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Megaprojeto de mineração de potássio sobrepõe território Mura, reafirma Funai

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Projeto da canadense Potássio do Brasil inclui 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas totalmente sobrepostas à Terra Indigena Lago do Soares. Foto: Clara Comandolli/Cimi

Representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em reunião com integrantes da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR), do Ibama e dos Ministérios de Minas e Energia (MME) e dos Povos Indígenas (MPI), confirmaram, pela segunda vez, que o megaprojeto da mineradora canadense Potássio do Brasil está sobreposto ao território tradicional do povo Mura em Autazes (AM).

Durante encontro no dia 14 de agosto, a diretoria da Funai pontuou que “embora não tenham sido definidos os limites no estudo [de identificação e delimitação], já há uma proposta e não há dúvidas de que a área do empreendimento sobrepõe áreas de moradia e circulação dos Mura”. Com Licenças de Instalação concedidas pelo órgão licenciador estadual, o empreendimento avança sobre áreas de moradia e pesca na Terra Indígena (TI) Lago do Soares.

Na ocasião, lideranças voltaram a denunciar ameaças, cerceamento e ausência de Consulta Livre, Prévia e Informada, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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É a segunda vez que a Funai confirma a sobreposição do empreendimento na terra indígena reivindicada pelo povo Mura, localizada no município amazonense de Autazes. Em ofício publicado em 2023, o órgão já havia recomendado a suspensão do processo de licenciamento, por haver evidências concretas de que a “terra indígena em estudo encontra-se sobreposta às áreas de jazidas a serem exploradas no Projeto Potássio Autazes”.

Apesar disso, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão licenciador do estado, concedeu, ao longo de 2024, ao menos sete Licenças de Instalação à mineradora canadense. Ignorando a recomendação da Funai, o órgão autorizou a realização de obras, incluindo a instalação de uma mina subterrânea para extração de silvinita, minério a partir do qual são extraídos sais de potássio, matéria-prima para a produção de fertilizantes agrícolas.

Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.
Com licenças de instalação do Ipaam, empresa Potássio do Brasil desmata áreas dentro da TI Lago do Soares, em estudo pela Funai. Fotos: Filipe Gabriel Mura.

Empreendimento já impõe impactos ao povo Mura

Desde então, a mineradora avança sobre o território desmatando áreas de vegetação nativa, conforme o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já havia denunciado, com fotos e imagens de satélite, em abril deste ano. Registros fotográficos feitos pelos indígenas entre dezembro de 2025 e julho de 2026, e apresentados durante a reunião no MPI, também evidenciam a devastação em curso dentro de áreas onde os indígenas realizam a coleta de frutas e sementes.

Milena Mura, coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas Mura (OMIM), denuncia que a comunidade está sendo proibida pela multinacional de transitar nesses locais. “Tem sempre pessoas da empresa no local onde o empreendimento será instalado, proibindo a circulação dos indígenas em seu próprio território”, relata.

Durante a reunião realizada na última semana, Milena e outras duas lideranças presentes também relataram que as obras já estão afetando o abastecimento alimentar da comunidade. Segundo relatos, a abertura de uma estrada de acesso está provocando o secamento de uma nascente, local de desova de peixes, que são a base alimentar do Povo Mura. “Pra gente isso é muito doloroso, porque a gente já está vendo que os peixes estão rareando”, explica Milena.

Leia também: Licenciamento do Projeto Potássio Autazes segue em debate; MPF aponta irregularidades

O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.
O desmatamento e a abertura de um ramal já estão provocando o secamento de uma nascente, como mostram registros feitos em julho de 2026. Fotos: Caroline Nogueira.

Projeto de potássio tem irregularidades, segundo MPF

Em maio de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) moveu uma Ação Civil Pública (ACP) na qual pede a suspensão das Licenças de Instalação emitidas pelo Ipaam, já que a Constituição Federal proíbe a realização de mineração dentro de terras indígenas, sejam elas demarcadas definitivamente ou ainda não. A peça apresentada também pede a transferência do processo de licenciamento ao Ibama, devido à dimensão do projeto, aos impactos na TI Lago do Soares e em outras terras indígenas da região e ao fato de que este é o órgão responsável por licenciar empreendimentos em terras indígenas.

Segundo o MPF, além da sobreposição à TI Lago do Soares, que já possui, desde 2023, portaria da Funai para a realização de estudos e definição de limites territoriais, “a base de exploração minerária fica a menos de 3 km da Terra Indígena Jauary, e a cerca de 6 km da Terra Indígena Paracuhuba”, esta última homologada desde 1991.

Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.
Imagem de reprodução do Projeto Potássio Autazes, que prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira. Foto: Divulgação Potássio do Brasil.

Licenças ambientais não dão conta da dimensão territorial do projeto

Conforme revelou reportagem investigativa do Cimi, o projeto Projeto Potássio Autazes prevê a instalação de uma mina subterrânea, uma planta industrial para o beneficiamento do minério, áreas para armazenamento de rejeitos e de solo orgânico, além de estrada e um porto às margens do rio Madeira para o escoamento da produção. As estruturas de superfície já autorizadas pelo Ipaam abrangem mais de 200 hectares, enquanto autorizações de supressão vegetal permitiram a derrubada de 257 hectares.

A dimensão do empreendimento, porém, é muito maior quando consideradas as jazidas que a empresa pretende explorar no subsolo. Levantamento realizado pelo Cimi Regional Norte 1, a partir de mapas e documentos produzidos pela própria Potássio do Brasil, identificou uma área de aproximadamente 4,4 mil hectares de jazidas subterrâneas. Uma extensão vinte vezes maior do que a área mencionada nas licenças do Ipaam.

Além de estarem totalmente sobrepostas à TI Lago do Soares, as jazidas, em seu limite, ficariam a poucos quilômetros da TI Jauary, delimitada em 2012. A estreita faixa que separa os dois territórios é, basicamente, ocupada por um afluente do rio Madeira. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) reconhece o risco de salinização das águas próximas ao empreendimento.

De acordo com o EIA, a empresa prevê a extração de cerca de 227 milhões de toneladas de minério bruto ao longo de 31 anos, a partir do qual seriam produzidas mais de 61 milhões de toneladas de potássio, gerando 165,3 milhões de toneladas de rejeitos.

Fonte: Ipaam

Povo Mura denuncia violação do protocolo de consulta e ameaças

À justiça do Amazonas, o MPF e lideranças Mura apontam também outras irregularidades graves identificadas no processo de licenciamento, como a “profunda e grave violação” ao protocolo de consulta e consentimento do povo.

O povo Mura aprovou seu protocolo de consulta em 2019, após dois anos de reuniões e debates entre as comunidades e aldeias dos municípios de Careiro da Várzea e Autazes. O documento, que define como os Mura devem ser consultados antes da realização de qualquer atividade dentro de seu território que possa afetar seus direitos, deveria ter sido obedecido pelos órgãos públicos e pela empresa para a concessão de qualquer licença ambiental.

Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli | Cimi.
Ministério Público Federal e lideranças apontam graves irregularidades no processo de licenciamento, como a violação ao protocolo de consulta e consentimento do povo Mura. Foto: Clara Comandolli/Cimi.

Esse protocolo prevê 16 passos, que incluem uma série de reuniões e assembleias que devem contar com uma composição específica, como, por exemplo, a presença de representantes de todas as aldeias, do MPF e da Funai. No entanto, segundo o MPF e a Organização de Lideranças Indígenas Mura de Careiro da Várzea (OLIMCV), não foi isso o que aconteceu.

De acordo com a denúncia apresentada, a consulta alegada pela mineradora canadense, na qual teria sido aprovado o projeto, aconteceu nos dias 21 e 22 de setembro de 2023, com a participação de lideranças de algumas aldeias e do Conselho Indígena Mura (CIM), além de representantes da Potássio do Brasil. Não estiveram presentes membros da Funai, do MPF e nem mesmo moradores da comunidade indígena Soares, principal afetada pelo empreendimento.

“Não se decide o futuro de um povo em uma reunião. E a grande maioria, e principalmente a aldeia mais impactada, que é a Soares, não esteve presente nessa reunião”, relatou William Filgueira, que compõe a diretoria da OLIMCV, durante reunião no MPI.

A denúncia também alega cooptação de lideranças, ameaças e oferecimento de propina por parte da multinacional. À autoridades do Ibama, da Secretaria-Geral da Presidência e dos Ministérios dos Povos Indígenas e de Minas e Energia, Milena Mura relatou que a Potássio do Brasil, “dividiu o povo, ameaçou lideranças, cooptou essas lideranças ameaçadas e fez com que essas próprias lideranças nos ameaçassem”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Cimi

Incêndios florestais aumentam mais de 300% em Manaus durante período de estiagem; veja dicas e orientações

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Incêndios em vegetação e áreas florestais aumentaram 324% na capital amazonense, com 564 ocorrências de janeiro a agosto, contra 133 registrados no mesmo período de 2025. Foto: Divulgação/Âmbar Energia

O aumento dos incêndios florestais durante o período de estiagem no Amazonas exige atenção redobrada da população. Segundo dados do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), Manaus registrou 564 incêndios florestais entre janeiro e agosto de 2026, contra 133 no mesmo período de 2025 — um aumento de aproximadamente 324%. Somente nos dois primeiros finais de semana de agosto, foram registradas 223 ocorrências de incêndios em vegetação e áreas florestais.

Com altas temperaturas, baixa umidade e vegetação seca, o fogo se espalha com mais rapidez e pode atingir a rede de distribuição de energia. As chamas podem danificar postes, cabos, transformadores e outros equipamentos, além de colocar em risco a população e dificultar o trabalho das equipes responsáveis pela manutenção e pelo restabelecimento do fornecimento.

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A Âmbar Energia, concessionária que presta o serviço do fornecimento de energia elétrica na capital amazonense, reforça que a prevenção começa antes do fogo. A empresa orienta a população a não realizar queimadas próximas às redes de distribuição de energia elétrica, não utilizar fogo para limpar terrenos ou pastagens e evitar a queima de lixo, folhas e outros resíduos em áreas abertas.

Incêndios florestais aumentaram 324% em Manaus. Foto: Divulgação/Âmbar Energia
Altas temperaturas, baixa umidade e vegetação seca contribuem para a propagação do fogo em áreas de vegetação. Foto: Divulgação/Âmbar Energia

Leia também: Período de estiagem aumenta risco de queimadas nas rodovias da região amazônica; saiba o que fazer

Outros cuidados para evitar incêndios

Também é importante não jogar pontas de cigarro em estradas, terrenos ou áreas de vegetação seca. Em acampamentos, o fogo deve ser completamente apagado com água antes da saída do local. A empresa alerta ainda que ninguém deve tentar combater sozinho um incêndio próximo a postes, cabos ou outros equipamentos de energia. Nesses casos, é fundamental manter distância segura da rede elétrica e acionar as equipes responsáveis.

“Quando uma queimada atinge a rede elétrica, o restabelecimento da energia se torna mais complexo e exige uma operação ainda mais cuidadosa. Em áreas de difícil acesso, pode ser necessária a mobilização de muitas equipes e até de equipamentos pesados depois que as chamas são controladas”, explica João Pilla, diretor-presidente da Âmbar Energia.

Em caso de incêndio próximo à rede elétrica, a orientação é não se aproximar dos cabos e equipamentos e acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, pelo telefone 193.

*Com informações da assessoria

Petrobras se inspira em fruta, serpente e borboleta para dar nomes aos poços que pretende perfurar no Amapá

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Foto: Divulgação/Petrobras

Inspirados em frutas, répteis e insetos da biodiversidade brasileira, os nomes dos três novos poços que a Petrobras pretende perfurar na costa do Amapá — Manga, Crotalus e Morpho Extensão — revelam uma tradição histórica da estatal na nomeação de suas áreas de exploração.

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A escolha das nomenclaturas acompanha o novo pedido de licenciamento ambiental enviado ao Ibama para avançar na Bacia da Foz do Amazonas. Esses poços estão todos no bloco FZA-M-59, em águas ultraprofundas, a cerca de 175 km da costa de Oiapoque e aproximadamente 580 km da foz do Rio Amazonas.

Fauna e flora local inspiram Petrobras a nomear três novos poços no Amapá
Estatal pediu licença para perfurar Manga, Crotalus e Morpho Extensão no bloco FZA-M-59, na costa de Oiapoque. Nomenclatura segue tradição da companhia de usar fauna e flora locais. Foto: Reprodução

Os nomes dos poços escolhidos pela Petrobras, seguem uma tradição da estatal de usar referências da biodiversidade brasileira para batizar seus projetos exploratórios. Cada nome é visto como uma identidade simbólica para operações e ao mesmo tempo, são técnicas e estratégicas.

  • Manga: fruta tropical amplamente consumida no Brasil, conhecida pelo sabor doce e pela variedade de espécies cultivadas em diferentes regiões.
  • Crotalus: nome científico de um gênero de serpentes (cascavéis).
  • Morpho Extensão: inspirado no gênero de borboletas Morpho, conhecidas pelas asas azul-metálicas.

A solicitação enviada ao Ibama na segunda-feira (17) visa amplificar os dados colhidos pelo poço Morpho, cuja descoberta de óleo foi confirmada pela companhia. Se autorizadas, as novas perfurações em águas ultraprofundas devem mapear a real dimensão das reservas de petróleo a cerca de 580 km da foz do Rio Amazonas.

Leia também: Petrobras amplia ofensiva na Foz do Amazonas e pede ao Ibama licença para explorar mais três poços

instituto é pensado para estudar foz do amazonas
Foz do Amazonas. Imagem: Reprodução/Google Maps

Pedido de licença dos novos poços

Os próximos passos envolvem a análise técnica do Ibama, que avalia os estudos ambientais apresentados pela Petrobras, assim como a realização de possíveis consultas públicas com comunidades locais e também a definição de condicionantes ambientais obrigatórias, como monitoramento da fauna e planos de emergência.

O Ministério Público Federal (MPF) solicitou explicações ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre os pedidos da Petrobras para perfurar três novos poços exploratórios e realizar outras operações marítimas na Bacia da Foz do Amazonas.

O ofício foi enviado no dia 17 de agosto, segundo o MPF, mesmo dia em que a Petrobras confirmou a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, no litoral do Amapá.

*Por Josi Paixão, da Rede Amazônica AP

Quem vai pagar a conta da grande seca?

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Seca e crise hídrica em rios da Amazônia ocorreram em 2024. Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil

Por Olímpio Guarany*

A ciência já não discute apenas a possibilidade de um El Niño em 2026. O fenômeno está estabelecido, ganha intensidade e coloca a Amazônia diante do risco concreto de uma nova grande seca. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que o atual episódio teve início em junho. Segundo a mais recente projeção da NOAA divulgada pelo Inmet, há probabilidade igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte nos próximos trimestres.

Há ainda 69% de chance de que seja o mais intenso registrado desde 1950, com possibilidade de anomalias iguais ou superiores a 2,5°C nas águas do Pacífico. O fenômeno deve persistir, pelo menos, até março de 2027.

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A intensidade máxima e seus efeitos ainda carregam incertezas, mas o sinal de alerta está dado. E há um agravante: o El Niño ocorre em um planeta cada vez mais quente. Como resume o pesquisador do Inpe Gilvan Sampaio: “O El Niño potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”.

Diante desse cenário, a pergunta não é apenas meteorológica. É econômica, social e profundamente humana: Quem vai pagar a conta da grande seca?

Quando a seca chega à economia

Pescadores lutam contra efeitos da seca em Tartarugalzinho, no Amapá
Cidade enfrenta a seca pelo 3º ano. Foto: Divulgação/Colônia de pescadores de Tartarugalzinho

Uma grande estiagem na Amazônia não produz apenas consequências ambientais. A redução dos níveis dos rios atinge a agricultura familiar, a pesca, o extrativismo, o transporte fluvial e o abastecimento. Na Amazônia, o rio não é apenas água. É estrada. É alimento. É trabalho. É renda. É vida.

Quando o rio baixa, o barco pode deixar de chegar, o pescado diminui, a produção não é escoada, o alimento fica mais caro e comunidades podem ficar isoladas. Um fenômeno climático rapidamente pode se transformar em crise econômica e social. As secas recentes já mostraram essa realidade. No território indígena Kumaruara, no oeste do Pará, cerca de 1.200 famílias ainda enfrentam consequências das estiagens de 2023 e 2024.

A coordenadora Zenilda Kumaruara resume: “Até agora ainda não conseguimos resolver o problema da água”.

Uma frase simples que revela o tamanho da vulnerabilidade amazônica.

A bioeconomia sob estresse

A bioeconomia é uma das grandes alternativas para um modelo sustentável de desenvolvimento da Amazônia. Mas precisamos perguntar:

Essa bioeconomia está preparada para enfrentar eventos climáticos extremos?

Açaí, cacau, castanha, óleos, frutos amazônicos, pesca e tantas outras cadeias dependem diretamente dos ciclos da natureza.

Sem água, não há produção. Sem rios navegáveis, não há escoamento. Sem planejamento, não há adaptação.

Não basta construir uma bioeconomia sustentável.

É preciso construir uma bioeconomia resiliente.

Quem sofre primeiro?

Como quase sempre acontece nas grandes crises, os mais vulneráveis tendem a pagar primeiro — e mais caro.

Ribeirinhos, agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas e pequenos empreendedores dependem diretamente dos rios, da floresta e das chuvas e, ao mesmo tempo, possuem menos recursos para enfrentar eventos extremos.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perversos da crise climática: quem menos contribuiu para produzi-la muitas vezes possui menor capacidade para se proteger de suas consequências.

Não podemos esperar os rios secarem, comunidades ficarem isoladas e a produção desaparecer para somente então começar a agir.

Prevenção precisa acontecer antes da tragédia.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

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O que precisa ser feito?

Os caminhos são conhecidos: segurança hídrica, diversificação da produção, assistência técnica, crédito, proteção da agricultura familiar, tecnologias adaptadas à realidade amazônica, segurança alimentar, planejamento territorial, preparação das Defesas Civis e monitoramento permanente.

No debate sobre o tema, o professor Manoel Ricardo Vilhena, pesquisador da Unifap e consultor da ONU, alerta:

“É urgente que os estados da Amazônia compreendam o impacto severo das mudanças climáticas sobre todas as formas de vida do bioma — da população e cidades à agricultura, fauna e flora. Do contrário, os projetos do presente se tornarão inviáveis e o próprio futuro estará comprometido.”

Não existe uma única medida capaz de proteger a Amazônia de uma grande seca. É necessária uma estratégia envolvendo governos, universidades, centros de pesquisa, setor produtivo, organizações sociais e as próprias comunidades.

A hora de agir é agora

O El Niño de 2026 já é uma realidade. O que ainda não conhecemos por inteiro é a dimensão dos seus impactos sobre a Amazônia.

Mas temos ciência, tecnologia, sistemas de monitoramento, conhecimento acumulado e capacidade de antecipar riscos.

O desafio é transformar conhecimento em decisão e decisão em ação.

E uma pergunta precisa orientar qualquer estratégia:

Se uma grande seca atingir a Amazônia, o que estamos fazendo hoje para proteger quem mais depende dos rios, da floresta e da agricultura familiar?

Prevenção não começa quando a emergência é decretada.

Prevenção começa enquanto ainda temos tempo.

E o tempo de agir é agora.

Quando a grande seca chegar, talvez seja tarde para perguntar quem vai pagar a conta.

Nós já sabemos quem costuma pagar primeiro.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Embratur e Sebrae definem parceria estratégica para promover o Polo de Gastronomia da Amazônia

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Foto: Reprodução/Embratur

A Embratur e o Sebrae se reuniram para discutir a importância do projeto Polo Sebrae de Gastronomia da Amazônia. A pauta central abordou a estruturação do turismo gastronômico como ferramenta para diversificar os destinos nacionais. O objetivo é integrar ações do polo às estratégias da Agência na descentralização do turismo brasileiro, com foco no desenvolvimento econômico regional e na atração de turistas por meio da diversidade da culinária nacional.

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Sediado em Macapá (AP), o Polo Sebrae de Gastronomia da Amazônia atua como um centro de produção de conhecimento e inteligência voltado para o setor de alimentos e bebidas. Sustentado por premissas como ancestralidade, biodiversidade, e desenvolvimento econômico, social e ambiental, o projeto possui uma governança compartilhada entre os estados da Região Norte e parceiros como São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

Embora fisicamente localizado na Amazônia, o polo tem a diretriz de desenvolver pesquisas, soluções e metodologias que possam ser aplicadas a pequenos negócios de todo o Brasil. A reunião aconteceu nesta quinta-feira (13) e contou com a presença do presidente da Embratur, Bruno Reis, da chefe de gabinete da Diretoria de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade, Sáskia Lima de Castro, da Coordenadora de Projetos do Sebrae Nacional, Ana Clévia, da Superintendente do Sebrae Amapá, Alcilene Cavalcante,  além de outros representantes da entidade.

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Embratur e Sebrae definem parceria estratégica para promover o Polo de Gastronomia da Amazônia
O foco na culinária regional atua como um diferencial competitivo valioso na vitrine global. Renato Vaz/Embratur

Para o presidente da Agência, o foco na culinária regional atua como um diferencial competitivo valioso na vitrine global. Ele elogiou a apresentação do projeto.

“É um projeto que, de fato, traz iniciativas muito assertivas sobre a gastronomia na Amazônia, que representa o país. Isso é brasilidade, é borogodó, é o nosso soft power. Falar sobre isso, automaticamente é falar de Brasil”, destacou Reis.

Além da Amazônia: metodologia para todos

Uma das iniciativas apresentadas durante a reunião foi o desenvolvimento de um guia de participação em missões internacionais de gastronomia. A ferramenta servirá como um manual direcionador para que profissionais da culinária de todo o país possam expandir suas atuações.

A ideia é que qualquer chef brasileiro que deseje realizar uma missão internacional saiba exatamente quais são os procedimentos, documentações e caminhos de acesso necessários. A entrega deste guia servirá como uma metodologia de nível nacional.

Alcilene Cavalcante reforçou a urgência e a importância do trabalho colaborativo com a Embratur para dar escala à promoção internacional. “O que a gente quer é estar junto com a Embratur para fazer a promoção da gastronomia amazônica e brasileira como uma parte importante do turismo, como ela é”, afirmou a superintendente.

A parceria segue agora para a fase de estruturação técnica e cruzamento de dados de inteligência de mercado, buscando apresentar os produtos e experiências gastronômicos aos turistas internacionais que já demonstram grande interesse pelo Brasil e pela Amazônia.

*Com informações da Embratur

Jovens no Amazonas fortalecem conhecimento e territórios por meio de pesquisas científicas

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Jovens pesquisadores fortalecem conhecimento e territórios. Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

Criado para aproximar estudantes da produção científica e contribuir para a formação de novos pesquisadores, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do Instituto Mamirauá oferece aos jovens da região Norte a oportunidade de desenvolver pesquisas com acompanhamento de orientadores e conhecer, na prática, diferentes etapas da ciência. Em Tefé (AM), o programa já tem mais de duas décadas de trajetória e busca também fortalecer a produção de conhecimento sobre a Amazônia a partir do próprio território.

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Ao longo de 12 meses, os bolsistas participam de capacitações, desenvolvem pesquisas e apresentam os resultados em seminários. As bolsas contemplam áreas como ciências biológicas, ciências sociais, arqueologia, manejo de recursos e inovação. Nos últimos anos, o programa reúne, em média, de 20 a 25 estudantes por ciclo e já formou ou apoiou mais de 500 alunos.

“Eles viram protagonistas dos seus projetos e é muito satisfatório ver essa evolução deles”, destaca Hilda Chávez, pesquisadora do Instituto Mamirauá e coordenadora do PIBIC.

A experiência também tem reflexos na trajetória acadêmica dos estudantes. Segundo a coordenação, mais de 70% dos bolsistas dão continuidade à formação acadêmica. Alguns participam de publicações científicas, recebem reconhecimento em eventos de iniciação científica e, posteriormente, seguem atuando em pesquisas ou passam a integrar o próprio Instituto Mamirauá. As bolsas são destinadas a estudantes do ensino médio e do ensino superior, nas modalidades Júnior e Sênior.

“Nesse mês, que ocorreu a apresentação final da bolsa, ficamos mais uma vez surpresos com o desempenho dos bolsistas e a contribuição de suas pesquisas para a região, que incluem espécies que não haviam sido identificadas, plantas que não sabíamos que existiam na região do Médio Solimões, entre outras”, explica Jean Quadros, Analista de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Mamirauá e vicecoordenador do PIBIC.

A atuação dos jovens em seus territórios

Além da formação científica, o programa contribui para aproximar o Instituto da população local. Os estudantes também levam para suas comunidades conhecimentos e experiências adquiridos durante as pesquisas, ampliando a compreensão sobre a ciência produzida na região.

Leia também: Espetáculo teatral é inspirado em pesquisa científica sobre colaboração inusitada de tartarugas e borboletas

Jovens pesquisadores fortalecem conhecimento e territórios através de pesquisas científicas na Amazônia
Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

“O programa PIBIC, além da formação e do fomento para os estudantes, também insere ciência e pesquisa no território desses bolsistas, que acabam integrando esse conhecimento junto do Instituto”, afirma Hilda.

Esse conhecimento também ganha significado dentro das comunidades indígenas. Hiago Marques Cruz, indígena da etnia Cambeba, da aldeia Jaquiri, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, desenvolveu a pesquisa “Fauna parasitária de Osteoglossum bicirrhosum (Aruanã) provenientes da pesca artesanal no Médio Solimões”.

Para ele, levar os resultados da pesquisa para sua comunidade é uma forma de ampliar o conhecimento sobre um recurso importante para a população.

“Esse conhecimento é importante para mim como indígena também, porque há muita ausência de conhecimento na questão da pesquisa. Levar esse novo olhar em relação à pesquisa e também sobre a fauna parasitária para as comunidades, para a minha aldeia, é fundamental, já que a gente utiliza o Aruanã como recurso fundamental na pesca artesanal e também para a nossa alimentação”, afirma Hiago Marques.

Ao incentivar a participação de jovens da região na produção científica, o PIBIC fortalece uma rede de conhecimento que conecta formação acadêmica, pesquisa e território, contribuindo para que novas gerações também sejam protagonistas na construção do conhecimento sobre a Amazônia.

Foto: Tácio Melo e Acervo PIBIC

Para Yasmim Salgado, bolsista do programa, pesquisar a diversidade de borboletas frugívoras em áreas de mangue na Reserva Extrativista Marinha de Soure, no Pará, é também uma forma de valorizar o território onde vive.

“Acredito que a ciência também pode e deve ser feita dentro da nossa própria realidade. Para mim, pesquisar o território é também uma forma de valorizá-lo e mostrar a importância de sua conservação. Quero continuar aprendendo, pesquisando e contribuindo para que a ciência produzida na minha região tenha cada vez mais reconhecimento”, afirma.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Tácio Melo

Ilhas de calor: como o concreto está esquentando Belém

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Foto: Adolfo Lemos/Acervo Ascom UFPA

Belém (PA), cidade equatorial banhada pela Baía do Guajará, sempre conviveu com o calor e a umidade típicos da Amazônia. Mas o crescimento urbano desordenado das últimas décadas tem intensificado esse cenário, criando o que especialistas chamam de “ilhas de calor urbanas”, áreas da cidade que registram temperaturas visivelmente mais altas que seus arredores. O professor Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão, da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA), explica os mecanismos por trás do fenômeno e seus impactos sobre a capital paraense.

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Segundo o pesquisador, tudo começa na forma como a cidade substitui a vegetação por superfícies artificiais. “A mudança no uso e na cobertura da terra, como a retirada da vegetação para dar lugar a áreas urbanizadas, altera, inicialmente, o saldo de radiação na superfície e, consequentemente, o balanço de energia”, explica.

Em áreas verdes, boa parte da energia solar é usada na evapotranspiração, processo pelo qual plantas e solo transferem água para a atmosfera, o que ajuda a resfriar o ambiente.

“Quando substituímos essa vegetação por concreto, asfalto e outras superfícies impermeáveis, reduzimos a disponibilidade de água para evapotranspiração e, consequentemente, uma parcela maior da energia passa a ser convertida em calor sensível”, diz Edivaldo Serrão. Segundo ele, essas superfícies também armazenam e liberam calor ao longo do dia e da noite.

Ilhas de calor: como o concreto está esquentando Belém
Vista panorâmica da cidade de Belém. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Ilhas de calor aumentam em período de menor volume de chuva

O professor explica que a ilha de calor urbana ocorre quando determinadas áreas urbanizadas apresentam temperaturas mais elevadas do que áreas menos urbanizadas ou com maior cobertura vegetal no entorno. Em Belém, o fenômeno costuma ser mais forte entre junho e novembro, período de menor chuva na região. “Nessa época, há períodos com menor cobertura de nuvens e, consequentemente, maior entrada de radiação solar na superfície”, detalha.

Apesar da vulnerabilidade, Edivaldo Afonso Serrão pondera que Belém tem particularidades que podem amenizar o problema: “A cidade está próxima à linha do Equador e recebe elevada quantidade de energia solar ao longo do ano. Ao mesmo tempo, está localizada às margens da Baía do Guajará, o que favorece a atuação de circulações locais, como as brisas, que podem contribuir para a redistribuição de calor e umidade”.

No entanto o intenso processo de urbanização, a redução da cobertura vegetal, a ocupação de áreas de várzea e a impermeabilização do solo podem agravar os efeitos do aquecimento urbano.

Ocupação urbana gera diferenças térmicas na área metropolitana

O impacto da urbanização vai além do termômetro. Segundo Edivaldo Serrão, o contraste entre diferentes áreas da cidade pode gerar diferenças térmicas e de pressão que influenciam a circulação do ar e, consequentemente, a formação e distribuição das nuvens de chuva. Isso não significa que a cidade “cria” chuva, mas pode alterar onde e como ela cai.

O efeito mais direto, no entanto, está nos alagamentos. “Com a impermeabilização do solo, a água da chuva deixa de infiltrar adequadamente e escoa rapidamente pela superfície, aumentando o volume de água direcionado para as áreas mais baixas”, detalha o professor. Em Belém, esse problema tem agravantes específicos: “A baixa declividade de grande parte da cidade e o movimento das marés podem dificultar o escoamento das águas pluviais em determinados períodos”.

O professor chama atenção para um ponto em específico: em clima equatorial, o desconforto térmico não depende só do termômetro. “Em ambientes quentes e úmidos, como Belém, o organismo tem maior dificuldade para perder calor por meio da evaporação do suor. Por isso uma temperatura que poderia ser suportável em um ambiente seco pode gerar uma sensação de calor muito maior em Belém”, explica.

O meteorologista faz uma distinção importante: “A urbanização não é necessariamente responsável pela criação de uma chuva extrema ou de uma onda de calor, pois também há influência de fatores regionais e de grande escala”. Contudo a expansão urbana desordenada pode intensificar determinados efeitos locais e, principalmente, aumentar a exposição da população.

Para reverter o quadro, Edivaldo Serrão defende uma mudança de abordagem no planejamento da cidade, com mais infraestrutura verde: ampliação da arborização, criação de parques, preservação de várzeas e corpos d’água, além de jardins de chuva e pavimentos permeáveis. “Essas soluções podem contribuir simultaneamente para reduzir a temperatura, aumentar a infiltração da água, diminuir o escoamento superficial e melhorar o conforto térmico”, defende.

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Para o professor, a cidade precisa parar de pensar na drenagem apenas como escoamento rápido da água. A proposta é simples: migrar de uma infraestrutura predominantemente ‘cinza’ para uma abordagem integrada entre infraestrutura cinza, verde e azul. “O planejamento urbano precisa considerar o clima como um componente fundamental. Devemos pensar não apenas em construir sistemas de drenagem para retirar rapidamente a água da cidade, mas também em permitir que a cidade absorva, retenha e utilize parte dessa água, ao mesmo tempo em que ampliamos as áreas verdes”, conclui.

Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão é professor da Faculdade de Meteorologia, do Instituto de Geociências (IG/UFPA). Doutor em Meteorologia pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), com ênfase em modelagem hidrológica, mudanças climáticas e mudanças no uso e na cobertura da terra. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/5700978243198274

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 178, escrito por Luiza Amâncio

Pesquisa sobre patrimônio documental do Amazonas conquista 2º lugar em premiação nacional de Arquivologia

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Banca de defesa. Foto: Divulgação

A tese “Buscando sentido no caos: a gestão do patrimônio documental na administração pública do Amazonas”, de autoria de Leandro Coelho de Aguiar, professor do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), conquistou o segundo lugar no Prêmio Nacional de Arquivologia Maria Odila Fonseca 2025. Principal premiação da área, o prêmio, promovido pelo Arquivo Nacional, reconhece os melhores trabalhos da Arquivologia ou que tenham relação com temáticas arquivísticas no Brasil.

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Leandro Coelho Aguiar destaca a relevância da segunda colocação alcançada pela sua pesquisa de doutorado: “Receber esse reconhecimento do Arquivo Nacional tem um significado profundo. É uma tese produzida no Amazonas, sobre o Amazonas e por um professor da instituição em um Programa de Pós-Graduação da própria Ufam, o que demonstra a força da pesquisa regional desenvolvida em nossa universidade”, afirma o docente.

“Discutir a gestão e a preservação do nosso patrimônio documental, histórico e social é fundamental para a construção da memória e da identidade coletiva amazônica. Essa conquista evidencia o excelente trabalho do PPGH/Ufam e do laboratório Archivum [Laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio], sob a orientação do professor doutor James Roberto”, conclui.

Gestão documental na Primeira República

Defendida em 2024 no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Ufam e orientada pelo professor James Roberto Silva, a tese discute a historicidade da gestão e preservação documental no Amazonas, contribuindo de forma decisiva para o debate sobre a preservação do patrimônio documental histórico e social do estado.

Conforme o resumo da tese, a pesquisa se debruça sobre “a gestão do patrimônio documental da Administração Pública do Amazonas durante a Primeira República (1889 e 1930), enfocando a estrutura administrativa, os atores envolvidos e as práticas documentais”.

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Pesquisa de professor da Ufam conquista 2º lugar em premiação nacional de Arquivologia
Leandro Coelho Aguiar durante defesa da tese em 2024 . Foto: Divulgação

Utilizando a abordagem da História dos Arquivos, a tese mergulha no período por meio da análise de documentos de fontes oficiais e de notícias da imprensa da época para compreender a evolução das práticas arquivísticas e o papel dos arquivistas na administração pública da Primeira República.

“A gestão documental desse período caracterizava-se por instabilidades e descontinuidades, marcadas por decisões pragmáticas e voltadas para as necessidades imediatas da administração, sem uma fundamentação teórico-metodológica consolidada”, informa o texto da tese.

A pesquisa aponta que, ainda que houvesse o reconhecimento da importância da gestão e da preservação do acervo documental, as práticas arquivísticas do período foram comprometidas por fatores políticos e socioeconômicos, gerando instabilidade e adaptação contínua das estruturas documentais.

Sob forte influência de políticos e intelectuais do estado, as iniciativas eram marcadas por disputas constantes sobre sua organização, acesso e função e a gestão do patrimônio documental oscilava entre tentativas de organização e a predominância de práticas empíricas e fragmentadas.

A pesquisa está disponível na íntegra na Biblioteca de Teses e Dissertações da Ufam. A banca de defesa foi composta pelos professores Rafael Ale Rocha (PPGH/Ufam), Marcia Eliane Alves de Souza e Mello (PPGH/Ufam), James Roberto Silva (presidente da banca/orientador),
Alexandre de Souza Costa (PPGIC/Ufam), e, de forma remota, Adriana Angelita da Conceição (PMPEH/UFSC)

Leandro Coelho Aguiar é professor do curso de Arquivologia da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Ufam, líder do grupo de pesquisa do CNPq Núcleo de Pesquisa em Arquivologia (NUPEArq) e do Archivum, vinculado à FIC. É o atual presidente da Associação Nacional de História – Seção Amazonas (Anpuh-AM), gestão 2024-2026, e recém-eleito membro efetivo do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq), órgão colegiado, vinculado ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI).

Referência na Arquivologia: Maria Odila Fonseca (1953-2007)

O prêmio, criado em 2017, leva o nome da professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e servidora do Arquivo Nacional Maria Odila Fonseca, importante referência da área de Arquivologia. Segundo Leandro Aguiar, o reconhecimento da sua pesquisa pela premiação também tem um valor afetivo e histórico, pois foi aluno da professora durante sua formação em Arquivologia na UFF entre 2006 e 2010.

*Com informações da Ufam

‘Michael Jackson’ de Roraima mistura passos do rei do pop com forró de galeroso

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Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Foi através dos passos de Michael Jackson que um jovem roraimense misturou os movimentos artísticos do ídolo com o forró de galeroso, ritmo do Norte, para se tornar o ‘Michael Jackson’ de Roraima. Aos 26 anos, Felipe Arroeira decidiu vestir o personagem, se adaptou ao visual do artista e agora ganhou notoriedades nas redes sociais, com direito a contratos de publicidade e patrocínios, transformando o que era uma simples brincadeira em renda extra.

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Quem frequenta a Orla Taumanan, vai em bares, praças ou acompanha conteúdos sobre Boa Vista nas redes sociais, se depara com vídeos com o ‘Michael Jackson’ de Roraima. Fã do artista desde criança, Felipe conta que conheceu as músicas do cantor por parte de pai e que passou a acompanhar, ao longo dos anos, acompanhar os clipes, estudar os passos e pesquisar detalhes das apresentações icônicas do artista, até decidir adaptar o ritmo do forró e criar uma versão própria do artista.

Hoje, os vídeos publicados por Felipe somam mais de 1,7 milhão de visualizações no TikTok e no Instagram. Depois de ganhar espaço nas redes sociais, o personagem passou a fazer parte da rotina de Felipe. Ele é chamado para participar de eventos, aparece em publicidades e circula por diferentes pontos de Boa Vista caracterizado como Michael Jackson.

Pelas redes sociais, ele fecha contratos de publicidade para divulgar lojas, restaurantes e eventos. Nas gravações, o “Michael Roraimense” aparece visitando estabelecimentos, experimentando roupas e apresentando produtos e serviços.

“Criei esse projeto para levar a arte do Michael para que as pessoas que pudessem continuar lembrando dele. Ele é um sustento na minha vida”, afirma Felipe sobre a renda obtida com o personagem.

O clipe favorito do “Michael Roraimense” é ‘Beat It’. Lançado em 1983, no aclamado álbum Thriller, a produção mostra Michael Jackson como um pacificador que usa a dança e a música para impedir um confronto entre duas gangues rivais. A marca registrada do clipe é a jaqueta vermelha de couro, com ombreiras marcantes.

Felipe combina o visual com o chapéu preto modelo Fedora, acessório característico do astro pop. É vestido assim, que ele revive Michael Jackson.

Michael Jackson de Roraima
Como Michael Jackson de Roraima, Felipe frequenta bares, festas e eventos ao redor de Boa Vista desde 2024, quando passou a vestir o personagem. Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

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A caracterização ganhou repercussão nas redes sociais. Felipe criou o personagem em 2024, quando passou a frequentar festas e eventos ligados aos anos 1980. A performance ganhou novos rumos depois que um amigo o incentivou a incluir o forró. O amigo que o incentivou foi Deco Forrozeiro, conhecido como “O rei do Bate-bate”, influenciador e criador de conteúdo sobre o forró de galeroso.

Com a repercussão, Felipe também passou a circular por shoppings caracterizado como Michael Jackson e a fazer publicidade. A homenagem vai além da dança e da caracterização. Ao se transformar, ele acredita que também pode aproveitar a vida de uma forma que, na visão dele, o ídolo não conseguiu, principalmente durante a infância.

“Ele nunca teve a chance de curtir e aproveitar a vida. O tempo que ele tinha era obrigado a trabalhar. Ele quase não curtia a vida”, pontuou.

O encontro de MJ’s: Rodrigo Teaser e Felipe Arroeira. Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Paixão começou na infância

Felipe conheceu Michael Jackson por volta dos 7 anos, por influência do pai, que tinha um CD do cantor. Com o tempo, passou a ouvir as músicas, assistir aos clipes e se interessar principalmente pelas performances e danças do artista.

Ele começou a dançar ainda no ensino médio, por volta de 2018. Seis anos depois, em 2024, passou a se caracterizar como o Rei do Pop e incorporou o personagem às apresentações.

Para aperfeiçoar a caracterização, Felipe pesquisou vídeos na internet e acompanhou outros covers de Michael Jackson. Passou a estudar detalhes como maquiagem, cabelo, roupas e movimentos do cantor. Depois, começou a sair caracterizado pelas ruas de Boa Vista e a participar de festas. Com o aumento da exposição, o personagem deixou de ser apenas uma diversão.

Desde que começou a interpretar Michael, Felipe viveu um marco na trajetória. No dia 16 de agosto, o roraimense conheceu, em Boa Vista, o cantor Rodrigo Teaser, um dos mais conhecidos intérpretes de Michael Jackson: “Realizei meu sonho de conhecer o meu grande ídolo”, disse.

‘Música do Michael Jackson me libertou’

A relação com Michael Jackson também ocupa um espaço íntimo na vida de Felipe. Ele conta que sofreu bullying durante a época da escola e enfrentou momentos difíceis naquele período. Segundo ele, ouvir as músicas do artista trouxe alívio e ajudou a enfrentar a depressão.

“Depois que comecei a escutar o Michael, me senti liberto. A música do Michael me libertou. Comecei a sentir como se fosse alguma coisa que eu não tava vencendo, sentia muita depressão”, conta.

Ele lembra que, naquele período, encontrou nas músicas do artista uma forma de se sentir mais leve: “Comecei a escutar a música do Michael e do nada eu comecei a me sentir mais salvo, mais tranquilo”, confessou.” A experiência também influencia a maneira como ele enxerga o personagem. Felipe afirma que pretende usar a arte para divertir e incentivar outras pessoas.

Foto: Reprodução/Instagram-felipearroeira

Do pop ao forró

Se Michael Jackson ficou conhecido mundialmente por músicas como ‘Thriller’, ‘Billie Jean’ e ‘Beat It’, em Boa Vista o “Michael Roraimense” não fica restrito ao pop.

Felipe frequenta diferentes espaços caracterizado, incluindo lojas, shoppings, bares e festas. Nos forrós, o contraste entre o figurino inspirado no astro e a música tocada nos eventos virou parte da atração. Para ele, essa liberdade é um dos aspectos mais divertidos de interpretar o artista.

Nas ruas e festas, a caracterização também rende encontros com quem reconhece o personagem. Felipe conta que costuma parar para conversar e tirar fotos quando é abordado. “É um carinho enorme, sabe? É uma felicidade que eu tenho”.

Entre os passos do Rei do Pop e os ritmos das festas de Roraima, Felipe encontrou uma maneira própria de interpretar o ídolo que conheceu ainda criança. Agora, quer levar o “Michael Roraimense” para além do estado.

*Por Tiago Côrtes, da Rede Amazônica RR

Instituto investe em tecnologias para ajudar indústria amazônica a ganhar competitividade

Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

No Polo Industrial de Manaus (PIM), empresas buscam soluções para aumentar a eficiência, modernizar processos produtivos e acompanhar a transformação digital da indústria. Esse movimento tem ampliado a atuação do Instituto CERTI Amazônia, que desenvolve tecnologias aplicadas aos desafios do setor produtivo, conectando empresas, pesquisadores e especialistas para transformar demandas do mercado em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I).

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Com 23 anos de atuação, a instituição privada de Ciência, Tecnologia e Inovação já executou mais de 120 projetos de alta complexidade em áreas como hardware, software, automação industrial, digitalização de processos, inteligência tecnológica e Internet das Coisas (IoT). As iniciativas apoiam empresas instaladas no PIM no desenvolvimento de soluções voltadas ao aumento da produtividade e da competitividade.

“Atuamos integradas ao ecossistema como uma ponte estratégica entre a ciência aplicada e as demandas do mercado, desenvolvendo soluções customizadas e sustentáveis”, afirma Marco Giagio, diretor executivo do Instituto CERTI Amazônia.

Marco Giagio, diretor executivo do Instituto CERTI Amazônia. Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

Credenciada pelo Comitê das Atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (CAPDA), da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a CERTI Amazônia atua na execução de projetos financiados pelos investimentos em PD&I realizados pelas empresas da região, decorrente das obrigações da Lei de Informática.

A iniciativa direciona recursos para o desenvolvimento tecnológico, a formação de profissionais especializados e a criação de uma rede que reúne indústria, universidades e startups. Segundo o executivo, um dos principais desafios da instituição é transformar os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação realizados pelas empresas em tecnologias capazes de gerar impacto direto na indústria.

“Ao traduzir esses investimentos em soluções de alto valor agregado, ajudamos as empresas locais a elevar sua eficiência produtiva e ampliar sua competitividade global, mantendo conhecimento e competências avançadas na própria região”, explica.

Além do estado do Amazonas, a atuação da CERTI Amazônia também avançou para o Pará, onde o Instituto implantou uma unidade no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, em Belém. A estrutura amplia a conexão entre ciência, empreendedorismo e mercado, apoiando iniciativas ligadas à sociobioeconomia e ao desenvolvimento de negócios sustentáveis.

Leia também: Incentivo à empreendimentos amazônicos geram inovação em áreas cada vez mais diversas

Com 23 anos de atuação, a instituição privada de Ciência, Tecnologia e Inovação já executou mais de 120 projetos de alta complexidade em áreas como hardware, software, automação industrial, digitalização de processos, inteligência tecnológica e Internet das Coisas (IoT).
Além do Amazonas, a atuação do instituto também avançou para o Pará, onde a empresa implantou uma unidade no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, em Belém. Foto: Divulgação/CERTI Amazônia

Tecnologia abre novos caminhos para a bioeconomia amazônica

A experiência acumulada no Amazonas e também no Pará no desenvolvimento de soluções para a indústria também vem sendo aplicada a desafios relacionados à floresta e ao uso sustentável dos recursos naturais em toda a região. Um dos principais projetos recentes é a Plataforma Digital da Floresta, que conecta dados, tecnologias e conhecimento científico para aproximar a biodiversidade amazônica de oportunidades de negócios. A iniciativa busca criar novas formas de geração de valor a partir dos ativos socioambientais da região.

Em 2025, o projeto recebeu reconhecimento internacional ao conquistar o New Commons Challenge, em Nova York, com uma premiação de US$ 100 mil destinada ao aprimoramento de uma plataforma tecnológica de monitoramento do desmatamento em tempo real e análise do uso do solo.

“O reconhecimento internacional mostra que a Amazônia tem capacidade de desenvolver soluções tecnológicas para desafios globais. A tecnologia é uma ferramenta fundamental para conciliar conservação ambiental, geração de conhecimento e novas oportunidades econômicas para a região”, afirma Giagio.

*Com informações da assessoria