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Nossa Senhora da Seringueira: a devoção mariana que atravessa a história do Acre

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Quadro de Nossa Senhora da Seringueira. Foto: Reprodução/ Facebook-@Arepublicabrasileira

A devoção a Nossa Senhora da Seringueira, padroeira do Acre, é marcada por fé, memória popular e está ligada a formação histórica do estado. Também conhecida como Nossa Senhora do Acre, uma imagem da santa é marcada por conflitos territoriais, ciclos econômicos e religiosidade popular. 

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A imagem está atualmente na Catedral de Nossa Senhora de Nazaré, na capital Rio Branco. Situada às margens do rio Acre, a catedral se tornou referência arquitetônica e espiritual para os fiéis locais.

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Foto: D.Sicarius

De acordo com as informações da Academia Marial de Aparecida, a Catedral de Nossa Senhora de Nazaré começou a ser construída em 1948, quando Dom Júlio Mattioli, primeiro bispo do Acre, colocou sua pedra fundamental. As obras principais foram concluídas em 1958, e o projeto teve como inspiração a arquitetura italiana e o estilo romano-basilical, retratando inclusive cenas da Via-Sacra. 

Além disso, no interior da catedral, encontra-se um mausoléu onde repousam os restos mortais de Dom Júlio Mattioli e Dom Giocondo Maria Grotti. É nesse espaço que está preservado o quadro popularmente conhecido como Nossa Senhora da Seringueira, retratando a imagem da Virgem Maria com o menino Jesus em um dos braços e, na outra mão, um ramo de seringueira, árvore símbolo do Acre e elemento central do ciclo da borracha.  

Origem da imagem 

A origem do quadro é misteriosa, mas segundo a tradição oral mais conhecida entre os religiosos e historiadores locais, o quadro teria sido pintado por um indígena boliviano, que afirmava ter tido uma visão da Virgem Maria segurando um ramo da seringueira. O autor da pintura nunca foi identificado formalmente e teria deixado apenas as iniciais ‘L.P.’. 

Uma das narrativas mais conhecidas sobre a imagem remonta à Revolução Acreana. Relatos preservados na memória popular contam que tropas bolivianas teriam utilizado o quadro em uma falsa procissão religiosa como estratégia de guerra, escondendo atiradores por trás da tela. A intenção seria surpreender os combatentes brasileiros.

No entanto, o líder acreano Plácido de Castro, desconfiado da encenação, teria pedido perdão à Mãe de Jesus antes de ordenar o ataque. Os disparos atingiram a tela, marcas que, segundo os fiéis, ainda podem ser vistas na pintura.

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Nossa Senhora da Seringueira
Quadro de Nossa Senhora da Seringueira. Foto: Reprodução/ Facebook-@Arepublicabrasileira

Apesar desse conhecimento entre os religiosos, não existem documentos históricos que comprovem oficialmente nenhuma das versões sobre a origem do quadro ou seu uso durante o conflito. 

Peregrinação da imagem

Ao longo do século XX, a imagem peregrinou por diferentes locais, e após um período desaparecida teria permanecido anos no Rio de Janeiro, só retornando ao Acre em 1954. A imagem foi recebida com celebrações fluviais próximas à Gameleira, ficando posteriormente sob a guarda do Instituto Imaculada Conceição, e mais tarde, levada ao Parque Capitão Ciríaco, antes de ser finalmente devolvida à igreja. 

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Catedral de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Reprodução/ Facebook-@Arepublicabrasileira

Após um processo de restauração, a imagem foi oficialmente colocada em um lugar de destaque na Catedral Nossa Senhora de Nazaré no dia 1º de maio de 2016, com uma cerimônia presidida pelo bispo Dom Joaquín Pertiñez.

Nossa Senhora da Seringueira foi proclamada padroeira da Terceira República do Acre, e sua devoção é celebrada duas vezes ao ano, no dia 27 de janeiro, data que marca a Independência da Terceira República do Acre, e em 17 de novembro, quando se comemora a assinatura do Tratado de Petrópolis, que selou a incorporação definitiva do território ao Brasil

*Com informações do Santuário Nacional de Aparecida, da Academia Marial de Aparecida e da Rede Amazônica AC

Camarões são pequenos gigantes da biodiversidade amazônica

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Foto: Reprodução/ Guia Animal

Você sabia que os camarões, além de deliciosos, são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos? No estado do Pará, coração da Amazônia Oriental, um estudo revela uma incrível diversidade desses crustáceos.

A pesquisa de Miani Corrêa Quaresma e Jussara Moretto Martinelli Lemos reúne informações sobre a diversidade de camarões que habitam ambientes marinhos, estuarinos e de água doce nessa região, em que foram identificados 81 espécies de camarões, distribuídas em 17 famílias.

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As pesquisadoras publicaram um relato no site Conexões Amazônicas, parceiro do Portal Amazônia. Confira o texto completo:

camarões
Camarões das famílias Palaemonidae (representado pela espécie Macrobrachium acanthurus) e Penaeidae (representado pela espécie Xiphopenaeus kroyeri). Fonte: Lianos e colaboradores (2018) e Pereira (2023).

No Pará, as famílias Palaemonidae (com 27 espécies) e Penaeidae (com 12 espécies) se destacam, sendo amplamente estudadas dada sua importância ecológica e econômica. Essa importância é advinda tanto nos processos tróficos, como predadores que regulam a estrutura de comunidades aquáticas; como na economia, devido ao seu elevado valor comercial.

Como resultado, concluímos que a maioria dos camarões que habitam a Amazônia paraense possui um ciclo de vida ligado ao mar, visto que esses camarões migram para ambientes aquáticos com salinidade elevada, como estuários, manguezais e zona costeira, o que torna relevante a preservação desses ecossistemas.

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Essa relação dos camarões com a água salobra decorre do fato de muitas espécies viverem e se reproduzirem nesse tipo de ambiente, tornando esses ecossistemas aquáticos essenciais para a alimentação, o crescimento e a proteção contra predadores, pois oferecem esconderijos naturais e abrigo para os camarões jovens, reduzindo a predação por peixes e outras espécies. 

Pesca de camarão no estado do Pará. Foto: Miani Quaresma.

Os camarões mais abundantes, com destaque para Palaemonidae e Penaeidae, estão listados no “Livro Vermelho dos Crustáceos do Brasil: Avaliação 2010-2014”, publicação que atribui a cada espécie uma categoria de risco de extinção. A inclusão dessas espécies no Livro Vermelho auxilia estudos e políticas públicas voltadas ao manejo adequado desses crustáceos que são utilizados para fins econômicos e que habitam as águas amazônicas.

Destacamos, ainda, que a singularidade de espécies de crustáceos que habitam a Amazônia paraense é acentuada quando analisada junto à biodiversidade brasileira. No Brasil há 2,5 mil espécies de crustáceos registradas, de uma biodiversidade total aproximada de 68 mil. Dessa forma, ao se olhar somente a biodiversidade de táxons (que englobam diferentes espécies) de camarões que a Amazônia paraense abriga representa aproximadamente 3,2% da diversidade em relação a biodiversidade total de crustáceos, que habitam a extensa costa e bacias brasileiras.

Essa singularidade é advinda da fauna paraense e sua diversidade de habitats – desde as águas salobras dos estuários até os vastos rios amazônicos a qual criam ambientes únicos para uma rica variedade de camarões. Espécies como o camarão-da-Amazônia (Macrobrachium amazonicum), um dos crustáceos de água doce mais conhecidos, têm importância tanto ecológica quanto comercial, sustentando comunidades tradicionais que dependem da pesca artesanal.

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Ecossistemas costeiros, estado do Pará. Foto: Jussara Moretto Martinelli Lemos

Destacamos que as pesquisas sobre a história de vida das espécies presentes no estado do Pará são ainda insuficientes para compreender como esses crustáceos habitam a Amazônia e os ecossistemas tropicais. A maior parte dos estudos concentra-se em espécies de maior porte e com valor comercial, como o camarão-da-Amazônia.

Há uma carência de pesquisas voltadas para as fases iniciais do ciclo de vida dos camarões em ambientes naturais, bem como para aqueles que completam seu ciclo na zona pelágica (região oceânica habitada por organismos que não dependem do fundo do mar). Essa lacuna limita o entendimento da ecologia desses corpos d’água, entre outros aspectos.

Por que estudar os Camarões?

Além de sua relevância ecológica, os camarões são bioindicadores – espécies que ajudam a medir a saúde dos ecossistemas. Alterações na composição de suas populações podem indicar problemas ambientais, como poluição ou mudanças climáticas.

Embora nosso estudo tenha evidenciado a rica biodiversidade de camarões na Amazônia paraense, é fundamental reforçar a importância da conservação. A exploração predatória e a degradação dos habitats (como o desmatamento, assoreamento, poluição dos rios, mudanças no regime hidrológico, pesca predatória e alterações climáticas que alteram tanto o aumento da temperatura da água como as mudanças nos padrões de chuva), que colocam diversas espécies em risco, precisam ser cuidadosamente avaliadas.

Isso permitirá a implementação de políticas públicas e iniciativas de manejo sustentável, essenciais para proteger essa biodiversidade singular. Além disso, preencher as lacunas de conhecimento sobre os camarões amazônicos é fundamental para garantir a segurança alimentar das populações humanas que habitam as áreas costeiras da região. Esses crustáceos representam uma importante fonte de proteína para comunidades tradicionais, que dependem da pesca artesanal para sua subsistência e estão ameaçados pela introdução de espécies exóticas e invasoras.

Nosso estudo é um convite para conhecermos mais sobre os “pequenos gigantes habitantes” dos ecossistemas amazônicos e refletirmos sobre como podemos proteger a biodiversidade que sustenta o planeta.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Conexões Amazônicas, escrito por Miani Corrêa Quaresma e Jussara Moretto Martinelli Lemos

Drone permite monitoramento de mil hectares da floresta amazônica no Peru em três horas

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O drone VTOL WingtraOne é uma tecnologia de ponta de longo alcance, recentemente utilizada para monitorar uma concessão florestal em Madre de Dios. Foto: Divulgação/Osinfor

Com o drone VTOL WingtraOne — tecnologia de ponta e longo alcance —, a Agência Supervisora ​​de Recursos Florestais e Vida Selvagem (Osinfor), no Peru, elevou o monitoramento florestal a uma nova escala, conseguindo monitorar até 1.000 hectares em três horas e transformar imagens aéreas em evidências técnicas para a proteção florestal.

Recentemente, ela foi contratada para supervisionar 4.778,026 hectares em uma concessão florestal localizada no distrito de Iñapari, província de Tahuamanu, no departamento de Madre de Dios, uma área que apresenta desafios logísticos para o controle e monitoramento do uso da floresta.

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Equipado com sensores de alta precisão, o drone captura imagens aéreas com maior detalhe (ortomásicas), com resolução de até 0,7 centímetros por pixel, o que permite a identificação de áreas de desmatamento (clareiras) e amplia o campo de visão sobre estradas florestais, centros de coleta e outras infraestruturas associadas à implementação de planos de manejo, que nem sempre são visíveis em rotas tradicionais.

Imagem colorida mostra tela do drone WingtraOne VTOL usado no monitoramento florestal no Peru
Foto: Divulgação/Osinfor

Esta informação é fundamental para verificar se a utilização dos recursos florestais está a ser efetuada em conformidade com os planos de gestão aprovados, reforçando a base técnica das fiscalizações realizadas pela Osinfor nas áreas com títulos de propriedade.

Supervisão florestal

O impacto do drone VTOL WingtraOne reside não apenas no que ele vê, mas também na velocidade com que o faz. Enquanto outros drones precisam de cerca de 10 horas para cobrir 1.000 hectares, esta plataforma aérea consegue monitorar a mesma área em apenas três horas, atingindo uma taxa de cobertura de aproximadamente 330 hectares por hora.

“Graças a essa capacidade, uma supervisão que, com métodos convencionais, exigiria cerca de um mês de trabalho, pôde ser realizada em apenas seis dias, cinco dias de trabalho de campo e um dia de operação aérea, otimizando significativamente o uso do tempo e dos recursos institucionais ”, disse Maikol Justino Pinedo, supervisor florestal da Osinfor e piloto do drone VTOL.

Leia também: Jovens Yanomami aprendem a usar drones para mapear território e ajudar na fiscalização da floresta

Do voo de drones ao relatório técnico

As imagens capturadas durante o sobrevoo são processadas utilizando software especializado de fotogrametria para gerar ortomosaicos. Essas informações são então analisadas em sistemas de informação geográfica e integradas ao relatório de monitoramento florestal como evidência técnica.

O drone possui características que o tornam ideal para operar em grandes áreas de difícil acesso, como as predominantes na Amazônia peruana, permitindo uma cobertura de monitoramento ampliada sem depender de infraestrutura terrestre. Sua incorporação em julho de 2025 faz parte do processo de modernização da Osinfor, que utiliza drones no monitoramento florestal desde 2015.

A utilização desta tecnologia permite a otimização do tempo e dos recursos, facilita o acesso a áreas remotas e reforça a detecção de possíveis atividades ilegais, bem como o acompanhamento das alterações na floresta resultantes de intervenções de gestão florestal, tais como a abertura de clareiras em florestas primárias e a formação de florestas secundárias em diferentes estágios.

Com o VTOL WingtraOne, a Osinfor consolida um monitoramento florestal mais rápido, preciso e baseado em evidências, onde a floresta não é mais apenas inspecionada a pé, mas também analisada e protegida do ar, em prol do uso sustentável dos recursos florestais.

*Com informações da Agência Andina

Ampliação de créditos do PNRA beneficia famílias em Unidades de Conservação na Amazônia

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A ampliação de créditos é resultado de uma articulação iniciada em julho. Foto: Divulgação/CGPT

Fechando o ano com motivos de comemoração às famílias residentes em Unidades de Conservação (UCs) Federais do Pará, Amazonas, Acre e Bahia, foi ampliado o acesso aos créditos do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) para mais de 2,7 mil famílias, totalizando um investimento acima de R$ 25 milhões. A ampliação é fruto de parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) chegou a resultar em avanços concretos. 

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Os recursos estão distribuídos entre as modalidades de Apoio Inicial, Fomento Mulher, Fomento Jovem, Habitação, Recuperação Ambiental e Fomento, incentivando práticas compatíveis com o uso sustentável dos recursos naturais e fortalecendo a estrutura produtiva das famílias, consequentemente, melhorando as condições de vida destes milhares de brasileiros e brasileiras residentes em UCs. 

Como etapa final das ações em 2025, nos dias 18 e 19 de dezembro, foram assinados novos contratos com 385 famílias nas Reservas Extrativistas Verde para Sempre e Maracanã, ambas no Pará, que receberão os Créditos de Apoio Inicial a partir de mais um investimento de R$ 3 milhões do Incra. 

Ampliação de créditos do PNRA beneficia famílias em Unidades de Conservação na Amazônia
Foto: Rodolfo Pongelupe

Segundo a coordenadora-geral de Articulação de Políticas Públicas e Economias da Sociobiodiversidade (CGPT/DISAT), Tatiana Rehder, a parceria representa um marco na atuação conjunta dos órgãos. 

“Embora as populações tradicionais das UCs já sejam reconhecidas como público beneficiário da reforma agrária desde 2008, foi nesta gestão que conseguimos um avanço histórico em um curto espaço de tempo”, coloca. Tatiana ainda reforçou a essencialidade do comprometimento dos servidores das Unidades para o fazer acontecer da iniciativa. 

Leia também: Saiba quantas Unidades de Conservação possuem cada Estado da Amazônia

Histórico da ampliação de créditos

A iniciativa é resultado de uma articulação iniciada em julho, que passou a integrar, de forma estruturada, as Unidades de Conservação às ações do Programa Nacional de Reforma Agrária, reconhecendo, na prática, seus beneficiários como público atendido pela política de reforma agrária. Essa integração ampliou o alcance da política pública e consolida um ótimo exemplo de atuação conjunta entre autarquias de ministérios distintos. 

Diante dos resultados alcançados, ICMBio e Incra reafirmam a continuidade da parceria em 2026, com a perspectiva de ampliação do atendimento e de inclusão de novas Unidades de Conservação no Programa. 

*Com informações do ICMBio

Forte presença de franceses é registrada no Réveillon do Amapá

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Franceses impulsionam a economia, a hotelaria e a visibilidade internacional durante a virada do ano e evento promovido pelo Governo do Estado. Foto: Arthur Alves

Com ações voltadas à promoção do destino e à integração internacional, o Governo do Amapá registra crescimento no turismo estrangeiro durante o Maior Réveillon da Amazônia. Até o dia 28 de dezembro, cerca de 12.379 pessoas cruzaram a fronteira da Ponte Binacional, em Oiapoque, com destino à Macapá.

Mesmo antes do encerramento oficial do mês, os números já superavam todo o fluxo de visitantes de 2024, confirmando um crescimento expressivo no turismo internacional e o fortalecimento do Amapá como destino para estrangeiros ao longo dos anos.

Leia também: Portal Amazônia responde: a maior fronteira da França é com o Brasil?

A Secretária Especial de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Patrícia Ferraz, destacou que o governador do Amapá, Clécio Luís, é o responsável direto pela chegada dos turistas que foram convidados pelo chefe do executivo e eles estão entre nós.

“O Amapá está recebendo um grande número de turistas, impulsionado por investimentos da gestão em cultura, eventos e infraestrutura. O número de carros e turistas já está próximo de ultrapassar os números do ano passado, gerando impacto positivo na economia local, com aumento do consumo em hotéis, restaurantes, comércio e serviços“, comemorou Patrícia Ferraz.

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A guianense Maya Joigny, de 32 anos, disse que veio para viver o Maior Réveillon da Amazônia e ficou simplesmente encantada com a programação e a segurança apresentada pelas autoridades policiais.

“É a primeira vez em Macapá e, sério, a cidade superou tudo que eu imaginava. O evento é incrível, mas o que mais chama atenção é o calor humano. O povo é acolhedor demais, a energia é lá em cima. Estou muito feliz de estar aqui”, disse Maya.

Scott Palcy, de 34 anos, é natural da Guiana Francesa. Ele disse que mesmo com a viagem longa, valeu à pena estar acompanhando o Maior Réveillon da Amazônia.

“O Maior Réveillon da Amazônia tem uma energia única, a cidade abraça a gente, o povo é caloroso, acolhedor. Macapá surpreende, emociona, faz a gente querer ficar mais. É uma experiência que eu vou levar para vida”, comemorou Scott.

Franceses marcam presença no reveillon do amapá. Na foto, a guianense Maya Joigny
Entre os franceses visitantes, estava Maya Joigny. Foto: Divulgação

Muito além da presença dos franceses no Amapá

O Réveillon 2026 carrega o conceito “O Amapá Virou. E você faz parte disso”, que representa não só a mudança de ano, mas a virada de página vivida pelo estado, reforçada pela aprovação de 70% da população na última pesquisa pós-Expofeira. A celebração é realizada pelo Governo do Estado e o Instituto Artístico Cultural e Social Cena Livre, com patrocínio da iniciativa privada e articulação do presidente do Senado Federal e senador pelo Amapá, Davi Alcolumbre.

Mais do que festa, o evento se consolida como um motor econômico. Durante cinco noites, de 27 a 31 de dezembro, o Réveillon do Amapá integrou turismo, cultura e oportunidades, com mais de 50 atrações locais na Noite Amapaense, os shows da virada com Nattanzinho Lima; Nattan; e a Estação Primeira de Mangueira; e demais noites com o Grupo Revelação, Anitta, Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano no Encontro dos Amigos em Macapá; Noite das Aparelhagens com Crocolive, Tranzamérica, Som Tropical, Mega Gibson, Trepidante, Hippersom, Amazônia Fusion+, Matrix e Mega Pressão 360.

O Amapá agora quer transformar o Réveillon em uma vitrine global, reforçando a imagem de um estado sustentável, moderno e capaz de atrair investimentos.

*Com informações do Governo do Amapá

Por que Rio Branco teve enchente histórica em dezembro? Entenda fenômeno que causou fortes chuvas

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Moradores da Baixada da Sobral convivem com sujeira e entulhos durante a enchente. Foto: Amanda Oliveira/Rede Amazônica Acre

Rio Branco viveu, em pleno mês de dezembro, um cenário que não se repetia há 50 anos para a época: alagações provocadas por fortes chuvas registradas na última semana que fizeram igarapés urbanos e o Rio Acre transbordarem no sábado (27). A situação atípica envolvendo o principal manancial do estado já atinge mais de 20 mil pessoas.

Leia também: Rio Acre não transbordava em dezembro há 50 anos na capital acreana, diz Defesa Civil

Alagação é um termo usado no estado acreano para se referir ao transbordamento de rios que, consequentemente, atingem residências e inundam vias urbanas, bem como comunidades rurais.

Em entrevista ao Grupo Rede Amazônica, o doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rafael Coll Delgado, explicou que o episódio é considerado atípico do ponto de vista climático, mas explicável do ponto de vista meteorológico, já que foi causado pela atuação de um sistema atmosférico raro na região.

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O principal fator por trás das chuvas extremas foi a atuação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), um sistema atmosférico mais comum no Nordeste, mas que se deslocou de forma incomum para o oeste do país.

“Nesse caso de Rio Branco, ele se posicionou como uma alta pressão em torno de 10 quilômetros de altitude e começou a se deslocar para o interior do continente, atingindo a região oeste do Brasil”, detalhou.

De acordo com o especialista, os alertas de tempestade já vinham sendo emitidos para a Região Norte. Inclusive, os modelos meteorológicos já indicavam, entre os dias 24 e 25 de dezembro, o deslocamento desse sistema em direção ao Acre.

O VCAN, que tem grandes dimensões, favoreceu a formação de tempestades severas na região.

“Não é um vórtice pequeno. A dimensão dele é realmente muito grande, atingiu a Bolívia, a faixa de Goiás e, na sequência, avançou em direção ao estado do Acre. Isso já vinha sendo observado nos modelos meteorológicos”, afirmou.

Instabilidades intensas e chuvas concentradas

O meteorologista explicou que, embora o núcleo do VCAN seja associado à estabilidade atmosférica, suas bordas, chamadas de vanguarda, favorecem a formação de nuvens profundas e tempestades severas, como as que atingiram Rio Branco e municípios do interior.

“No núcleo do vórtice, há ausência de formação de nuvens. Mas, na vanguarda do sistema, ou seja, nas áreas frontais do vórtice, há uma instabilidade atmosférica muito intensa que favorece a formação de células convectivas profundas, tempestades e volumes elevados de precipitação”, complementou.

Imagens de satélite analisadas durante o evento mostraram nuvens com desenvolvimento vertical extremo, indicando alto potencial de chuva.

“Quando a gente observa imagens de satélite com topos de nuvens atingindo temperaturas inferiores a -100ºC, isso significa que essas nuvens ultrapassaram a troposfera e alcançaram a tropopausa. Isso é um indicativo claro de atividade convectiva muito intensa e, consequentemente, de chuvas volumosas, afirmou.

Enchente já atinge mais de 20 mil pessoas em Rio Branco Foto Júnior Andrade Rede Amazônica Acre (1)
Enchente já atinge mais de 20 mil pessoas em Rio Branco. Foto: Júnior Andrade/Rede Amazônica Acre

Volume de chuva extremo e fora da normalidade

O meteorologista destacou que, além da atuação do sistema atmosférico, o volume de chuva registrado foi excepcional. Em apenas uma hora de chuva na sexta (26), por exemplo, foram medidos 38 milímetros, o que equivale a 38 litros de água por metro quadrado.

Em menos de um mês, o acumulado ultrapassou os 500 milímetros, o dobro do valor normal climatológico.

Ele explicou que a intensidade e a distribuição espacial da chuva são difíceis de serem estimadas com precisão pelos modelos globais de meteorologia, especialmente no Acre onde há condições específicas como florestas, rios, áreas urbanas e uso do solo.

“Porém, esse fenômeno era previsível. Então, não houve uma surpresa do ponto de vista meteorológico, mas na quantidade de chuva”, pontuou.

Falta de estações e radares agrava impactos

Rafael chamou a atenção para a necessidade urgente de investimentos em estações meteorológicas, radares e recursos humanos especializados no Acre. Segundo ele, a ausência desses equipamentos limita a capacidade de previsão mais precisa e de emissão de alertas com antecedência adequada.

“Essas informações precisam ser especializadas. A gente precisa saber onde a chuva está se concentrando. E isso só é possível com mais estações meteorológicas e, principalmente, com radares meteorológicos, que são capazes de antecipar eventos de microescala como esse que ocorreu”, disse.

O professor reforçou que radares meteorológicos são capazes de antecipar eventos extremos de microescala, como tempestades intensas e concentradas, algo que os modelos globais não conseguem captar com precisão na realidade local.

“Os modelos globais não têm um refinamento da grade do estado do Acre, das condições de superfície, da floresta, dos rios, da área urbana”, explicou.

Alerta

O especialista também relacionou o episódio a mudanças na frequência e intensidade dos fenômenos extremos, associadas às mudanças climáticas, ao aumento das temperaturas e às alterações no uso do solo.

Ao destacar que uma enchente em dezembro havia sido registrada pela última vez somente em 1975, ressaltou que os eventos extremos estão ocorrendo com intervalos cada vez menores na atualidade.

Apesar de a situação ser frequentemente relacionada a fenômenos como El Niño e La Niña, o meteorologista afirmou que o cenário atual vai além disso.

“Isso vai muito além de El Niño e La Niña. O aquecimento anômalo dos oceanos e a mudança na circulação geral da atmosfera estão alterando completamente a dinâmica dos sistemas meteorológicos”, concluiu.

*Por Renato Menezes, da Rede Amazônica AC

Pescadores ajudam cientistas a mapear prejuízos das barragens do Madeira para a pesca

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Olhando para as águas límpidas do Lago Puruzinho, o pescador Raimundo Nonato dos Santos lamenta o declínio dos estoques de peixes que afeta o sustento de sua comunidade. Ele relata que espécies como o pirarucu (Arapaima gigas), o tambaqui (Colossoma macropomum) e a pirapitinga (Piaractus brachypomus) tornaram-se “bem raras” na comunidade do Lago Puruzinho, no Amazonas. “Quando a gente pega um, é uma surpresa.”

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Morador do Puruzinho desde que nasceu, há 53 anos, Santos — líder da comunidade e conhecido pelo apelido de Leleca — disse que a construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no estado vizinho de Rondônia, em 2008, desencadeou “a ruína” de sua comunidade.

Frequentemente promovidas como uma forma de “energia limpa” por não usarem combustíveis fósseis, as usinas hidrelétricas têm provocado graves impactos ambientais. A usina de Santo Antônio, a quinta maior do país, gerou protestos de ambientalistas desde o início de sua construção no rio Madeira devido aos seus impactos ambientais e sociais, como a redução dos estoques de peixes e o deslocamento de comunidades tradicionais. Seu reservatório abrange mais de 54.600 hectares, limitando o fluxo natural do Madeira.

“Houve um descontrole muito grande e o impacto foi grande para nós: a diminuição de peixes, a água [leitosa] permanecendo muitos meses dentro da comunidade. Isso afetou muito a gente”, Santos disse à Mongabay debaixo de uma árvore frondosa às margens do Lago Puruzinho, a 20 quilômetros da cidade de Humaitá.

Com o início das operações da usina em 2012, a escassez de peixes afetou não só as capturas e as vendas dos pescadores, mas também a dieta da comunidade do Puruzinho, que tradicionalmente comia peixe “todo dia”, afirmou Santos. “Peixe precisa de correnteza para navegar. Ele não precisa de água parada, ele precisa [estar se] movimentando. E o rio Madeira parou.”

O pescador Raimundo Nonato dos Santos (à esquerda, com a família) afirma que houve declínio nos estoques pesqueiros após a construção de hidrelétricas no rio Madeira. “Quando a gente pega um, é uma surpresa.” Foto: Kelvily Santos de Souza para a Mongabay.

O Rio Madeira também foi afetado pela usina hidrelétrica de Jirau, a quarta maior do país, localizada a 120 km rio acima, que começou a operar em 2013. Desde então, uma ampla gama de estudos tem mostrado uma redução nos estoques pesqueiros após os projetos de infraestrutura ao longo do Madeira. Um artigo recente revelou detalhes sobre as comunidades e espécies mais impactadas — questões até então sem resposta — tendo os pescadores como protagonistas.

Santos foi um dos 120 pescadores que trabalharam com os pesquisadores, fornecendo-lhes “informações valiosíssimas sobre a região”, disse o coautor Igor Hister Lourenço, ex-pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Infelizmente, ele é uma das pessoas que têm sido afetadas pelo declínio nos estoques pesqueiros — e um dos maiores colaboradores com os dados”.

Publicado em novembro de 2023, o artigo, liderado por pesquisadores da UFAM, analisou dados de capturas diárias na Colônia dos Pescadores de Humaitá entre maio de 2018 e abril de 2019 — dados atualizados estão sendo compilados para publicação — e informações do período anterior à barragem de Santo Antônio, em 2009 e 2010, coletados pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). “Os resultados mostram que a instalação das usinas hidrelétricas afetou negativamente a dinâmica de captura de diversas espécies de peixes devido à alteração dos períodos e locais de captura registrados anteriormente”, constatou o estudo.

Essas descobertas só foram possíveis, disse Lourenço, graças ao trabalho colaborativo entre pescadores e pesquisadores, utilizando o método tecnologia social de baixo custo aplicada ao monitoramento da pesca artesanal (TSBCAMPA), proposto por ele e outros pesquisadores.

Desaparecimento de peixes

Ao retornarem de um dia de pesca, os pescadores compartilham informações sobre onde, como, quando e quanto gastaram para pescar, bem como a quantidade e as espécies capturadas, disse Lourenço. Técnicos do laboratório da UFAM, presentes nos desembarques diários, anotam essas informações em um formulário para quantificar e identificar os peixes e realizam medições biométricas e tiram fotos de todos os peixes capturados, acrescentou. Depois, todas essas informações são sistematizadas, permitindo aos pesquisadores identificar qual peixe veio de qual embarcação, qual pescador o capturou e qual é a espécie, disse Lourenço.

“O Puruzinho era um dos ambientes mais piscosos do município”, disse Lourenço à Mongabay nas margens do rio Madeira, dentro de um barco utilizado para a pesquisa e como sua residência temporária. “É fato que diminuíram as capturas”, acrescentou ele, enquanto um jacaré descansava na margem do rio e uma iguana verde (Iguana iguana) subia em árvores.

O estudo apontou 25 novos pontos pesqueiros “com capturas expressivas”, ao passo que nas comunidades de Sossego, Trapicho, Lago do Caiarí e Santa Júlia a pesca desapareceu. O artigo também registrou menos capturas de Characiformes e Siluriformes, ordens que abrangem várias famílias, gêneros e espécies de peixes com escamas e sem escamas. Para Siluriformes, as capturas também passaram a ocorrer em locais e períodos diferentes, apontou o estudo. “Consequentemente, isso levou os pescadores a buscarem novos e mais distantes locais de captura e ocasionou o desaparecimento de comunidades que, historicamente, exploravam áreas que não são mais produtivas, refletindo os efeitos do barramento sobre os gradientes de captura espacial/temporal”.

As barragens interromperam o fluxo natural do Madeira, mudando as correntes necessárias para a reprodução dos peixes, provocando uma redução de até 90% nos estoques em alguns locais. Foto: Kelvily Santos de Souza para a Mongabay.

A pesquisa também mostrou uma redução de até 90% nos estoques de peixes em alguns locais, entre 65 espécies capturadas nas áreas de influência das barragens de Santo Antônio e Jirau. “O maior problema não é nem a redução das capturas — apesar de isso ser algo que existe e está sendo corroborado pelos relatos dos pescadores”, disse Lourenço. Para ele, a questão principal são as mudanças na dinâmica espaço-temporal nas atividades de pesca artesanal. “O que isso quer dizer? Algumas espécies passaram a ser capturadas em locais diferentes e em épocas diferentes e isso, por sua vez, faz com que algumas comunidades sejam extremamente afetadas.”

Segundo Lourenço, os dados sobre a redução de peixes no estudo são um tanto “discutíveis” porque foram utilizados métodos diferentes nos períodos pré e pós-barragens. Em estudos anteriores, acrescentou, as conclusões eram genéricas em termos de informação sobre as comunidades e espécies mais afetadas após a construção das barragens do Madeira. Da mesma forma, disse Lourenço, as informações compartilhadas pelas empresas não revelaram o local de captura ou a espécie, apenas o nome comum e as capturas totais.

Em um comunicado por e-mail, a Axia, responsável pela barragem de Santo Antônio, afirmou que a usina tem operado de forma “sustentável” e realizado ações socioambientais supervisionadas por autoridades governamentais e “em diálogo com as comunidades no entorno e representantes da sociedade civil”.

A empresa informou que investiu mais de R$ 2,6 bilhões em 28 programas socioambientais, entre eles um programa de ictiofauna, que monitora a dinâmica da população de peixes desde 2009, e um sistema de transposição de peixes, mas não divulgou os resultados. A Axia disse que Santo Antônio tem um reservatório reduzido que “reproduz o comportamento hidrológico” do Madeira e “não interfere na força natural do rio”.

A Jirau Energia, proprietária da barragem de Jirau, não respondeu aos pedidos de resposta da Mongabay.

Com o objetivo de resolver esse problema por meio de uma “pesquisa mais refinada”, Lourenço disse que a parceria com os pescadores foi fundamental: algumas espécies foram selecionadas, permitindo a avaliação de suas capturas antes e depois da barragem em locais específicos.

Cerca de 120 pescadores trabalharam com pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) para mapear os prejuízos das barragens do Madeira para a pesca. Foto: Igor Hister Lourenço.

Menos peixe em todo lugar

“Depois das usinas, o peixe desapareceu”, disse a agricultora Maria Delci Barros de Morais, de 58 anos, à Mongabay na varanda de sua casa em Paraíso Grande, localidade também coberta pelo estudo de 2023.

Moradora da comunidade há 37 anos, Morais afirmou que os peixes eram muito abundantes no passado, mas agora a realidade é de escassez. “Meus filhos gastam dinheiro com malhadeiras, isopor, gelo e, às vezes, não ganham [dinheiro] nem para o sustento, quanto mais para cobrir que eles gastaram”.

Em Rondônia, a Mongabay também visitou a comunidade de Calama e a Terra Indígena Karipuna, ambas na área de influência das barragens, mas não pesquisadas pelo artigo. As queixas sobre a escassez de peixe são generalizadas.

“Há 10 anos, com meia hora você pegava, sem exagero, até 500 kg de peixe”, disse o líder indígena Adriano Karipuna à Mongabay debaixo de árvores centenárias da Floresta Amazônica, na Terra Indígena Karipuna. “Hoje, passam 6 horas e se [a gente] pegar quatro peixes, é bastante — e não é o tamanho do peixe adequado.”

A agricultora Maria Delci Barros de Morais (segunda da esquerda, com a família) diz que os peixes eram muito abundantes em sua comunidade de Paraíso Grande, mas agora a realidade é de escassez. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Maria das Graças Correia da Silva, operacional de serviços gerais e limpeza em uma escola em Calama, disse que os estoques de peixes reduziram drasticamente após as barragens. Ela disse que gosta de comer peixe capturado na região todos os dias, mas a única forma de garantir esse alimento em meio à escassez é comprar peixe de cativeiro em Porto Velho. “Passei um tempo sem ter peixe daqui da região.”

Todas as comunidades também relataram perdas por inundações, bem como o agravamento de problemas de saúde após terem de substituir o peixe por outras proteínas, como frango e alimentos processados.

Lourenço disse que as empresas alegam que o declínio de peixes se deve à sobrepesca, o que ele afirmou não ser verdade, pois os pesquisadores monitoram todas as capturas na região. Segundo ele, as empresas também afirmaram que as barragens “não afetam a média geral da bacia”, o que é verdade, mas a diferença nos níveis de água, conhecida como repiquete, causa prejuízos aos pescadores.

“O peixe não entende [essas mudanças nos níveis da água]; o que ele entende é o volume de sedimentos na água e o nível da água. Então, quando o rio sobe, ele vai para os igarapés, e quando desce, ele volta”, disse Lourenço, atualmente analista pleno de pesquisa e desenvolvimento no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. “Os pescadores já tinham, historicamente, através de gerações, esse conhecimento: saber quando e onde eles iam capturar. Agora eles saem, colocam as malhadeiras, e aí o rio sobe quando o peixe deveria descer. E isso prejudica porque tem investimento e é caro.”

Lutando por compensação

Desde 2013, os pescadores de Humaitá buscam compensação pelas perdas junto às empresas proprietárias das usinas. Eles entraram com uma ação pedindo indenização por danos morais e materiais, mas a Justiça de Humaitá decidiu que a ação havia prescrito. Os pescadores recorreram e o caso aguarda decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas.

Lourenço, o pesquisador, disse que o estudo de 2023 é um retrato da situação entre 2018 e 2019, mas que o cenário pode ter mudado ainda mais. A coleta de todas essas informações é um trabalho contínuo, acrescentou, e dados atualizados estão em processo de revisão para publicação, o que permitirá aos pesquisadores “comparar os nossos dados com os nossos dados” e ter menos incertezas sobre os resultados.

Os dados coletados pela UFAM desde 2018 estão disponíveis em uma plataforma interativa para ajudar a gerir os estoques e apoiar políticas de conservação, disse Lourenço. A ferramenta fornece informações detalhadas sobre as espécies capturadas na região: localização, peso, tamanho, preço por quilo e períodos hidrológicos.

A comunidade de Paraíso Grande também foi coberta pelo estudo de 2023, que avaliou os estoques pesqueiros do rio Madeira. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Para incentivar os pescadores a colaborar com o estudo, disse Lourenço, foi-lhes concedido o direito de usar os dados para reivindicar seus pedidos de aposentadoria, dado que a pesca artesanal é, geralmente, um trabalho informal.

Mas o principal objetivo das pesquisas é ajudá-los a obter compensação pelos danos, disse Lourenço. “O nosso sonho final é que, no futuro, eles mesmos possam fazer o preenchimento desse formulário, mas, atualmente nós precisamos dos técnicos, que estão lá todos os dias de manhã nos desembarques.”

No Lago Puruzinho, Santos disse que seu sonho é criar peixes na região para combater a escassez. Mas, para isso, ele disse que precisa obter recursos financeiros para saldar as dívidas da Associação de Desenvolvimento da Comunidade do Lago do Puruzinho e avançar com a compra de tanques para peixes.

“Quando se fala do peixe, ele serve de renda para nossa sobrevivência e para o nosso alimento. O peixe tem essa importância para nós na nossa região.”

Escrito por Karla Mendes, repórter investigativa da Mongabay no Brasil.

Nova lei do licenciamento ambiental promete destravar obras

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Nova lei do licenciamento promete destravar obras. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei do Licenciamento Ambiental Especial (LAE). A norma estabelece prioridade na análise e na concessão de licenças para empreendimentos considerados de grande relevância, como a reconstrução de rodovias, por exemplo. O texto foi publicado no Diário Oficial da União no dia 23 de dezembro de 2025.

Saiba mais: Portal Amazônia responde: o que é Licenciamento Ambiental?

De acordo com a nova lei (nº 15.300/2025), empreendimentos que já possuem licença prévia terão prazo de 90 dias para apresentar os estudos ambientais exigidos. Já os órgãos ambientais deverão se manifestar em até 30 dias. Caso esse prazo não seja cumprido, o empreendedor poderá recorrer aos dados secundários mais recentes disponíveis.

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Foto: Vitor Vasconcelos/Secom

O texto determina ainda que a análise conclusiva das obras deverá ser finalizada em até três meses após o protocolo dos estudos, com prazo máximo de 12 meses para a conclusão de todo o processo de licenciamento ambiental especial.

A legislação também introduz conceitos relacionados a medidas preventivas e mitigadoras, além de atualizar diretrizes para atividades de dragagem. Além disso, foram mantidas as restrições específicas para a proteção de territórios vulneráveis, como terras indígenas e unidades de conservação.

A norma resulta da conversão da Medida Provisória nº 1.308, aprovada pelo Congresso Nacional no início de dezembro, e substitui trechos do projeto original da Lei do Licenciamento Ambiental (nº 15.190/2025), vetados pelo governo federal por preverem uma análise em etapa única, considerada insuficiente para garantir a proteção ambiental.

Cascata de armadilhas para coleta dos insetos. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), afirmou que a nova lei contribuirá para a retomada de obras de infraestrutura no país.

“Esta Casa votou e aprovou uma medida provisória, transformada agora em lei de conversão, sobre o licenciamento ambiental especial, que vai destravar este país de inúmeras, de milhares de obras que estão paralisadas, que prejudicam o nosso país pelo imobilismo. Esta lei libertará o Brasil e gerará milhares de empregos na nossa economia.”

Mão de obra técnica

Apesar de acelerar o ritmo do licenciamento, o analista ambiental Charles Dayler avalia que a principal fragilidade do sistema está na escassez de mão de obra técnica dos órgãos ambientais, tanto em nível estadual quanto federal, sobretudo nos pequenos municípios. “É unânime no Brasil todo, quando você participa de eventos e conferências, que a quantidade de técnicos nos órgãos ambientais é insuficiente para a demanda de processos”.

Nova lei do licenciamento promete destravar obras. Foto: Josivan Antelo/Rede Amazônica RR

Dayler observa que, diante desse cenário, o caminho mais frequente adotado pelo poder público tem sido a flexibilização das normas. “Só que temos que achar um meio termo. Não dá só para flexibilizar a norma e não recompor o quadro dos órgãos e a qualificação constante dos funcionários”, alerta.

Um exemplo dessa fragilidade institucional ocorre no município de Guaramiranga, no norte do Ceará, onde a Justiça da Comarca de Pacoti acatou uma ação do Ministério Público do Ceará (MPCE) e reconheceu que a Autarquia Municipal do Meio Ambiente não possui capacidade técnica para exercer atividades de licenciamento e fiscalização ambiental, consideradas de alta complexidade.

Decisão

A decisão apontou que o órgão foi criado por meio de uma lei municipal que previa cargos comissionados sem exigência de qualificação técnica ou concurso público, o que viola normas federais e estaduais. Com isso, a Justiça declarou a inconstitucionalidade de dispositivos da lei e determinou que a prefeitura e a autarquia não podem nomear comissionados, nem emitir licenças ou autorizações ambientais, até que seja implantada uma estrutura adequada, com servidores concursados e qualificados.

Manejo florestal sustentável
Manejo florestal sustentável. Foto: Rinkon Martins

Enquanto isso, a responsabilidade pelo licenciamento e fiscalização ambiental no município ficará sob a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace).

O professor do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), Reuber Brandão, avalia que o principal problema nesse contexto é a transferência de atribuições para agências ambientais estaduais, frequentemente ocupadas por servidores nomeados pelo governo local em cargos de confiança, responsáveis por conduzir estudos ambientais relacionados a interesses políticos circunstanciais. 

Segundo ele, o loteamento de cargos compromete a qualidade técnica dos processos. “O loteamento de cargos nomeados é um grande problema, pois a pressão política muitas vezes sobrepõe a necessidade de qualidade técnica nos estudos”, afirma.

Fonte: Brasil 61

Plataforma gratuita facilita habilitação de produtores rurais para exportação

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Produtores rurais podem conseguir permissão para exportar a produção através de plataforma. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Agora ficou mais fácil para os produtores rurais conseguirem permissão para exportar a produção. Começou a funcionar, nesta semana, a nova funcionalidade da plataforma Agro Brasil + Sustentável de habilitação automática para áreas que atendem a diferentes critérios socioambientais dos países importadores.

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O serviço de habilitação de Área de Produção para Exportação integra, organiza e disponibiliza informações de gestão ambiental, social e corporativa relacionadas aos produtores, empresas agrícolas e propriedades rurais para qualificar os produtos agropecuários brasileiros.

Leia também: Amazônia ganha plataforma de dados climáticos e territoriais

Plataforma gratuita facilita habilitação de produtores rurais para exportação
O serviço de habilitação de Área de Produção para Exportação integra, organiza e disponibiliza informações. Foto: Pedro Guerreiro/Agencia Pará

Leia também: Acre anuncia lançamento de plataforma que mapeia impactos de inundações no estado

A ferramenta também visa a atender às exigências de grandes mercados internacionais, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O objetivo é permitir a habilitação do produtor e de produtos agropecuários, a partir de requisitos, padrões, processos e tecnologias, devidamente caracterizados quanto à produção.

Agro Brasil + Sustentável

Lançado há um ano, o sistema Agro Brasil + Sustentável integra dados oficiais do governo e informações fornecidas pelo mercado, como certificações emitidas por instituições de avaliação de conformidade. A ferramenta auxilia produtores a atenderem às exigências socioambientais do mercado interno e externo de forma gratuita, como se habilitar para acessar recursos do Plano Safra.

Fonte: Brasil 61

Sistemas agrícolas tradicionais guardam memória e apontam caminho para o futuro, afirma antropóloga 

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Emília de Godoi. Foto: Erika de Faria/Temporal Filmes

Na fronteira da monocultura da soja na Amazônia, comunidades comprometidas com a prática de sistemas agrícolas tradicionais (SATs) preservam a memória do passado, sustentam o meio ambiente e mostram um caminho para o futuro.

“Esses sistemas desempenham papel fundamental na produção das paisagens e na manutenção da sociobiodiversidade”, afirmou a antropóloga Emília Pietrafesa de Godoi, professora do Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp).

Ela apresentou a conferência “Sistemas agrícolas tradicionais como herança cultural e ambiental” na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025: Humanidades, Ciências Sociais e Artes.

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Godoi desenvolve atualmente, com apoio da FAPESP, pesquisa sobre sistemas agrícolas tradicionais na região do Baixo Tapajós, no Pará, articulando-os como patrimônio cultural e ambiental. Sua equipe atua principalmente na Floresta Nacional (Flona) do Tapajós e em seu entorno, em comunidades como Jamaraquá, Maguari, São Domingos, Santa Cruz, Revolta e Jatobá da Volta Grande, em sinergia com as organizações das comunidades locais, como as associações agroecológicas de mulheres Amabelas e Flores do Campo.

“Desde o início, o desenho do trabalho exigiu a combinação de muitos olhares. Temos antropólogos, economistas, ecólogos, geógrafos, uma pessoa especializada em direito ambiental e pesquisadores da área de biologia. Mas o que estamos fazendo não é só uma pesquisa interdisciplinar. É também uma pesquisa colaborativa entre distintos regimes de conhecimento. Sem a participação das populações locais, é impossível levar adiante o trabalho”, disse.

Um eixo central da proposta é reconhecer os moradores como pesquisadores locais. “Temos falado muito em interlocução entre campos de conhecimento, mas não temos considerado suficientemente a colaboração entre esses distintos regimes. No Baixo Tapajós, não consideramos os moradores meros informantes”, sublinhou Godoi.

“Não chegamos lá dizendo ‘vamos fazer isso ou aquilo’. Antes de iniciar as atividades, visitamos cada comunidade para apresentar o projeto e ouvir as demandas. A partir dessas conversas, foram estruturadas oficinas com temas de interesse dos moradores, como associativismo. Além das oficinas, organizamos intercâmbios entre as comunidades e entre os moradores e pesquisadores universitários. Encontros em Santarém, Campinas e na Universidade Federal do Oeste do Pará [Ufopa] colocaram ribeirinhos, quilombolas, produtores agroecológicos e acadêmicos na mesma roda de conversa. Estamos agora elaborando um livro, com contribuições de cada participante. Esse processo reforça uma demanda que vem crescendo entre indígenas e comunidades tradicionais: serem reconhecidos como coautores”.

O ponto de partida conceitual da conferência foi o reconhecimento dos sistemas agrícolas tradicionais como patrimônios. No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já reconheceu, por exemplo, os sistemas agrícolas tradicionais de populações indígenas do Rio Negro e de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira como patrimônio cultural. A região estudada por Godoi ainda não foi patrimonializada.

“Em nosso caso, eles estão profundamente ligados às chamadas ‘terras pretas de índios’, que aportam uma dimensão temporal profunda, como remanescentes de sociedades pré-coloniais”, explicou Godoi.

Leia também: Terra preta de índio: características, usos e benefícios

“Memória da terra” e “memória na terra”

Enquanto a arqueologia “olha para baixo”, escavando as formações de terras pretas para desenterrar fragmentos de cerâmicas e outros vestígios das populações ancestrais, como relatou Eduardo Neves em sua conferência na Escola Interdisciplinar FAPESP 2025, a antropologia “olha para cima”, para ver o que as populações atuais fazem com essas terras.

“Grande parte dos SATs na região da Flona e do entorno se faz nas terras pretas, porque estas são extremamente férteis. E, quando falam de suas vidas, as pessoas com quem trabalho contam histórias com a terra”, sublinhou.

Daí a complementaridade, proposta por Godoi, entre a “memória da terra” – isto é, a memória que a terra guarda, revelada por fragmentos cerâmicos, antigos poços, aterros, montículos – e “memória na terra” – inscrita por cultivos, sítios e roças manejadas por gerações de famílias. “Quando estamos com os moradores locais, somos convidados a visitar lugares onde a terra guarda uma memória secular. Eles reconhecem que, ali, estiveram outras populações e desenrolaram-se outras histórias de vida”, conta a pesquisadora.

Outra dimensão fundamental dos sistemas agrícolas tradicionais é a das micropaisagens domésticas: hortas, jiraus, canteiros de plantas medicinais, jardins com espécies ornamentais, cercados por árvores frutíferas ao redor da casa. “É uma paisagem feminina, porque manejada principalmente por mulheres, mesmo que os homens também trabalhem nela. Uma interlocutora local resumiu a potência desse universo dizendo que a família tinha uma ‘farmácia viva’ no sítio”, lembrou Godoi.

Os sistemas agrícolas tradicionais trazem também a ideia de uma cadeia intergeracional no manejo da terra e na produção da paisagem. A roça que está sendo trabalhada agora foi plantada pelo pai ou pelo avô e deverá ser transmitida, como legado, ao filho e ao neto.

“O entendimento dos mais velhos sobre os pomares é o de que eles expressam uma cadeia alimentar intergeracional de longa duração. O cacau e o teperebá [cajá] que hoje se come ou se bebe em forma de suco provêm do mesmo pé que alimentou o avô e que deverá ser deixado para o neto. Um agricultor de São Domingos foi questionado pelos vizinhos: por que plantar árvores frutíferas se ‘não tinha para quem deixar’? A resposta veio quando nasceu seu neto, Benjamin. Ele me disse, feliz, que agora plantava para o Benjamin”, comentou Godoi.

Cacau cultivado em Rondônia, no Brasil. - Sistemas agrícolas tradicionais
Cacau cultivado em Rondônia, no Brasil, faz parte de sistemas agrícolas tradicionais. Foto: Irene Mendes/Secom RO

A relação não utilitária explica também o regresso daqueles que partem, em busca de melhores condições de vida. “Histórias de migração e retorno também são incorporadas à terra. Um morador de Jamaraquá, o senhor Edson, passou 20 anos em Manaus e voltou em 2015. Ele me disse: ‘Chegou um dia de voltar para a raiz. Essa raiz, essa vontade, esse conhecimento eu não perdi. Estou recuperando o que meu pai fez’. E desenhou na terra sua roça, explicando: ‘Uma parte para colher em seis meses, outra para um ano, e no meio as frutíferas. No mesmo modelo que meu pai deixou para nós’”, observou Godoi.

A floresta e as roças formam um contínuo: a mata fornece alimentos, mudas e sementes comestíveis, fibras e outras sementes para o artesanato, enquanto as roças mantêm uma combinação de cultivos de ciclos curto, médio e longo. “Os ribeirinhos advertem: ‘Nossa roça é para ter o que comer e vender nas feiras’. As famílias participam em alguma medida do mercado, vendendo em feiras locais, em Santarém e Alter do Chão, ou atendendo políticas públicas de compra de alimentos, mas preservam áreas de produção voltadas prioritariamente para autoconsumo e troca, baseadas na reciprocidade”, explica Godoi.

Ameaças aos sistemas agrícolas tradicionais

Toda essa paisagem sociobiodiversa vem sendo ameaçada pela monocultura da soja, que avança inclusive sobre áreas próximas à Flona e ao longo da BR-163. “As pessoas afirmam que a terra está cercada de ‘sojeiros’. A mosca-branca que ataca as plantas – melancias, por exemplo – é associada à soja pelos agricultores. Quando há pulverização de agrotóxicos, o veneno, espalhado pelo vento, afeta as pessoas, os animais e as plantas”, relata Godoi.

Mesmo dentro da Flona, área formalmente protegida, as comunidades percebem alterações profundas. “Eles dizem que, antes, as árvores tinham o tempo certo de produção e recuperação; agora está tudo variado. As mangueiras produzem menos e as mangas caem do pé antes de amadurecer”, diz a pesquisadora.

Outro exemplo mostrado pela pesquisadora: a foto de uma castanheira solitária cercada por um campo de soja, nas cercanias da comunidade Revolta.

“A castanheira é a árvore-símbolo do Pará e espécie-chave dos sistemas florestais amazônicos. Sabemos, por estudos ecológicos, que ela depende de polinização cruzada. Uma árvore isolada dificilmente produz frutos. Precisa de plantas companheiras e de polinizadores, como as abelhas grandes, também afetadas pelos agrotóxicos. A árvore está lá, porque a castanheira é protegida pela lei, mas seu ciclo de vida foi completamente alterado. A literatura mostra que a distribuição, o adensamento e o rejuvenescimento das populações de castanheiras são favorecidos pela relação de longa duração com as populações humanas amazônicas”.

O projeto também passou a incorporar análises laboratoriais sobre contaminação por agrotóxicos. Em sua última ida ao campo, a pesquisadora voltou com um cooler cheio de amostras de terra das roças, igarapés e mel de abelha. “Levei tudo para o laboratório de química analítica da Unicamp, e estamos comprando, com o apoio da FAPESP, os reagentes para fazer a análise de glifosato”, contou.

Para a antropóloga, este é um exemplo emblemático da colaboração entre diferentes campos da ciência e entre diferentes regimes de conhecimento.

“Há certos problemas impossíveis de serem tratados sem essa interlocução entre vários campos da ciência, sem reconhecer que as populações locais são produtoras de conhecimento e guardiãs de um patrimônio ambiental e cultural que vai muito além dos nossos indicadores convencionais”, concluiu.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por José Tadeu Arantes