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Aves migratórias mudam rotina e estimulam novos estudos na Amazônia

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Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

A seca extrema de 2024 na Amazônia trouxe uma surpresa para a Transpetro, o braço logístico da Petrobras. Da noite para o dia, uma revoada de milhares de andorinhas-azuis (Progne subis) ocupou as estruturas metálicas do terminal de carga da empresa no rio Solimões.

Durante a estiagem, com a redução da vazão do rio, o porto de gás liquefeito em Coari, no Amazonas, foi desativado; não havia calado para atracar os navios cargueiros. Sem a movimentação habitual de funcionários e embarcações, as aves migratórias encontraram uma nova morada e permaneceram ali durante todo o verão amazônico.

Em 2025, os bandos da andorinha-azul, que realizam anualmente uma migração desde os Estados Unidos, já estavam familiarizados com o gigante ninho metálico da Transpetro e voltaram a ocupar o terminal. Porém, desta vez, com o fim da seca, o sistema logístico voltou ao normal e a coexistência com as aves migratórias se tornou um problema.

Leia também: COP15: conferência da proteção global das espécies migratórias é realizada no Brasil em 2026

Revoada de andorinhas-azuis, espécies migratórias, no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal
Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

As fezes dessas milhares de aves apresentaram um risco tanto para a operação do terminal como para os funcionários. Os relógios e medidores das tubulações ficaram cobertos de cocô de andorinha-azul. Trabalhadores do terminal chegaram a resvalar devido à mistura das chuvas torrenciais amazônicas com as fezes.

Em busca de uma solução, a equipe de meio ambiente da Transpetro entrou em contato com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá, um dos ornitólogos mais renomados na região, o pesquisador Mario Cohn-Haft, já estava mapeando os padrões de migração das andorinhas-azuis para a Amazônia brasileira, considerada a maior andorinha do ocidente. 

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Cohn-Haft e alguns de seus alunos de pós-graduação atuam em parceria com a Associação para Conservação Purple Martin (que recebe o nome da espécie em inglês). A organização, além de trabalhar com instituições como o Inpa e o Instituto Butantan, utiliza uma rede de voluntários brasileiros e estrangeiros para fazer o rastreamento da espécie. Por meio de um projeto de ciência cidadã, ajudou a entender as rotas migratórias da Progne Subis revelando sua presença em diversas partes do bioma brasileiro.

A andorinha-azul — cuja população estimada é de 7,5 milhões de indivíduos — se reproduz no leste dos Estados Unidos, mas passa a maior parte do ano na Amazônia . No inverno estadunidense, grandes bandos da espécie realizam uma viagem de milhares de quilômetros em direção à América do Sul, em busca de condições melhores para se alimentar.

Leia também: COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Ao chegar no rio Negro, as aves migratórias ocupam as copas de árvores das florestas alagadas. Os estudos indicaram que alguns grupos podem chegar a até 250 mil indivíduos.

“A migração é um fenômeno absolutamente impressionante e inspirador. É, na verdade, emocionante assistir a milhares de pássaros passando em uma viagem impressionante, inimaginável para a mente humana. Mostram a complexidade de suas vidas e uma forma de inteligência muito distinta da nossa”, afirma Cohn-Haft.

O cientista conta que a chegada dessas enormes revoadas nem sempre é apreciada. Não é incomum que prefeituras de cidades amazônicas entrem em contato com o Inpa pedindo uma solução para o “problema”. Cohn-Haft diz que sua única recomendação aos prefeitos é que celebrem o fenômeno da migração. Mas não é o que geralmente acontece: incomodados com a sujeira, os gestores municipais tentam expulsar as aves cortando as árvores escolhidas por elas.

No caso da Transpetro, a solução tentará a coexistência com as aves. Para receber a revoada de 2026, há previsão da construção de uma estrutura em uma balsa próxima ao terminal, ainda sem data definida.

Amazônia, destino de aves migratórias

A discussão sobre as aves migratórias na Amazônia ocupou um espaço de destaque na tarde da terça-feira (24), na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que ocorre até o próximo domingo (29), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O evento reuniu cientistas, representantes de empresas, governo e comunidades indígenas que enfatizaram que ainda há muito por descobrir sobre os padrões de aves migratórias no bioma.

Saiba mais: Migração na Amazônia: conheça os principais fluxos de pessoas na região

Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin
Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin

Diferentemente do Pantanal e das zonas costeiras do Brasil, a Amazônia não é considerada uma região prioritária para o estudo de aves migratórias. A razão para isso é que a maioria das espécies de aves registradas na Amazônia são residentes (85%), ou seja, não realizam migrações.

Mesmo assim, os 15% restantes ainda representam um número significativo: segundo Cohn-Haft, 150 e 200 espécies de aves migratórias realizam algum tipo de deslocamento para o bioma. 

“A Amazônia é um destino de espécies que se reproduzem em outras regiões, mas que caem fora quando as condições são desfavoráveis. São espécies que se reproduzem nas zonas temperadas da América do Norte ou da América do Sul. Elas vão para lá para reproduzir e aproveitar o boom de insetos que ocorre na primavera e no verão”, diz o pesquisador do Inpa. Ele explica que dois terços de todas as espécies de aves no mundo são insetívoras.



Muitas vezes, a Amazônia é utilizada como um ponto de parada mais ao sul. São casos extraordinários, como os dos maçaricos que podem fazer migrações de até 30 mil quilômetros, viajando do Ártico à Patagônia. Na migração deste tipo de aves utilizam as praias de rio da Amazônia além das zonas costeiras como uma parada necessária antes de seguirem viagem. 

Mas existem outras espécies que ocupam a floresta por vários meses, como é o caso da andorinha-azul. Lá, elas trocam a plumagem, ganham gordura, fortalecem os músculos peitorais e, quando estão prontas, voam de volta ao norte.

Tudo isso passou a ser muito mais fácil de entender com as novas tecnologias de rastreamento. Até pouco tempo, os pesquisadores colocavam anilhas nos pássaros e contavam com sua rede de colaboradores para recapturar alguns destes indivíduos no destino final da migração. Considerando a extensão da Amazônia, esse método sempre foi pouco eficaz. Agora, cada vez mais se têm utilizado pequenos rastreadores com capacidade de envio de dados em tempo real.

Pesquisa intercultural como ferramenta

Um outro fenômeno da migração pouco entendido na Amazônia são as migrações dentro do próprio bioma. Há espécies que vivem em ambientes variados em diferentes épocas do ano, dependendo das variações da temperatura ou dos ciclos de cheia e vazante das planícies amazônicas.


Pesquisas entre organizações e comunidades indígenas enriquecem esses conhecimentos. Na COP15, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) apresentaram um projeto de 20 anos de pesquisa intercultural na região dos rios Tiquié e Içana, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

Pesquisadores indígenas registram os dados em diários e relatam a ocorrência de espécies migratórias, além de atividades culturais e ciclos de pesca, caça e agricultura. Desde 2017, a Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro passou também utilizar o aplicativo Open Data Kit (ODK) para inclusão das informações.

Essa coleta já soma 35 mil observações e permitiu a identificação de 18 espécies de aves. A combinação dos dados de ocorrência com registros de precipitação e nível dos rios tem permitido entender o impacto das mudanças climáticas: “nós sabíamos que elas buscavam as cabeceiras dos rios no inverno, em maio, junho e julho, e que voltavam nos meses de verão. Mas isso está mudando”, conta Tiago Pacheco, indígena Koripako, coordenador dos AIMAs da região do Médio Içana.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Gustavo Faleiros

Contos com cheiro de terra molhada

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Capa do livro Nas margens do Rio Amazonas, de Eber Bentes. Foto: Divulgação

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Desde a Revolução Industrial, o mundo ocidental tem tomado o desenvolvimento como um projeto central. Cidades crescem, padrões de qualidade de vida são definidos, a terra dá lugar ao cimento e ao concreto. Contudo, as cidades não crescem para todos, os padrões de qualidade não são atingidos por todos, não há terra coberta o bastante para todos. A solução? Desenvolver mais, expandir mais, e mesmo assim, nunca será para todos.

O resultado? Um mundo desolado, sem um palmo de terra visível, coberto pelas coisas que construímos e, de repente, não achamos mais tão essenciais quanto um dia foram, gastas demais pelo tédio de possuir. E assim seguimos, sempre mais e mais desenvolvidos, em uma eterna corrida que mais cansa do que recompensa, porque corremos tanto, investimos tanto, que nenhuma linha de chegada será suficiente quando comparada com o tempo e o esforço que sacrificamos para cruzá-la.

A solução? Correr até a próxima linha de chegada, chegando novamente em lugar nenhum.

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Chegamos às estrelas, chegamos às entranhas da terra, chegamos ao fundo do oceano, e mesmo assim, não é o suficiente.

Há quem diga que é um engano chamar isso de desenvolvimento, coisa em que eu particularmente não acredito. O que eu sei é que, na lógica de mundo que adotamos, desenvolver é isso mesmo. O que devemos é querer outra coisa.

A professora Célia Xakriabá, ao falar sobre educação indígena em um texto chamado “Amansar o giz” (2020), descreve o processo de criação de objetos de barro que caracteriza seu povo. A forma como ela fala sobre a coleta do material das margens do rios na infância, sobre as memórias envolvidas em sua confecção e até mesmo a construção das casas feitas com o barro e suas próprias mãos enfatiza o que ela e vários outros originários chamam de corpo-território, uma experiência única de quem vive o solo como parte de si, e ambos, parte de um organismo maior, cujos participantes podem trocar forças mutuamente.

Assim como o corpo humano descansa no solo após a morte, é esse solo que oferece as condições materiais necessárias para que a vida humana goze de qualidade.

Máscara de barro por Zelina Xakriabá. Foto: Oscar Liberal

Uma compreensão parecida vive entre o povo Guna, no Panamá, que tece seus tecidos como quem tece um universo inteiro, e planta o cordão umbilical nas raízes de árvores que são, elas mesmas, suas filhas entrelaçadas. Ainda sobre a produção de cerâmica, um conto bastante curioso chamado de “Nãna e os potes de barro”, assinado por Chirley Maria Pankará, compõe o livro “Originárias: uma literatura antologia feminina de literatura indígena”, e conta como seu povo, em Pernambuco, utiliza um processo semelhante não apenas para produzir objetos, mas para manter contato com sua ancestralidade por meio da prática-ritual de trabalhar a terra.

Tais narrativas ilustram um conceito apresentado pela professora Célia, um que vai além das necessidades desnecessárias que o mundo ocidental insiste ter:

“Nós, populações tradicionais, temos condições de apresentar outro projeto de sociedade, não exatamente pela falácia do desenvolvimento e, sim, por meio do re-envolvimento, que representa a retomada de outros valores. Em nossa relação com o mundo, que é com o ambiente inteiro e não apenas com partes dele, não podemos criar laços impessoais ou sem espiritualidade. É impossível para os Xakriabá enxergar a natureza apenas como um bem a ser explorado, ou mesmo como um lugar que produz alimento”.

Ilustrações do livro “Originárias” (2023), por Maurício Negro

Ao ler sobre o re-envolvimento proposto por Xakriabá, percebo uma coisa fundamental: não podemos amar aquilo que não nos envolve. Desenvolver então ganha outro sentido: retira o envolvimento, separa, afasta. É fácil descartar aquilo pelo qual não temos afeto algum, então não é difícil sufocar com concreto e asfalto um metro de terra que não faz parte de mim.

Assim, procuro histórias com as quais possa me envolver, encontrar um espaço ao qual eu possa pertencer, e foi exatamente o que achei nas páginas de “Nas margens do Rio Amazonas” (2024), do parintinense Eber Bentes. Em seu livro de estreia, um dos vencedores do Prêmio Frauta de Barro da editora Valer, Bentes narra a história de um povoado ribeirinho que lida com o cabo de guerra entre o envolvimento e o desenvolvimento.

Eber Bentes durante evento de lançamento de “Nas margens”, em 2024, no Palácio Rio Negro. Foto: Jan Santos/Acervo pessoal

Além do fato óbvio de retratar um ambiente conhecido pela maioria dos amazônidas, com costumes, falas e sensações que nos dão um sentimento de familiaridade que é bastante acolhedor, Bentes conta a saga de uma comunidade que divide o solo com as forças da natureza, com os espíritos que desde seus ancestrais aprenderam a respeitar. O mais engraçado é que a história não é só sobre uma comunidade, mas ela é também comunitária, uma vez que ela é contada do ponto de vista dos vários moradores, a partir de experiências cotidianas que encontram na mística da floresta e do rio uma dinâmica própria de existência.

São pessoas que não vivem somente entre o rio e a floresta, mas entre a vida e o mistério, entre a segurança do conhecido e o fascínio do desconhecido, pois não questionam a existência da Boiúna, de Yurupary nem das visagens, mas encontram formas de coexistir com um mundo que conhecem bem o bastante para aceitar que há coisas que é melhor desconhecerem.

Nas margens de cada história, todas carregadas de um fantástico próprio, surge um horror inicialmente silencioso, quase um comentário despretensioso na boca dos moradores. Nos contos de Bentes, vemos o desenvolvimento surgir como uma figura monstruosa, que aos poucos engole gente, fé, terra, tudo. Na figura de um rico comerciante cearense, as histórias são lentamente devoradas pela fome infinita do desenvolvimento, e os moradores, impotentes, encontram nas narrativas que contam sua única estratégia de sobrevivência.

Sobrevivência não apenas das pessoas, mas também dos espíritos, da terra, da água e de tudo que forma aquela vila, aquele universo, às margens do Rio Amazonas. O ato de partilhar essas histórias, tal como o barro xakriabá, a cerâmica pankará e o tecido kuna, é a prática que preserva, para além da morte e para qualquer ato de des-envolvimento, a memória de um povo que sabe os caminhos para se envolver com a terra.

Ouvindo-as, nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo com o que nos envolvemos.

Leia também: Dragar a história de um rio é guerrear contra a vida

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Livro analisa relação da crise climática e caminhos sustentáveis na Amazônia

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Foto: Arquivo pessoal/Luiz Villares

A relação entre crescimento econômico e degradação ambiental, os impactos cada vez mais intensos das mudanças climáticas e os caminhos possíveis para um desenvolvimento sustentável na Amazônia são temas centrais do livro ‘Ecos do Antropoceno – Legados, interesses e caminhos’.

A obra escrita pelo ambientalista Luiz Villares foi lançado no dia 26 de março na sede da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em Manaus (AM). 

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Livro Ecos do Antropoceno de Luiz Villares
Livro Ecos do Antropoceno. Foto: Reprodução/Amazon

Lançado pela Editora Casa Matinas, o livro é resultado de mais de duas décadas de atuação de Villares na área socioambiental, reunindo experiências, dados e reflexões construídas ao longo de sua trajetória.

Nesse período, o autor passou por instituições estratégicas para a agenda ambiental no Brasil, notadamente na FAS, onde colaborou desde o seu início, por mais de 15 anos, como Superintendente Administrativo Financeiro. 

O livro apresenta um panorama atualizado do bioma amazônico em conexão com o cenário global, incluindo os desdobramentos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada ano passado em Belém (PA).

Para o autor, a crise climática não pode ser analisada de forma isolada, mas sim como consequência direta do atual modelo de crescimento econômico global. Segundo ele, sem mudanças estruturais nesse modelo, a transição para um futuro sustentável não será possível.

“Este é o paradoxo contemporâneo: quanto mais cresce o PIB global, mais crescem os desastres ambientais e ecológicos — e pior: em velocidade maior do que as soluções que poderiam mitigar os problemas”, afirma Villares.

Villares também destaca no texto que esse desequilíbrio ambiental contribui para o agravamento da desigualdade social. Pois as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem seus impactos. Ao mesmo tempo, o ambientalista defende a Amazônia como um ativo estratégico fundamental para o equilíbrio climático, a regulação hídrica e a preservação da biodiversidade. Como caminho viável, o autor aponta a bioeconomia e suas cadeias produtivas, como açaí, castanha e cacau, capazes de gerar renda sem comprometer a floresta.

Leia também: Turismo e crise climática: os caminhos sustentáveis para a Amazônia

Além disso, vê com otimismo ideias como sistemas agroflorestais (SAFs) e créditos de carbono, aliados à participação das populações tradicionais e de políticas públicas mais eficazes, são essenciais para essa transição.

“Manter a floresta em pé depende de cooperação internacional, vontade política, justiça social, pensamento científico e financiamento contínuo. É um caminho que exige muito, mas comprovadamente mais inteligente e valioso do que qualquer modelo baseado em sua destruição”, afirma.

Panorama global

Foto: Reprodução/Instagram-@Villaresluiz

A partir de dados qualificados, Villares indica que a prevenção de desastres ecológicos tende a ser mais eficiente do que as ações de reparação. Nesse sentido, ele aponta que a revisão de prioridades nos investimentos globais contribuiria significativamente para o avanço de soluções ligadas à transição energética e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A publicação também observa movimentos internacionais, como a reorientação de políticas ambientais na China, com iniciativas voltadas à ampliação do uso de energias renováveis e à recuperação de áreas degradadas, além de conceitos e discussões que ajudam a compreender a crise ambiental contemporânea.

Sustentabilidade Editorial

Ecos do Antropoceno é o primeiro livro lançado pela Editora Casa Matinas, que se dedica à reedição de livros imperecíveis no sistema de impressão sob demanda (POD). A editora modificou seu projeto editorial pelas afinidades com as ideias defendidas no livro de Luiz Villares.

Além de evitar desperdício de papel e de combustível fóssil na distribuição com o print-on-demand, é usado o papel Polén Natural e a impressão é em tinta a base de água. O livro pode ser encontrado aqui e também está disponível pela plataforma Amazon.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável

Tecnologia LiDAR pode tornar mensuração de carbono na Amazônia mais precisa, diz estudo

Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Medir biomassa florestal e converter esse dado em estimativas confiáveis de carbono ainda é um dos grandes desafios para quem atua com restauração, manejo, monitoramento e projetos climáticos. É nesse contexto que o LiDAR (Light Detection and Ranging) vem ganhando espaço como uma tecnologia capaz de ampliar a precisão e a eficiência do monitoramento florestal

Publicação visa tornar a mensuração de carbono mais precisa e confiável.Foto: Divulgação/Imaflora

Para contribuir com esse debate, o Imaflora lança a publicação ‘LiDAR & Carbono: Inovação na Quantificação de Biomassa Florestal‘, elaborada com apoio do Instituto Clima e Sociedade e em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a ForLidar.

O material mostra, de forma aplicada, como o sensoriamento remoto pode fortalecer processos de mensuração de carbono com mais rastreabilidade, robustez estatística e eficiência operacional. 

Leia também: Entenda o que é e para que serve o mercado de carbono

A publicação parte de um problema concreto: monitorar florestas com qualidade técnica suficiente para atender às exigências de mensuração, reporte e verificação de carbono sem tornar o processo excessivamente caro, demorado ou limitado em escala.

O LiDAR aparece nesse cenário como uma ferramenta capaz de “ler” a estrutura tridimensional da vegetação e apoiar inventários híbridos, nos quais o campo continua essencial, mas passa a ser usado de forma mais estratégica. 

Para sair do plano conceitual, o documento se ancora na experiência de restauração conduzida pelo ISA no corredor do rio Xingu, em Mato Grosso, e na atuação do Carbon on Track, iniciativa de mensuração e verificação de carbono desenvolvida pelo Imaflora. A análise compara abordagens e apresenta a aplicação de inventário integrado com LiDAR embarcado em drone e amostragem dupla estratificada em 741 hectares de áreas restauradas. 

Mensuração de carbono 

Os resultados sistematizados na publicação indicam ganhos concretos. O uso do LiDAR foi associado à redução de 81% do esforço em campo, 76% do custo por hectare e 67% do erro percentual, além de contribuir para maior precisão estatística e espacial no monitoramento de áreas extensas.

Saiba mais: Solo da Amazônia estoca mais da metade do carbono orgânico presente no Brasil

Além de reunir evidências práticas, a publicação também chama atenção para barreiras ainda presentes nos sistemas de verificação e nos padrões internacionais. O material argumenta que parte das regras hoje adotadas não incorpora adequadamente as especificidades das florestas tropicais, o que pode elevar custos, criar entraves e dificultar a adoção de tecnologias já consolidadas no avanço dos inventários florestais. Por isso, a publicação se propõe também como contribuição técnica para atualizar práticas e fortalecer metodologias mais aderentes à realidade brasileira. 

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O Carbon on Track, solução de quantificação e verificação de carbono em plantios de restauração desenvolvido pelo Imaflora, ofereceu uma redução do custo por hectare de R$ 1.440,02 para R$ 336,44, enquanto o tempo corrido do processo passou de 540 dias para 385 dias em comparação ao monitoramento e verificação da principal certificadora do mercado no projeto analisado.   Esses resultados são frutos do uso de tecnologias e soluções adaptadas a realidade nacional. A comparação completa você acompanha na publicação.

Amazônia é considerada fonte de carbono. Foto: climatepolicyinitiative
Amazônia é considerada fonte de carbono. Foto: climatepolicyinitiative

Público

Voltada a um público técnico e transversal, a publicação interessa a equipes de restauração e manejo, organizações da sociedade civil, auditorias, certificadoras, financiadores, empresas e gestores públicos que precisam de métricas mais consistentes, transparentes e verificáveis para acompanhar desempenho ecológico e carbono. O objetivo é apoiar decisões práticas, orientar protocolos de MRV e ampliar a capacidade de monitorar com qualidade e credibilidade. 

Esta leitura é especialmente útil para: equipes de restauração; organizações e projetos territoriais que atuam com carbono; auditorias, certificadoras e verificadores; financiadores e investidores interessados em MRV robusto; gestores públicos e formuladores de protocolos.  

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora

COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Participantes do evento, Renata Alves (pesquisadora do ISA), Jochen Schongart (pesquisador do INPA) e Carlos Durigan (pesquisador do IPAM), além de Carlos Souza Jr (pesquisador do Imazon) remotamente. Foto: Reprodução/IPAM

Dentro da programação da COP15 das Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) em Campo Grande (MS), um evento reuniu pesquisadores para discutir o papel das áreas úmidas e dos sítios Ramsar na proteção de espécies migratórias.

A atividade ocorreu nesta sexta-feira (27) na Casa do Homem Pantaneiro, com organização do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Instituto Socioambiental (ISA), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

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Foi apresentada uma análise preliminar de cientistas do IPAM sobre a riqueza de espécies migratórias e fatores de degradação em áreas selecionadas da Amazônia.

Segundo os pesquisadores, os sítios Ramsar na Amazônia têm maior riqueza de espécies migratórias em comparação com terras indígenas e unidades de conservação. No entanto, a perda de cobertura de água foi identificada como um risco potencial para a degradação.

Os sítios Ramsar são áreas alagadas de forma perene ou sazonal, como manguezais, veredas e várzeas, mas também lagoas de água doce ou salgada. Levam esse nome pois resultam de convenção assinada na cidade de Ramsar, no Irã, para a certificar unidades de conservação de áreas úmidas.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é um Sítio Ramsar?

ESPÉCIES MIGRATÓRIAS VIVEM EM ÁREAS ÚMIDAS
Manguezal é uma área úmida. Foto: Fernando Franzão /Agência Brasil

Análises sobre as espécies migratórias

“Nossas análises corroboram a ideia de que ações voltadas à conservação de espécies migratórias exigem fortalecer a proteção e consolidação de unidades de conservação e terras indígenas, mas também avançar em ações que extrapolem esses limites, em escala de biomas — na Amazônia e além — garantindo conectividade entre paisagens e países. Esse é um dos pontos centrais em debate na COP15. Nesse contexto, os sítios Ramsar emergem como uma camada estratégica adicional, especialmente para espécies associadas a ambientes aquáticos e áreas úmidas”, comenta Carlos Durigan, pesquisador do IPAM.

Jochen Schongart, pesquisador do INPA que participou da atividade, pondera:

“Ainda existem grandes lacunas do conhecimento sobre espécies migratórias de diversos táxons e sua variação de ocorrência em espaço e tempo na Amazônia. Portanto, a integração de populações indígenas e tradicionais em programas de monitoramento ambiental e ocorrência de espécies migratórias é fundamental para gerar mais informações sobre a importância das paisagens úmidas na Amazônia”.

Leia também: Extinção ameaça quase totalidade de peixes migratórios de água doce no mundo, aponta relatório global

Visando aumentar a proteção das espécies e evitar a degradação ambiental, as recomendações incluem, além de integrar de conhecimentos tradicionais e acadêmicos para maior efetividade nas ações, conectar as áreas protegidas já existentes e criar novos sítios Ramsar a partir da destinação de florestas públicas não destinadas. Essas florestas ocupam uma área do tamanho da Bahia na Amazônia e aguardam definição estadual ou federal de categoria fundiária.

Para tanto, os especialistas frisam que é necessário apoio financeiro a médio e longo prazo de forma a fortalecer a gestão participativa das áreas protegidas e conservação integrada de grandes paisagens úmidas.

Os efeitos negativos das mudanças climáticas na natureza evidenciam a urgência de medidas coordenadas entre os diversos setores da sociedade e em cooperação internacional. Segundo relatórios divulgados pela CMS durante a COP15, 24% das espécies migratórias listadas na Convenção estão ameaçadas globalmente e 49% enfrentam queda em suas populações.

Leia também: COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro

Peixes migratórios de água doce estão entre os animais que correm mais risco: desde 1970, sua população caiu 81% no mundo todo – as secas cada vez mais severas explicam essa realidade, somadas à poluição da água, à pesca predatória e ao barramento de rios. Com tamanhos obstáculos, fica difícil para as espécies navegarem em busca de alimento e seguirem seus ciclos de reprodução.

Também participaram da atividade Renata Alves, pesquisadora do ISA, e Carlos Sousa Jr., pesquisador do Imazon, remotamente.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia

Peixes-bois voltam à natureza após reabilitação de até 10 anos no Amazonas

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Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Após passarem por um período de reabilitação e adaptação em cativeiro, de até dez anos, peixes-bois foram soltos na natureza na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, em Beruri, no interior do Amazonas. A preparação ocorreu em uma área de semicativeiro, em uma fazenda parceira do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Os animais foram soltos durante a cheia dos rios, época escolhida pelos pesquisadores por oferecer mais alimento.

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Antes da soltura, cada um recebeu um microchip para identificação e monitoramento. O transporte até a reserva levou mais de 24 horas, feito por caminhão e barco.

Quatro deles ganharam um cinto com rádio transmissor na cauda, que permitirá acompanhar a adaptação nos primeiros meses em liberdade.

Leia também: Kinjá: peixe-boi “mais bonito do mundo” completa 21 anos

Entre os animais soltos está Muruá, fêmea que chegou ao Inpa em 2016, com apenas quatro meses e 25 quilos. Dez anos depois, ela volta à natureza já adulta.

“Nós sempre dizemos que nada mais barato e melhor que mãe de peixe-boi pra cuidar de filhote de peixe-boi é a natureza pra manter esses animais. O cativeiro é caro, a soltura é cara e o processo de monitoramento também. Agora pra essa soltura de um modo geral são recursos vindos de organizações não-governamentais”, explicou a coordenadora do Projeto Peixe-Boi, Vera Silva.

Educação ambiental com ajuda dos peixes-bois

O projeto também envolve moradores da reserva em ações de educação ambiental. Alguns deles, que antes caçavam a espécie, hoje atuam como monitores e ajudam no acompanhamento dos animais.

“É uma alegria, uma alegria imensa, porque claro que a gente achou o bicho, né, missão cumprida quando consegue sinal”, disse o monitor de peixe-boi, Mário Costa.

Leia também: Pesquisadora descobre novo papel do peixe-boi: o de “jardineiro da Amazônia”

Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM

Os especialistas também orientam comunidades ribeirinhas sobre como agir ao encontrar filhotes. Se o animal estiver saudável, a recomendação é não resgatar, pois a mãe pode estar por perto. Apenas filhotes debilitados devem ser encaminhados aos órgãos responsáveis.

Ao todo, 59 peixes-bois já foram soltos na reserva. Segundo os pesquisadores, cada soltura ajuda na recuperação da espécie, que é ameaçada.

*Por Daniela Branches, da Rede Amazônica AM

Amazônia tem menor desmatamento para o mês de fevereiro em oito anos, mostra SAD

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Foto: Reprodução/Acervo Embrapa

A Amazônia comemorou uma queda de 42% no desmatamento em fevereiro, que passou de 119 km² em 2025 para 69 km² em 2026. Uma diferença equivalente a 5 mil campos de futebol no mês, quase 180 por dia. Essa foi a menor área de floresta derrubada em fevereiro em oito anos, desde 2017.

Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do instituto de pesquisa Imazon, que monitora a floresta por imagens de satélite desde 2008. Conforme a série histórica, as menores destruições registradas no mês foram em 2016 (0 km²), 2014 (11 km²) e 2015 (42 km²). Já as maiores ocorreram em 2023 (325 km²), 2022 (303 km²) e 2018 (214 km²).

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“A queda no desmatamento da Amazônia é essencial para a redução das emissões de gases de efeito estufa no Brasil e para o combate às mudanças climáticas, que têm deixado eventos extremos como secas e tempestades mais intensos e frequentes em todo o mundo”, explica Carlos Souza Jr., pesquisador que coordena o Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon. 

Além disso, fevereiro representa o sétimo mês do chamado “calendário de desmatamento” de 2026, que por causa do regime de chuvas na Amazônia vai de agosto de um ano a julho do seguinte. Desde o início do calendário atual, em agosto de 2025, até fevereiro de 2026, a derrubada acumulada chegou a 1.264 km², 41% a menos do que no período anterior. Entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, foram devastados 2.129 km². 

Pará, Amazonas e Acre têm as maiores áreas derrubadas

Entre os nove estados que compõem a Amazônia Legal, o Pará foi o que registrou a maior área desmatada entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026: 398 km². Esse acumulado, no entanto, foi 54% menor que o registrado no período anterior, entre agosto de 2024 e fevereiro de 2026, que somou 863 km². Além disso, é em solo paraense que fica a unidade de conservação mais desmatada nesses sete meses, a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, que perdeu 34 km² de floresta no período, o equivalente a 16 campos de futebol por dia.

Amazonas e Acre completam o top 3, com 200 km² e 190 km² desmatados, respectivamente. Assim como o Pará, esses estados também apresentaram redução na derrubada, ambos de 32%.

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Em rankings anteriores, no entanto, era Mato Grosso que costumava estampar o quadro de medalhas dos estados mais desmatadores, vaga agora ocupada pelo Acre. Com redução de 51% na derrubada, Mato Grosso passou da segunda para a quarta colocação na análise do desmatamento acumulado de agosto a fevereiro, os sete primeiros meses do calendário de 2026.

“O aumento no Acre pode ser explicado pelo fortalecimento dos últimos anos da fronteira agropecuária no oeste da Amazônia, especialmente na região conhecida como AMACRO, que integra áreas do Acre, Amazonas e Rondônia. Esse movimento tem sido marcado pela expansão da pecuária e pela pressão sobre terras públicas ainda florestadas. A saída do Mato Grosso do topo do ranking durante esse período não indica perda de relevância do estado no cenário do desmatamento. O que estamos observando é uma ampliação territorial da dinâmica do desmatamento na Amazônia Legal”, comenta Larissa Amorim, pesquisadora do Imazon.

Desmatamento da Amazônia por estado (km²):
EstadoAgosto de 2024 a Fevereiro de 2025Agosto de 2025 a Fevereiro de 2026Variação
Pará863398-54%
Amazonas296200-32%
Acre280190-32%
Mato Grosso368181-51%
Roraima160177+11%
Rondônia8765-22%
Maranhão5947-20%
Amapá74-43%
Tocantins92-78%

Nesse período, Roraima foi o único estado a apresentar aumento na devastação, que passou de 160 km² entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025 para 177 km² entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. Além disso, o estado teve o município que mais derrubou a floresta no período: Caracaraí, com 66 km².

“Isso pode ter ocorrido porque Roraima tem um regime de chuvas diferente. Embora o início do ano seja chuvoso no restante dos estados, em Roraima é seco, o que contribui para o avanço do desmatamento”, explica a pesquisadora do Imazon Raissa Ferreira.

MunicípioUFDesmatamento entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026 (km²)
CaracaraíRR66,4
FeijóAC42,86
São Félix do XinguPA36,57
RorainópolisRR33,38
TarauacáAC31,79
Rio BrancoAC25,83
Rio BrancoMT25,83
PortelPA23,25
CanutamaAM21,52
PacajáPA19,21

Degradação também segue em queda

Além do desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, a degradação florestal, que é o dano causado pelas queimadas e pela exploração madeireira, também segue em queda na Amazônia. Em fevereiro, o sistema do Imazon detectou 13 km² de florestas degradadas, uma redução de 93% em relação ao mesmo mês do ano passado, quando foram degradados 211 km².

Na análise do calendário do desmatamento, aplicado também à degradação, o acumulado de agosto de 2025 a fevereiro de 2026 somou 2.275 km², também uma queda de 93% em relação ao período anterior. Entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, foram degradados 33.807 km², quando houve um pico de queimadas na região. 

Mato Grosso, Pará e Acre lideram degradação

Em relação à degradação, Mato Grosso e Pará lideram com grande diferença em relação aos demais estados, com 1.255 km² e 677 km² degradados entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. Isso corresponde a 85% de toda a área afetada na Amazônia no período. Apesar disso, ambos estados tiveram reduções significativas na degradação, de 86% e 96%, respectivamente.

A terceira posição ficou com o Acre, onde a degradação aumentou 50%. Nesse estado, a área degradada passou de 72 km² entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025 para 108 km² entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026. 

Outro estado que registrou alta foi Roraima, onde a degradação passou de 50 km² para 55 km² nesses períodos. Os demais estados apresentaram redução nesse dano ambiental.

Desmatamento da Amazônia por estado (km²):
EstadoAgosto de 2024 a Fevereiro de 2025Agosto de 2025 a Fevereiro de 2026Variação
Mato Grosso9.2411.255-86%
Pará17.257677-96%
Acre72108+50%
Rondônia2.71873-97%
Roraima5055+10%
Amazonas2.96753-98%
Tocantins32124-93%
Maranhão94923-98%
Amapá357-80%

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*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon

COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro

Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa. Foto: Vanessa Fernandes/ISA

De acordo com a cosmologia dos povos Koripako e Baniwa da bacia do Rio Içana, a queda das folhas anuncia a chegada do inverno no alto Rio Negro – fenômeno que ocorre na região a partir de maio. É nesse período que algumas aves grandes, como cabeças-seca, garças e cararás, iniciam sua jornada migratória, subindo do mar (leste) para fazer um dabucuri para sua tia, Wenia, que vive na serra de Kodamadali, no alto Rio Uaupés. Elas levam materiais para a reforma de sua maloca.

Essa é uma das explicações dos conhecedores indígenas para os movimentos migratórios de algumas aves por seu território. O conhecimento sobre aves migratórias integra as pesquisas sobre os ciclos de vida conduzidas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)  no Médio e Alto Rio Negro, região localizada no noroeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.

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Os resultados iniciais foram apresentados em evento organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), no espaço Conexão sem Fronteiras, durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece até 29 de março de 2026, em Campo Grande (MS). 

O encontro reúne governos, cientistas e organizações da sociedade civil para debater estratégias globais de conservação da fauna migratória. Participaram da atividade Aloisio Cabalzar, antropólogo do ISA e coordenador da pesquisa intercultural no Rio Negro; Tiago Pacheco, professor e pesquisador Koripako; e Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

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Os AIMAs monitoram eventos ligados à migração e à reprodução de 18 espécies de aves na região. Além dos deslocamentos, os agentes classificam as observações entre registros ocasionais, presença de ovos e ocorrência de filhotes. O conjunto de dados analisado reúne cerca de 34.812 registros de mais de cem espécies na região do Rio Negro feitos em aplicativo ODK próprio utilizado pelos agentes indígenas.

COP15: conhecimento indígena revela rotas e alterações na migração de aves no Rio Negro
Tiago Pacheco apresentou a pesquisa sobre aves migratórias na região do Rio Negro pela pespectiva do povo Koripako-Baniwa. Foto: Vanessa Fernandes/ISA

Ainda de acordo com a narrativa dos mais velhos, conta Tiago Pacheco, as penas mais longas nas asas de garças e cabeças-secas são semelhantes ao koyape – folhas de uma espécie de palmeira utilizadas na cobertura das malocas. Após passarem meses com a tia, contribuindo para a reconstrução da casa, as aves retornam ao seu habitat no leste, quando o verão já prevalece na região.

Há também as oolio, uma espécie de andorinha cujos bandos caem no rio e se transformam em cardumes de peixe toloya no início do inverno. Já as waliperhe, outra espécie de andorinha, se transformam no mesmo peixe no meio da estação, entre junho e julho.

Pacheco contou que agora os agentes indígenas estão aprofundando a pesquisa sobre as aves, envolvendo também os estudantes do ensino médio da escola da comunidade Bela Vista, no Médio Içana, onde ele leciona. Além de observar, anotar e analisar os dados, as informações são discutidas com os conhecedores mais velhos.

Para os povos Koripako e Baniwa, as aves migratórias se reproduzem em áreas úmidas (llanos) na Venezuela. “Sempre no início do inverno elas voam bem alto e, de lá, seguem para outras regiões do Brasil. Voam alto para facilitar a viagem longa e costumam procurar as cabeceiras dos rios”, explica Tiago.

Ilustração sobre a migração de aves observado pelos AIMAs. Foto:: Ismael dos Santos/AIMA 

Um dos pontos levantados pela pesquisa, segundo Pacheco, é a redução no número de avistamentos na região, que pode estar relacionada às mudanças climáticas.

“As aves se conectam com o clima da região, dependem muito das estações do ano, inverno e verão. Atualmente, aparecem de vez em quando, porque as estações estão variando e não acontecem sempre no período esperado. Com isso, as aves migratórias estão cada vez menos presentes na região”, afirma. Essa afirmação coincide com o que vem sendo observado e registrado pelos AIMAs em seus diários.

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Entre as espécies que mais costumavam ser avistadas estão o carará (wanali), a garça-grande (maali), o socó-dorminhoco (walha), o socozinho (pitshaaro), o martim-pescador grande e pequeno (dzaaliro), a tesourinha (kamawaapa) e a andorinha que cai na água (oolio). Segundo os pesquisadores, essas aves ainda migram, mas em menor número.

Aloisio Cabalzar explica que na pesquisa sobre os ciclos anuais, os AIMAs observam e registram uma ampla diversidade de fenômenos relacionados aos ciclos anuais e à dinâmica socioambiental do território. Entre eles estão a presença, ausência e intensidade das chuvas; o nível dos rios; o nome das constelações que marcam cada período; as estações do ano; revoadas de insetos; o canto e a reprodução de sapos e rãs; a migração e reprodução de mamíferos e aves, entre outros.

Aloísio Cabalzar, antropólogo do ISA, falou sobre o trabalho de pesquisa intercultural realizado em parceria com os AIMAs no Rio Negro. Foto: Vanessa Fernandes/ISA

Segundo o antropólogo, a análise específica sobre as aves migratórias ainda está em estágio inicial. Nesse contexto, levar o tema para discussão durante a COP15 também representa uma oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis para o aprofundamento da análise e interpretação dos dados desse fenômeno que abrange várias regiões (e países) onde se desenvolvem as diferentes fases da vida das aves. Inclui a construção de protocolos de coleta mais completos, buscando conexões com outros grupos de pesquisa.

“A pesquisa intercultural é uma metodologia para abordar temas complexos e interescalares, que são observados pelos moradores das comunidades e pelos pesquisadores indígenas, mas que envolvem um âmbito espacial mais amplo, e que podem ser melhor compreendidos conectando-se com conhecimentos produzidos mais amplamente”, pondera Aloisio.

Mario Cohn-Haft destacou que a região conhecida como “encostada” funciona, na prática, como uma tríplice fronteira ecológica entre Brasil, Colômbia e Venezuela, que é muito anterior às divisões políticas atuais. “Essas fronteiras que hoje regem tanto as nossas vidas nunca foram relevantes para esses povos”, afirmou.

Mario Cohn-Haft, ornitólogo do Inpa, destacou que oportunidades para estudos de migração de espécies na tríplice fronteira. Foto: Vanessa Fernandes/ISA

Segundo ele, o conhecimento indígena sobre os llanos da Venezuela, que são áreas de cerrado sazonalmente alagadas, semelhantes ao Pantanal, ajuda a explicar a origem de espécies como a garça, cabeça-seca e outras aves que aparecem no Rio Negro.

Para o pesquisador, esse diálogo entre saberes aponta caminhos ainda pouco explorados pela ciência. “A gente não tem essa tradição de pesquisa integrada com a Colômbia e a Venezuela, mas vocês já carregam esse conhecimento”, disse. Ele defende que o atual contexto de maior articulação internacional pode abrir oportunidades para avançar nesses estudos, aprofundando investigações sobre rotas migratórias e fortalecendo cooperações transfronteiriças até então pouco desenvolvidas.

Presente entre o público do evento, a secretária de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Rita Mesquita, chamou atenção para os impactos silenciosos das mudanças ambientais sobre as espécies migratórias na Amazônia e destacou o papel fundamental das populações que vivem nos territórios na produção de registros e conhecimentos. 

Segundo ela, eventos extremos, como secas em níveis inéditos na bacia amazônica, têm alterado profundamente as condições de vida dessas espécies, que dependem diretamente da relação com rios e áreas úmidas. “O que está mudando? O que está sumindo?”, questionou, ao enfatizar a importância de observar e documentar essas transformações. 

Para a secretária, ainda há pouco monitoramento sobre esses impactos, o que reforça a necessidade de aprimorar protocolos de observação e produzir registros mais detalhados. Ela ainda destacou  o valor do conhecimento de quem está na floresta e a importância da memória para identificar mudanças ao longo do tempo, além de apontar a relevância de conceitos como o de “migrações curtas”, apresentado na pesquisa dos AIMAs, dentro da Amazônia, ainda pouco estudados e documentados.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, escrito por Vanessa Fernandes

Semana do Quadrinho reúne mais de 70 artistas e atividades gratuitas em Manaus

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A 8ª edição da Semana do Quadrinho Nacional de Manaus acontece entre esta sexta-feira (27) e domingo (29). Foto: Divulgação/Mercadizar

A 8ª Semana do Quadrinho Nacional de Manaus começa nesta sexta-feira (27) e vai até domingo (29). A programação será na Biblioteca Pública do Amazonas e no Mirante Lúcia Almeida, no Centro da capital. O evento reúne oficinas, palestras, lançamentos de livros e feira de artistas, com quadrinistas de várias regiões do país. A entrada é gratuita.

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Mais de 70 artistas de 15 estados e do Distrito Federal participam da edição. A expectativa é receber entre 10 mil e 15 mil visitantes. Para participar das oficinas, é necessário se inscrever no local com uma hora de antecedência.

Entre as novidades está o Passaporte Cultural, distribuído gratuitamente ao público. O material reúne indicações de pontos turísticos, restaurantes e estabelecimentos parceiros. Ao visitar os locais, os participantes podem colecionar carimbos e concorrer a prêmios, conforme o regulamento.

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Semana do Quadrinho Nacional de Manaus  2026
Imagem: Divulgação

Programação da Semana do Quadrinho

Na Biblioteca Pública, as atividades acontecem das 13h às 18h, com oficinas para iniciantes e profissionais. Nesta sexta (27), o evento começou com Helena Cunha ministrando a oficina “Roteiro para Quadrinhos”. Às 15h30, Monge Han conduziu a oficina de criação de personagens. O dia termina às 17h, com Raquel Teixeira e a oficina de coloração.

No sábado (28), às 14h, as atividades começam com a oficina “Narrativa para Mangás”, com Max Andrade. Às 15h30, Gabriela Gullich conduz a atividade “Jornalismo em Quadrinhos: HQ em pauta – técnicas para roteiro”. Às 17h, Leon Sarmiento ministra oficina de criação de cenários.

No domingo (29), a programação começa às 14h com oficina de desenho, com Questo. Às 15h30, Romahs Mascarenhas apresenta a atividade “Como criar um quadrinho”. O encerramento será às 17h, com a oficina “Como fazer tirinhas”, com Geovan Motter.

No Mirante Lúcia Almeida, as atividades acontecem nos três dias, das 14h às 20h. O espaço terá painel coletivo de desenhos com o tema “Jacarés” e a atividade “Um quadrinho que mudou a minha vida”, em que o público compartilha referências. Também haverá jam de desenho e apresentações de kamishibai.

Cidade no Peru apresenta resultado de produção de cacau e café na Semana Santa

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A Feira Nacional da Páscoa permitirá aos produtores da região VRAEM aumentar as suas vendas e consolidar as suas marcas de produtos derivados do cacau e do café. Foto: Divulgação/DEVIDA

Sete organizações promovidas pela Comissão Nacional para o Desenvolvimento e a Vida sem Drogas (Devida) participarão da Feira Nacional da Semana Santa, que acontecerá de 2 a 4 de abril no Centro de Convenções de Canaã, em Ayacucho, cidade peruana. Este espaço permitirá aos produtores mostrarem seus produtos que são feitos a partir de produções de cacau e café.

Este espaço permitirá aos produtores também aumentarem as suas vendas e posicionarem as suas marcas no mercado regional durante uma das épocas comerciais e turísticas mais dinâmicas que é a Semana Santa católica.

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Organizações dos distritos de Chungui, Santa Rosa, Ayna, Anchihuay, Unión Progreso (Ayacucho) e Villa Kintiarina (Cusco) oferecerão produtos de valor agregado, como chocolates, pasta e pó de cacau, café torrado moído, além de bebidas à base de café.

Todos esses produtos foram fabricados no Vraem (Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro), uma zona geopolítica estratégica no Peru, situada entre os departamentos de Ayacucho, Cusco, Huancavelica e Junín. 

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Essas associações são fortalecidas pela Missão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida), por meio da atividade associativa, da assistência técnica especializada em gestão organizacional e comercial, bem como da implementação de módulos de processamento em anos anteriores. 

A Devida é um organismo público técnico do Peru, vinculado à Presidência do Conselho de Ministros, responsável por projetar e dirigir a Estratégia Nacional de Luta contra as Drogas e que está responsável pela organização.

Cidade no Peru apresenta resultado de produção de cacau e café na Semana Santa
Foto: Divulgação/DEVIDA

Café e cacau = Qualidade de vida

“Essas intervenções contribuem para melhorar a qualidade dos produtos, aumentar sua competitividade e gerar maior renda sustentável para as famílias produtoras”, acrescentou a Devida por meio de sua assessoria.

O órgão também acrescentou que essas ações fazem parte da  Política Nacional de Drogas para 2030, que promove o desenvolvimento alternativo abrangente e sustentável, visando reduzir as disparidades econômicas e consolidar economias legais em territórios vulneráveis ​​ao tráfico de drogas.

*Com informações da Agência Andina