Proposta coordenada por Robert Saraiva Matos recebe nota máxima no LNNano/CNPEM e será executada em 2026. Foto: Divulgação/Unifap
A Universidade Federal do Amapá (Unifap) teve uma proposta de pesquisa aprovada no Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Intitulado ‘Precursor-Driven Defect-Morphology Interplay in Eco-Friendly CeO2 Nanostructures‘, o projeto é coordenado pelo professor Robert Saraiva Matos e foi aceito para execução no período de junho a julho de 2026. Na avaliação final, a proposta recebeu nota máxima: 5.
A pesquisa investiga nanoestruturas de dióxido de cério (CeO₂), um material estratégico para aplicações industriais e ambientais. Em termos mais simples, a pesquisa busca compreender como a “química dos precursores” (ou seja, das substâncias usadas na etapa inicial da síntese) influencia a forma das nanopartículas, a presença de defeitos cristalinos e o estado químico do cério no material.
Esses fatores são decisivos porque controlam o desempenho catalítico e fotocatalítico do CeO₂, especialmente em processos ligados à degradação de poluentes.
A proposta prevê o uso de técnicas avançadas de microscopia eletrônica, como HRTEM, SAED, STEM-EDS e EELS, capazes de revelar detalhes em escala nanométrica e até atômica. Com isso, será possível confirmar a evolução morfológica das partículas, identificar defeitos como deslocações e falhas cristalinas, além de mapear variações locais na razão Ce4+/Ce3+, aspecto central para entender a reatividade do material.
Pesquisa sustentável
O objetivo final é construir um modelo que conecte estrutura, defeitos e função, estabelecendo bases para o desenvolvimento de catalisadores mais eficientes e sustentáveis.
“Essa aprovação no LNNano/CNPEM é muito importante porque permitirá investigar, em escala nanométrica e atômica, aspectos que não conseguimos observar com as técnicas convencionais já utilizadas no laboratório. Nosso foco é entender como a síntese ecológica do CeO₂ influencia sua estrutura interna e, consequentemente, seu desempenho em aplicações ambientais, especialmente na degradação de poluentes. É um passo relevante para consolidar pesquisas de alto nível na UNIFAP e ampliar a inserção da universidade em redes nacionais de infraestrutura científica avançada”, explica o professor.
Foto: Reprodução/LNnano
Resultados preliminares já indicam que pequenas mudanças nas condições de síntese podem produzir diferenças importantes no desempenho fotocatalítico. Entre as amostras analisadas no projeto, uma delas atingiu 97% de degradação de azul de metileno em 270 minutos, superando outras formulações estudadas. Isso reforça a relevância de investigar, com maior precisão, como vacâncias de oxigênio, deformações locais da rede cristalina e exposição de facetas específicas influenciam a eficiência do material.
No parecer final, o comitê de avaliação destacou que a proposta apresenta escopo claro, boa fundamentação científica, objetivos consistentes e alinhamento com o estado da arte. Também ressaltou que a abordagem integrada por microscopia eletrônica é promissora para elucidar a relação entre química do precursor, morfologia, defeitos cristalinos e funcionalidade catalítica, considerando o projeto cientificamente sólido e tecnicamente viável.
“Além do avanço científico, a aprovação representa uma oportunidade importante de fortalecimento da pesquisa em materiais na UNIFAP, ao viabilizar acesso a infraestrutura de alta complexidade e formação técnica em microscopia eletrônica avançada”, disse o pesquisador.
O projeto conta ainda com a colaboração do professor Nilson dos Santos Ferreira, da Universidade Federal de Sergipe.
O primeiro trimestre de 2026 fechou com queda de 17% no desmatamento da Amazônia. Conforme dados do instituto de pesquisa Imazon, a derrubada da floresta entre janeiro e março passou de 419 km² no ano passado para 348 km² neste ano, o que representa uma diferença de aproximadamente 7 mil campos de futebol.
Além disso, no acumulado do chamado “calendário do desmatamento”, período que por causa do regime de chuvas na Amazônia vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte, a redução na derrubada da floresta está ainda maior.
Nos oito primeiros meses do calendário, entre agosto de 2025 e março de 2026, o desmatamento caiu 36%, passando de 2.296 km² para 1.460 km², a menor área destruída no período dos últimos oito anos, desde 2017.
Apesar das quedas no trimestre e no calendário, o mês de março apresentou um aumento de 17% no desmatamento, passando de 167 km² em 2025 para 196 km² em 2026. Segundo a pesquisadora do Imazon Larissa Amorim, o dado exige atenção nos próximos meses. “Esse aumento pontual serve de alerta para que governos intensifiquem ainda mais suas ações de combate à derrubada ilegal, com fiscalização e punição aos responsáveis. Além disso, também é importante fortalecer iniciativas de bioeconomia e de geração de renda com a floresta em pé, além de destinar áreas ainda sem uso definido para a conservação”, destaca.
O pesquisador do Imazon Carlos Souza Jr. ainda destaca que a derrubada da floresta contribui diretamente para o agravamento das mudanças climáticas, seja pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa ou pela perda da biodiversidade. “Além disso, o desmatamento contribui para o agravamento das mudanças climáticas. Conter a derrubada da Amazônia é uma forma direta de reduzir esses impactos”, explica.
APA Triunfo do Xingu foi a unidade de conservação mais desmatada
No recorte do calendário do desmatamento, Mato Grosso, Roraima e Pará lideram a devastação florestal. Além disso, Roraima foi o único estado a registrar elevação nos números quando comparado com o período anterior, passando de 184 km² para 222 km², uma variação de 21%.
Estado
Agosto de 2024 a Março de 2025
Agosto de 2025 a Março de 2026
Variação (%)
Mato Grosso
433
270
-38%
Roraima
184
222
21%
Pará
892
425
-52%
Amazonas
335
219
-35%
Maranhão
60
56
-7%
Rondônia
94
69
-27%
Acre
282
193
-32%
Tocantins
9
3
-67%
Amapá
7
4
-43%
Já entre os dez municípios com maior área afetada, três estão no Acre,enquanto dois se localizam em Mato Grosso, dois no Pará, outros dois em Roraima e um no Amazonas.
Município
UF
Desmatamento entre agosto de 2025 a março de 2026 (km²)
Caracaraí
RR
84,09
Feijó
AC
43,49
Rorainópolis
RR
42,38
Colniza
MT
38,52
São Félix do Xingu
PA
37,29
Tarauacá
AC
32,28
Nova Ubiratã
MT
32,26
Rio Branco
AC
26,07
Portel
PA
23,28
Canutama
AM
22,79
No caso das Unidades de Conservação, a distribuição também evidencia concentração territorial: quatro estão situadas no Acre e outras quatro total ou parcialmente no Pará. O principal destaque é a Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, localizada em São Félix do Xingu, que ocupa a primeira posição no ranking e, sozinha, concentra uma área equivalente à perda de mais de três mil campos de futebol. A unidade responde por mais de 95% da área desmatada dentro do município, que aparece como o quinto mais desmatado da Amazônia no período, entre agosto de 2025 e março de 2026.
Segundo a pesquisadora do Imazon Manoela Athaide, a concentração em territórios específicos reforça a necessidade de ações direcionadas. “A dinâmica observada indica que é fundamental priorizar esforços nessas localidades mais pressionadas, com estratégias contínuas de fiscalização para conter o avanço da derrubada”, afirma.
Unidade de Conservação
UF
Desmatamento entre agosto de 2025 e março de 2026 (km²)
APA Triunfo do Xingu
PA
35,52
RESEX Chico Mendes
AC
12,61
FES do Rio Gregório
AC
4,48
RESEX Alto Juruá
AC
4,14
RESEX Guariba-Roosevelt
MT
4,03
RESEX Rio Preto-Jacundá
RO
3,57
FES do Paru
PA/AP
3,54
FES do Mogno
AC
3,12
APA das Reentrâncias Maranhenses
PA/MA
2,42
APA do Lago de Tucuruí
PA
2,23
Degradação florestal atinge menor nível em mais de uma década
A degradação florestal na Amazônia somou 11 km² em março de 2026, o que representa uma redução de 95% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O resultado também foi o menor já registrado para março nos últimos onze anos, desde 2014, indicando uma diminuição significativa desse tipo de impacto sobre a floresta.
Diferente do desmatamento, que corresponde à remoção total da cobertura vegetal, a degradação ocorre quando a floresta sofre danos parciais causados por fatores como queimadas e exploração madeireira. Mesmo sem a retirada completa da vegetação, essas alterações comprometem a integridade do ecossistema, reduzem a biodiversidade e aumentam a vulnerabilidade da área às mudanças climáticas e ao desmatamento.
Roraima concentrou 82% de toda a área degradada registrada em março de 2026, liderando esse tipo de ocorrência no período. Esse resultado pode estar associado às particularidades climáticas do estado: enquanto o início do ano costuma ser mais chuvoso em grande parte da região, em Roraima predomina uma estação mais seca, o que favorece o avanço de atividades que causam danos à floresta.
Essa redução acompanha também o calendário do desmatamento, onde caiu 93% quando comparada com o ciclo anterior. “A queda nos índices de degradação representa um sinal relevante de melhora, mas ocorre após um período crítico: de agosto de 2024 a julho de 2025 registramos o maior nível já observado na série histórica. Esse cenário reforça a necessidade de vigilância contínua para evitar que picos como esse voltem a se repetir e comprometam ainda mais a integridade da floresta”, observa Raissa Ferreira, pesquisadora do Imazon.
Cliqueaquipara ver os dados de março de 2026 Cliqueaquipara ver todos os boletins de desmatamento e degradação
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon
A Universidade Federal do Pará (UFPA) realizará, no dia 7 de maio, a sessão solene de outorga do título de Doutora Honoris Causa à atriz, diretora e apresentadora paraense Dira Paes. A cerimônia é aberta à comunidade acadêmica e público em geral e ocorrerá a partir das 10h, no Centro de Eventos Benedito Nunes (CEBN), com transmissão ao vivo pelo canal da UFPA no YouTube.
A concessão da honraria foi aprovada de forma unânime pelo Conselho Universitário (Consun), instância máxima deliberativa da UFPA.
Na proposta encaminhada pelo curso de Cinema e Audiovisual, da Faculdade de Artes Visuais (FAV), evidencia-se a relevância da trajetória da atriz nos âmbitos artístico e cultural, reconhecendo Dira Paes como agente comprometida com diversas questões que permeiam a contemporaneidade.
A artista construiu, ao longo de mais de quatro décadas, uma carreira de projeção nacional e internacional, com atuação no cinema, televisão e teatro.
Abaetetubense, Dira Paes é destaque por sua contribuição à valorização das identidades amazônicas e por sua atuação em defesa das populações tradicionais, da proteção ambiental e dos direitos humanos. Além disso, a presença da atriz em produções audiovisuais brasileiras tem contribuído para ampliar as representações da Amazônia, sobretudo ao quebrar os estereótipos relacionados à região.
A outorga do título também simboliza um marco na história da UFPA, ao reconhecer, pela primeira vez, uma profissional das artes cênicas com essa distinção. Tal legitimação reafirma o papel das artes como campo fundamental para a produção de saberes e reforça que, para além dos espaços acadêmicos formais, o conhecimento também se constrói a partir de múltiplas experiências, linguagens e práticas sociais.
O título de Doutor Honoris Causa constitui a mais alta distinção concedida pela Universidade Federal do Pará a personalidades que tenham se destacado por sua contribuição relevante à sociedade, à ciência, à cultura ou às artes. Prevista no Estatuto e outorgada pelo Consun, a honraria reconhece trajetórias que, mesmo fora do âmbito acadêmico tradicional, produzem impactos significativos na produção de conhecimentos.
Na UFPA, a concessão do título remonta à década de 1960 e é atribuída a partir de criterioso processo de análise institucional, que envolve proposição de unidades acadêmicas, apreciação técnica e deliberação final nas instâncias superiores.
Iniciativa para reflorestamento faz parte do projeto ‘Floresta Olímpica do Brasil’ promovido pela COB e executado pelo Instituto Mamirauá.Foto: Tácio Melo
A técnica de reflorestamento conhecida como “muvuca de sementes” vem sendo aplicada pelo Instituto Mamirauá junto a ribeirinhos, em parceria com o Comitê Olímpico do Brasil (COB), no Amazonas. A equipe técnica afirma que o método tem se mostrado mais eficiente do que o plantio convencional por mudas neste projeto. A técnica consiste na mistura de diferentes espécies de sementes, lançadas diretamente no solo para promover a regeneração da floresta.
A iniciativa ocorre em áreas degradadas da Comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, localizada na Floresta Nacional de Tefé (Flona), a cerca de 30 quilômetros do município de Tefé. O projeto, que integra ações de restauração ambiental junto a populações tradicionais, deve seguir até 2030 com 6,3 hectares restaurados.
A gerente de Cultura e Valores Olímpicos do COB, Carolina Araújo, destaca a importância da iniciativa e da parceria: “Nestes dois anos, a Floresta Olímpica do Brasil vem amadurecendo como projeto de restauração e fortalecimento comunitário. Com o apoio técnico do Instituto Mamirauá, encontramos soluções adaptadas à Amazônia que unem ciência e tradição, provando que o esporte também pode inspirar sustentabilidade e impacto social”.
A ação, além de contar com a participação direta dos moradores da comunidade junto ao Instituto Mamirauá, recebe visitas anuais do COB. Em 2025, os comunitários receberam treinamentos para a aplicação da técnica e deram início ao processo.
Desde janeiro de 2026, cerca de 256 kg de sementes foram plantadas em 4 hectares de áreas degradadas da comunidade. Entre elas, estão espécies de crescimento rápido, como feijão de porco, feijão guandu, gergelim, crotalária, fedegoso e abóbora, que ajudam na cobertura do solo e na recuperação inicial da área.
Também fazem parte da mistura espécies intermediárias, como embaúba, caju, urucum, maracujá, murici e pente de macaco, responsáveis por dar estrutura à vegetação, além de árvores de longo prazo, como jatobá, ipê amarelo, açaí, angelim, bacuri e buriti, entre outras espécies frutíferas.
Segundo o analista de pesquisa e coordenador operacional da iniciativa, Jean Quadros, a muvuca de sementes se destaca por sua adaptação às condições da Amazônia.
“Para a realidade local, essa técnica é muito mais eficiente do que o plantio de mudas, pois o ambiente já oferece condições favoráveis à germinação. Com manejo adequado, as sementes se desenvolvem naturalmente”, explica.
A aplicação da técnica também se dá por fatores geográficos e econômicos. “As sementes são muito mais fáceis de transportar, ocupam menos volume do que as mudas e praticamente não sofrem perdas durante o transporte. Além disso, a técnica é de fácil aplicação, não exige grande quantidade de mão de obra nem o uso de muitos materiais, o que a torna especialmente adequada à realidade da região”, afirma.
Restauração que gera alimento e renda
Para os comunitários envolvidos, a iniciativa aponta para um futuro mais sustentável. A expectativa é que, com o desenvolvimento das sementes plantadas, muitas delas de espécies frutíferas, as áreas restauradas passem a gerar alimentos, oportunidades e renda para a comunidade.
Com o domínio da técnica os moradores também poderão replicar o método em outras áreas degradadas, ampliando os impactos da restauração no território.
Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá
“Me sinto honrado em participar diretamente desse projeto. A gente aprende a trabalhar de uma forma diferente com a natureza, sem precisar destruir para tirar o sustento. Hoje sabemos que é possível plantar, conservar a floresta em pé e ainda garantir renda para a nossa comunidade”, afirma Silas Rodrigues, comunitário envolvido na iniciativa.
Além de recuperar áreas degradadas, a iniciativa fortalece o cultivo de espécies adaptadas ao ambiente amazônico, amplia a diversidade florestal e valoriza o protagonismo das comunidades, integrando restauração ambiental, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável.
Entenda como funciona a técnica “muvuca de sementes”
O termo “muvuca” tem origem africana e remete à ideia de mistura. A prática de semear diferentes espécies ao mesmo tempo, no entanto, tem raízes em conhecimentos tradicionais de povos indígenas, que utilizavam o método para garantir a própria subsistência.
A aplicação da muvuca de sementes começa com a preparação do solo, especialmente em áreas degradadas como antigos roçados. A vegetação existente é manejada e mantida como cobertura, ajudando a conservar a umidade e enriquecer o solo. Em seguida, a terra é revolvida para melhorar sua estrutura e fertilidade.
Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá
Com o terreno pronto, a mistura de sementes nativas é distribuída e levemente coberta. Cada espécie germina no seu próprio tempo, em um processo que reproduz a dinâmica natural da floresta.
Em comparação ao plantio por mudas, a técnica reduz custos, simplifica a logística e exige menos mão de obra. Além disso, as plantas tendem a desenvolver raízes mais profundas, tornando-se mais resistentes.
O resultado é uma recuperação mais eficiente, com formação de florestas diversas, resilientes e adaptadas às condições amazônicas.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Tácio Melo
Joaquim Teotônio Segurado. Foto: Reprodução/Academia Tocantinense de Letras
Um português teve participação na separação do norte de Goiás, atual estado do Tocantins: Joaquim Teotônio Segurado, que formou-se em Leis e nasceu em Moura, província do Baixo Alentejo, no sul de Portugal, no ano de 1775.
Filho de José Gomes Segurado e de Anna Maria das Dores, naturais de Moura e Serpa, sul de Portugal, o Magistrado, em vida, foi nomeado em inúmeras titulações, tais como:
Juiz de Fora de Melgaço (Portugal) 1799);
Ouvidor Geral da Capitania de Goiás – 1803;
Desembargador da Relação do Rio de Janeiro- 1804;
Desembargador da Relação da Bahia (1808);
Primeiro ouvidor geral da recém-criada Comarca de São João das Duas Barras (1809);
Deputado junto às Cortes Portuguesas, pela Província de Goiás (1821) e pela província de São João da Palma (1821);
Desembargador da Relação do Porto (1824);
Desembargador da Casa de Suplicação do Reino (1826).
Desde que assumiu o cargo de ouvidor de Goiás e apresentou as ‘Memórias para melhoria da capitania de Goiás (1809)’, Theotônio se instalou no norte da capitania e ocupou um espaço de poder que ia além do campo de atuação de um magistrado. E desde então, Joaquim criou vínculo com o atual estado tocantinense.
Foi encarregado pelo Governador de Goiás daquele período, Francisco de Assis Mascarenhas, de estabelecer medidas para melhorar a capitania, por meio da agropecuária e do comércio local. Também ficou na responsabilidade de promover a navegação do rio Tocantins, criar uma rota de correio que diminuísse distâncias e ligasse com o norte ao centro-sul da capitania e estabelecer o povoamento do norte e interligá-la comercialmente ao Pará.
Segundo a historiadora Kátia Maia Flores, o magistrado morreu em 1831, foi assassinado na fazenda Albano, na província de Goiás, de onde não saiu desde que retornou de Portugal, em 1823.
A então conhecida Avenida Teotônio Segurado vista da praça dos Girassóis. Foto: Saulocostathe / Wikipédia
Movimento separatista do norte de Goiás e a liderança de Teotônio
De acordo com Kátia Maia, o protagonismo de Teotônio foi a sua liderança nos movimentos separatistas de 1821, iniciado com sua eleição como deputado para representar Goiás nas cortes portuguesas.
“Foi quando, aproveitando-se do momento, das indefinições e das possibilidades surgidas com a convocação às cortes, Teotônio Segurado encontrou, no Norte, o terreno e os aliados oportunos para promover a autonomia do norte do governo de Goiás. O movimento pela autonomia do norte goiano, junto com a falta de unidade nacional e de diferentes interesses da província em jogo na época da independência e conduzido por um magistrado português aumentavam as possibilidades acenadas com as transformações que ocorriam do outro lado do atlântico após a Revolução do Porto”, explicou a pesquisadora.
O movimento foi um fracasso, já que a Corte Portuguesa não aceitou a separação do norte e a força militar designada por Goiás para combater os cidadãos que buscavam independência e restaurar a unidade da província, foram o suficiente para diminuir as expectativas do Desembargador e para alimentar um ressentimento na sociedade da época contra a atuação do magistrado português.
Essa revolta dos cidadãos contra Joaquim faz parte da história nacionalista construída a partir do século XIX que fez com que a imagem de Joaquim fosse obscura sobre ele mesmo e sobre o movimento separatista do norte goiano.
Para a historiadora Kátia, é importante relembrar o homem, o magistrado, a construção de seus campos de poder tanto em Portugal como no Brasil, pois mesmo do norte de Goiás continuava suas atividades como magistrado.
Aquarela feita pela historiadora Katia Maia. Foto: Kátia Maia/Acervo pessoal
“Foram essas as motivações que nos animaram em toda a trajetória de buscar compreender, nos fragmentos da documentação, não o mito ou o herói, mas um homem munido de motivações, interesses e senso de oportunidade – o homem que escolheu viver no Brasil, construir família e patrimônio e, sobretudo, buscar protagonismo em suas causas”, afirmou Kátia ao Portal Amazônia.
Teotônio Segurado seguiu para Lisboa, em 1822, depois de liderar o primeiro grande movimento de emancipação do norte goiano, após sua eleição como deputado para as cortes de Lisboa. Depois de sua ida, conseguiu manter os ânimos dos participantes do movimento e promoveu uma auditoria entre todos os envolvidos. Com isso, parte de seus aliados abandonaram a movimentação separatista.
A pesquisa sobre a vida de Joaquim Teotônio
Na história, há um duelo de pensamentos sobre Segurado. Ora é o vilão – português, perseguidor de indídenas e traidor do Brasil; ora é o tocantinense de coração – líder na criação da província de São João da Palma (atual Tocantins).
“As argumentações do magistrado em seu favor, no sentido de obter todas as promoções que promoveu até chegar à Casa de Suplicação do Reino, instância máxima da instituição da justiça portuguesa. São algumas das inquietações que nos moveram nessa caminhada”, contou a pesquisadora.
Kátia é autora do artigo ‘O Magistrado Português Joaquim Teotônio Segurado e a criação da província de São João das Duas Barras no contexto da Independência do Brasil’. A historiadora explica que foi pesquisar os arquivos que reúnem a documentação do aparato judicial do antigo regime, ainda pouco explorada pela historiografia, buscando as diversas representações feitas pelo Magistrado na administração de sua carreira.
Ela decidiu escolher o caminho de sua pesquisa, partindo da biografia dele:
“A história é feita de esquecimentos e apagamentos.Preferi falar do adolescente, filho de um homem determinado, filho da nobreza portuguesa, que traçou o caminho que seu filho deveria seguir. Teotônio Segurado utilizou-se de todas as suas habilidades e poder de persuasão para fincar suas raízes no Norte da capitania de Goiás. Sua carreira foi marcada por seu brilhantismo pessoal e por uma série de favores reais obtidos em Portugal e no Brasil, a partir de uma série de suplicações à corte, partindo diretamente de Teotônio Segurado como de seus procuradores. Nessa arte da persuasão ele era especialista”.
Foram essas habilidades, entre outras, que marcaram a carreira jurídica e política do ouvidor Joaquim Teotônio Segurado, desde sua chegada à Capitania de Goiás em 1804, quando de seus investimentos no cargo à 1823, quando retornou de Lisboa e tenta desaparecer da vida pública. Porém, consegue, mesmo à distância, progredir na carreira e alcançar o cargo mais alto para um magistrado, à Casa de Suplicação do Reino.
O mais curioso, é que Joaquim Teotônio Segurado, derrotado em Lisboa, retorna ao Brasil, especificamente à Palma. “É de Palma que empreende todos os seus esforços para restabelecer os vínculos de sua carreira em Lisboa. Palmas torna-se o seu lugar de poder. O seu lugar! O português tornou-se tocantinense”, finalizou a pesquisadora.
Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Dia do ferroviário é celebrado em 30 de abril. Foto: Leandro Moraes
Poucos lugares sintetizam com tanta força a origem de Porto Velho (RO) quanto o Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). Para além do conjunto de estruturas históricas, o espaço carrega marcas profundas de um ciclo econômico, de fluxos migratórios e de histórias de vida que ajudaram a moldar a identidade da região Norte do país.
Lord Jesus Brown é um desses personagens. Filho de ferroviário, ele construiu sua trajetória dentro da ferrovia e se tornou, ao longo das décadas, uma espécie de guardião informal de sua história. Sua relação com o local atravessa gerações e se mistura com a própria formação social da cidade.
“Meu pai chegou aqui para trabalhar na construção da ferrovia. A nossa história está toda ligada a esse lugar. Eu tenho muito orgulho disso e sempre lutei para que essa memória não se perdesse”, afirma.
A voz de quem manteve viva a história da Madeira-Mamoré. Foto: João Alves
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída entre 1907 e 1912, foi um empreendimento marcado por desafios extremos e pela presença de trabalhadores de diversas nacionalidades.
A obra, considerada estratégica à época, consolidou rotas comerciais, impulsionou o ciclo da borracha e contribuiu diretamente para o surgimento de Porto Velho e de outras localidades ao longo dos rios Madeira e Mamoré.
Décadas depois, já em funcionamento regular, a ferrovia seguia como eixo logístico e econômico da região. Brown relembra uma rotina intensa, marcada por disciplina e esforço físico.
“A gente acordava de madrugada para preparar a locomotiva. Era preciso deixar tudo pronto cedo, organizar os vagões e seguir viagem. O trajeto até Guajará-Mirim era longo, com muitas paradas. Levávamos borracha, castanha, gado e outras mercadorias. Era um trabalho pesado, mas era o que movimentava tudo aqui”, relata.
As viagens podiam durar mais de um dia, atravessando comunidades, áreas de mata e pontos de apoio ao longo do percurso. Mais do que transportar cargas, a ferrovia conectava pessoas, histórias e culturas em um fluxo contínuo pela região.
Abandono e resistência
Com o encerramento das atividades ferroviárias, em 1992, o complexo entrou em um período de abandono. Estruturas foram deterioradas pela ação do tempo e pela falta de manutenção. “Isso aqui ficou jogado. Não tinha iluminação, não tinha cuidado. Eu vi esse lugar se acabar aos poucos. Achei que essa história ia morrer”, relembra.
Mesmo diante desse cenário, Brown permaneceu ligado ao espaço, movido por um sentimento de pertencimento. “Minha vida sempre foi aqui. Eu não podia simplesmente deixar isso para trás”, diz.
A voz de quem manteve viva a história da Madeira-Mamoré. Foto: João Alves
Nos últimos anos, o processo de revitalização trouxe um novo momento para o Complexo Madeira-Mamoré, que passou a receber eventos, atividades culturais e visitantes.
Brown destaca a importância da gestão atual e faz um reconhecimento direto ao trabalho realizado. “Eu quero agradecer o grupo Amazon Fort que pegou isso aqui. Hoje tá um brinco. Não é fácil manter um lugar desse tamanho, mas o pessoal vem fazendo esse trabalho e isso faz toda a diferença”, afirma.
A permanência dessa história, no entanto, não depende apenas dos trilhos preservados ou das estruturas restauradas. Ela se sustenta, sobretudo, no reconhecimento coletivo de seu valor. É quando a população se apropria desse passado, visita, respeita, compartilha e se reconhece nele, que o legado da Madeira-Mamoré e dos ferroviários deixa de ser apenas memória e passa a ser identidade viva.
Bioeconomy Amazon Summit acontece no Completo Porto Futuro II, em Belém. Foto: Raphael Luz/Agência Pará
Belém, capital do Pará, recebe a 3ª edição do Bioeconomy Amazon Summitnos dias 12, 13 e 14 de maio de 2026, um evento que reúne representantes de diversos setores para discutir e apresentar soluções baseadas na bioeconomia na Amazônia, além de integrar a agenda de inovação e sustentabilidade da região norte.
Criado em 2023, o Bioeconomy Amazon Summit chega a sua 3ª edição com a proposta de promover um encontro voltado ao fortalecimento do ecossistema de bioeconomia, conceito que envolve o uso sustentável da biodiversidade para geração de renda, desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
O evento busca reunir diferentes atores — como empreendedores, investidores, pesquisadores, empresas, governos e comunidades tradicionais — em um ambiente de troca de experiências, construção de parcerias e geração de negócios.
Um dos principais objetivos é estimular modelos econômicos que valorizem a floresta em pé, promovendo o uso responsável dos recursos naturais. O evento busca ampliar a visibilidade de iniciativas que transformam produtos da biodiversidade em soluções de mercado, ao mesmo tempo em que incentivam a inclusão social e o desenvolvimento regional.
Evento propõe integração entre conhecimento, mercado e território
Segunda edição do Bioeconomy Amazon Summit aconteceu em Manaus no ano de 2025. Foto: Divulgação/Bioeconomy Amazon Summit
O Bioeconomy Amazon Summit foi concebido como um espaço de articulação entre diferentes formas de conhecimento e setores estratégicos. A proposta é aproximar a produção científica, os saberes tradicionais e os agentes do mercado, incluindo investidores e tomadores de decisão, em torno de soluções voltadas ao uso sustentável da biodiversidade.
A programação prioriza iniciativas que buscam conciliar geração de renda, inovação e conservação ambiental, com foco em soluções aplicáveis à realidade amazônica.
Além das atividades em auditórios, o evento inclui ações de imersão em campo, permitindo que participantes conheçam projetos desenvolvidos na região. Essas experiências aproximam investidores e empreendedores, com o objetivo de estimular parcerias e ampliar oportunidades de negócios.
Com a participação de dezenas de instituições na construção da programação, o evento reúne diferentes perspectivas para discutir caminhos voltados à inovação e sustentabilidade na região. A iniciativa se consolida como um espaço de articulação entre setores, com foco na promoção de soluções baseadas na bioeconomia e na valorização da biodiversidade amazônica.
Onde o Bioeconomy Amazon Summit acontece
O Bioeconomy Amazon Summit 2026 será realizado no Parque da Bioeconomia e Inovação da Amazônia, espaço localizado dentro do Complexo Porto Futuro II, em Belém, localizado na Avenida Marechal Hermes, no bairro Reduto. O local integra um novo polo tecnológico e produtivo da capital paraense, voltado ao desenvolvimento de iniciativas sustentáveis e inovadoras.
Criado pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil e pela KPTL, o evento se destaca por ocorrer nesse ambiente estruturado para conectar pesquisa, inovação e negócios. Segundo a organização, a escolha do espaço está alinhada à proposta do summit de reunir diferentes setores em um mesmo ambiente, favorecendo a articulação entre ciência, mercado e desenvolvimento regional.
Além da estrutura principal, o evento também prevê atividades complementares, como experiências de imersão em campo, que permitem aos participantes conhecer projetos de bioeconomia em funcionamento na Amazônia, incluindo iniciativas de restauração ecológica e produção sustentável. Confira AQUI.
SUS na floresta busca melhorar oferta de atendimentos. Foto: Lucas Bonny/FAS
Na ponta de um rio distante mais de 1.200 quilômetros de Manaus (AM), quase divisa com o Acre, uma construção recém-erguida à beira d’água está prestes a se tornar um dos endereços mais importantes da região. Localizado na comunidade do Ubim, no município de Eirunepé, o Ponto de Atendimento à Saúde “José Rodrigues” foi inaugurado no dia 8 de abril, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Gregório, e deve se tornar referência local em Atenção Primária à Saúde para mais de 30 comunidades ribeirinhas, beneficiando mais de 990 pessoas, sendo 59 moradores do Ubim e cerca de 930 habitantes de outras comunidades da Resex. Os atendimentos começaram no dia da inauguração.
A iniciativa integra o Programa Juntos Contra a Pobreza e projeto SUS na Floresta, desenvolvido pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), e foi financiada pela Vale e pelo BNDES, sob gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), em parceria com a Prefeitura de Eirunepé, a Secretaria Municipal de Saúde e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
A estrutura foi concebida como uma solução adaptada à realidade local, com foco no apoio às equipes de saúde, na realização de atendimentos presenciais e no uso da telessaúde, atuando de forma complementar e integrada à rede formal do SUS. O investimento total para implantação da infraestrutura de apoio à saúde e suporte às ações de telessaúde foi de R$ 2 milhões.
Barreira logística
Na Resex Rio Gregório, a primeira barreira está no mapa. Para chegar à sede municipal de Eirunepé, os moradores dependem exclusivamente do transporte fluvial. Saindo da comunidade do Ubim, o trajeto até a cidade pode levar em média 8 horas em lancha com motor potente, em condições normais de cheia.
Nas embarcações regionais usadas pela maior parte da população, a viagem pode durar até três dias, tempo que aumenta em períodos de estiagem severa, quando bancos de areia, troncos e trechos rasos tornam a navegação mais lenta, imprevisível e, em alguns casos, impossível.
O caminho até o posto de saúde também pesa no bolso. O custo do deslocamento, somado às despesas com alimentação e eventual pernoite na cidade, representa um gasto elevado para famílias cuja renda vem, sobretudo, da mandioca, pesca, coleta de produtos florestais e programas específicos da região. Na prática, consultas e exames considerados “não urgentes” vão sendo adiados até o limite.
“Antes, o atendimento era muito difícil, porque a gente não tinha meio de transporte para a cidade, e eram raras as pessoas que iam. Então, fazíamos o que estava ao nosso alcance: usávamos um remédio caseiro ou pedíamos ajuda ao vizinho. Quando falaram que ia ter esse ponto, a comunidade se preparou para abraçar essa oportunidade, não só para nós, mas para toda a RESEX”, afirma Dionilson Mota, morador da Comunidade Ubim, localizada na RESEX do Rio Gregório.
Retrato da saúde às margens do rio
Hoje, o cuidado em saúde na Resex Rio Gregório depende principalmente de equipes itinerantes da Secretaria Municipal de Saúde de Eirunepé, com destaque para a Unidade Básica de Saúde Fluvial que navega periodicamente pela região. Embora essenciais, essas ações costumam ocorrer, em média, apenas uma vez a cada quatro meses, o que dificulta o acompanhamento contínuo.
Pelo Acompanhamento Familiar Multidimensional, metodologia do programa Juntos Contra a Pobreza, a FAS identificou três privações críticas:
Pré-natal: início tardio e número insuficiente de consultas, com aproximadamente 40% das gestantes fazendo o acompanhamento considerado adequado. Barreiras geográficas, limitações de transporte e a sazonalidade dos rios dificultam o acesso oportuno ao serviço, comprometendo a identificação precoce de riscos na gestação.
Saúde da criança: acompanhamento irregular do crescimento e desenvolvimento, sobretudo na primeira infância, fase em que consultas de rotina e vacinas em dia são decisivas para prevenir agravos.
Doenças crônicas: presença de casos de hipertensão, com cerca de 29 pessoas diagnosticadas nas comunidades, enfrentando dificuldades para controle contínuo e acesso regular a medicamentos.
“Desde 2020, acompanhamos todo o processo e as dificuldades do enfrentamento à Covid-19 no território. Diante disso, decidimos que, entre as áreas em que a FAS atua, seria importante contar com pontos que apoiassem um atendimento digno e adequado para a população. A RESEX do Rio Gregório foi uma das primeiras áreas escolhidas, e a FAS conseguiu inaugurar este ponto de atendimento, junto com os parceiros, com uma carteira de serviços que irá atender às necessidades da população”, destaca Mickela Souza, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS.
Infraestrutura para atendimento presencial e remoto
O Ponto de Atendimento à Saúde foi concebido como um polo de telessaúde e Atenção Primária à Saúde ajustado às especificidades da Amazônia. A unidade conta com um consultório multiprofissional, preparado tanto para consultas presenciais quanto para teleatendimentos. Inclui dispensação de medicamentos da farmácia básica, sala de triagem para cadastro, escuta qualificada, classificação de risco e organização do fluxo de atendimento.
Além disso, há uma antessala para espera e circulação de usuários, um consultório odontológico equipado para serviços básicos e pequenos procedimentos cirúrgicos, um dormitório com banheiro para acomodação de profissionais de saúde durante as missões e um banheiro externo destinado ao público atendido.
Em termos de infraestrutura tecnológica, a unidade dispõe de conexão à internet e equipamentos específicos para telemedicina, permitindo a realização de teleconsultas e teleconsultorias com especialistas. A conexão viabiliza, por exemplo, que profissionais baseados na sede municipal de Eirunepé apoiem, à distância, o atendimento às comunidades, ampliando a capacidade de resolução no próprio território.
Foto: Reprodução/MS
Funcionamento contínuo: presença local, missões e telessaúde
O modelo de funcionamento combinará presença permanente, missões periódicas e uso intensivo de telessaúde. Uma técnica de enfermagem ficará alocada de forma contínua na comunidade do Ubim, apoiada por Agentes Comunitários de Saúde que cobrem as comunidades da área de abrangência da Resex. Caberá a essa equipe local manter o acompanhamento de rotina, realizar procedimentos básicos, monitorar condições crônicas e articular os atendimentos remotos.
As equipes de médico, enfermeiro e cirurgião-dentista atuarão em missões periódicas, com permanência de aproximadamente 15 dias a cada dois meses, em cronograma integrado com a Secretaria Municipal de Saúde. Entre uma missão e outra, a telessaúde deve assegurar o seguimento de casos, discussão de condutas e realização de consultas à distância.
Impacto esperado
No curto prazo, a expectativa é ampliar significativamente o acesso à Atenção Primária à Saúde nas comunidades da Resex Rio Gregório, reduzindo a necessidade de longas viagens e garantindo maior continuidade ao cuidado, em especial para gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas.
Impactos mais estruturais, como alterações no perfil epidemiológico ou redução consistente de determinadas doenças, exigirão um horizonte maior de observação e deverá ser acompanhado pela FAS em articulação com o poder público, para avaliar efeitos de médio e longo prazo, após a conclusão do atual projeto, em agosto.
Outras frentes de atuação estão em desenvolvimento no mesmo território, visando apoiar a retirada de pessoas da extrema pobreza, compromisso da Vale que pretende chegar a 500 mil pessoas atendidas. Ações de melhoria da educação, de geração de renda por meio da sociobioeconomia, saneamento, segurança alimentar e acesso a políticas públicas sociais são complementares às ações de saúde.
Juntos Contra a Pobreza: resposta integrada aos desafios da pobreza extrema
O Juntos Contra a Pobreza é um programa articulado pela Vale que busca apoiar a saída de 500 mil pessoas da situação de extrema pobreza numa abordagem multidimensional. Desenvolveu a metodologia do Acompanhamento Familiar Multidimensional e realiza o monitoramento dos resultados a partir de um Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) criado especificamente para o programa e validado pela Universidade de Oxford.
O objetivo é identificar privações em 5 dimensões – renda, educação, saúde, nutrição e infraestrutura – e apoiar as famílias em seus planos para superação, a partir das políticas públicas e programas sociais disponíveis em cada território. Atualmente, mais de 60 mil pessoas participam do Juntos Contra a Pobreza, em diferentes contextos – urbanos, rurais e de florestas –, em cinco estados (AM, PA, MA, RJ e MG).
“O Juntos Contra a Pobreza foi concebido como uma rede de parceiros, públicos e privados, atuando coletivamente para que as políticas públicas cheguem efetivamente em quem mais precisa. A metodologia, desenhada numa visão orientada por dados, visa privilegiar o protagonismo das famílias em situação de pobreza extrema e o fortalecimento das políticas públicas a partir das especificidades de cada território. Sabemos que a pobreza incide de forma bastante diferente em contextos urbanos, rurais e de floresta e, cada vez mais, constatamos que as melhores soluções emergem do próprio território, a partir do conhecimento de quem lá vive”, afirma Flavia Constant, diretora de Investimento Social Privado Vale.
Na Resex Rio Gregório, o projeto tem parceria com o Fundo Vale e começou em 2024, com cerca de 247 famílias. A partir de um diagnóstico inicial, foi construído um plano de ação personalizado que inclui o acesso das famílias a políticas públicas essenciais, como o Cadastro Único e o Bolsa Família, em parceria com o poder público local e organizações da sociedade civil.
“Ao articular saúde, proteção social e sociobioeconomia ajudamos a criar condições para que as famílias tenham dignidade, prosperidade e permaneçam em seus territórios, com acesso a direitos e melhores perspectivas de futuro. Precisamos proteger as pessoas que protegem a Amazônia”, diz Márcia Soares, gerente de Amazônia e Parcerias do Fundo Vale.
Sobre a FAS
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Sua missão é contribuir para a conservação do bioma, para a melhoria da qualidade de vida das populações da Amazônia e para a valorização da floresta em pé e de sua biodiversidade.
Professores e alunos do curso de Magistérios Indígena. Foto: Reprodução/Ascom Seed
Os cursistas dos Cursos de Magistério Indígena Tamarai e Tamî’kan receberam seus certificados de conclusão de curso com o objetivo de fortalecer o ensino nas comunidades. No Magistério Indígena Tamarai, voltado aos professores de Língua Materna, 85 professores concluíram a formação após dois anos de estudos e muita dedicação. Para o professor Francildo Miguel da Silva, que atua na Escola Estadual Indígena José Allamano, na comunidade indígena Maturuka, município de Uiramutã, essa conquista representa mais um degrau na sua vida acadêmica.
“Hoje para mim isso representa o primeiro passo que eu estou dando. Acredito que será um exemplo para todos. Sei que é difícil, mas a gente pode conseguir com esforço, carinho e muita vontade. Já estou atuando em outra faculdade fazendo Pedagogia agora. Recentemente fiz a matrícula e estou cursando. Agora esse é o destino: cursar várias outras faculdades, se aprimorar cada vez mais”, disse.
Formatura do Magistério Indígena Tamarai. Foto: Reprodução/Ascom Seed
Os cursos de Magistério Indígena são ofertados por meio do Centro Estadual de Formação dos Profissionais da Educação de Roraima (Ceforr).
“O Magistério Tamarai é dedicado a capacitar professores de línguas indígenas. É ímpar essa oportunidade. É através desse trabalho que nós estamos fortalecendo língua, cultura e identidade desses povos. É um magistério especial e esses professores são especiais, porque eles vão garantir e fortalecer o ensino das línguas indígenas em suas comunidades”, destacou Stela Damas, diretora do Ceforr.
Para o secretário de Educação e Desporto, Mikael Cury-Rad, as formaturas representam uma grande conquista para a rede estadual de ensino.
Formatura do Magistério Indígena Tamarai. Foto: Reprodução/Ascom Seed
“Nós estamos num momento muito importante, a formatura dos nossos professores de língua, que passaram dois anos para se formar. É uma conquista para a rede de educação, pois temos uma das redes que tem mais peculiaridades, principalmente na questão da educação indígena”, disse o secretário.
Já no Magistério Indígena Tamî’kan, 120 professores concluíram o curso que é destinado aos professores que atuam nas comunidades indígenas que não possuem formação mínima para docência ou para outros candidatos que possuem Ensino Médio e que desejam a formação profissional em nível de Magistério. Foram dois anos de aula.
Natural da comunidade indígena Samã II, em Pacaraima, a macuxi Néricy Francielly da Silva celebrou a conclusão do curso Magistério Tamî’kan destacando o poder transformador da educação. Para ela, a formatura representa um ano de realizações, superações e determinação coletiva. A nova professora fez questão de agradecer aos mestres do Ceforr e a toda a equipe da Secretaria de Educação pelo apoio durante a jornada.
Formatura do Magistério Indígena Tamarai. Foto: Reprodução/Ascom Seed
“Falar do curso Magistério Tamî’kan é falar de um ano de realização, de muitas superações, das nossas determinações. Estar aqui hoje conquistando o nosso diploma é muito satisfatório. Apesar dos desafios, realizar nossa formatura é extraordinário. Nosso sentimento é somente de gratidão”, disse.
A diretora do Ceforr, Stela Damas, fez um balanço do encerramento dos magistérios indígenas e destacou o compromisso do Governo do Estado com a formação inicial de professores indígenas. Segundo ela, Roraima possui atualmente 470 docentes indígenas em formação, com mais de 300 já concluindo o curso. Stela reforçou que o trabalho é pautado em três pilares essenciais: língua, cultura e identidade, fundamentais para garantir uma educação escolar indígena específica e diferenciada.
“Essa é a terceira formatura que realizamos. Existe um compromisso muito grande para que a gente trabalhe em três pilares essenciais da formação. Todo esse processo de resistência e luta da educação escolar indígena permanece forte em função da formação dos nossos professores”, finalizou.
Estudantes da Unifranz desenvolveram um creme dental sustentável que fortalece o esmalte dos dentes. Foto: Reprodução/Unifranz
O cheiro de laboratório se mistura à curiosidade. Em meio a frascos, calor e tentativas e erros, um grupo de estudantes bolivianos transforma resíduos em ciência aplicada. O que começou como um projeto acadêmico se tornou uma proposta viável: um creme dental sustentável que não só protege, como também fortalece o esmalte.
Na Universidade Franz Tamayo, estudantes de Bioquímica e Farmácia desenvolveram o Apatitecare, um creme dental feito de hidroxiapatita obtida de espinhas de peixe. O projeto nasceu de uma abordagem de ‘aprender fazendo’, onde o conhecimento é aplicado diretamente a situações práticas.
Estudantes da Unifranz desenvolveram um creme dental sustentável que fortalece o esmalte dos dentes. Foto: Reprodução/Unifranz
A equipe é formada por Fiorela Yujra, Maydda Quisbert, Dafne Antonio e Eleazar Canaviri, todos alunos do nono semestre. Sua proposta visa mudar a abordagem tradicional da higiene bucal, incorporando uma perspectiva mais biológica e sustentável.
“Nosso projeto se baseia no desenvolvimento de um creme dental com propriedades remineralizantes, utilizando hidroxiapatita de origem natural. O principal benefício é a reparação de microlesões no esmalte dentário”, explica Fiorela.
Ciência aplicada para regenerar o esmalte dentário.
A hidroxiapatita é um mineral fundamental na estrutura dentária. Ela compõe aproximadamente 97% do esmalte, sendo um componente essencial para o fortalecimento dos dentes. Seu uso em produtos odontológicos oferece uma alternativa diferenciada aos compostos tradicionais.
Ao contrário do flúor, que atua como uma barreira protetora, a hidroxiapatita integra-se diretamente ao dente. Esse processo permite preencher microfissuras, reduzir a sensibilidade e contribuir para uma regeneração mais natural do esmalte.
De resíduos orgânicos a uma solução sustentável
O desenvolvimento do produto também incorpora uma abordagem ambiental. A matéria-prima provém de resíduos orgânicos, especificamente espinhas de peixe, que são transformadas por meio de processos térmicos.
A escolha das espinhas de peixe como matéria-prima deve-se ao seu elevado teor de cálcio e fósforo, minerais essenciais para a obtenção de hidroxiapatita. Além disso, a sua utilização permite o aproveitamento de um resíduo orgânico através de processos acessíveis, integrando os princípios da sustentabilidade e da economia circular.
Pasta de dente desenvolvida pelos alunos. Foto: Reprodução/Youtube Unifranz
A fórmula inclui glicerina para hidratar, bicarbonato de sódio para limpar e regular o pH, e carbonato de cálcio como um abrasivo suave. Também incorpora vitamina E como antioxidante, óleo de coco com efeito antimicrobiano, goma xantana para consistência, essência de menta para frescor e água destilada como base do produto.
“O processo começou com a coleta dos ossos, que passaram por calcinação a 300 graus e, posteriormente, foram integrados à formulação da pasta de dente”, explica Eleazar Canaviri.
Este processo permite a extração do ingrediente ativo do produto, integrando ciência e sustentabilidade em uma única abordagem. Além disso, contribui para a redução de resíduos, dando um novo propósito a materiais descartados.
Estudantes da Unifranz desenvolveram um creme dental sustentável que fortalece o esmalte dos dentes. Foto: Reprodução/Unifranz
“Há também um benefício ambiental, porque reutilizamos esses resíduos para transformá-los em um produto útil para a saúde bucal”, acrescenta Yujra.
Embora o protótipo já demonstre funcionalidade, a equipe identificou oportunidades de melhoria. Aspectos como textura e cor estão entre os ajustes necessários para otimizar a experiência do usuário.
“Queremos melhorar a textura e a cor para torná-la mais atraente para as pessoas, embora já tenha um aroma de menta que é bem recebido”, diz Dafne Antonio.
Aprender fazendo
O projeto foi desenvolvido no âmbito dos Projetos Integrativos, uma metodologia que combina teoria e prática para resolver problemas do mundo real. Essa abordagem permite que os alunos não apenas adquiram conhecimento, mas também desenvolvam habilidades práticas.
Para além do laboratório, a experiência reflete uma abordagem de aprendizagem orientada para a ação. A oportunidade de criar um produto funcional do zero fortalece as habilidades técnicas, o pensamento crítico e o trabalho em equipe.
“Estamos orgulhosos porque combinamos ciência com considerações ambientais em um produto concreto”, conclui Dafne.
Iniciativas como a Apatitecare demonstram como a formação acadêmica pode ir além da sala de aula. Em um ambiente onde a inovação é fundamental, aprender fazendo torna-se uma ferramenta para transformar ideias em soluções reais.