Rio Branco (AC) será palco, entre os dias 17 e 19 de setembro, de encontros que colocam a inovação, a biodiversidade e o empreendedorismo no centro da construção de uma economia mais sustentável e inclusiva no bioma amazônico. O Inova Amazônia Summit 2026, promovido pelo Sebrae, reunirá empreendedores, startups, investidores, pesquisadores, governos e outros atores do ecossistema de inovação no Centro de Convenções da Universidade Federal do Acre (UFAC).
Com acesso gratuito, as inscrições podem ser feitas pelo site oficial, onde pode ser conferida a programação. Entre os destaques estão novidades, como o Festival de Gastronomia Amazônica e o Espaço Cultural Chico Mendes.
O público também poderá conhecer produtos da bioeconomia desenvolvidos na região na loja colaborativa Brasil BioMarket, no modelo da que o Sebrae promoveu durante a COP30, em Belém (PA).
Para ampliar as oportunidades de visibilidade e mercado, a edição deste ano contará com 90 pequenos negócios de bioeconomia dos nove estados da Amazônia Legal, além de 20 representantes de Indicações Geográficas (IGs), que reúnem produtos reconhecidos por características, reputação ou qualidade associadas à sua origem.
“Os expositores apresentarão produtos, serviços e soluções desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica, demonstrando a capacidade da região de gerar inovação, valor e oportunidades econômicas de forma sustentável”, declarou Valéria Schneider, analista de Inovação do Sebrae Nacional.
Cozinha Show será parte da programação do evento. Foto: Divulgação
“O evento cria um ambiente para transformar conhecimento em soluções, biodiversidade em produtos e serviços, conexões em negócios e inovação em desenvolvimento sustentável”, acrescenta.
Destaques da programação
Os participantes terão acesso a palestras e painéis com especialistas, oficinas temáticas, atividades culturais e experiências que valorizam a identidade amazônica, como o Spa da Floresta, um espaço de experiências sensoriais e bem-estar voltado para o autocuidado com elementos da biodiversidade amazônica, e a Cozinha Show, onde o público poderá acompanhar apresentações de chefs na elaboração de pratos para valorizar os sabores, temperos e ingredientes da Amazônia.
A programação também contará com uma estrutura dedicada à realização de rodadas de negócios nacionais e internacionais. A iniciativa aproxima empresas amazônicas de compradores, parceiros e potenciais clientes do Brasil e do exterior. As rodadas de investimento, por sua vez, ampliam as possibilidades de acesso a capital para startups e negócios inovadores.
Outro espaço estratégico será o OKA Hub, ambiente dedicado à conexão e à articulação do ecossistema. A proposta é estimular networking, inovação aberta e colaboração, aproximando startups, empresas, investidores, instituições e outros atores que atuam na agenda da bioeconomia.
Jornada de inovação e criatividade
Pela primeira vez, o Inova Amazônia Summit terá um Ideathon voltado a estudantes, professores e jovens talentos interessados em desenvolver soluções para desafios e oportunidades da bioeconomia amazônica. A iniciativa será um espaço de aprendizado, experimentação e conexão, com equipes multidisciplinares formadas por três a cinco integrantes.
As propostas podem abordar temas como Floresta e Sociobiodiversidade, Economia Circular e Resíduos e Tecnologia para a Bioeconomia. As inscrições estão abertas até 30 de agosto e devem ser feitas por meio do formulário on-line.
Os grupos classificados terão acesso a conteúdos sobre bioeconomia, metodologia de inovação, mentorias com especialistas e preparação para apresentar suas soluções. Durante o Summit, os participantes poderão apresentar os projetos no Pitch Day, enquanto os finalistas terão acesso à programação e às conexões do evento. Os vencedores serão reconhecidos no palco do Inova Amazônia Summit.
Resultados da edição Inova Amazônia Summitde 2025
Em 2025, o Inova Amazônia Summit foi realizado em Macapá (AP), onde reuniu cerca de 11 mil inscritos e movimentou R$ 2,19 milhões em vendas durante o evento. A programação também gerou R$ 5,3 milhões em rodadas de investimento e R$ 825,1 mil em rodadas de negócios.
Alegria, acolhimento e leveza marcaram o dia de pacientes, acompanhantes e colaboradores do HCSA. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
As atividades em celebração aos 26 anos do Hospital da Criança Santo Antônio (HCSA), comemorados neste mês de agosto, começaram nesta quarta-feira, 26, e seguem até esta sexta-feira, 28. A programação foi pensada para levar mais alegria, acolhimento e leveza ao dia a dia de pacientes, acompanhantes e colaboradores.
Nesta sexta-feira, o HCSA entrou no clima da Sexta Colorida, momento especial em que os servidores vestiram fantasias e levaram cores e diversão aos corredores e demais espaços. A iniciativa proporcionou descontração às crianças, aos acompanhantes e aos profissionais, tornando o ambiente hospitalar mais leve e acolhedor.
“Somos a única unidade de atendimento infantil no estado e sempre temos motivos para comemorar, porque todos os anos temos avanços, tanto com equipamentos de alta tecnologia quanto no processo de trabalho. A gente comemora também as taxas reduzidas de óbito e de internação, pois os pacientes hoje ficam menos tempo internados. Eles saem com alta e bem recuperados. Então, são vários motivos para a gente comemorar”, disse a diretora do HCSA, Laudineia Barros.
Servidores se fantasiaram para a Sexta Colorida e levaram diversão aos corredores da unidade. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Mãe de bebê internado destaca acolhimento durante a Sexta Colorida
Quem também aprovou a presença dos servidores fantasiados foi a autônoma Lucielly Marques, de 26 anos, mãe do pequeno Nicolas Valentin, de apenas 1 mês. Com o bebê internado, ela criou uma fantasia de Batman para que ele também participasse da ação. Segundo Lucielly, o filho vem recebendo todo o cuidado e a atenção da equipe durante o período de internação.
“Meu filho vem sendo muito bem atendido e vi uma evolução muito boa nele, tanto que ele está para receber alta. Fiquei sabendo da Sexta Colorida e queria sair um pouco do leito. Estamos aproveitando para passear e fantasiá-lo também”, afirmou Lucielly.
A mamãe Lucielly Marques preparou uma fantasia especial de Batman para o pequeno Nicolas Valentin. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Feirinha reúne gastronomia, artesanato e produtos dos servidores
As comemorações também incluíram a Feirinha dos Servidores Empreendedores, montada na área externa do HCSA. A iniciativa valorizou os talentos e os empreendimentos dos próprios colaboradores, com exposição de produtos, gastronomia e artesanato.
A assistente administrativa Cleocineide Viriato, de 48 anos, trabalha há mais de 12 anos no hospital e aprovou a iniciativa. “Essa ação traz para os funcionários um momento para tirar um pouco o foco do que vivemos todos os dias. E acaba integrando tanto os usuários quanto os servidores. Aproveitei e já comprei alguns produtos na feirinha para minhas netas”, ressaltou.
A Petrobras enviou ao Rio de Janeiro a primeira amostra de petróleo do poço de Morpho, no Amapá. O material será analisado para mapear seu ‘DNA’. Foto: Divulgação/Foresea
A Petrobras enviou ao Rio de Janeiro a primeira amostra de petróleo encontrada no poço de Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. O material passará por exames detalhados no Centro de Pesquisas da estatal (Cenpes) para mapear o “DNA” do combustível e determinar a composição do óleo descoberto na região, segundo apuração da Agência Reuters.
Por se tratar de um líquido considerado “ouro” para a companhia — uma vez que não há outra amostra disponível —, o transporte é feito de caminhão sob forte esquema de segurança e logística especial. O trajeto até a capital fluminense deve levar cerca de três semanas.
“É uma carga delicada, mesmo em pequena quantidade, e demora mesmo porque tem uma logística especial. É uma amostra que não pode se perder porque vale ouro. Se perder essa, não tem outra”, afirmou o gerente-geral de águas ultraprofundas da Petrobras, Fábio Passarelli.
A descoberta do petróleo no poço de Morpho foi confirmada no dia 14 de agosto e gerou forte expectativa no governo e no setor energético. No Rio, a amostragem será analisada no laboratório de Pressão, Volume e Temperatura (PVT) do Cenpes, estrutura especializada no teste inicial de novas reservas.
“É um laboratório altamente tecnológico e toda primeira descoberta é feita nele. Lá se conhece o que é o fluido, quais contaminantes ele tem, o DNA do negócio, do óleo. Ali se fazem levantamentos termodinâmicos e se analisam pressão, volume e temperatura, que são informações básicas para entender o fluido”, explicou Passarelli.
A amostragem é peça-chave nos planos da Petrobras para a Margem Equatorial, área litorânea estratégica avaliada pela empresa para recompor suas reservas, cuja produção atual tem previsão de declínio a partir de 2034.
Apesar do apelo econômico, o avanço na bacia da Foz do Amazonas gera um dos maiores impasses socioambientais do país. Cientistas, ONGs e órgãos ambientais alertam para os riscos à biodiversidade da Amazônia e o descumprimento de metas climáticas.
Os principais pontos de preocupação envolvem:
Exigências rigorosas do Ibama: O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) adota postura de cautela devido à complexidade da região.
Ameaça a recifes e manguezais: Entidades como o Greenpeace e a WWF-Brasil alertam para os impactos sobre o Grande Sistema de Recifes da Amazônia — ecossistema raro de corais e esponjas — e sobre a vasta faixa de manguezais contínuos do litoral amapaense.
Impacto em comunidades tradicionais: Líderes locais e ambientalistas apontam o risco que potenciais acidentes ou a poluição sonora de embarcações trazem para a pesca artesanal, territórios quilombolas e terras indígenas costeiras.
Transição energética: Grupos socioambientais sustentam que o aporte de bilhões de reais na expansão da infraestrutura de combustíveis fósseis desacelera a transição para fontes renováveis e prejudica as metas de redução de emissões do país.
A Petrobras afirma seguir rigorosamente todos os protocolos de segurança exigidos pela legislação ambiental.
Após a conclusão das análises do poço Morpho, a companhia prevê a perfuração de mais três poços em busca de petróleo no mesmo bloco e outros cinco em áreas adjacentes na costa do Amapá, que dependem de licenciamento ambiental.
Ainda não há prazo para determinar o volume da acumulação ou sua viabilidade comercial. Esses resultados precisarão ser integrados a outros dados geológicos e geofísicos.
Com temperaturas que passam dos 35°C, praias e balneários se tornam alternativas para quem busca lazer e alívio durante os dias mais quentes em Manaus (AM), que enfrenta dias de temperaturas elevadas durante o período de verão amazônico.
O aumento do calor, também causado pelo fenômeno El Niño, leva os moradores e turistas à buscarem cada vez mais novas alternativas para amenizar o calor, além de aproveitar os espaços de lazer da capital amazonense.
Entre as opções estão praias de água doce, parques aquáticos e espaços públicos às margens do Rio Negro:
Praia da Lua
Às margens do Rio Negro, a Praia da Lua é uma das opções procuradas por moradores e turistas durante os dias de calor. O local reúne água doce, faixa de areia para descanso e áreas cercadas pela vegetação amazônica. Assim, além do banho de rio, o espaço proporciona contato com a natureza longe da área mais urbanizada da cidade.
Como chegar? O acesso à Praia da Lua é feito por embarcações, com saída da Marina do Davi. O trajeto dura aproximadamente 10 a 15 minutos, dependendo da embarcação e das condições do rio. Os horários e valores das viagens podem variar, por isso é recomendado consultar os responsáveis pelo transporte antes de realizar o passeio.
Foto: Tácio Melo/Arquivo AmazonasTur
Balneário do Sesc
Outra alternativa para quem procura uma opção de lazer para toda a família são os balneários, como o Balneário José Ribeiro Soares, do Sesc Amazonas, localizado no bairro Alvorada, na Zona Centro-Oeste de Manaus. O espaço conta com parque aquático e funciona aos fins de semana, a partir das 9h.
O acesso ao parque aquático é feito mediante a compra de uma pulseira. Os valores variam de acordo com a categoria do visitante e a idade, além da carteirinha que pode gerar outros benefícios. Para saber mais, basta procurar o Sesc Amazonas.
Como chegar? O Balneário Sesc está localizado na Avenida Constantinopla, nº 288, bairro Alvorada, em Manaus.
Foto: Reprodução/Sesc Amazonas
Complexo Turístico Ponta Negra
Uma das opções mais conhecidas para quem busca lazer próximo ao Rio Negro é a Praia da Ponta Negra, na Zona Oeste de Manaus. O complexo turístico possui acesso facilitado e reúne áreas destinadas à prática de atividades físicas, lazer e contemplação. A praia também é um dos principais pontos turísticos da capital.
Como chegar? Localizada a aproximadamente 13 quilômetros do Centro de Manaus, a região também fica próxima ao Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, por isso, várias linhas de ônibus chegam ao local, basta verificar no sistema do Sinetram. Também é acessível por outros meios de transporte.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Manaus
Cuidados durante os dias de calor
Além de procurar locais para se refrescar, especialistas recomendam atenção aos cuidados com a exposição prolongada ao calor. A população deve manter a hidratação, utilizar protetor solar e evitar exposição direta ao sol nos períodos de maior intensidade. Também é importante optar por roupas leves e procurar ambientes frescos e ventilados.
O cenário climático também exige atenção. Dados e projeções climáticas divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontam alta probabilidade de estabelecimento e persistência do fenômeno El Niño durante o segundo semestre de 2026 com possibilidade de continuidade até o início de 2027.
Para quem pretende aproveitar praias e balneários, a recomendação é redobrar os cuidados com a exposição solar, principalmente nos horários de maior incidência de radiação.
Cursos são oferecidos por meio dos laboratórios de inclusão digital mantidos pelo Instituto Descarte Correto em diferentes localidades. Foto: Divulgação/Instituto Descarte Correto
No intuito de ampliar o acesso à inclusão digital e oferecer oportunidades de capacitação, o Instituto Descarte Correto abriu mil vagas gratuitas para cursos de Informática Básica, destinados a moradores de Manaus e de municípios do Amazonas. A iniciativa visa contribuir para a vida acadêmica, profissional e pessoal de estudantes.
Os cursos são oferecidos por meio dos laboratórios de inclusão digital mantidos pelo instituto em diferentes localidades. Para saber onde os cursos estão disponíveis, acompanhar a abertura das inscrições e verificar as próximas turmas, os interessados devem acessar o perfil do Instituto Descarte Correto no Instagram.
Para Camila Dinelli, a presidente do Instituto Descarte Correto, a iniciativa representa uma oportunidade de transformação para os estudantes.
“Hoje, saber utilizar um computador e ter conhecimentos básicos de informática deixou de ser apenas um diferencial. É uma necessidade para quem busca estudar, trabalhar e ter mais autonomia. Nosso objetivo é fazer com que essas pessoas tenham acesso ao conhecimento e percebam que a tecnologia e a inclusão também pode abrir portas e transformar suas vidas”, afirma.
Interessados devem acompanhar informações sobre os locais, períodos de inscrição, cursos disponíveis e demais orientações nas redes sociais do Instituto Descarte Correto. Foto: Divulgação/Instituto Descarte Correto
Inclusão na Amazônia
Proposta é levar conhecimento e acesso à tecnologia para quem enfrenta dificuldades com ferramentas digitais e oportunidades de formação. Foto: Divulgação/Instituto Descarte Correto
Segundo a presidente, o acesso aos cursos é simples. Os interessados devem acompanhar as redes sociais do Instituto Descarte Correto, onde são divulgadas informações sobre os locais, períodos de inscrição, cursos disponíveis e demais orientações para participação.
“Queremos que as pessoas procurem o instituto, acompanhem nossas redes sociais e aproveitem essa oportunidade. Muitas vezes, uma capacitação gratuita pode ser o primeiro passo para conseguir um emprego, melhorar a renda, voltar a estudar ou simplesmente ganhar mais confiança para lidar com a tecnologia no dia a dia”, destaca Camila.
Além de Manaus, o Instituto Descarte Correto atua em 4 estados da Amazônia (Manaus, Pará, Roraima e Rondônia) e mais de 30 municípios do Amazonas, levando ações de inclusão digital para diferentes regiões do Estado.
A expansão dessas atividades busca reduzir as desigualdades no acesso à tecnologia, ampliar as oportunidades de qualificação e proporcionar novas possibilidades de aprendizado para estudantes e moradores dessas localidades.
Dos 2.702 km² desmatados na Amazônia nos últimos 12 meses, entre agosto de 2025 e julho de 2026, apenas 46,96 km² foram registrados dentro de terras indígenas. Essa área equivale a 1,7% do total derrubado na região, embora os territórios dos povos originários ocupem 23% da Amazônia.
A análise, feita com dados do instituto de pesquisa Imazon, reforça a importância dessas terras e de seus povos para a proteção da biodiversidade, manutenção das chuvas e controle das mudanças climáticas.
O período de agosto a julho é chamado de “calendário do desmatamento” pelos sistemas de monitoramento da Amazônia. Em relação ao calendário passado, quando foram destruídos 3.503 km² de floresta, 2026 apresentou uma queda de 23% na devastação. Essa foi a menor área desmatada dos últimos 11 calendários, ou seja, em mais de uma década.
Além de ser a classe territorial com a menor derrubada da floresta, quase 60% das terras indígenas tiveram desmatamento zero nesses 12 meses. E, entre os 40% que tiveram áreas desmatadas, apenas 11 registraram um desmatamento maior do que 1 km², o que corresponde a cerca de 100 campos de futebol.
Terras indígenas com desmatamento maior do que 1 km² na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026
Terra indígena
Desmatamento (km²)
TI Cachoeira Seca (PA)
4,44
TI Andirá-Marau (AM/PA)
2,83
TI Porquinhos dos Canela-Apãnjekra (reestudo) (MA)
2,53
TI Sete de Setembro (RO/MT)
2,48
TI Trincheira/Bacajá (PA)
2,16
TI Arara do Rio Branco (MT)
1,76
TI Sepoti (AM)
1,49
TI Vale do Javari (AM)
1,36
TI Aripuanã (MT/RO)
1,16
TI Yanomami (AM/RR)
1,08
TI Wedezé (MT)
1,02
Já as unidades de conservação tiveram 239,76 km² de desmatamento, o correspondente a 9% do total na Amazônia. Nessa categoria de território, 63% teve desmatamento zero e apenas 32 deles registraram derrubada maior do que 1 km². “Esses novos dados só reforçam o papel das terras indígenas e das unidades de conservação como barreiras para o avanço do desmatamento da Amazônia e, consequentemente, a manutenção das chuvas em todo o país. Por isso, é fundamental reconhecer e valorizar a importância desses territórios para a conservação da Amazônia e para a proteção dos serviços ambientais que beneficiam todo o país”, afirma Larissa Amorim, pesquisadora do Imazon.
10 Unidades de Conservação com maior desmatamento na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026
Unidade de conservação
Desmatamento (km²)
APA Triunfo do Xingu (PA)
90,87
FLONA de Altamira (PA)
25,96
RESEX Chico Mendes (AC)
17,24
FES do Rio Gregório (AC)
7,98
RESEX Guariba-Roosevelt (MT)
7,8
APA do Tapajós (PA)
7,31
RESEX Alto Juruá (AC)
5,58
FES do Mogno (AC)
5,3
RESEX Rio Preto-Jacundá (RO)
4,87
APA do Lago de Tucuruí (PA)
4,08
Apesar da redução geral no desmatamento, alguns territórios protegidos seguem sendo alvo da derrubada da floresta, como a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará. Apenas essa unidade de conservação registrou 38% de todo o desmatamento detectado nesse tipo de território na Amazônia.
“Esse problema do avanço da derrubada na APA Triunfo do Xingu não é uma novidade. Há anos essa área protegida tem estado entre as que mais sofreram com a destruição da vegetação nativa. Situações como essa exigem tanto esforços para evitar que novas áreas de floresta sejam desmatadas quando para restaurar as áreas destruídas”, comenta Raíssa Ferreira, pesquisadora do Imazon.
Pará, Mato Grosso e Amazonas lideram o desmatamento
Entre os estados, os que mais desmataram entre agosto de 2025 e julho de 2026 foram Pará, Mato Grosso e Amazonas, que juntos foram responsáveis por 70% de toda a derrubada registrada na Amazônia.
“Por possuírem os maiores territórios, esses estados estão com frequência entre os três que mais desmatam, alternando as colocações ao longo dos anos. Governos precisam investir em ações constantes e efetivas de fiscalização nesses territórios mais pressionados e punir os responsáveis pelo desmatamento ilegal “, explica Manoela Athaide, pesquisadora do Imazon.
Estado
Desmatamento (km²) entre agosto de 2024 e julho de 2025
Desmatamento (km²) entre agosto de 2025 e julho de 2026
Variação
Pará
1171
818
-30%
Mato Grosso
745
565
-24%
Amazonas
721
495
-31%
Acre
372
327
-13%
Roraima
201
262
30%
Maranhão
104
122
17%
Rondônia
154
97
-37%
Tocantins
28
11
-61%
Amapá
7
5
-29%
Apenas em julho, o desmatamento chegou a 445 km² na Amazônia, um aumento de 26% em comparação com o mesmo mês de 2025. Apesar dessa alta, 2026 teve a menor área desmatada em 10 anos, entre 2015 a 2024.
Queda na degradação chega a 93%
Diferente do desmatamento, que é a remoção completa da vegetação, a degradação florestal, dano causado pelo fogo e pela extração madeireira, teve uma queda de 93%. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, quando a Amazônia sofreu com recordes de incêndios, a degradação chegou a 35.229 km². No último calendário, entre agosto de 2025 a julho de 2026, a área degradada caiu para 2.577 km², sendo a menor desde 2023.
Apenas em julho, a degradação passou de 502 km² em 2025 para 107 km² em 2026, uma queda de 79%.
Acesse aqui o boletim do desmatamento e da degradação de julho de 2026
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon
Vista aérea da região de Belém onde será construído o data center da Elea. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia
Quando soube pela imprensa e por redes sociais que Belém, capital paraense, receberia o primeiro data center da Amazônia, o promotor de Justiça Márcio Silva Maués de Faria, do Ministério Público do Pará (MP-PA), ficou surpreso. Ele já vinha acompanhando com atenção alguns megaempreendimentos em discussão no Brasil, como no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e no Ceará. Então, instaurou um inquérito civil para apurar o caso.
“Achei necessário fiscalizar não só a legalidade dos estudos ambientais, mas também da participação popular. É um assunto que nos causa bastante preocupação”, disse, em entrevista exclusiva à InfoAmazonia, o 1º Promotor de Justiça de Meio Ambiente, Defesa Comunitária e Cidadania, da Infância, Juventude e dos Idosos de Barcarena (PA), município vizinho à Belém, onde populações de ribeirinhos e pescadores potencialmente serão afetados, segundo o inquérito.
De acordo com informações do site da Elea Data Centers, empresa responsável pelo data center “BEL1”, o empreendimento será construído em um terreno alugado que pertence à AXIA Energia (a antiga Eletrobras, que foi privatizada em 2022), na zona portuária de Miramar, no bairro Barreiro. O investimento inicial será de R$ 250 milhões, com previsão de conclusão da estrutura no segundo trimestre de 2027.
Vista aérea da região de Belém onde será construído o data center BEL1, da Elea. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia
Na abertura do inquérito, Maués enviou um ofício à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém (Semma). Em resposta, a Semma informou que não há, no momento, procedimento administrativo para o licenciamento ambiental do empreendimento, portanto “não há, neste momento, processo de licenciamento, estudos técnicos ou documentos correlatos em análise por esta secretaria, tampouco registros de consultas ou audiências públicas”.
Em seguida, o promotor procurou a Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas), que também negou a existência de qualquer processo em aberto sobre o BEL1 e atribuiu a competência da análise à esfera municipal.
O licenciamento ambiental é um processo que exige estudos de impacto e consulta prévia às populações potencialmente afetadas pelo empreendimento. Sem que esse rito tenha sido cumprido, Maués questiona a definição, pela Elea, de um cronograma para o projeto. Mesmo se houver acordo em outra instância municipal, como a Secretaria de Obras de Belém, exemplifica o promotor, a Semma deveria deliberar sobre eventual dispensa de licenciamento.
Pedido de documentação de data center
Em 6 de agosto, o MP-PA requisitou à Elea a documentação referente à autorização dos órgãos ambientais do estado do Pará ou do município de Belém, para planejamento e instalação do empreendimento. A empresa tem um prazo de 30 dias para responder, o que não havia feito até a publicação desta entrevista.
A capacidade inicial instalada demandará 7,5 MW de energia fornecida pela hidrelétrica da AXIA na zona portuária, com a possibilidade de ampliação para até 100 MW. Isso significa o consumo mensal médio, respectivamente, de 31 mil (1,1%) a 410 mil (15%) residências no Pará, conforme cálculo da InfoAmazonia nos dados oficiais do anuário estatístico da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), referente a 2025.
Para Maués, a demanda energética do data center poderia concorrer com o fornecimento de energia – ou a falta de fornecimento – para a população da região.
“Belém paga, provavelmente, a energia mais cara do país. Na Ilha das Onças, logo em frente [a 4,5 km da capital paraense], há pessoas que não têm energia elétrica, não têm água potável. Você vai autorizar um empreendimento que vai consumir o equivalente a milhares de residências?”, questiona o promotor, na entrevista à InfoAmazonia.
Cenas do bairro Barreiro, onde será construído novo data center em Belém. Foto: Luis Ushirobira/InfoAmazonia
Na portaria do inquérito, Maués considera que graves impactos sociais e ambientais são apontados em estudos sobre a instalação e operação de outros data centers no mundo, com destaque para ilhas de calor extremo, altíssimo consumo de recursos hídricos para a refrigeração de equipamentos, elevada demanda energética e poluição sonora contínua. “No final das contas, a gente fica lidando por décadas e gerações com um passivo socioambiental, e o suposto progresso chega somente para os investidores”, diz o promotor.
Confira a entrevista na íntegra:
Quando o senhor e o MPPA tomaram conhecimento do data center em Belém?
Promotor de Justiça, Márcio Silva Maués de Faria, do Ministério Público do Pará (MP-PA). Foto: InfoAmazonia
Márcio Silva Maués de Faria — Eu tomei conhecimento por meio de mídia social, no começo de julho. Não houve anúncio por parte de nenhuma autoridade. A empresa fez o anúncio e essa notícia se espalhou. Alguns portais começaram a questionar a falta de consulta às populações, estudo, transparência. Me chamou a atenção porque é um tema que tenho acompanhado. Vejo projetos em outros locais do país com vários questionamentos.
Me parece que há uma orquestração. Em Uberlândia, uma das empresas responsáveis pelo empreendimento estava envolvida com o Banco Master e desistiram de lá. No Rio Grande do Sul, um bairro na cidade mais afetada pelas enchentes recentes [Eldorado do Sul], e que seria o local mais seguro, vai ser destinado a um polo tecnológico. O Ministério Público Federal tem atuado no caso do [data center no] Ceará, que é bem grande.
Nessa nova etapa de capitalismo tecnológico, com a inteligência artificial, eles não ligam muito para empecilhos governamentais locais. No Brasil, a gente tem esse histórico de aceitar qualquer coisa. Vamos ficar atentos. A gente precisa, de fato, ter uma postura firme. Então, achei necessário fiscalizar não só a legalidade dos estudos, mas também da participação popular. É um assunto que nos causa bastante preocupação.
Te surpreendeu essas notícias já virem com a informação da autorização de instalação da empresa?
Márcio Silva Maués de Faria — Bastante. Primeiro, já tem um cronograma. Estão anunciando o início das operações para 2027. Segundo, uma vereadora de Belém, a Vivi Reis, questionou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), que informou primeiro que teria que se reportar ao prefeito para qualquer informação, depois reportou que não tinha nenhum estudo. Aí eu oficiei a secretaria, que me informou que não havia nenhum protocolo de licenciamento para esse empreendimento. Eu oficiei também a secretaria de estado [de meio ambiente, clima e sustentabilidade], a Semas, que me informou que a competência seria do município.
Nenhuma das duas me informou qualquer estudo técnico, qualquer licença expedida. Não há sequer protocolo nem estudo apresentado. Fica realmente a impressão de que houve uma tratativa governamental lá atrás, não sei a que nível. Isso foi autorizado, mas não pelos órgãos ambientais.
Ainda não existe uma regulamentação de data centers. Qual seria o rito adequado para um empreendimento desse?
Márcio Silva Maués de Faria — A Constituição elege o direito ao meio ambiente e ao equilíbrio ecológico como um bem fundamental. Dentro das ferramentas que a legislação nos proporciona, a gente vai optar por aquela mais protetiva. Na falta de uma regulamentação específica, é o licenciamento ambiental, cumprindo todas as etapas, onde se demonstra que não vai haver um impacto significativo, ou que a tecnologia que será utilizada não vai consumir muitos recursos, seja hídrico, seja energético. Se não vai causar ondas de calor. São vários pontos importantes que não comportam um licenciamento simplificado. Não se trata de uma obra de engenharia comum.
Existe algo na Lei Geral de Licenciamento Ambiental, por exemplo, que poderia permitir um processo acelerado, ou a dispensa do licenciamento?
Márcio Silva Maués de Faria — A legislação sempre comporta algum tipo de interpretação, especialmente quando não tem uma legislação específica. Mas, a meu ver, ainda que essa brecha seja encontrada, ela adentaria no campo da ilegalidade.
Em 16 de julho, o MPPA instaurou o inquérito civil. Qual é a função desse inquérito no processo de autorização do empreendimento? É para assegurar direitos ambientais e sociais?
Márcio Silva Maués de Faria — O local do empreendimento anunciado seria em frente à Ilha das Onças e Arapiranga, que são territórios de Barcarena, onde tem comunidade ribeirinha, e tem uma questão ambiental. Eles lidam com pesca, com recurso hídrico diretamente, a água. Numa suposta ilha de calor que já foi anunciada em alguns estudos, o impacto também atingiria o território deles. A deputada [estadual] Lívia Duarte protocolou no Ministério Público de Belém um pedido de instauração de inquérito, de apuração. Não foi noticiado que tenham instaurado o procedimento.
O ideal seria a gente apurar esses multifatores, como o consumo hídrico. Apesar de haver tecnologias mais atuais que consomem menos água, a gente não sabe qual vai ser utilizada. O fornecimento de energia fatalmente será muito alto. Tem uma questão urbanística, de aumento de calor. Em torno do local, várias comunidades sem regularização fundiária. A poucos metros dali, aVila da Barca é nacionalmente conhecida pela situação precária. São pessoas de baixa renda que não vão ter como se defender num eventual aumento de temperatura. Não é todo mundo que pode comprar um ar-condicionado. Então, me parece um conjunto de fatores e esclarecimentos necessários, que não comportam um licenciamento simplificado ou uma mera autorização sem qualquer estudo ambiental.
Pelo que já constataram no processo, há indícios de ilegalidade?
Márcio Silva Maués de Faria — Eu não posso afirmar que há indício de ilegalidade, mas há alguns fatores que nos preocupam. Por exemplo, do empreendimento ser anunciado, inclusive com cronograma, sem que tenha sequer um pedido de licença protocolado. A licença prévia pela legislação ambiental é onde você apresenta os estudos para ver a viabilidade ambiental do projeto. Já está no portfólio da empresa, na internet. É um indício de que, pelo menos, o processo talvez esteja sendo atropelado ou de alguma sonegação de informação. As autoridades ambientais não têm nenhuma informação.
Então, é preciso esclarecer melhor como foi essa tratativa e, de fato, tem que envolver a sociedade. No território amazônico, somos pródigos de projetos que vêm dizendo que não vão causar impactos negativos, que a vida das pessoas vai melhorar, que é uma oportunidade que o estado não pode perder, se não vai para outro lugar. No final das contas, a gente fica lidando por décadas e gerações com um passivo socioambiental, e o suposto progresso chega somente para os investidores. As pessoas e o meio ambiente acabam sendo sempre muito afetados.
Nova York abriu uma moratória de um ano para novos data centers. O pesquisador holandês Marcel Hazel, professor da universidade federal aqui [do Pará], falou que na Holanda tentaram [construir um data center] e, quando souberam do consumo de água, ninguém aprovou. Me parece que é uma fronteira que eles estão tentando expandir. Até hoje, estava muito em busca de minérios, recursos naturais, madeira.
Hoje, acho que está mais na biotecnologia, na água, recursos que são mais escassos em outros locais e que a gente tem em abundância. Não é um empreendimento que vai trazer emprego, desenvolvimento. Talvez vai melhorar a banda de internet, e só. Não acredito que nenhuma empresa vai sair de São Paulo, Brasília, Curitiba, para se instalar em Belém por causa disso.
Vocês já tiveram acesso à autorização para instalação? Houve um acordo?
Márcio Silva Maués de Faria — Nada. Não posso dizer que há um acordo. Eu solicitei à Secretaria de Meio Ambiente de Belém. Disseram que não há nenhum protocolo de licença, nenhum procedimento. Solicitei à do estado. O estado disse que esse processo estava sendo conduzido pela Secretária Municipal de Belém e que eles não teriam competência para licenciar, que seria do município. Então, ficou um jogo de empurra para um lado e para o outro, e nenhum documento. Uma tratativa de dispensa do licenciamento também dependeria de um procedimento na secretaria. A empresa tem um prazo de 30 dias para que nos esclareça qual procedimento administrativo foi adotado para autorizar o início das atividades.
Eu vou questionar a prefeitura se em outra secretaria ou órgão municipal há algum tipo de autorização para o empreendimento. Nós sabemos que potencialmente há um impacto no meio ambiente pela experiência de pesquisa de outros locais. Então, tem que ser feito o estudo.
Depois que houve a instalação do inquérito e algumas matérias, tem aparecido uma tropa digital defendendo o projeto: “a Amazônia entra na rota dos data centers de inteligência artificial”. Então, me parece que eles vêm querendo limpar essa imagem.
O empreendimento está previsto para o bairro Barreiro, na zona portuária de Belém. Quais populações podem ser direta ou indiretamente impactadas pela instalação desse data center? Quais são esses impactos?
Márcio Silva Maués de Faria — Como é um centro de processamento de alta potência, produz muito calor, muita energia térmica. O consumo hídrico é muito elevado para o resfriamento. Alguns prédios dissipam no ar e geram uma ilha de calor bastante forte ao redor. Um estudo do pesquisador italiano Andrea Marinoni, vinculado à Universidade de Cambridge, identificou aumento de temperatura a até 9 quilômetros ao redor. Não posso afirmar que a tecnologia que seria implementada vai provocar esse calor.
Eles anunciam um sistema fechado de resfriamento. Mas, se não apresentar estudo técnico, a gente não sabe qual será o consumo e o impacto à população. Vai instalar uma tecnologia dessa na beira de um rio e não usar nada de recurso hídrico? Acho um pouco curioso.
Para energia, não tem alternativa. É um consumo muito elevado. Belém paga provavelmente a energia mais cara do país. Na Ilha das Onças, logo em frente, há pessoas que não têm energia elétrica, não têm água potável. Você vai autorizar um empreendimento a consumir o equivalente a milhares de residências? A que custo será subsidiado? Isso vai impactar para o consumidor? Como a gente não consegue ter uma energia elétrica de qualidade, um serviço de qualidade, e uma empresa vai?
A AXIAEnergia [a antiga Eletrobras, privatizada em 2022] também é responsável pela hidrelétrica de Belo Monte, integrada à nível nacional, que é deficitária em parte do ano. Isso vai impactar? E a compensação da sociedade pela instalação do empreendimento? Porque não adianta dizer que é sustentável, com uso de água reduzido. Tem impacto, sim. Tem um consumo muito grande de recursos naturais. Que compensações foram discutidas com a sociedade para os impactos que virão? Os impactos que pode haver precisam ser discutidos: aumento de temperatura, recursos hídricos, se vai impactar de alguma forma a pesca, o barulho que pode ser gerado. Tudo precisa ser esclarecido e demonstrado tecnicamente.
Em relação à energia, a empresa anuncia que terá uma capacidade inicial instalada de 7.5 MW e pode ampliar até 100 MW. Esse empreendimento vai competir diretamente com a oferta de energia à população de Belém ou também de Barcarena?
Márcio Silva Maués de Faria — Provavelmente da região toda. Ela diz que a energia é renovável, como se as hidrelétricas fossem todas limpas, sustentáveis. Não é bem assim. A expansão a até 100 MW também é bastante relevante.
A previsão da empresa é de que a estrutura seja concluída até o segundo trimestre de 2027. Esses nove meses permitem que ainda haja consulta pública e estudo de impacto ambiental, ou já deveria ter acontecido?
Márcio Silva Maués de Faria — Eu entendo que o tempo da empresa não pode sobrepor o tempo da legalidade, o tempo dos processos necessários. Se for necessário fazer estudos, relatórios, audiência, então que o prazo dele seja alterado. Não é a legislação que tem que se adequar ao prazo que eles desejam.
Pelo que vocês apuraram, essa autorização de instalação está acontecendo na esfera municipal. Por ter potencial impacto em Barcarena, fora do município de Belém, esse processo de autorização deveria acontecer na esfera estadual, e não municipal?
Márcio Silva Maués de Faria — Eu entendo que sim. O impacto justifica o licenciamento pelo órgão estadual. Não sei se o jurídico das secretarias entendeu de forma diversa. Penso que sim,porque foi a informação prestada pela Secretaria de Meio Ambiente do estado. Isso pode ser objeto inclusive de judicialização.
Pelo data center não ter tido estudos ambientais e consulta prévia, existe brecha para a judicialização?
Márcio Silva Maués de Faria — Eu sempre dialogo primeiro, para verificar a possibilidade de correção. A judicialização não é a minha primeira opção, a não ser em um caso que realmente a gente precisa frear ou que o diálogo seja interrompido. Judicializar algo que a gente ainda não está compreendendo é complicado. A minha ideia é receber a resposta da empresa e designar uma reunião, colocar o posicionamento do Ministério Público, que entende que devem ser, de fato, obedecidas todas as etapas do licenciamento.
Quais são os próximos passos do inquérito civil?
Márcio Silva Maués de Faria — A gente está em uma apuração preliminar, para ver se há ilegalidade, para ver se há licença. No inquérito civil, a gente tem diversas ferramentas. Pode propor termo de ajustamento de conduta, termo de compromisso ambiental. Hoje, dentro da judicialização, pode haver acordos preliminares. As nossas ferramentas de atuação têm um espectro muito mais amplo de negociação, para evitar uma litigiosidade judicial, o que a nossa experiência mostra que muitas vezes é bem complicado.
No inquérito, já chegaram a apurar como são as operações da Elea em outras cidades?
Márcio Silva Maués de Faria — O que tem no site deles de dados é bem superficial. Me parece que, no interior de São Paulo, é uma área afastada, rural. Não sei se tem gente próxima. São Bernardo do Campo (SP) seria uma estrutura bem menor, de menor capacidade. No Rio de Janeiro, tem um megaempreendimento e o debate está intenso lá também. Para a gente [na região metropolitana de Belém], é uma realidade muito distinta. Tem uma população muito grande e vulnerabilizada no entorno. Tem muita gente morando ali. Então, é de se preocupar.
Belém, especialmente ali [na zona portuária], já é uma região muito estressada por questões energéticas, hídricas, ambientais, e principalmente calor. É provavelmente uma das capitais mais quentes do Brasil, assim como Manaus e Macapá. Nesse componente da mudança climática, nós temos uma lei estadual que precisa ser observada. Precisa ser demonstrado que não vai ter impacto climático na atuação. Então, tem várias vertentes para serem observadas, que entendo que sejam muito importantes.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo InfoAmazonia, escrito por Kevin Damásio
Estatal pretende perfurar 15 poços na Margem Equatorial após descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Foto: Divulgação/Petrobras
A Petrobras informou que o Plano de Negócios 2026-2030 prevê investimentos de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,85 bilhões), na perfuração de 15 poços na Margem Equatorial, região considerada promissora para a expansão da produção de petróleo e gás no país. Segundo a estatal, o valor corresponde a 37,5% do total destinado à exploração no período.
Três poços aguardam licenciamento ambiental para início das atividades. Na última semana, a companhia protocolou junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) o pedido de licença ambiental para a perfuração de três novos poços na costa do Amapá.
A informação foi confirmada pela diretora Clarice Copetti durante visita ao município de Oiapoque, na segunda-feira (17). O processo de licenciamento ambiental da Petrobras para perfuração de novos poços na Margem Equatorial ainda não foi concluído porque o Ibama está analisando informações complementares protocoladas pela empresa em 14 de agosto de 2026.
Esses dados são considerados essenciais para a conclusão das avaliações técnicas e incluem ajustes em planos de proteção da fauna marinha, medidas de resposta a emergências e estudos integrados sobre os impactos cumulativos da exploração.
A licença só poderá ser emitida após o Ibama validar se os novos documentos apresentados pela Petrobras atendem às exigências ambientais e de segurança. Até lá, os poços previstos seguem sem autorização para início das atividades.
Petrobras confirma descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, litoral do Amapá. Foto: Divulgação/Petrobras
Pedido dos novos poços enfrenta entraves ambientais
O avanço da exploração enfrenta entraves ambientais e regulatórios. O Ibama atua com cautela diante da complexidade da região, exigindo estudos mais detalhados antes de liberar licenças. Entidades como o Greenpeace e a WWF-Brasil alertam para os riscos sobre o Grande Sistema de Recifes da Amazônia, ecossistema raro formado por corais e esponjas, além da extensa faixa de manguezais contínuos no litoral do Amapá.
Líderes locais e ambientalistas também destacam os impactos potenciais em comunidades tradicionais. Acidentes ou mesmo a poluição sonora das embarcações podem comprometer a pesca artesanal, além de afetar territórios quilombolas e terras indígenas costeiras.
“Nós temos calendários tradicionais que são norteados a partir da mudança do tempo. Quando é período de chuva, é um período de determinadas espécies de que a gente se alimenta. Quando é verão, são outras espécies, como aves, como peixes, que vêm da água salgada também, porque o nosso território é banhado pelas águas do oceano”, disse Luene Karipuna, membro da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP).
O projeto da Petrobras na costa do Amapá é considerado estratégico para a soberania energética do país, mas desperta preocupações quanto à preservação de ecossistemas únicos e à proteção de populações que dependem diretamente dos recursos naturais da região.
Projeto da Petrobras na costa do Amapá é considerado estratégico para a soberania energética do país. Foto: Roberto Rosa/Agência Petrobras
O que é a Margem Equatorial?
A Margem Equatorial é considerada a nova fronteira exploratória da Petrobras. Localizada entre o Amapá e o Rio Grande do Norte, a região reúne cinco bacias sedimentares — Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar — e é apontada como estratégica para garantir a reposição das reservas de petróleo quando a produção do pré-sal começar a declinar.
São cerca de 2.200 quilômetros de extensão, abrangendo os estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá. O nome “Margem Equatorial” faz referência à linha imaginária do Equador, que passa próxima à região.
Mapa com os Estados das Bacias da Margem Equatorial. Imagem: Divulgação
Miriti é comumente usado no artesanato regional. Foto: Divulgação
O primeiro drone feito de miriti do mundo é uma criação da professora e cientista Keila Catete, em parceria com o Instituto Federal do Pará, Campus Belém. A nova tecnologia vai ser usada no Círio de Nazaré pela primeira vez, agregando o valor do artesanal nos brinquedos de criança feitos de miriti.
A mestranda em engenharia pelo Instituto Federal do Pará, Campus Belém, responsável pela implantação da nova tecnologia explica: “O projeto, ele agrega a sustentabilidade, a cultura local, a biodiversidade, principalmente, reconhecimento na área científica. E nada melhor do que agregar com a nossa cultura, a tecnologia, inovação e trabalhando com grandes especialistas”.
O projeto do drone feito de miriti deverá ser atração das crianças durante o Círio, que são o público tradicional quando se trata do material. Vale ressaltar que a mestranda em engenharia deverá apresentar o primeiro drone com sensor e faz o veículo aéreo não tripulado flutuar sobre a água.
“Essa tecnologia, ela vai agregar, a criança, ela vai observar, ela vai analisar que o protótipo, ela vai reconhecer tudo isso com controle remoto e toda a estrutura de um drone, terão acesso, mas sendo supervisionado por um profissional renomado e com aulas práticas, sim, essa criança, ela terá acesso, de acordo com a faixa etária, e também o modelo do drone. Nós sabemos, mais uma vez, que temos que, classificar o drone para que as crianças possam ter acesso com segurança”, comenta Keila.
Imagem aérea da Serra do Aracá registrada em maio de 2026, durante sobrevoo para planejamento de expedição científica que vai investigar a biodiversidade da região. Foto: Alexandre Percequillo
No extremo norte da Amazônia brasileira, próximo à fronteira com a Venezuela, um conjunto de montanhas com altitudes que variam de 1.300 a 1.700 metros abriga ecossistemas únicos, compostos por uma diversidade de animais e plantas que os cientistas acreditam só existir ali, na Serra do Aracá.
É para esse ambiente de difícil acesso, praticamente inexplorado, que uma equipe de 16 pesquisadores brasileiros, de diversas especialidades, embarcaram no dia 24 de agosoto, dando início à maior e mais complexa incursão científica já realizada naquela região.
A expedição representa a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira, financiado pela FAPESP com apoio do Exército Brasileiro.
Após desbravarem o Pico da Neblina, em 2017, e a Serra do Imeri, em 2022, os pesquisadores voltarão a atenção agora para a Serra do Aracá em busca de avançar no conhecimento sobre a história evolutiva das espécies encontradas no topo dessas montanhas de platôs planos, conhecidas como tepuis, cujas condições ambientais e climáticas são completamente diferentes das observadas nas terras baixas da floresta.
“A maior parte da baixa Amazônia está a menos de 100 metros de altitude e, embora ainda haja muito a ser estudado, a biodiversidade dessa área é relativamente bem conhecida. O mesmo não ocorre com a encontrada no topo dessas montanhas, por causa da dificuldade extrema de acesso”, diz Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição.
Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição na Serra do Aracá. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
“Até então, grupos pequenos de botânicos e zoólogos coletaram plantas e animais na Serra do Aracá, mas ninguém chegou a áreas tão isoladas como as que vamos adentrar”, afirma o pesquisador, que é um dos zoólogos mais experientes do país.
Os tepuis do Aracá fazem parte de um complexo maior de montanhas, conhecido como Tulu-Tuloi, que foi adotado como nome oficial da expedição. O transporte até o local será feito de helicóptero pelo Exército Brasileiro, a partir de uma base operacional em Barcelos (AM), no rio Negro, a 220 quilômetros de distância do local de acampamento.
As descobertas acumuladas nas expedições anteriores justificam as expectativas dos pesquisadores em relação ao que poderão encontrar na Serra do Aracá. No Pico da Neblina, a equipe identificou e descreveu duas famílias inteiramente novas de sapos, além de outras duas espécies de lagarto do gênero Riolama, pertencentes a uma família característica daquela região montanhosa. Na Serra do Imeri, coletaram uma nova espécie de ave, um achado considerado raro na ornitologia moderna, além de outras espécies inéditas de sapos e até um gênero novo de caranguejo de água doce.
Enquanto a descrição de novos anfíbios e répteis ocorre com relativa frequência em áreas tropicais isoladas, encontrar uma nova espécie de ave é um evento pouquíssimo usual. “As aves representam um grupo muito mais bem conhecido que qualquer outra classe de animais”, compara Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP e responsável pela descoberta. “Além dessa nova espécie de ave, temos uma outra em estudo”, conta o ornitólogo, que também participará da expedição à Serra do Aracá.
História evolutiva integrada
Na avaliação dos pesquisadores, os espécimes e as amostras de tecidos de plantas e animais que serão obtidos no Aracá, somados aos recolhidos no Pico da Neblina e no Imeri, permitirão começar a encaixar as peças do quebra-cabeça da biogeografia (o padrão de distribuição de espécies) nas montanhas amazônicas brasileiras, que contam uma história evolutiva integrada.
Como a maior parte da América do Sul permaneceu tectonicamente estável, o norte do Planalto das Guianas – onde estão o Pico da Neblina e as serras do Imeri e do Aracá – conservou-se praticamente inalterado desde que se separou do Planalto Central do Brasil, ao longo de todo o período Terciário (de 66 milhões a 2,6 milhões de anos atrás).
Em sua origem, a região consistia em um vasto platô contínuo. A partir do Cretáceo (entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás), a ação da água e dos ventos passou a esculpi-lo lentamente, abrindo vales profundos que fragmentaram o bloco original em pequenos maciços de altitude. Esse processo deu origem a uma dinâmica de especiação insular (quando a divisão de linhagens gera novas espécies distintas), criando “ilhas de pedra” cercadas pelas terras baixas da floresta. Esse isolamento converteu essas montanhas ou platôs isolados em refúgios únicos de espécies, explica Trefaut.
“Aquela região é, ao mesmo tempo, um berço e um museu de espécies. A especiação que ocorre ali é insular, porque o Pico da Neblina e as serras do Imeri e do Aracá funcionam como ilhas no continente, por causa do efeito da altitude. Essas áreas abrigam endemismos, ou seja, espécies que só existem ali e cujos parentes mais próximos só são encontrados em sistemas de montanhas, alguns situados a grandes distâncias geográficas, como na Mata Atlântica e nos Andes”, afirma.
O ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP, que também participará da expedição à Serra do Aracá. Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP
A prova de que o Pico da Neblina e a Serra do Imeri estiveram fisicamente conectados no passado foi revelada na comparação entre as espécies de sapos coletadas pelos pesquisadores em expedições nas duas regiões. “Coletamos no Imeri a espécie irmã de uma das novas espécies que também pertence a um gênero novo de uma das novas famílias de sapos que encontramos no Pico da Neblina. Isso mostra que existiu, de fato, conexão entre essas duas áreas no passado”, afirma Trefaut.
Por outro lado, embora compartilhem esse parentesco, as montanhas amazônicas exibem um intrigante contraste com os campos de altitude do Sudeste brasileiro, como as serras do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e do Itatiaia, entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Enquanto as espécies endêmicas do topo das montanhas dessas serras da Mata Atlântica derivam diretamente das que habitam a floresta localizada logo abaixo, as que habitam o topo dos tepuis amazônicos não têm qualquer relação próxima com a fauna da planície florestal vizinha.
“Nos tepuis, tudo o que está lá em cima não tem nada a ver com a Amazônia que está embaixo. São padrões completamente distintos de biodiversidade”, compara Trefaut.
Na fronteira entre o leste e o oeste
A escolha da Serra do Aracá como o terceiro vértice do triângulo das expedições científicas realizadas pelos pesquisadores às terras altas da Amazônia é fundamentada na singularidade geológica e biogeográfica da região. Do ponto de vista geológico, o Aracá é inteiramente moldado pela Formação Roraima, com platôs de arenito com cerca de 2 bilhões de anos de idade, sem qualquer afloramento de granito ou gnaisse – uma rocha metamórfica muito comum, formada sob condições de alta temperatura e pressão a partir da transformação de outras. Isso contrasta com o Imeri, onde o antigo platô de arenito foi completamente erodido, expondo o relevo residual de granito pré-cambriano, idêntico ao do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, explica Trefaut.
A serra do Aracá ergue-se exatamente na fronteira entre duas grandes províncias dos tepuis sul-americanos: a sub-região leste (cujo maior representante é o Monte Roraima) e a oeste (representada pelo Pico da Neblina). Os tepuis do leste (com limite próximo ao Monte Roraima) abrigam grupos exclusivos, como os sapinhos do gênero Oryophrynella. Do lado oeste, na região da Neblina, esse grupo não ocorre, dando lugar ao gênero Metaphriniscus e a um novo gênero descoberto pela equipe de pesquisadores.
“A Serra do Aracá está justamente no limite dessas duas áreas. Por isso, não temos ideia do que vamos encontrar lá”, diz Trefaut. “Pode ser que encontremos espécies que têm a ver com o leste e outras que tenham relação com o oeste. Conhecer o que tem lá vai nos ajudar a desvendar um pouco a história do relacionamento entre esses tepuis no passado também”, avalia.
O trabalho de campo será conduzido no Parque Estadual da Serra do Aracá, uma Unidade de Conservação de 1,8 milhão de hectares criada em 1990.
Técnicas inéditas de análises
A expedição reunirá especialistas de diversas frentes: botânica, palinologia (estudo de grãos de pólen), herpetologia (répteis e anfíbios), ornitologia (aves), mastozoologia (mamíferos), invertebrados e parasitologia.
Além de técnicas clássicas, os cientistas levarão inovações para otimizar as buscas no platô, como o uso de DNA ambiental (eDNA) – tecnologia voltada para analisar material biológico de animais disperso em amostras ambientais, tais como solo e água.
O emprego da técnica na expedição à Serra do Aracá foi motivado pela necessidade de identificar espécies que escapam dos métodos tradicionais de coleta, uma lição valiosa que os pesquisadores aprenderam na viagem à Serra do Imeri. Naquela ocasião, eles coletaram um girino que parecia comum, mas cuja análise laboratorial revelou tratar-se de uma espécie desconhecida de sapo da família Bufonidae.
“Quando fizemos as análises genéticas, nos demos conta de que pegamos o girino de uma espécie nova, mas não tínhamos coletado nenhum indivíduo adulto. Por meio do DNA ambiental, poderemos coletar material genético de animais que não pegarmos em campo”, projeta Trefaut.
Por meio dessa técnica de amostragem refinada, além de registrar anfíbios e outros animais difíceis de capturar, a equipe conseguirá mapear a biodiversidade microscópica local, detectando quais vírus e bactérias habitam esses ecossistemas isolados.
A expedição à Serra do Aracá é a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira. Foto: Alexandre Percequillo
Em paralelo a essa varredura molecular, também serão extraídas amostras de sangue e realizadas coleta de endo e ectoparasitas de todas as espécies de animais capturadas pelas equipes de zoologia logo após o registro de cada exemplar. Essa análise conjunta de patógenos, vetores e microrganismos permitirá identificar precocemente agentes infecciosos nativos e compreender a saúde ecológica desse ambiente isolado antes mesmo de as amostras chegarem aos laboratórios de São Paulo. “Isso é muito importante, inclusive do ponto de vista de segurança nacional”, sublinha Trefaut.
A equipe também manterá gravadores autônomos em funcionamento contínuo nos dois acampamentos para capturar vocalizações de animais difíceis de avistar. Na área de herpetologia, serão conduzidos experimentos de preferência térmica com répteis – testes que identificam a temperatura ideal que o animal busca no ambiente para regular o próprio corpo. Na mastozoologia, o pesquisador Alexandre Percequillo utilizará uma centrífuga manual para realizar cariótipos (mapeamento cromossômico) de roedores diretamente no campo.
Muito além de catalogar formas de vida inéditas para a ciência, o projeto também pretende contribuir para desvendar como essas populações montanhosas flutuaram, encolheram ou se expandiram ao longo das eras climáticas.
O grande diferencial científico da pesquisa será confrontar essas dinâmicas com o comportamento das espécies que habitam os campos de altitude da Mata Atlântica (como nas serras de Itatiaia e do Caparaó), revelando como ecossistemas montanhosos situados em latitudes e realidades climáticas distintas respondem às transformações ambientais ao longo do tempo.
“Uma das perguntas que pretendemos ajudar a responder é o que aconteceu com a história demográfica dessas populações de espécies em latitudes muito diferentes de uma região não tropical. Queremos verificar se esse padrão é o mesmo”, diz Trefaut.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Elton Alisson