Um pedaço de Parintins na bagagem: artesão que produz ‘boizinhos’ abre loja própria após 34 anos de trabalho

Após décadas vendendo as miniaturas dos bois para revendedores, Júlio César Costa passou a comercializar diretamente aos turistas as peças inspiradas em Caprichoso e Garantido, feitas por artesãos da própria cidade.

Parte da matéria-prima dos ‘boizinhos’ vem do interior do Amazonas, como o cipó e o molongó, usados principalmente na confecção dos chifres. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, inspira turistas a levar lembranças para casa. Entre os itens mais procurados estão as miniaturas dos bois Caprichoso e Garantido, conhecidas carinhosamente de “boizinhos”. Elas são feitas em barracões improvisados, quintais e oficinas por artesãos locais, como Júlio César Costa da Silva, que há 34 anos transforma o amor pelo boi-bumbá em fonte de renda.

Neste ano, Júlio abriu pela primeira vez uma loja própria para vender diretamente ao público as peças que produz. Durante décadas, o artesão confeccionou os tradicionais boizinhos para revendedores que os vendiam a preços mais altos.

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Segundo Júlio, muitos visitantes se surpreendem ao descobrir que as miniaturas são feitas manualmente por moradores da ilha.

“Esse ano a gente resolveu abrir a lojinha para mostrar mesmo o artesanato aqui da cidade para o povo que vem de fora. São próprios parintinenses que confeccionam. É artesão de fundo de quintal. A gente trabalha em barracãozinho, cada um fazendo a sua parte”, disse.

Um pedaço de Parintins na bagagem: artesão que produz ‘boizinhos’ abre loja própria após 34 anos de trabalho
A trajetória de Júlio no Festival começou nos anos 1980. Em 1987, ele entrou para a equipe do Boi Caprichoso como escultor e ficou por oito anos, período marcado por conquistas do boi azul e branco. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

Dos galpões dos bois ao negócio próprio

A trajetória de Júlio no Festival começou nos anos 1980. Em 1987, ele entrou para a equipe do Boi Caprichoso como escultor e ficou por oito anos, período marcado por conquistas do boi azul e branco.

Leia também: Ruas de Parintins unem cores de Caprichoso, Garantido e Seleção Brasileira em decoração especial

Depois, trabalhou por 19 anos no Boi Garantido, na produção artística do boi vermelho e branco. Em 2017, após sofrer um infarto, deixou a rotina intensa dos galpões e passou a produzir peças para terceiros. A mudança trouxe desânimo.

“Eu só estava trabalhando para os outros e vendo os outros terem condições de vida melhores, enquanto eu ia ficando para trás”, relembrou.

O incentivo para recomeçar veio do filho, Rodrigo Amazonas, que o encorajou a investir novamente no próprio trabalho.

“Ele me deu força. Perguntou se eu não queria trabalhar com os boizinhos, porque é um material mais leve, que não exige tanto esforço. Aí a gente começou”, contou.

Neste festival, após alguns anos de produção independente, a família conseguiu um ponto comercial para vender diretamente ao público. “Já demos o primeiro passo. Agora vamos lutar para manter”, afirmou.

Como nascem os boizinhos

Miniaturas de Caprichoso e Garantido que turistas levam na mala após o Festival de Parintins têm origem em barracões improvisados, quintais e oficinas espalhadas pela ilha. Foto: Patrick Marques/Rede Amazônica AM

Cada boizinho é feito de forma artesanal, em várias etapas que não podem ser interrompidas. Parte da matéria-prima vem do interior do Amazonas, como o cipó e o molongó, usados nos chifres.

Molongó é uma árvore amazônica com madeira leve utilizada em artesanato. A planta tem tronco fino, alto e leve e é encontrada em florestas alagadas da região amazônica.

A produção começa pela armação, que funciona como o esqueleto do boizinho. Depois, são feitas a cabeça e os chifres. As peças são encaixadas, recebem espuma, revestimento em tecido, passam pela costura, pintura e acabamento final.

“É uma linha de produção. Se você começa, tem que ir até o fim. Se interromper, aquelas peças que ficaram no caminho já não seguem mais”, explicou.

Leia também: Portal Amazônia responde: é possível usar a marca dos bois-bumbás de Parintins?

Um pedaço de Parintins na bagagem

Durante o Festival de Parintins, ver turistas do Brasil e do exterior encantados com os boizinhos é uma das maiores recompensas para Júlio.

“Para mim, é gratificante ver a pessoa feliz, elogiando o trabalho. Não adianta ter muita coisa e ser mal feita. Tem que ser uma coisa bem feita, para a pessoa olhar e se impactar”, disse.

Mais que lembranças, as miniaturas representam a dedicação de artesãos que mantêm viva a cultura do boi-bumbá fora da arena. “É um orgulho só. Uma gratificação muito grande. Primeiro a Deus, e tocar a bola para frente”, concluiu.

*Por Patrick Marques, da Rede Amazônica AM

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