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Mais de 90% da população brasileira se preocupa com doenças crônicas, aponta pesquisa Datafolha

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Doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são motivos de preocupação de 92% da população brasileira. Foto: Reprodução/Tânia Rego-Agência Brasil

A maioria da população brasileira reconhece os principais fatores de risco relacionados às doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), percebe as mudanças climáticas influenciando na saúde e aponta a importância de ampliar o acesso à informação e a transparência das empresas para enfrentá-las. Esta é a conclusão de uma pesquisa inédita feita pelo Instituto Datafolha sob encomenda da ACT Promoção da Saúde no âmbito do projeto Prevenção 360º, apoiado pela Umane, em 117 municípios das cinco regiões do país, com 2.000 entrevistas com pessoas acima de 16 anos, e 1.913 acima de 18 anos, entre os dias 4 e 6 de maio.

A pesquisa foi iniciada com perguntas para verificar se a população entende que as DCNT, como pressão alta, câncer, diabetes, doenças do coração e respiratórias, estão relacionadas com fatores de risco. Para 92% dos entrevistados, o principal fator para essas doenças é o tabagismo, inclusive os cigarros eletrônicos, e para 83%, o alto consumo de bebidas alcoólicas. Já a alimentação não saudável, com ingestão de muitos produtos ultraprocessados e poucas verduras e vegetais, é apontada por 80% das pessoas como relacionada às DCNTs, enquanto 78% identificam o sedentarismo e a poluição do ar como fatores de risco.

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Relação das doenças com mudanças climáticas

Pela primeira vez, o levantamento investigou também a percepção da população sobre a influência das mudanças climáticas nas DCNTs. O resultado mostra que 81% dos brasileiros acreditam que eventos como ondas de calor, enchentes e tempestades aumentam o risco de desenvolver essas doenças.

O Datafolha apresentou, de forma alternada, quatro meios de se combater as DCNTs para que cada pessoa pudesse escolher até duas opções que considerassem mais efetivas. Quando perguntados sobre as medidas mais efetivas para combater as DCNTs, os entrevistados demonstram valorizar ações que ampliem o acesso à informação e fortaleçam a responsabilidade das empresas. Para 56%, a medida mais importante é que as empresas expliquem claramente o que seus produtos contêm e quais riscos oferecem à saúde.

Outros 53% defendem ampliar as informações na TV, internet e redes sociais sobre prevenção dessas doenças. O comportamento individual também teve destaque, com 52% dos entrevistados dizendo que “cada pessoa deve tomar os cuidados para não desenvolver essas doenças”. A adoção de medidas comprovadamente eficazes para a saúde pública, por meio de legislação, teve apoio de 33%.

Saiba mais: Portal Amazônia responde: O que são doenças tropicais?

Maioria dos brasileiros reconhecem os principais fatores de risco de doenças crônicas
Dados da pesquisa revelaram que a prevenção das doenças e os fatores de risco ainda é frequentemente percebida como responsabilidade individual. Foto: Pixabay

Para a ACT, esses dados revelam que, embora a população reconheça os principais fatores de risco para DCNT, a prevenção ainda é frequentemente percebida como responsabilidade individual. Porém, escolhas pessoais são feitas em ambientes moldados por desigualdades sociais, estratégias de marketing e lobby de grandes indústrias. Por isso, enfrentar as DCNT exige ir além da informação e do autocuidado: requer políticas públicas capazes de tornar os ambientes mais saudáveis e proteger a população de práticas que aumentam riscos à saúde.

Nesse sentido, o apoio de 33% a medidas legais indica uma oportunidade de ampliar o debate sobre o papel do Estado, mostrando que as regulações não limitam a liberdade individual, mas criam condições mais justas para que ambientes saudáveis possam levar a escolhas saudáveis.

“Os resultados mostram que os brasileiros já reconhecem que as doenças crônicas são influenciadas por diversos fatores, inclusive pelas mudanças climáticas. O próximo passo é ampliar a compreensão de que a prevenção depende também de ambientes saudáveis, políticas públicas e da responsabilidade das empresas na proteção da saúde”, afirma Thais Junqueira, superintendente-geral da Umane.

Indústria de produtos nocivos

Aproveitando as eleições, o Datafolha também perguntou se as pessoas votariam em candidatos que tenham apoio das indústrias que fabricam produtos nocivos. Setenta e sete por centro não votariam em candidatos apoiados pela indústria do tabaco, 68% não votariam nos apoiados pela indústria de álcool e 58%, pela de ultraprocessados. Sessenta e seis por cento não votariam em políticos que apoiam empresas de agrotóxicos.

“Como uma democracia ainda em processo de consolidação, temos muito a avançar na construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Esse caminho depende da formação de cidadãos que compreendam o valor das políticas públicas e reconheçam seu papel na defesa do interesse coletivo. É essa cidadania ativa e consciente que estabelece o equilíbrio necessário entre o Estado e a iniciativa privada, assegurando que o interesse público prevaleça nas decisões que afetam a sociedade”, diz Marília Albiero, gerente de Inovação da ACT Promoção da Saúde.

*Com informações da ACT Promoção da Saúde

Porto Velho consolida protagonismo na pesca esportiva

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Pesca esportiva. Foto: Divulgação

Nos últimos dias, Porto Velho viveu uma série de ações voltadas ao fortalecimento do turismo de natureza, da pesca esportiva e da valorização do patrimônio histórico e ambiental. A programação reuniu especialistas, representantes do Governo Federal, empresários, pescadores e instituições públicas em uma agenda que reforçou o potencial da capital rondoniense como um dos principais destinos turísticos da Amazônia.

O primeiro grande momento foi a realização do 1º Fórum Amazônico de Pesca Esportiva, que reuniu representantes do setor para debater políticas públicas, preservação ambiental, geração de emprego e renda e estratégias para transformar Porto Velho em referência nacional na modalidade. O encontro contou com a participação do analista técnico do Ministério do Turismo, Humberto Pires, e da superintendente federal do Ministério da Pesca e Aquicultura em Rondônia, Dra. Raica Esteves Xavier Meante.

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Na sequência, Solenidade de Outorga das Comendas Rio Madeira e Mário de Andrade, homenageando pessoas e instituições que contribuem para o fortalecimento do turismo, da cultura e da identidade do município.

Imagem colorida mostra secretário nacional de políticas de turismo de Rondônia em pesca esportiva
Augusto Lira conheceu de perto os atrativos naturais e participou de atividades voltadas à pesca esportiva. Foto: Arquivo/ Secom Rondônia

Leia também: Entenda como funciona a pesca esportiva e como deixar o peixe menos ‘estressado’ durante a pescaria

Durante a cerimônia também foi lançado o Manual da Pesca Esportiva, um material elaborado para orientar pescadores, operadores turísticos e visitantes sobre a prática responsável da atividade, incentivando a preservação dos recursos naturais e o desenvolvimento sustentável do setor.

Outro marco da programação foi a apresentação dos selos oficiais “Porto Velho: Capital da Pesca Esportiva” e “Porto Velho: Capital do Turismo de Observação de Aves”, iniciativas que reforçam a identidade turística do município e ampliam sua divulgação para visitantes de diferentes regiões do país e do exterior.

A sequência de ações demonstra uma estratégia de valorização do Rio Madeira e das riquezas naturais da capital, transformando a pesca esportiva em uma ferramenta de desenvolvimento econômico, geração de oportunidades e fortalecimento do turismo sustentável.

Leia também: Porto Velho é nova Capital Nacional da Pesca Esportiva

Autoridas apreciam Pesca Esportiva na capital

Porto Velho recebeu a visita do secretário nacional de Políticas de Turismo, Augusto Lira da Rocha, que segue cumprindo compromissos no município. Durante a programação, ele conheceu de perto os atrativos naturais, os projetos desenvolvidos pela Prefeitura e participou de atividades voltadas à pesca esportiva, levando a experiência e o potencial da capital rondoniense para o cenário nacional. 

pesca esportiva em roraima
Pesca esportiva. Foto: Joao Paulo Araujo

O secretário nacional de Políticas de Turismo, Augusto Lira da Rocha, ressaltou que Porto Velho reúne características únicas e possui potencial para se consolidar como um dos grandes destinos de turismo de natureza do Brasil. “Aqui tem um patrimônio natural extraordinário e um trabalho que une preservação, turismo e desenvolvimento. Essa experiência precisa ser conhecida em todo o país.”

O secretário executivo de Turismo da Semtel, Aleks Palitot, disse que as ações realizadas fazem parte de um planejamento para posicionar Porto Velho entre os principais destinos turísticos da Amazônia. “Estamos estruturando produtos turísticos, valorizando nossa história e nossos rios para que Porto Velho seja reconhecida cada vez mais como um destino de natureza, cultura e pesca esportiva.”

O prefeito Léo Moraes afirmou que a cidade vive um momento histórico de valorização de suas potencialidades e que o objetivo é fazer com que a capital seja conhecida nacional e internacionalmente por suas riquezas naturais. “Estamos mostrando ao Brasil aquilo que Porto Velho sempre teve de mais valioso: o Rio Madeira, nossa biodiversidade e o potencial da pesca esportiva. Quando recebemos representantes do Governo Federal e eles conhecem essa realidade de perto, levamos o nome da nossa cidade para todo o país e abrimos novas oportunidades para o turismo, para a economia e para a nossa população.”

Acompanhe aqui o manual da pesca. 

*Por Jhon Silva/ Secom Rondônia

A tarifa de Trump e a mentira que esconde o legado de Bolsonaro

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Arte: Ilustração feita por IA

Por Olímpio Guarany*

Naveguei da foz do Amazonas até o rio Napo, no Peru, e subi até a cordilheira dos Andes, Equador (2020-2022). Vi a floresta de perto, senti seu cheiro, ouvi seus silêncios. Não escrevo de um gabinete em Brasília ou de uma redação em São Paulo. Escrevo da memória das águas que percorri. E é com essa autoridade que digo: o governo Trump está mentindo sobre a Amazônia.

Uma das justificativas para a tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros é ambiental. O documento oficial do Escritório do Representante de Comércio dos EUA repete a palavra “desmatamento” dezenas de vezes. Parece técnica a argumentação. Mas não passa de cinismo geopolítico — e, pior, de um cinismo alimentado com dados do período mais sombrio da nossa história ambiental recente.

Porque os números que Trump usa são os do governo Bolsonaro.

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Foi o ex-presidente que, em 2019, herdou uma taxa de desmatamento de 7.500 km² e a transformou em 11.030 km² em 2021 — o pico da devastação dos últimos 15 anos. Foi ele que extinguiu comitês de combate ao desmatamento, que demitiu servidores do Ibama, que incentivou invasores de terra com discursos de ódio contra indígenas e quilombolas. Foi ele que chamou a floresta de “terreno baldio” e disse que “não se deve passar a mão na cabeça de ONG”.

Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace

Não foi omissão. Foi projeto de governo. A porteira foi aberta de propósito.

E é exatamente esse período — o auge da destruição — que Trump resgata para justificar sua tarifa. Ele não cita os dados de 2023, 2024 e 2025. Não cita a queda de 30,6% em 2024, nem os 5.796 km² de 2025 — a terceira menor taxa desde 1988. Não cita que, de 2022 para 2025, o desmatamento caiu pela metade.

Por quê? Porque isso atrapalha a narrativa.

Acabo concluindo que Trump não quer proteger a Amazônia. Ele quer proteger o mercado americano. A pauta ambiental é apenas a desculpa para o protecionismo. Os EUA, que se retiraram do Acordo de Paris, que ampliam a exploração de petróleo em terras públicas e que lideram o consumo de combustíveis fósseis per capita, não têm legitimidade para dar lição de moral ambiental a ninguém.

Não tenho procuração para defender o governo brasileiro, mas Lula, que reativou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, retomou o Fundo Amazônia com doações da Noruega e da Alemanha, ampliou a fiscalização em 81% e aplicou mais de R$ 2 bilhões em multas — um aumento de 179% em relação ao período Bolsonaro. Os resultados são visíveis. A curva da devastação, que subia como uma flecha, agora despenca.

O Observatório do Clima já denunciou: a tarifa de Trump é “puramente política”. O secretário-executivo Márcio Astrini foi cirúrgico: “É uma desculpa para impor uma barreira tarifária”.

E eu pergunto: onde estavam os EUA quando Bolsonaro queimava a floresta em plena luz do dia? Onde estavam as tarifas quando o desmatamento batia recordes? Onde estava a preocupação ambiental quando o governo brasileiro sabotava a própria fiscalização?

Não estavam. Porque não se importam com a floresta. Se importassem, estariam hoje reconhecendo o esforço do Brasil, não o punindo.

Conheço a Amazônia. Sei que floresta não é estatística. É território de povos, é água, é biodiversidade, é resistência. E sei também que a responsabilidade ambiental não pode ser usada como moeda de troca em jogos de poder.

O Brasil errou. O governo Bolsonaro errou de forma criminosa, e a floresta sangrou. Mas o Brasil de hoje não é o mesmo. O governo Lula está consertando o que foi quebrado. Os dados mostram. A floresta começa a se recuperar. E a comunidade internacional que realmente se importa com o clima sabe disso.

Trump pode até tentar nos envergonhar com números velhos. Mas a verdade é mais forte: quem abriu a porteira foi Bolsonaro ; quem está fechando é Lula. E quem usa a Amazônia como arma comercial não tem compromisso com ela — tem apenas com seus próprios lucros.

A Amazônia não é pauta de barganha. E eu, que naveguei e continuo navegando seus rios de fio a pavio, não vou permitir que a história seja reescrita por quem nunca pisou na floresta.

Leia também: A dissonância que tem cheiro de fumaça e cor de rio barrento

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Projeto da UNIR amplia diagnóstico de doenças raras

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Doenças Raras sendo analisadas por pesquisadores. Foto: Divulgação/ Assessoria de Comunicação da UNIR

Há mais de uma década, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), por meio do Laboratório de Genética Humana (LGH), desenvolve pesquisas voltadas ao diagnóstico e acompanhamento de pessoas com doenças genéticas raras na Amazônia Ocidental, contribuindo para ampliar o acesso ao diagnóstico em uma região sem centro de referência especializado para esse atendimento.

Coordenada pelos professores pesquisadores Andonai Krauze e Vivian Susi de Assis Canizares, da Faculdade de Ciências da Saúde (Facisa/UNIR), a iniciativa “Em busca dos raros” reúne docentes, técnicos, estudantes e colaboradores de diferentes áreas. Além da pesquisa científica, as ações incluem atividades de extensão, capacitação de profissionais de saúde e mapeamento de famílias em Rondônia e no Vale do Juruá, abrangendo áreas do Acre e do Amazonas.

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Para o pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa da UNIR, professor Juliano Cedaro, que já atuou como pesquisador no projeto, a pesquisa desenvolvida pelo laboratório evidencia uma demanda historicamente invisibilizada no sistema de saúde da região Norte. “Cada modalidade de doença rara afeta um número reduzido de pessoas, mas, quando consideradas em conjunto, as diferentes doenças raras representam um contingente significativo da população. O trabalho realizado pela universidade tem possibilitado mapear famílias, identificar casos e evidenciar a necessidade de fortalecimento das políticas públicas e dos serviços especializados na região amazônica”, afirma.

Fortalecimento e alcance da pesquisa sobre doenças raras 

As pesquisas tiveram início em 2014, ano em que o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a estabelecer diretrizes para a atenção integral às pessoas com doenças raras. A partir desse contexto, pesquisadores da UNIR iniciaram investigações envolvendo famílias com suspeita de doenças neurodegenerativas hereditárias, inicialmente relacionadas à Doença de Huntington e, posteriormente, ampliadas para outras condições genéticas raras.

Leia também: Plataforma criada em Rondônia transforma palavras indígenas em dicionários digitais

Segundo o professor Andonai Krauze, o trabalho desenvolvido pelo LGH envolve tanto a pesquisa científica quanto o acompanhamento das famílias e a articulação com a rede pública de saúde. “Nosso objetivo é identificar essas pessoas e famílias para que elas tenham acesso ao diagnóstico e consigam ser inseridas na rede de atendimento. Muitas passam anos sem saber qual doença possuem e sem conseguir acessar direitos básicos e tratamento adequado”, explica o pesquisador.

Estrutura laboratorial e diagnóstico

Atualmente, o Laboratório de Genética Humana dispõe de equipamentos e infraestrutura próprios para realização de análises genéticas utilizadas em projetos acadêmicos e pesquisas científicas, incluindo equipamentos adquiridos e incorporados em 2024 para fortalecimento das atividades.

Os pesquisadores e coordenadores Andonai e Vivian informam que o LGH realiza procedimentos de investigação genética e apoio diagnóstico em pesquisas envolvendo doenças raras, temática ainda incipiente nos serviços de saúde da região. Também destacam que as ações já permitiram identificar famílias extensas acometidas por doenças neurodegenerativas hereditárias, algumas delas com dezenas de integrantes afetados em diferentes gerações, incluindo casos de transmissão genética dominante.

Atuação multiprofissional e apoio às famílias

Além das investigações laboratoriais, o projeto passou a incorporar ações multiprofissionais envolvendo áreas como enfermagem, psicologia, serviço social, medicina e educação física. Entre os profissionais envolvidos está Daniel Guedes Feitosa, servidor da UNIR com formação em serviço social, que atua no acompanhamento das famílias atendidas. Segundo ele, parte das ações concentra-se no encaminhamento social e na orientação sobre direitos e políticas públicas. “Muitas dessas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social e possuem integrantes com limitações cognitivas e motoras importantes. O projeto também auxiliou no acesso a benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e na orientação das famílias sobre seus direitos”, explica.

A professora Vivian Susi afirma que o trabalho desenvolvido pelo grupo também busca promover a aproximação entre as famílias atendidas e a rede pública de saúde, por meio de atividades de orientação aos pacientes e de capacitação dos profissionais da área. “As doenças raras ainda são pouco conhecidas dentro da formação tradicional dos profissionais da saúde. Muitas famílias passam de seis a dez anos sem um diagnóstico definitivo. Por isso, além da pesquisa, nós também realizamos ações de capacitação e orientação junto às unidades básicas de saúde”, destaca a pesquisadora.

Entre as ações já realizadas estão visitas domiciliares, mapeamento familiar, atividades de campo em municípios do interior de Rondônia e do Amazonas, capacitações de profissionais das unidades básicas de saúde e acompanhamento psicossocial de pacientes e cuidadores. O grupo também desenvolveu materiais educativos e cartilhas voltadas à orientação de profissionais da saúde sobre identificação precoce de doenças raras.

A psicóloga e pesquisadora colaboradora Jaine Feitosa destaca que a atuação da universidade permitiu identificar famílias que antes não possuíam qualquer diagnóstico ou acompanhamento especializado. “Quando começamos as visitas domiciliares e o acompanhamento dessas famílias, muitas delas já haviam buscado atendimento em vários locais sem conseguir respostas. O Laboratório de Genética Humana da UNIR passou a ser uma referência de apoio e acolhimento para essas pessoas”, salienta.

Desafios para ampliação do atendimento 

Segundo os pesquisadores, embora existam milhares de doenças raras catalogadas no mundo todo, a região Norte do Brasil ainda enfrenta limitações relacionadas à subnotificação, ausência de centros especializados e dificuldade de acesso a exames diagnósticos e tratamentos capazes de proporcionar maior autonomia e qualidade de vida aos pacientes e suas famílias.

O professor Juliano Cedaro ressalta que uma das principais contribuições da pesquisa foi tornar visível uma realidade pouco conhecida no contexto regional. “O Laboratório de Genética Humana conseguiu mapear pessoas e famílias em diferentes municípios da Amazônia Ocidental e demonstrar que existe uma demanda concreta por atendimento especializado, diagnóstico e acompanhamento dessas populações”, enfatiza.

O grupo pretende ampliar o mapeamento regional de pacientes, além de fortalecer redes de colaboração científica e avançar na articulação institucional para consolidação de serviços especializados voltados às doenças raras na Amazônia Ocidental. Contudo, os pesquisadores ressaltam que o avanço no atendimento a essas populações, para além das fronteiras da universidade, depende do fortalecimento das políticas públicas de saúde, com ampliação dos serviços especializados e acesso ao diagnóstico precoce.

*O texto foi publicado originalmente no site da Universidade Feederal de Rondônia (UNIR)

Acesso à saúde reduz histórias de perdas em comunidade do Amazonas

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Foto: Lucas Bonny/FAS

Morador da zona rural de Carauari, no interior do Amazonas, Francisco Solivan Peres de Araújo perdeu a mãe quanto tinha 2 anos. Ela faleceu durante o parto de sua irmã. “Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”, contou ele à reportagem, relembrando as condições de vida na região no final da década de 80. 

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A triste história de Solivan, atual presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), é muito comum pela região. São relatos de perdas, sequelas e traumas provocados pela distância entre a zona rural e a zona urbana. Ou, até mesmo, pela falta de dinheiro para conseguir deslocar-se até a cidade para um atendimento em saúde.

Carauari é um município de grande extensão territorial, um dos maiores do Brasil, com mais de 25,7 mil quilômetros de área – maior até do que diversos países. Banhado pelo sinuoso Rio Juruá e cercado pela Floresta Amazônica, isso significa que ir da zona rural de Carauari, onde estão concentradas as populações ribeirinhas, até a zona urbana, onde há a estrutura pública fixa de saúde, pode levar horas ou dias de viagem. O trajeto depende do tipo de embarcação e da situação do rio. Se estiver em época de seca, o percurso pode ser ainda mais demorado.

Nos últimos dez dias, a reportagem da Agência Brasil participou de uma expedição para conhecer comunidades ribeirinhas de Carauari, instaladas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS Uacari). A viagem teve início com um deslocamento de cerca de 35 horas de lancha expressa de Manaus até a cidade. Depois, mais quatro horas de deslocamento até a comunidade de Bauana. De lá, mais quatro horas para percorrer comunidades localizadas até a região de Campina. A reportagem ouviu muitas histórias trágicas que, talvez, pudessem ter um desfecho diferente se, naquela época, houvesse políticas públicas para o atendimento à saúde da população ribeirinha.

Leia também: Projeto SUS na Floresta fortalece atendimento de saúde em comunidades de difícil acesso no Amazonas

Acesso à saúde reduz histórias de perdas em comunidade do Amazonas
Francisco Solivan, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru). Foto: Lucas Bonny/FAS

Resgate

Os relatos de mortes de moradores da região por falta de atendimento eram ainda mais comuns até os anos 90, quando a prefeitura instalou um sistema de lanchas de resgate que é utilizado para atender situações de gravidade ou de emergência. Mesmo assim, ainda persistem relatos de demora no atendimento por causa da imensa distância que precisa ser percorrida até a “cidade”, como os ribeirinhos chamam a área urbana de Carauari.

Adriana da Silva e Silva tem sequelas na perna após ter sido picada por uma cobra em janeiro de 2019, na comunidade de São José do Nachiqui, povoado ribeirinho tradicional situado às margens da Bacia do Rio Juruá.

“A gente chamou o resgate, só que no momento não estava disponível. Demorou mais de 24 horas para chegar o atendimento. Quando eu me desloquei da comunidade até a cidade, em razão das horas que eu passei, eu sofri muito devido ao veneno e não tinha soro. Aí minha perna inchou muito, ficou irreconhecível. Para não perder a perna, eles tiveram que fazer quatro cirurgias”, contou.

Naquele momento cogitaram levá-la à capital Manaus, onde sua perna seria amputada. Os médicos de Carauari, no entanto, conseguiram salvar o membro. Apesar disso, Adriana enfrenta diversas sequelas desse episódio.

“Às vezes, quando eu ando, eu perco o tato da perna. E se eu ficar muito tempo com a perna encolhida, eu tenho dificuldade para esticar e se eu ficar com ela esticada, eu tenho dificuldade para encolher. E ela incha muito”.

Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e atualmente colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também carrega as marcas de uma tragédia familiar.

“Até os anos 90, aqui no Médio Juruá, a gente tinha pouca assistência em vários sentidos, mas a da saúde era a mais carente. Em 1994, a gente morava na comunidade Mandioca e o meu irmão adoeceu. Nessa época, a gente não tinha apoio de governo e das organizações de base, que hoje têm esse trabalho fortalecido. A gente dependia de regatão [comerciante ambulante que navega pelos rios da Amazônia vendendo ou distribuindo suas mercadorias] para fazer um deslocamento até a sede do município para ter um atendimento médico. E o meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando. A gente não tinha condições próprias na época”, acrescentou.

Quando finalmente sua mãe conseguiu uma carona no regatão, demorou uma semana para que ela e o filho doente conseguissem chegar até a cidade. Isso porque a prioridade do regatão era vender suas mercadorias pelo caminho.

“O fato é que, depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada pela saúde dele – e ele veio a óbito”, contou Raimundo.

Até hoje, ele não sabe o que provocou a morte do irmão. Só lembra que ele reclamava de dores na barriga.

“Essa era uma situação comum até os anos 1997, quando as organizações, já mais um pouco fortalecidas, buscaram nossos direitos. E aí começou a ter um olhar especial para o Médio Juruá e foi quando essa situação começou a ter outro sentido. Mas, até essa data, muitas famílias sofreram essas calamidades nessa questão de doenças porque a gente não tinha um atendimento. Isso causou uma evacuação do Médio Juruá, de famílias que, assim como a minha, foram para a cidade em busca de ter um atendimento melhorado, já que nós não tínhamos isso aqui”, lembrou.

Saúde mais próxima

Para todos esses ribeirinhos, a experiência comprovou que, se houvesse atendimento em saúde mais próximo de suas comunidades, essas histórias não seriam tão trágicas.

“Eu imagino que, há 38 anos, quando a minha mãe faleceu, era difícil, muito difícil. Meu pai não tinha sequer uma rabetinha para que pudesse se deslocar. Não tinha possibilidade nenhuma de um resgate como tem hoje, de levar a pessoa para a cidade por meio de [uma lancha a] motor”, disse Solivan.

Projeto leva atendimento médico a comunidades ribeirinhas do Amazonas. Foto: Lucas Bonny/FAS

Leia também: SUS na Amazônia: ponto de atendimento à saúde é inaugurado onde uma consulta podia exigir até 3 dias de viagem de barco

Para muitos deles, estar mais próximo da cidade poderia significar um melhor atendimento em saúde. No entanto, isso afastaria as famílias de seu território e de um trabalho que é tradicional e contribui para a preservação das florestas brasileiras: o extrativismo e a agricultura familiar.

“A RDS Uacari, que a gente representa hoje como associação, tem 633 km de extensão. E ela é composta por 31 comunidades, um pouco mais de 409 famílias. E essas famílias vivem do extrativismo e da sociobiodiversidade”, disse Solivan.

Ele conta que lá são explorados o manejo do pirarucu sustentável, o látex da seringa e a cadeia das oleaginosas, como a andiroba, o açaí e a ucuba, além da agricultura familiar.

Secretário de Saúde de Carauari, Manoel Brito. Foto: Lucas Bonny/FAS

O ideal, defendem os ribeirinhos, seria que a saúde pudesse estar mais próxima dessa população, sem que elas precisassem deixar seus territórios. No entanto, é um desafio para o Poder Público instalar postos de saúde por todas as comunidades ribeirinhas, ainda mais diante do orçamento reduzido das prefeituras de cidades pequenas. Carauari, por exemplo, tem cerca de 28 mil habitantes, segundo o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  A estimativa de orçamento para este ano de 2026 foi estabelecida em R$ 142 milhões.

A solução encontrada até então pela prefeitura foi oferecer o resgate por lanchas, serviço que custa mensalmente entre R$ 40 mil e R$ 45 mil para os cofres municipais, segundo o secretário de saúde de Carauari, Manoel Brito. Há também a disponibilidade das Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais, que percorrem as comunidades para atendimento em saúde. No entanto, pelo alto custo, isso só ocorre de forma eventual.

“A prefeitura sozinha, com recursos próprios, não consegue [instalar unidades básicas de saúde pelas comunidades]. A arrecadação do município não comporta isso. Temos planejamento e temos conhecimento sobre esses territórios, sabemos dessas necessidades. Por isso as parcerias com o terceiro setor têm sido importantíssimas”, disse o secretário.

Procurado, o Ministério da Saúde também reconheceu a importância da atuação de organizações da sociedade civil nos territórios, em articulação com as diretrizes do SUS. E informou que tem buscado aumentar os investimentos voltados ao atendimento das populações ribeirinhas e demais comunidades que vivem em áreas de difícil acesso.

“Neste ano, estão sendo aplicados R$ 500 milhões para a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha, que contam com médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem e profissionais de saúde bucal. Prefeituras de 2.690 municípios podem requisitar serviços específicos nas populações das águas — possibilidade que antes existia apenas para 784 municípios da Amazônia Legal e do Pantanal Sul-Mato-Grossense”, diz nota que foi encaminhada à reportagem pelo ministério.

Segundo a pasta, nas regiões que já contam com o serviço, existem 332 equipes de Saúde da Família Ribeirinha e 71 Unidades Básicas de Saúde Fluviais que levam atendimento de saúde às comunidades mais isoladas, “vencendo desafios históricos como barreiras geográficas, vazios assistenciais, dificuldades de fixação de profissionais e impactos das emergências climáticas”.

Parceria com a sociedade civil

Nesta última semana, uma parceria entre a prefeitura da cidade de Carauari e organizações da sociedade civil tornou possível a instalação de dois pontos de saúde mais próximos dessas comunidades ribeirinhas.

Chamado de SUS na Floresta, o modelo realizado em Carauari é resultado de um edital do programa Juntos pela Saúde. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.

Os dois pontos foram instalados nas unidades de Bauana e Campina da Fundação Amazônia Sustentável e a expectativa é que, juntos, eles possam atender 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas com atendimento de atenção primária. 

Cada uma dessas unidades foi equipada com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet, equipamentos de telessaúde e áreas para a permanência das equipes, de forma integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

“Se naquela época tivesse esse sonho que estamos realizando hoje, que é um ponto de saúde [instalado nas comunidades ribeirinhas] e que dá a possibilidade de garantir uma vida melhor para os ribeirinhos, não tenho dúvida em Deus que minha mãe ainda estaria viva”, disse Solivan.

O enfermeiro Jefferson e Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS. Foto: Lucas Bonny/FAS

Na primeira semana de atendimento, muitos ribeirinhos da região buscaram atendimento. Entre eles, uma criança que havia se ferido com o anzol de sua vara de pescar. Houve também um caso grave de desnutrição infantil, que contou com um grande esforço da equipe de enfermagem da unidade de Campina.

“Aqui nós conseguimos fazer o que elas só conseguiriam na cidade ou então em uma vinda da UBS fluvial, que vem aqui duas vezes por ano devido à logística”, contou o enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atualmente trabalhando na unidade de Campina.

Segundo ele, trata-se de uma população que “vai muito pouco ao médico”. “Só vai mesmo quando chama resgate ou então quando a UBS Fluvial passa por aqui”, acrescentou o enfermeiro.

“Alguns pacientes que estiveram aqui com a gente relataram casos de antes do resgate e da existência desse ponto. Teve um paciente que perdeu dois filhos devido uma picada de cobra. Ele ficou 12 horas esperando [por socorro] e, nessa época, ainda não tinha essa tecnologia que tem hoje como aparelho celular. Mas como naquela época não tinha nem o resgate e nem o ponto, esse paciente veio a óbito”.

Agora, com esse atendimento primário mais próximo da população, a expectativa é que se diminuam em até 80% as chamadas para o resgate por lancha, estimou o enfermeiro Carlos. “Vamos salvar muito mais vidas e vamos evitar também os resgates. Se eles vierem aqui, faz-se o atendimento e só vai para cidade se for um caso de emergência mesmo. Mas já vai sair daqui estabilizado”.

Segundo Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o projeto SUS na Floresta pretende não só oferecer novas estratégias para as populações ribeirinhas, como também contribuir para que elas permaneçam em seus territórios com a garantia de que estarão tendo acesso ao seu direito à saúde.

“Se as pessoas começarem a decidir ir embora de seus territórios, isso vai ser catastrófico. Primeiro por que quem é que vai cuidar do que está aqui? E segundo: os centros urbanos não estão, em hipótese alguma, preparados para receber um êxodo rural. Você vai ter um boom de aumento em problemas sociais que já são latentes nos centros urbanos. Dentro das diversas Amazônias, a gente não pode esquecer que nós temos cidadãos brasileiros que precisam que as políticas cheguem. E se o governo, por um acaso, não está conseguindo interiorizar isso, é nossa obrigação apoiar”.

Mais saúde

O atendimento nas duas novas estruturas em sua primeira semana de funcionamento foi muito elogiado pelos moradores. “Esse ponto de saúde é muito importante para a vida dos comunitários porque a gente sofria muito com essa questão da logística de quando a pessoa adoece e precisava ir até a cidade para ser atendido. A UBS que passa nas comunidades não era suficiente para a gente ter um atendimento melhor na área da saúde”, disse Maria das Neves, moradora da comunidade Novo Horizonte e vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc).

O colaborador do ICMBio, Raimundo Viana, concorda com ela. “Vejo isso como um ponto muito positivo porque hoje a gente vai ter um atendimento no Médio Juruá que, há 20 ou 30 anos atrás, a gente nem sonhava que poderia existir, Com a instalação desses postos, a vida de quem mora aqui vai ter outro sentido na área da saúde. A logística da Amazônia é complexa. Mas em se tratando do Médio Juruá, é ainda mais complexo porque a gente está mais distante dos grandes centros. E aqui o transporte é por rabetinha, uma canoa com motorzinho. Hoje o município oferece um resgate, mas isso ainda não atende toda a demanda, porque a demanda é grande”.

Segundo ele, com os pontos instalados em Bauana e em Campina, as distâncias para conseguir um atendimento em saúde serão bastante encurtadas. “Em vez de de gastar 12 horas de onde eles estão para chegar na sede do município, eles vão gastar quatro horas, dependendo do local que eles estão, para esses pontos que foram instalados no Médio Juruá. Essa é uma vantagem muito importante”, disse Raimundo.

Para Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, há ainda muitos desafios a serem enfrentados para que se consiga garantir saúde à população ribeirinha. “Um dos grandes desafios é o logístico e operacional: os custos de se estar aqui, de manter uma equipe de saúde aqui e que é responsabilidade da prefeitura. Também é desafiador captar recurso e conseguir convencer um parceiro [um financiador] de levar uma estrutura dessa para um lugar como esse. Muitas vezes ele quer investir em outras coisas e outras ações, mas isso aqui faz a diferença para quem está no território”, disse ela.

Outro desafio, destacou ela, diz respeito à manutenção desses espaços. “Infelizmente ainda tem uma prática no Brasil de que nem sempre o próximo gestor dá continuidade àquilo que o anterior está fazendo. Isso muitas vezes gera um retrocesso”. No entanto, destaca Valcléia, o projeto SUS na Floresta já demonstra que é possível direcionar melhor os recursos e os atendimentos, contribuindo até mesmo para uma economia de gastos pela prefeitura.

Os moradores, no entanto, sabem que é preciso ir muito além.

“É preciso implantar mais posto de saúde, tanto dentro da RDS quanto da Resex [Reserva Extrativista] do Médio Juruá. O que divide as duas unidades é somente o rio. Uma reserva de um lado, a outra reserva é do outro. Mas as pessoas são as mesmas, a dor das pessoas é a mesma. A dor de um é a dor do outro”, falou Solivan.

*Por Elaine Patricia Cruz, Agência Brasil.

Estudo propõe ampliar proteção legal no entorno de terras indígenas para conter avanço do desmatamento na Amazônia

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Vale do Javari, no oeste do Amazonas, foi a área utilizada como área de pesquisa para exemplo de combate ao desmatamento. Foto: Funai/ Arquivo

Um estudo publicado nesta terça-feira  (28) na revista científica Nature Sustainability aponta que a criação de proteção legal para as áreas localizadas ao redor das terras indígenas pode ser uma estratégia decisiva para conter o avanço do desmatamento e das atividades ilegais na Amazônia.

A pesquisa analisou a Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas, e identificou uma diferença expressiva entre a conservação da floresta dentro do território demarcado e a degradação registrada em seu entorno. Em 2022, o desmatamento em uma faixa de até 200 quilômetros ao redor da terra indígena foi 187,5 vezes maior do que o observado no interior da área protegida.

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Foto: Reprodução / Povos Isolados da Amazônia – Centro de Trabalho Indigenista

Embora os índices de desmatamento tenham apresentado redução em 2023 e 2024, os pesquisadores destacam que os níveis permanecem superiores aos registrados nas décadas anteriores. Para os autores, esse cenário demonstra que as pressões ambientais e fundiárias continuam concentradas nas regiões vizinhas às terras indígenas, formando um ambiente de risco permanente.

A principal proposta do estudo é estender às terras indígenas o modelo de zonas de amortecimento já adotado em unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas. Nessas áreas, a legislação estabelece restrições ao uso do solo e às atividades econômicas próximas aos limites das unidades, reduzindo impactos externos sobre os ecossistemas protegidos.

Os pesquisadores argumentam que essa medida deve ser acompanhada pelo fortalecimento da fiscalização e pelo combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas próximas às terras indígenas. Segundo o estudo, a expansão de atividades como mineração, extração ilegal de madeira, pesca predatória, caça comercial e tráfico de animais silvestres representa uma ameaça crescente aos territórios indígenas e aos povos que neles vivem.

A pesquisa analisou a Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas. Foto: Divulgação

Localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, a Terra Indígena Vale do Javari ocupa mais de 8,5 milhões de hectares e abriga a maior concentração conhecida de povos indígenas em isolamento voluntário no mundo. Além de cinco povos que mantêm contato com a sociedade envolvente (Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina), o território é habitado por pelo menos 14 grupos isolados.

Os autores ressaltam que esses povos estão entre os mais vulneráveis às invasões, já que não possuem condições de recorrer diretamente às autoridades ou à imprensa quando seus territórios são violados. Por isso, defendem que ações de fiscalização sejam priorizadas nas áreas próximas às terras indígenas, onde a pressão pela ocupação irregular tende a crescer.

O artigo, intitulado Spiraling frontier threats in Indigenous Amazonia, reúne pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais, incluindo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), universidades estrangeiras e o líder indígena Beto Marubo. A Universidade Federal do Amapá (Unifap) participa da pesquisa por meio dos professores Alan Cavalcanti da Cunha e Helenilza Ferreira Albuquerque Cunha, coautores do estudo.

Acesse o artigo em: https://www.nature.com/articles/s41893-026-01874-z#citeas

*O texto foi publicado originalmente no site da Unifap

Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais

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Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em meio a um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) destaca que crianças e adolescentes estão expostos a diferentes desafios ambientais e climáticos em todo o país e que há padrões de desigualdade relevantes na distribuição dos riscos. O Painel Crianças e Meio Ambiente, lançado nesta semana, foi criado em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies.

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No país, 333 municípios foram considerados em maior situação de vulnerabilidade socioambiental e climática principalmente para crianças e adolescentes, o que representa 6% das cidades brasileiras. A plataforma avalia os municípios considerando 14 indicadores de exposição ambiental organizados em quatro áreas temáticas:

  • Qualidade do Ar;
  • Infraestrutura Ambiental e Urbana;
  • Eventos Climáticos Extremos;
  • Ambiente Escolar.

“Quando se está falando de eventos extremos, crianças dependem de seus cuidadores para tomar as decisões por elas. Elas não necessariamente têm autonomia ou capacidade para reconhecer situações de perigo, em que elas precisam sair de um determinado lugar e ir para outro. Elas dependem que seus cuidadores façam isso”,  destacou o especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, Danilo Moura, em entrevista. 

A plataforma utiliza dados de 2021 a 2025 e é possível consultar a situação de cada um dos 5.571 municípios brasileiros. 

Riscos

Entre os indicadores estão, por exemplo, ocorrência de chuvas intensas, ondas de calor ou secas em anos recentes; população sem água tratada ou coleta de esgoto; e poluição do ar por transporte público ou acima do limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Dependendo da situação, os diferentes indicadores de cada município são classificado em três níveis de prioridade:

  • nível 3, que significa que a cidade demanda atenção imediata e priorizada;
  • nível 2, para o qual se recomenda planejamento e adoção progressiva de medidas no curto a médio prazo;
  • nível 1, baixa prioridade, que demanda monitoramento contínuo, sem necessidade de intervenção emergencial. 

Segundo o levantamento, os 333 municípios que têm alta prioridade, ou nível 3, em mais de dez dos 14 indicadores, configuram uma situação de vulnerabilidade severa e multidimensional. Neste grupo há alta concentração de municípios da região Norte e do Maranhão.

Na outra ponta, 108 municípios (1,9%) não apresentaram alta prioridade em nenhum dos indicadores analisados.

De acordo com a representante adjunta do Unicef no Brasil, Layla Saad, a iniciativa permite enxergar as diferenças de maneira mais clara.

“Transformar os dados em prioridades ajuda a fortalecer a capacidade dos municípios, entender onde estão os maiores desafios, e como direcionar uma política [pública], um programa, ou um orçamento”, disse no lançamento da iniciativa.

Leia também: Amazonas é o 2º estado do país com maior risco ambiental e climático para crianças, diz Unicef

Panorama 

Os dados mostram que os municípios com maior número de indicadores em alta prioridade estão majoritariamente nos estados do Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre os 30 municípios com pior desempenho agregado, 24 pertencem à região Norte e quatro ao Maranhão. Os outros quatro estão em Mato Grosso. 

A nota técnica aponta que muitos desses municípios têm populações pequenas e economias locais dependentes de atividades primárias, o que amplia a exposição a riscos climáticos e socioambientais, e também limita a capacidade de resposta local. 

Regiões mais vulneráveis

Na análise de qualidade do ar, que investigou o percentual de dias entre 2021 e 2025 em que a concentração de partículas finas superou o recomendado pela OMS, a região Norte demonstrou maior prioridade com 94% dos municípios afetados. A análise aponta que isso se deve, provavelmente, às queimadas.

A região Sudeste se destaca também neste quesito. Embora apenas 39% dos municípios estejam no grupo de maior prioridade, eles concentram 72% da população infantil da região. Nessas cidades, a baixa qualidade do ar, provavelmente, de acordo com análise, está associada ao transporte e a atividades industriais.

Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais
Unicef mapeia cidades onde crianças estão expostas a riscos ambientais. Foto: Tony Winston/Agência Brasília

Os dados relacionados a eventos climáticos extremos mostram que a região Norte e Sul concentram 91% e 68%, respectivamente, dos municípios de atenção, principalmente se tratando de chuvas intensas.

Já os indicadores relacionados à infraestrutura ambiental e urbana indicam que as maiores proporções de municípios com alta prioridade estão no Norte (78%) e Nordeste (46%). Segundo a análise do Painel, no Norte, o desafio está associado à dispersão geográfica e à dificuldade de expansão de redes em território de baixa densidade. Já no Nordeste, soma-se a escassez hídrica e a menor capacidade financeira dos municípios para investimento em infraestrutura.

Entre os dados relacionados ao ambiente escolar, Nordeste (52%) e Sudeste (39%) lideram a prioridade de espaços escolares sem qualquer área verde. 

Plataforma

No Painel, lideranças municipais e cidadãos podem acessar os diagnósticos de cada um dos 5.571 municípios e entender quais os principais déficits e áreas de cada cidade. A plataforma também reúne 50 recomendações de enfrentamento para casos de alta prioridade, desde intervenções físicas até medidas institucionais. 

Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, acredita que essa é uma ferramenta essencial para subsidiar ações preventivas. 

“Um ambiente seguro, saudável e sustentável não é apenas um direito, mas também um elemento essencial para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento integral na infância e na adolescência. Visando futuros melhores e mais seguros, essa ferramenta permite um olhar qualificado e individualizado para o território”, completou.

*Alice Rodrigues – Agência Brasil.

‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’: toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhotos descobertas por pesquisadora no Amazonas

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‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’: toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhotos descobertas por pesquisadora no Amazonas — Foto: Fotos: Nereston Camargo e Larissa Lima de Queiroz

No Amazonas, duas toadas do Boi-Bumbá Garantido ganharam espaço na ciência. ‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’ agora dão nome a espécies de gafanhotos descobertas em pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O estudo, publicado em 24 de julho na revista internacional Zootaxa, identificou nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros. Oito delas foram encontradas na Amazônia brasileira.

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Entre as descobertas, duas chamam atenção por homenagear o Festival Folclórico de Parintins. A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada ‘Kamara’, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. A construção do nome contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua e da cultura indígena à nomenclatura científica.

O Boi-Bumbá Garantido integra um dos maiores patrimônios culturais do Brasil, o Festival de Parintins. Ao lado do Boi-Bumbá Caprichoso, os bois promovem uma festa popular que celebra a cultura amazônica e a rivalidade centenária. Em 2026, a tradicional foi realizada nos dias 26, 27 e 28 de junho.

Já Proscopia caacy foi inspirada na toada ‘Mãe da Mata’, apresentada pelo Garantido em 2011. A palavra Caacy, de origem tupi-guarani, significa “mãe da floresta”.

Leia também: Entenda as diferenças entre os gafanhotos e os bichos pau

toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhotos
A espécie Kamara kratxatxa, que significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada Kamara, lançada pelo Boi-Bumbá Garantido em 2026. — Foto: Foto: Larissa Lima de Queiroz

A pesquisa contou com a participação da pesquisadora amazonense Larissa Lima de Queiroz, e de José Albertino Rafael, do Inpa, e Raphael Aquino Heleodoro, do Museu Nacional (MNRJ).

Segundo a pesquisadora Larissa Lima de Queiroz, a escolha dos nomes aproxima ciência e cultura.

“Quis batizar parte da fauna da Amazônia com nomes inspirados nos povos originários. O Festival de Parintins ensina sobre etnias, línguas e tradições da região. Como sou a única pesquisadora amazonense que estuda gafanhotos no Brasil, quis batizar essa pequena parte da fauna da Amazônia brasileira com nomes inspirados nos povos originários. Também sou Garantido desde pequena, usei como inspiração minhas toadas favoritas, ‘Mãe da Mata’ e ‘Kamara’”, disse Larissa.

Leia também: Conheça toadas do Festival de Parintins que contam lendas amazônicas diferentes

Imagem colorida mostra proscopia ciiyf um dos gafanhotos descobertos
Já Proscopia caacy foi inspirada na toada Mãe da Mata, apresentada pelo Garantido em 2011. — Foto: Foto: Nereston Camargo

A pesquisa começou em 2019, durante o doutorado de Larissa, mas o trabalho de campo só iniciou em 2022, após a vacinação contra a Covid-19.

Além das expedições, ela analisou exemplares preservados em museus no Brasil e no exterior. Alguns insetos, como os de Proscopia caacy, haviam sido coletados em 1984, mas só agora foram reconhecidos como espécie nova.

“Parte da busca por novas espécies é realizada em museus, a partir de exemplares coletados anteriormente por outros pesquisadores. Os gafanhotos de Proscopia caacy, por exemplo, foram coletados em 1984, mas somente agora descobrimos que se tratava de algo novo”, explicou Larissa.

Leia também: Conheça as toadas dos bumbás de Parintins que já foram cantadas por famosos 

Cinco meses para encontrar um inseto

Encontrar gafanhotos inéditos não é tarefa simples. Um dos grupos recebeu o nome Celatus, que significa “escondido” em latim. A equipe levou cinco meses para localizar o primeiro macho da espécie Celatus nath, em Presidente Figueiredo.

Outra novidade é Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã. A coleta foi realizada em uma floresta alagada, utilizando uma lancha para alcançar gafanhotos que estavam sobre árvores parcialmente submersas, uma área de várzea.

Das nove espécie, oito espécies foram registradas na Amazônia brasileira:

  • Celatus nath – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
  • Kamara kratxatxa – Rio Branco, no Acre;
  • Lianascopia albae – Tiquié, no Amazonas;
  • Lianascopia domenicoi – Amajari, em Roraima;
  • Milenascopia uatuma – Presidente Figueiredo, no Amazonas;
  • Proscopia caacy – Serra Norte, no Pará;
  • Pseudoproscopia taka – Itaituba, no Pará;
  • Pseudoproscopia trajakan – Manicoré, no Amazonas.

Leia também: Mentes que compõem Parintins: a identidade por trás das toadas do Festival

Amazônia ainda guarda espécies desconhecidas

O estudo também descreveu quatro novos gêneros, que agrupam diferentes espécies. O gênero Kamara, por exemplo, já reúne três espécies.

Para a pesquisadora, descobrir um novo gênero é um avanço ainda maior do que encontrar uma nova espécie.

“Isso mostra como ainda conhecemos pouco da biodiversidade, principalmente na Amazônia. Não descobrimos apenas espécies, mas também grupos inteiros desconhecidos pela ciência”, disse Larissa.

Larissa espera que o estudo incentive a valorização da fauna e da cultura amazônica.

“Eu gostaria que o nosso país conhecesse melhor os animais fantásticos que existem na nossa floresta e entendesse que o Norte é forte, rico em diversidade e cultura. Isso sempre será motivo de orgulho, e agora uma parte dessa cultura também está eternizada na ciência”, concluiu.

*Por Karla Mendes – Rede Amazônica Amazonas

Pesquisadores de Mato Grosso publicam estudo que revela as complexidades da defesa das plantas

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Pesquisa investigou o comportamento de tomateiros em condições adversas, simulando ferimentos feitos em diferentes níveis de danos e acompanhou as respostas de defesa ao longo do tempo. Foto: Reprodução/UFMT

Um artigo publicado por pesquisadores do Campos Lab, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) concluiu que as plantas lutam diariamente pela sobrevivência contra predadores herbívoros. A pesquisa, publicada no início de julho, revela que as espécies, diferentemente da sensação diária de tranquilidade transmitidas no campo ou na natureza, estão a todo momento adotando diferentes estratégias de defesa conforme a intensidade dos danos sofridos.

O estudo investigou como o tomateiro (Solanum lycopersicum L.) responde a diferentes níveis de dano mecânico. Em condições controladas, as plantas receberam um, três, cinco ou dez ferimentos feitos com uma pinça especial, simulando o dano causado por pragas herbívoras. Em seguida, foram avaliadas em três momentos, permitindo acompanhar as respostas de defesa ao longo do tempo.

Estudo revela as complexidades da defesa das plantas
Pesquisa foi orientada pelo professor Marcelo Lattarulo Campos e está disponível na revista Plant, Cell & Environment. Foto: Reprodução/UFMT

As análises consideraram características observáveis das plantas, relacionadas ao fenótipo, além de alterações no metabolismo, nos hormônios e na transcrição do RNA — processo pelo qual as informações dos genes são utilizadas pelas células.

“A pesquisa mostra que muitas das respostas metabólicas aumentam conforme o número de machucados, o que indica um reflexo defensivo da planta. Contudo, também é possível observar que algumas respostas aumentam e depois diminuem, demonstrando que a planta identifica a extensão do dano e adapta sua estratégia de defesa a essa intensidade”, explica Beatriz Corrêa Araújo, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal da UFMT.

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Anatomia das defesas

O comportamento de duas enzimas ajuda a compreender essa conclusão. Quando sofre um ferimento, a planta produz moléculas conhecidas como espécies reativas de oxigênio, ou ROS, na sigla em inglês. Elas atuam na sinalização do dano, mas, quando se acumulam, também podem prejudicar as células vegetais, como defesa.

Para controlar esse efeito, a planta utiliza energia e nutrientes na produção de enzimas antioxidantes, como a catalase e a peroxidase. A pesquisa identificou, porém, que a atividade dessas enzimas atinge seu ponto máximo diante de danos moderados e diminui quando os ferimentos se tornam mais intensos. O resultado indica uma mudança de estratégia: em vez de continuar concentrando recursos no controle das ROS, a planta passa a direcioná-los a outras respostas de defesa.

Leia também: Pesquisa investiga quais estratégias de defesa plantas feridas aplicam contra predadores

Estudo visou o comportamento das plantas contra as pragas herbívoras. Foto: Reprodução/Mundo Educação

“A nossa interpretação é que, no início do dano, as ROS aumentam muito para sinalizar que há um problema. Isso também resulta em uma alta atividade das enzimas que controlam essas moléculas, impedindo que se tornem tóxicas para a planta. Contudo, quando o dano passa de moderado, a planta muda de prioridade e começa a investir energia e nutrientes em outras respostas, como a regeneração e a cicatrização das feridas, a produção de moléculas tóxicas para os insetos ou, ainda, o reforço de sua estrutura física, como ocorre com a produção de tricomas”, explica a pesquisadora.

Os tricomas são estruturas semelhantes a pelos encontradas, por exemplo, nos caules e nas folhas de algumas plantas. Eles podem dificultar o deslocamento e a alimentação dos insetos. Segundo Beatriz, o tomateiro possui pelo menos sete tipos de tricomas, com diferentes funções defensivas.

Alguns são rígidos e afiados, funcionando como barreiras físicas. Outros produzem substâncias capazes de repelir ou paralisar os herbívoros. Há também tricomas que liberam compostos voláteis, responsáveis por odores que podem atrair predadores naturais dos insetos que atacam a planta.

“Concluímos que, à medida que percebe a intensidade do dano, a planta reprograma todo o seu sistema e sua fisiologia de maneira hierárquica. Existem genes ‘centrais’, que são ativados diante de qualquer nível de dano, mas também genes que respondem apenas a determinadas intensidades. Então, quanto mais ferida a planta é, mais complexa se torna a resposta mobilizada por ela”, afirma a pesquisadora.

Assim, seja por causa de um inseto com fome ou um pesquisador com uma pinça, a vida das plantas é bem mais agitada do que a tranquilidade que transmitem quando observamos de fora.

A pesquisa foi orientada pelo professor Marcelo Lattarulo Campos e está disponível na revista Plant, Cell & Environment.

*Conteúdo publicado originalmente por UFMT

Porto Velho está entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídio do mundo, aponta ranking

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Porto Velho. Foto: Leandro Morais/Prefeitura de Porto Velho/Divulgação

Porto Velho está entre as 50 cidades com as maiores taxas de homicídio do mundo em 2025, segundo ranking divulgado pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, organização mexicana que publica o levantamento todos os anos. Porto Velho ocupa a 48ª posição, com taxa de 30,07 homicídios por 100 mil habitantes.

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De acordo com o relatório, foram registrados 163 homicídios em uma população estimada de 542.022 moradores. Além de Porto Velho, outras cinco cidades brasileiras aparecem na lista: Fortaleza (32ª), Feira de Santana (33ª), Recife (36ª), Maceió (38ª) e Salvador (44ª).

Veja o ranking das 50 cidades com as maiores taxas de homicídio do mundo:

  • 1º Porto Príncipe (Haiti) — Homicídios: 6.185 | População: 3.133.000 | Taxa de homicídios: 197,43
  • 2º Babahoyo (Equador) — Homicídios: 527 | População: 317.436 | Taxa de homicídios: 166,02
  • 3º Mandela Bay (África do Sul) — Homicídios: 1.452 | População: 1.211.951 | Taxa de homicídios: 119,81
  • 4º Machala (Equador) — Homicídios: 693 | População: 594.081 | Taxa de homicídios: 116,65
  • 5º Quevedo (Equador) — Homicídios: 433 | População: 397.226 | Taxa de homicídios: 109,01
  • 6º Culiacán (México) — Homicídios: 1.086 | População: 1.045.017 | Taxa de homicídios: 103,91
  • 7º Manabí Centro (Equador) — Homicídios: 911 | População: 877.933 | Taxa de homicídios: 103,77
  • 8º Guayaquil (Equador) — Homicídios: 3.115 | População: 3.419.461 | Taxa de homicídios: 91,10
  • 9º Ciudad Obregón (México) — Homicídios: 306 | População: 336.776 | Taxa de homicídios: 90,81
  • 10º Esmeraldas (Equador) — Homicídios: 294 | População: 324.656 | Taxa de homicídios: 90,56
  • 11º Manzanillo (México) — Homicídios: 290 | População: 328.884 | Taxa de homicídios: 88,16
  • 12º Zamora (México) — Homicídios: 273 | População: 320.231 | Taxa de homicídios: 85,37
  • 13º Colima (México) — Homicídios: 269 | População: 322.511 | Taxa de homicídios: 83,40
  • 14º Acapulco (México) — Homicídios: 562 | População: 789.695 | Taxa de homicídios: 71,12
  • 15º Cidade do Cabo (África do Sul) — Homicídios: 3.441 | População: 5.003.954 | Taxa de homicídios: 68,77
  • 16º Irapuato (México) — Homicídios: 548 | População: 883.614 | Taxa de homicídios: 62,02
  • 17º Juárez (México) — Homicídios: 950 | População: 1.581.712 | Taxa de homicídios: 60,06
  • 18º Tijuana (México) — Homicídios: 1.185 | População: 2.046.510 | Taxa de homicídios: 57,90
  • 19º Durban (África do Sul) — Homicídios: 2.390 | População: 4.167.531 | Taxa de homicídios: 57,35
  • 20º Palmira (Colômbia) — Homicídios: 204 | População: 366.437 | Taxa de homicídios: 55,67
  • 21º Celaya (México) — Homicídios: 404 | População: 751.648 | Taxa de homicídios: 53,74
  • 22º Buffalo (África do Sul) — Homicídios: 409 | População: 786.664 | Taxa de homicídios: 51,99
  • 23º Cuernavaca (México) — Homicídios: 464 | População: 894.817 | Taxa de homicídios: 51,83
  • 24º Cali (Colômbia) — Homicídios: 1.148 | População: 2.451.149 | Taxa de homicídios: 46,84
  • 25º Porto de Espanha (Trinidad e Tobago) — Homicídios: 228 | População: 498.898 | Taxa de homicídios: 45,70
  • 26º Buenaventura (Colômbia) — Homicídios: 145 | População: 322.388 | Taxa de homicídios: 44,98
  • 27º Uruapan (México) — Homicídios: 163 | População: 369.877 | Taxa de homicídios: 44,08
  • 28º Cúcuta (Colômbia) — Homicídios: 424 | População: 1.018.234 | Taxa de homicídios: 41,64
  • 29º Santa Marta (Colômbia) — Homicídios: 295 | População: 730.417 | Taxa de homicídios: 40,39
  • 30º Pereira (Colômbia) — Homicídios: 400 | População: 991.097 | Taxa de homicídios: 40,36
  • 31º Joanesburgo (África do Sul) — Homicídios: 2.569 | População: 6.495.356 | Taxa de homicídios: 39,55
  • 32º Fortaleza (Brasil) — Homicídios: 1.570 | População: 4.006.089 | Taxa de homicídios: 39,19
  • 33º Feira de Santana (Brasil) — Homicídios: 250 | População: 660.806 | Taxa de homicídios: 37,83
  • 34º Cartagena (Colômbia) — Homicídios: 491 | População: 1.321.900 | Taxa de homicídios: 37,14
  • 35º Guatemala (Guatemala) — Homicídios: 1.270 | População: 3.442.805 | Taxa de homicídios: 36,89
  • 36º Recife (Brasil) — Homicídios: 1.452 | População: 3.961.730 | Taxa de homicídios: 36,65
  • 37º Chilpancingo (México) — Homicídios: 141 | População: 384.584 | Taxa de homicídios: 36,54
  • 38º Maceió (Brasil) — Homicídios: 359 | População: 994.952 | Taxa de homicídios: 36,08
  • 39º Centro (México) — Homicídios: 344 | População: 977.878 | Taxa de homicídios: 35,16
  • 40º Chihuahua (México) — Homicídios: 337 | População: 980.614 | Taxa de homicídios: 34,42
  • 41º Nova Orleans (Estados Unidos) — Homicídios: 121 | População: 362.701 | Taxa de homicídios: 33,36
  • 42º Barranquilla (Colômbia) — Homicídios: 761 | População: 2.338.569 | Taxa de homicídios: 32,54
  • 43º Cleveland (Estados Unidos) — Homicídios: 118 | População: 365.379 | Taxa de homicídios: 32,30
  • 44º Salvador (Brasil) — Homicídios: 1.128 | População: 3.623.330 | Taxa de homicídios: 31,13
  • 45º Pietermaritzburg (África do Sul) — Homicídios: 296 | População: 962.000 | Taxa de homicídios: 30,77
  • 46º Memphis (Estados Unidos) — Homicídios: 184 | População: 610.919 | Taxa de homicídios: 30,12
  • 47º Hermosillo (México) — Homicídios: 290 | População: 963.185 | Taxa de homicídios: 30,11
  • 48º Porto Velho (Brasil) — Homicídios: 163 | População: 542.022 | Taxa de homicídios: 30,07
  • 49º Santo Domingo (Equador) — Homicídios: 140 | População: 466.841 | Taxa de homicídios: 29,99
  • 50º León (México) — Homicídios: 624 | População: 2.096.556 | Taxa de homicídios: 29,79

Em nota, a Prefeitura de Porto Velho informou que recebeu os dados do levantamento e afirmou que o combate à violência exige atuação integrada entre os órgãos públicos. A administração destacou que, embora a segurança pública seja responsabilidade do Governo de Rondônia, tem adotado medidas para colaborar com a prevenção da criminalidade, como a implantação da Atividade Delegada e a criação da Guarda Municipal.

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Porto Velho está entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídio do mundo. Foto: @rawpixel-com/ Freepik

Entramos em contato com a Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec) de Porto Velho, mas não recebemos resposta até a última atualização desta reportagem.

Como o ranking é elaborado

O levantamento é elaborado anualmente pelo Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, organização da sociedade civil sediada no México.

O estudo considera apenas cidades com mais de 300 mil habitantes e usa como principal indicador a taxa de homicídios por 100 mil habitantes. O índice é calculado dividindo o número de homicídios pela população da cidade e multiplicando o resultado por 100 mil, o que permite comparar municípios de diferentes tamanhos.

Segundo a organização, os dados são obtidos, na maior parte dos casos, em fontes oficiais de cada país. Quando essas informações não estão disponíveis ou apresentam inconsistências, o relatório pode usar estimativas ou dados de outras fontes independentes.

Porto Velho
Porto Velho está entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídio do mundo. Foto: Frank Nery

A metodologia também exclui mortes causadas por conflitos armados, como guerras civis ou internacionais, seguindo critérios adotados por organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com o Conselho Cidadão, o objetivo do ranking é dar visibilidade à violência letal nas cidades, ampliar a transparência dos indicadores e incentivar a adoção de políticas públicas para reduzir os homicídios.

*Por Rede Amazônica Rondônia.