Guia reúne alertas, fluxos de processos, entre outras orientações. Arte: Reprodução/MPF
O Ministério Público Federal (MPF) lançou uma cartilha informativa sobre os procedimentos e cautelas fundamentais na colocação de crianças e adolescentes indígenas em famílias substitutas. Voltado a magistrados, promotores de Justiça e servidores do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e do Ministério Público do Estado (MPAM), o MPF informa que o documento busca garantir o respeito à diversidade cultural e à legislação vigente.
A publicação foi criada por meio de um trabalho conjunto entre o 15º Ofício do MPF no Amazonas, o Centro de Apoio Operacional às Promotorias da Infância e Juventude (Caoij) do MPAM, a Corregedoria-Geral de Justiça do TJAM e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por meio da Coordenação-Geral de Promoção da Cidadania (CGPC) e da Procuradoria Federal Especializada.
Com linguagem jurídica acessível, o guia (confira no final da matéria) reúne, em um único documento, o marco legal aplicável, alertas para identificação da identidade étnica, fluxos do processo, erros frequentes a serem evitados e um checklist prático. Há ainda uma lista com os contatos diretos de todas as Coordenações Regionais da Funai no estado, simplificando o acionamento do órgão até mesmo nos municípios sem sede física da instituição.
MPF informa que o guia é em resposta a uma demanda estrutural
A elaboração da cartilha atende a uma demanda urgente constatada pelo MPF em procedimento administrativo instaurado após a ocorrência recorrente de casos de crianças e adolescentes indígenas colocados em famílias substitutas sem a prévia intimação da Funai e sem a realização dos estudos antropológicos exigidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Segundo o MPF, o guia criado com linguagem acessível para agilizar o entendimento. Arte: Reprodução/MPF
De acordo com o artigo 28, §6º do ECA, qualquer medida de acolhimento familiar que envolva crianças e adolescentes indígenas precisa preservar sua identidade cultural, dar prioridade à permanência no próprio grupo étnico ou comunitário e contar com a intervenção e oitiva da Funai e de antropólogos na equipe interprofissional que acompanha o caso.
Embora a condução individual das ações de acolhimento tramite na Justiça estadual sob a responsabilidade do MPAM, a procuradora da República Janaina Mascarenhas destaca que a intervenção do MPF – com a instrução do guia – decorre de seu dever constitucional de tutelar os direitos coletivos e difusos dos povos originários.
“Quando esses casos se multiplicam sem o adequado filtro intercultural, o problema deixa de ser individual e passa a revelar uma falha estrutural que afeta coletivamente os povos originários do Amazonas, estado com a maior população indígena do Brasil”, explica.
Com a publicação, os órgãos do sistema de justiça ganham uma ferramenta para assegurar tramitações mais ágeis, humanizadas e alinhadas ao direito intercultural.
O Acre vai receber, no dia 19 de outubro, a quinta edição do Acre Fashion Hair, evento voltado exclusivamente aos profissionais da beleza e promovido pela Hoje Professionals. Realizado no Gran Reserva, o encontro reúne um dia inteiro de workshops e reforça seu papel como um dos principais espaços de atualização técnica do setor no estado.
A cada edição, o Acre Fashion Hair apresenta inovações em técnicas de cabelo, corte e coloração, levando aos cabeleireiros, coloristas e demais profissionais conhecimento e tendências que podem ser aplicados no dia a dia do salão. Todos os anos, o evento traz grandes nomes e embaixadores da Wella Professionals, e a quinta edição mantém essa tradição.
Neste ano, o destaque é Bel Ximenes, embaixadora Wella Professionals, que traz ao público técnicas de visagismo, coloração e tratamento pós-química, temas de grande relevância para quem busca resultados com qualidade e segurança para os fios. Em edições anteriores, o evento já recebeu embaixadores da marca como Bruno Lotufo, Will Anselmo, Gabi Balan, Ricky Moica e Túlio Rodrigues.
Além dos workshops, o evento oferece uma experiência completa aos participantes. A programação inclui almoço e diversos sorteios ao longo do dia, e cada profissional presente receberá um press kit oficial do Acre Fashion Hair.
A expectativa da organização é receber cerca de 200 profissionais da beleza. Na última edição, o evento reuniu participantes de toda a região Norte, com presença de Rondônia e Amazonas, além de profissionais vindos do exterior, como Peru e Bolívia. Com esse histórico, a expectativa para este ano é de grande participação, consolidando o Acre como ponto de encontro de profissionais da beleza da Amazônia.
O Acre Fashion Hair reflete o compromisso da Hoje Professionals e do Grupo J. Cruz com a valorização e a capacitação do profissional da beleza. Ao promover eventos como este, o grupo aproxima o mercado acreano de marcas e referências nacionais, estimula o aprimoramento técnico e fortalece uma cadeia que movimenta a economia local e gera renda para milhares de profissionais.
Com a quinta edição, o Acre Fashion Hair se firma como um evento que acompanha as tendências do mercado e coloca o profissional da beleza no centro, oferecendo informação, inspiração e reconhecimento a quem faz a beleza acontecer.
Acre Fashion Hair – 5ª Edição
📅 Data: 19 de outubro (segunda-feira) 📍 Local: Gran Reserva 🕘 Horário: a partir das 09h 💇 Programação: workshops com Bel Ximenes (embaixadora Wella Professionals), almoço, sorteios e press kit oficial 👥 Público: profissionais da beleza (expectativa de 200 participantes) 🏷 Realização: Hoje Professionals | Grupo J. Cruz 📞 Informações e inscrições: (68) 99283-9954
A poluição do ar provocada por queimadas e incêndios florestais no Amazonas representa um risco à saúde da população, especialmente das comunidades indígenas, que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
O alerta faze parte de levantamento apresentado por pesquisadores do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que reúne dados sobre a concentração de poluentes e a distribuição dos focos de incêndio no estado.
O documento reúne informações sobre as concentrações de material particulado fino (PM2.5), a distribuição dos focos de incêndio e as previsões de qualidade do ar para diferentes localidades do estado. A publicação também aborda os possíveis efeitos da intensificação do fenômeno El Niño em 2026 e 2027 sobre as condições climáticas na região amazônica.
Nos primeiros dias de outubro deste ano, Manaus registrou episódios de poluição atmosférica intensa, com concentrações de PM2.5 muito superiores aos valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Foto: Luciane Marques/Rede Amazônica AM
Composto por partículas capazes de penetrar profundamente nos pulmões e, em determinadas condições, alcançar a circulação sanguínea, o poluente está associado ao aumento do risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, incluindo agravamento da asma, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC).
A exposição representa uma preocupação para toda a população, especialmente crianças, pessoas idosas, gestantes e indivíduos com doenças preexistentes.
Nos territórios indígenas, os riscos associados a exposição à fumaça podem ser agravados pelas desigualdades socioambientais, pelas dificuldades de deslocamento e pelas limitações de acesso aos serviços de saúde, sobretudo à atenção especializada e de maior complexidade.
O levantamento apresenta informações sobre a distribuição territorial das concentrações observadas e previstas de PM2.5 em relação aos focos de incêndio e às aldeias indígenas. O documento também destaca a necessidade de acompanhar as condições ambientais diante da possível intensificação do El Niño, que pode favorecer períodos de estiagem e aumentar o risco de propagação de incêndios florestais em determinadas áreas.
Entre os temas abordados pelo documento está o desenvolvimento do Sistema AlertAr Saúde, ferramenta de monitoramento e previsão da qualidade do ar voltada à saúde indígena, em elaboração pelo Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz em parceria com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.
O sistema busca integrar previsões de concentração de PM2.5 e informações sobre focos de calor e incêndios, permitindo identificar antecipadamente situações de maior exposição nos territórios indígenas. Essas informações poderão subsidiar o planejamento de ações de vigilância, prevenção e resposta pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e suas equipes de saúde.
Uma expedição científica à Serra do Aracá (AM), financiada pela FAPESP, reuniu 16 pesquisadores, de instituições brasileiras e internacionais, para desbravar uma área pouco conhecida da Amazônia. Durante 19 dias, a equipe explorou a biodiversidade de ecossistemas de altitude no norte do Amazonas.
Foram dois acampamentos: um na mata nebular, um tipo de floresta úmida de altitude, constantemente envolvida por neblina ou nuvens baixas, e outro em uma região batizada pelos pesquisadores de Aracazinho, com terrenos predominantemente arenosos e pouca pedra visível.
Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, líder da expedição (no centro da foto): “Os resultados foram muito além do que a gente esperava. Todos os grupos se ajudaram e isso gerou num resultado espetacular”. Foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP
Os especialistas registraram nove espécies de lagartos (das quais cinco são provavelmente novas para a ciência), cinco espécies de cobras (uma delas inédita) e 18 espécies de anfíbios (com cerca de dez prováveis novidades). Entre eles, uma nova espécie de sapo-foguete do gênero Anomaloglossus, fotografada por Phelipe Janning, editor audiovisual de Pesquisa FAPESP.
Com cerca de 2 centímetros de comprimento, esse anfíbio habita riachos, córregos e trechos alagados das formações abertas da Serra do Aracá, onde canta e forrageia durante o dia, explica Taran Grant, professor do Instituto de Biociências da USP.
A modelo indígena utilizou o espaço para divulgar sua cultura. Foto: Runi Shanenawa
O que começou com a vontade de representar a própria cultura em um concurso de beleza terminou com uma coroa nacional. É que a modelo indígena Francisca Milany, conhecida como Runi Shanenawa, de 22 anos, natural de Feijó, no Acre, venceu o Miss Golden Brasil 2026, em São Paulo.
O concurso ocorreu entre os dias 3 e 6 de outubro e reuniu candidatas dos 27 estados brasileiros. A proposta da competição é valorizar a diversidade e a pluralidade da beleza nacional.
Para ela, a conquista tem um significado que vai além da faixa e do título: é também uma oportunidade de mostrar as raízes do seu povo e ocupar espaços sem precisar deixar de lado quem é. Ao Grupo Rede Amazônica, Runi contou que a vitória, no entanto, não era algo em que ela conseguia acreditar quando ouviu seu nome ser anunciado.
“Até agora, ainda estou sem acreditar que isso aconteceu. O Acre é muito apagado e pouco visto, e isso torna essa conquista ainda mais especial. Além disso, eu sei que não me encaixo no padrão tradicional de miss. Então, quando ouvi o nome ‘Miss Golden Acre’, fiquei sem acreditar”, relembrou.
Modelo indígena Runi Shanenawa é de Feijó e conquistou o título de Miss Golden Brasil 2026. Foto: Runi Shanenawa
A modelo relatou que pensou nos ancestrais e nos caboclos que, conforme sua crença, a acompanhavam e a protegiam durante a competição. Durante a coroação, também tocou o maracá, instrumento que fez parte da maneira como escolheu expressar o significado daquela conquista.
“Quando toquei o meu maracá durante a coroação, foi uma forma de agradecer a todas as pessoas que estavam comigo, tanto no mundo material quanto no espiritual”, explicou.
Da beleza Shanenawa à disputa nacional
Antes de chegar ao Miss Golden Brasil, Runi já havia participado de outros concursos. Em 2024, ela disputou o Beleza Shanenawa, competição que elege a beleza do povo Shanenawa e reúne meninas de diferentes comunidades indígenas. Ela também participou do Miss Universo Feijó, no qual ficou em terceiro lugar.
As experiências anteriores ajudaram a modelo a conhecer melhor a dinâmica desse tipo de competição. Ainda assim, foi no Miss Golden Brasil que ela diz ter encontrado uma forma de participar sem sentir que precisava separar a trajetória como modelo de sua identidade indígena.
Para Runi, essa possibilidade de apresentar a própria origem foi justamente o que tornou a disputa diferente das experiências anteriores. Em vez de deixar a cultura restrita à vida pessoal, ela encontrou no concurso um espaço para falar sobre o povo ao qual pertence e representar o Acre a partir dessa identidade.
“Acredito que me encontrei mesmo no Miss Golden Brasil, porque é um concurso onde posso trazer a minha cultura e as minhas raízes sem medo”, afirmou.
A chegada à etapa nacional não aconteceu sem dificuldades. Runi relatou que teve pouco tempo para se preparar e enfrentou obstáculos para conseguir apoio financeiro. Embora já tivesse experiência, ela reconhece que ainda tem pontos a aperfeiçoar, especialmente na passarela.
“Minha preparação foi curta, mas, como eu já tinha uma vivência de confinamento, essa parte foi tranquila pra mim. Em relação à passarela, foi algo que consegui me preparar pouco, e acredito que ainda preciso me aperfeiçoar bastante”, diz.
A preparação, porém, não se limitou ao desempenho na passarela. Para a competição, Runi queria usar roupas indígenas que tivessem relação com sua identidade e com a maneira como se reconhece.
“Eu queria levar looks indígenas que tivessem a ver comigo e com quem eu sou. Consegui pessoas e marcas que me ajudaram desde o início e sou muito grata por isso”, destacou.
Para Runi Shanenawa, a conquista do título representa uma oportunidade de valorizar a cultura do povo Shanenawa — Foto: Arquivo pessoal
Mesmo com os apoios recebidos, chegar à disputa nacional exigiu lidar com recusas e com a falta de recursos. A modelo disse que teve poucos patrocinadores e que nem todas as pessoas procuradas acreditaram na possibilidade de sua participação.
Para ela, ter pessoas que confiaram em seu potencial desde o início fez diferença para que conseguisse chegar à etapa nacional.
“Recebi muitos nãos, mas sou eternamente grata a quem me deu um sim, porque essas pessoas não me viraram as costas e enxergaram potencial em mim, até quando eu mesma não acreditava tanto”, relembrou.
Representação
Entre as pessoas que tiveram papel importante nessa trajetória, Runi destaca a própria família. Mais do que o apoio durante a preparação, ela atribui aos ensinamentos dos familiares o conhecimento que levou para o concurso e que considera fundamental para representar o povo Shanenawa.
A escolha dos looks, o maracá durante a coroação e a maneira como fala sobre os ancestrais aparecem, em seu relato, como expressões dessa ligação com as próprias origens. Para Runi, representar o Acre nacionalmente também significa levar consigo a cultura do povo ao qual pertence.
“Foi através dos ensinamentos deles que cresci e aprendi bastante sobre a minha cultura. Por isso, eu sabia falar e expressar muito bem quem é o meu povo e representar o meu estado”, afirmou.
Modelo indígena Runi Shanenawa é de Feijó e conquistou o título de Miss Golden Brasil 2026. Foto: Runi Shanenawa
“Revolução”
Ao falar sobre o que significa conquistar o Miss Golden Brasil como mulher indígena Shanenawa, Runi resume a experiência em uma palavra: revolução.
“Pra mim, é uma revolução. Ser a primeira Miss Acre a conquistar esse título nacional e, além disso, ser a primeira Miss Golden Brasil é algo muito importante, porque agora vou representar o meu povo, os povos indígenas e todas as mulheres”, afirmou
A modelo disse que pretende usar o espaço conquistado para apresentar sua cultura e suas raízes, além de incentivar outras mulheres a buscarem oportunidades sem sentir que precisam esconder a própria identidade para serem aceitas.
“Quero mostrar ao mundo a minha cultura, a minha essência e as minhas raízes. Quero incentivar outras mulheres, principalmente outras mulheres indígenas, a conquistarem seus espaços na sociedade sem medo de serem quem são”, declarou.
Runi Shanenawa destaca que os ensinamentos da família sobre a cultura indígena foram fundamentais para representar o povo Shanenawa no Miss Golden Brasil 2026. Foto: Runi Shanenawa
A intenção, segundo ela, é manter essa valorização cultural presente durante o período em que carregar o título. Runi afirma que tem orgulho da própria origem e quer fazer questão de falar sobre ela nos espaços que passar a ocupar como Miss Golden Brasil 2026.
“Sou apaixonada pela minha cultura e pela minha origem, então vocês terão uma miss que vai sempre fazer questão de valorizar e exaltar a sua cultura por onde passar”, completou.
Agricultura de Roraima sofreu uma queda histórica entre 30% e 50% na safra de 2026. A redução foi provocada pela seca decorrente do fenômeno El Niño. Foto: Esio Mendes
A agricultura em Roraima sofreu uma queda histórica entre 30% e 50% na safra do ano de 2026, segundo dados do setor produtivo reunidos em uma nota técnica sobre os impactos do El Niño na Região Norte. O documento foi produzido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele pode alterar a circulação da atmosfera e mudar padrões de chuva, temperatura e vento em diferentes partes do mundo.
O prejuízo à safra começou com a falta quase total de chuvas no mês de julho, período em que as lavouras precisavam de água para o crescimento e enchimento dos grãos. A estiagem deve ocorrer até março de 2027.
Diferente do restante da Amazônia, o estado possui um calendário de chuvas invertido. Por causa dessa característica própria do clima local, a seca forte causada pelo fenômeno climático El Niño começou de forma antecipada e “sem precedentes” no campo roraimense.
Entre os mais afetados pela estiagem estão os pequenos produtores rurais. Para o agricultor Sérgio Fernandes Medeiros, a perda é total na lavoura.
“Para esse ano a expectativa praticamente é zero, né? A gente está vendo aqui atrás o plantio, isso aqui a gente já deu como perdido”, lamenta.
O dado do impacto na safra foi apresentado por um representante do setor produtivo durante o Primeiro Seminário de Mudanças Climáticas Globais, realizado em Boa Vista. O cenário também consta em uma nota técnica elaborada por pesquisadores, incluindo equipes da Embrapa Roraima.
As perdas também atingem os grandes agricultores. A safra de soja deve cair pela metade neste ano, com prejuízo estimado em R$ 2 bilhões, segundo a Associação dos Produtores de Soja de Roraima (Aprosoja-RR).
“O produtor esse ano, ele vai colher e não vai conseguir honrar com os seus compromissos, não vai conseguir pagar as contas. Ele vai trabalhar o ano inteiro e ainda vai ficar devendo”, projeta Murilo Ferrari, presidente da Aprosoja-RR.
Foto: Raquel Maia
El Niño em Roraima
Segundo o documento, o El Niño de 2026 e 2027 é de forte intensidade. Isso traz temperaturas elevadas e períodos prolongados de seca para toda a Região Norte.
Um “termômetro” da estiagem em Roraima é o Rio Branco, o principal rio do estado, cuja medição registrada neste domingo (11), estava em 63 centímetros em Boa Vista.
O número de focos de calor em Roraima este ano é de 2.035, segundo dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O número é 36,9% maior do que o registrado em todo o ano de 2025, que foi de 1.539.
Os focos de calor são zonas onde há ressecamento e elevação de temperatura que podem ocasionar incêndios. Atualmente, Roraima está no período de seca, que tradicionalmente ocorre de outubro a março do ano seguinte.
Além de prejudicar as plantações, a estiagem prolongada (longo período sem chuvas) aumenta o risco de incêndios florestais e diminui o nível de água disponível no solo e nos rios. A situação exige medidas urgentes de prevenção para conter novas perdas no estado.
Para proteger as plantações e a criação de animais, os especialistas orientam a suspensão total do uso do fogo para limpeza de áreas rurais. A recomendação é cobrir o solo com palha para reter a umidade e adotar sistemas de irrigação por gotejamento.
Projeto de monitoramento é uma parceria entre o Ifap e o Iepa. Foto: Divulgação/PCMC
Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa) e do Instituto Federal do Amapá (Ifap) iniciaram o Projeto de Caracterização e Monitoramento de Tetrápodes Marinhos (PCMT) para monitorar o encalhe de animais marinhos na costa do Amapá e no norte da Ilha do Marajó (PA).
A iniciativa começou após a descoberta de uma nova reserva de petróleo na costa amapaense em 2 de setembro e busca acompanhar possíveis impactos da atividade na fauna da região.
O monitoramento inclui baleias, botos, golfinhos, tartarugas e aves marinhas. O trabalho começou em 21 de setembro, a cerca de 130 quilômetros do Poço Morpho, e atende a uma exigência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a realização de pesquisas sísmicas no litoral do Estado.
O projeto reúne uma equipe formada por biólogos, cientistas ambientais, médicos-veterinários e outros especialistas. A coordenação geral é do Instituto Bicho d’Água, do Pará.
O objetivo é monitorar e atender casos de encalhe de animais marinhos durante a realização das pesquisas sísmicas. As atividades incluem o monitoramento de praias, atendimento e análise dos animais encontrados, realização de necropsias e ações de educação ambiental nas comunidades costeiras.
A pesquisa sísmica é uma técnica realizada em alto-mar que utiliza ondas sonoras para mapear o fundo do oceano e as camadas subterrâneas. O método é amplamente utilizado em estudos ambientais e na exploração de petróleo e gás.
Uma das metas dos pesquisadores é identificar se os encalhes registrados na região da foz do Rio Amazonas têm relação com as pesquisas sísmicas realizadas no oceano.
Uma das hipóteses analisadas é que as ondas sonoras emitidas pelos equipamentos possam alterar a rota de alguns animais marinhos. Como a audição é fundamental para a orientação e comunicação dessas espécies, os sons produzidos pelas pesquisas podem influenciar seu deslocamento.
Além de avaliar possíveis impactos ambientais, os dados coletados ajudam os pesquisadores a conhecer melhor a diversidade de espécies que vivem na costa amazônica.
Segundo a coordenadora Cláudia Funi, iniciativas desse tipo contribuem para ampliar o conhecimento científico sobre a fauna marinha da região.
“Grande parte dos estudos da região marinha e costeira do país existe por causa de recursos desta natureza. Isso é muito importante para a ciência conhecer mais sobre a diversidade da fauna na região”, disse a coordenadora Claúdia Funi.
Praia do Goiabal, em Calçoene, é um dos locais monitorados. Foto: Isadora Pereira/Rede Amazônica AP
Entre os animais monitorados está o boto-cor-de-rosa, uma espécie de água doce que apresenta características consideradas importantes para as pesquisas científicas.
“O boto cor-de-rosa, apesar de não ser oceânico, foi contemplado para que possamos coletar material para análises e assim conhecer um pouco mais sobre a espécie, especialmente no que se refere à saúde animal. Por exemplo: identificar contaminação por mercúrio ou outras substâncias”, explicou Funi.
Em média, a cada 15 dias, equipes do projeto percorrem a Praia do Goiabal, no litoral do Amapá, para identificar possíveis encalhes.
Além do monitoramento, o grupo promove campanhas de conscientização em comunidades costeiras. Os moradores recebem orientações sobre como agir ao encontrar um animal encalhado e como acionar as equipes responsáveis pelo resgate.
Quem encontrar um animal marinho encalhado pode entrar em contato com a equipe do projeto pelo Disk Encalhe: (96) 99116-3712.
Monitoramento em projeto anterior registrou espécies raras na costa amazônica
Antes do PCMT, os pesquisadores desenvolveram o Projeto de Caracterização e Monitoramento de Cetáceos (PCMC). A iniciativa tinha foco em espécies como botos, baleias e golfinhos, além de aves e tartarugas marinhas.
Durante o período de execução do projeto, entre julho de 2024 e abril de 2026, diversas ocorrências de encalhes foram atendidas e monitoradas pelas equipes.
Um dos casos acompanhados foi o de uma baleia com cerca de 14 metros de comprimento, encontrada morta e encalhada na Ilha da Viçosa, no arquipélago do Marajó.
O animal foi encontrado por moradores da região e a principal hipótese é de que se tratava de uma baleia-de-bryde (Balaenoptera brydei).
Outro registro importante foi o de uma cachalote-pigmeu encontrada morta na praia do Goiabalinho, em Calçoene.
O caso marcou o primeiro registro de encalhe da espécie na costa amazônica. Apesar de ser frequentemente confundido com uma baleia por causa do porte, o animal pertence ao grupo dos golfinhos.
O mamífero media cerca de 3 metros de comprimento e já estava em avançado estado de decomposição quando foi encontrado por um morador da região.
Pesquisadores coletam amostras de cachalote-pigmeu na praia do Goiabalinho, em Calçoene, no Amapá. Foto: José Eduardo Lima/PCMC-AP
Nova descoberta de Petróleo
O poço fica no bloco FZA-M-59, na chamada Margem Equatorial, região do litoral brasileiro com potencial para exploração de petróleo e gás. A perfuração ocorre em águas ultraprofundas, a cerca de 2,9 quilômetros de profundidade.
A empresa já havia encontrado petróleo no mesmo poço em agosto. Agora, ao avançar a perfuração para uma área mais profunda, identificou uma nova zona com presença de petróleo.
Segundo comunicado da companhia, a descoberta foi confirmada por análises de rochas e de amostras de fluidos coletadas durante a perfuração.
Segundo a Petrobras, os estudos sobre a nova descoberta continuam em andamento. A empresa analisará em laboratório as amostras coletadas durante a perfuração e cruzará os resultados com os demais dados obtidos no poço.
No caso da descoberta anunciada em agosto, as análises já realizadas confirmaram que o petróleo encontrado é de boa qualidade.
Em nota, a Petrobras afirmou que a exploração do bloco integra uma estratégia de longo prazo para ampliar suas reservas de petróleo e gás e ajudar a atender à demanda de energia do país.
Aline Tavares e Luis Paulo viajam pelo Brasil desde dezembro de 2023. Foto: Aline Tavares e Luis Paulo/Arquivo pessoal
Acordar em uma cidade, dormir em outra e mudar os planos no meio do caminho. Para Aline Tavares e Luis Paulo, a rotina não depende de um endereço fixo nem de uma passagem de volta.
É que há quase três anos, o casal trocou a vida que levava no interior do Rio de Janeiro por uma casa sobre rodas (motorhome) e chegou ao Acre entre os dias 10 e 11 para descobrir de perto uma cultura que consideram pouco explorada pelo turismo.
Em Rio Branco, os viajantes afirmaram querer ir além dos pontos turísticos mais conhecidos. A ideia, segundo os dois, é experimentar a culinária, conhecer as paisagens e conviver com os moradores para entender melhor o modo de vida da região.
De acordo com Aline, a parada no estado também faz parte de um caminho maior. Ela e o marido pretendem seguir até o Peru, mas, como já aprenderam na estrada, não há roteiro que não possa mudar.
“Resolvemos ficar aqui por alguns dias para sentir a cultura do Acre. Um dos destaques daqui é uma cultura diferente de outras regiões do Brasil. A comida é mais forte, todo mundo é receptivo. A gente chegou aqui já se sentindo em casa, fomos muito bem recebidos. Então, nosso objetivo é viver um pouquinho, ter essa vivência da região, sabe?’, contou.
casal viaja pelo Brasil desde dezembro de 2023 e chegaram ao Acre no último final de semana. Foto: Seronilson Marinheiro/Rede Amazônica
A chegada ao Acre já rendeu experiências que entraram para a coleção de histórias da viagem. Uma delas foi o calor logo nas primeiras horas da manhã do último domingo (11). Ao sair para correr, por volta das 7h, o casal sentiu uma temperatura que, segundo Aline, parecia a de uma tarde inteira.
“Foi a primeira vez que a gente viu 42 graus, 7H da manhã. […] A volta parecia que já era insolação”, brincou.
Aline e Luis Paulo também foram ao Mercado do Bosque, um dos espaços tradicionais da capital, para experimentar comidas típicas da região.
No cardápio da descoberta, entraram o quibe de arroz, o quibe de macaxeira, o mingau de banana comprida, também conhecida como banana-da-terra, e o mingau de farinha de tapioca.
casal experimenta comidas típicas do Acre durante visita ao Mercado do Bosque, em Rio Branco. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Mudança
A vida sobre rodas começou a tomar forma depois de um encontro de motorhomes em São Paulo. Aline e Luis Paulo já gostavam de acampar e fazer trilhas, mas conhecer pessoas que viajavam dessa maneira fez o casal perceber que poderia transformar a vontade de conhecer o Brasil em um estilo de vida.
A escolha foi rápida. Em cerca de três meses, eles decidiram como queriam viver, organizaram a mudança e conseguiram o trailer. Aline pediu exoneração do cargo público que ocupava, enquanto Luis Paulo colocou à venda o restaurante que mantinha na região onde moravam.
O estabelecimento tinha 260 lugares e servia diferentes tipos de comida. Como era conhecido, atraiu interessados assim que o proprietário anunciou a venda. O negócio foi fechado em apenas dois dias.
“Quando a gente comentou que ia vender, apareceu muita gente. A gente conseguiu vender em dois dias, assim. E aí foi até um susto, porque eu queria vender, mas você fica com medo, né? Quando vendeu, sabe quando você quer, mas logo chega alguém e fala: ‘Não sei se eu quero’. Aí ficamos com medo, mas conseguimos vender”, lembrou Luis Paulo.
Casa sobre rodas de Aline e Luis Paulo chega ao Acre. Foto: Seronilson Marinheiro / Rede Amazônica
A decisão, segundo Aline, veio da vontade de realizar um sonho enquanto ainda havia tempo para aproveitá-lo. Para ela, esperar a aposentadoria para começar a fazer o que gosta não era a única possibilidade.
O casal começou oficialmente a viver na estrada em dezembro de 2023. Desde então, a viagem passou a ser também uma forma de trabalho: eles compartilham pelas redes sociais a rotina, os lugares que conhecem e as experiências acumuladas pelo caminho para incentivar outras pessoas a perseguirem os próprios objetivos.
“Eu acho que a gente é muito acostumado a trabalhar a vida inteira, CLT, para se aposentar e aí fazer o que ama, né? E às vezes não dá tempo. A gente conheceu vários exemplos de pessoas que não deram tempo, amigos próximos nossos. Então a gente resolveu fazer, dar tempo antes de ficar velhinho”, explicou.
Uma casa pequena para viver
A casa do casal é um trailer adaptado para a rotina de duas pessoas. O espaço tem cozinha compacta, fogão de duas bocas, geladeira e uma mesa pequena, que também serve para as refeições. Para eles, ter o necessário é mais importante do que contar com um veículo enorme.
A escolha também tem relação com a logística. Como passam a maior parte do tempo na rua, precisam encontrar lugares para estacionar, abastecer com água e lidar com as necessidades do dia a dia. Um veículo muito grande, segundo Luis Paulo, poderia tornar essas tarefas mais complicadas.
O casal costuma dormir em locais públicos, e não em campings ou hotéis, com exceções pontuais. Por isso, a segurança é uma preocupação constante. Entre os imprevistos mais comuns estão problemas com a energia, falta de água e a necessidade de mudar o local onde estacionaram.
“Eu brinco que a gente é morador de rua. A gente tá há três anos dormindo na rua, literalmente. […] Então a gente fica sempre com esse medo de ser seguro”, relatou Luis Paulo.
Casa sobre rodas tem cama, cozinha compacta com fogão de duas bocas, geladeira e uma pequena mesa, onde o casal vive durante as viagens. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Até agora, segundo ele, os problemas foram administráveis, sem acidentes ou situações graves. Quando precisam lidar com algum imprevisto, tentam adaptar a rotina e aproveitar o tempo disponível.
A divisão das tarefas também faz parte dessa adaptação. Aline fica responsável pela cozinha, enquanto Luis Paulo cuida da limpeza. Os dois dirigem e se revezam nas viagens mais longas, embora as manobras com o trailer exijam mais atenção.
Para ele, a convivência constante exige diálogo e colaboração. Como os dois compartilham um espaço pequeno durante praticamente todo o dia, os acordos são essenciais para evitar conflitos.
“Se você não tiver uma troca, uma comunicação e uma troca de atividades, sempre vai dar briga”, resumiu.
‘Ir com medo mesmo’
Apesar de incentivar outras pessoas a conhecerem a estrada, o casal evita tratar a mudança como uma receita que funciona para todo mundo. Luis Paulo reconhece que a decisão dos dois foi arriscada e diz que não seria responsável recomendar que qualquer pessoa abandonasse o emprego e começasse a viajar sem considerar a própria realidade.
“Eu brinco que a gente foi o louco que deu certo. […] A gente fica com muito medo de dar dicas, porque eu vou falar: ‘Larga seu emprego, vai viajar’. E aí? É muito complicado isso”, ponderou.
Casal que viaja em casa sobre rodas chega ao Acre para conhecer tradições locais. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Aline também reconhece que o medo continua presente, mesmo depois de anos de viagem. Para ela, a experiência mostrou que não é necessário ter um veículo luxuoso ou levar tudo o que se imagina precisar para começar.
“Minha dica é ir com o que você tem, ir com medo mesmo. Acredita que vai dar certo. […] Às vezes a gente acha que precisa se organizar e ter um motorhome de um milhão, de ter isso, de ter aquilo. […] É na estrada que você vai ver se precisa de mais, se precisa de menos. Na maioria das vezes, você precisa de menos”, completou.
*Por Jhenyfer de Souza e Júnior Andrade, Rede Amazônica Acre.
Projeção da Organização Meterológica Mundial prevê pico do fenômeno climático em dezembro de 2026. Foto: Reprodução/NOAA
Já consolidado em projeções, o fenômeno El Niño está se fortalecendo rapidamente e a probabilidade do evento climática persistir até fevereiro de 2027 é de praticamente 100%. Esse foi o alerta dado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), na divulgação do seu boletim mensal o clima sazonal global.
De acordo com o documento, as temperaturas da superfície do mar nas partes Central e Oriental do Oceano Pacífico Tropical devem atingir recordes durante os meses de outubro, novembro e dezembro de 2026. Isso se deve, segundo o boletim, ao fortalecimento do evento El Niño que irá condicionar os padrões climáticos e afetar economias, ecossistemas e comunidades ao redor do mundo.
Boletim mensal da OMM prevê pico do El Niño para dezembro deste ano. Imagem: Reprodução/OMM
Por conta disso, o episódio de El Niño continuará a se intensificar antes de atingir seu auge, esperado para dezembro. O levantamento prevê, ainda, a probabilidade que as temperaturas cheguem acima da média em grande parte do planeta e altere os padrões de precipitação, um cenário em que o risco de secas e enchentes aumentaria em várias regiões.
“O episódio de El Niño foi consolidado e está se fortalecendo rapidamente. De acordo com as previsões da OMM, a probabilidade de que o evento persista até fevereiro de 2027 é praticamente 100% e pode ser um dos episódios mais intensos desde pelo menos 1950”, disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
Essa porcentagem, que pinta um quadro quase inequívoco, não é resultado de um modelo. É uma visão consensual baseada nos resultados de 13 centros nacionais e internacionais , cujo compilado de dados que só é possível graças à troca em tempo real das informações sobre as boias oceânicas, satélites e radiossondas coordenadas pela OMM.
“El Niño não adiciona mais calor ao planeta, mas libera calor que o oceano já armazenou abaixo da superfície. Por isso, um episódio intenso tantas vezes faz com que o ano do evento se torne um dos mais quentes já registrados, como aconteceu em 2024”, explicou ele no Fórum Mundial do Calor realizado em Bangkok (Tailândia).
As temperaturas anormais da superfície do mar são medidas com o índice Niño 3,4, a métrica mais comumente utilizada. Os valores registrados aumentaram significativamente, passando de uma média de 1,6 °C acima do normal em junho de 2026 para 2,5 °C acima do normal em agosto.
Nos meses de outubro, novembro e dezembro, a anomalia média sazonal da temperatura da superfície do mar quantificada com o índice Niño 3,4 deve atingir aproximadamente +3,7 °C e atingir seu pico por volta de dezembro. Este é o valor mais alto desde o início das observações e supera o recorde anterior de +2,6 °C registrado entre novembro de 2015 e janeiro de 2016.
El Niño 2026 promete ser o mais intenso das últimas décadas. Foto: Nasa/Divulgação
Por outro lado, as temperaturas da superfície do mar na região equatorial da bacia atlântica devem permanecer acima do normal, segundo dados do boletim climático sazonal global.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O segundo turno das Eleições 2026 enseja momento oportuno para o amadurecimento e o aprofundamento do debate político sobre medidas e reformas estruturais da economia do Amazonas. Os candidatos Omar Aziz e Maria do Carmo Seffair devem à sociedade a discussão de planos e programas que demonstrem como conciliar políticas públicas e disponibilidade de recursos orçamentários/financeiros para que saiam do papel.
Além de saúde e educação, tópicos como segurança pública, infraestrutura de transporte fluvial e rodoviário (BR-319), a capilarização dos benefícios da ZFM em favor da economia do interior, e, especificamente, o saneamento básico. Em relação a este programa, estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, em média, cada 1 dólar investido em água e saneamento gera uma economia de 4,3 dólares em custos de saúde pública.
A relação de 1 para 4 demonstra que o saneamento básico atua diretamente como medicina preventiva, reduzindo a pressão sobre hospitais e sistemas públicos de saúde. Especificamente, na prevenção de doenças de veiculação hídrica (segundo a OMS, o acesso à água tratada e à coleta de esgoto evita a proliferação de mais de 100 tipos de enfermidades, como diarreia, cólera, hepatite A, tifo e leptospirose); redução de internações hospitalares e menos gastos com remédios e tratamentos (evitando que a população adoeça, o governo economiza recursos públicos com leitos, exames, consultas de urgência e medicamentos, além de maximizar a eficiência da política setorial).
Do ponto de vista da economia da Zona Franca de Manaus (ZFM), restrita aos setores industrial, comercial e de serviços, para se ajustar ao padrão global 4.0 terá obrigatoriamente de investir fortemente em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P,D&I) tendo em vista tentar acompanhar os níveis tecnológicos e de inovação praticados nos países líderes mundiais. Não me refiro apenas às grandes economias, mas a emergentes como Malásia, Indonésia, Polônia, Irlanda, alguns países do Leste europeu, ao Vietnã, que hoje, após destruído pela guerra em 1975, já dispõe de uma estrutura exportadora nos níveis do Brasil.
Foto: Reprodução/Arquivo/Secom AM
Enquanto isso, a capital amazonense, que abriga seis dentre as maiores favelas do Brasil, mantém sua população à margem dos benefícios e ganhos do modelo industrial da ZFM. De acordo com o Estudo Síntese de Indicadores Sociais 2024 mostra que em 2023 45,5% da população do Amazonas vivia abaixo da linha de pobreza, e o rendimento domiciliar per capita médio de R$1.166 ficou entre os mais baixos da região. A situação se agrava em relação à massa populacional do interior do Estado devido a baixa expressão econômica do agronegócio estadual, que representa apenas 3,8% do PIB do Amazonas, segundo dados do IBGE/SEDECTI relativos a 2023.
A exploração da biodiversidade, da mineração, da produção de alimentos, do manejo florestal sustentável e do ecoturismo, por outro lado, poderão proporcionar novos contornos aos atuais indicadores macroeconômicos do Amazonas, que, conforme dados da SEDECTI apontam uma concentração de 85% do Produto Industrial (PIM, basicamente), 92% do ICMS arrecadado e 77,5% do PIB estadual na capital do Estado. Identificadas as vocações econômicas via Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), a exploração dos recursos da biodiversidade poderão conferir maior distribuição da riqueza, do emprego e da renda nos municípios interioranos, em síntese os componentes básicos, fundamentais do processo de desenvolvimento.
O momento, certamente, não é de festa, mas de reflexão sobre ganhos e perdas. Precisamos repensar os 59 anos da ZFM desde sua instalação em 1967, e avaliar com precisão, por meio de sério e profundo diagnóstico os pontos de fragilidade, os erros cometidos, os desvios do modelo e quais as prioridades a serem eleitas para fundamentar e consolidar a economia do Amazonas no horizonte 2073 independentemente de favores fiscais.
Os caminhos são espinhosos, complexos, é certo, porém, levando em conta a sabedoria milenar chinesa, “a melhor época de se plantar uma árvore foi há 20 anos; a segunda melhor época é agora!”.
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).