Diego Mascarenhas é eleito presidente no Caprichoso e Marialvo Brandão vence eleição no Garantido. Fotos: Reprodução/Instagram-diegolmascarenhas e marialvobrandao
Protagonistas do maior espetáculo folclórico à céu aberto do mundo, os bois Caprichoso e Garantido, de Parintins (AM), conheceram neste domingo (13) as novas diretorias que irão comandar a agremiação pelos próximos três anos. Em votações simultâneas nas cidades de Manaus e Parintins, os sócios dos bois elegeram Diego Mascarenhas, do Caprichoso, e Marialvo Brandão, do Garantido, como presidentes para o triênio 2027-2029.
Pelo lado azul, Mascarenhas, que até então era o vice-presidente do bumbá e diretor-geral da Marujada de Guerra, comandará o boi Caprichoso ao lado de Edwan Oliveira, eleito vice-presidente. A chapa vencedora, ‘Caprichoso Unido, Forte e Vencedor’, disputou a presidência contra a chapa ‘Renovação e Tradição’, formada pelo advogado Márcio Azêdo e Afrânio Gonçalves. O eleitos receberam 2.079 votos contra 1.826 do segundo lugar.
Entre as propostas da nova diretoria do Boi da Francesa, estão a ampliação e modernização do Curral Zeca Xibelão e a revitalização do Clube Caprichoso. O grupo também pretende transformar o curral em um espaço com atividades e eventos ao longo de todo o ano.
Diego Mascarenhas e Edwan Oliveira, novo presidente e atual-presidente do Caprichoso. Foto: Reprodução/Instagram-boicaprichoso
Já pelo lado vermelho, Marialvo Brandão também era até então o vice-presidente do Garantido. Ele é considerado dos principais artistas de alegorias do Festival Folclórico de Parintins e foi eleito para comandar o Boi da Baixa ao lado do vice Albano Albuquerque.
A chapa vencedora, ‘Por um Garantido Campeão’, recebeu 3.261 votos e venceu a disputa pela presidência da agremiação, que tinha outras duas chapas concorrentes: ‘Garantido Campeão’, do cantor Rafael Júnior (recebeu 812 votos), e ‘Raízes Fortes’, liderada por Ronildo Monteverde (que contabilizou 157).
Regularização da parte financeira, manutenção da folha de pagamento dos fornecedores e melhorias na estrutura da agremiação estão entre as propostas da nova presidência.
Marialvo Brandão e Albano Albuquerque, eleitos como presidente e vice-presidente do Garantido, respectivamente. Foto: Reprodução/Instagram-boigarantido
Eleição dos presidentes
A eleição dos bois ocorreu de forma presencial em Manaus e Parintins. Na capital amazonense, os associados votaram no Sambódromo, das 8h às 15h.
Em Parintins, a votação foi realizada em dois locais: sócios do Caprichoso compareceram na Escolinha de Artes, ao lado do Curral Zeca Xibelão, enquanto que os associados do Garantido foram até o Centro de Educação de Tempo Integral (Ceti) Gláucio Gonçalves, no bairro São Vicente de Paula.
Somente associados com situação regular junto às agremiações puderam participar da eleição.
Bois de Parintins definiram novas diretorias para os próximos três anos. Foto: Yesid Rodrigues/ João Guilherme/ Creative Commons
Os golfinhos são mamíferos aquáticos pertencentes à família dos cetáceos, conhecidos por sua alta inteligência, seus corpos adaptados para natação rápida e seu comportamento social muito ativo. Entre as variedades dessa espécie, destaca-se o boto cor-de-rosa (ou boto-vermelho), cujas características únicas nos convidam a aprender mais sobre ele.
O dia 12 de setembro é marcado como Dia Mundial do Golfinho, em alusão à importância da preservação da espécie. Confira alguns fatos importantes sobre o boto cor-de-rosa, o que o torna tão especial e por quais outros nomes ele é conhecido na Amazônia:
Descrição do boto amazônico
O boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é uma espécie de golfinho que, ao contrário dos que vivem no mar, habita exclusivamente rios, lagos e lagoas de água doce nas bacias dos rios Amazonas (Peru, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana) e Orinoco (Venezuela).
Foto: ANDINA / Editora Perú
É a maior espécie de golfinho de rio e lago. Seu corpo tem formato de torpedo, mede cerca de 2,5 metros de comprimento, pesa em média 160 quilos e pode viver até 30 anos.
Assim como todos os golfinhos, essa espécie também não possui nariz. Ela usa um orifício no topo da cabeça, chamado espiráculo, para respirar quando vem à superfície.
Essa variedade de golfinho possui uma anatomia flexível, já que tem vértebras cervicais não fundidas que lhe permitem girar a cabeça 90 graus, ideal para nadar, transpor troncos, rochas e outros obstáculos, além de procurar alimento entre as árvores das florestas alagadas.
Sua dieta é diversificada, especialmente durante a estação chuvosa, e é composta por mais de 53 espécies, incluindo piranhas. Além disso, é geralmente uma espécie solitária, embora as mães possam ser encontradas com seus filhotes e em grupos de até quatro indivíduos.
A fêmea dá à luz um único filhote após 11 a 12 meses de gestação, e esse filhote permanece com a mãe até completar dois anos de idade.
Por que ele é rosa?
A coloração rosada dos botos amazônicos pode ser influenciada pela localização dos capilares sanguíneos sob a pele, pela dieta e pela exposição à luz solar. Embora sejam comumente chamados de botos cor-de-rosa, os adultos podem ser rosados ou cinzas, e os filhotes são sempre cinzas. Golfinhos com uma tonalidade rosa mais vibrante atraem mais a atenção das fêmeas, facilitando o acasalamento e a reprodução.
Presente em países amazônicos que abrigam os rios em que esses animais vivem, a espécie ganha outros nomes. Por isso, também é chamado apenas de boto, de golfinho, de bufeo colorado e até tonina, pelas comunidades nativas das bacias do Amazonas e do Orinoco.
Espécies consideradas mitológicas
O boto cor-de-rosa é protagonista de inúmeras lendas entre os povos amazônicos da América do Sul. Uma dessas lendas afirma que eles se transformam em belos homens conhecidos como bufeo – daí o bufeo colorado – ou boto encantado, para seduzir e engravidar mulheres à noite.
Outra história contada no Peru diz que, se uma pessoa nadar sozinha, eles podem levá-la a uma cidade subaquática mágica, o que gerou um medo local de se aproximar da água entre o amanhecer e o anoitecer, ou de entrar em rios, lagos e lagoas sozinho.
Foto: Divulgação/Agência Andina-Editora Perú
Algumas pessoas também acreditam que os botos são os guardiões dos peixes-boi da Amazônia, então quem deseja ver um peixe-boi precisa primeiro fazer as pazes com o boto cor-de-rosa. Machucá-los é considerado azar e comê-los é ainda pior.
Na Amazônia peruana, o status do boto cor-de-rosa como um ser quase mágico pode ter contribuído para sua proteção, incentivando as comunidades locais a tratá-lo bem e preservar sua população.
Espécies vulneráveis
O boto cor-de-rosa está listado como espécie ameaçada de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A maior ameaça a essa espécie é a poluição de rios, lagos e lagoas causada por diversas atividades nocivas, como derramamentos de petróleo, mineração e extração ilegal de madeira, e o despejo de poluentes hídricos como mercúrio, arsênio, cádmio e outros metais pesados.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
O governo federal assinou na terça-feira, 8, decreto criando quatro novas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) como forma, segundo fontes do Palácio do Planalto, de celebrar o Dia da Amazônia, em 5 de setembro. As quatro unidades estão localizadas na região de influência da BR-319, no Sul do Amazonas, e abrangem cerca de 669 mil hectares. São elas: Tupana Igapó-Açu I, em Borba, com 114.076 hectares; Tupana Igapó-Açu II, em Beruri e Tapauá, com 422.100 hectares; Canaã, em Careiro e Autazes, com 109.607 hectares; e Mirari, em Humaitá, com 22.775 hectares. As RDS têm como objetivo supostamente proteger a biodiversidade e os modos de vida das populações agroextrativistas que vivem na região, permitindo o uso sustentável dos recursos naturais por seus povos.
As RDS operam sob a coordenação e controle do Sistema Florestal Brasileiro (SFB), criado pela Lei nº 12.651/2012; o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que define as regras gerais de proteção da vegetação nativa, Áreas de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal e uso restrito; a Lei nº 11.284/2006 (Gestão de Florestas Públicas), que regula o manejo sustentável e cria o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) junto com o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal; o Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento eletrônico obrigatório para integrar as informações ambientais das propriedades rurais e o Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF), plataforma oficial para organizar e difundir dados sobre os recursos florestais do país.
O problema de preservação da BR-319 e, por que não dizer, do bioma amazônico, decorre basicamente da ausência de políticas públicas voltadas a tornar a região unidades produtivas sustentáveis ajustadas à “barreira verde” implantada. Ignora-se, a propósito, que o Amazonas detém cerca de 97% de seu território absolutamente preservado e que, conforme dados da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas – SDS), 54,73% do seu território de 1.559.146,876 km2 (155,9 milhões de hectares) configuram áreas protegidas, assim distribuídas:
Unidade de Conservação Federal (23.351.646,32 ha) – 14,97%;
Unidade de Conservação Estadual (18.808.342,39 ha) – 12,06%
e Terra Indígena (43.195.986,77 ha) – 27,7%.
Foto: Rodrigo Duarte
Quanto à BR-319, conta com efetivos instrumentos implantados pelos governos federal, do Amazonas e de Rondônia situadas ao longo de toda sua extensão de 875 km, no interflúvio Purus-Madeira, uma das regiões mais biodiversas e intocadas da Amazônia, o Sul do Amazonas, abrangendo os municípios de Canutama, Humaitá, Lábrea e Manicoré, e de Porto Velho. Em resumo, são 28 Unidades de Conservação (UCs), sendo 11 federais, 9 do Amazonas e 8 de Rondônia, suficientes para assegurar a efetiva proteção do bioma.
No Amazonas foram implantados o Parque Estadual Matupiri, com 513.747,47 ha; a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Matupiri, área de 179.083,45 ha; a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Igapó Açu, área de 397.557,32 ha; a Reserva Extrativista Canutama, com área de 197.986,50 ha; a Floresta Estadual Canutama, com área de 150.588,57 ha; a Flona do Tapauá – área: 881.704,000 ha e a Flona de Humaitá, com aproximadamente 472.454 hectares. O conjunto dessas áreas totaliza 2.793.121,30 ha.
Portanto, discursos e pirotecnias políticas, sobretudo em período eleitoral, não resolvem o problema no longo prazo. Ao contrário, como prioridade máxima, a região clama por ações governamentais voltadas a tornar a BR-319 economicamente ativa de sorte a superar o estigma de degradação ambiental como rotulada. Nos Estados Unidos, reservas ambientais e parques nacionais funcionam por meio de um sistema federal rigoroso de conservação que abre as áreas ao turismo organizado, exigindo o pagamento de taxas de entrada e o cumprimento de normas estritas de preservação. No Brasil, tornam-se praticamente inúteis. Exemplos não faltam, como a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, demarcada em 1998 e oficialmente homologada por decreto presidencial em 2005, que até hoje nem produz nem atrai fluxos turísticos.
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Corte Interamericana de Direitos Humanos realiza visita ao território Munduruku no Pará. Foto: Reprodução/Corte IDH
A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) realizou, entre os dias 1º e 3 de setembro, uma visita ao Pará para acompanhar as medidas provisórias relativas aos integrantes do povo indígena Munduruku.
Em Santarém, a agenda da Corte Interamericana ocorreu na Aldeia Jacarezinho, na Terra Indígena Munduruku, e também em Jacareacanga. Participaram representantes da Corte IDH, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), de órgãos do Estado brasileiro, do sistema de Justiça, de organizações peticionárias e das comunidades Munduruku.
Durante a missão, representantes da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos e da Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do MDHC acompanharam as atividades. Entre os compromissos, estiveram a escuta das comunidades e as discussões sobre as etapas para a implantação da Mesa de Diálogo do programa federal de proteção.
Corte Interamericana de Direitos Humanos realiza visita ao território Munduruku no Pará. Foto: Assessoria jurídica do 5º Ofício do MPF/Santarém
O cronograma da Corte Interamericana teve início com uma reunião institucional em Santarém, na qual os representantes dos beneficiários apresentaram uma avaliação sobre o cumprimento das medidas provisórias. Na ocasião, os órgãos públicos prestaram informações sobre as ações realizadas e os desafios ainda existentes. No segundo dia, a delegação esteve na Aldeia Jacarezinho, onde lideranças e integrantes das comunidades relataram as condições enfrentadas no território e apresentaram demandas.
A escuta realizada dentro da Terra Indígena é uma etapa fundamental do acompanhamento internacional. Além de permitir que a Corte conheça diretamente as condições enfrentadas pelas comunidades, a visita in loco fornece elementos para orientar o diálogo com os órgãos responsáveis e o monitoramento das providências a serem adotadas.
Demandas apresentadas
Entre os temas relatados estiveram a fiscalização territorial; ameaças contra lideranças; contaminação dos rios e dos alimentos por mercúrio; acesso à água potável; atendimento de saúde e remoção de pacientes; segurança alimentar; educação indígena; e procedimentos relacionados à demarcação física.
As comunidades também apresentaram demandas relacionadas ao monitoramento territorial realizado pelos próprios indígenas, ao apoio a atividades produtivas sustentáveis e à realização de consulta livre, prévia e informada sobre iniciativas que possam afetar o território.
Corte Interamericana de Direitos Humanos realiza visita ao território Munduruku no Pará. Foto: Divulgação
A proteção das lideranças Munduruku esteve entre os temas da agenda. Durante as reuniões, foi apresentada a proposta de funcionamento de uma Mesa de Diálogo destinada ao povo Munduruku, com participação de lideranças indígenas. A instância deverá avaliar medidas de proteção, identificar necessidades, encaminhar demandas e acompanhar as providências adotadas pelos órgãos competentes.
Articulação entre instituições
Além do MDHC, participaram da agenda representantes dos Ministérios das Relações Exteriores, dos Povos Indígenas, da Justiça e Segurança Pública, da Saúde, de Minas e Energia e do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Também estiveram presentes a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado do Pará e órgãos do governo paraense.
Nas reuniões, foram discutidos encaminhamentos relacionados à continuidade da fiscalização territorial, ao avanço da demarcação física, ao fornecimento emergencial de água, ao fortalecimento da segurança alimentar e à investigação das violações relatadas.
Também foi registrada a necessidade de uma resposta técnica mais detalhada sobre a circulação, a autorização e o controle do mercúrio, bem como sobre as medidas necessárias para interromper sua utilização ilegal e reduzir os impactos da contaminação sobre a saúde das comunidades.
A missão diferenciou três mecanismos de acompanhamento: a instância geral de coordenação prevista nas medidas da Corte IDH; a Sala de Situação, relacionada ao acompanhamento das ações de desintrusão; e a Mesa de Diálogo, vinculada ao programa de proteção de defensoras e defensores de direitos humanos. Embora tenham finalidades próprias, os espaços deverão manter articulação para evitar a fragmentação das respostas estatais.
Corte Interamericana de Direitos Humanos realiza visita ao território Munduruku no Pará. Foto: divulgação
No âmbito do programa federal, a Mesa de Diálogo destinada ao povo Munduruku, instituída pelo Conselho Deliberativo, deverá contar com participação direta das lideranças indígenas. A instância terá como finalidade avaliar as medidas de proteção existentes, identificar necessidades adicionais, organizar o encaminhamento das demandas e acompanhar as providências adotadas pelos órgãos competentes.
Encaminhamentos
Na reunião de encerramento, realizada em Jacareacanga, foram abordados os prazos e a periodicidade dos espaços de diálogo, além de questões relacionadas à proteção territorial, ao acesso à água e às medidas destinadas às lideranças ameaçadas.
O acompanhamento das medidas provisórias e dos encaminhamentos apresentados durante a visita continuará no âmbito das instituições responsáveis.
*Com infomações do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Dona da maior biodiversidade do planeta, a Amazônia também é vista como uma fonte rica em matérias-primas biológicas e sustentáveis. Setores como moda, design e cosméticos, por exemplo, vêm ganhando mais espaço no ramo dos bionegócios, através do uso consciente e sustentável dos recursos da floresta para criações autorais como biojoias, roupas, acessórios e outros produtos.
Nos últimos anos, o mercado da moda autoral na Amazônia tem sido um dos destaques do empreendedorismo local, com o surgimento de várias lojas de biojoias, itens artesanais, peças autorais e demais criações regionais. Maioria desses empreendedores estiveram presentes Amazon Poranga Fashion, evento que une moda, criatividade e empreendedorismo regional, realizado no fim de agosto em Manaus.
Na ocasião, mais de 20 marcas autorais participaram da quarta edição do evento, que busca fortalecer a moda autoral e a economia criativa amazônica aproximando criadores, modelos, artistas e toda uma cadeia de profissionais que atuam na cadeia produtiva local. Conheça algumas dessas marcas autorais locais que transformam a identidade amazônida em criações que misturam tradição e contemporaneidade.
A ancestralidade indígena é um ponto forte do Ateliê Yra Tikuna. Com sede na aldeia Inhaã-bé, dentro de uma comunidade indígena multietnica localizada em Manaus, no Amazonas, o espaço trabalha com roupas, acessórios e moda indígena. A produção utiliza fibras e sementes coletadas e tratadas pelas próprias mulheres, valorizando conhecimentos ancestrais e fortalecendo o protagonismo feminino.
A artista visual Sarah Ferreira, descendente do povo Kokama, leva para suas criações perspectivas indígenas e da cultura nortista. Seu trabalho conecta conhecimentos tradicionais, questões ambientais e vida urbana, criando diálogos entre ancestralidade e arte contemporânea.
Com uma proposta de moda indígena futurista, a Sioduhi Studio transforma narrativas ancestrais em peças autorais. A marca combina artesania, tecnologias originárias e design contemporâneo, criando uma estética que aproxima memória, inovação e futuro.
Idealizada pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), a Gigantio conecta moda, conservação ambiental e inovação a partir do manejo sustentável do pirarucu na RDS Mamirauá.
As peças utilizam couro de pirarucu e contam com tecnologia de rastreabilidade em blockchain, permitindo acompanhar a origem da matéria-prima. A coleção foi desenvolvida em parceria com Sioduhi, da Sioduhi Studio, e Regina Ramos, da Sapopema.
A Arévola Gallery, comandada pela designer Thaís Arévola, pesquisa as possibilidades de utilização de fibras naturais amazônicas, como o curauá. A marca une pesquisa de materiais, técnicas artesanais e design contemporâneo para criar novas possibilidades para a moda produzida a partir da biodiversidade regional.
A Souedo trabalha na interseção entre moda, arte e imagem. A marca parte de memórias, territórios e deslocamentos para construir coleções que apresentam uma visão contemporânea e cosmopolita da Amazônia. Em uma das coleções apresentadas no APF, o tururi aparece combinado a estampas fotográficas, aproximando material amazônico, tecnologia visual e arte.
Com mais de 30 anos de carreira, Rita Prossi é uma das referências do design de joias inspirado na biodiversidade amazônica. Filha de pais com heranças indígena, europeia e amazonense, encontrou nos mitos, lendas e elementos da região fontes para criações que unem cultura, preservação ambiental e sofisticação.
A Ales Biojoias transforma madeiras naturalmente caídas encontradas na região do Parque Nacional de Anavilhanas em joias autorais. Com mais de 20 anos de trajetória, a artista trabalha para revelar, em cada peça, as características únicas da madeira e da floresta.
A designer Renata Sampaio transforma elementos da natureza em acessórios e adornos. As criações carregam referências locais e buscam levar a identidade amazônica para além da região, unindo originalidade e valorização dos elementos naturais.
Foto: Pedro Furtado/Amazon Poranga Fashion
Amazon Poranga Fashion, maior plataforma de moda autoral da Amazônia
Criada em 2023, o Amazon Poranga Fashion é a principal plataforma da moda autoral e economia criativa do Amazonas. Unindo empreendedorismo e criatividade regional, o APF surgiu com o propósito de transformar o espaço numa vitrine nacional e internacional da moda produzida na Amazônia.
Desde a primeira edição, o evento já mobilizou mais de cinco mil pessoas entre estilistas, modelos, artistas, produtores e empreendedores culturais, com o objetivo de fortalecer a moda autoral amazônica e gerar emprego e renda para centenas de profissionais locais.
3º Amazon Poranga Fashion, realizado em 2025 no Largo de São Sebastião. Foto: Divulgação/Amazon Poranga Fashion
Ar seco proveniente das altas temperaturas causadas pelo El Niño já é sentida na região amazônica. Foto: Alessandro Falco/INCT Adapta
Efeitos do El Niño de 2026, com ar seco e temperaturas extremas, já são sentidos e podem continuar avançando em intensidade. O fenômeno está em fortalecimento e, segundo a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de chance de que se torne muito forte nos próximos meses.
Ao mesmo tempo, os oceanos vêm registrando temperaturas excepcionais, o que vem deixando o ar seco. O Serviço Copernicus para Mudanças Climáticas, cuja série histórica começa em 1979, registrou em 22 de agosto temperatura média diária de 21,1ºC na superfície dos oceanos fora das regiões polares, um valor recorde.
Na bacia amazônica, as consequências associadas ao El Niño são bem conhecidas: períodos de estiagem mais severos, com queda abrupta no nível dos rios e impactos sobre a biodiversidade e os modos de vida dos amazônidas. O ar seco, por exemplo, vem preocupando quem mora na região.
Durante a seca histórica de 2023-24, também influenciada pelo El Niño e pelo aquecimento global, jornalistas e cientistas registraram altas mortalidades de peixes e até de botos cor-de-rosa, além de algumas das imagens mais impressionantes de grandes rios e lagos, outrora abundantes em água, reduzidos e com temperaturas acima daquilo que muitos animais conseguem suportar, o que vem deixando o ar seco mais evidente.
Morte de peixes durante seca histórica em Manacapuru. Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Em 2026, apenas dois anos depois da última seca extrema, a Amazônia já começa a vivenciar novamente condições excepcionais. Em 31 de agosto, Manaus viveu seu dia mais quente do ano (até o momento), chegando a 37,3ºC, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Agosto também foi marcado por pouca chuva e umidade relativa do ar muito baixa para os padrões locais. Em 10 de agosto, por exemplo, o Inmet registrou 41%, então o menor valor do ano.
Com uma frequência maior de fenômenos climáticos extremos, a pesquisa científica ainda busca entender exatamente de quais formas a soma de estiagens e ondas fortes de calor impactam a vida amazônica. Além dos animais, a população também tem sentido dificuldades de respirar devido ao ar seco que predomina no verão amazônico.
Pesquisas têm demonstrado, por exemplo, como os peixes da região são sensíveis ao aumento da temperatura da água, um dos fatores que ajudam a explicar as altas mortalidades observadas em períodos como este.
Ar seco é um dos principais fatores climáticos causados pelo El Niño. Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Porém, o aumento da temperatura é apenas um dos fatores de risco. Ainda pouco estudada, a baixa umidade relativa do ar acende um alerta menos evidente: o possível impacto sobre animais que dependem de uma superfície corporal úmida para respirar e manter seu equilíbrio hídrico, ou seja, conservar a quantidade de água necessária para que seu organismo funcione adequadamente.
Por que o ar seco é um problema para anfíbios e peixes?
Os anfíbios representam um dos grupos de animais mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. A pele dos anfíbios, como sapos, rãs e pererecas, é fina, permeável e intensamente vascularizada. Isso ocorre porque a pele dos anfíbios é um órgão multifuncional: é por ela que esses animais absorvem água, regulam parte dos sais presentes no organismo e realizam parte da respiração, com trocas de oxigênio e dióxido de carbono (CO2).
Sobre essa pele existe uma camada de muco que ajuda a manter a hidratação da superfície cutânea, condição necessária para que os gases se difundam entre o ambiente e os vasos sanguíneos, além de contribuir para a proteção contra microrganismos e reduzir a perda de água por evaporação.
Quando a umidade relativa do ar diminui, aumenta a diferença entre a quantidade de vapor de água junto ao corpo do animal e aquela existente no ambiente. Como consequência, intensifica-se a perda de água por evaporação.
Além da desidratação, esse processo provoca alterações no equilíbrio entre água e sais no organismo e pode comprometer a eficiência da difusão de gases entre o ambiente e os vasos sanguíneos, resultando na queda da capacidade de trocas gasosas e dificultando a eliminação do CO2. É neste caso que o ar seco tem sido um fator complicador.
Uma das principais estratégias dos anfíbios para mitigar esses efeitos é procurar locais mais úmidos e frescos, onde a perda de água seja menor. Muitos também conseguem repor a água perdida diretamente pelo contato da pele com superfícies úmidas.
Em sapos, rãs e pererecas, essa absorção ocorre principalmente pelo ventre. Se o solo estiver úmido, a água passa do ambiente para o animal e ajuda a recuperar sua hidratação. Quando o solo seca, essa relação pode se inverter: o anfíbio deixa de conseguir se reidratar e pode começar a perder água para o próprio substrato.
Alguns peixes anfíbios enfrentam desafios semelhantes. Algumas espécies da família Rivulidae, grupo que inclui os chamados peixes-das-nuvens, conseguem deixar temporariamente a água. Há espécies capazes de permanecer por horas sobre folhas ou outras superfícies úmidas.
Entre estes peixes, a pele pode assumir uma função importante nas trocas gasosas quando o animal está fora da água. Essa capacidade os ajuda a sobreviver em poças rasas, ambientes aquáticos com pouco oxigênio ou locais que secam periodicamente.
No entanto, condições mais secas podem reduzir o tempo durante o qual esses animais conseguiriam sobreviver fora d’água. Assim, uma alteração ambiental que parece pouco relevante aos olhos humanos pode representar um risco expressivo para espécies com estas características.
O problema pode ser ainda mais complexo porque o calor e a estiagem também alteram os próprios ambientes aquáticos. A redução das chuvas e o aumento da evaporação diminuem o volume de água, elevam sua temperatura e podem reduzir a disponibilidade de oxigênio.
A baixa umidade do ar, associada ao calor e à estiagem, também acelera o ressecamento da vegetação e favorece a propagação de incêndios. Para peixes que utilizam a respiração cutânea fora d’água, isso representa uma dupla ameaça: aumenta a perda de água pela pele e reduz a disponibilidade de refúgios úmidos, além de expô-los aos efeitos do fogo e das cinzas sobre os ambientes aquáticos.
Aumento da temperatura é apenas uma parte do problema
Quando se discute o efeito das mudanças climáticas, o aumento da temperatura é apenas uma parte do problema. A redução da umidade, a maior perda de água para o ambiente e o desaparecimento de microambientes úmidos podem impor limites fisiológicos e comportamentais aos anfíbios antes mesmo que temperaturas extremas sejam atingidas.
Ilustração sobre a alta temperatura no planeta, causada pelo El Niño. Foto: Reprodução/Nasa
Para alguns peixes capazes de transitar entre ambientes aquáticos e terrestres, a questão pode ser semelhante. Sair de uma poça excessivamente quente ou com pouco oxigênio pode ser uma estratégia de sobrevivência. Mas o que acontece quando o ambiente fora da água também se torna excessivamente quente e seco?
Por este motivo, a ocorrência de umidade tão baixa em Manaus chama atenção para a necessidade de avaliar as alterações climáticas para além de seus efeitos mais conhecidos. Em uma região reconhecida pela abundância de água e pela elevada umidade, episódios extremos podem alcançar espécies adaptadas a condições ambientais muito diferentes daquelas produzidas pelos eventos recentes.
Monitorar simultaneamente a atmosfera, os ambientes aquáticos e as respostas fisiológicas dos organismos será essencial para compreender os limites da fauna amazônica diante de um clima cada vez mais extremo.
Autores
Susana Braz-Mota – Doutora em Biologia de Água Doce, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)
Tiago da Mota e Silva – Doutor em Comunicação e Semiótica, bolsista CNPq no INCT-ADAPTA,, Instituto Nac
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de três pesquisadores. Leia o original AQUI.
Espaços guardam a história da cidade de Porto Velho. Foto: Erisson Soares e Eduardo Freitas/Secom Porto Velho
Os trilhos de Santo Antônio guardam consigo a história dos destemidos pioneiros e trabalhadores da época. Já o Casarão dos Ingleses, iniciado no ciclo da borracha e construído no início do século XX, garantiu em muitas geraçoes, noites de muita música, dança e diversão, atravessando diferentes momentos em Porto Velho (RO). Ambos, fazem parte de uma história que ficou guardada por vários anos, encoberta pelo mato e corroída pelo tempo, mas isso muda agora.
A prefeitura já deu início aos trabalhos de limpeza e recuperação dos trilhos que percorrem um caminho desde a igreja de Santo Antônio até o Casarão dos Ingleses, que também está sendo totalmente reformado.
Os dois pontos serão parte de uma grande atração prevista para acontecer ainda no aniversário da cidade, em 2 de outubro, proporcionando à população uma viagem no tempo que promoverá lazer, turismo e um marco na comemoração.
Trilhas de Santo Antônio e casãrão dos ingleses, espaços históricos de Porto Velho. Foto: Erisson Soares e Eduardo Freitas/Secom Porto Velho
O prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, destacou a parceria que está contribuindo para que toda reforma seja entregue no período estimado.
“Resgatar esses locais que são tão importantes na história da capital me deixa muito feliz. Por isso estamos contando com todo apoio das nossas equipes, da SPU e com a parceria com Santo Antônio para entregar a melhor atração possível para os nossos munícipes”, completou o chefe do Executivo municipal.
Segundo o secretário de Turismo, esporte e lazer, Aleks Palitot, essa é uma forma de valorizar aqueles que viveram no passado e com dedicação criaram a história antes mesmo de saber que ela existiria.
“Precisamos nos lembrar do passado para poder apreciar o presente. Hoje vemos o quanto resgatar esses locais são tão necessários, ainda mais em uma data comemorativa da cidade. Isso representa muito e valoriza os nossos destemidos pioneiros”, afirmou.
Trilhas de Santo Antônio e casãrão dos ingleses, espaços históricos de Porto Velho. Foto: Erisson Soares e Eduardo Freitas/Secom Porto Velho
Entenda porque Porto Velho e Rondônia têm ‘dois aniversários’ cada
Tanto a capital quanto o Estado possuem duas datas cada em que celebram seu surgimento. Isso porque, no caso do município de Porto Velho, sua criação foi registrada em 2 de outubro de 1914, mas só em 1915 teve sua instalação. O mesmo caso ocorreu com o Estado.
Está confuso? Então confira a matéria do Portal Amazônia e conheça mais sobre este fato curioso.
O Ministério Público Federal (MPF) recorreu para que a ação que contesta o leilão de blocos de petróleo na bacia da foz do Rio Amazonas continue na Justiça Federal em Belém (PA). No recurso, apresentado nessa quarta-feira (9) ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), o MPF busca impedir a transferência da ação para a Justiça Federal em Brasília.
A transferência havia sido determinada pela Justiça Federal no Pará para que o caso seja juntado a outro processo que tramita no Distrito Federal, movido por uma entidade da sociedade civil.
No entanto, por meio de um agravo de instrumento (tipo de recurso usado para questionar decisões tomadas durante o andamento do processo), o MPF apontou que as duas ações têm objetivos e pedidos completamente diferentes, não havendo motivo legal para reuni-las. O principal argumento apresentado pelo MPF é a regra legal de que ações coletivas ambientais devem ser julgadas pela Justiça do local onde o dano pode acontecer.
A exploração de petróleo na foz do Amazonas afeta diretamente municípios litorâneos do Pará — como Belém, Afuá, Chaves, Anajás, Salvaterra, Soure, Santa Cruz do Arari, Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari, Barcarena, Colares, São Caetano de Odivelas e São João da Ponta —, além de territórios habitados por povos indígenas e comunidades quilombolas e ribeirinhas, que dependem da pesca artesanal e dos recursos naturais marinhos.
Bacia da Foz do Amazonas. Foto: Enrico Marone/Greenpeace
De acordo com membros do Grupo de Apoio ao Núcleo Povos da Floresta, do Campo e das Águas e Atuação Especializada Socioambiental (Gapovoss) do MPF, manter o processo no estado garante que a Justiça esteja mais próxima das pessoas e dos territórios afetados. A proximidade facilita a coleta de depoimentos, a produção de provas e a realização do diálogo com as populações tradicionais, como determinam as diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
No recurso, o MPF demonstrou que a ação que tramita em Brasília trata de um tema geral de transparência na divulgação de dados de emissões de gases de efeito estufa. Por sua vez, a ação do Pará aborda a realidade específica da foz do Amazonas e exige a realização de estudos prévios e a consulta aos povos da região antes do avanço de qualquer etapa.
Entre as exigências apontadas pelo MPF estão:
A realização de Estudo de Impacto Climático abrangente;
A elaboração da Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), uma análise ampla e estratégica da região antes da concessão de blocos;
A realização de estudos sobre os impactos nas comunidades indígenas, quilombolas e de pescadores artesanais;
A garantia do direito à Consulta Prévia, Livre e Informada às comunidades tradicionais, conforme estabelece a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Foto: Roberto Rosa/Agência Petrobras
O MPF também lembrou que a própria Justiça Federal em Belém já havia analisado e rejeitado, meses antes, esse mesmo pedido de envio do caso para Brasília. Pela lei processual, uma questão que já foi formalmente decidida pelo magistrado não pode ser rediscutida ou reexaminada sem fatos novos (regra conhecida juridicamente como preclusão).
Pedidos da ação
Diante do risco de avanço dos procedimentos burocráticos e de licenciamento de 19 blocos arrematados na 5ª Oferta Permanente de Concessão da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o MPF pediu ao TRF1 uma decisão urgente (efeito suspensivo) para:
Anular a decisão que determinou o envio do processo para Brasília, mantendo a competência da 9ª Vara Federal de Belém;
Proibir o Ibama de iniciar processos de licenciamento ambiental para os blocos da foz do Amazonas arrematados até que sejam concluídos os estudos necessários e as consultas às comunidades;
Impedir a inclusão de novos blocos da região em leilões até o julgamento definitivo da ação.
O recurso fundamenta-se também em orientações internacionais recentes, como o Parecer Consultivo nº 32 da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre emergência climática e recomendações do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e da ONU, que reforçam o dever de agir com precaução e de ouvir as populações antes da assinatura de contratos exploratórios.
Uma máquina silenciosa trabalha constantemente para que milhões de pessoas na América do Sul tenham acesso a água, rios e plantações. Esse mecanismo se chama Amazônia e funciona da seguinte maneira: a umidade vinda do oceano produz chuva sobre a floresta; essa água é absorvida do solo pelas árvores, e lançada de volta na atmosfera em forma de vapor; o vento, então, espalha, esse vapor por todo o continente, fazendo chover em diversas regiões.
Marielos Peñaclaros destaca a importância do bioma durante TEDXAmazônia. Foto: Diego Aguilar
De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior “máquina de chuva” do planeta. Uma árvore adulta na Amazônia pode liberar para a atmosfera de 200 a 300 litros de água todos os dias.
“Imaginem 400 bilhões delas trabalhando juntas todos os dias. Se pudéssemos tornar essa umidade possível, veríamos rios gigantes voando no céu. É o que nós cientistas chamamos de rios voadores.”
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, entidade que reúne mais de 350 cientistas dedicados a estudar o bioma, destaca que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono a níveis local, regional e global.
“Em outras palavras, a Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo”.
As duas pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, no final de agosto, no Equador.
Alerta sobre a devastação da Amazônia
Além de frisar a importância desse sistema hídrico, as cientistas fizeram um alerta: a devastação da Amazônia já está afetando a “máquina de chuva”, e sua “quebra” seria catastrófica para todo o planeta.
De acordo com Marielos, atividades como a mineração e o narcotráfico, em conjunto com o desmatamento e as queimadas têm atingido diretamente a conectividade amazônica, fator central para a conservação do bioma.
“A Amazônia é um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aquáticos interconectados entre si, que abriga uma grande diversidade de culturas. Essas comunidades têm um relacionamento profundo e interdependente com os ecossistemas através dos seus modos de vida, práticas de manejo e conhecimento”.
Durante o TEDXAmazônia, Julia Valentim explica o chamado arco do desmatamento. Foto: Rodrigo Duarte
Segundo ela, os efeitos no clima já são mensuráveis, com evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira resulta em menos chuva em regiões do Brasil e da Bolívia. Em regiões desmatadas, a temperatura tem aumentado, e as épocas de seca estão ficando mais intensas e mais cumpridas.
Julia Valentim Tavares também está medindo esses efeitos a partir do interior das árvores da borda sul da Amazônia, o chamado arco do desmatamento, onde o volume de chuvas já diminuiu e a temperatura aumentou na última década. Ela investiga por quanto tempo essas árvores podem resistir às secas, antes que suas “cordas” internas sejam danificadas.
“Se o solo tem água, essa corda permanece intacta. Numa estação seca, o solo deixa de ter água e essa corda é tensionada. A atmosfera puxa para cima, o solo puxa para baixo, até a hora que essa corda se rompe. Se isso acontecer muitas vezes, em várias partes da árvore, essa árvore começa a literalmente morrer de sede.”
Aquecimento global
Nos últimos anos, a região também tem sofrido com os efeitos do aquecimento global. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca da sua história, por consequência do El Nino, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação atmosférica, e tem se tornado mais intenso.
Marielos destaca que 88% da bacia amazônia sentiu os efeitos dessa seca, que também interferiu na “máquina de chuva”. A capital da Colômbia, Bogotá, localizada na região dos Andes, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, capital do Equador, que também está fora da Amazônia, a falta de água levou à cortes no fornecimento de energia elétrica.
“A pergunta que todos deveríamos estar fazendo é: De onde nasce a água de inúmeras cidades latinoamericanas? De onde nasce a água que usamos na agricultura, pecuária, indússtria, produção de alimentos?”, provocou a copresidente do Painel Científico pela Amazônia.
A seca também deixou a Amazônia mais vulnerável às queimadas, que foram recordes naquele ano. Julia Valentim Tavares lembra que a fumaça dos incêndios chegou a se espalhar pelo país e alcançar até a Região Sudeste.
“Esse fato revelou duas coisas muito importantes. Primeiro: a Amazônia nunca esteve distante, o que acontece na floresta não permanece na floresta. E segundo: milhões de pessoas dependem da Amazônia, mas ainda assim não se sentem conectadas com ela.”
A previsão de que um super El Niño ocorra este ano alarmou as pesquisadoras. “Quando existem essas secas, a floresta ou tem mortalidade por falha hidráulica, ou para de crescer, somado com os eventos de fogo. Então, a Amazônia deixa de funcionar como um sumidouro de carbono e passa a ser um emissor, aumentando o aquecimento global”, alerta Julia.
“A gente está esperando que seja tão ou mais forte do que em 2024, mas a principal diferença é que da outra vez aconteceram coisas que ninguém estava esperando. Como um rio poderia secar na Amazônia? Agora, todo mundo está falando sobre isso”, enfatizou Marielos.
De acordo com ela, a solução definitiva só será alcançada com a diminuição drástica das emissões de gases do efeito estufa, que depende sobremaneira da substituição dos combustíveis fósseis por fontes menos poluentes de energia.
“Temos também que investir na conectividade. Restaurar as áreas degradadas, recuperar aquelas que foram desmatadas para produção, fazer essa reconexão ecológica. Porque a Amazônia já está se aproximando do ponto de não retorno, e a perda total dessa conectividade seria catastrófica para o mundo todo”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Tâmara Freire. A repórter acompanhou o TEDxAmazônia a convite da organização do evento.
Edital sobre segurança alimentar classificou 22 municípios da região Norte e Centro-Oeste e Santarém ficou em primeiro lugar no bloco A. Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém
Santarém (PA) é o único município da Região Norte classificado no resultado definitivo do Edital de Chamamento Público MDS/SESAN nº 02/2026, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A proposta apresentada pelo município, no valor aproximado de R$ 1 milhão, recebeu 63 pontos e conquistou o primeiro lugar no Bloco A, que reúne municípios e estados das regiões Norte e Centro-Oeste.
O resultado ganha ainda mais relevância diante da concorrência nacional. Ao todo, o MDS recebeu 310 propostas, das quais 289 foram efetivamente avaliadas. Após as etapas de análise e recursos administrativos, apenas 22 permaneceram classificadas nos três blocos regionais.
A proposta de Santarém é voltada à promoção da transição de sistemas alimentares lineares para sistemas alimentares circulares, com foco na segurança alimentar e nutricional, na sustentabilidade, na redução de perdas e desperdícios e na valorização dos recursos e das potencialidades do território.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém
O projeto foi construído conjuntamente pela Prefeitura de Santarém, por meio da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtras) e da Câmara Intersecretarial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), com apoio da Fundação Cargill, por meio do Programa Raízes da Transformação. A elaboração também contou com o suporte técnico da Notriá, empresa especializada em segurança alimentar e nutricional, contratada pela Fundação Cargill para apoiar a construção da proposta.
Mário Aguiar atuou como ponto focal na articulação, elaboração e encaminhamento do projeto, contribuindo para o alinhamento da iniciativa aos critérios e objetivos do edital nacional.
A parceria reuniu conhecimento técnico, articulação institucional e experiência em segurança alimentar e nutricional, contribuindo para a estruturação de uma proposta adequada às características e potencialidades de Santarém.
Com a classificação, o município integra a convocação inicial para apresentar, no prazo máximo de 15 dias úteis, a documentação necessária à celebração do instrumento de repasse e as eventuais adequações ao plano de trabalho, conforme as regras do edital.
Para a secretária municipal de Trabalho e Assistência Social, Silvia Freitas, a classificação demonstra a capacidade de Santarém de apresentar projetos alinhados às necessidades do território e às novas estratégias de segurança alimentar.
“Receber essa notícia é motivo de muita alegria e, ao mesmo tempo, de grande responsabilidade. Santarém apresentou uma proposta que foi avaliada e classificada em primeiro lugar no Bloco A e, de forma muito especial, somos o único município da Região Norte entre os classificados. Isso demonstra a qualidade do trabalho que vem sendo construído e o compromisso do município com políticas públicas que olham para a segurança alimentar de forma ampla, sustentável e inovadora. Estamos falando de reduzir desperdícios, valorizar os alimentos, fortalecer a produção e pensar em soluções que possam gerar benefícios para toda a população”, destacou Silvia Freitas.
A secretária executiva da Caisan, Roselene Andrade, ressaltou que o resultado reconhece uma proposta construída a partir da realidade do território santareno.
“Essa classificação em primeiro lugar é resultado de um trabalho construído com muito compromisso e olhar técnico para a realidade de Santarém. Sermos o único município da Região Norte classificado nesse edital demonstra que estamos conseguindo transformar as necessidades e potencialidades do nosso território em uma proposta consistente e competitiva. É uma agenda que precisa ser construída de forma integrada e que pode gerar impactos sociais, econômicos e ambientais importantes para o município”, destacou Roselene Andrade.
Silvia Freitas também ressaltou a importância da articulação entre diferentes políticas públicas e instituições parceiras para a construção de soluções permanentes.
“Essa seleção reforça que precisamos continuar buscando parcerias e oportunidades que permitam a Santarém avançar. O sistema alimentar envolve produção, abastecimento, consumo, sustentabilidade e proteção social. Quando conseguimos integrar essas áreas e contar com parceiros que agregam conhecimento e experiência, ampliamos nossa capacidade de construir propostas consistentes e enfrentar a insegurança alimentar. É um passo importante e vamos trabalhar para cumprir todas as etapas necessárias à formalização dessa parceria”, afirmou.
Para o prefeito de Santarém, Zé Maria Tapajós, a conquista representa um reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo município e reforça o compromisso da gestão com políticas públicas que promovam segurança alimentar, sustentabilidade e qualidade de vida para a população.
“Estar em primeiro lugar no nosso bloco e ser o único município da Região Norte classificado é motivo de orgulho para Santarém. Esse resultado reconhece a dedicação das nossas equipes e a contribuição dos parceiros que construíram essa proposta conosco. Queremos valorizar os alimentos produzidos na nossa região, reduzir desperdícios e fortalecer o cuidado com as famílias. Vamos trabalhar para cumprir as próximas etapas e viabilizar esse projeto, com responsabilidade e compromisso com a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável do município”.
Segurança alimentar é uma das políticas públicas mais trabalhadas na cidade de Santarém, no Pará. Foto: Divulgação/Prefeitura de Santarém
O edital tem como objetivo apoiar iniciativas e atividades que promovam a transição para sistemas alimentares circulares urbanos. A proposta é estimular soluções que contribuam para o aproveitamento dos alimentos, a redução de perdas e desperdícios, a sustentabilidade e o fortalecimento das políticas de segurança alimentar e nutricional nos territórios.
Conforme o resultado definitivo, a convocação das propostas segue a ordem de classificação por bloco regional e considera o limite financeiro global previsto no edital. A celebração dos instrumentos de repasse está condicionada ao atendimento integral dos requisitos estabelecidos no edital e na legislação aplicável.
A classificação de Santarém representa um reconhecimento nacional da proposta apresentada e evidencia a contribuição da articulação entre o poder público, as instituições parceiras e os especialistas para a construção de soluções em segurança alimentar e nutricional.