Seca compromete safra de macaxeira e afeta produção de farinha em Roraima. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR
A estiagem e a falta de chuvas têm afetado o cultivo da macaxeira e a produção de farinha, um dos principais alimentos da região Norte. No município de Iracema, ao sul de Roraima, a seca interrompeu temporariamente a produção de farinha do produtor rural Jair Mota, de 63 anos.
Em Boa Vista, o preço da mandioca subiu 5,7% em setembro, chegando a R$ 35 por 6 kg. Já a farinha teve aumento de 3,06%, com o preço de R$ 22,23 por 3 kg, conforme dados da Secretaria de Planejamento e Orçamento de Roraima (Seplan).
A seca prejudicou o desenvolvimento das plantas e reduziu a produtividade da lavoura de Jair, que trabalha com o cultivo de mandioca há cerca de três anos.
“Estamos no período de entressafra, por causa da seca. Fizemos um replantio no final do período chuvoso. Agora, está tudo plantado para colher no ano que vem e produzir farinha. A produtividade cai porque não tem umidade, e a raiz da mandioca necessita de água para crescer e se desenvolver. A quantidade de amido diminui porque tem pouco líquido no solo”, afirmou.
A previsão do produtor é retomar a colheita entre março e maio de 2027, com a chegada das chuvas. Até lá, a produção permanece parada. Jair afirma que a situação também afeta outros produtores rurais que vivem em lotes no interior do estado.
Segundo ele, a falta de chuva dificulta o plantio, a colheita e até a criação de animais. A irrigação ajuda a reduzir os prejuízos em algumas propriedades, mas não resolve o problema de todos.
Para manter a renda durante o período sem produção, o produtor recorre a outras atividades comerciais. “Tem que buscar outra alternativa de negócio para sobreviver. Eu tenho outras empresas e outros negócios, que não estão necessariamente ligados à plantação”, disse.
Preço da mandioca em Boa Vista subiu 5,7% em setembro, chegando a R$ 35 por 6 kg. Já a farinha teve aumento de 3,06%, com o preço de R$ 22,23 por 3 kg. Foto: Divulgação/Seplan
Alta no preço da farinha afeta produção em Boa Vista
A empresa de farofa Sabor do Norte, de João Botelho, de 35 anos, compra farinha amarela de mandioca do Amazonas. Na fábrica, em Boa Vista, o produto é torrado com ingredientes naturais e embalado.
A marca trabalha com as linhas tradicional e ovinha, nos sabores manteiga, pimenta Uarini e bacon. As farofas são distribuídas em 14 dos 15 municípios de Roraima, com exceção de Uiramutã. Além disso, os produtos são comercializados em São Paulo e Santa Catarina e também exportados para os Estados Unidos.
A farinha ovinha, também conhecida como farinha de Uarini, é um alimento tradicional da Amazônia, originário do município de Uarini, no Amazonas. O produto é declarado Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do estado.
A produção diária da empresa varia de 400 a 500 unidades, com o uso de aproximadamente 300 quilos de farinha. A fábrica funciona de segunda a sexta-feira e produz cerca de 2,5 mil unidades de farofa por semana.
O empresário mantém um estoque elevado para se preparar para o período de estiagem no fim do ano, mas não esperava uma seca tão intensa. Segundo ele, deve manter o preço atual até fevereiro de 2027, enquanto o clima não estabiliza.
A empresa de farofa Sabor do Norte, de João Botelho, de 35 anos, compra farinha amarela de mandioca do Amazonas. Foto: Nalu Cardoso/G1 RR
O empresário afirma que, além da redução da produção de farinha, a baixa dos rios no Amazonas encarece o transporte da matéria-prima.
“Comprávamos a tonelada por cerca de R$ 6,7 mil. Agora, o valor varia entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, mas chegou a R$ 12 mil”, disse. Roraima ainda tem uma participação muito pequena na produção de farinha. Lá [no Amazonas], o que mais impacta é o frete, porque, quando o rio seca, o transporte fica mais caro”, explicou.
De acordo com o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado de Roraima (Fier), o frete em Roraima pode ficar até 50% mais caro no fim de 2026 e no início de 2027 por causa do El Niño.
“Toda vez que chega o período de final de ano, entre outubro e dezembro, os rios começam a baixar na região do Amazonas e a farinha sofre uma elevação de preço. Esse fenômeno acontece todos os anos, mas, desta vez, tivemos o El Niño e, além da seca dos rios, houve uma diminuição da produção por falta de chuva”, afirmou João.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno deve ganhar força no segundo semestre de 2026 e pode persistir até o início de 2027. Em Roraima, pode contribuir para períodos mais quentes e secos, alterar o regime de chuvas e aumentar o risco de incêndios florestais.
A combinação de calor intenso, falta de chuvas e baixa umidade do ar elevou o perigo de incêndios florestais em Roraima. Uma previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica que as precipitações continuarão escassas e mal distribuídas até pelo menos o fim de outubro.
Entre 2025 e 2026, o bairro Bela Vista recebeu cerca de 2 km de asfalto e 1 km de sistema de drenagem. Foto: Francisco Sena/PMBV
Com investimentos em pavimentação, drenagem e urbanização, a Prefeitura de Boa Vista tem promovido melhorias na mobilidade urbana e na qualidade de vida da população. Um exemplo é o bairro Bela Vista, na zona Oeste da capital. Entre 2025 e 2026, a região recebeu cerca de 2 km de asfalto e 1 km de sistema de drenagem. Atualmente, estão em execução os serviços de implantação de 1,8 km de calçadas e 1,7 km de meio-fio e sarjetas.
Os trabalhos são executados pela Secretaria Municipal de Obras (SMO) e contemplam importantes vias do bairro, entre elas a avenida Rio São Francisco, que passou por uma transformação completa, com drenagem, terraplenagem, pavimentação e urbanização, contribuindo para melhorar as condições de mobilidade e infraestrutura para os moradores.
A avenida Rio São Francisco passou por uma transformação de infraestrutura completa. Foto: Francisco Sena/PMBV
“Na avenida Rio São Francisco implantamos drenagem, em seguida terraplenagem, depois a via recebeu pavimentação e, na sequência, executamos a urbanização da avenida, com canteiro central, calçadas, meio-fio e sarjetas. Nosso objetivo é dar continuidade à ampliação da infraestrutura urbana e melhorar a qualidade de vida da população”, destacou a secretária municipal de Obras, Kaynara Carvalho.
Moradores destacam melhorias na mobilidade e na qualidade de vida
As obras também são reconhecidas por quem vive ou circula diariamente pelo bairro. A dona de casa Luzinete Morena da Cruz, de 63 anos, utiliza a bicicleta como meio de transporte e comemora as melhorias, especialmente a transformação da avenida Rio São Francisco.
A dona de casa Luzinete Morena, utiliza a bicicleta como meio de transporte e comemora as melhorias. Foto: Divulgação/PMBV
“O bairro está melhorando, a UBS e escolas ficam perto. Essa avenida era ruim para andar e agora está perfeita e muito bonita. Mas é preciso que o povo também tenha consciência para não jogar lixo nas ruas. A Prefeitura está de parabéns”, disse a moradora.
Odeilson Pereira acompanha as mudanças na infraestrutura do Bela Vista desde o início das obras. Foto: Diane Sampaio/PMBV
O servidor público Odeilson Pereira, de 47 anos, mora no bairro Professora Araceli Souto Maior e utiliza a motocicleta para se deslocar pela região. Ele acompanha as mudanças na infraestrutura do Bela Vista desde o início das obras e ressalta os benefícios da pavimentação, principalmente no período chuvoso. “Antes essa rua não tinha asfalto e no inverno piorava. Agora, asfaltada, melhorou 100%”, afirmou.
A iniciativa busca elaborar o Plano Municipal de Enfrentamento Climático. Foto: Will Manuiama/PMBV
Com o objetivo de fortalecer as políticas públicas de sustentabilidade e de enfrentamento às mudanças relacionadas ao clima em Boa Vista, a Prefeitura criou a Frente Municipal de Enfrentamento Climático (FMEC). A medida foi oficializada por decreto publicado no Diário Oficial do Município em 15 de outubro.
De acordo com o secretário municipal de Meio Ambiente, Sandro Barbot, a iniciativa busca promover a articulação entre órgãos e instituições públicas, a troca de informações e o suporte técnico à prefeitura na elaboração e no acompanhamento do Plano Municipal de Enfrentamento Climático.
A FMEC vai ampliar o diálogo com a sociedade civil, as instituições de ensino e o setor privado. Foto: Divulgação/PMBV
A Frente será organizada em quatro instâncias: Coordenação Geral, Secretaria Executiva, Câmara Técnica e Diálogo Ampliado. Segundo o secretário, as primeiras reuniões estão previstas para o fim de outubro.
“A FMEC vai fortalecer a atuação conjunta das secretarias municipais e ampliar o diálogo com a sociedade civil, as instituições de ensino e o setor privado. Queremos reunir conhecimentos e contribuições para planejar ações que reduzam os impactos das mudanças climáticas e preparem Boa Vista para esses desafios”, destacou Sandro Barbot.
Grupo contribuirá para o Plano Municipal de Enfrentamento Climático
A participação social será incentivada por meio de consultas públicas, que permitirão a apresentação de críticas, sugestões e propostas de diferentes segmentos da sociedade. A Frente também acompanhará a elaboração, a revisão e a implementação do Plano Municipal de Enfrentamento Climático, com recomendações técnicas para orientar as decisões do município.
A participação social será incentivada por meio de consultas públicas, que permitirão a apresentação de críticas, sugestões e propostas. Foto: Will Manuiama/PMBV
A Coordenação Geral será exercida pelo titular da SEMMA ou por representante formalmente indicado. A Secretaria Executiva prestará apoio técnico, administrativo e operacional às atividades, enquanto a Câmara Técnica reunirá representantes das secretarias e autarquias municipais que atuam em áreas relacionadas à agenda climática.
Já o Diálogo Ampliado será o espaço de participação da sociedade civil e de outros setores, favorecendo a construção coletiva de propostas e o fortalecimento das políticas climáticas em Boa Vista.
Petrobras faz nova descoberta de petróleo em poço na costa do Amapá. Foto: Divulgação/Petrobras
A Petrobras atingiu pela primeira vez o valor de mercado de R$ 800 bilhões, consolidando um momento de forte valorização da companhia em 2026. O marco foi alcançado no fechamento do pregão de 14 de outubro. Segundo a estatal, as ações preferenciais (PETR4) acumulam alta de cerca de 100% neste ano, enquanto os papéis ordinários (PETR3) avançaram aproximadamente 110%.
A empresa atribui o desempenho ao cenário internacional favorável para o petróleo, ao crescimento da produção, aos resultados financeiros e a movimentos recentes da agenda corporativa.
O novo recorde ocorre poucas semanas após a Petrobras anunciar uma nova descoberta de petróleo em águas ultraprofundas da Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial brasileira, região localizada na costa do Amapá. A descoberta ampliou as expectativas do mercado em relação ao potencial petrolífero da região Norte.
Em 2026, a Petrobras também registrou aumento na produção própria de petróleo no país, que atingiu 2,7 milhões de barris por dia no segundo trimestre, crescimento de 15% em comparação ao mesmo período do ano passado.
A Margem Equatorial é uma extensa faixa marítima localizada no litoral Norte do Brasil, entre o Amapá e o Rio Grande do Norte. A região é considerada uma das principais fronteiras exploratórias de petróleo do país e engloba diversas bacias sedimentares, entre elas a Bacia da Foz do Amazonas.
Nos últimos anos, a área passou a despertar interesse da indústria petrolífera devido ao potencial geológico semelhante ao encontrado em países vizinhos da costa atlântica africana, onde foram registradas importantes descobertas de petróleo. A região também está no centro de debates ambientais sobre os impactos da atividade petrolífera e os requisitos para o licenciamento das operações.
Como está a exploração de petróleo no Amapá
A Margem Equatorial tem reservas potenciais de 10 bilhões de barris de petróleo e investimentos previstos da ordem de R$ 280 bilhões. Foto: Cézar Fernandes/Agência Petrobras
A Petrobras anunciou no início de outubro a descoberta de petróleo em águas ultraprofundas da Bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. A descoberta é considerada uma das mais relevantes da companhia nos últimos anos e reforçou as expectativas sobre o potencial da Margem Equatorial brasileira.
A etapa atual consiste na avaliação da descoberta e na análise dos dados obtidos durante a perfuração do poço. Esse processo é necessário para determinar a extensão da acumulação encontrada, a qualidade do reservatório e a viabilidade econômica de uma futura produção comercial.
Caso os estudos confirmem o potencial da área, novas fases de avaliação e desenvolvimento poderão ser realizadas antes de uma eventual produção de petróleo em escala comercial na costa amapaense.
Panelas e copos de barro. Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR
“A ideia do Festival da Panela de Barro é de mostrar para o mundo que a gente ainda resiste“, diz o coordenador da 12ª edição do Festival da Panela de Barro, Enoque Raposo. O evento acontece entre 6 e 8 de novembro na Comunidade Indígena Raposa I, localizada na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no município de Normandia, ao Norte de Roraima.
A programação reúne tradição dos povos indígenas Macuxis, como, por exemplo, o ritual da Pimenta nos Olhos e o Parixara. Também conta com oficinas de panela de barro, trançados, arco e flecha, corrida com tora, competição da paneleira mais bela e shows de bandas locais.
Festival da Panela de Barro conta com oficinas, rituais tradicionais e paneleira mais bela. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR
O principal objetivo é valorizar as tradições ancestrais, fortalecer a educação indígena e movimentar a economia comunitária por meio do turismo sustentável. Enoque raposo explica como funciona a participação da comunidade para receber os não indígenas.
“De uma forma bem rústica, mesmo; como a gente não tem pousada, não tem hotel… debaixo da árvore com a sua barraquinha, com a sua rede ali, né? É dessa forma, mas a gente cuida dessas pessoas. Já a comida do turista é feita na casa de algumas pessoas que se colocaram à disposição para fazer a comida, foi decidido em reunião”, contou.
Oficinas
O Festival também terá oficinas de confecção de panelas de barro, que serão realizadas na sexta-feira (6), com Margarete e Edilene, e no sábado (7), com Jarisson e Suzete, sempre das 14h às 18h. Além disso, terá oficina de arco e flecha, damurida e trançado em palha de buriti. Os cursos terão valor de R$ 15 a R$ 20.
A produção de panelas de barro pelas mulheres Macuxi é uma atividade ancestral. Muitas técnicas que as indígenas adotavam no passado se perderam com o tempo. Por isso, o evento visa resgatar as tradições e repassar esses conhecimentos aos mais jovens.
Festival da Panela de Barro tem oficinas, rituais tradicionais e paneleira mais bela. Foto: Inaê Brandão/Rede Amazônica RR
A panela de barro é o principal símbolo do festival e representa a preservação dos saberes ancestrais e a resistência cultural indígena. Utilizada no preparo de pratos tradicionais, também simboliza a valorização da culinária e dos hábitos alimentares originários.
Rituais tradicionais
O Festival conta com o tradicional ritual da Pimenta nos Olhos, prática da medicina tradicional Macuxi. O objetivo é purificar a visão e renovar as energias e é usado para aliviar dores de cabeça, combater o cansaço e fortalecer o corpo. Segundo Enoque, o ritual simboliza a resistência cultural dos povos originários diante das transformações do mundo moderno.
No ritual da Pimenta nos Olhos, conhecido como Yenu’ Ye’Kaito’ na língua Macuxi, a pimenta malagueta verde é benzida, amassada e aplicada na linha d’água dos olhos por um conhecedor da tradição. A prática provoca ardência intensa e lacrimejamento e representa um conhecimento tradicional transmitido entre gerações.
Festival da Panela de Barro tem oficinas, rituais tradicionais e paneleira mais bela. Foto: Inaê Brandão/Rede Amazônica RR
“O ritual serve para conscientizar as pessoas da própria comunidade, porque muitos indígenas hoje já não querem mais usar esse tipo de medicina. Ela funcionava como medicina e também como colírio; antigamente os nossos antepassados não tinham cataratas, doenças que afetam a visão, e não usavam óculos”, afirmou.
O evento também conta com o Parixara, que é uma manifestação cultural tradicional indígena, realizada para celebrar nascimentos e a fartura das colheitas, com danças, refeições comunitárias e bebidas artesanais. O ritual também tem significado espiritual, sendo utilizado para purificar o ambiente e afastar energias negativas.
Discussões e iniciativas sobre Marco Global da Biodiversidade na COP17 são considerados avanços, segundo a WWF-Brasil. Foto: Divulgação/COP17
Fortalecer a vontade política, estabelecer uma responsabilidade compartilhada entre todos os setores do governo e ampliar o apoio internacional estão entre os principais caminhos para destravar o progresso na implementação do Marco Global da Biodiversidade. Essa é a conclusão de uma nova análise feita pelo Global Cooperation Institute (GCI), a pedido do WWF e publicada na última quarta-feira, 14 de outubro, às vésperas da Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP17), realizada na Armênia.
Com base nas conclusões do Relatório Global da ONU, segundo as quais o nível de ambição continua insuficiente em muitos países, a implementação está atrasada em relação a metas importantes e o progresso no enfrentamento das causas da perda de biodiversidade permanece particularmente fraco, a análise elaborada pelo GCI avalia as condições políticas, econômicas e institucionais que explicam a estagnação do progresso e identifica o que pode ajudar a superá-la.
O relatório também destaca que países com alta biodiversidade frequentemente assumem custos significativos para conservar ecossistemas que geram benefícios globais. Nesse contexto, o financiamento, a capacitação e a cooperação internacional precisam ser mais acessíveis e alinhados às prioridades definidas pelos próprios países, respeitando suas necessidades de desenvolvimento e circunstâncias nacionais.
Para o WWF-Brasil, esse apoio deve se traduzir em recursos previsíveis e acessíveis, fortalecimento das capacidades locais, participação efetiva e protagonismo dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, além de acesso à tecnologia necessária para implementar as metas de biodiversidade.
Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP17), realizada na Armênia. Foto: Divulgação/Rádio Pública da Armênia
Diante de fortes pressões de curto prazo, que vão desde restrições às finanças públicas até preocupações com a segurança alimentar e energética, os governos já apresentaram dificuldade para construir a vontade política necessária à ação em favor da biodiversidade. O relatório constata que isso é particularmente evidente quando as mudanças afetam interesses poderosos ou geram custos imediatos para determinados setores, enquanto os benefícios das ações em favor da biodiversidade costumam ser compartilhados de forma mais ampla e podem levar mais tempo para se concretizar.
Com novas estimativas indicando que a lacuna de financiamento para a biodiversidade quase dobrou, passando de US$ 711 bilhões em 2020 para US$ 1,317 trilhão por ano em 2026, o financiamento internacional para a biodiversidade continua sendo um importante catalisador para ampliar a escala das ações.
O relatório do GCI mostra que, embora o financiamento seja essencial, ele é mais eficaz quando acompanhado da capacidade técnica, da transferência e codesenvolvimento de tecnologia e do apoio de longo prazo de que os países precisam para realizar reformas complexas, como monitorar as mudanças na biodiversidade e compreender os impactos das atividades setoriais sobre a natureza, bem como as respectivas obrigações de divulgação de informações.
No entanto, o mundo já enfrenta as consequências da perda de biodiversidade. Os modelos econômicos atuais estão provocando impactos relacionados à perda de biodiversidade, às mudanças climáticas, à escassez de água, à insegurança alimentar e aos riscos à saúde. Os custos não contabilizados desses impactos são estimados em pelo menos US$ 10 trilhões a US$ 25 trilhões por ano.
Construir apoio a escolhas que preparem o futuro – em relação a subsídios, finanças públicas, uso da terra e investimentos – será fundamental para acelerar ações capazes de gerar benefícios cumulativos para várias metas simultaneamente.
Kirsten Schuijt, diretora-geral do WWF Internacional, afirmou:
“A COP17 precisa levar os países a agir e implementar seus compromissos. Os benefícios da ação coletiva em favor da natureza são claros: maior resiliência ecológica, sistemas alimentares e hídricos mais seguros e menor vulnerabilidade econômica. O mais recente Relatório Planeta Vivo, do WWF, mostra que a natureza pode se recuperar quando as medidas adequadas são adotadas. No entanto, o progresso duradouro depende da transformação dos sistemas que impulsionam a perda da natureza e da mudança de decisões baseadas em soluções imediatistas para soluções de longo prazo”, pontuou.
“Para a COP17, isso exige que governos, empresas, Povos Indígenas, comunidades locais, mulheres, jovens e a sociedade em geral participem ativamente dos processos de tomada de decisão, transformando acordos em ações urgentes de implementação, capazes de moldar e viabilizar soluções positivas para a natureza”, completou.
Responsabilidade compartilhada entre os diferentes setores do governo
Embora o Marco Global da Biodiversidade tenha gerado um engajamento internacional sem precedentes, os planos nacionais de biodiversidade não produzirão resultados se continuarem sob a responsabilidade exclusiva dos ministros do Meio Ambiente. Decisões tomadas em outras áreas do governo, relacionadas à agricultura, à infraestrutura, aos gastos públicos e aos investimentos, podem tanto contribuir para as metas de biodiversidade quanto prejudicá-las.
Os governos precisam assumir essa responsabilidade e demonstrar liderança em todos os ministérios relevantes, garantindo que os planos de biodiversidade orientem políticas públicas, orçamentos e decisões de investimento. As empresas, por sua vez, precisam adotar medidas mais robustas para estabelecer cadeias de abastecimento sustentáveis. Ao mesmo tempo, é fundamental assegurar os direitos dos Povos Indígenas, das comunidades tradicionais, de populações afrodescendentes e de outros sujeitos de direitos, reconhecendo e valorizando seus conhecimentos e seu protagonismo na conservação, no uso sustentável e na governança da natureza.
Lucy Mulenkei, copresidente do Fórum Internacional Indígena sobre Biodiversidade e integrante do Grupo Consultivo de Povos Indígenas do WWF, declarou:
“Há dois anos, na COP16, na Colômbia, demos passos importantes ao aprovar um órgão permanente destinado a apoiar a participação plena e efetiva dos Povos Indígenas e das Comunidades Locais na implementação das metas de natureza para 2030. No entanto, governos, empresas e sociedade civil ainda têm muito a fazer para garantir que os compromissos relacionados a direitos, equidade e inclusão sejam efetivamente implementados”, afirma.
Biodiversidade brasileira e conectividade ecológica
O financiamento internacional para a biodiversidade continua sendo um importante catalisador para ampliar a escala das ações. Foto: Divulgação/WWF-Brasil
O Brasil tem papel estratégico na implementação do Marco Global da Biodiversidade, tanto pela riqueza de seus ecossistemas quanto pela contribuição que pode oferecer à conservação da natureza em escala global. Entre as prioridades do WWF-Brasil para a COP17 está o reconhecimento da conectividade ecológica como elemento fundamental para manter a integridade dos ecossistemas, fortalecer sistemas de áreas protegidas e conservadas e garantir a sobrevivência das espécies.
A expectativa é que a conferência avance em iniciativas concretas para conectar habitats terrestres, de água doce, costeiros e marinhos, incluindo corredores verdes e azuis, e fortalecer a resiliência ecológica. Essas conexões ajudam a manter processos naturais importantes para a água, a produção de alimentos e a adaptação às mudanças do clima.
Marcelo Oliveira, diretor técnico de Biodiversidade do WWF-Brasil, destaca:
“A conservação da biodiversidade exige olhar para além dos limites de áreas protegidas individuais e considerar os ecossistemas como sistemas interligados. É essa conexão que permite o deslocamento das espécies, o fluxo gênico e a manutenção de processos ecológicos essenciais, que sustentam a vida e o equilíbrio ambiental. Na COP17, esperamos avanços que fortaleçam a conectividade ecológica como parte das estratégias globais de conservação, incluindo a proposta brasileira de incorporá-la ao Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas”, afirma.
Para o WWF-Brasil, acelerar a implementação do Marco Global da Biodiversidade exige ampliar o financiamento, fortalecer os mecanismos multilaterais e alinhar os fluxos financeiros públicos e privados a resultados positivos para a natureza. Na prática, isso envolve financiar a gestão de áreas protegidas, apoiar a pesca sustentável e outras atividades que geram renda a partir da biodiversidade e recuperar áreas importantes para a água e a conexão entre habitats.
Os recursos precisam chegar a quem implementa essas ações, com apoio técnico e continuidade. A COP17 também representa uma oportunidade para aprofundar a integração entre as agendas de biodiversidade, clima e combate à desertificação, promovendo políticas e investimentos coerentes e soluções capazes de gerar benefícios conjuntos para os ecossistemas, a recuperação da terra e a resiliência climática.
Líder de estratégia internacional da WWF-Brasil, Tatiana Oliveira reforça importância da COP17:
“Não conseguiremos alcançar as metas globais de biodiversidade sem enfrentar o desafio do financiamento e sem aproximar as agendas ambientais internacionais. As decisões sobre clima, biodiversidade e combate à desertificação precisam ser coerentes e complementares, evitando que avanços em uma área provoquem perdas em outra. A restauração de ecossistemas e as áreas protegidas, quando orientadas pela integridade ecológica, demonstram como é possível gerar benefícios para a biodiversidade, o clima, a água e a recuperação da terra”, pontuou.
Ela completa: “Esperamos que a COP17 avance na mobilização de recursos adequados, previsíveis e acessíveis, especialmente para os países em desenvolvimento, e fortaleça mecanismos capazes de transformar compromissos em implementação efetiva nos territórios. O financiamento precisa chegar aonde é necessário e apoiar soluções duradouras para a natureza e para as pessoas”, finaliza.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo WWF-Brasil.
Focos de incêndio aumentaram 38% no mês de setembro, na Amazônia. Foto: Augusto Dauster/PrevFogo/Ibama
Em setembro de 2026, cerca de 69% da Bacia Amazônica registrou chuvas abaixo da média histórica, enquanto o número de focos de calor aumentou 38% em relação a agosto. Os dados fazem parte da terceira edição do Boletim de Monitoramento Ambiental da Amazônia, publicado pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), com apoio técnico do Observatório Regional Amazônico (ORA).
O levantamento mostra que 22 das 32 sub-bacias amazônicas apresentaram déficit de precipitação, quatro a mais que no mês anterior. A precipitação média na Bacia Amazônica foi de aproximadamente 75 milímetros, cerca de 83 milímetros abaixo do esperado para setembro. Desde julho, os volumes médios de chuva na região permanecem inferiores à média histórica.
As condições mais secas se concentraram nas porções norte e central da Amazônia, especialmente nas sub-bacias dos rios Branco, Negro, Tefé, Jutaí e Uatumã–Nhamundá. Embora algumas áreas do sudoeste tenham registrado chuvas acima da média, nenhuma das 32 sub-bacias apresentou, em seu conjunto, tendência chuvosa no período.
Seca no Amazonas, em 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Temperaturas elevadas e avanço dos focos de calor
Além da redução das chuvas, a temperatura média da Bacia Amazônica permaneceu acima dos valores históricos. Em setembro, a média regional foi de 26,37 °C, uma anomalia positiva de 1,29 °C. As temperaturas mais elevadas concentraram-se principalmente no centro-leste e nordeste da região, com médias entre 28 °C e 30 °C em áreas dos estados brasileiros do Amazonas e Roraima.
O cenário de estiagem e temperaturas elevadas coincidiu com o avanço dos focos de calor. Em setembro, foram registrados 16.748 focos na Amazônia, um aumento de 38% em relação a agosto e de 28,6% na comparação com setembro de 2025.
Entre janeiro e setembro de 2026, o acumulado chegou a 48.866 focos, 20,3% acima do registrado no mesmo período do ano anterior. As formações florestais concentraram 42% dos registros, seguidas pelas pastagens, com 27%.
O monitoramento também identificou 2.661 focos de calor em Áreas Naturais Protegidas e 2.013 em Territórios Indígenas durante setembro. Em relação ao mesmo mês de 2025, houve aumento de 5,6% nas áreas protegidas e redução de 5,4% nos territórios indígenas.
Além de água, os militares empregaram outras técnicas de combate ao fogo em vegetação. Foto: Divulgação/CBMAM
Queimadas e qualidade do ar preocupam
A intensificação dos focos de calor foi acompanhada por episódios de deterioração da qualidade do ar em municípios amazônicos brasileiros. Em Manaus, no dia 23 de setembro, a concentração de partículas finas (PM2,5) chegou a 188,5 µg/m³, segundo a prefeitura, com qualidade do ar classificada como péssima.
Outros municípios do Amazonas, como Manacapuru, Manaquiri, Iranduba, Careiro e Itacoatiara, também apresentaram condições preocupantes. A dispersão da fumaça evidencia que os impactos das queimadas ultrapassam as áreas atingidas pelo fogo, ampliando a exposição das populações à poluição atmosférica.
Os dados de área queimada, disponibilizados com aproximadamente três meses de defasagem, mostram que a Amazônia acumulou 7.657 km² queimados entre janeiro e julho de 2026, aumento de 12,4% em relação ao mesmo período de 2025. Desse total, 1.125 km² ocorreram em Territórios Indígenas e 956 km² em Áreas Naturais Protegidas.
Boletim está disponível no link. Foto: Reprodução/OTCA
Boletim monitora Amazônia e analisa perspectiva mensal
A terceira edição do boletim também chama a atenção para o possível desenvolvimento do fenômeno El Niño no Pacífico Equatorial. O fenômeno pode alterar os padrões de circulação atmosférica, favorecendo temperaturas mais elevadas e chuvas abaixo da média em partes da Amazônia, especialmente nas regiões norte e leste.
Caso essas condições se confirmem, poderão prolongar a estiagem, intensificar a redução dos níveis dos rios e aumentar o risco de incêndios florestais e episódios de poluição atmosférica.
Produzido com dados de monitoramento climático e ambiental de diferentes fontes, o boletim reúne informações sobre precipitação, temperatura, focos de calor e áreas queimadas em escala regional. As análises são realizadas pelo ORA, que integra e disponibiliza informações para acompanhar as mudanças ambientais na Bacia Amazônica e apoiar a cooperação e a tomada de decisões entre os oito Países Membros da OTCA.
*Com informações da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
Fotógrafo Paulo Henrique da Silva Costa apresentará em Paris o fotolivro “Raízes do Juruá”. Foto: Paulo Henrique da Silva Costa/arquivo pessoal
O fotógrafo acreano Paulo Henrique da Silva Costa, de Cruzeiro do Sul, vai apresentar em Paris, na França, o fotolivro ‘Raízes do Juruá: retratos da Amazônia acreana’. A obra reúne imagens que retratam a diversidade cultural, e os modos de vida da região.
A viagem, programada para ocorrer entre os dias 8 e 18 de novembro, foi viabilizada pela Bolsa Funarte de Mobilidade Artística Internacional, concedida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). A iniciativa permitirá que o fotógrafo apresente a produção acreana ao público internacional.
Raízes do Juruá: retratos da Amazônia acreana retrata a diversidade cultural da região no interior do Acre. Foto: Paulo Henrique da Silva Costa/Arquivo pessoal
O projeto propõe um olhar sobre o Vale do Juruá a partir da perspectiva de quem vive no território, valorizando as histórias, as tradições e as identidades que compõem a Amazônia acreana. A publicação também busca ampliar a representação da região para além dos estereótipos.
“É um convite especial para conhecer o Acre a partir de quem vive aqui, para além das imagens que costumam circular sobre a Amazônia”, explica o fotógrafo.
A programação começa no dia 10 de novembro, na Initial Labo, em Boulogne-Billancourt, na região metropolitana de Paris. No dia 11, o fotolivro será apresentado na Livraria Sabiá Arte e Cultura, apontada como a primeira livraria 100% brasileira da capital francesa.
Fotógrafo se inspirou nas tradições da região e na cultura indígena. Foto: Paulo Henrique da Silva Costa/Arquivo pessoal
Além dos lançamentos, Paulo Henrique pretende visitar exposições e participar do Paris Photo, evento internacional dedicado à fotografia. Para ele, a circulação da obra na França representa uma oportunidade de ampliar o alcance das histórias e da produção artística do Acre.
“Levar o livro a Paris é uma forma de ampliar a circulação das histórias do Acre e afirmar que a produção artística da Amazônia acreana tem autoria, pensamento e lugar nos espaços internacionais de cultura”, diz.
O fotógrafo espera que as imagens aproximem o público estrangeiro de uma região ainda pouco conhecida internacionalmente. “O público internacional talvez não conheça o Vale do Juruá, mas pode se aproximar dele por meio das histórias e das experiências que aparecem nas imagens”, afirma.
O livro já foi apresentado em Cruzeiro do Sul, onde o fotógrafo mora, em agosto deste ano, e na região metropolitana de São Paulo, no início de outubro. A publicação foi viabilizada por meio de um edital da Política Nacional Aldir Blanc no Acre, através da Fundação Elias Mansour (FEM).
Conquistou prêmio nacional
A participação na programação cultural internacional ocorre poucos meses depois de Paulo Henrique conquistar o primeiro lugar na categoria fotojornalismo do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, realizado em Brasília, em junho deste ano.
Na ocasião, ele foi premiado por um trabalho com imagens dos extremos climáticos na região de Cruzeiro do Sul. Os registros abordaram secas, enchentes, fumaça e queimadas, evidenciando os efeitos desses fenômenos sobre o território e a população.
Raízes do Juruá: retratos da Amazônia acreana retrata a diversidade cultural da região no interior do Acre. Foto: Paulo Henrique da Silva Costa/Arquivo pessoal
Apesar de também ter o Acre como cenário, ‘Raízes do Juruá: retratos da Amazônia acreana’ apresenta uma proposta diferente da série premiada. Enquanto o trabalho anterior aborda os impactos da crise climática, o fotolivro destaca a diversidade cultural e as experiências de quem vive no Vale do Juruá.
Para os próximos anos, o fotógrafo pretende continuar ampliando a circulação de seus trabalhos e levar novas imagens da Amazônia acreana a outros países. Entre os desafios, ele destaca a falta de recursos próprios para financiar a produção e a divulgação de projetos artísticos independentes.
“Meu sonho é seguir fotografando o lugar onde vivo, aprofundar esse trabalho e contribuir para que a Amazônia acreana seja reconhecida também pela produção artística e intelectual de quem vive nela”, completou.
*Por Walace Gomes e Naiane Mesquita, da Rede Amazônica Acre.
Em São Caetano de Odivelas, no litoral do Pará, o mangue integra a vida da população fazendo parte da economia e das tradições locais, incluindo o famoso Festival do Caranguejo, que ocorre no segundo domingo de novembro, atrai turistas e celebra o modo de vida das famílias extrativistas.
Para valorizar a população e aproximá-la dos processos químicos, biológicos e culturais que sustentam o manguezal, ecossistema vital para a pesca, o turismo e a economia, estudantes do curso de Química da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus Ananindeua, desenvolveram o livreto científico-educacional ‘Caranguejo-uçá: ciência com cheiro de mangue e maré‘.
Disponível de forma digital e gratuita na plataforma EduCAPES, a publicação une ciência, cultura local e linguagem acessível, com o objetivo de aproximar a população dos processos que sustentam o manguezal, um dos ecossistemas mais importantes para o município.
A iniciativa evidencia, ainda, que preservar o caranguejo-uçá deve ser parte essencial da história, da cultura e da economia de São Caetano de Odivelas, sendo imprescindível a conscientização de toda a comunidade sobre a preservação do território.
Conteúdo acessível
Apresentado aos moradores da região, o produto foi recebido com entusiasmo para o fortalecimento da educação ambiental e para a valorização da cultura de São Caetano de Odivelas. Entre os jovens, os profissionais da educação, os trabalhadores do mangue e os membros da comunidade local ouvidos pelas pesquisadoras, o destaque ficou para a facilitação da explicação sobre o ciclo de vida do caranguejo-uçá, a dinâmica do manguezal e a relação entre fatores biológicos, químicos e ambientais.
As descobertas mais citadas pelos moradores foram: a habilidade do caranguejo-uçá de reconhecer sua toca pelo cheiro do lodo e pelo arranjo das raízes; a compreensão ampliada sobre o manguezal como berçário natural; a química envolvida na mudança de cor do caranguejo ao ser cozido, por ação da crustaceana; e a possibilidade de reaproveitamento da carapaça para práticas sustentáveis, sugerida como potencial atividade em oficinas escolares. Outro destaque ficou para o uso de ilustrações que facilitam a compreensão dos leitores.
Educação ambiental, pertencimento e tradição
Para os entrevistados, ter essa possibilidade de compreender o ciclo de vida do caranguejo e a dinâmica do manguezal é importante para fortalecer o sentimento de pertencimento e a responsabilidade ambiental dos moradores da região que têm, no caranguejo-uçá, uma fonte de alimento, renda, cultura, memória e festejo.
O Festival do Caranguejo em São Caetano de Odivelas, é celebrado anualmente e envolve música, gastronomia e valorização da vida pesqueira. A festa é vista pelos moradores como espaço de reafirmação cultural, de renda e de conscientização sobre sustentabilidade.
O livreto foi elaborado pelas estudantes do curso de Química da Universidade Federal do Pará, Campus Ananindeua, Rosiellen Soares e Vitória Santos, com orientação da professora Janes Kened, no âmbito do Programa de Iniciação à Docência (Pibid).
Participação das mulheres na produção científica aumentou na região Norte, segundo estudo feito por pesquisadoras e docentes da UFPA. Fotos: Divulgação/Inpa
O acesso das mulheres à educação formal, durante muitos anos, sempre foi negado ou limitado. E quando se amplia essa observação nas outras etapas de formação como o ensino básico até a pós-graduação, essa exclusão histórica vai se tornando ainda mais evidente. A presença feminina na ciência, especialmente nas universidades, é resultado de uma conquista lenta, atravessada por barreiras sociais, econômicas e culturais.
Na região amazônica, essa realidade ganha contornos ainda mais complexos. Mesmo com uma atuação constante na pesquisa e na produção científica, as mulheres, por muito tempo, não tiveram seus trabalhos devidamente reconhecidos. No entanto, o cenário na Universidade Federal do Pará (UFPA) tem sido diferente. No panorama da pós-graduação da instituição, considerada a maior instituição de ensino superior do Norte, a presença feminina é forte e reconhecida.
Aline Lopes, estudante de doutorado no Amapá, integra a participação feminina na produção científica na região Norte do Brasil. Foto: Aline Lopes/Arquivo pessoal
A pesquisadora destaca que a escolha do tema está diretamente ligada ao desejo de inspirar novas gerações de meninas e jovens pesquisadoras.
“Eu queria falar sobre o gênero feminino, sobre essa questão e, ao mesmo tempo, trazer a questão do empoderamento. Fazer com que essas meninas tenham incentivo e saibam que podem ocupar lugares de poder e prestígio acadêmico”, pontuou Caroline.
A metodologia de análise de dados por meio do Software VOSviewer para a realização da pesquisa foi escolhida para mostrar, de forma clara e objetiva, quais as temáticas mais abordadas pelas pesquisadoras da UFPA.
“Eu queria que aparecesse tudo que estava sendo produzido para dar maior visibilidade a esses estudos. Por isso busquei entender quais eram os temas mais pesquisados e com maior volume de produção por essas mulheres. Não quis fazer a pesquisa com entrevista e coleta de dados com formulários, preferi uma abordagem com análise de dados já publicados, porque me permitia ter mais controle e precisão dos resultados”, afirma a pesquisadora.
Dissertação “Mulheres na ciência regional: análise da presença na produção científica das docentes e pesquisadoras da Universidade Federal do Pará- UFPA. Foto: Extraída do artigo
Produção feminina da ciência na Amazônia
Apesar dos inúmeros desafios que ser mulher impõe à produção científica na Amazônia, a pesquisa revelou que a produtividade feminina na UFPA é expressiva.
“Achei interessante ver o nível de produção e a importância que elas têm dentro de suas áreas, representando a nossa região. Por se tratar de uma base de dados multidisciplinar e de nível internacional, tiveram pesquisadoras com muitos artigos publicados. Em alguns casos, pensei: ‘Ela é professora, já foi diretora…’ Nós sabemos que as mulheres acumulam jornadas, trabalham com multiplicidade de tarefas. Fiquei impressionada e me perguntei: ‘Como é que ela conseguiu produzir tudo isso?’”, revela Caroline Corrêa Pinheiro.
Diante desse cenário, a pesquisa também se apresenta como uma ferramenta potente para impulsionar políticas institucionais que incentivem a presença e a permanência das mulheres na ciência, especialmente em outras universidades públicas da Região Norte.
“E de que forma podemos fazer com que as futuras gerações reconheçam que as mulheres sempre estiveram presentes, mesmo quando não éramos prioridade? Futuramente, espero que esses dados sejam usados em outras pesquisas, sirvam como base para análises de políticas públicas institucionais, incentivem a composição de bancas de concursos, estejam presentes nas bibliografias dos cursos de graduação e pós-graduação e comitês científicos”, finaliza Caroline Pinheiro.
A dissertação levantou uma série de dados relevantes sobre a atuação científica de docentes e pesquisadoras da UFPA. Entre eles, destaca-se que, entre os anos de 2010 e 2013, foram publicados 859 artigos assinados por mulheres, o que representa 26% do total de publicações da Universidade nesse período. Nos quadriênios seguintes, a produtividade feminina cresceu significativamente: entre 2014 e 2017, esse número subiu para 34%; e entre 2018 e 2021, chegou a 40%.
Outro dado de destaque é o reconhecimento dessas cientistas femininas: quando a pesquisa foi realizada, três docentes da UFPA já haviam sido premiadas com o Prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência. Em 2024, esse número subiu para cinco, com mais duas pesquisadoras da Instituição sendo agraciadas com a premiação.
Participação das mulheres na ciência é expressiva e números comprovam aumento e importância da presença feminina na produção científica. Foto: Reprodução/BlogdoCamilo
O avanço na produção científica acompanha o aumento da presença feminina na docência. No entanto a pesquisa também evidencia impasses, como a desigual distribuição de mulheres entre as diferentes áreas do conhecimento.
As Ciências Biológicas concentram o maior número de docentes e pesquisadoras da UFPA (46,7%), seguidas pelas Ciências da Saúde (19%), Ciências Agrárias (12,4%), Ciências Exatas e da Terra (9,5%) e Engenharias (7,6%). Já as Ciências Humanas (3,8%), Ciências Sociais Aplicadas (5%) e Linguística, Letras e Artes (5%) apresentam índices ainda menores.
Esses números confirmam uma realidade que também é apontada pelas referências teóricas utilizadas pela pesquisa: apesar do crescimento da produtividade científica feminina, a representatividade das mulheres nas chamadas ciências duras, como as Engenharias e Exatas, ainda é limitada.
“E eu penso que, se tivesse recebido o incentivo necessário, talvez eu não tivesse sido habilitada apenas para a área do cuidado, poderia ter sido encaminhada para outra área do conhecimento”, reflete a pesquisadora.
O que elas pesquisam?
As temáticas abordadas evidenciaram a produção de conhecimento e resultados de pesquisas com potencial para gerar benefícios significativos na área da saúde. Estes estudos englobam desafios regionais e globais, concentrando-se em:
Nanotecnologia e Biotecnologia; Biodiversidade amazônica (incluindo a classificação de novas espécies animais);
Genética humana (com foco no tratamento de doenças e prevenção de patologias oncológicas);
Plantas medicinais e propriedades de óleos essenciais;
Engenharia de materiais para a conservação ambiental.
Dessa maneira, a notável colaboração científica entre mulheres surge como uma força transformadora, capaz de impulsionar avanços na saúde e no desenvolvimento sustentável da Amazônia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 177, escrito por Evelyn Ludovina.