Foto: Arquivo do Idaf
Em maio de 1991, o Jornal da Unesp estampava na capa a manchete: “Conheça a pupunha, palmeira que pode salvar o palmito da extinção”. Naquele período, a produção de palmito no Brasil era baseada, predominantemente, no extrativismo de duas espécies nativas: a juçara, característica da Mata Atlântica, e o açaizeiro, originário da Amazônia. A reportagem da jornalista Denise Pellegrini mostrava que a Unesp seguia um caminho diferente ao pesquisar o cultivo agrícola da pupunha (Bactris gasipaes), uma palmeira nativa da Amazônia peruana, como alternativa sustentável para a produção de palmito.
Décadas depois, o que se observa é que a pesquisa conduzida em parceria com colegas de diversas instituições brasileiras foi fundamental para reduzir a pressão sobre as populações de palmeiras nativas, contribuindo para a conservação das florestas brasileiras. Essa história começa no interior de São Paulo, com o engenheiro agrônomo José Roberto Moro, que na época era professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), no câmpus de Jaboticabal.
Perto de completar 40 anos, Moro decidiu que era hora de mudar de ares dentro da própria atuação acadêmica. Ele, que até então havia se dedicado à citogenética e ao melhoramento genético de milho, resolveu que seu novo ciclo deveria trazer mudanças – só não imaginava que a decisão não se restringiria à sua vida pessoal e reverberaria por todo o Brasil.
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“Em 1989, um peruano que trabalhava no INPA [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia], Wanders Chavez Flores, me ligou para conversar sobre um doutorado com palmito de pupunha. Ele veio de Manaus para cá e começamos a discutir o tema”, relata Moro. O professor nunca havia trabalhado com o palmito, mas conhecia a pupunha devido à época em que atuou como pesquisador na Embrapa, entre 1975 e 1979, e comia o fruto da palmeira durante as expedições de abertura da Rodovia Transamazônica (BR-230).
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Interessado na proposta, Moro resolveu consultar uma terceira pessoa: Marilene Leão Alves Bovi, pesquisadora científica do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Ambos tinham bom relacionamento e o docente da Unesp sabia que Bovi estudava o palmito. Ela inclusive já tinha um projeto em parceria com Wanders Flores e Moro convidou ambos para uma conversa em seu escritório com o intuito de alinhar uma nova proposta de pesquisa.

Comparando as palmeiras para produção do palmito
Apesar de as três espécies serem fornecedoras de palmito, a juçara, o açaizeiro e a pupunheira apresentam características biológicas próprias, e essas diferenças são importantes para o uso na produção agrícola. A juçara leva de oito a dez anos para amadurecer. Além disso, ele é uma planta de estipe único, ou seja, com um só tronco, que morre ao ter o palmito extraído. Quando a palmeira começou a desaparecer na Mata Atlântica, as fábricas de palmito se mudaram para a região norte para produzir palmito a partir do açaizeiro, palmeira nativa da Amazônia.
No norte do país, entretanto, a ação dos extrativistas também colocou o açaizeiro em risco de extinção. “Na Amazônia, as áreas naturais têm cerca de 250 palmeiras de açaí por hectare, com seis a oito estipes por palmeira. Nisso, ele consegue florescer, frutificar e o ciclo continua. Mas quando você faz um corte raso [derrubada total das palmeiras], brotam plantas no chão como uma relva”, explica Moro. “Como tem luz, todas crescem, e esse brotos evoluem para 800, 900 palmeiras por hectare, com 20 a 25 estipes por palmeira. Nesse volume, começa a faltar luz, a planta não floresce e deixa de produzir sementes, levando-a à extinção”.
Já o pupunha, notaram os pesquisadores, cresce mais rapidamente que as opções nativas, permitindo o primeiro corte em cerca de dois anos. Após essa poda, ele rebrota múltiplas estipes, permitindo colheitas sucessivas. Além disso, a planta peruana mostra boa adaptação a diversas regiões do Brasil.
Com base nessas informações e na conversa com Flores e Bovi, o cientista da Unesp percebeu o potencial do palmito pupunha em ser cultivado seguindo o sistema tradicional de agricultura. Era uma oportunidade única e eles decidiram elaborar um projeto de pesquisa. “Aí veio o problema. Eu participava de vários comitês na época do CNPq, Ministério da Ciência e Tecnologia, etc, e ninguém nunca tinha ouvido falar de palmito pupunha. Não adiantava fazer um projeto e submeter para financiamento porque ninguém sabia o que era pupunha”, conta Moro.
Surgiu então, em 1990, a ideia de realizar um evento na Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento (UPD) do IAC, em Ubatuba, mo litoral de São Paulo, onde já haviam palmeiras de pupunha plantadas. “Nós convidamos todas as agências de fomento: Fapesp, CNPq, Finep. Convidamos também os jornais, as equipes de televisão, políticos. Foi um evento com cerca de 40 pessoas”, relata o pesquisador da Unesp. O encontro, realizado em um domingo, teve início por volta das 9h30. Flores e Bovi fizeram uma breve apresentação sobre o tema, seguida por uma visita aos palmiteiros e depois almoço. “Chegamos no restaurante por volta das 11h e ficamos até umas 16h conversando e comendo pupunha de tudo quanto era jeito”, relembra o professor.
O sabor da conserva do palmito pupunha, no entanto, ainda não estava ideal para o consumidor. Era preciso melhorar o gosto do palmito para que ele pudesse competir com o açaí e a juçara. Quem ajudou a resolver o problema foi Margarida Kikuta Barbieri, que coordenava na época o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL). Ao todo, 35 pesquisadores da Unesp, IAC, INPA e ITAL, passaram a trabalhar com palmeiras de pupunha retiradas de Yurimaguas, na Amazônia peruana, para realizar o melhoramento genético da planta e introduzi-la no país.
Mas de nada valia ter o conhecimento sobre as vantagens da palmeira se isso não pudesse ser conhecido e reproduzido em outras partes do país. Nesse período, Moro viajou por todo o Brasil dando palestras sobre o cultivo e manejo do palmito pupunha em um esforço de popularizar a sua produção. “Em 2000, as pessoas já sabiam como produzir e como deixar o palmito com gosto palatável. Em 2010, metade do mercado de palmito do Brasil já era pupunha”, destaca.
Flores trabalhou, principalmente, no início do projeto, sendo desligado do INPA em 1991 e retornando ao Peru. Na época, o Brasil passava por um severo corte de verbas na ciência brasileira e pela falta de concursos públicos, o que dificultava a contratação e renovação de pesquisadores estrangeiros em institutos federais. Ele retornou ao Brasil no final dos anos 1990, atuando como pesquisador em Manaus, onde fixou residência. Flores faleceu em 2021 em decorrência de complicações provocadas pela covid-19.
Bovi trabalhava no IAC há 35 anos e deixou um grande legado na pesquisa científica. Ela faleceu em 2006, vítima da queda do voo 1907, da Gol, quando voltava de Manaus para o Rio de Janeiro, depois de participar de uma banca de defesa de tese de doutorado.
Importância ecológica da palmeira juçara
Enquanto Moro iniciava seus trabalhos com o palmito pupunha após duas décadas de carreira, o biólogo Mauro Galetti, professor do Instituto de Biociências da Unesp, no câmpus de Rio Claro, e coordenador de Disseminação do CBioClima, dava seus primeiros passos na vida acadêmica. Galetti se formou pela Unicamp em 1990, focando suas pesquisas iniciais na dieta de vertebrados frugívoros – animais que se alimentam primariamente de frutos.
Em 1992, Galetti viajou à Inglaterra para realizar seu doutorado na Universidade de Cambridge. O plano era trabalhar com primatas, mas um de seus colegas questionou o tema e disse que o pesquisador precisava ser mais ambicioso em sua tese. Ele resolveu então estudar as espécies chaves, que nada mais são do que plantas que alimentam a biodiversidade da floresta independente da época do ano, faça chuva ou faça Sol, sendo de extrema importância para todos os animais que habitam aquele espaço.
“Eu já tinha trabalhado muito tempo na Mata Atlântica e fiquei pensando: será que a palmeira juçara é uma espécie chave?”, conta Galetti. O cientista já havia observado diversos animais consumindo os frutos da planta, mas não existia comprovação científica da relevância da espécie. “Então, eu voltei para o Brasil para fazer a pesquisa de campo. Eu procurei lugares em que havia a palmeira juçara e outros em que ela havia sido cortada. Depois, eu comparei a abundância e diversidade de aves em áreas com a presença dessas palmeiras e em áreas sem a presença, e isso virou meu objeto de estudo”, relata.
Galetti confirmou sua hipótese. Segundo o pesquisador, mais de 50 espécies de aves dependem da espécie, cujos frutos são ricos em lipídios e sustentam esses animais, sobretudo no inverno. “O fruto da juçara oferece o dobro de energia quando comparado a qualquer outro fruto da Mata Atlântica”, relata. Por conta disso, o espécime vegetal deve ser preservado, pois leva mais de uma década para crescer e, como falado anteriormente, tem estipe única.
Naquela época, embora não estivesse envolvido nos projetos da Unesp, Galetti já percebia a movimentação para substituir a juçara pela pupunha e enxergava essa como a única resposta para resolver o problema do corte ilegal e salvar a biodiversidade da Mata Atlântica. “Estamos em uma universidade que sempre teve na prática esse papel de resolver problemas”, reflete o professor. Essa trajetória de pesquisa com a palmeira nativa está relatada em seu livro Um naturalista no Antropoceno: Um biólogo em busca do selvagem (Editora Unesp), que venceu o Prêmio Jabuti Acadêmico em 2024.
As pesquisas produzidas no câmpus de Jaboticabal e de Rio Claro ilustram como áreas distintas da ciência podem convergir para enfrentar um mesmo desafio ambiental. Enquanto a ecologia mostrou a importância da palmeira juçara para a manutenção da biodiversidade na Mata Atlântica, as ciências agronômicas desenvolveram uma alternativa econômica e ambientalmente viável para uma atividade extrativista que colocou em risco importantes espécies nativas. Hoje o pupunha é o principal representante da produção de palmito cultivado no país e a sua extração reduziu mais de 70% desde os anos 1990, segundo o IBGE.
*Por Carolina Fioratti/ da assessoria da Unesp
