
“Entendendo que tudo que que está dentro da natureza tem vida, portanto tem espírito. Então eu não vou derrubar uma árvore de qualquer jeito, que eu estou derrubando uma irmã. E ela sente dor. E eu sinto dor. E eu dependo dela e ela depende de mim.”
É a partir desse olhar que a natureza também ganha voz em sua poesia. Em Lamento da água, a devastação ambiental é narrada pelo próprio rio, que sente a poluição, a seca e a morte dos animais:
“Uma lata cortou meu coração, Sangrei tanto que secou o rio Solimões. Magoada pela falta de educação, Deixei de correr e veja só a situação. A terra seca parecia um sertão, Os peixes agonizavam sem respiração, Até a sucuri quis fugir da devastação”.
O Gosto Amargo dos Metais, de Prisca Agustoni (2022)
Foto: Divulgação
Em Minas Gerais, os rompimentos das barragens de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, não deixaram apenas marcas na paisagem. Mataram pessoas, destruíram comunidades, alteraram rios e modos de vida e produziram perdas que continuam sendo reparadas anos depois. É diante dessa dimensão da devastação que a autora e professora Prisca Agustoni, suíça radicada no Brasil, transforma a mudez em poesia.
Publicado pela 7Letras, O gosto amargo dos metais traz o extrativismo e as consequências da mineração pela experiência de quem testemunhou esses acontecimentos. Prisca conta que ficou muda diante dos crimes ambientais e encontrou na poesia uma forma de externalizar esse vazio, traduzindo a mudez pela aspereza das palavras e por imagens secas como lama endurecida:
“Avança a agonia sobre o Rio, escavando com lascas de unhas e dentes de ferro até o fundo, até engolir o gosto amargo dos metais.” O trecho integra a introdução do livro e dá nome à obra. O livro foi vencedor do Prêmio Oceanos de 2023, na categoria poesia.
Contra Fogo, de Pablo Casella (2024)
Foto: Divulgação
Na Chapada Diamantina, na Bahia, o período de estiagem costuma se estender de maio a dezembro, segundo a Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema), com maior ocorrência de queimadas entre agosto e outubro, quando a vegetação fica mais vulnerável ao fogo. Além das condições climáticas, as queimadas na região também estão relacionadas a ações criminosas e a fatores socioeconômicos. Em meio às chamas, brigadistas voluntários e moradores atuam no combate ao fogo que avança sobre a fauna, a flora e os rios.
É nesse contexto que se passa Contra Fogo, da editora Todavia, romance de estreia do biólogo Pablo Casella. Com uma linguagem marcada pela oralidade, o livro acompanha a rotina de uma brigada voluntária de combate a incêndios e os dilemas de quem transforma o enfrentamento ao fogo em uma missão. A emergência climática atravessa a narrativa, enquanto as queimadas afetam a biodiversidade e o ecoturismo da região.
Porto Alba, de Irka Barrios (2026)
Foto: Divulgação
Em Porto Alba, uma cidade fronteiriça às margens de um rio, uma misteriosa doença conhecida como Mal-do-Rio começa a apavorar os moradores. Pouco antes da pandemia de Covid-19 e de uma devastadora inundação, a médica Ana chega à região para investigar os acontecimentos e descobre uma possível relação entre a doença, a construção de uma hidrelétrica e a ameaça de desapropriação das terras. Enquanto a comunidade resiste às mudanças que podem transformar para sempre o território, a trama mergulha em silêncios, conflitos e casos inquietantes.
Porto Alba, romance da escritora porto-alegrense Irka Barrios, publicado pela Autêntica Contemporânea, transita entre o suspense psicológico, o horror corporal, as questões ambientais e as descobertas científicas. A obra explora nossa relação com a natureza e a dificuldade de aceitar aquilo que é indomável e incontrolável.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Letícia Gonçalves.
Estiagem faz rio Madeira secar e coloca Porto Velho em estado de emergência. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho
Praias gigantes se formaram onde antes existia apenas água no rio Madeira, em Porto Velho (RO). O cenário, causado pela estiagem, colocou a capital de Rondônia em situação de emergência. Segundo a Defesa Civil Municipal, mais de 22 mil pessoas são afetadas pela seca.
A região Norte possui períodos regulares de estiagem, popularmente conhecidos como “verão amazônico“, que ocorre entre julho e novembro. No entanto, monitoramentos feitos pelo SipamHidro, plataforma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), mostram que o rio está mais de um metro abaixo do esperado para esta época do ano.
Nesta terça-feira (6) o Madeira bateu 2,62 metros, enquanto a média para o período é de 3,9 metros.
Seca do rio Madeira, em Porto Velho, outubro de 2026. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho
Desde 1º de Outubro, quando atingiu a média dos 3 metros pela última vez, o nível do rio vem reduzindo constantemente. Imagens registradas pela Defesa Civil mostram praias e bancos de areia gigantes no meio do rio.
Marcelo Duarte, diretor executivo da Superintendência Municipal de Proteção e Defesa Civil, aponta que o cenário foi agravado pela influência do fenômeno El Niño.
“O El Ninõ, o efeito que a gente já está monitorando desde o começo do ano, ele agravou essa situação. Essa situação da estiagem é algo que ocorre todos os anos, mas esse ano ela foi agravada por conta do fenômeno e de todos os efeitos que dão ao redor dele”, explicou.
Seca do rio Madeira, em Porto Velho. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho
As comunidades ribeirinhas que vivem no Alto, no Médio e no Baixo Madeira, às margens do rio, não possuem acesso à água encanada e dependem de poços artesianos, que estão secos.
Além da falta de água, a estiagem do rio também tem afetado o deslocamento dos ribeirinhos, que dependem da navegação.
“O nível do rio está muito baixo. Hoje ele está com 2,67. Ontem nós tivemos 2,54. As outras comunidades que ficam mais abaixo, elas são muito mais afetadas em decorrência de um volume muito alto ali de um banco de areia, dificuldade de acesso e as restrições com relação aos poços”, aponta Marcelo Duarte.
Segundo a Prefeitura de Porto Velho, cerca de 22,9 mil pessoas são afetadas pela estiagem em 85 localidades, entre áreas rurais, ribeirinhas e aldeias indígenas.
Diante do cenário, o prefeito da cidade assinou decreto, classificando a emergência como “desastre de nível II”. O objetivo é solicitar dos governos estadual e federal para fornecimento de água potável por meio de caminhões-pipa e embarcações, além de dispensar licitação para compras em situação de emergência. A situação de emergência tem validade de 180 dias.
Ribeirinhos às margens do rio Madeira seco em Porto Velho. Foto: Reprodução/Defesa Civil de Porto Velho
Avenida Paulista, 5 de setembro de 2024, 15h. A poluição do trânsito faz com que a concentração de poluentes (classificados como material particulado) seja de 31,87 ug (microgramas) por m³ — duas vezes acima do recomendável. No mesmo dia e horário, longe dali, na terra indígena Parque do Aripuanã, em Vilhena (RO), uma nuvem de fumaça surge em meio à vegetação nativa. A concentração de poluentes registada é de 197,32 ug/m³ — 13 vezes acima do recomendável.
A fonte? Queimadas e incêndios florestais que se alastraram pela região durante um dos períodos de seca mais críticos do estado.
Para ampliar o monitoramento da qualidade do ar no Brasil, especialmente onde vivem povos e comunidades tradicionais, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) lançou a RedeAr, plataforma que disponibiliza dados em tempo real sobre a concentração de material particulado na atmosfera, emitido principalmente por queimadas.
Os pesquisadores da iniciativa desenvolveram um sensor nacional, mais barato, mais resistente e adaptado ao clima tropical. Além da concentração de partículas no ar, o equipamento também coleta uma variedade maior de informações, como temperatura, pressão e umidade.
A exposição ao PM 2.5, material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer de pulmão. Em 2024, essas partículas, 30 vezes menores que a espessura de um fio de cabelo, cobriram porções da Amazônia por até 138 dias.
“As pessoas que menos desmatam no Brasil, como povos e comunidades tradicionais, podem estar respirando o pior ar do país. E é justamente nas áreas onde essas populações vivem que temos a maior lacuna de dados sobre poluição”, comenta Filipe Arruda, pesquisador do IPAM e idealizador da RedeAr.
Imagem: Reprodução/Rede Ar
RedeAr deve ser ampliada
Atualmente, a iniciativa conta com 93 sensores de qualidade do ar instalados em 13 Estados, incluindo todos os da Amazônia Legal e alguns do Cerrado e do Pantanal. A perspectiva é de ampliação para todo o Brasil.
Além de monitorar a qualidade do ar das cidades, a plataforma fornece atualizações frequentes sobre unidades de conservação, áreas rurais e escolas. Os dados podem ser utilizados para apoiar políticas públicas de saúde e meio ambiente, além de esclarecer e engajar a sociedade sobre os impactos do fogo.
“As queimadas geram bilhões em prejuízos por ano. Seja por emissões de carbono, sobrecarga do Sistema Único de Saúde ou paralisação de aeroportos. A previsão de um El Niño potencializado pelo aumento da temperatura é a receita perfeita para mais incêndios. Por isso, a necessidade de uma rede de monitoramento que engaje as comunidades no processo”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
Entre versos e saberes do campo, “Seu Ceará” transforma defesa de TCC em formato de cordel em experiência acadêmica na Unifesspa. Foto: Divulgação/Unifesspa
“Eu sou migrante nordestino / filho de agricultor”.
Foi assim, em versos, que Francisco Valter Pinheiro Gomes começou a contar sua história. Não apenas a história registrada nas páginas de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas a própria trajetória que o levou até a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).
Conhecido como “Seu Ceará”, Francisco Valter escolheu uma forma pouco convencional para apresentar o resultado de sua formação na Licenciatura em Educação do Campo: recitou seu TCC em cordel. Em vez de transformar a defesa em uma sequência convencional de tópicos e slides, levou para diante da banca uma linguagem que atravessa sua vida, sua cultura e sua relação com o campo.
E a banca também entrou no verso. Na defesa pública, realizada em 28 de agosto de 2026, o professor Diego de Macedo Rodrigues, membro da comissão avaliadora, fez toda a sua arguição rimando, também em formato de cordel.
O que poderia ser apenas uma etapa formal da graduação ganhou outra dimensão: tornou-se um encontro entre ciência e poesia, entre conhecimento acadêmico e experiência de vida, entre a universidade e os saberes que chegam a ela a partir dos territórios.
Foto: Divulgação/Unifesspa
A defesa reuniu ainda os professores Amintas Lopes da Silva Junior, orientador e presidente da banca, Ailce Margarida Negreiros Alves e Hiran de Moura Possas.
Um TCC que começa antes da universidade
O trabalho apresentado por Seu Ceará tem como título ‘Territórios de esperança: resistindo ao avanço do capital na fronteira e à violência no campo’. Elaborado no curso de Licenciatura em Educação do Campo, com ênfase em Ciências Agrárias e da Natureza, o estudo discute o avanço do capitalismo autoritário no Sul e Sudeste do Pará, os processos de expropriação e violência no campo e, em contraponto, as possibilidades construídas pela agroecologia, pela Educação do Campo e pelas lutas dos povos do território. Mas a pesquisa começa muito antes da escrita acadêmica.
Em seu TCC, Seu Ceará se descreve como migrante nordestino e filho de agricultor. Foto: Divulgação/Unifesspa
No próprio TCC, Francisco Valter se apresenta como migrante nordestino e filho de agricultor. Conta que nasceu em Quixadá, no Ceará, cresceu convivendo com a seca e aprendeu desde cedo o trabalho da roça. Sua narrativa passa pela migração para o Pará, pela luta por terra, pela organização comunitária, pela criação de uma associação e pela construção de uma escola em um barracão para que as crianças da comunidade pudessem estudar.
A universidade aparece, nessa trajetória, como resultado de uma luta que não começou dentro dela. Francisco Valter conta que participou de discussões pela criação da Unifesspa e acompanhava as primeiras turmas da Educação do Campo. Participava de mesas, palestras e atividades do curso, até que alguém lhe fez uma pergunta que acabaria mudando sua própria trajetória: por que ele não estava estudando? Ele decidiu tentar.
Ingressou pelo Processo Seletivo Especial e, segundo seu próprio relato, foi aprovado em primeiro lugar. A chegada à universidade, entretanto, trouxe desafios. Entre eles, aprender a lidar com computador, escrita acadêmica e normas como a ABNT. Mas, ao longo do percurso, também aconteceu outra descoberta: o conhecimento que ele trazia do campo não precisava ser deixado do lado de fora da universidade.
“No diálogo com doutores e mestres / eu fui logo percebendo / que o camponês também sabe / aí eu fui no saber crescendo”.
A passagem sintetiza uma dimensão central de sua formação: o encontro entre os conhecimentos construídos na experiência e aqueles sistematizados pela ciência.
Quando a experiência de vida também vira conhecimento
Ao longo do curso, Seu Ceará relata o contato com conteúdos relacionados ao território, agricultura, solos, plantas, sistemas agroflorestais, trabalho, exploração da mão de obra, Estado, política, educação e políticas públicas. A formação, segundo ele, foi construindo uma ponte entre teoria e prática.
“Com teoria e prática / eu fui me apropriando / do conhecimento científico / para continuar lutando / hoje eu estou aprendendo / amanhã estou ensinando”.
É também nesse processo que aparece a ideia de sua formação como educador do campo. O TCC registra que, ao concluir a graduação, ele se sente preparado para assumir essa que chama de sua “velha e nova profissão”. A escolha do cordel, portanto, não surge como recurso meramente estético. Ela está relacionada à própria concepção do trabalho.
Entre os objetivos específicos da pesquisa, Francisco Valter estabelece a intenção de valorizar a literatura de cordel e sua pedagogia na Educação do Campo, além de reafirmar a Educação do Campo como direito e como processo que não acontece somente dentro da escola, mas também no viver e no fazer das comunidades. Em outro momento, ele explica diretamente a opção pela linguagem:
“Este trabalho é narrado / na forma de TCC / onde busco na pesquisa / os versos que vou fazer / com cultura e ciência / vamos agora escrever”.
Nesse percurso, o papel do orientador, professor Amintas Lopes da Silva Junior, aparece de maneira especialmente significativa. Nos agradecimentos, Francisco Valter não apenas registra sua gratidão ao professor. Ele descreve uma relação de orientação marcada pela escuta e pelo reconhecimento dos saberes que o estudante trazia consigo:
“Ao professor Amintas, meu orientador que, com sabedoria, escuta e respeito, soube caminhar comigo, valorizando os saberes do campo como parte essencial do conhecimento”.
A afirmação ajuda a compreender a própria natureza do trabalho. A orientação não significou apenas conduzir um estudante pelas etapas formais de elaboração de um TCC. Foi também acompanhar a construção de uma pesquisa em que memória, experiência, cultura popular e conhecimento científico pudessem coexistir.
Essa perspectiva está presente desde as primeiras páginas. Seu Ceará define sua introdução como um memorial escrito em cordel e afirma que, para ele, essa linguagem é cultural. O resultado é um trabalho que não esconde a trajetória pessoal de seu autor. Ao contrário, faz dela uma das chaves para compreender o objeto da pesquisa.
Foto: Divulgação/Unifesspa
A banca também entrou no cordel
Foi diante dessa construção que aconteceu a defesa. Seu Ceará apresentou o trabalho em versos. E a resposta da banca veio na mesma linguagem. A participação do professor Diego de Macedo Rodrigues, do Instituto de Estudos em Desenvolvimento Agrário e Regional (IEDAR), ganhou uma dimensão particular ao realizar toda a arguição também em cordel.
A cena estabelece um diálogo raro dentro de uma defesa acadêmica: o estudante apresenta sua pesquisa a partir de uma linguagem que reconhece como própria, e o professor avaliador responde utilizando a mesma forma poética. Não se tratava, porém, de abandonar a universidade ou os procedimentos de avaliação. Tratava-se de permitir que a própria defesa encontrasse uma linguagem coerente com o trabalho que estava sendo apresentado. O cordel, nesse caso, não estava à margem da pesquisa. Fazia parte dela.
O próprio TCC é estruturado como uma narrativa em atos. Seu Ceará organiza a pesquisa em cinco movimentos:
“Expropriação, conflito e resistência”;
“O poder, o Estado e o mercado”;
“A violência no campo é a história que todos contam”;
“A besta fera é o capital autoritário”;
e “Território de esperança ou Educação do Campo e agroecologia”.
Ao longo dos capítulos, dialoga com autores e pesquisas sobre a formação territorial da Amazônia e do Sul e Sudeste do Pará, a expansão do agronegócio, a expropriação, os conflitos fundiários e a violência no campo. Mas a narrativa não termina na denúncia.
No último movimento, o autor desloca o olhar para aquilo que chama de “territórios de esperança”, aproximando agroecologia, Educação do Campo, soberania alimentar, conhecimentos tradicionais e formas de resistência construídas pelos povos do campo. Essa perspectiva também aparece no resumo do trabalho, que anuncia a agroecologia e a Educação do Campo como caminhos para a construção desses territórios de esperança. É uma característica importante da pesquisa: Seu Ceará escreve sobre conflitos e violência, mas também escreve sobre aquilo que nasce da resistência.
Uma universidade que também aprende com seus estudantes
A experiência de Francisco Valter dialoga profundamente com o sentido da Educação do Campo: uma formação que reconhece os sujeitos, os territórios e os conhecimentos que historicamente foram produzidos fora dos espaços acadêmicos tradicionais.
Na trajetória narrada pelo próprio estudante, a universidade não aparece como o lugar onde ele finalmente deixou para trás aquilo que sabia. Aparece como o espaço em que esses saberes puderam encontrar novas ferramentas, conceitos e possibilidades de sistematização. É por isso que sua defesa ganha significado para além da cerimônia de conclusão de curso.
Quando Seu Ceará recita seu TCC, ele não está apenas apresentando uma pesquisa. Está também apresentando a trajetória de um agricultor que chegou à universidade, aprendeu a linguagem acadêmica sem abandonar a sua própria linguagem e transformou a experiência do campo em objeto de reflexão científica.
E quando um professor da banca responde em cordel, estabelece-se uma imagem potente dessa universidade: aquela que não apenas ensina, mas também escuta, dialoga e reconhece que o conhecimento pode chegar por diferentes caminhos. A própria dedicatória do trabalho traduz essa concepção. Francisco Valter dedica sua pesquisa aos povos do campo, das águas e das florestas e aos mestres e mestras que lhe ensinaram que “o saber não cabe somente entre quatro paredes, mas se faz no caminho, no trabalho e na partilha”.
Talvez seja essa a imagem que melhor permaneça daquela defesa. Um agricultor que virou estudante, um estudante que virou pesquisador e um pesquisador que, diante da universidade, decidiu não deixar sua voz do lado de fora.
Na Unifesspa, naquele dia, o TCC virou cordel. E o cordel virou também uma forma de dizer que há conhecimento na terra, na memória, na experiência, na luta, na oralidade e na poesia — e que a universidade pode ser o lugar onde esses saberes se encontram, dialogam e ganham novas formas de existência. Seu Ceará esboça um voo de pássaro.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Unifesspa.