De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a cadeia produtiva do açaí emprega diretamente 25 mil pessoas no Brasil e está concentrada principalmente no estado do Pará. Em 2024, segundo o (IBGE), o valor da produção ultrapassou pela primeira vez a marca de R$ 1 bilhão, o que equivale a 50,9% do dinheiro movimentado por atividades extrativistas vegetais no país.
O senador Lucas Barreto, do PSD do Amapá, relator do projeto que regulamenta a profissão de manipulador de açaí, citou esses números para chamar a atenção do Congresso para os trabalhadores envolvidos nessa atividade que é tradicional e sustentável.
“A magnitude desses dados já seria suficiente para justificar a atenção legislativa dispensada aos manipuladores de açaí, mas para além de sua representatividade econômica, devemos atentar sobretudo para o fato de que a exploração do açaí é uma atividade fundamentalmente artesanal e familiar. Essencial para o sustento de muitas famílias da Amazônia, para a fixação da população no campo e para a preservação da cobertura florestal na região Amazônia”, defendeu.
Foto: Dirce Quintino
O que envolve a manipulação do açaí?
O texto aprovado no Senado diz que a manipulação do fruto amazônico é o processo que envolve colheita, seleção, lavagem, despolpa e preparo do fruto com uso prioritário de técnicas tradicionais.
O exercício da profissão será livre para quem tem pelo menos um ano de experiência ou fez curso de boas práticas de higiene e manipulação de alimentos.
A atividade é reconhecida como essencial, com valor econômico, social e cultural, e deve ser exercida preferencialmente em comunidades tradicionais, cooperativas, associações locais ou no contexto da agricultura familiar.
O projeto que reconhece e regulamenta a profissão de manipulador de açaí é de iniciativa do senador Zequinha Marinho, do Podemos do Pará, e segue para a análise da Câmara dos Deputados.
Exposição ‘O Mar Perdido de Pirabas’. Foto: Monique Hadad
Contribuir para a valorização e a preservação do patrimônio natural da região, por meio de uma exposição que conduz os visitantes pela história paleontológica do Pará. Esse é um dos objetivos da mostra ‘O Mar Perdido de Pirabas‘, cuja primeira etapa foi inaugurada em maio no Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPPA) e permanece aberta ao público às quartas-feiras, das 14h30 às 17h30, com entrada gratuita, e aos sábados, das 8h30 às 11h30, com ingressos a R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada). A mostra também pode ser conferida durante as visitas escolares, realizadas de terça a sexta-feira.
A mostra é resultado de uma parceria entre a Universidade do Estado do Pará (Uepa), por meio do CCPPA, e a Universidade Federal do Pará (UFPA). A exposição foi desenvolvida pelos integrantes do projeto de extensão Paleoexploradores, dedicado ao estudo, à divulgação e à preservação do patrimônio paleontológico, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a paleontologia, por meio de ações acadêmicas, científicas e educativas.
Alunos do 1º ano do Ensino Médio da Escola de Ensino Técnico do Estado do Pará (EETEPA) Juscelino Kubitschek de Oliveira, localizada em Marituba, visitaram o CCPPA e conheceram a mostra. Para a estudante Natacha Cristina Oliveira, de 15 anos, a experiência foi marcante. Ela contou que ainda não conhecia a história do Mar de Pirabas e destacou a importância da mostra.
“Achei muito legal a exposição e, na minha opinião, é muito importante termos iniciativas como essa. Todo mundo está gostando bastante”, afirmou.
O Mar Perdido de Pirabas é baseada no acervo fossilífero da Formação Pirabas, um importante sítio geológico formado há mais de 20 milhões de anos, muito antes do surgimento da espécie humana. Nesse antigo mar, que cobria áreas que hoje correspondem a importantes destinos turísticos do Pará, como Algodoal, São João de Pirabas e Salinópolis, viviam animais como megalodontes, tartarugas marinhas, arraias, peixes-boi, crocodilos e uma grande diversidade de invertebrados gigantes.
Experiência Imersiva
Conforme o professor da UFPA e um dos organizadores da exposição, Joelson Soares, a mostra busca proporcionar aos visitantes uma experiência imersiva, capaz de transmitir a sensação de um mergulho no oceano.
“Os visitantes terão contato com a rica biodiversidade que habitava os antigos mares que inundavam as atuais porções continentais do nordeste do Pará, durante o período geológico conhecido como Mioceno. Esse cenário está registrado nos abundantes fósseis de crustáceos, moluscos, mamíferos, peixes e tubarões que viveram em mares quentes, límpidos e rasos”, detalhou.
A pesquisadora Laura Rojas integra o projeto de extensão Paleoexploradores e afirma que transformar o conhecimento paleontológico em uma experiência imersiva é fundamental para aproximar a sociedade da ciência de forma sensível, visual e interativa.
“Muitas vezes, a paleontologia é percebida como algo distante ou restrito ao meio acadêmico, e a exposição busca justamente romper essa barreira, permitindo que o público ‘entre’ nos ambientes antigos e compreenda como era a vida no Pará há milhões de anos”, explicou.
Segundo Laura, o diferencial de O Mar Perdido de Pirabas é unir ciência, acessibilidade e imersão. “A exposição utiliza fósseis, paleoarte, cenografia e recursos interativos para tornar a paleontologia mais próxima e acessível, valorizando o patrimônio fossilífero amazônico e a ciência produzida na região”.
Foto: Monique Hadad
Para o diretor do Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPPA), José Roberto Silva, a exposição reforça o compromisso da instituição com a difusão do conhecimento científico e demonstra a importância de parcerias para expandir o acesso da população à ciência.
“O CCPPA vem buscando parcerias para ampliar a sua missão de divulgação do conhecimento científico. Nesse sentido, a parceria com a UFPA para a exposição O Mar Perdido de Pirabas foi recebida com muita satisfação, pois oportuniza ao nosso público uma excelente oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre a história paleontológica do Pará. Inaugurada na 24ª Semana Nacional de Museus, ela é mais um atrativo disponível no nosso espaço e que tem encantado o público com seus recursos visuais imersivos”.
A exposição ‘Abridores de Letras: o ofício que impulsiona tradições’ está de portas abertas para visitação no Instituto de Ciências da Arte (ICA), em Belém (PA). Organizada por alunos do curso de Museologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), a iniciativa busca apresentar ao público a importância desse conhecimento para a cultura local e abordar os diferentes aspectos da produção tipográfica amazônica e das histórias associadas a esse ofício.
A iniciativa, desenvolvida na disciplina de Exposição Curricular, ministrada pela professora Bianca Veloso, busca se consolidar como um espaço de reflexão e valorização dos mestres abridores de letras, propondo aos participantes experienciar e reconhecer esse saber como um patrimônio cultural vivo.
O acervo apresentado na exposição é composto por obras de mestres que cederam o material para a apresentação.
“O público pode esperar um olhar sensível sobre esse ofício, suas técnicas e tradições. A exposição convida os visitantes a perceberem que, por trás de cada letra, existe uma pessoa, uma trajetória e uma forma de viver as amazônias”, afirma Eloise Borges, uma das organizadoras da iniciativa.
O termo “abridores de letras” refere-se a artistas de comunidades ribeirinhas que praticam ilustrações e pinturas de tipografias em embarcações da região amazônica. Esse conhecimento, inicialmente passado de pai para filho, é praticado há mais de 100 anos.
Além da oportunidade de apreciar as obras expostas, os visitantes poderão participar das rodas de conversas e oficinas que estão programadas ao longo da exposição, desde que realizem previamente a inscrição para participar das atividades.
A exposição é gratuita e segue aberta de 9h às 17h até o dia 2 de julho no Instituto de Ciências das Artes (ICA/UFPA), localizado na Avenida Presidente Vargas, em Campina. Acompanhe a programação no @expoabridoresdeletras.
A iniciativa conta com o apoio da Coordenadoria de Acessibilidade (CoAcess) e da Diretoria de Acessibilidade (DAcess), além do Instituto Letras que Flutuam, organização sem fins lucrativos que tem parceria com abridores de letras.
Extração de óleo de copaíba na Flona Tapajós. Foto: Divulgação/Acervo da pesquisa
Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e instituições parceiras demonstrou que a oleorresina de copaíba (Copaifera epunctata) apresenta baixo risco de toxicidade em testes pré-clínicos e atividade antimicrobiana contra bactérias Gram-positivas associadas a infecções cutâneas. Os resultados foram publicados na revista internacional Natural Product Research, da editora Taylor & Francis.
Bálsamo natural extraído da árvore Copaifera, a oleorresina de copaíba é amplamente utilizada por populações tradicionais da Amazônia como anti-inflamatório, analgésico e cicatrizante natural.
É considerada um “antibiótico natural” usado no tratamento de feridas, inflamações e infecções. Apesar do uso histórico, ainda são limitados os estudos que avaliam de forma sistemática sua segurança toxicológica segundo critérios exigidos por agências reguladoras.
O estudo avaliou a segurança e o potencial antimicrobiano da oleorresina extraída de espécimes da região amazônica, mais especificamente da Floresta Nacional (Flona) do Tapajós, situada na região do Baixo Amazonas, com o objetivo de verificar possíveis efeitos tóxicos e gerar dados que subsidiem o uso seguro do produto na medicina tradicional e no desenvolvimento de fitoterápicos.
De acordo com os pesquisadores, os resultados contribuem para preencher essa lacuna ao demonstrar que a oleorresina de Copaifera epunctata apresenta baixo risco toxicológico em testes pré-clínicos e potencial antimicrobiano contra bactérias Gram-positivas, o que pode explicar seu uso tradicional no tratamento de infecções cutâneas.
“Após análises, o nosso estudo demonstrou que a copaíba é um produto de alta segurança biológica e com efeito antimicrobiano”, explica José Sousa de Almeida Júnior, farmacêutico-bioquímico do Instituto de Saúde Coletiva (Isco), que conduziu o estudo. A análise integra sua pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) da Ufopa.
Também assinam o artigo pesquisadores da Ufopa vinculados ao PPGSND; ao Programa de Pós-Graduação em Biociências (PPGBIO), vinculado ao Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef); ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCSA), vinculado ao Instituto de Saúde Coletiva (Isco); e do departamento de Engenharia Química do Instituto Militar de Engenharia (IME). O estudo contou com financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).
Baixo risco toxicológico em testes pré-clínicos
De acordo com o artigo, nos ensaios de toxicidade oral aguda realizados em ratos Wistar, não foram observadas alterações comportamentais nem sinais clínicos de intoxicação, como tremores, convulsões, salivação, diarreia ou letargia. Também não houve perda de peso corporal. “De acordo com o protocolo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD 423), a oleorresina foi classificada na categoria 5, indicando baixa toxicidade e dose letal estimada superior a 2.000 mg/kg”, explica José Sousa de Almeida Júnior.
Foto: Divulgação/Acervo da pesquisa
Nos testes de toxicidade dérmica aguda, conduzidos por 14 dias, os animais não apresentaram alterações na pele, mucosas, sistema respiratório ou sistema nervoso central. A análise macroscópica de órgãos internos, após eutanásia, não identificou sinais de reações tóxicas, e não foram registradas mudanças no consumo de ração e água ou no ganho de peso.
“No teste de irritação ocular (HET-CAM), a oleorresina não provocou sinais de decomposição celular (lise), hemorragia ou coagulação, reforçando o perfil de baixa toxicidade do produto nas condições avaliadas”, afirma o pesquisador.
Composição química da copaíba e atividade antimicrobiana
A caracterização química revelou predominância de sesquiterpenos (73,28%) e diterpenos (26,72%). Entre os principais constituintes identificados estão o β-cariofileno (cerca de 40%), β-bisaboleno, α-humuleno, β-selineno e ácido caurenoico.
Segundo os autores, a presença de compostos como β-cariofileno e ácido caurenoico pode estar relacionada ao efeito antimicrobiano observado, uma vez que esses metabólitos já foram associados a alterações na membrana bacteriana e a atividades anti-inflamatórias e antibacterianas em estudos anteriores.
Nos ensaios microbiológicos, a oleorresina apresentou concentração inibitória mínima (MIC) promissora contra bactérias Gram-positivas frequentemente associadas a infecções de pele, como Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis e Streptococcus pyogenes. Também foi observada ação bactericida contra S. epidermidis e S. pyogenes. Não houve atividade contra bactérias Gram-negativas, como Pseudomonas aeruginosa e Escherichia coli, nas concentrações testadas.
Cidades do Amazonas enfrentam seca fora de época. Porto de Tabatinga em janeiro de 2026. Foto: Roney Elias/Rede Amazônica AM
O Governo do Amazonas decretou estado de emergência climática e ambiental em todo o estado, em caráter preventivo, diante das projeções meteorológicas associadas ao fenômeno El Niño 2026/2027 e dos riscos de agravamento da seca, das queimadas e das ondas de calor. A medida foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) e terá validade de 180 dias, podendo ser prorrogada.
Segundo o Decreto nº 54.274, assinado pelo governador Roberto Cidade, em 1º de junho, a decisão leva em consideração estudos e alertas de órgãos nacionais e internacionais que apontam para a possibilidade de redução dos volumes de chuva, aumento das temperaturas, diminuição dos níveis dos rios, prolongamento da seca e intensificação dos incêndios florestais na região Norte.
Ações de prevenção aos efeitos do El Niño
O documento destaca que a declaração de emergência busca fortalecer a atuação integrada dos órgãos estaduais e ampliar as ações de monitoramento, prevenção, mitigação e preparação para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos no Amazonas.
De acordo com o decreto, além dos efeitos ambientais, a medida considera possíveis consequências sociais e econômicas decorrentes da seca, como dificuldades no abastecimento de água, impactos na produção rural, prejuízos à navegação e aumento dos riscos à saúde da população.
Entre os fatores analisados pelo governo estão informações técnicas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e outros centros de monitoramento climático com relação ao El Niño.
Seca no Amazonas em 2023 foi uma das consequências do El Niño na região. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Os estudos indicam que o período entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 poderá ser marcado pela atuação do El Niño, fenômeno que costuma provocar redução das chuvas na Amazônia.
O governo cita ainda que análises climáticas recentes apontam para um cenário de El Niño com temperaturas acima da média, redução dos níveis dos rios e maior pressão sobre os recursos hídricos. Segundo o decreto, a combinação desses fatores aumenta o risco de queimadas, incêndios florestais, escassez de água e outros impactos ambientais e socioeconômicos no estado.
Comitê coordenará ações
O decreto estabelece que o Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais será responsável por coordenar a articulação entre os órgãos estaduais para o planejamento, acompanhamento e execução das medidas previstas.
A Defesa Civil do Amazonas ficará encarregada da coordenação técnica das ações relacionadas ao monitoramento hidrológico e meteorológico, gestão de riscos e desastres e produção de informações estratégicas sobre os cenários climáticos.
Já a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) deverão intensificar as atividades de monitoramento, orientação técnica, fiscalização e mitigação dos impactos ambientais ligados à estiagem, à seca e aos incêndios florestais.
O decreto também distribui responsabilidades a diferentes áreas do governo estadual. A Secretaria de Produção Rural (Sepror) deverá reforçar ações voltadas aos setores agropecuário, pesqueiro e aquícola, com foco no monitoramento, planejamento e orientação técnica para enfrentar possíveis impactos da redução da disponibilidade hídrica.
O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) ficará responsável por ampliar as ações de prevenção e preparação para o combate a incêndios florestais e queimadas.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) deverá coordenar a integração operacional dos órgãos envolvidos nas medidas preventivas e de resposta, enquanto a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-RCP) terão a missão de monitorar os impactos das condições climáticas na saúde pública.
Entre os principais pontos de atenção na área da saúde estão os efeitos das ondas de calor, a escassez hídrica, a piora da qualidade do ar provocada pela fumaça das queimadas e o aumento de doenças sensíveis às variações climáticas.
A Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (Seduc-AM) também deverá promover ações de conscientização e orientação junto à comunidade escolar, além de adotar medidas voltadas à proteção da saúde e da continuidade das atividades educacionais.
Maior Arraial da Amazônia chega à 26ª edição com disputas em quatro categorias e atrações culturais. Foto: Divulgação/Semuc BV
O som da sanfona, o colorido dos figurinos e a energia dos passos sincronizados vão tomar conta da Praça Fábio Marques Paracat entre os dias 13 e 19 de junho. Em sua 26ª edição, o Boa Vista Junina transformará mais uma vez a Arena Junina no grande palco do Maior Arraial da Amazônia.
Serão sete noites de celebração da cultura popular, reunindo 28 grupos juninos distribuídos nas categorias Diamante, Especial, Acesso e Infantil. A programação também contará com as apresentações das quadrilhas Cabelos de Prata e Crescer e Conviver.
Além das disputas que prometem emocionar o público, o evento reforça a valorização das tradições juninas, levando à arena espetáculos marcados por criatividade, música, dança e identidade cultural.
A programação se estende até a grande apuração dos resultados e a consagrada Noite dos Campeões.
Eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, enchentes e ondas de calor, têm se tornado cada vez mais frequentes no Brasil e no mundo, impactando diretamente as comunidades mais vulneráveis e as crianças. Um dos maiores desafios é preparar crianças, adolescentes e educadores para compreender, prevenir e agir frente aos riscos associados às crises climáticas.
Diante disso, o ChildFund lançou o ‘Kit Missão Clima‘, material formado por uma Cartilha explicativa e pelo Plano Pedagógico denominado “Uma jornada para a prevenção, mitigação e adaptação às mudanças do clima e aos desastres socioambientais”.
O material contém várias missões práticas, que integram o projeto Comunidades Parceiras do Meio Ambiente, realizado pelo ChildFund, em parceria com o programa de investimento social corporativo ADM Cares, da ADM, líder global em comercialização de grãos, insumos, nutrição humana e animal.
O material é voltado à educação ambiental climática e à redução de riscos de desastres naturais no ambiente escolar, e busca preparar estudantes, professores e comunidades para os desafios trazidos pelas crises ambientais globais que estamos vivendo. A escola é um espaço privilegiado para a construção de valores e atitudes voltados à sustentabilidade. Quando a educação ambiental é trabalhada de forma contextualizada e interdisciplinar, o impacto se multiplica: a escola transforma não só o presente dos alunos, mas também o futuro.
A iniciativa também contribui para a implementação da Lei 14.926/24, que exige que as escolas trabalhem clima, biodiversidade e riscos ambientais de forma integrada e prática. A metodologia utilizada no Plano Pedagógico Missão Clima oferece aos educadores e estudantes recursos práticos para avaliar riscos, fortalecer a resiliência da comunidade escolar e implementar medidas preventivas que minimizem os efeitos de desastres climáticos no espaço escolar. Ao final de cada jornada, as escolas criam o seu próprio Observatório do Clima.
“A produção e a veiculação deste material representam um passo significativo do ChildFund e da ADM na conscientização de crianças e adolescentes sobre a importância do meio ambiente. Acreditamos que eles são parte fundamental do futuro e que a construção de um planeta mais saudável, com menos riscos e danos ambientais, passa pela formação de cidadãos conscientes. Por isso, investir em educação ambiental é importante”, destaca Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund, organização com cerca de 60 anos de atuação pela promoção e defesa dos direitos de crianças, adolescentes e jovens no Brasil.
Metodologia aposta em atividades práticas
A humanidade enfrenta uma tripla crise planetária, composta pela degradação ambiental, pela perda de biodiversidade e pela poluição, que avança de forma interligada e se retroalimenta. Com isso, tem ampliado os impactos sobre o meio ambiente e a qualidade de vida, com efeitos já perceptíveis no cotidiano da população. Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, expostas a eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor. Por isso, é necessário preparar as novas gerações para lidar com esses desafios, com acesso à informação e estímulo ao engajamento em práticas voltadas à prevenção, mitigação e adaptação aos impactos ambientais.
O Kit Missão Clima é formado por uma Cartilha e um Plano Pedagógico. A Cartilha Missão Clima oferece conteúdos sobre educação ambiental climática que podem ser trabalhados em sala de aula de forma complementar ao Plano Pedagógico. Os estudantes vão aprender o que está acontecendo com o nosso planeta, compreender como essas mudanças impactam suas próprias vidas e descobrir, de forma prática, como cuidar da natureza. A cartilha apresenta explicações simples para termos e conceitos fundamentais, ampliando o repertório das crianças e ajudando a construir uma consciência ambiental cidadã desde cedo.
Material reúne informações sobre as mudanças ambientais. Foto: Divulgação
Já o Plano Pedagógico, uma jornada para a prevenção, mitigação e adaptação às mudanças do clima e aos desastres socioambientais, nasce do desejo de apoiar corpos escolares, educadores, estudantes e comunidades na tarefa urgente de preparar crianças e adolescentes para os desafios trazidos pelos extremos climáticos e pelos desastres socioambientais. O material incentiva o engajamento coletivo e entende que a segurança climática depende da participação de todos, incentivando a aprendizagem ativa e participativa, trabalhos em grupos e conexão com a realidade local.
As aulas orientadas pelo Plano Pedagógico acontecem por meio de uma jornada com cinco missões pedagógicas, sendo feito um diagnóstico climático, um mapa de riscos, a detecção de caminhos seguros, um Plano de Segurança Climática Escolar e um Observatório do Clima.
A estrutura das atividades conta com dois momentos, um de estudo, planejamento e reflexão; e o outro com atividades práticas no território da escola. Entre os recursos sugeridos, estão jogos e dinâmicas, materiais visuais, entrevistas e pesquisas, experimentos e construção de instrumentos e produção de mapas, planos e registros. O objetivo é oferecer aos educadores e estudantes recursos práticos para avaliar riscos, fortalecer a resiliência da comunidade escolar e implementar medidas preventivas que minimizem os efeitos de desastres climáticos no espaço escolar.
“Acreditamos que a educação é uma das ferramentas mais poderosas para enfrentar os desafios das mudanças climáticas. Por meio do ADM Cares, temos o compromisso de apoiar iniciativas que fortaleçam o conhecimento e a capacidade de ação de estudantes e educadores, contribuindo para comunidades mais resilientes e mais preparadas para os riscos ambientais. O Kit Missão Clima é um exemplo de como as parcerias podem gerar impacto positivo e duradouro nas novas gerações”, comenta Paloma Carrili, Gerente de Sustentabilidade para o Brasil da ADM.
Os estudantes vão adquirir conhecimento ambiental e climático, compreender as causas da crise climática, especialmente as relacionadas às ações humanas; as consequências, como os eventos extremos, chuvas intensas e compreender a relação entre clima, meio ambiente e sociedade. Além de identificar riscos ambientais na escola e os impactos dos desastres no cotidiano escolar.
Material destinado a escolas de Balsas e Porto Franco
Em um primeiro momento, o material foi destinado ao público das escolas públicas de Balsas e Porto Franco, no Maranhão. Para que os professores e toda a equipe pedagógica estejam aptas a trabalhar os temas abordados no Kit Missão Clima, o ChildFund realizou uma capacitação de 4 horas em cada escola e distribuiu o Kit para os participantes. O conteúdo também está sendo disponibilizado às Secretarias de Educação e Meio Ambiente, ampliando o alcance da iniciativa e fortalecendo a disseminação do conhecimento nos municípios.
Sede definitiva do Luso Sporting Club, em 1938. Foto: Silvino Santos (cedida)
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
A vontade pela prática do futebol foi o motivo que levou, no dia 1º de maio de 1912, os portugueses: Francisco Gomes Rodrigues, Antonio Lameirão, Francisco Ferreira de Carvalho, José Aguiar Sobral, Avelino Nunes Batista, Antonio Leitão Melita, Augusto Ornellas, Salvador de Castro Amorim, João Rodrigues, Joaquim José Pereira e Joaquim A. Lima Crispim, na rua Monsenhor Coutinho (residência do sócio Francisco Gomes Rodrigues), a fundarem o clube, que no ato de sua fundação foi batizado com o nome de Luso Football Club.
O primeiro nome dado ao clube (Luso Football Club), tinha relação com seu principal objetivo que era a prática do futebol. Apesar de serem homens de pouca renda, carregavam consigo ideias trazidas de Portugal e passaram a pôr em prática os exemplos de respeito mútuo e amor à tradição que foi o principal alicerce da construção da agremiação que naquele momento havia acabado de nascer.
O clube passou a servir naquela época de ponto de encontro nos fins de semana. Nele propagavam a cultura física, a educação moral e cívica. Nascia então uma sociedade que ostentava as lembranças das tradições e as lembranças que deixaram para traz na terra de origem. Segundo consta na Ata do Clube, o líder do grupo e primeiro presidente, Francisco Gomes Rodrigues, transferiu a sede para sua residência na rua Jorge de Moraes, n.º 14, (hoje rua Rui Barbosa).
Rua Dr. Jorge de Moraes, aspecto da centenária. Fonte: Álbum Manaus na Administração do Dr. Jorge de Moraes (1911-1913)
O clube foi consolidando sua participação no cenário esportivo do Amazonas e havia necessidade de mais espaço físico. A partir daí, os fundadores tomam a iniciativa de alugar um espaço maior para promover suas reuniões. Nessa ocasião, transferiam sua sede para a rua São Vicente, nº 7, e depois, novamente a sede mudou para a mesma rua, nº 16.
O maior problema enfrentado pelos fundadores e sócios do clube, era a falta de recursos financeiros que pudessem lhes oferecer uma sede, ou até mesmo uma sede própria para as reuniões dos sócios. Assim outra vez, seus fundadores estavam em busca de melhores acomodações para a sua sede social e novamente a diretoria a transferiu para a rua da Instalação, nº 17.
Segundo Zamith:
“Embora timidamente, Manaus já respirava o processo organizacional da partida do futebol. O primeiro campeonato oficial disputado em Manaus foi em 1914. Praticamente nesse primeiro momento, na pri-meira divisão, os times do Atlético Rio Negro Clube, Nacional, Vasco da Gama, Manáos Sporting Club e Manáos Atlétic Club, cuja compe-tição foi iniciada no dia 8 de fevereiro com o jogo Nacional X Manáos Sporting Club, sob a organização da Liga Amazonense de Foot-Ball. Na segunda divisão, participaram as agremiações Manáos Sporting Club, Onze Português, Satélite Foot-Ball Club, Vasco da Gama, Atlético, Luso Foot-Ball Club, Naval Foot-Ball Club e Nacional Foot-Ball Club, que era formado por atletas de nacionalidade inglesa.
A organização do primeiro campeonato de futebol foi uma das primeiras, e mais importantes conquistas do Luso Sporting Club, assim como sua fundação. Pois parte da população de classe baixa passou a ter acesso ao esporte, e principalmente, ao futebol, que ainda era um jogo voltado para as classes sociais mais elevadas.
Foto: Abrahim Baze/acervo pessoal
Segundo consta na ata do clube, transcorria o mês de março do ano de 1917, e nessa oportunidade, assumia a presidência do clube o empresário Virgílio M. Goulart, cuja administração prosseguiu até 1922. No período em que tal presidente esteve na direção do clube, o Luso vivenciou a fase mais importante de sua trajetória social e cultural, pois, durante aquele período o Luso Sporting Club se tornou o mais importante clube português do Amazonas.
Sua primeira apresentação oficial ocorreu no campo do Parque Municipal, realizando na oportunidade seu embate futebolístico contra o Manáos Sporting Club, tendo sido um dos primeiros clubes a fazer parte da “Liga Amazonense de Desporto Atlético”. Durante o período de 1912 a 1914, suas atividades limitaram-se à prática do futebol, conforme dito anteriormente, essa foi a inicial razão de sua fundação. Esse primeiro momento foi como se abrissem a cortina que ocultava o anseio por lazer dos jovens fundadores.
Outro fato importante, é que naquele momento, o clube já alcançava as culminâncias dos desportos no Amazonas, e era ao lado de outros, uma completa organização existente no gênero. Será que os fundadores criaram uma sociedade cujo pensamento era realmente da prática desportiva, muito embora já tivessem ideias avançadas sobre as grandes competições? Ou teriam outros interesses, pois alicerçam-se naquela época, os encontros dos fins de semana para a prática do futebol e a cultura da educação física, promovendo sociabilidades e outras relações que poderiam trazer-lhes bons negócios?
Primeiro time do Luso, em 1912. Foto: Abrahim Baze/acervo pessoal
A iniciativa da fundação teve como motivo principal a prática do futebol de campo, vivendo a apogeu dessa prática de esporte, que nessa época dava seus primeiros passos em Manaus. Os fundadores não fizeram, no período de dois anos, nenhum registro escrito em livro. A ideia de fundação de um clube de futebol era o suficiente para os fundadores, e era isso que os unia. O grande mérito era a união, que se desenvolvia juntamente com a prática do esporte bretão, cujas reuniões eram apenas para decidir a escalação do time, (quem participava como titular, quem se fazia necessário). Apesar do não registro em livro de atas, a tentativa de fundação não fracassou, e acredito, provocou mais entusiasmo com a espera do domingo – dia marcado para os grandes embates.
Na primeira foto, Troféu da Independência, em 6 de dezembro de 1931. Na segunda, primeiro Troféu do Luso conquistado em 1912. Fotos: Acervo do autor
O primeiro campeonato oficial disputado em Manaus foi em 1914. Participaram nesse primeiro momento do Atlético Rio Negro Clube, Nacional Futebol Clube, Vasco da Gama, Manáos Sporting Club e Manáos Atlético Club, cuja competição ficou sob a organização da liga Amazonense de Foot Ball. Na segunda divisão participaram as agremiações: Manáos Sporting Club, Auze português, Satélite Foot Ball Club, Vasco da Gama, Atlético Rio Negro Club, Luso Foot Ball Club, naval Foot Ball Club e Nacional Foot Ball Club. O primeiro campeão do Amazonas foi o Manáos Atlético Club, que era formado por atletas de nacionalidade inglesa. Esse mesmo time repetiu o feito no ano seguinte, o que o tornou Bicampeão.
Zamith descreve que: “a prática desse esporte teve início no campo do bosque Municipal, na Avenida Constantino Nery, próximo hoje ao Bosque Club, mais tarde surgiu o campo do Floriano Peixoto, na Cachoeirinha”, posteriormente, o Parque Amazonense.
Parque Amazonense foi o primeiro estádio do Amazonas a sediar partidas do Campeonato Amazonense. Foto: Baú Velho: histórias do futebol de Manaus e personagem, de Carlos Zamith
Em busca de conforto aos associados, a diretoria resolveu transferir outra vez a sede social do clube, dessa vez para a rua Marechal Deodoro, nº 6. Este local foi um marco muito importante na história da agremiação. Foi naquela época que surgiram os momentos principais da atividade social e cultural, como os importantes bailes de Carnaval, que marcaram uma época de ouro.
A sede do clube, em espaço maior, primava por uma ornamentação belíssima, produzida por grandes artistas que militavam no clube. Nasceu assim um marco no Carnaval do Luso, o baile “Viva o Zé Pereira”, (o qual tratava-se de um boneco enorme vestido de traje lusitanos, de enorme bigode), que puxava os grandes bailes carnavalescos, conduzindo na rua, ou na sede, sócios e simpatizantes.
Naquela época, o Carnaval de rua já se fazia presente, cuja principal artéria era a avenida Eduardo Ribeiro – entre as ruas Municipal, hoje Sete de Setembro, e a Dez de Julho – mais tarde prosseguindo até a frente do Ideal Clube. Dois coretos armados, um deles defronte da sede do centenário Jornal do Commercio e o outro quase chegando na rua Henrique Martins, defronte do antigo Café da Paz, mantinham os foliões eletrizados ao som de marchinhas populares.
O presidente Virgílio M. Goulart transformou a nova sede em algo mais atraente para a sociedade lusitana. Nos finais de tardes, era ponto de encontro regado a chás e biscoitos, e quase sempre embalado ao som de orquestra de pau e corda que executava músicas para o deleite de todos, entremeados por valsas. Esse ambiente promovia assim um novo momento na história do clube, nascendo a escola de dança para sócios e simpatizantes.
Embora seus fundadores promovessem a prática do futebol, falava mais forte o sentimento de cultura trazida da Europa. O que aderiram ao viés de promover uma sociedade não somente para a prática do esporte, mas que atendesse toda a camada social lusitana residente em Manaus, e com isso abria-se a conquista de novos sócios. Conforme consta na Ata do Clube, “no dia 30 de abril de 1917, em solenidade de gala para a colônia portuguesa no Amazonas, inaugura-se a Escola de Dança”.
Esse acontecimento social fez eco na cidade de Manaus, uma vez que pela primeira vez o clube abria suas portas para receber grande número de sócios, simpatizantes e convidados, para dança de salão. A escola de dança marcou época, de tal sorte que inúmeros casais buscavam esses momentos para encontros com belas jovens portuguesas; e muitos casaram-se nesse ambiente social que tinha a arte de ensinar, e também de aproximar pessoas.
O Luso Foot Ball Club, com suas múltiplas atividades administrativas, esportivas, sociais e cívicas, caminhou até 1917, como os outros clubes que já haviam sido constituídos naquele período, com nomes que personalizavam a escrita em inglês, (talvez pela forte presença da colônia inglesa, ou talvez pela razão do futebol ter sido criado na Inglaterra).
Mesmo depois de haver transcorrido cinco anos de sua fundação, os administradores dessa agremiação – aqueles pioneiros da fundação, agora também acompanhados de outros sócios que abraçaram a administração do Club – tomaram em reunião da diretoria, e mais tarde, da assembleia geral, a decisão de mudar o nome.
Grupo de teatro com produção e cenário de Faustiniano Fonseca, apresentando-se no Luso Sporting Club. Foto: Acervo do autor.Alfredo da Silva Fernandes e Antônio Martinho. Fotos: Acervo do autorApresentação no Luso Sporting Club. Fotos: Acervo do autor.Corpo cênico: Arminda Dias, Rossiclé Brasil, Lola Rodrigues, Ida Rollo (senhoritas) e Augusto Reis, Antonio Figueiredo, Constantino Machado, Miguel Martinho, Vitoriano Barreto, Custódio Rodrigues (senhores). Fonte: Jornal O Luso, ano 4, edição especial.
O Luso Foot Ball Club, passou a se chamar Luso Sporting Club, por vontade de seus dirigentes e também pela prática variada de esportes (não somente mais o futebol), bem como as festas promovidas por este clube, e o corpo cênico que mais tarde surgiria na associação.
Naquele mesmo ano, segundo o que consta também na Ata, o corpo cênico do Luso Sporting Club nasceu em 1917, como resultado da produção coletiva, alimentada pela vontade de fazer teatro; dando vida a inúmeros personagens que levaram a efeito, no palco, ao som de voz e de luzes, em preto-e-branco, ou em cores, sob o olhar das plateias.
Todo aquele cenário alimentava a época da juventude dos imigrantes lusos, todos possuidores de uma história individual, trazida com eles de Portugal. Após a criação da escola de dança, o clube começou a inserir, no seu contexto cultural, outras atividades, e o teatro tomou forma como uma montagem que produzia cenários, iluminação e figurinos.
Destaca Vale e Azancoth:
Entre tantos nomes que deram vida ao teatro do Luso destacamos: Arminda Dias, Rossiclé Gomes Brasil, Lola Rodrigues, Ida da Silva Rollo, Augusto Reis, Antônio Aurélio de Figueiredo, Lídia Pontes, Nice Oliveira Solano, Graziela Pontes, Tereza Matos, Miriam, Tarcila Coutinho, Rosália Castanheira, Maria de Lourdes Lima, Manuelina Carvalho, Antonio Nogueira de Sá, José Campos, Fernando Maravilhas.
Era a edificação da arte dramática, pois, vivenciaram o mesmo tom da emoção da arte de representar, e pisar no solo, onde eram representadas as grandes peças: o Teatro Amazonas. Foi nele onde germinaram tantas óperas, e peças trazidas dos países estrangeiros, como consta na Ata do Clube:
Foi assim no dia 1º de dezembro de 1917, com a presença do cônsul de Portugal, autoridade do Governo do Estado e a presença da colônia portuguesa, o corpo Cênico do Luso Sporting Club se apresenta no Teatro Amazonas, cuja renda foi destinada à Cruz Vermelha Brasileira em benefício dos flagelados da guerra.
Senhor José Augusto de Magalhães, cônsul de Portugal e sua esposa senhora Alice Magalhães. Foto: Acervo do autor.Grupo dramático Luis de Camões, drama com 14 atos, peça original, encenada em 25 de abril de 1919 e assinada pelo primeiro secretário do Corpo Cênico do Luso, Antônio Oliveira. Foto: Acervo do AutorGrupo dramático Luis de Camões, drama com 14 atos, peça original, encenada em 25 de abril de 1919 e assinada pelo primeiro secretário do Corpo Cênico do Luso, Antônio Oliveira. Foto: Acervo do AutorPeça teatral intitulada ‘Os ciúmes do mascarado”, peça com 11 cenas escrita em 1940. Fotos: Acervo do autorPeça teatral intitulada ‘Os ciúmes do mascarado”, peça com 11 cenas escrita em 1940. Fotos: Acervo do autor
Segundo os autores, em meio a toda essa trajetória teatral produzida pelo Luso, também ainda havia espaço para a caridade, onde o dinheiro arrecadado em algumas apresentações, eram direcionados às vítimas da guerra. Para o Luso, o futebol, o carnaval, e o teatro foram fundamentais pois, dentro dessa diversidade, os lusos mostravam, e ao mesmo tempo estabeleciam um pouco da cultura Lusitana em Manaus; fortalecendo seus laços, o que resultava do próprio processo de vivência coletiva trazida de seu país de origem.
Para Barth, um grupo étnico não se define por seu estofo cultural (que se modifica no tempo e varia de acordo com ajustamentos ecológicos), mas através de critérios pelos quais ele mesmo estabelece as suas fronteiras (critério de pertencimento e exclusão), e pela tentativa de normatização da interação entre os membros do grupo e as pessoas de fora. Nesta concepção, a homogeneidade cultural é uma resultante de um processo de criação coletiva e a constituição de um sujeito coletivo, fator determinante no estabelecimento de um grupo étnico.
Em Grupos Étnicos e suas Fronteiras, Barth objetiva entender a constituição dos grupos étnicos e os mecanismos de manutenção de suas fronteiras, chamando atenção para as características empíricas que as constituem. Segundo ele, o isolamento geográfico não pode ser representado como um fator decisivo para a existência da diversidade cultural, posto que as fronteiras – definidas nas situações de interação – persistem, apesar do fluxo de pessoas que as cruzam constantemente e que, portanto, segundo Barth: as distinções de categorias étnicas não dependem da ausência de mobilidade para existirem.
O estudo sobre etnicidade passa da pesquisa de grupos fechados às propriedades de um processo social. A etnicidade relaciona-se, então, com os processos sociais de exclusão ou incorporação de elementos propiciadores de significados simbólicos (uma identidade), tanto a nível coletivo como individual. Em sua definição: os grupos étnicos são categorias de atribuição e identificação realizados pelos próprios atores sociais, e assim, têm a característica de organizar a interação entre as pessoas.
Pastorinhas, apresentação com produção e cenário do artista Faustiniano Fonseca. Foto: Acervo do autor.
Assim, para se concentrar no que o autor considera relevante, os grupos étnicos devem ser vistos como uma forma de organização social, cujo aspecto fundamental seria a já clássica característica da atribuição étnica, identidade étnica categorizada por si mesmo e pelos outros, um tipo de organização baseada na autoatribuição dos indivíduos à categorias étnicas. Embora Barth destaque que as categorias étnicas tomam em consideração as diferenças culturais, acentua que as características que são levadas em consideração não são a soma das diferenças “objetivas”, mas somente aquelas que os atores consideram significantes. Daí a importância de se trabalhar com os dados empíricos, as representações coletivas.
A etnicidade consegue, então, assegurar uma unidade grupal, visto que possui caráter organizacional. A organização social, por sua vez, encontra-se ligada aos processos de identificação étnica, e estes (processos de identificação) não derivam da psicologia dos indivíduos (não são por si só conscientes ou inconscientes), mas da constituição de espaços de visibilidade e das formas de interação com o “mundo externo”.
Apresentação das pastorinhas, 1950. Acervo do autor.
Nos espaços de interação, os atributos culturais adquirem expressividade (podendo ser altamente seletivos ou estereotipados), não meramente como revelador de uma realidade subjetiva ou inefável, mas como uma seleção, reivindicação pública que necessita ser validada neste contato. A análise de Barth nos ajuda a pensar os membros dos grupos étnicos não como meros estrategistas motivados unicamente pela realização de seus interesses, ou como atores criando e recriando ao sabor das situações de interação manipuláveis. Pois, o autor busca mostrar como a etnicidade pode ser acionada para a compreensão do processo de interação social, extremamente importante na construção de atribuições e autoatribuições. A explicitação de pressupostos teóricos mostra-se como um caminho viável para quem trabalha em contextos que envolvem emigrantes estrangeiros.
Deste modo, seguindo a trilha de Barth, penso que baseados na identidade coletiva, os emigrantes portugueses que aqui viviam, buscaram na construção do Luso Sporting Club, não apenas um meio para seu lazer ou diversão, tão pouco este clube serviria apenas como um meio para embelezamento de seus corpos. É claro, que nesse bojo estavam introduzidos seus valores étnicos, fazendo da prática desportiva trazida de Portugal, um meio de manter aqui sua cultura, e reforçar, provavelmente, os laços comunitários.
Pois o grande passo para a consolidação de um clube português em Manaus naquele período, não estava baseado apenas em proporcionar uma atividade esportiva que trouxesse benefícios físicos para o corpo, objetivados na ideia da beleza, que estava ligada à cultura do corpo; muito embora ela fizesse parte do contexto social. Porém, havia também uma vontade de reforçar os laços comunitários lusitanos em Manaus.
Percebemos essa busca por uma maior aproximação entre a comu-nidade de portugueses e descendentes que aqui viviam, devido o Luso Sporting Club diversificar suas atividades esportivas e culturais, pois além da criação de um teatro no interior do próprio clube, exibia peças trazidas de Portugal, ou escritas por seus descendentes, aqui mesmo em Manaus.
Essas peças, como a “Pátria”, que expressava o amor de um português pela sua nação e que, mesmo longe de sua amada terra, ainda a mantinha dentro de seu coração. É notório devido tal fator, que tais dramas apresentados eram direcionados especialmente ao público luso-descendente.
Segundo Selda Vale:
Em 1917, o teatro do Luso apresentava autos de Natal e as famosas pastorinhas, além de realizar, no Teatro Amazonas e no Teatro Alcazar, festas de arte pelas vítimas da guerra. Em 1918, é fundada uma escola primária, “João de Deus” fonte de onde provinham quase todos os atores.
Maria Belém e Ceci Figueiredo. Fotos: Acervo do autor
Segundo a autora, o teatro formado pelo luso também tinha como compromisso, a caridade aos necessitados que sofriam naquele momento, como vítimas da guerra. “As pastorinhas” foi uma peça teatral que expressava também uma forte religiosidade dos imigrantes luso-descendentes. Ainda, segundo a autora, “As Pastorinhas”, antes apresentadas nos bairros, em tablados armados nas ruas, subiam ao palco do clube português Luso Sporting Club com uma montagem que envolvia cenários, iluminação, figurinos mais bem cuidados e cenas devidamente ensaiadas.
Observando a Ata do clube, da rua para o palco foi apenas uma figura de retórica, pois as pastorinhas de rua (Cachoeirinha, São Raimundo e Aparecida) continuaram até aproximadamente a década de 70. Entretanto, é essa brincadeira das pastorinhas de rua que serve de inspiração para a criação, no palco, do espetáculo de “A Grande Pastoral”.
Afirma Selda Vale que:
Ao subir à Ribalda, as pastorinhas perderam muito daquela espontaneidade de criação coletiva, quase religiosa, que envolvia famílias, donas da brincadeira que envolvia e aproximava toda a comunidade portuguesa em Manaus.
As Pastorinhas, apresentação com produção e cenário do artista Faustiniano Fonseca. Foto: Acervo do autor
“As Pastorinhas”, ou “Autos de Natal”, do Luso, naquele período, segundo o que expõe a autora, tomava conta do sentimento da cidade. Não havia quase uma só família que não levasse suas crianças para assistirem. O anúncio das pastorinhas era feito pelas próprias personagens que desfilavam pela cidade de Manaus em cima de um velho caminhão, todo enfeitado, como se fosse um palco. Assim se anunciava à comunidade luso-descendente em Manaus, o Teatro do Luso, que além desse espetáculo natalino, marcou sua presença no teatro amazonense com um extenso respeito que incluía dramas, comédias e até mesmo a montagem de Deus lhe pague.
Outras peças também foram apresentadas no Teatro do Luso como, “O Ciúme do Mascarado”, que além de entreter o público, tinha ainda o objetivo de divulgar os bailes de Carnaval promovidos, não só pelo Luso. A peça cômica, contava a história de uma família, onde a esposa saía de casa escondida do marido para um baile de Carnaval no próprio clube. Porém, o marido já estava escondido dela naquele mesmo baile, e foi necessário ele colocar uma máscara para observar o que fazia sua esposa, e ele nunca deixava que outro homem se aproximasse dela. Por isso o nome “O Ciúme do Mascarado”.
Mas naquele período não foi apenas o teatro que servia para informar e aproximar a comunidade portuguesa em Manaus. Em 1924, logo após o Luso construir seu teatro – trazendo tanto as encenações de Portugal, quanto as produzidas em nossa própria cidade para seu palco – a comissão organizada dos festejos de Mi-Carême lança o Jornal do Luso, que também se propôs a divulgar todas as atividades sociais do clube.
Segundo a Ata, o pequeno jornal tinha o compromisso de cumprir o papel de divulgador, e era um órgão da mocidade lusitana que se traduzia em informações voltadas para todos aqueles que viviam em Manaus, mas que tinham seus corações voltados para Portugal. Fazia parte de suas informações, notícias alegres, e ainda as que mostravam a aventura dos portugueses e seus empreendimentos no estado do Amazonas, bem como, política, músicas, poesias, enfim, tudo que acontecia em Portugal terra e que estava ligado às suas origens.
A diretoria do Clube buscava transmitir as informações dos fatos da época destacando o Carnaval, (de colombinas, pierrôs, que sabiam festejar galhardamente a estadia do Rei Momo). Assim, o pequeno jornal “O Luso”, circulou por muito tempo na busca e publicação das mais variadas notícias da vida do Luso Sporting Club.
Segundo a Ata do clube:
Na décima primeira sessão ordinária do Luso Sporting Club, realizada aos dezoito dias do mês de junho, ainda sob a presidência de Virgílio M. Goulart, o diretor João Maria Adrião, primeiro secretário, propõe à mesa diretora a criação de uma escola de instrução primária, sendo sua proposta aceita por unanimidade e aprovada na mesma ocasião.
Jornal O Luso, edição especial de 29 de março de 1924. Foto: Acervo do autor
Dessa forma, surgiu a Escola João de Deus, onde a princípio era mantida financeiramente por alguns fundadores e sócios do Luso, dentre eles: João Maria Adrião, Madeira Diniz, Alberto R. de Andrade, João Mendes, Manoel da Costa Santos, José da Costa Novo e Cezar Augusto de Magalhães, como consta na ata de reuniões.
Grupo de alunos da Escola João de Deus. Foto: Acervo do autor
Aqueles lusitanos que se aglutinaram para fundar o Luso Sporting Club, também tinham a preocupação de criar um movimento que ficasse de forma duradoura na memória dos que perdurassem para testemunhar. Na verdade, esses portugueses patriotas além da preocupação com o esporte, também cuidaram da formação intelectual de seus descendentes. Pois, aquela escola atendia somente os filhos dos diretores e sócios da comunidade Luso em Manaus.
Embora todos esses eventos culturais, como o teatro e o carnaval, tenham dado um pouco de sua contribuição para destacar a sociedade portuguesa no Amazonas, através do Luso Sporting Club, a prática dos esportes não ficou relegada ao segundo plano. Pelo contrário, o esporte continuava sendo o principal destaque no Clube.
Suzete Gonçalves D’ Oliveira (Diretora); Adelaide Tavares de Macêdo (Professora); José Madeira Diniz (Benfeitor), escola João de Deus; Foto: Acervo do autorPresidente José Bernardo Lameiras, em companhia de professoras da escola, 1954. Foto: Acervo do autor
Segundo destaca Anjos:
O Luso Sporting Club com sua riqueza cultural, social e esportiva marcava também sua história com uma das mais importantes modalidades de esporte na época praticado em Manaus. Uma das maiores emoções dos amazonenses, até o final dos anos trinta, eram as chegadas de navios do Lloyd Brasileiro e da Booth Line, com os seus Linrs, Boniface, Hilary, Anselm, Hildebrand, Policarp e os da Amazon River, confortáveis vaticanos, além de gaiolas e chatinhas, cuja chegada normalmente no amanhecer ou final de tarde eram recepcionados pelos remadores ao largo.
A importância do Luso Sporting Club
Estandarte de seda bordado à ouro, obra do artista Branco e Silva em Manaus, 3 de abril de 1943. Foto: Acervo do autor
Assim, o Luso escreveu sua história no remo, construída num mural de conquistas às margens do Rio Negro. Tempos depois, o Luso desfaz essa modalidade esportiva e os homens que promoviam o esporte resolveram criar outro clube exclusivamente para o remo: O grêmio Náutico Portugal, criado em 1939.
Assim, na Manaus de outrora, os portugueses e descendentes que assim viveram, conseguiram manter suas culturas através da fundação de um clube. Escreveram sua história através de seus ideais culturais, trazidos de sua pátria. São alguns ângulos de um passado memorável, panorama que se altera nas fases de expansão da sociedade luso-brasileira no Amazonas. Imigrantes que em fases distintas de nosso passado, não muito remoto, pisaram as nossas terras e banharam o rosto nas águas negras do nosso rio. O Carnaval do Luso hoje é mais que uma pálida lembrança de cultura nas gerações atuais. São marcas indestrutíveis de um Carnaval de uma geração, de um tempo marcado na história dos imigrantes portugueses no Amazonas.
Dentro do que pudemos perceber, a comunidade portuguesa instalada em Manaus, teve, sem dúvida, seus laços reforçados, através das atividades promovidas pelo clube que trazia como bandeira sua cultura. Pois, ainda nos dias de hoje, os remanescentes dessa sociedade fundadora do Luso Sporting Club se reúnem para rememorar suas lembranças.
Manoel Teixeira de Macêdo (Diretor); José Tavares de Macêdo (Professor e aluno); Orlando Teixeira de Macêdo (Professor), escola João de Deus. Foto: Acervo do autor.
Sobre o autor
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
A obra contempla a implantação de 305 metros de drenagem na rua João Batista Sobreiro. Foto: Francisco Sena/PMBV
A infraestrutura de Boa Vista segue fortalecida com os investimentos da prefeitura, que agora atua na solução do 50º ponto crítico de alagamento da capital. A obra contempla a implantação de 305 metros de drenagem na rua João Batista Sobreiro, no bairro Cidade Satélite, proporcionando mais segurança e eficiência ao sistema de escoamento das águas pluviais.
Executado pela Secretaria Municipal de Conservação Pública (SMCP), o serviço teve início pela rua Sebastião Corrêa, com a escavação e a implantação da tubulação principal. Em seguida, foi feita a interligação de 13 bocas de lobo no entorno.
Intervenção começou pela rua Sebastião Corrêa, com a implantação da tubulação principal e a interligação de 13 bocas de lobo para reforçar o sistema de drenagem da região. Foto: Francisco Sena/PMBV
Moradores destacam benefícios para a região
O comerciante Roberto Silva de Sá, de 53 anos, proprietário de um restaurante próximo ao local onde os serviços ocorrem, avalia a intervenção de forma positiva. “Com essa drenagem, a situação vai melhorar bastante. Para mim, essa melhoria é muito bem-vinda”, afirmou.
A aposentada Maria da Penha Oliveira, de 67 anos, passa frequentemente pela rua João Batista Sobreiro com o neto, Miguel Mendonça, de 4 anos, e tem acompanhado o andamento dos serviços.
“Está ficando muito bom esse trabalho da prefeitura, além de trazer mais segurança para eu poder andar pelas ruas com meu neto”, frisou.
Ao lado do neto Miguel, Maria da Penha acompanha de perto as melhorias no Cidade Satélite. Foto: Francisco Sena/PMBV
Investimentos em drenagem avançam para reduzir alagamentos na cidade
Desde 2021, a prefeitura já concluiu os serviços em 45 pontos críticos de alagamento distribuídos por 26 bairros da capital. Outros cinco seguem com obras em andamento: a avenida São Sebastião, no bairro Santa Teresa; a avenida Major Willams, no São Pedro; a rua Austrália, no Cauamé; a rua Abdalla, no bairro Jóquei Clube; e, agora, a rua João Batista Sobreiro, no bairro Cidade Satélite.
Livro ‘Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível’- Resistência, Quilombo de Vila Bela, Oiapoque, Amapá, 2015. Foto: Marcela Bonfim
“Sendo a imagem da Cor pano de fundo das relações de privilégio ainda vigentes no Brasil, além das aflições físicas vinculadas às péssimas condições de sobrevivência das populações escravizadas, a Cor escura foi condicionada como espectro (psicológico), peça-chave da máquina de exploração europeia”. – Marcela Bonfim
Contemplado pelo Edital Funarte Retomada 2023 – Artes Visuais, ‘Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível‘, primeiro livro de Marcela Bonfim, aborda deslocamentos reflexivos, físicos e subjetivos da autora ao migrar para Rondônia e descobrir a presença negra em território amazônico.
Marcela Bonfim é fotógrafa, economista formada pela PUC-SP e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública pela Universidade Federal de Rondônia. Já atuou como fotojornalista, colunista, palestrante, júri em concursos fotográficos e curadora de exposições em todo o país.
Foto: Divulgação
Paulista de Jaú, chegou em Porto Velho em 2010 para trabalhar e, nos momentos livres, em caminhadas aleatórias desvendando seu novo lugar, passou a fotografar as comunidades locais de origem caribenha, quilombolas e indígenas da região, vivência que afirma despertar nela “um processo de se expressar pelo seu corpo, sobre o seu corpo e outros corpos de identidades análogas e assim se reconhecer como mulher negra”.
Na trajetória desta descoberta, sombras se dissipam perante estigmas, trazendo movimentos de uma distinta Amazônia Negra, entre eles uma potente visualidade que passa a estruturar uma árdua tarefa: entender onde o seu e os outros corpos negros residem e se encaixam nos pilares do sistema dominante, com sua profusão de lugares e elementos exploratórios que foram brutalmente criados e impostos pela história, supostamente civilizatória.
A pesquisa regular de Marcela, torna-se um campo de produção de conhecimento sobre a pele escura, provocando uma travessia para uma imagem-corpo-continente impactada no cenário de violações, expropriações e estratégias mercantis que forjaram uma inferiorização inexistente para explorá-los comercialmente.
Fotógrafa que lançou o livro ‘Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível’. Foto: Divulgação
Em um intenso exercício de ‘pensar por imagens’, Marcela apresenta em seu livro um imaginário de considerações, como ela descreve, sobre corpos escuros – classificados e detidos a partir de uma categorização visual, que foram colocados em uma circunstância imagética propositalmente deformada, onde a existência, física e abstrata, sem mínimo direito a humanidade, foi subjugada com martírios e apagamentos e passou a existir como um mero produto rentável.
O livro também é composto por fotografias de Marcela que fazem parte de seu projeto ‘(Re) conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta’, plataforma multi artística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual. Lançado no final de 2025, o livro é pela Editora Igrá Kniga.