Estudo traça evolução de uma população indígena na Amazônia peruana ao longo de seis décadas

Projeto de pesquisa do Museu Goeldi e da Sociedade Zoológica de Frankfurt revela que o povo indígena Matsigenka vive mais, estuda mais e registra um crescimento populacional cada vez mais moderado no Parque Nacional Manu.

Foto: Glenn Shepard/MPEG

Um estudo liderado por pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém (PA), e da Frankfurt Zoological Society (FZS), organização internacional com atuação no Peru, reconstruiu seis décadas de história, saúde e transição demográfica de uma comunidade na Amazônia peruana.

Sociodemografia da população Matsiguenka que habita no Parque Nacional do Manu” retrata a mortalidade, o crescimento populacional e os padrões de assentamento e de migração desse povo, desde os primeiros contatos com grupos missioneiros, nos anos de 1960, passando pelo estabelecimento do Parque, em 1973, até as mudanças sociais motivadas pelos mercados globais, em anos mais recentes. 

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O primeiro estudo a analisar sistematicamente a evolução sociodemográfica dessas comunidades indígenas teve seus resultados divulgados no dia 2 de julho, pelo Serviço Nacional de Áreas Protegidas (Sernanp) do Peru e pela FZS. Eles constatam que o crescimento populacional está começando a desacelerar, marcando o início de uma transição demográfica pouco documentada na Amazônia peruana.

Os dados também apontam para mudanças nas condições de vida dessas populações. A taxa de mortalidade geral caiu 75%, em seis décadas, e a expectativa de vida ao nascer aumentou 30 anos, de 22,6 para 53,8 anos. 

Diferente do Brasil, a legislação ambiental peruana permite a permanência de populações indígenas em parques nacionais. Nesse contexto, a pesquisa considera que compreender a dinâmica demográfica, social e territorial da população Matsigenka é fundamental para fortalecer as estratégias de conservação, a gestão intercultural e o acesso aos serviços públicos nesse parque nacional de importância global.

A pesquisa também identificou um aumento na mobilidade populacional: 33% das pessoas nascidas nas comunidades do Manu migraram para fora da área protegida em anos recentes, principalmente por motivos educacionais e em busca de novas oportunidades. Atualmente, 51% da população tem menos de 20 anos, e mais de 30% dos jovens tiveram acesso ao ensino superior, desde 2018.

Leia também: Áreas de conservação regionais no Peru: o que são e como protegem a Amazônia?

Pesquisa contou com trabalho de pesquisadores indígenas nas atividades de campo. Foto: Glenn Shepard/MPEG

Pesquisas de longa data, colaboração indígena e tecnologias digitais

A investigação atualiza e consolida uma base de dados construída ao longo das últimas quatro décadas pelo antropólogo Glenn Shepard, pesquisador do Museu Goeldi. Ele realizou levantamentos de árvores genealógicas nessas comunidades em diferentes expedições a campo, entre 1987 e 2012. A partir de 2005, os dados foram sistematizados usando a plataforma digital Community Express, desenvolvida pelo antropólogo australiano John Burton, facilitando as análises demográficas.    

A colaboração com a FZS – uma organização não governamental que trabalha com conservação da biodiversidade e educação ambiental no Parque Manu – possibilitou a atualização desses dados em um trabalho de campo realizado nos anos de 2024 e 2025. A equipe de pesquisa foi liderada por Shepard e pelo antropólogo peruano Enrique Herrera, gerente de Educação Ambiental da FZS. A equipe incluiu a antropóloga Mayra Huamán, o demógrafo Bernardo Céspedes e os pesquisadores indígenas Amador Mambiro e Yaneli Cabrera.

O estudo incorporou métodos da demografia antropológica para documentar processos históricos que fazem parte da memória coletiva, como epidemias, evolução dos serviços de saúde e transformações nas dinâmicas familiares. O processo incluiu consolidar censos populacionais históricos, validação comunitária e o uso de ferramentas especializadas em demografia antropológica para analisar natalidade, mortalidade, migração e padrões de assentamento ao longo do tempo, nas comunidades indígenas de Yomibato, Tayakome, Sarigueminiki y Tsirerishi.

“Em agosto passado, a análise foi entregue à administração do Parque e aos órgãos locais responsáveis pelas áreas protegidas do Peru. Em fevereiro deste ano, voltamos às comunidades que participaram do estudo e apresentamos o relatório, mostrando o seu significado para entender o passado e projetar o futuro delas. As comunidades, então, autorizaram a divulgação dos dados preliminares”, contextualizou o pesquisador do Museu Goeldi.

A devolução dos resultados às comunidades gerou uma reação significativa. Segundo Glenn Shepard, as famílias compreenderam rapidamente o valor das informações apresentadas.

“Durante muitos anos, falava-se principalmente do número de pessoas que vivem nessas comunidades. Esse estudo, porém, permite entender também as mudanças na saúde, na mortalidade e nas trajetórias familiares ao longo do tempo. Ou seja, não apenas identifica a realidade demográfica contemporânea, como também ajuda a compreender como as pessoas viviam antes e como vivem hoje”, explica Shepard.

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O Parque Nacional do Manu é um Sítio de Patrimônio da Humanidade da Unesco e, segundo pesquisas científicas, é considerado a área protegida com a mais alta biodiversidade terrestre do mundo. A presença de populações indígenas dentro de uma área natural protegida na Amazônia é uma realidade pouco comum e representa um desafio de gestão. Por isso, os pesquisadores observam que compreender as dinâmicas demográficas – tamanho da população, migração, fecundidade, mortalidade e escolaridade – é fundamental para projetar o impacto dos modos de vida sobre os ecossistemas e planejar ações sustentáveis.

“Entender os padrões demográficos é crucial para a gestão do Parque Nacional do Manu. Este estudo oferece insumos fundamentais para aperfeiçoar o modelo de gestão e articular melhor a conservação com o bem-estar da população”, afirma Enrique Herrera, pesquisador e gerente de Educação Ambiental da FZS.

Glenn Shepard é recebido por mulher em comunidade, durante atividade de campo com a FZS, em 2024. Foto: Amador Mambiro/pesquisador indígena

Mulheres adiam maternidade

De acordo com o estudo, a população Matsigenka que vivia no Parque passou de 142 pessoas (em 1964) para 1.035 (em 2024), um aumento de 628%, ou seja, em seis décadas, a população se multiplicou quase oito vezes. No entanto, também foi observado uma desaceleração desse crescimento nos últimos anos. 

Shepard observa: “Há 30 anos, a mulher Matsigenka tinha 13, 14 filhos, em média, dos quais frequentemente morriam vários. Hoje, a natalidade baixou, as mulheres têm, em média, seis filhos, ou seja, a taxa de natalidade baixou em mais de 50%. Isso é um dado importante, porque as mulheres estão indo para a escola, estão estudando, em vez de começar a ter crianças com 14 ou 15 anos de idade. Agora, estão começando a ter filhos depois que terminam os estudos”.

Herrera também explica a mudança: “O declínio da natalidade ocorre ao mesmo tempo em que aumentam a escolaridade e a expectativa de vida, especialmente entre as mulheres. Estamos diante de uma transição demográfica que desmonta certas percepções sobre um crescimento descontrolado”.

Educação influencia migração

O estudo também mostra que a educação exerce um efeito migratório. “Com programas de educação, com concessão de bolsas, muitos alunos estão indo estudar no entorno do Parque e abrindo possibilidades de emprego fora das aldeias. Então, mais de 30% da população dessas quatro aldeias moram atualmente fora da área protegida – principalmente jovens entre 15 e 35 anos – e trabalham na economia local, em diferentes lugares e ocupações. São desde empregados domésticos ou professores, até trabalhadores em atividades ilegais como garimpo e madeireira. O fato é que há um movimento e uma grande migração. Indígenas isolados também estão saindo do isolamento para aproveitar a educação, a saúde e o projeto de água, o trabalho”, relata Shepard.

Em 2024, cerca de 40% dos estudantes do ensino secundário frequentavam uma das duas residências estudantis que funcionam no entorno do PNMNU. De modo geral, a oferta educacional insuficiente afeta sobretudo o acesso ao ensino médio: apenas 64 de cada 100 crianças conseguem cursar esse nível.

Ao mesmo tempo que há uma migração de jovens para fora da área protegida, procurando oportunidades econômicas e educativas, também existe um movimento da população de recente contato, de assentamentos isolados nas cabeceiras do Rio Manu, em direção às comunidades assentadas para aproveitar as oportunidades educativas, os serviços de saúde e sistemas de água potável. Na comunidade de Yomibato, por exemplo, cerca de um quarto da população são migrantes de recente contato das cabeceiras remotas. 

Rainforest Flow desenvolve projetos de saneamento em comunidades indígenas. Foto: Glenn Shepard/MPEG

Saúde: padrões históricos, avanços e novos alertas

Na década depois da criação do Parque Nacional do Manu, que ocorreu em 1973, a mortalidade infantil quase dobrou devido à remoção dos missionários evangélicos, que ofertavam serviços de saúde nas comunidades, e à falta de políticas públicas em saúde indígena para substituir os missionários.

Na década seguinte, houve uma alta taxa de fecundidade e natalidade entre as mulheres Matsigenka. Com a chegada cada vez mais marcante de serviços de saúde nas comunidades Matsigenka, a partir dos anos 80, e a chegada de programas de planejamento familiar nos anos 90, a mortalidade infantil começa a cair gradativamente, chegando próximo da média nacional peruana, no ano 2014. 

A chegada de um projeto de água potável e de saneamento, liderado pela ONG Rainforest Flow, para o qual o pesquisador Glenn Shepard colabora há mais de 20 anos, tem diminuído as taxas de mortalidade por doenças diarreicas em duas comunidades (Tayakome e Yomibato) que recebem esse benefício.

“Por meio da Rainforest Flow, trabalhamos, desde 2011, saneamento e purificação da água em duas aldeias indígenas, usando uma tecnologia muito simples construída com pedra e areia e manejada pelos próprios indígenas. Nessas duas comunidades, a mortalidade de crianças por diarreia baixou 74%. Nas outras duas comunidades que não têm essa mesma tecnologia, a mortalidade infantil por diarreia se manteve igual”, destaca o pesquisador do Museu Goeldi, acrescentando que o projeto recebeu destaque da imprensa do Peru

Apesar dos resultados apontarem para uma melhora da saúde nessas comunidades, o estudo também aponta sinais de alerta. Em 2024, a mortalidade infantil alcançou 139,1 por mil nascidos vivos, número significativamente superior à média nacional. Isso ocorreu, segundo Glenn Shepard, não mais em função de doenças de veiculação hídrica, mas por infecções respiratórias, a exemplo da covid-19 e das novas gripes, como a H1N1, que estão chegando às comunidades, especialmente entre a população de recente contato. Esses fatores explicam o incremento em 150% de mortes por infecções respiratórias agudas, entre 2014 e 2024.

Entender o passado para projetar o futuro

O estudo demográfico não serve somente para entender o passado. As projeções demográficas mostram que a população continuará crescendo, porém em um ritmo mais moderado do que nas décadas anteriores. Para os pesquisadores, o estudo produziu uma base sólida para planejar o futuro do território, integrando conservação, gestão pública e interculturalidade.

A pesquisa aponta, de forma mais precisa, os fatores que influenciam a mortalidade, a fim de orientar intervenções oportunas em saúde coordenadas pelas autoridades competentes. Também ressalta a necessidade de fortalecer outros serviços essenciais como a oferta de água potável, de saneamento, de educação, bem como o apoio tanto para jovens que migram para estudar, quanto para a população de recente contato que chegam nas comunidades com vulnerabilidade epidemiológica. 

“Agora contamos com dados que permitem identificar tendências e orientar melhor as respostas”, afirma Glenn Shepard. “Entender os padrões demográficos é crucial para a gestão do Parque Nacional do Manu. Esse estudo oferece insumos para articular melhor a conservação com o bem-estar da população”, conclui Herrera.

*Com informações do Museu Goeldi e FZS

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