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Comissão aprova penas mais rígidas para exploração de recursos naturais em terras indígenas

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Célia Xakriabá: proposta representa avanço no combate à exploração ilegal de recursos em terras indígenas e “justiça histórica”. Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

A Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados aprovou proposta que endurece as penas para quem explorar matéria-prima em terras tradicionalmente ocupadas por povos indígenas.

O texto altera a lei de crimes contra a ordem econômica e prevê pena de reclusão, de dois a dez anos, e multa para o crime contra o patrimônio da União, em caso de exploração ilegal de matérias-primas em terras indígenas.

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O texto aprovado é a versão da deputada Célia Xakriabá (Psol-MG) ao Projeto de Lei 959/22, do ex-deputado Leo de Brito (AC). O projeto inicial aumenta de um a cinco anos de detenção para dois a seis anos.

Segundo Xakriabá, a aprovação representa um avanço no combate à exploração ilegal de recursos em terras indígenas, e também um ato de “justiça histórica e de reafirmação da dignidade da pessoa humana como fundamento da República”, consagrando os povos originários como sujeitos de direitos e aliados indispensáveis na preservação da vida e do meio ambiente.

Xakriabá afirmou que a proteção das terras indígenas guarda relevância estratégica para o Brasil e para o mundo.

“Nós, povos originários, desempenhamos papel essencial na preservação ambiental, utilizando conhecimentos ancestrais e práticas sustentáveis que assegurem a integridade de biomas cruciais”, disse, ao reforçar a defesa dos direitos indígenas como política de enfrentamento da crise climática e da perda de biodiversidade.

Leia também: Entenda as etapas de demarcação de terras indígenas

Terras Indígenas Trincheira-Bacajá, do povo Xikrin. Foto: Helena Palmquist/Acervo MPF-PA
Terra Indígena Trincheira-Bacajá, do povo Xikrin. Foto: Helena Palmquist/Acervo MPF-PA

Crimes ambientais além de terras indígenas

A proposta também altera a Lei dos Crimes Ambientais para aplicar a mesma pena (6 meses a 1 ano de detenção) dos que extraem irregularmente recursos minerais para quem:

  • colocar em risco a vida ou saúde de pessoas;
  • causar significativo impacto ambiental;
  • utilizar máquinas ou equipamentos pesados de mineração; ou
  • realizar a atividade mediante ameaça ou com emprego de arma.

Caso o crime seja praticado em terras indígenas, a pena será aumentada até o dobro. Quem financiar esse tipo de ação poderá ter até três anos de detenção.

Próximos passos

O projeto será analisado ainda pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Depois, seguirá para o Plenário. Para virar lei, precisa ser aprovado por Câmara e Senado.

*Com informações da Agência Câmara de Notícias

Ronda Escolar garante tranquilidade nas escolas de Boa Vista

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Equipe da Ronda Escolar da Guarda Municipal de Boa Vista reforça a segurança no ambiente escolar. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Logo cedo, antes mesmo do sinal tocar, eles já estão lá, uniformizados e atentos, em frente às escolas de Boa Vista. Não são professores nem pais, mas fazem parte do cotidiano como se fossem. É a equipe da Ronda Escolar, da Guarda Municipal de Boa Vista.

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Com um efetivo de 11 agentes, o grupamento atua preventivamente em todas as unidades de ensino da rede. Seja na área urbana, rural ou em comunidades indígenas, eles garantem que a comunidade escolar tenha um ambiente seguro e tranquilo.

“Há diálogo constante com gestores, pais e, principalmente, uma abordagem humanizada com os alunos. Também participamos de reuniões, entendemos as demandas e esclarecemos dúvidas”, explicou o GCM Gabriel Wesley dos Santos Campos.

Cerca de 40 escolas são visitadas diariamente. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

O grupamento também faz atividades educativas, abordando temas como cidadania, respeito e convivência social. “É uma forma de plantar, desde cedo, valores que ajudam a prevenir a violência e fortalecer o senso de comunidade”, completou o integrante do grupamento.

As equipes fazem rondas, observando tanto o interior quanto o entorno das escolas, para antecipar problemas, evitar conflitos, coibir o vandalismo e agir rapidamente diante de qualquer situação de risco. Quando necessário, são acionadas via Central de Comunicação e Monitoramento (CECOM), para uma resposta ágil às demandas.

Agentes garantem que alunos, professores e servidores possam viver o ambiente escolar com tranquilidade. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Segurança reforçada

Andréia Carla Vaz, mãe do pequeno Davi, de apenas 3 anos, sente conforto ao deixar o filho na escola. “É muito bom chegar aqui e ver os guardas. Passamos o dia todo fora e ficamos com o coração apertado, mas saber que ele está em boas mãos nos deixa mais tranquilos”, destacou.

Leia também: Em Boa Vista, projeto usa robótica para fortalecer e valorizar cultura indígena

A sensação se repete entre outros pais e responsáveis da Escola Municipal Professor Francisco Pedrosa, no bairro Dr. Airton Rocha. O autônomo Ruan Mafra, de 23 anos, leva a filha e a sobrinha para a escola. “Agradeço a segurança reforçada para a minha família. Nos sentimos mais protegidos”, contou.

Para muitas famílias, a presença dos guardas representa o cuidado da Prefeitura de Boa Vista com as pessoas. Foto: Fernando Teixeira/PMBV

Dentro das escolas, a percepção também é positiva. Para o gestor Marcos Silva, da Escola Municipal Professor Ronilson Silva Nascimento, no bairro Araceli, a presença da guarnição fortalece não apenas a segurança, mas a confiança de toda a comunidade escolar.

“Estamos aqui desde janeiro deste ano, quando a escola foi inaugurada pela Prefeitura de Boa Vista. A presença da guarnição é fundamental. As crianças interagem bastante com eles, correm, cumprimentam. É uma relação muito saudável”, disse Marcos.

Falta de água e banheiros são os principais problemas de escolas rurais na região Norte

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Exclusão sanitária marca o cotidiano de muitas escolas rurais. Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

A exclusão sanitária ainda marca o cotidiano de muitas escolas rurais no Brasil, especialmente na Região Norte e em terras indígenas, onde falta até o básico: água potável e banheiros. Um novo estudo, publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública, escancara o peso dessa desigualdade.

A pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) mostra que, entre as escolas públicas rurais de ensino fundamental analisadas, aquelas de pequeno porte, com até 10 alunos, e as localizadas em terras indígenas são as que mais sofrem com falta de abastecimento de água e esgotamento sanitário – infraestrutura essencial para acesso ao saneamento.

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O estudo olhou para dados de 2011 a 2023 provenientes do Censo Escolar da Educação Básica, coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O impacto é ainda maior para as meninas: sem onde cuidar da higiene menstrual, muitas faltam às aulas e desistem da escola de vez.

Segundo o levantamento, mais de 22 mil unidades rurais de ensino fundamental fecharam nesse período. Entre as mais de 56 mil unidades em 2011, restaram em atividade pouco mais de 34 mil em 2011.

“Muitas dessas escolas eram justamente as mais precárias. Quando elas deixam de existir, o problema diminui nas estatísticas, mas não necessariamente na vida das crianças. Além disso, muitos estudantes passam a depender do transporte escolar em longas distâncias, nem sempre disponível de forma regular”, explica Lívia Pita Corrêa, autora principal do estudo.

Leia também: Saneamento que transforma: como a distribuição de água e tratamento de esgoto impulsionam o turismo em Manaus

Exclusão sanitária em escolas do Norte

Sala de aula da escola Karib, na comunidade Kuikuro, Parque Indígena do Xingu. Foto: Acervo ISA
Turma de alfabetização do professor Arautará, acompanhamento pedagógico na escola Karib, comunidade Kuikuro, Parque Indígena do Xingu.

O mapeamento mostra que o Norte do Brasil segue sendo mais afetado. Segundo os dados de 2023, 27,5% dessa região não tinham banheiro – com destaque negativo para o Pará. No estado, a distância das cidades, o isolamento e o transporte difícil, muitas vezes via rio, encarecem a instalação de redes de água e esgoto.

Já as escolas públicas rurais de ensino fundamental em terras indígenas tiveram piores desempenhos quando comparadas às demais unidades públicas rurais de ensino fundamental.

“Nas escolas localizadas em terras indígenas, a situação é ainda mais crítica. A maior ausência de banheiros e saneamento reflete um processo histórico de exclusão no acesso a serviços básicos. Na prática, isso afeta diretamente a saúde dos estudantes, aumentando o risco de doenças, e também compromete a permanência na escola”, destaca a pesquisadora.

Leia também: Pesquisa mostra que 97% de escolas rurais ribeirinhas não tem acesso a internet, no Amazonas

escola rural na região norte
Pesquisa escancara exclusão sanitária da rede ensino na região rural do Norte. Foto: Opimo

Esse cenário aprofunda desigualdades e penaliza especialmente as meninas. Sem acesso ao básico, saúde e dignidade ficam comprometidas, e muitos alunos se afastam das salas de aula.

“Sem infraestrutura adequada, muitas deixam de frequentar a escola durante o período menstrual e, em alguns casos, acabam abandonando os estudos. Isso mostra que o acesso à água, saneamento e higiene nas escolas não é apenas uma questão de infraestrutura, mas também de equidade”, avalia Corrêa.

Os autores avaliam que o próprio modelo de financiamento público piora a situação. O Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) repassa menos dinheiro às unidades com poucos alunos, justamente aquelas que mais precisam. Para garantir, de forma efetiva, o direito à educação e à saúde para todas as crianças, os pesquisadores defendem fortalecer o financiamento fixo das escolas rurais, ampliar o suporte técnico e considerar o isolamento geográfico na hora de distribuir recursos.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori

Líder indígena defende cultura e território da aldeia Kapot Jurinã no ATL 2026

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Betikre Tapayuna (à esquerda) é presidente da Associação Cultural Indígena Kapot Jarinã. Foto: Reprodução/Instagram-betikre_tapayuna

“Nós, da nova geração, temos que manter viva a luta dos nossos antepassados”.

Foi desta forma que o presidente da Associação Cultural Indígena Kapot Jarinã, Betikre Tapayuna, defendeu a cultura e a importância de manter seu território, localizado na Terra Indígena do Xingu. A declaração, dada em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, do IPAM Amazônia, o jovem indígena destacou as soluções indígenas para a crise climática, os novos desafios para a juventude, a cooperação com organizações não indígenas e a preparação para o ano eleitoral.

Tapayuna também começou a importância do Acampanhamento Terra Livre 2026, considerada a maior mobilização de líderes indígenas do Brasil, que aconteceu em Brasília de 5 a 11 de abril.

“O ATL é muito importante para nós porque reúne povos de várias etnias e de todas as partes do Brasil, fortalecendo nossa luta. Essa luta faz parte de nossa vida e une todos os povos. A crise climática é muito intensa e tem chegado com cada vez mais força aos territórios, o que nos preocupa muito”, pontuou o líder.

Leia também: ATL 2026 termina com condenação à exploração predatória de terras indígenas

Entrevista com o líder indígena Betikre Tapayuna

Como essa crise tem afetado a rotina nos territórios e quais respostas vocês têm encontrado?

Betikre: Nós, da nova geração, temos que manter viva essa luta que vem de nossos antepassados. Ela passa pela conservação das matas, mas, entre os mais jovens, também temos nos preocupado mais com a colaboração com pesquisadores e com a produção de ciência. É uma nova frente de atuação que encontramos para combater a crise climática.

Também temos nos dedicado ao combate aos incêndios, que antes não invadiam nossa terra, mas agora se tornaram frequentes. Estamos organizando brigadas para dar respostas mais rápidas ao fogo e proteger nosso território. Essa luta é contínua e vem de nossos conhecimentos ancestrais. Nossos avós nos transmitiram esses saberes, e precisamos manter essa espiritualidade viva e adaptá-la para enfrentar os novos desafios que surgem com o tempo.

Betikre Tapayuna, presidente da Associação Cultural Indígena Kapot Jarinã. Foto: Reprodução/Instagram-betikre_tapayuna
Betikre Tapayuna, presidente da Associação Cultural Indígena Kapot Jarinã. Foto: Reprodução/Instagram-betikre_tapayuna

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O IPAM tem trabalhado com sensores de qualidade do ar para medir essa invasão das queimadas nos territórios tradicionais. Como você acha que isso ajudaria a organização da sua comunidade?

Betikre: Com equipamentos como esse, teremos uma noção melhor do que está acontecendo em nossa região. Não vemos o ar nem a poluição, mas eles afetam nosso corpo e nosso sangue diariamente. Sabemos que o ar tem mudado. As comunidades passaram a ter doenças diferentes, que antes só ouvíamos falar. Antes não havia casos de câncer na aldeia, mas agora já existem. Por isso, dados como esses são muito importantes para entendermos a que estamos sendo expostos e como podemos nos proteger.

Nos últimos anos, temos enfrentado dias seguidos com a aldeia coberta de fumaça e incêndios invadindo o território. Isso prejudica principalmente os idosos, que já estão mais vulneráveis.

Leia também: Nova geração indígena do Amazonas fortalece presença no Acampamento Terra Livre 2026

E como pessoas e organizações não indígenas podem ampliar essa voz e essa busca por respostas?

Betikre: Para nós, essa colaboração é muito importante. A luta é de todos, e devemos seguir juntos. Temos um conhecimento ancestral diferenciado. Pessoas não indígenas e estrangeiros contribuem com seus saberes e formas de pensar, e assim seguimos juntos. São novas ferramentas que nos ajudam a ampliar nossa voz por meio de tecnologias, conhecimentos e espaços que vêm sendo ocupados. Somamos forças para enfrentar aqueles que querem desmatar, invadir terras indígenas e implementar grandes empreendimentos sem sustentabilidade ou consulta aos povos. Isso foi muito importante, por exemplo, na mobilização em torno do Marco Temporal, pois nos permitiu enfrentar o problema em várias frentes.

Em ano eleitoral, como você e sua organização têm se preparado para responder a ataques e pautar as demandas indígenas nos debates?

Betikre: Reuniões como o ATL são ainda mais importantes nesses contextos, justamente porque nos permitem identificar e nos posicionar contra políticas que vão contra nossos interesses. Também temos buscado garantir que os acordos firmados com governantes não beneficiem apenas os políticos, mas tragam vantagens concretas para nossos povos. Estamos nos organizando para mostrar que não apoiamos automaticamente governos: temos demandas que precisam ser atendidas. Temos aproveitado o período eleitoral para que nosso conhecimento, nossa voz e nossos saberes ancestrais sejam ouvidos na formulação de políticas públicas que nos afetam diretamente.

E o que você gostaria que o eleitor tivesse em mente na hora de votar?

Betikre: Gostaria de pedir que os povos indígenas sejam respeitados e lembrados. Queremos sobreviver, como todos. Se desmatarmos tudo e acabarmos com os rios, ninguém sobreviverá. O mundo não resistirá. A mudança climática já é muito severa, e precisamos parar de pensar que esse problema vai desaparecer sozinho. É urgente interromper a exploração do meio ambiente e os ataques aos direitos indígenas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia

Cerâmica ancestral Japuna ganha nova vida pelas mãos de mulheres do Amazonas

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Projeto ‘Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões’ voltou a dar forma na recuperação ancestral da produção de peças da cerâmica ancestral. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

As japuna, termo de origem tupi que designa o assador de farinha, voltaram a ganhar forma pelas mãos de mulheres agricultoras e ceramistas da comunidade da Missão, em Tefé, no interior do Amazonas. O projeto “Cadeias Operatórias das Japuna no Médio Solimões” foi iniciado pelo Instituto Mamirauá em 2025. 

A iniciativa conta com três eixos de pesquisa:

  • o primeiro com base em escavações na região;
  • o segundo, de caráter etno-histórico, fundamentado em relatos de livros históricos e na memória das mulheres;
  • e o terceiro, etnográfico, baseado na observação das técnicas das ceramistas da comunidade.

A pesquisa permitiu reunir esses dados e chegar à conclusão de que as japuna produzidas por elas ainda apresentam forte semelhança com as do passado. 

Na prática, o projeto reuniu as mulheres integrantes da associação Clube de Mães da comunidade para atuar em todas as etapas do processo, chamada pelos arqueólogos de “cadeia operatória das japuna”, que vai desde a coleta do barro na própria comunidade, passando pela modelagem e pela queima natural do material, até a finalização das peças, práticas aprendidas com suas mães e avós. 

Leia também: Cerâmica Tukano: arte, resistência e autonomia de mulheres indígenas

Japuna de geração em geração

Dona Lucila Frazão, de 69 anos, descendente do povo Miranha do Médio Solimões, herdou o conhecimento e a habilidade de ceramista de sua avó indígena.

“Lembro como se fosse hoje. Cada família produzia em sua própria casa; a produção era grande, com peças de cerâmica de grande porte, e todas as mulheres, das mais novas às mais velhas, sabiam produzir. Isso me traz não apenas memórias da infância, mas também a necessidade de voltar a produzir”, conta. 

Dona Lucila Frazão, de 69 anos, ceramista japuna. Foto: Tácio Melo
Dona Lucila Frazão, de 69 anos, ceramista japuna que herdou habilidade de sua avó indígena. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

Um fato curioso é que as peças produzidas pelas mulheres são semelhantes às japuna escavadas no sítio arqueológico do Centro de Estudos Superiores de Tefé Universidade Estado do Amazonas (CEST UEA), em Tefé (AM), entre 2017 e 2018. 

“Acho que foi muito importante acompanhar algo que, para mim, só existia na teoria. Ver isso na prática foi surpreendente; elas ainda detêm esse conhecimento ancestral, adquirido por suas antepassadas. Também utilizam técnicas orgânicas, como o uso do caraipé para dar consistência e de pedras para dar brilho e modelar”, relatou a arqueóloga Geórgea Holanda, uma das lideranças da iniciativa. 

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Ao mesmo tempo em que articula conhecimentos arqueológicos e experiências atuais das ceramistas, a retomada da produção dessas peças amplia as possibilidades de geração de renda para o grupo. Além da japuna, as mulheres iniciaram a confecção de outras peças que não eram produzidas há anos, como vasos, fogareiros, fruteiras e panelas. 

Produção das japuna reúne saberes ancestrais passados de geração em geração. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

O projeto e os saberes ancestrais 

A iniciativa foi pensada e idealizada após as descobertas de peças arqueológicas em 2017, pelo projeto Arqueologia Urbana, quando arqueólogos do Instituto Mamirauá identificaram as japuna em escavações na zona urbana de Tefé, no terreno da universidade CEST UEA. 

A partir desse achado e de registros históricos sobre essas cerâmicas indígenas, o Grupo de Pesquisa em Arqueologia do Instituto Mamirauá passou a buscar mulheres da região que ainda produzissem peças em cerâmica. O objetivo era identificar se ainda existiam, na região, detentoras das técnicas tradicionais de produção dessas peças indígenas. 

Durante essa busca, em 2024, os arqueólogos chegaram às mulheres da Comunidade da Missão. Em conversas sobre as peças, elas revelaram memórias marcantes da produção das japuna, na época, produzidas por suas mães e avós. 

Em 2025, as atividades práticas da cadeia operatória da japuna foram desenvolvidas com as mulheres da comunidade. A partir do cruzamento de dados arqueológicos já levantados com informações etno-históricas, os pesquisadores puderam comparar a produção atual das ceramistas com as japuna encontradas nas escavações realizadas entre 2017 e 2018. 

Saiba mais: Em 20 anos, pesquisadores do Instituto Mamirauá descobrem 23 novas espécies de animais

Próximas etapas 

Em abril deste ano, os pesquisadores devem chegar à comunidade de Nogueira, na região de Tefé, com o objetivo de também identificar mulheres que ainda detêm práticas ancestrais. 

A iniciativa também integra o projeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica do Instituto Mamirauá, intitulado “Arqueologia e modo de vida da comunidade de Nogueira através da oralidade”, conduzido pela pesquisadora Inês Vitória Menezes. 

Nesta etapa inicial, o trabalho se baseia em relatos registrados por naturalistas do século XIX, que descreveram, à época, a produção de cerâmicas, incluindo as japuna, na comunidade de Nogueira. 

Segundo a pesquisadora Inês Vitória, participar de uma pesquisa em seu próprio território vai além de uma experiência acadêmica.

“Eu espero que outras pessoas conheçam a história da comunidade; histórias que não estão apenas em documentos escritos, mas vivem nas memórias dos moradores da comunidade e são histórias que merecem ser valorizadas”, relatou. 

Peça da cerâmica japuna, termo de origem tupi que designa o assador de farinha
Peça da cerâmica japuna, termo de origem tupi que designa o assador de farinha. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

Arqueologia no Instituto Mamirauá  

O Instituto Mamirauá iniciou sua atuação em arqueologia em 2001, com a participação em escavações na comunidade Boa Esperança, localizada na Reserva Sustentável Amanã, no Amazonas. A experiência marcou o começo de um trabalho contínuo voltado à pesquisa e à valorização do patrimônio arqueológico na região.  

Em 2006, surgiu o primeiro projeto dedicado à gestão do patrimônio arqueológico da Reserva Amanã, gerenciado pelo Mamirauá. Dois anos depois, o projeto de gestão foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como Instituição de Guarda e Pesquisa (IGP), tornando-se a única no interior do Amazonas.  

Atualmente, o Instituto mantém o Grupo de Pesquisa em Arqueologia e Gestão do Patrimônio Cultural da Amazônia, formado por seis arqueólogos que atuam em sete projetos integrando atividades de campo e laboratório, além de estudos sobre a preservação do patrimônio cultural, de história e antropologia.  

Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Instituto Mamirauá desenvolve mais de 200 projetos em diferentes áreas do conhecimento, aliando pesquisa científica a ações junto às comunidades.  

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá

Brasil, Peru e Colômbia intensificam cooperação contra crime organizado na Amazônia

Representantes das Forças Armadas e órgãos de segurança pública do Brasil, Colômbia e Peru visitaram um semissubmersível apreendido pela Marinha do Brasil em 2025. Foto: Primeiro-Tenente Rodrigues/Marinha do Brasil

Brasil, Peru e Colômbia avançaram na coordenação de ações e cooperação contra o crime organizado na região amazônica durante a VI Reunião Tripartite sobre aplicação da lei nos rios da Bacia Amazônica, realizada entre 14 e 16 de abril, em Belém (PA). O encontro reuniu autoridades militares, policiais e diplomáticas dos três países, além de representantes da Organização das Nações Unidas (ONU), com foco no enfrentamento ao narcotráfico e a crimes correlatos.

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Os trabalhos da cooperação foram liderados pela Coordenação-Geral de Repressão a Drogas, Armas, Crimes contra o Patrimônio e Facções Criminosas (CGPRE-PF). A Marinha do Brasil (MB) foi representada por militares do Comando de Operações Navais (ComOpNav), do Comando do 4º Distrito Naval (Com4°DN) e do Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz).

Francesca Caonero, Coordenadora Regional do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), alertou para mudanças no padrão de atuação de grupos criminosos. Segundo ela, as organizações têm expandido sua atuação para países como Suriname e Guiana, com o emprego de estratégias mais sofisticadas, entre elas o uso de embarcações semissubmersíveis.

“Esta reunião de cooperação tem como objetivo analisar esses novos padrões e delinear estratégias para combater esses grupos. Precisamos identificar novos objetivos”, pontuou Caonero.

‘Submarinos do tráfico

A programação incluiu uma visita técnica à Base Naval de Val de Cães, onde está custodiada uma embarcação semissubmersível apreendida em maio de 2025, no município de Chaves (Arquipélago do Marajó). A apreensão é um marco para a PF por ter sido a primeira vez que um “submarino do tráfico” foi localizado ainda em fase de construção.

Durante a operação, um homem, morador da propriedade onde a embarcação foi encontrada, foi preso por porte ilegal de arma de fogo. Não foram encontradas drogas no interior da embarcação.

Leia também: “Base do inferno”: conheça a Base Naval de Val de Cães, em Belém

Autoridades militares dos três países participaram da Reunião Tripartite para discutir ações coordenadas na região amazônica. Foto: Felipe Faraon/PF

O sucesso da operação deve-se à análise de imagens de satélite, dados de sensores aeroespaciais e processamento com inteligência artificial. Isso permitiu identificar movimentos atípicos e a localização precisa do equipamento, algo difícil de detectar por métodos tradicionais”, explicou o delegado Lucas Pereira Gonçalves.

Com 18 metros de comprimento e 3 metros de largura, a embarcação artesanal possui engenharia sofisticada. A PF estima que o semissubmersível possa transportar até sete toneladas de cocaína, com autonomia de 10 mil quilômetros — distância suficiente para uma travessia direta do Marajó até a Europa. A estrutura em fibra de vidro e a cor azul dificultam a detecção por radares e a observação visual no oceano.

Leia também: Facções transformam crimes ambientais em nova fronteira do poder no Amazonas

Fortalecimento da cooperação

Em fevereiro de 2024, uma embarcação com características semelhantes foi encontrada por pescadores em São Caetano de Odivelas, no nordeste paraense. Em março de 2025, cinco homens, todos paraenses, foram presos enquanto transportavam seis toneladas de entorpecentes em um semissubmersível no Oceano Atlântico, a quase 1.000 quilômetros do Arquipélago dos Açores, em Portugal.

Representantes das Forças Armadas e órgãos de segurança pública do Brasil, Colômbia e Peru visitaram um semissubmersível apreendido pela Marinha do Brasil em 2025 - Imagem: Primeiro-Tenente Rodrigues/Marinha do Brasil
Representantes das Forças Armadas e órgãos de segurança pública do Brasil, Colômbia e Peru visitaram um semissubmersível apreendido pela Marinha do Brasil em 2025. Foto: Primeiro-Tenente Rodrigues/Marinha do Brasil

Segundo o Comandante do 4º Distrito Naval, Vice-Almirante Adriano Marcelino Batista, a escolha de Belém como sede da Reunião Tripartite para discutir a cooperação conjunta foi estratégica.

“A utilização dos rios regionais pelo narcotráfico possui, na região portuária, seu elo de conexão para atingir mercados distantes e, em Belém, esse encontro do fluvial e marítimo se dá, atribuindo relevância a esse complexo portuário no combate aos ilícitos”, afirmou.

Saiba mais: Tráfico de drogas se reinventa na Amazônia: interdição aérea leva crime às hidrovias e aumenta violência

Também participaram da reunião de cooperação o Superintendente Regional da Polícia Federal no Pará, Delegado Alexandre de Andrade Silva; o Comandante da Força Naval do Amazonas (Armada Nacional da Colômbia) Contra-almirante Alfonso Cordoba Pinilla; o Diretor do Departamento Antidrogas da Polícia Nacional do Peru, Leiby Antonio Human Daza; e o Chefe da Divisão de Repressão ao Tráfico de Entorpecentes da Polícia Federal, Delegado Vinícius Faria Zangirolani.

A sexta edição consolida o diálogo iniciado em novembro de 2023, em Cartagena. O cronograma de cooperação foi realizado em cidades como Manaus, em março de 2024, e Brasília, em agosto e dezembro de 2024, além de agosto de 2025.

*Com informações da Agência Marinha de Notícias

Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

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Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas. Foto: Cimone Barros/Ascom Inpa

A Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas, apontam dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas.

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Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um ‘super El Niño’. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo.

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Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas.
Comunidade do Catalão, em Iranduba. Foto: Gato Júnior/Rede Amazônica AM

O outro trabalho, que está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño.

Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção.

“Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, complementa Anderson.

Anderson lidera o laboratório TREES (sigla para TRopical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Construindo modelos

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas.

O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento.

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Área desmatada no Acre. Foto: Divulgação/Batalhão de Policiamento Ambiental do Acre

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas.

Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

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Seca em Rondônia. Foto: Tiago Frota/Rede Amazônica RO

De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Costurando ciência e iniciativas práticas

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas.

Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa.

Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional “State of Wildfires 2024-2025”.

Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026.

“Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora.

Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos – 21/04019-420/08916-825/28244-8 e 25/07124-4, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

Leia os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por Luciana Constantino

Embrapa desenvolve pesquisa para implementar café robusta amazônico no Amapá

Embrapa desenvolve pesquisa para implementar café robusta amazônico no Amapá. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

Muito popular em Rondônia, o café robusta amazônico pode ganhar espaço também no Amapá. A Embrapa realiza uma pesquisa para avaliar a viabilidade do cultivo no estado.

O trabalho tem dois objetivos: lançar uma cultivar genuinamente amapaense e recomendar variedades já desenvolvidas pela Embrapa Rondônia que se adaptem às condições locais, considerando desenvolvimento da planta, resistência a pragas e doenças e qualidade da bebida.

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As primeiras plantações do café robusta começaram em 2022 e, em 2024, foram feitas colheitas experimentais. Os resultados definitivos devem sair em cerca de quatro anos. 

O café robusta é uma das principais espécies cultivadas no mundo, tem mais cafeína, sabor mais forte e costuma ser usado em blends e cafés solúveis, diferente do arábica, que é mais suave e complexo.

Leia também: Café Robusta Amazônico é declarado patrimônio cultural e imaterial de Rondônia

Embrapa desenvolve pesquisa para implementar café robusta amazônico no Amapá
Embrapa desenvolve pesquisa para implementar café robusta amazônico no Amapá. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AP

“Em pesquisa, a gente precisa de pelo menos 4, 5 anos de avaliação. Os primeiros resultados são auspiciosos. Nós conseguimos produtividade em nível experimental, em campo experimental, nas condições controladas pela Embrapa, com nossos trabalhadores que já são habituados a trabalhar com plantas. Nós conseguimos produtividades excelentes, bem maiores do que a média nacional e do que a própria média de Rondônia, que é o local de origem das plantas que nós trouxemos”, explicou Rogério Alves, pesquisador da Embrapa.

Segundo ele, o material recomendado pela Embrapa Rondônia já é utilizado em outros estados da Amazônia, como Amazonas e Acre. No Amapá, os testes buscam avaliar o desempenho das plantas e, paralelamente, desenvolver uma cultivar própria.

Rogério Alves, pesquisador da Embrapa. Foto: Thiago Nunes/Rede Amazônica AP

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“No Amazonas, no Acre, estão plantando o mesmo material. Nós resolvemos testar aqui por ser mais rápido, por ser um material que já está pronto. O nosso, que eu estou falando que nós estamos procurando lançar o Amapaense, nós vamos levar mais tempo, porque ele está sendo desenvolvido do zero, ao passo que o de Rondônia já existe, as plantas já estão prontas. Então, nós só transportamos de lá para cá, plantamos e estamos vendo como é que ele se comporta. Nós precisamos de uma série de seleção, teste, seleção e teste. Então, a gente vai levar mais tempo”, explicou.

Atualmente, a Embrapa Amapá conduz duas linhas de pesquisa:

  • Um experimento seminal, com 500 plantas cultivadas a partir de sementes, das quais 20 foram selecionadas para análises, visando lançar uma cultivar genuinamente amapaense.
  • Um experimento clonal, com 300 plantas de 11 cultivares já desenvolvidas pela Embrapa Rondônia, para verificar quais se adaptam melhor ao Amapá.
Embrapa desenvolve pesquisa para implementar café robusta amazônico no Amapá. Foto: Thiago Nunes/Rede Amazônica AP

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A produção obtida até agora é apenas experimental, voltada para análises. A recomendação de materiais para produtores só será feita após a conclusão dos testes.

*Por Francisco Pinheiro, da Rede Amazônica AP

Quanto menos mata menor a diversidade de peixes, revela pesquisa

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O tamboatá vive no fundo de rios de águas lentas ou paradas. Foto: Chucão/Wikimedia Commons

A perda das matas às margens de riachos da Amazônia, ao alterar os ambientes aquáticos, pode promover o desaparecimento de peixes.

Algumas espécies que seriam mais afetadas são:

  • o tamboatá (Callichthys callichthys) e o muçum (Synbranchus marmoratus), ambos capazes de respirar fora d’água por períodos curtos de tempo;
  • duas espécies de peixe-elétrico: o sarapó (Gymnotus coropinae) e o falso-peixe-faca-tigre (G. javari);
  • o jundiá (Rhamdia quelen);
  • e o ituí-transparente (Eigenmannia virescens).

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Menos mata, menor a diversidade de peixes
Muçum (Synbranchus marmoratus). Foto: Germano Woehl Junior

Perda de mata ciliar influencia na diversidade de peixes

O biólogo Lucas Pires Oliveira, da Universidade Federal do Pará (UFPA), examinou a relação entre a perda da mata ciliar e a diversidade de peixes em 23 riachos de duas reservas extrativistas e em outros 12 de uma área não protegida próxima a uma delas, todas no Acre, entre 2019 e 2024.

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As coletas reuniram 4.072 indivíduos de 127 espécies de peixes. Nos riachos das duas reservas viviam 75 e 60 espécies e na área não protegida, com maior perda de vegetação, 58.

A perda da diversidade de espécies refletia a intensidade e a duração do desmatamento às margens dos riachos (Journal of Environmental Management, fevereiro).

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa Fapesp

Praça Jonathas Pedrosa é um dos símbolo da origem de Porto Velho

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A praça Jonathas Pedrosa carrega um título de nobreza urbana. Foto: José Carlos

Imagine o ano de 1915. Porto Velho (RO) era um canteiro de obras e sonhos, pulsando ao ritmo da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM). No meio do frenesi de ingleses, americanos, caribenhos e brasileiros que chegavam para desbravar a floresta, surgiu a necessidade de um respiro: um lugar onde a vida não fosse apenas trabalho.

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Foi nesse cenário que nasceu a Praça Jonathas Pedrosa. Apenas um ano após a criação oficial do município, ela já estava ali, desenhada para ser o coração social da cidade.

“As pessoas literalmente marcavam de ir pra praça. Era o ‘point’ da época. Os pais levavam os filhos, os casais namoravam sob o olhar atento das famílias, e os políticos discutiam o futuro ali. Era o grande ponto de convivência da sociedade porto-velhense”, explica o historiador Célio Leandro.

A primogênita do Estado

Pouca gente sabe, mas a Praça Jonathas Pedrosa carrega um título de nobreza urbana: foi a primeira praça projetada de todo o estado de Rondônia.

Sua criação não foi por acaso, mas parte do plano do Major Guapindaia, primeiro superintendente (cargo equivalente a prefeito) do município. Ele entendeu que, para Porto Velho ser, de fato, uma cidade, precisava de um espaço público de lazer e civismo.

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Praça Jonathas Pedrosa é símbolo da origem de Porto Velho
Para o historiador Célio Leandro, a praça Jonathas Pedrosa representa uma conexão com um modo de vida que se transformou. Foto: José Carlos

“Porto Velho surge em 1914 e, já no ano seguinte, se concretiza esse espaço. Isso demonstra que houve um pensamento urbanístico focado na convivência humana desde os primeiros passos da cidade”, destaca Célio Leandro.

Uma homenagem do outro lado do rio

O nome da praça é, em si, uma aula de geografia histórica. Naquela época, a divisão territorial era curiosa: de um lado ficava o antigo município de Santo Antônio do Rio Madeira, pertencente ao Mato Grosso e hoje conhecido como bairro Santo Antônio. Do outro, a jovem Porto Velho, que ainda era território do Amazonas.

Praça Jonathas Pedrosa nasceu como uma homenagem ao homem que validou a certidão de nascimento da cidade. Foto: José Carlos

Jonathas de Freitas Pedrosa não era rondoniense, ele era o governador do Amazonas na época e a figura central na assinatura do decreto que emancipou o município de Porto Velho, em 1914. A praça Jonathas Pedrosa nasceu, portanto, como uma homenagem ao homem que validou a certidão de nascimento da cidade.

Um tempo de coretos e saudações

Ao olharmos para registros antigos da praça, como a imagem que ilustra esta matéria, ou ao imaginarmos sua configuração original, com um coreto no centro, percebemos o quanto ela era vibrante. Para o historiador Célio Leandro, a praça representa uma conexão com um modo de vida que se transformou.

“Hoje a gente não vê mais as praças como antigamente, o ritmo da cidade é outro. Mas existe um saudosismo muito grande. Quando eu olho pra esse espaço, eu lembro exatamente desse tempo de convivência, dos encontros, de um tempo em que a cidade conversava olho no olho”.

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Jonathas Pedrosa na década de 1970. Foto: Acervo/ Célio Leandro

Mais de um século depois, a Praça Jonathas Pedrosa resiste. Recentemente revitalizada, ela não é apenas um adorno na paisagem urbana do centro histórico, mas um documento vivo.

O prefeito Léo Moraes destacou a importância do espaço para a cidade. “Estamos preservando um patrimônio histórico e devolvendo à população um espaço de convivência, que faz parte da identidade de Porto Velho”.

Ao caminhar por suas calçadas reformadas, pisa-se na mesma terra onde os fundadores de Porto Velho sonharam a cidade. Ela segue ali: viva, presente e acessível, guardando a essência do que fomos e do que somos.

Onde a vida acontece

Para muitos, a praça não é apenas um trajeto de passagem no centro da capital, mas o destino final. É o caso de Domingos Andrade, um trabalhador autônomo que, há quase 40 anos, mantém sua fiel banca de conserto de relógios no local. Foi na praça, entre engrenagens e ponteiros, que ele construiu sua trajetória.

Natural de Manicoré, Domingos chegou jovem e encontrou na praça a oportunidade que precisava. Dali, tirou o sustento para criar nove filhos e conquistar cada vitória de sua vida.

Praça Jonathas Pedrosa. Foto: José Carlos

“Aqui significa tudo pra mim. Foi daqui que eu criei meus filhos, sustentei minha família e comprei minhas coisas. Meu carro, minha casa… Tudo veio daqui”, afirma com orgulho.

Ao longo das décadas, ele viu a praça mudar, acompanhou o desgaste do tempo, a revitalização e o crescimento da cidade, mas manteve-se firme em seu posto, sendo ele mesmo parte do patrimônio vivo do lugar.

Memórias que atravessam o tempo

Para quem nasceu e cresceu em Porto Velho, a Jonathas Pedrosa é sinônimo de infância. A professora Maria José, de 64 anos, recorda os tempos no bairro Embratel e as visitas constantes ao centro.

“Eu trazia meu filho aqui… era o nosso lazer, um local de família. A gente vinha encontrar os amigos e até namoro acontecia, eu mesma namorei muito aqui”, conta, entre risos.

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Jonathas Pedrosa. Foto: José Carlos

Para ela, ver o espaço revitalizado traz um misto de nostalgia e esperança.

“Essa praça tem muita história. Passou um tempo mais largada, mas hoje está bonita de novo. É bom ver esse reconhecimento.”

Entre passado e presente

As lembranças também guiam os passos de Sâmia Guimarães, que agora retorna à praça levando a neta — um ciclo que se repete décadas depois. Ela confessa que passou um período afastada devido à falta de conservação que o local enfrentou anos atrás.

“A gente vinha pra encontrar os amigos, passear… mas depois ela já não estava mais boa de frequentar. Hoje é a primeira vez que venho com a minha neta e já fizemos questão de registrar o momento aqui”, diz Sâmia, enquanto observa a pequena desbravar o espaço que um dia foi dela.

O valor do cuidado coletivo

Quem vive na capital desde a década de 70, como Renê, entende que a beleza de um espaço público é uma responsabilidade compartilhada. Morador de Porto Velho desde 1976, ele celebra o resgate das praças, mas deixa um alerta.

“O que entristece é quando arrumam, deixam tudo bonito, e o vandalismo toma conta. A população precisa ajudar a cuidar, isso aqui é para as futuras gerações”, reflete.

Novos olhares

Enquanto alguns guardam memórias de décadas, outros começam a escrever suas primeiras linhas agora. Jackson Santiago, de 19 anos, trocou Vilhena pela capital para um curso de formação da Força Aérea. Mesmo recém-chegado, a Jonathas Pedrosa foi um dos primeiros lugares a chamar sua atenção.

“Achei a praça bonita e bem diferente. Não sabia que era a primeira do estado, achei bem bacana conhecer essa parte histórica”, comenta o jovem.

Onde a história continua

A Praça Jonathas Pedrosa resiste ao tempo e se renova. Considerada um símbolo histórico da cidade, o espaço foi revitalizado e devolvido à população como área de convivência, lazer e memória coletiva .

O prefeito Léo Moraes destacou o significado da praça para a capital. “É um símbolo vivo da história de Porto Velho e um espaço que volta à população com cuidado e valorização da nossa cidade” .

Praça Jonathas Pedrosa. Foto: José Carlos

Ela segue viva no balançar dos ponteiros do seu Domingos, no riso da neta de dona Sâmia e no olhar curioso de quem acaba de chegar à capital.

É um lugar simples, mas carregado de simbolismo: um ponto de encontro onde cada porto-velhense leva um pedaço da praça no coração e, em troca, deixa um pouco de sua própria história gravado ali.

*Com informações da Secom Porto Velho