O inseto pertence à mesma família dos barbeiros, denominada Reduviidae. Foto: Jader de Oliveira/Acervo pessoal
Com um único exemplar conhecido no mundo, o inseto do gênero Bagriella ficou por mais de 100 anos esquecido pela ciência. Coletado na América Central, em 1923, e depositado no Museu Nacional de História Natural, em Washington, nos EUA, o pequeno percevejo voltou a aparecer nos registros científicos graças ao trabalho de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara. Imersos em uma das regiões mais remotas da Amazônia, os cientistas capturaram não apenas o primeiro registro do gênero na América do Sul, mas identificaram uma espécie inteiramente nova para a ciência.
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Batizada de Bagriella meneguettii, a descoberta representa um avanço significativo para a taxonomia dos Reduviidae, família dos percevejos predadores, e reforça o quanto a biodiversidade amazônica ainda é pouco conhecida.
“O troféu do taxonomista é quando encontra algo novo. E esse bicho ficou 103 anos esperando por alguém que o reconhecesse”, afirma Jader de Oliveira, pós-doutorando da FCF e co-autor do estudo.
Como a descoberta aconteceu
O achado, publicado em abril de 2026 no Journal of the International Heteropterists’ Society (JHIS), foi resultado da iniciativa Amazonia+10, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que reúne especialistas de diferentes estados.
Originalmente, os cientistas buscavam avaliar a presença e o comportamento dos triatomíneos, popularmente chamados “barbeiros”, vetores da doença de Chagas, focando na biodiversidade dos estados do Acre e Rondônia. Mas a instalação de dez armadilhas luminosas espalhadas em pontos estratégicos na floresta da Serra do Divisor, no Acre, acabou por capturar mais de dez mil insetos de grupos variados. “Dentro dessa miscelânea de insetos, havia uma espécie que me chamou atenção. Desconfiei que poderia ser um Bagriella”, conta Jader.
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O pesquisador da FCF recorreu então ao professor Hélcio Reinaldo Gil Santana, um dos dois únicos especialistas brasileiros na família Reduviidae, que reconheceu a raridade do achado. Juntos, os especialistas procuraram o curador do Museu em Washington, que fotografou o material de 1923 e enviou para confirmação. “Nós olhamos o bicho e eu falei: “O que a gente tem em mãos é uma espécie nova, ele não bate com a descrição da Bagriella ornata”, lembra Jader.
Assim como a ornata, a meneguettii tem um corpo delgado e repleto de espinhos. A diferença morfológica, entretanto, ocorre nas pernas, descritas como raptoriais, e também nas asas. “As características das asas foram fundamentais, porque não “batiam” com a descrição da Bagriella ornata, permitindo a confirmação de que se tratava de uma espécie inédita”, revela Jader.


A escolha do nome
Na taxonomia, é tradição nomear novas espécies em homenagem a pesquisadores que contribuíram para o estudo do grupo ou que exercem papel relevante no campo de pesquisa. Neste caso, a escolha foi um consenso imediato entre os autores. Para eles, o professor Dionatas Ulises de Oliveira Meneguetti, da Universidade Federal do Acre (UFAC), foi peça central na viabilização da pesquisa na região.
Especialista com atuação consolidada no estado, ele foi responsável por criar as pontes que permitiram a equipe de São Paulo trabalhar em uma das áreas mais remotas da Amazônia.
“Sem ele, dificilmente chegaríamos até lá. Ele abriu as portas, conhecia a região, tinha alunos daquela área. Isso facilita tudo, desde o contato com as comunidades locais até o conhecimento do território”, ressalta Jader.
De acordo com os autores, o interesse em realizar a expedição no Parque Nacional da Serra do Divisor ocorreu justamente pela sua localização, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia. “A gente queria entender o que circula nessas áreas de fronteira. Os insetos vetores não reconhecem barreiras geográficas”, explica o pós-doc.
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O achado revela ainda que a biodiversidade da Amazônia precisa ser melhor explorada, ainda mais levando em conta que este bioma vem sofrendo maior pressão econômica, que resulta em sua rápida degradação.
“O ambiente vem sendo tão destruído, que a gente não vai conseguir mensurar o que existia ali de fato. Alguns tipos de fauna, principalmente esses grupos bem pequenos, são endêmicos, ou seja, são encontrados somente naquela região”, reflete o pesquisador da FCF.
Depois da publicação do achado, os cientistas agora planejam utilizar técnicas de DNA no estômago da Bagriella meneguettii para descobrir do que esses percevejos se alimentam, ajudando a montar o “quebra-cabeça” de sua ecologia.
Além disso, eles reforçam a necessidade de realizar amostragens em outros biomas e áreas de transição da Amazônia para confirmar se a espécie é endêmica da Serra do Divisor ou se possui uma distribuição mais ampla. O grupo também espera encontrar um macho da Bagriella, pois tanto a espécie encontrada no Brasil quanto a identificada na América Central são fêmeas. “Isso nos ajudaria a entender melhor a biologia completa desse inseto”, diz Jader.

Uma expedição no limite do mapa
Para chegar à Serra do Divisor, a equipe liderada pelo professor João Aristeu, coordenador da pesquisa “Amazônia+10 no contexto das doenças negligenciadas: caracterização entomoepidemiológica da doença de Chagas em regiões amazônicas de fronteira (Brasil-Bolívia e Brasil-Peru)”, vinculada ao projeto da Amazônia+10, precisou de muita disposição.
Saindo de São Paulo, pegaram um voo que durou 5 horas até Rio Branco. De lá, enfrentaram mais dez horas de carro até a cidade de Mâncio Lima, para então se aventurarem por mais de seis horas de barco subindo pelo Rio Moa.


A base de operações foi estabelecida em cabanas construídas por um ribeirinho local especificamente para receber grupos de pesquisa. À noite, a equipe embarcou novamente e percorria mais 40 minutos de rio para instalar e monitorar as armadilhas luminosas. A região abriga onças, jacarés, serpentes peçonhentas e, como a equipe descobriu ao cruzar com agentes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) durante o trajeto, populações indígenas ainda em processo de primeiro contato com o mundo exterior.
“Foi uma experiência muito gratificante, que nos permitiu sair da bolha acadêmica e conhecer um outro Brasil”, afirma.
Mas o que mais marcou, segundo Jader, foi a oportunidade de estar em campo ao lado do professor João Aristeu, seu mentor e coordenador do projeto. “A gente aprende muito na bancada do laboratório, mas o campo é outro universo. Poder viver essa experiência com o professor Aristeu, dentro da Amazônia, foi o mais gratificante de tudo”, conclui.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Unesp, escrito por Gabriele Maciel
