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Toada do Boi Caprichoso, ‘Guerreira das lutas’ reforça resistência feminina e celebra etnias indígenas

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‘Guerreira das lutas’ foi feita para as apresentações de Marciele Albuquerque em 2022. Foto: Bruno Zanardo/Governo do Amazonas

“Ela é Munduruku, Tupinambá, Kayapó
Atroari, Asurini, Zo’é, ela é Sateré
Hixkaryana, guerreira, poranga-cunhã (cunhã!)

A toada ‘Guerreira das lutas’, do Boi Caprichoso, ficou ainda mais popular após a participação de Marciele Albuquerque no Big Brother Brasil 2026 (BBB). A canção enaltece a cunhã-poranga do boi preto e azul, mas também reforça o poder ancestral de etnias indígenas amazônicas.

Neste 19 de abril, Dia do Povos Indígenas no Brasil, a toada é uma das formas que o item cultural amazonense encontra de reforçar a resistência histórica dos povos indígenas no Brasil.

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A música, apresentada no Festival de Parintins no álbum do Caprichoso de 2022, exalta a força feminina indígena, a defesa dos territórios ancestrais e cita oito etnias, das 391 registradas no Brasil, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Para reforçar a importância da data, Marciele Albuquerque, que também é indígena do povo Munduruku, fez um vídeo em que explica a letra da toada e também o significado desta data para o Brasil:

Leia também: Marciele Albuquerque vai receber título de Cidadã do Amazonas

Composta por Frank Ricardo, Judson Souza, Marcley Pantoja e Klinger Lyra, ‘Guerreira das lutas’ se insere em um ano em que o Boi Caprichoso apresentou como tema ‘Amazônia: Nossa Luta em Poesia’. Neste ano, o Caprichoso foi campeão do Festival Folclórico de Parintins e a toada foi composta para a apresentação da Cunhã-Poranga Marciele.

A música composta para a apresentação de Marciele destaca a resistência de diferentes etnias, muitas das quais enfrentaram processos de violência, expulsão territorial e tentativa de apagamento cultural ao longo da história brasileira.

A toada valoriza especialmente o protagonismo das mulheres indígenas, retratadas como guardiãs da cultura, da memória e da continuidade dos povos. Esse enfoque dialoga com a realidade de diversas etnias amazônicas, onde mulheres desempenham papel fundamental na transmissão de saberes tradicionais, como a língua, os rituais e as práticas culturais.

“Diferente do que muitos pensam, não somos todos iguais. Cada povo carrega sua própria identidade, costumes, crenças e línguas. O que temos em comum é a luta pela proteção da biodiversidade dos territórios e pelos nossos direitos”, explica Marciele Albuquerque no vídeo.

Na apresentação de 2022, o Caprichoso também tocou a toada no momento tribal e reverenciou mulheres como Tuíra Kayapó, Célia Xacriabá, Sônia Guajajara, Sâmela Sateré, Alessandra Kabá, Teporí Yawalapiti e a própria Marciele Albuquerque, que é do povo Munduruku.

Imagem colorida mostra a cunhã-poranga do Caprichoso Marciele Albuquerque em discusso com roupas e acessórios indígenas azuis e ao fundo uma imagem de um luar avermelhado. Marciele Albuquerque é a dançarina do Caprichoso durante a apresentação da toada Guerreira das Lutas
Foto: Tânia Rego/ Agência Brasil

Etnias

Na toada, oito etnias indígenas amazônicas são citadas. Confira algumas informações sobre as etnias, segundo dados do site Povos Indígenas do Brasil, do Instituto Socioambiental:

Munduruku

Autodenominados ‘Wuyjuyu’, do tronco Tupi, os Munduruku estão espalhados pelo Amazonas e pelo Pará. Segundo dados da SESAI de 2020, são cerca de 18 mil pessoas. Povo de tradição guerreira, os Munduruku dominavam culturalmente a região do Vale do Tapajós, que nos primeiros tempos de contato e durante o século XIX era conhecida como Mundurukânia.

Hoje, suas guerras contemporâneas estão voltadas para garantir a integridade de seu território, ameaçado pelas pressões das atividades ilegais dos garimpos de ouro, pelos projetos hidrelétricos e a construção de uma grande hidrovia no Tapajós.

Tupinambá

Com maior parte residente na Bahia, os Tupinambá também tem representação no Pará. Os Tupinambá vivem na vila hoje conhecida como Olivença, local, em 1680, fundado por missionários jesuítas num aldeamento indígena. Desde então, os Tupinambá residem no território que circunda a vila, nas proximidades do curso de vários rios, entre os quais se destacam os rios Acuípe, Pixixica, Santaninha e Una. Em 2001, os Tupinambá de Olivença foram reconhecidos oficialmente como indígenas pela Funai.

A primeira fase de demarcação do seu território concluiu-se em abril de 2009 com a publicação do resumo do relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença. O uso do nome Tupinambá como autodesignação pelos indígenas de Olivença indica antes de tudo uma identificação social, cultural e histórica com as populações tupi que viveram nessa região.

Kayapó

Os Mẽbengôkre Kayapó estão distribuídos entre o Pará e o Mato Grosso. Eles vivem em aldeias dispersas ao longo do curso superior dos rios Iriri, Bacajá, Fresco e de outros afluentes do rio Xingu, desenhando no Brasil Central um território quase tão grande quanto a Áustria. É praticamente recoberto pela floresta equatorial, com exceção da porção oriental, preenchida por algumas áreas de cerrado.

A cosmologia, vida ritual e organização social desse povo são extremamente ricas e complexas; assim como são intensas e ambivalentes as relações com a sociedade nacional e com ambientalistas do mundo todo.

Atroari

Autodenominados ‘Kinja’, os Waimiri Atroari, durante muito tempo, estiveram presentes no imaginário do povo brasileiro como um povo guerreiro, que enfrentava e matava a todos que tentavam entrar em seu território. Essa imagem contribuiu para que autoridades governamentais transferissem a incumbência das obras da rodovia BR 174 (Manaus-Boa Vista) ao Exército Brasileiro, que utilizou de forças militares repressivas para conter os indígenas.

Esse enfrentamento culminou na quase extinção do povo, que vive no Amazonas. A interferência em suas terras ainda foi agravada devido a instalação de uma empresa mineradora e o alagamento de parte de seu território pela construção de uma hidrelétrica. Mas os Waimiri Atroari enfrentaram a situação, negociaram com os ‘brancos’ e hoje têm assegurados os limites de sua terra, o vigor de sua cultura e o crescimento de sua gente.

Asurini

Os Asurini do Xingu, ou Awaete, do Pará, após o contato com a sociedade nacional, em 1971, sofreram uma drástica baixa populacional. Contudo, o perigo eminente de sua extinção física sempre contrastou com uma extrema vitalidade cultural, manifesta na realização de extensos rituais, práticas de xamanismo e um elaborado sistema de arte gráfica.

Zo’é

Também do Pará, os Zo’é Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru. Eles convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da TI Zo’é e seu protocolo de consulta.

Sateré

Encontrados no Amazonas, os Sateré-Mawé domesticaram o guaraná e criaram o processo de beneficiamento da planta, possibilitando que hoje o guaraná seja conhecido e consumido no mundo inteiro. O primeiro nome – Sateré – quer dizer “lagarta de fogo, referência ao clã mais importante dentre os que compõem esta sociedade, aquele que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos. O segundo nome – Mawé – quer dizer “papagaio inteligente e curioso e não é designação clânica.

Hixkaryana

Hixkaryana (hixka, veado vermelho; yana, povo; hixkaryana, povo veado vermelho) é um nome genérico para designar vários grupos de língua e cultura semelhantes, que vivem atualmente nos vales dos rios Nhamundá (Amazonas-Pará) e médio Jatapu (Amazonas). Hixkaryana engloba outros grupos que, muito provavelmente, tinham maior autonomia no passado, e que, ainda hoje, em contextos locais, se autodenominam: Kamarayana (kamara, onça; yana,  povo; kamarayana,povo onça); Yukwarayana (yukwarî, goma de mandioca; yana, povo; yukwaryana, povo da goma de mandioca); Karahawyana; e Xowyana.

Leia também: ‘O Brasil Indígena’: IBGE lança publicação com dados inéditos para fortalecer elaboração de políticas públicas

‘Guerreira das lutas’

Confira um vídeo com a letra completa da toada do Boi Caprichoso:

Marciele Albuquerque no BBB 26

Marciele Albuquerque participou do Big Brother Brasil 26, reality show da Rede Globo, integrando o grupo de participantes do elenco principal. Ela ingressou no confinamento como Pipoca através da Casa de Vidro.

Ao longo do programa apresentou ao público temas relacionados à identidade indígena, cultura e territorialidade, que fizeram parte de suas falas e posicionamentos ao longo dos 90 dias de participação no reality show.

Marciele permaneceu no reality até ser eliminada no 15º “paredão” da edição, após votação do público. Ao longo da participação, teve presença constante em dinâmicas do jogo.

Dia dos Povos Indígenas

Celebrado em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas foi instituído no Brasil em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, inicialmente com o nome de “Dia do Índio”. A data remete ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México em 1940, que reuniu lideranças indígenas e representantes de diversos países para discutir políticas voltadas aos povos originários.

Ao longo dos anos, a data passou por ressignificação e, mais recentemente, por força de uma lei de 2022, foi oficialmente renomeada como Dia dos Povos Indígenas, com o objetivo de valorizar a diversidade cultural e reconhecer a pluralidade das etnias existentes no país.

“Apesar do Brasil ter um dia para os povos indígenas é importante lembrar que o nosso protagonismo não deve ser algo pontual. A ‘floresta em pé’ é resultado de milênios de sabedoria ancestral, de povos que já entenderam há muito tempo, que a terra não nos pertence, nós é que pertencemos a ela. A natureza, para nós, é sagrada. É onde reside a cura, o alimento e a nossa ancestralidade”, enfatiza Marciele no vídeo sobre a toada ‘Guerreira das lutas’.

Nova geração indígena do Amazonas fortalece presença no Acampamento Terra Livre 2026

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Foto: Allex Mendonça/ Idesam

Seis jovens indígenas do Amazonas, integrantes da Organização da Juventude Indígena de Lábrea (OJIL), da Organização da Juventude Indígena de Tapauá (OJIT) e da Amiata, estão em Brasília participando do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, que acontece entre os dias 5 e 10 de abril. Vindos de territórios nos municípios de Lábrea e Tapauá, no sul do Amazonas, eles representam uma nova geração de lideranças comprometidas com o fortalecimento da participação indígena nos espaços de diálogo e decisão no Brasil. 

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Considerado o maior encontro de mobilização indígena do país, o 22º ATL reúne lideranças de diferentes povos e regiões para discutir pautas prioritárias, como a defesa dos territórios, direitos indígenas e políticas públicas. A presença da juventude amazônica no evento reforça o protagonismo das novas gerações na construção de soluções para seus próprios territórios.  

O Acampamento está instalado no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte), no centro da capital federal. O ATL reúne todos os anos, representantes de cerca dos 391 povos indígenas do Brasil, além de delegações internacionais, com o objetivo de debater a defesa dos territórios e denunciar violações aos direitos desses povos. 

A participação dos jovens conta com o apoio do Idesam, em parceria com a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), que vêm atuando no fortalecimento de organizações indígenas e comunitárias na região. 

Leia também: Acampamento Terra Livre inicia atividades do Abril Indígena em Brasília

“Estamos no ATL para lutar por nossos direitos, por mais saúde, educação e pela proteção dos nossos territórios. Queremos levar esse aprendizado de volta para fortalecer nossas comunidades”, afirma Elaine Vieira, da Associação das Mulheres Indígenas Artesãs de Tapauá (AMIATA). 

O jovem da etnia Apurinã, Felipe Batista, destaca a importância de participar do maior encontro de povos indígenas do país: “Buscar conhecimento é um compromisso com nós mesmos, povos indígenas. Também é uma oportunidade de conhecer e trocar experiências com outros jovens parentes que estão aqui”, afirma. 

Dia dos Povos Indígenas é comemorado em 19 de abril. Foto: Alexandre Cruz-Noronha

Os jovens fazem parte do Hub de Políticas Públicas do Idesam, uma iniciativa que apoia organizações em territórios estratégicos da Amazônia, promovendo formação, articulação e incidência qualificada em espaços institucionais, além de assessoria para a formalização de organizações produtivas. A participação no ATL integra essa estratégia de ampliar a presença de lideranças locais nos principais fóruns de debate e decisão. 

Segundo Allex Mendonça, advogado e consultor de projetos do Idesam, que acompanha a delegação em Brasília, a iniciativa busca preparar a juventude indígena para atuar de forma qualificada nos espaços de decisão. “A ideia é fortalecer as organizações juvenis para que possam incidir em políticas públicas e ampliar sua representatividade. Parte delas também está recebendo assessoria para se formalizar e existir oficialmente como pessoa jurídica”, explica. 

A participação no Acampamento Terra Livre simboliza mais que a presença em um evento nacional: é um avanço da juventude indígena na ocupação de espaços estratégicos, fortalecendo redes, ampliando vozes e contribuindo diretamente para a construção de políticas públicas que impactam seus territórios.

Por Fabíola Abess/ Idesam

Borari: O povo indígena de Alter do Chão

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Os Borari são reconhecidos como um dos povos originários da região de Alter do Chão, no oeste do Pará. Ao longo dos séculos, o grupo construiu vínculos profundos com o território, especialmente com as margens do rio Tapajós.

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A presença Borari se mantém como elemento central na formação social, cultural e histórica do distrito de Santarém. Hoje, o povo segue articulando práticas tradicionais, defesa territorial e atividades culturais que fortalecem sua identidade.

A comunidade Borari é frequentemente associada ao cenário turístico de Alter do Chão, conhecido por suas praias de água doce e paisagens amazônicas. Entretanto, a história local antecede a era do turismo e se desenvolve a partir da ocupação indígena ancestral. Estudos antropológicos apontam que o território já era habitado por povos falantes de línguas Aruak antes do contato com colonizadores europeus. Com o tempo, as aldeias passaram por transformações, mas continuaram como referência histórica para a região.

Saiba mais: 9 fatos curiosos sobre o “Caribe amazônico”: Alter do Chão

Foto: Arquivo/Agência Santarém

Os Borari, assim como outros povos amazônidas, vivenciaram intensos processos de ocupação externa, missionização e conflitos territoriais. Ainda assim, parte significativa de sua cultura foi preservada por meio de rituais, narrativas orais, manejo ambiental e práticas comunitárias. Alter do Chão, hoje é um dos destinos turísticos mais visitados da Amazônia, segue sendo um território onde essas tradições convivem com a presença constante de visitantes e atividades econômicas.

A luta por reconhecimento é outro ponto que marca a trajetória recente do povo Borari. A comunidade busca ampliar a demarcação e a proteção de áreas onde vivem e exercem suas atividades tradicionais. Organizações indígenas na região atuam na defesa do território, da preservação do patrimônio cultural e na valorização da história dos povos originários.

Povo Borari e a relação histórica com Alter do Chão

A história de Alter do Chão está diretamente ligada ao povo Borari. Registros históricos descrevem que aldeias ocupavam a área muito antes da fundação do distrito, e relatos orais reforçam a permanência contínua do grupo. Um dos marcos dessa presença é a existência de sítios arqueológicos, como fragmentos cerâmicos e utensílios que ajudam a compreender a ocupação humana na região do Tapajós.

Praia do Cajueiro em Alter do Chão. Foto: Arquivo Ccom/PMS

Alter do Chão é conhecida mundialmente pelas praias de água doce, como a Ilha do Amor, mas esses cenários fazem parte de um território tradicional. Os Borari realizavam atividades de pesca, agricultura e extrativismo nas áreas que hoje concentram hotéis, barracas e fluxo intenso de turistas. A cosmologia indígena também estabelece conexões com rios, matas e igarapés, reforçando a importância do ambiente como parte da vida comunitária.

Nos últimos anos, a presença de empreendimentos turísticos provocou mudanças na dinâmica local. Ao mesmo tempo, o povo Borari passou a atuar mais diretamente na divulgação de sua cultura, em apresentações, oficinas e eventos que explicam a origem de Alter do Chão sob a perspectiva indígena. A visibilidade conquistada nesses espaços fortalece as reivindicações por reconhecimento étnico e territorial.

Organizações indígenas também apontam para a necessidade de equilibrar o turismo com a preservação cultural. A comunidade destaca que Alter do Chão, além de destino turístico, é um espaço de memória e ancestralidade Borari. Essa compreensão fundamenta debates sobre planejamento urbano, uso de áreas naturais e políticas públicas voltadas aos povos originários.

Território, identidade e reivindicações atuais

A demarcação do território Borari em Alter do Chão é pauta constante em órgãos federais e instituições voltadas às questões indígenas. A reivindicação busca reconhecer oficialmente áreas onde a comunidade vive e realiza práticas tradicionais. Mapeamentos e estudos antropológicos já foram realizados, contribuindo para a delimitação histórica e cultural do território.

Indígenas Borari. Foto: divulgação

Embora parte da população tenha se adaptado por processos de urbanização, a comunidade mantém rituais e celebrações. Festividades, como apresentações culturais e práticas tradicionais, são formas de reafirmação da presença indígena no distrito.

O fortalecimento das associações locais tem proporcionado espaços de diálogo com instituições públicas, universidades e centros de pesquisa. Projetos de educação ambiental e cultural são desenvolvidos em parceria com escolas de Alter do Chão, disseminando informações sobre o povo Borari e sua história.

Outro ponto relevante é o papel da juventude, que atua na preservação e divulgação das tradições e participa ativamente das discussões sobre território e meio ambiente. Jovens Borari vêm ocupando espaços em conselhos e fóruns regionais, contribuindo para o debate sobre políticas públicas e valorização da cultura indígena.

Presença Borari e o futuro em Alter do Chão

Os Borari continuam a desempenhar papel fundamental na formação da identidade de Alter do Chão. A relação histórica com o rio Tapajós, as práticas culturais e as reivindicações por reconhecimento territorial mostram a continuidade da presença indígena na região. O equilíbrio entre turismo, preservação ambiental e direitos indígenas segue como tema central nas discussões atuais.

A compreensão do território como espaço de ancestralidade orienta ações comunitárias e iniciativas de fortalecimento cultural. Com isso, Alter do Chão permanece não apenas como destino turístico, mas como área tradicionalmente habitada por um povo que mantém vivas suas narrativas, saberes e vínculos com a região do Tapajós.

Tentamen marca valorização da cultura e do patrimônio histórico de Rio Branco

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A reinauguração da Sociedade Recreativa Tentamen, em Rio Branco, completamente revitalizada volta a ser um dos principais espaços de convivência social e cultural da capital. A obra, conduzida pela Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), com execução da Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop), representa um investimento total de R$ 1,14 milhão, com recursos próprios do Estado e de convênio com o governo federal, por meio da Caixa Econômica Federal.

Fundada em 1924, a Tentamen é um dos espaços mais tradicionais da história acreana. Surgiu durante o ciclo da borracha como um ambiente voltado à convivência familiar e à realização de eventos sociais, especialmente bailes e festas que marcaram gerações. Ao longo dos anos, consolidou-se como símbolo da vida social de Rio Branco.

Espaço conta com imagens do passado, que eternizam o local de confraternização da sociedade acreana. Foto: José Caminha/Secom

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Com a revitalização, o espaço passa a assumir também um papel ainda mais amplo, abrindo portas para manifestações culturais diversas, como apresentações artísticas, eventos comunitários e festejos populares.

A entrega reforça o compromisso do governo com a preservação do patrimônio histórico, o fortalecimento da identidade cultural e o incentivo ao turismo e à economia local.

Investimento e impacto social

A obra contemplou a recuperação estrutural do prédio, respeitando suas características arquitetônicas originais, além da modernização de espaços para melhor atender o público. A iniciativa beneficia diretamente artistas, produtores culturais, famílias e toda a população de Rio Branco, que volta a contar com um espaço histórico requalificado.

Fundada em 1924, a Tentamen é um dos espaços mais tradicionais da história acreana. Surgiu durante o ciclo da borracha como um ambiente voltado à convivência familiar e à realização de eventos sociais Foto: Marcos Santos/Secom

Entre os principais ganhos estão a ampliação do acesso à cultura, a valorização da memória coletiva e o estímulo a atividades que movimentam a economia criativa do estado.

Leia também: Ações integradas fortalecem o combate ao desmatamento e geram resultados positivos para o Acre

O governador Gladson Camelí destaca a importância da obra como símbolo de cuidado com a história e de investimento no futuro: “A Tentamen faz parte da nossa memória, da nossa identidade. Recuperar esse espaço é preservar a nossa história, mas também é olhar para frente, criando oportunidades para a cultura, para o turismo e para a economia. Nosso governo teve esse compromisso: valorizar o que é nosso e garantir mais qualidade de vida para a população”.

Reinauguração

Espaço de cultura se situa próximo à Gameleira, um dos mais expressivos pontos turísticos da capital acreana. Foto: José Caminha/Secom

A reinauguração da Tentamen integra um conjunto de ações do governo do Estado voltadas à recuperação de espaços públicos históricos e culturais, reafirmando o compromisso com o desenvolvimento sustentável e a valorização das tradições acreanas.

A partir de agora, o espaço volta a pulsar forte como ponto de encontro da cultura, conectando passado e presente e abrindo caminhos para novas histórias.

Restaurante ‘Meu Cantinho’ e seu vínculo com a origem de Boa Vista

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Foto: Fernando Szegeri/Trip Adviser

Bons restaurantes regionais proporcionam uma experiência cultural para seus frequentadores. Mas alguns deles tem um vínculo com a cidade em que foram construídos que pode surpreender. O Restaurante Meu Cantinho, em Boa Vista (RR), é um exemplo.

Um dos pontos mais conhecidos da capital roraimense, localizado na área central da cidade, o restaurante funciona no mesmo espaço onde existiu a ‘Fazenda Boa Vista’, considerada o núcleo original que deu origem à capital roraimense.

O local, que hoje abriga mesas e visitantes em busca da culinária regional, já foi o centro de uma fazenda de gado que marcou o início da ocupação da região do Rio Branco.

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Assim, a história do restaurante Meu Cantinho se funde com a formação de Boa Vista. Segundo registros históricos, a Fazenda Boa Vista foi criada por volta de 1830, quando o capitão Inácio Lopes de Magalhães se instalou nas margens do rio Branco com o objetivo de desenvolver atividades pecuárias.

O espaço abrigava uma grande casa-sede, feita com técnicas construtivas coloniais, e tornou-se um dos primeiros pontos de referência para os moradores que chegaram à região em busca de novas oportunidades.

Com o passar dos anos, a fazenda passou a atrair famílias, comerciantes e religiosos. Em torno dela, formou-se um pequeno povoado, que deu origem à Freguesia de Nossa Senhora do Carmo em 1858. Esse núcleo foi o primeiro passo para o surgimento da vila de Boa Vista do Rio Branco, que mais tarde seria elevada à categoria de cidade, em 1890.

Desta forma, a antiga fazenda que originou o atual endereço do Restaurante Meu Cantinho está diretamente ligada à fundação da capital roraimense.

Imagem em preto e branco mostra Fazenda Boa Vista onde hoje é o restaurante Meu Cantinho. Bem próximo fica a Igreja da Matriz
Foto: Acervo Francisco Cândido/ Reprodução Facebook Velhos Tempos Roraima

Das origens da fazenda ao coração de Boa Vista

Hoje, o restaurante mantém parte das características arquitetônicas do antigo casarão. O prédio é tombado como patrimônio histórico municipal desde 1993 e preserva elementos da construção original, como as paredes espessas e o pé-direito alto, típicos das edificações rurais do século XIX. A fachada foi restaurada diversas vezes, mas conserva a estrutura base que remete ao período da fazenda.

Leia também: Boa Vista: de fazenda amazonense à capital do estado de Roraima

Restaurante Meu Cantinho e Igreja Matriz ao fundo. Foto: Rayane Lima/Rede Amazônica RR

Durante o século XIX, a Fazenda Boa Vista era um dos principais pontos de referência da região do baixo Rio Branco. Suas terras se estendiam por grandes áreas planas, aproveitadas para a criação de gado e pequenas plantações. O local funcionava também como ponto de parada para viajantes e comerciantes que circulavam entre as vilas do interior e a fronteira com a Guiana.

Com o avanço da urbanização e o crescimento do povoado, a antiga fazenda passou a ser incorporada à área central da nova cidade. O casarão, antes isolado, ficou cercado por novas construções e se transformou em um dos marcos da formação urbana de Boa Vista. Ainda assim, o local manteve sua importância histórica, servindo como símbolo da origem da capital e da permanência de seu patrimônio cultural.

De acordo com o historiador roraimense Davy Batista, o casarão representa “o elo entre o passado rural e o presente urbano de Boa Vista”.

“Essa fazendo basicamente deu origem a vida urbana de Boa Vista. Porque ao redor dela, por volta de 1858, foi se formando a freguesia Nossa Senhora do Carmo, que também deu origem a Igreja da Matriz”, destaca o historiador.

Leia também: Quem foi Salomão Hatem? Imigrante investiu no comércio e desenvolvimento de Boa Vista

A transformação do espaço em restaurante ocorreu décadas depois, quando o prédio já era conhecido pelos moradores como uma construção histórica. O imóvel foi adaptado para receber o público, mas parte da estrutura original foi preservada, incluindo janelas amplas, telhado de duas águas e a disposição interna dos cômodos.

Restaurante Meu Cantinho e a preservação da memória

A criação do Restaurante Meu Cantinho marcou uma nova fase para o antigo prédio. A instalação do estabelecimento uniu dois aspectos: a valorização da gastronomia regional e a conservação da memória histórica de Boa Vista. Desde sua inauguração, o restaurante atrai tanto moradores quanto turistas interessados em conhecer um pouco da culinária e da história local.

O restaurante, além de servir pratos típicos, mantém o ambiente tradicional, com móveis de madeira e decoração inspirada nas casas rurais do passado. Muitas pessoas que frequentam o restaurante não sabem que estão em um dos lugares mais antigos da cidade — um ponto que remonta aos primórdios da colonização da região.

De tempos em tempos, pesquisadores e estudantes visitam o local para conhecer de perto a estrutura da antiga fazenda. Segundo a arquiteta e pesquisadora Maria Clara Barros, que estudou o conjunto histórico do centro de Boa Vista, o prédio onde hoje funciona o Restaurante Meu Cantinho é uma das poucas construções que ainda conservam traços originais do século XIX. “O restaurante é uma peça viva da formação da cidade”, destaca Barros.

Nos anos 2000, o imóvel passou por obras de restauração, com o objetivo de reforçar sua estrutura e garantir a preservação do patrimônio. Apesar das adaptações para uso comercial, o prédio ainda mantém sua identidade histórica.

Para destacar essa existência única, uma placa foi instalada na fachada informando aos visitantes que ali funcionou a Fazenda Boa Vista e a origem da cidade.

“Preservar o local onde é o restaurante Meu Cantinho, essa ex-sede da fazenda Boa Vista, é preservar a memória do povo roraimense”, assegurou David Batista ao Portal Amazônia.

Símbolo histórico e cultural de Boa Vista

Atualmente, o Restaurante Meu Cantinho é considerado parte do patrimônio afetivo dos moradores de Boa Vista. Localizado próximo à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo e à Orla Taumanan, o espaço integra o conjunto histórico do centro da capital. Sua permanência reforça o vínculo entre o passado da cidade e a vida moderna que se desenvolveu ao seu redor.

O prédio do restaurante, que um dia abrigou a fazenda pioneira, transformou-se em um ponto de convivência em que, entre refeições e encontros diários, o local guarda as lembranças de quase dois séculos de história, marcando a passagem do tempo e a continuidade da memória da capital roraimense.

Vila Céu do Mapiá, a comunidade preservada na Amazônia pelo Santo Daime

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Localizada próxima de Pauini, município do Amazonas, comunidade vive na base da doutrina espiritual do Santo Daime. Foto: santodaime.org

Localizada em uma das mais preservadas áreas da Amazônia ocidental brasileira, segundo a Organização Não Governamental (ONG) Instituto Socioambiental, a Vila Céu do Mapiá está localizada no interior do estado do Amazonas, em uma área de floresta densa às margens do igarapé Mapiá, próximo ao município de Boca do Acre (distante 1030 quilômetros de Manaus).

O território é conhecido por abrigar uma população fixa formada por famílias de diferentes regiões do Brasil e também por visitantes estrangeiros que chegam ao local em períodos específicos do ano.

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O acesso à comunidade ocorre predominantemente por via fluvial, o que reforça o isolamento geográfico da localidade em relação aos grandes centros urbanos da região Norte. A Vila Céu do Mapiá se consolidou como um núcleo comunitário estruturado, com moradias, espaços coletivos, áreas de cultivo e locais destinados a atividades religiosas, educacionais e administrativas.

O Portal Amazônia conversou com Ronaldo Pereira, filho de um dos fundadores da Vila do Céu do Mapiá, para entender como a comunidade surgiu e como ela vive diante de tantas ameaças ao meio ambiente e as comunidades tradicionais.

Neste contexto, é possível entender também como dentro de uma doutrina religiosa, essa comunidade convive em prol de um espaço sustentável.

Surgimento da Vila Mapiá

O Mapiá passou a ganhar maior visibilidade a partir da segunda metade do século XX, quando a área foi ocupada de forma mais organizada por seguidores de práticas religiosas ligadas ao uso ritualístico da Ayahuasca.

Mas tudo começou na décade de 80, quando Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, dentro da manifestação religiosa do Santo Daime teve visões e afirmava ter recebido um “chamado da floresta” para sair dos arredores de Rio Branco, no Acre.

Depois de algum tempo dentro do Santo Daime, fundou a vila “Céu do Mapiá”, em uma localidade afastada da civilização em que são necessários dois dias de viagem em embarcações conhecidas como “voadeiras“.

Leia também: Plantas utilizadas no chá de ayahuasca são estudadas por pesquisadores

Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, fundador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Ronaldo Pereira, ainda criança, acompanhou a fundação da Vila Céu do Mapiá e compartilhou com o Portal Amazônia suas impressões sobre o início da construção dessa comunidade e sua consolidação.

“Para começar a falar sobre a Vila Céu do Mapiá é necessário voltar um tempo atrás. Em 1975, quando a Colônia Cinco Mil, também fundada pelo padrinho em Rio Branco, já estava formada, vista e consolidada, o padrinho sentiu a necessidade de ir para a floresta para aprofundar os estudos. Daí chegou a Rio do Ouro, área de mata virgem, onde começou a abrir estradas, formando as colocações, mas apareceu um fazendeiro dizendo que era dono daquela terra. E o padrinho que não gostava de confusão procurou o Incra [Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária] que indicou o seringal Céu do Mapiá, que já foi habitada pelos indígenas Apurinãs”, explicou Ronaldo.

A partir de então, Ronaldo conta que padrinho Sebastião partiu rumo à área indicada. Inicialmente as dificuldades de acesso ao local eram grandes, mas a força dos discípulos foi fundamental para as primeiras instalações da comunidade, segundo ele.

“Meus pais e outros fundadores começaram tudo do zero. Antes era tudo fechado, a floresta era bruta, começando abrindo caminhos a qual chamamos de ‘estradas’ e aí a força comunitária foi o grande suporte para que tudo desse certo. A comunidade se ajudou, desde o início, inclusive a primeira atividade de subsestência foi a extração de latéx, além do principal que é a igreja”, explicou o morador.

Discípulos do Santo Daime na Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/santodaime.org

Organização social

Ainda segundo Pereira, rapidamente, a notícia da fundação do Céu do Mapiá e sua ligação com o Santo Daime se espalhou e o local começou a receber visitas de discípulos das mais diversas origens, tornando-se um centro de peregrinação de adeptos da doutrina do Santo Daime. E então, com a criação da Floresta Nacional Purus, em 1990, a vila se tornou um tipo de “capital em meio à Floresta Amazônica”.

“O Mapiá sempre foi, desde o começo, esse local de cura, uma escola espiritual, tudo em convivência e harmonia com a natureza, sempre respeitando o meio ambiente e tratando a agricultura de forma subsistente. Aí ela foi crescendo, virou a Vila Céu do Mapiá, com bastante movimentação social, ambiental, do ecoturismo e e de cura”, frisou Ronaldo.

Vila Céu do Mapiá. Foto: AmaGaia

Assim, segundo o morador, a dinâmica social do Mapiá está baseada em regras comunitárias próprias, que orientam o uso do solo, a convivência entre moradores e a preservação ambiental. A floresta ao redor da vila é considerada parte fundamental do modo de vida local, sendo utilizada para agricultura de subsistência, coleta de frutos, manejo de plantas medicinais e proteção dos recursos naturais. O modelo adotado busca conciliar ocupação humana e conservação ambiental em uma região de difícil acesso.

Estrutura comunitária

Ao longo dos anos, a Vila Céu do Mapiá se tornou um ponto de referência para estudos acadêmicos, reportagens e pesquisas voltadas à antropologia, sociologia, meio ambiente e religiões amazônicas.

O nome Mapiá passou a ser associado a uma experiência comunitária singular dentro do contexto amazônico, marcada por uma organização social própria e pela relação direta com a floresta e os rios da região.

Vila Céu do Mapiá possui vários programas com serviços voltados à comunidade. Foto: Reprodução/AmaGaia

Com cerca de 600 moradores, a vila conta com diversas estruturas voltadas para a oferta de serviços à comunidade. A primeira, e talvez a mais importante delas, é a Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal (ICEFLU), fundada pelo padrinho Sebastião, a instituição oficial que representa o Santo Daime.

A segunda estrutura mais importante é a Associação dos Moradores da Vila Céu do Mapiá (AMVCM), fundada em 1987, e que funciona como um centro administrativo e representante legal dos moradores que habitam o local.

Cozinha Geral da Vila Céu do Mapiá. Foto: Reprodução/AmaGaia

As outras estruturas são:

  • Escola Cruzeiro do Céu – unidade escolar estadual que, juntamente com o Jardim de Infância Municipal Madrinha Rita, atende alunos da pré-escola até o ensino médio, além da educação para adultos;
  • Santa Casa de Cura – realiza trabalho de caridade para atendimento das pessoas da vida e do entorno da comunidade, abordagem espirita em atendimento de saúde;
  • Centro de Medicina da Floresta – desenvolve pesquisas na elaboração de remédios fitoterapicos e florais e atua na formação de jovens por meio dos saberes tradicionais;
  • Centro de Saúde – unidade básica de saúde construída formada comunitariamente e oferece serviços de odontologia e enfermaria;
  • Cooperativa Agroextrativista – principal articuladora da dimensão econômica da comunidade, com abastecimento de produtos e a comercialização do cacau nativo, considerado o carro chefe da instituição;
  • Jardim da Natureza – local onde artistas e artesãos estudam, trabalham e capacitam jovens para a produção de biojoias e peças artesanais a partir de aproveitamento dos recursos naturais da floresta;
  • Cozinha Geral – trabalha na produção e fornecimento de refeições para comunidade, durante os grandes eventos realizados na Vila;
  • Instituto de Desenvolvimento Ambiental – agência de desenvolvimento local que realiza e apoia ações de sustentabilidade;
  • Telecentro – Espaço com internet, biblioteca e rádio comunitária para os comunitários.

Além delas, existe a Casa de Música e o Centro de Cultura, Esporte e Lazer com diversas atividades voltadas para a comunidade.

Padrinho Sebastião na comunidade. Foto: Santodaime.org

Santo Daime

O movimento religioso do Santo Daime começou na Floresta Amazônica, nas primeiras décadas do século XX, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra, natural do Maranhão. A doutrina de cunho cristão e eclético reúne tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos originários como ayahuasca, o vinho das almas, e por ele denominado Santo Daime.

Discípulo do Mestre Irineu, padrinho Sebastião recebeu o dom de expandir o culto do Santo Daime por todo o país e além de suas fronteiras. O responsável pela criação da Vila Céu do Mapiá morreu em 20 de janeiro de 1990, no Rio de janeiro, onde se encontrava para se tratar de uma grave doença cardíaca que o acometera alguns anos antes.

Ronaldo Pereira, morador da Vila Céu do Mapiá. Foto: Arquivo pessoal

Seu legado é até hoje mantido pelos filhos Alfredo e Waldete, responsáveis pela continuação de sua missão espiritual e de seu trabalho social e comunitário.

E a rotina da comunidade, segundo Ronaldo Pereira, segue voltada para o propósito de uma nova vida baseada na doutrina espiritual do Santo Daime, como uma alternativa de um modo de vivência sustentável em meio a floresta.

“A Vila do Mapiá tem dois propósitos: o primeiro do padrinho Sebastião de levar o povo para floresta e ensinar a sobreviver com o que tem lá. E o segundo é a questão espiritual. Eu digo que o Mapiá é um dos maiores laboratórios humanos do mundo”, conclui.

*Por Hector Muniz, com a colaboração de Dayson Valente

‘Os Poderosos Treme-Terra’: HQ de ficção envolve heróis, imaginário amazônico e música

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O publicitário Andrey Rodrigues é o autor da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Foto: Andrey Rodrigues/Acervo pessoal

As aparelhagens surgidas no Pará, que compõem festas muito populares no estado, além do imaginário do povo amazônico e suas lendas, são os elementos da história em quadrinhos (HQ) ‘Os Poderosos Treme-Terra‘. A obra, que deve ser publicada em breve, criada para quem é fã de quadrinhos envolvendo super-heróis e que tem orgulho da cultura nortista, segundo o criador Andrey Rodrigues.

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A história do publicitário belenense de 50 anos mergulha no conhecimento ancestral, na música, na tecnologia e, claro, no universo de super-heróis “amazofuturistas”. Morador do bairro Montese, também conhecido como ‘Terra Firme’, na periferia de Belém, o publicitário conversou com o Portal Amazônia sobre este trabalho, a primeira experiência dele com os quadrinhos.

O enredo de ‘Os Poderosos Treme-Terra’

‘Os Poderosos Treme-Terra’ conta a história dos gêmeos Maike e Maikon, que vivem na periferia de Belém, mas em um contexto diferente da realidade da cidade: eles comandam naves inspiradas nas apresentações de aparelhagens, onde é muito comum ver, além de shows de DJs, elementos cenográficos com grande estrutura, cenografia e muitas luzes.

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Os protagonistas da história são ‘carregadores de aparelhagem’, termo utilizado no Pará para quem carrega os equipamentos de som para os artistas locais. Andrey Rorigues explica que os personagens vivem, por meio de naves espaciais, uma viagem no espaço-tempo, redescobrindo conexões ancestrais com seres do passado, presente e futuro.

“Os gêmeos eu usei como referência os Ibejis (orixás gêmeos presentes em religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda). Na cosmogonia africana, os gêmeos vencem o espírito da morte por meio da música. Maike e Maikon são os personagens principais. Mas a história tem outras personagens gravitando ao entorno deles”, revelou.

Inspiração

Parte da inspiração desta história veio de um trabalho publicitário feito por Andrey Rodrigues: um comercial de TV que mostrava a aparelhagem ‘Crocodilo’, uma super estrutura onde DJ’s de Belém se apresentam.

“A proposta surgiu enquanto eu trabalhava na gravação de um comercial para o qual escrevi o roteiro e atuei na co-direção. A produção tinha a participação da aparelhagem ‘Crocodilo’, e acompanhei de perto toda a estruturação. Naquele período, eu lia diversas obras de afrofuturismo e passei a enxergar as aparelhagens como um elemento relevante dentro dessa perspectiva. A partir daí, começamos a construir a ideia do amazofuturismo”, contou.

Trabalho publicitário feito por Andrey Rodrigues para uma empresa de material de construções do Pará inspirou a história de ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Foto: Andrey Rodrigues/Acervo pessoal

“As aparelhagens fazem parte de minhas memórias afetivas. Lembro dos altares sonoros em festa de interior, bregas do Ted Max, Lambadas e House (Midback). Depois, a fase do Melody, Tecnomelody e enfim Tecnobrega”, comentou o autor da HQ sobre um dos pontos que estimularam sua criatividade.

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As ligações com os sonhos também dão o tom para o enredo da HQ ‘Os Poderosos Treme-Terra’. Rodrigues destaca que os sonhos muitas vezes trazem um significado para o amazônida e isso é levado em conta neste trabalho.

“Essa história que criei vai muito por essas cosmogonias. Tentando resumir, é um multiverso em Belém que conta as nossas cosmogonias amazônicas”, explicou ao Portal Amazônia.

Imagem colorida mostra capa da HQ Os Poderosos Treme-Terra com crocodilo tecnologico a esquerda e a direita uma apresentação de aparelhagem com um artista em cima de uma águia tecnológica e nas suas costas saindo fogos pirotécnicos
Capa da HQ Os Poderosos Treme-Terra foi inspiramente nas apresentações de Aparehagem comuns no Pará. Foto: Divulgação/ Andrey Rodrigues e Rodrigo Pinheiro/ Agência Pará

Rodrigues também destaca que o leitor da HQ conseguirá identificar várias referências aos artistas locais. Muitos dos heróis dos quadrinhos são inspiradas nos artistas ligados a aparelhagem como DJ Méury, Rubi e Badalasson. “Tem vários Easter Eggs (surpresas escondidas), bem como o Stan Lee que aparece nos filmes da Marvel”, afirmou.

Imagem colorida mostra quadrinhos de Os Poderosos Treme-Terra mostrando uma artista se apresentando em aparelhagem
A cantora paraense Gaby Amarantos aparece nos quadrinhos ‘Os Poderosos Treme-Terra’ como um Easter Egg. Imagem: Andrey Rodrigue/Acervo pessoal

Financiamento coletivo

A história em quadrinhos já garantiu os recursos necessários para sair do papel. A campanha de financiamento coletivo, realizada por meio da plataforma Catarse, atingiu a meta estabelecida e assegurou a etapa final de produção da obra.

O projeto tinha como objetivo arrecadar R$ 14 mil para viabilizar a publicação. O valor será destinado às fases de produção e impressão da revista.

“Eu fui buscar ilustradores e também os custos para impressão e eu vi que é algo caro. E foi aí que fui informado sobre o Catarse, que mostra ser uma ferramenta bem transparente e funcionou. Através desta ferramenta, eu também consegui que a imprensa viesse até mim”, destacou.

Com o financiamento confirmado, a equipe agora concentra esforços nos ajustes finais e no processo gráfico para que a publicação chegue ao público apoiador e aos leitores interessados na produção independente da região Norte.

Portal Amazônia responde: o que é uma infração ambiental?

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Foto: Divulgação/Ibama

A infração ambiental é um tema que tem se feito mais presente no cotidiano, especialmente diante do aumento de debates sobre preservação, fiscalização e responsabilidade no uso dos recursos naturais. O assunto pode envolver situações que vão desde atividades econômicas até ações individuais, todas inseridas em um contexto de regras e limites estabelecidos para proteger o meio ambiente e garantir o equilíbrio.

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Mas você sabe o que realmente pode ser considerado infração ambiental e quais tipos de condutas podem se enquadrar neste conceito? E o termo infração ambiental equivale à crime ambiental?

A equipe do Portal Amazônia conversou com a professora de Direito, mestre em Direito Ambiental pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Penélope Antony Lira, para explicar o configura uma infração ambiental.

O conceito de infração ambiental

Embora o termo seja amplamente utilizado, seus significados e desdobramentos legais nem sempre são de conhecimento público. Para compreender melhor como a infração ambiental é definida, identificada e tratada pela legislação brasileira, a mestre em Direito Ambiental explica que os critérios adotados e as consequências estão previstas na Lei n. 9.605/98.

“Segundo a Lei n. 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais), infração ambiental é qualquer tipo de ação ou omissão que viole normas de proteção ao meio ambiente (natural ou artificial), independentemente se o dano foi efetivo. Para se saber o que é ou não uma violação ambiental, existem normas que estabelecem padrões ambientais aceitáveis. Ultrapassando esses limites, configura-se uma infração ambiental”, pontua a professora.

Penélope Antony Lira explica que a infração ambiental é uma das punições iniciais do poder público em caso de constatações de dano ao meio ambiente:

“A simples violação às normas ambientais, já são consideradas infrações na esfera civil, penal ou administrativa. Podem se enquadrar nesse conceito: desmatamento ilegal de vegetação; lançamento de resíduos na água, solo, ar (desde que sem licença ambiental para isso), transporte, comércio ou destinação de resíduos perigosos (desde que sem licença ambiental para isso), construção ou obra em áreas proibidas (desde que sem licença ambiental para isso)”.

Sanções previstas na legislação ambiental

As consequências para quem comete uma infração ambiental variam conforme o tipo de conduta, o responsável envolvido e os impactos causados ao meio ambiente.

A legislação brasileira estabelece um conjunto de medidas que podem ser aplicadas pelas autoridades competentes, levando em consideração critérios técnicos e jurídicos definidos em lei.

Sobre esse ponto, Penélope explica que as penalidades não são padronizadas e dependem de diversos fatores analisados caso a caso.

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“A legislação ambiental prevê vários tipos de sanções para quem comete uma infração ambiental, dependendo de quem comete, se pessoa física ou jurídica, da gravidade da infração e da capacidade econômica de quem pratica o ato. Desta forma, temos penalidades como multa, suspensão e cassação de licenças, interdição de obra ou atividade, demolição de obra, apreensão de bens, perdimento de bens, condenação em indenização pecuniária e até detenção”, destaca.

Responsabilização nas três esferas da lei

Imagem gerada por IA

Ainda segundo a professora de Direito, a prática de uma infração ambiental também pode gerar consequências que vão além da aplicação de multas ou advertências administrativas.

Dependendo da conduta, dos danos causados e do enquadramento legal, o responsável pode ser chamado a responder simultaneamente em diferentes instâncias previstas na legislação brasileira. Esse modelo busca assegurar que danos ambientais sejam apurados de forma ampla e que as sanções sejam proporcionais à gravidade do caso.

“Em qualquer situação que viole uma norma administrativa, cause danos ou riscos concretos a terceiros ou ao patrimônio público, ou ainda se enquadre como crime ambiental, pode ocorrer a responsabilização nas três esferas. Caberá, assim, ao Poder Judiciário processar e julgar as ações civis e penais, enquanto ao órgão ambiental compete a aplicação das sanções administrativas”, conclui.

Entenda como fica a situação da Venezuela após o ataque dos Estados Unidos e prisão de presidente e primeira dama

Fotos: Reprodução

A Venezuela foi alvo de uma ação militar dos Estados Unidos (EUA) neste sábado (3), que envolveram ataques aéreos e bombardeios em várias regiões do país, marcando um dos episódios mais graves de conflito entre os dois países nas últimas décadas.

O presidente do Estados Unidos Donald Trump afirmou que forças militares americanas realizaram um ataque de grande escala no território venezuelano, tendo como um dos objetivos principais a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, os quais, segundo confirmação dele ainda na tarde deste sábado, foram detidos e levados para fora do país para enfrentar acusações relacionadas ao narcotráfico internacional.

Explosões foram ouvidas na madrugada em Caracas, capital da Venezuela, e em áreas dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, com relatos de aeronaves voando a baixa altitude e danos a infraestruturas militares. A operação teve repercussões imediatas na diplomacia regional e global.

Países vizinhos como Colômbia e Cuba condenaram o ataque, classificando a ação como uma agressão inaceitável e pedindo vigilância pela comunidade internacional. O Brasil por meio de seu presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, também reeprendeu os ataques em uma mensagem publicada em suas redes sociais e convocou uma reunião para analisar a situação.

“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, declarou.

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Em nível internacional, o secretário-geral da ONU António Guterres expressou preocupação com as consequências do uso da força no caso da Venezuela, afirmando que tal ação poderia estabelecer um “precedente perigoso” no cenário das relações entre nações. Lideranças estrangeiras reforçaram a necessidade de respeitar a Carta das Nações Unidas e os princípios de soberania e não-intervenção.

Análise geopolítica da Venezuela

O Portal Amazônia ouviu o analista político Helso Ribeiro para entender o cenário geopolítico deste conflito após as ações que cuminaram na prisão de Maduro e da primeira dama da Venezuela.

O Brasil, há alguns anos, tem recebido imigrantes venezuelanos devido há uma crise humanitária vivida no país vizinho, parte da Amazônia internacional, e que se agravou durante a gestão de Nicolas Maduro. Para Helso Ribeiro, essa situação vivida principalmente pela região amazônica pode não mudar mesmo com a ação do governo norte-americano, tendo ações também em outros países como exemplo.

“A análise deve ser ampla e não apaixonante. E é claro, as pessoas que odeiam ao Chavismo e odeiam Lula, estão celebrando. Eu particularmente nunca fui simpático ao Maduro, mas sou simpático ao Direito Internacional e ao multilateralismo. Eu não apoio que nenhum país invada o outro e retire seu algoz e se afore como o dono da situação”, opinou.

“Cabe lembrar que isso já foi feito anteriormente. Em 2006 os Estados Unidos invadiu o Iraque, capturou Saddam Hussein, alegando o uso de Armas de Destruição em Massa, e o Iraque hoje é um país em frangalhos. O mesmo aconteceu com a Líbia e outros países. Não que eu apoie a situações de Iraque e Líbia, mas isso só reforça as instabilidades políticas”, completou Ribeiro.

Leia também: Lula diz a Maduro que América Latina é região de paz

Para o analista político, o interesse dos EUA em atacar a Venezuela é apenas pelo petróleo: “No caso da Venezuela, lá existe uma das maiores reservas de petróleo do mundo, que interessa aos Estados Unidos evidentemente. Os Estados Unidos ainda mantém os combustíveis fósseis como parâmetro de desenvolvimento e o próprio Trump afirmou isso”.

Trump traz detalhes sobre a situação da Venezuela

Durante a tarde, horas após a ação bélica em território venezuelano, o presidente norte-americano Donald Trump falou em coletiva de imprensa sobre o futuro do país sul-americano após os ataques. Trump afirmou que os EUA vão “administrar” a Venezuela de forma interina após ataques a pontos de Caracas e a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, que foram levados a Nova York em um navio de guerra norte-americano.

No pronunciamento, Trump disse que o país será governado temporariamente por um “grupo” a ser designado até uma transição de poder, sem detalhar prazos ou composição, e declarou: “nós vamos administrar o país até o momento em que pudermos, temos certeza de que haverá uma transição adequada, justa e legal. Queremos liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela”.

Além disso, Trump anunciou a entrada de petroleiras dos EUA na indústria venezuelana ao afirmar “vamos fazer o petróleo fluir” e sustentar: “nossas gigantescas companhias petrolíferas dos Estados Unidos, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país”.

Imagem de Maduro preso divulgado por Trump em redes sociais. Foto: Reprodução/ Rede Social Truth

Trump também invocou a Doutrina Monroe ao dizer que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, comentou que ainda avalia o futuro político do país e que a oposicionista María Corina Machado “não tem apoio interno nem respeito”, afirmando ainda que o secretário de Estado, Marco Rubio, dialoga com a vice-presidente Delcy Rodríguez, “que está disposta a fazer o que for preciso”.

Questionado sobre o Congresso, disse que a comunicação ocorreu após a operação para evitar vazamentos, e sobre Maduro afirmou que “será levado a Nova York em um futuro breve”, cabendo à Justiça definir onde ficará preso enquanto aguarda julgamento nos Estados Unidos.

*Esta matéria pode ter atualizações conforme o desenvolvimento do caso

Portal Amazônia responde: o que é grilagem de terras?

Grilagem de terras tem dizimado diversas áreas verdes na Amazônia. Foto: Marizila Cruppe/Greenpeace

A grilagem de terras é uma prática recorrente no Brasil e envolve a apropriação irregular de áreas públicas por particulares, utilizando mecanismos que buscam dar aparência de legalidade a ocupações ilegais.

O tema está diretamente ligado à organização fundiária do país, à destinação de terras públicas e ao uso de recursos naturais, especialmente em regiões com grande extensão territorial e histórico de conflitos agrários.

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De acordo com a legislação brasileira, existem situações em que a ocupação de uma terra pode gerar direito à propriedade. Isso ocorre quando uma pessoa ocupa de forma pacífica uma área pública sem destinação definida, conhecida como terra devoluta, e utiliza o espaço para produção. Nesses casos, a lei prevê a possibilidade de regularização fundiária. No entanto, esse entendimento não se aplica a áreas que já possuem destinação específica definida pelo poder público.

Em entrevista ao Portal Amazônia, a socioambientalista Muriel Saragoussi explica que é justamente nessa diferença que se estabelece a grilagem de terras.

“No Brasil, o que a legislação prevê é que uma pessoa que está ocupando uma terra de forma pacífica e que está utilizando a terra para produção pode ter direito à propriedade dessa terra se ela pertence à União, ao Estado ou se é uma terra devoluta, ou seja, que ainda não teve uma destinação definida”, explica.

Ela esclarece: “a grilagem de terras é quando uma pessoa se instala numa terra pública que tem destinação, por exemplo, terras indígenas ou unidades de conservação, e busca titular essa terra como se fosse uma terra devoluta, como se essa terra não tivesse destinação anteriormente definida”.

Para alcançar esse objetivo, a grilagem de terras envolve o uso de fraudes documentais. De acordo com a socioambientalista, uma das práticas mais conhecidas é a falsificação de documentos de propriedade. “Muitas vezes, os grileiros se utilizam de falcatruas para tentar justificar o pedido de titulação. Por exemplo, eles forjam documentos de titulação da terra, documentos antigos”, relata.

A origem do termo ‘grilagem de terras’ está ligada a esse tipo de fraude. “A palavra grilagem vem de pegar documentos que foram feitos recentemente e colocá-los numa gaveta com grilos e outros insetos, que vão dar uma aparência envelhecida ao documento”, explica Muriel que também foi secretária nacional de Coordenação de Políticas Públicas para a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo ela, “os grilos roem pedacinhos do papel, e a urina e os dejetos amarelecem o documento, dando a impressão de que ele é muito antigo, quando na verdade foi forjado há pouco tempo”.

Além desse método, a grilagem de terras também pode envolver fraudes em registros oficiais. “Outra prática é forjar documentos em livros de terra de cartórios, de forma fraudulenta”, afirma a socioambientalista e doutora em fisiologia vegetal. Essas ações buscam criar uma cadeia documental que sustente a falsa ideia de posse ou propriedade legítima.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é concessão florestal?

Muriel Saragoussi, que também foi diretora do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), resume a prática como uma apropriação indevida de bens públicos: “a grilagem é a ocupação de terras que são públicas e a apropriação dessas terras por pessoas que não têm direito a elas, nem por possuírem título, nem por terem uma ocupação antiga, e porque essas terras já têm outra destinação”.

Segundo ela, trata-se de uma transferência irregular do que é coletivo para o privado. “Isso é uma apropriação privada de um bem público, daquilo que é de todos”, destacou.

Consequências socioeconômicas da grilagem de terras

Imagem colorida mostra ação da PF em cartório para combate a grilagem de terras no Acre
Segundo Saragoussi, grileiros tem usado registros cartorários para surrupiar terras. Foto: Reprodução/PF AC

As consequências da grilagem de terras também geram impactos financeiros ao Estado. De acordo com Muriel, quando o poder público atua para retirar ocupantes ilegais dessas áreas, podem surgir disputas judiciais.

“Se depois o governo vai tirar esse ocupante ilegal da terra, ele pode querer uma indenização. Então, aquilo que é público, que foi tomado de forma ilegal, ainda pode gerar gasto de dinheiro público para pagar indenizações ao grileiro, se não houver denúncia e apuração correta”, explica Saragoussi

Outro ponto destacado pela socioambientalista é a exploração de recursos naturais em áreas griladas: “muitas vezes, nas terras griladas, os grileiros se apropriam dos recursos naturais, seja madeira, seja outros produtos do extrativismo, incluindo o subsolo, como mineração ou garimpagem”.

Essa exploração representa um prejuízo coletivo, segundo a especialista, pois os benefícios ficam concentrados em quem realizou a ocupação ilegal.

A grilagem de terras também se sustenta por meio da criação de cadeias dominiais artificiais. “Os grileiros buscam criar novas cadeias dominiais. Eles vendem essas terras a segundos, que vendem a terceiros, que vendem a outros, para que a pessoa que inicialmente grilou a terra fique perdida nesses papéis”, explica Muriel. Esse processo dá a impressão de legalidade e dificulta a identificação da origem ilegal da ocupação.

Imagem colorida mostra a socioambientalista Muriel Saragoussi sorrindo em uma apresentação com uma mapa da america do sul ao fundo
A sociambietalista Muriel Saragoussi. Foto: Caroline Rocha/Inpa

Além disso, mais recentemente, a grilagem de terras também passou a aparecer associada a novas atividades econômicas. “Essa história de crédito de carbono é uma coisa recente. Pessoas que dizem ser donas de áreas apresentam essas áreas como garantia para vender crédito de carbono e recebem dinheiro para manter a floresta em pé”, relata a socioambientalista.

No entanto, ela ressalta que esse não é o principal objetivo da prática. “O grande negócio da grilagem de terra não é o crédito de carbono, é a apropriação dos recursos naturais e depois a venda dessas terras”, conclui.