As festas dedicadas à religiosidade fazem parte do cotidiano de diversos devotos paraenses. Boa parte dessas celebrações homenageia a Virgem Maria, sob os títulos pelos quais é conhecida, mas também outros santos e entidades da igreja.
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Essas manifestações religiosas ultrapassam os muros das igrejas, e ocupam ruas, praças e até avenidas, reunindo famílias e mobilizando comunidades.
Algumas dessas celebrações de fé estão no calendário, como as festas dos santos padroeiros das cidades ou algum outro santo ou santa popularmente conhecidos na região.
Na sexta matéria da série sobre festas religiosas na Amazônia Legal, conheça nove festas religiosas para conhecer no Pará:
Círio de Nossa Senhora de Nazaré
O Círio é uma manifestação religiosa e de devoção à Nossa Senhora de Nazaré, realizada há mais de 200 anos em Belém. A celebração é a mais conhecida do estado, e acontece sempre no segundo domingo de outubro, além de outras doze procissões, como a trasladação, a romaria infantil e a romaria fluvial.

Milhões de fiéis vão às ruas de Belém para participarem das missas, vigílias de oração, do Arraial de Nazaré, do Círio Musical e da descida da imagem do achado para o Altar da Basílica Santuário, onde fica durante os quinze dias da festividade.
A história de devoção religiosa à Nossa Senhora de Nazaré começa em 1700 com o achado da imagem pelo caboclo Plácido, às margens de um riacho, onde hoje está localizada a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
O relato do bispo Dom Frei João Evangelista, registrado em manuscrito atribuído ao Convento de Santo Antônio dos Capuchos, em Portugal, descreve o episódio de 1700 como um verdadeiro milagre. Plácido levou a pequena escultura para casa, mas, segundo o relato, a imagem desaparecia durante a noite e reaparecia no local original. O fenômeno, interpretado como sinal divino, ficou conhecido como o ‘milagre do retorno’.
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O Círio de Nazaré nasceu oficialmente em 1793, quando o capitão-general do Grão-Pará, Francisco de Souza Coutinho, devoto da santa, adoeceu e prometeu organizar uma grande celebração em agradecimento caso fosse curado. Após alcançar a graça, no dia 8 de setembro daquele ano mandou buscar a imagem no Palácio do Governo e organizou uma procissão solene até o local onde hoje está localizada a Basílica.

A procissão que foi acompanhada por tropas militares, autoridades civis e religiosas, e uma multidão estimada entre cinco e dez mil pessoas é considerada o primeiro Círio de Nazaré. A celebração incluiu missas, ladainhas e uma feira com produtos regionais que durou toda a semana.
A imagem original, que está guardada na Basílica, passou a ser substituída por réplicas nas procissões, e a primeira substituta pertenceu ao Colégio Gentil Bittencourt e foi usada até 1969, quando surgiu a atual Imagem Peregrina. Essa imagem, confeccionada especialmente para o Círio, tornou-se símbolo da romaria e participa das 12 procissões oficiais da festividade.
Em 2013, o Círio de Nazaré e a Basílica Santuário de Nazaré foram reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Com o passar dos anos, o Círio passou a ocorrer sempre no segundo domingo de outubro, e desde então, a celebração reúne milhões de fiéis que percorrem cerca de 3,6 quilômetros expressando sua fé, gratidão e realizando pedidos à Virgem de Nazaré.
Círio de Nossa Senhora das Graças
O Círio de Nossa Senhora das Graças acontece tradicionalmente no quarto domingo de novembro, reunindo milhares de fiéis nas cidades de Ananindeua e Icoaraci, ambas pertencentes à Arquidiocese de Belém.
Em Ananindeua, Nossa Senhora das Graças é a padroeira da cidade, e a devoção religiosa à santa foi iniciada antes mesmo da fundação do município. Em 1943, uma paróquia dedicada à Nossa Senhora das Graças foi fundada, e o Círio já dura mais de 80 edições.
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Já em Icoaraci, a tradição surgiu em 1949, após o relato de um quadro que teria derramado lágrimas na casa de uma devota, onde hoje se encontra a Capela dedicada à santa, fato que deu início à procissão local, em 1952.
O Círio das Graças possui diversas celebrações religiosas, como as romarias, trasladações e missas campais, reafirmando o papel da fé na vida das comunidades
Círio de Vigia de Nazaré
Realizado há mais de 300 anos, sempre no segundo domingo de setembro, o Círio de vigia de Nazaré é considerado o mais antigo do Pará. A festividade religiosa reúne milhares de fiéis e mantém símbolos semelhantes ao tradicional Círio de Belém, como a berlinda, a corda, os fogos de artifício e os carros ornamentados.
A devoção à Nossa Senhora de Nazaré chegou a Vigia ainda no século XVII, trazida de Portugal por Dom Jorge Gomes d’Alamo, natural do Algarve, região onde já se venerava a Virgem. O registro mais antigo dessa fé data de 1697, quando o padre jesuíta José Ferreira visitou a vila e relatou a presença de uma milagrosa imagem da santa, cultuada por romeiros vindos de várias partes.

A Igreja de Nossa Senhora da Madre de Deus, dedicada a Nossa Senhora de Nazaré, foi construída em 1733 pelos jesuítas. O templo é o principal marco histórico da devoção e foi tombada em 1954 como Patrimônio da Cultura Nacional.
O Círio movimenta a cidade por 15 dias, e possui uma intensa programação que inclui romarias rodoviárias, fluviais e de motociclistas, e a trasladação da imagem da Igreja Matriz até o bairro do Arapiranga.
Círio da Conceição
A devoção religiosa à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Santarém, no oeste do Pará, remonta a 1661, quando os jesuítas fundaram uma missão junto à aldeia dos indígenas Tapajós, e o padre João Felipe Bettendorff, fundador da cidade, ergueu uma igreja dedicada à Santa, de quem era devoto.

A Catedral de Nossa Senhora da Conceição foi construída em 1754 e concluída em 1881, e erguida na Praça Monsenhor José Gregório, era conhecida como a Praça da Matriz. Inicialmente, as homenagens à padroeira eram conhecidas como ‘Círio da Bandeira’, quando um estandarte com a imagem da Virgem percorria as ruas de Santarém, tradição que evoluiu para a grande procissão atual.
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O primeiro Círio oficial foi realizado no dia 28 de novembro de 1919, após a criação da Confraria de Nossa Senhora da Conceição, em 1844. Desde então, a festa se consolidou como um dos maiores eventos religiosos da região, movimentando a economia local por meio do turismo religioso.
A programação da festa religiosa inicia com a trasladação da imagem da Catedral para a Igreja de São Sebastião, onde fiéis passam a noite em vigília. Na manhã seguinte, acontece a grande romaria, acompanhada por milhares de devotos, muitos deles descalços pagando promessas e agradecendo milagres.
A imagem que percorre o Círio data da primeira metade do século XIX e foi esculpida em madeira oca no estilo espanhol. Sem articulações ou cabelos, ela é adornada com manto, coroa e peruca confeccionada com cabelos doados por devotas e a cada ano, um novo manto é ofertado por famílias em agradecimento às graças alcançadas.
Outro símbolo importante é a corda, introduzida em 1971 sob influência do Círio de Nazaré. Com cerca de 200 metros de comprimento, ela representa a ligação espiritual dos fiéis com Nossa Senhora da Conceição. Muitos devotos madrugam para garantir um lugar na corda, gesto considerado um ato de profunda fé e gratidão.

Outros elementos da celebração religiosa em honra à Nossa Senhora da Conceição incluem a ‘Barraca da Santa’, criada em 1932, onde são servidas comidas típicas como o pato no tucupi, e o tradicional ‘Círio das Crianças’, criado em 2007. Além disso, as homenagens à santa terminam com a queima de fogos sobre o rio Tapajós, encerrando os dias de profunda fé e comunhão.
A celebração, que originou o atual Círio da Conceição, é considerada a segunda maior manifestação religiosa do estado, reunindo fiéis de mais de 12 municípios da região.
Festa de São Sebastião Na ilha do Marajó
Realizada anualmente entre os dias 10 e 20 de janeiro, a Festa religiosa do Glorioso São Sebastião é uma das mais importantes celebrações religiosas da região do Marajó, no Pará. Com origens no período colonial e nas missões religiosas do século XVI, a celebração combina devoção, música, rituais e forte participação comunitária.

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São Sebastião é reverenciado pelos marajoaras como protetor, intercessor e símbolo de resistência. Sua imagem é ornada com fitas e flores nas cores verde, vermelho e branco, ocupa altares nas igrejas e nas casas dos fiéis.
Os festejos começam com o tradicional ciclo de esmolação, quando grupos de foliões percorrem vilas e fazendas pedindo doações e entoando cantos e rezas que marcam o caminho da devoção.

Durante os dias principais da festa religiosa, os fieis participam de novenas, procissões, levantamento e derrubada do mastro, além de grandes celebrações nos arraiais. Cada comunidade organiza as celebrações à sua maneira, em Cachoeira do Arari, por exemplo, é tradicional o consumo do leite de onça (bebida feita com álcool etílico e leite de búfala) durante o cortejo dos mastros e no arraial.
A celebração das festividades do Glorioso São Sebastião foi reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil, em 2013.
Festa de São Benedito – Marujada de Bragança
Realizada todos os anos no mês de dezembro, a Festa religiosa de São Benedito, em Bragança, nordeste do Pará, reúne uma multidão de fiéis, que durante oito dias participam de diversos ritos de fé. O ponto alto da festividade é a Marujada, considerada o símbolo maior da devoção bragantina e um dos principais patrimônios culturais do estado.

A festa religiosa reúne missas, procissões, novenas e o tradicional arraial, com momentos de oração, música, dança e confraternização. A alvorada, marcada pela queima de fogos e o hasteamento do mastro, anuncia o início das comemorações.

Outro destaque é a chegada das comitivas de esmoladores, que percorrem comunidades pedindo doações em nome do santo. Na Marujada, as mulheres, chamadas de marujas, desempenham um papel central, e vestidas com saias rodadas e fitas coloridas, elas dançam sob o comando da capitoa, representando a união, a fé e a força feminina.
O cortejo, acompanhado por tambores e cânticos, expressa a alegria do povo bragantino e a gratidão a São Benedito, considerado o santo protetor dos pobres e dos negros.
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Círio de Santo Antônio
Realizado anualmente em agosto, o Círio de Santo Antônio é uma das principais manifestações religiosas e culturais de Oriximiná, no oeste do Pará. A festividade homenageia o padroeiro do município e reflete a forte relação da população com o rio Trombetas e com a tradição católica amazônica.
A devoção religiosa teve início em 1877, quando o padre José Nicolino de Souza celebrou a primeira missa na região e consagrou o local a Santo Antônio, dando origem ao nome Santo Antônio de Uruá-Tapera. Desde então, o santo é reconhecido como protetor da cidade.

As primeiras edições do Círio ocorreram por volta de 1936, em formato terrestre, e a imagem percorria as ruas da comunidade entre o dia 1º e 15 de agosto, com trezenas, ladainhas e visitas às residências dos fiéis. Em 1946, o Círio foi adaptado ao contexto ribeirinho e passou a ser realizado de forma fluvial, com autorização da Cúria de Santarém.
A procissão pelas águas do Trombetas tornou-se o principal símbolo da celebração, e a imagem é conduzida em uma balsa motorizada, acompanhada por dezenas de embarcações ornamentadas, orações e cânticos.
Ao chegar ao porto da cidade, a imagem é recebida com fogos e segue em procissão até a Igreja Matriz, onde ocorre a missa campal. Além da cerimônia principal, a programação inclui o ‘Pré-Círio’, com apresentações culturais, danças e manifestações populares que reforçam o valor religioso e social da festividade.
Festa do Divino Espirito Santo
O Festejo do Divino Espírito Santo é uma das principais manifestações religiosas do município de São Geraldo do Araguaia, na região sudeste paraense. Os romeiros ficam nove dias no Parque Estadual Serra das Andorinhas reunidos em devoção ao Divino Espírito Santo.
A festividade religiosa começa com uma caminhada de 8 km saindo da propriedade do morador conhecido como Zeca do Jorge, em direção ao local da celebração religiosa, a qual ocorre na Casa de Pedra, no interior do Parque.

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A origem da Festividade tem várias versões. Uma delas é que a Casa de Pedra foi encontrada por exploradores conhecidos como galegos na década de 60. Um agricultor da região de São Geraldo do Araguaia, Teodomiro Pereira, que participou da expedição junto com os galegos, fez, em 1974, um voto em nome de uma amiga chamada Conceição, que à época sofria de um mal com sintomas de depressão.
A romaria reúne fiéis de todas as idades, moradores de comunidades do entorno, de municípios vizinhos e até mesmo do Tocantins. Durante a programação acontece o levantamento do mastro, o encontro de grupos das divindades e a missa dedicada à Santíssima Trindade.
O festejo também inclui atrações culturais, como festa junina, danças de carimbó, lindo e salambisco, cinema e apresentações teatrais.
Festa de São Pedro
No Distrito de Mosqueiro, no Pará, os devotos de São Pedro realizam uma das maiores homenagens religiosas ao santo na Amazônia. A festividade, considerada uma das mais populares e tradicionais do distrito, é diretamente ligada à atividade pesqueira da ilha e reúne milhares de pessoas.
Os mastros em homenagem ao santo são levantados antecipadamente na região da praia do Areião, ponto de encontro de pescadores da ilha, e de onde são retirados e levados em um cortejo. E no dia dedicado ao santo, 29 de junho, a festa continua com uma romaria fluvial e missa em homenagem à festividade.

A história da centenária festividade religiosa começou em 1918 com dona Isabel Palheta, sendo seguida por sua família com Diva Palheta e agora Luciana Palheta, neta da idealizadora. O objetivo é celebrar o padroeiro dos pescadores em agradecimento a fartura do pescado produzido em Mosqueiro.
A prefeitura de Belém sancionou a Lei Ordinária 9093, de 23 de abril de 2015, reconhecendo a Festividade de São Pedro do Areião como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Município de Belém.
*Com informações da Arquidiocese de Belém e de Santarém, Círio de Nazaré, Prefeitura de Santarém e IPHAN.
**Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
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