Chef acreano ganha destaque nas redes por entregar bolos em barcos. Foto: Reprodução/Instagram-@chef_charlesfigueredo
Equilíbrio, criatividade e um pouco de aventura fazem parte da rotina do confeiteiro acreano Charles Figueiredo, de 37 anos. Para atender os clientes que vivem em áreas de difícil acesso no Acre, Charles encontrou nos barcos e canoas o transporte ideal para levar os bolos decorados.
Natural de Sena Madureira, ele une a vivência ribeirinha com a técnica aprendida em Rio Branco para manter o negócio funcionando entre um município e outro.
Charles é confeiteiro há 15 anos, mas o interesse pela área veio ainda na juventude. Aos 17 anos, ele deu os primeiros passos no ramo ao trabalhar com panificação ainda no interior onde começou em funções inicais e, em pouco tempo, se destacou até assumir a gerência de uma padaria, onde permaneceu por oito anos.
A virada para a confeitaria veio em 2017, quando decidiu mudar de área e passou a trabalhar em uma doceria em Rio Branco.
“Minha primeira experiência começou em 2017. Eu trabalhava em supermercado e conheci uma doceria aqui na capital. Minha paixão começou a partir daí”, relembra.
Porém, o diferencial veio com o tempo. Filho de uma família do interior e acostumado à rotina às margens do Rio Purus, Charles decidiu levar suas receitas para a comunidade onde os pais vivem, no Seringal Pacatuba, também conhecido como Comunidade Santa Amélia, em Sena Madureira.
O jovem conta que viveu no local até os 16 anos e que, inclusive, nasceu de sete meses dentro de uma canoa, história que ajuda a explicar sua forte ligação com a região.
Por lá, onde o acesso é limitado, as entregas precisaram se adaptar à realidade e ganharam um formato incomum.
“Eu nasci no interior de Sena Madureira e sempre vou lá nas férias. Como eu já fazia bolos, tive a ideia de levar para lá também. E o único transporte é a canoa ou o barco. Sempre que vou levo meu material, daí consigo montar esses bolos. É uma aventura bem à parte”, conta.
Entre idas e vindas pelo rio, ele transporta ingredientes, utensílios e encomendas prontas. O trajeto exige cuidado redobrado, mas não diminui a demanda.
Segundo ele, os bolos de aniversário são os que lideram os pedidos, principalmente em celebrações familiares. “São os mais procurados. Eu foco muito nos ingredientes regionais”, explica.
Sabor regional encontrado nos bolos
Essa escolha aparece também nas combinações. Um dos sabores mais marcantes de seus bolos leva cupuaçu e castanha-do-Brasil, que são dois produtos típicos da região acreana.
O preparo começa com uma geleia simples, feita apenas com polpa da fruta, água e açúcar, levada ao fogo baixo até atingir consistência mais encorpada. “O ponto é quando começa a soltar do fundo da panela”, detalha.
Na montagem, a massa recebe uma calda para garantir umidade, antes de ganhar camadas de creme de cupuaçu, geleia e castanha.
Para evitar que o recheio escorra, ele cria uma espécie de barreira com o próprio creme. Depois de montado, o bolo precisa descansar por horas na geladeira antes da finalização.
A cobertura leva merengue suíço, preparado com claras e açúcar aquecidos e depois batidos até formar picos firmes. O acabamento ganha um toque especial com o maçarico e detalhes com a própria geleia.
Entre uma encomenda e outra, o confeiteiro cruza o rio e leva uma história que mistura origem, adaptação e empreendedorismo em meio à realidade ribeirinha em que cresceu. Mais do que vender apenas bolos, Charles aposta na valorização dos sabores acreanos.
“Eu tento trazer algo da nossa região. Uso cupuaçu, castanha, são ingredientes principais nos doces”, completou.
Fenômeno ‘terras caídas’ avança no interior do Amazonas. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
Com a cheia dos rios no Amazonas, a força da água volta a provocar um fenômeno temido por quem vive às margens: as chamadas “terras caídas”. O desmoronamento de barrancos leva pedaços inteiros das encostas, muda o curso das margens e coloca em risco casas e plantações.
Na zona rural do município de Careiro da Várzea, ribeirinhos convivem com o problema todos os anos. Mesmo diante do perigo, muitos não cogitam deixar o local onde construíram suas vidas. Em vez disso, adaptam-se: mudam as casas de lugar.
Na comunidade da praia da Justina, o avanço do Rio Amazonas já apagou parte da história de famílias inteiras. O agricultor José Guedes conta que, desde 1954, quando seus parentes chegaram à região, cerca de 500 metros do terreno foram levados pela água.
“É difícil. Só pra quem tem coragem. Se for perto de igarapé, é arriscado. Na cheia, a correnteza leva a casa”, relatou.
Segundo a geóloga Iris Celeste Nascimento Bandeira, o fenômeno é inevitável em muitos trechos do rio.
“O Rio Amazonas é o maior do mundo em termos de vazão e velocidade. Ele é altamente potente. Pode ter a vegetação que for, ele vai destruir”, explicou.
A mudança das casas com o fenômeno das terras caídas é realizada com apoio das comunidades. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AM
Na comunidade, praticamente todas as casas são de madeira — o que permite que sejam desmontadas ou até arrastadas inteiras para locais mais seguros.
Diante do avanço do rio, e a possibilidade da ocorrência das terras caídas, os moradores adotam duas estratégias: desmontar e reconstruir as moradias longe da margem ou deslocá-las completas, com a ajuda de trilhos improvisados.
O carpinteiro e pescador Janderson França Guedes, um dos filhos de José, escolheu a segunda opção. Ele passou semanas preparando a estrutura para mover a própria casa.
“A gente fixa os tocos e alinha as madeiras. Geralmente, são cerca de 100 metros de trilho, que levam uma semana pra fazer e a gente puxa em um dia”, contou.
Ele aprendeu a técnica na prática. “A melhor escola que tem é a vida. A primeira casa que eu movi foi a minha, em 2021. De lá pra cá, sigo fazendo isso”, disse.
Trabalho coletivo e tensão causada pelas terras caídas
Desde 2022, esta é a terceira vez que a casa da família é deslocada. Desta vez, a ideia é levá-la cerca de 200 metros para dentro do terreno, longe do alcance do rio. O processo precisa ser feito em etapas, por falta de madeira suficiente.
No dia da mudança, a dona de casa Maria do Carmo Rodrigues, matriarca da família, não escondia a apreensão. “Dormi mais ou menos. A gente fica nervosa, com medo de não dar certo”, disse, emocionada.
A dúvida era se haveria ajuda suficiente. Mas, aos poucos, vizinhos começaram a chegar. “Aqui é uma comunidade unida. Ninguém trabalha por dinheiro, é por amizade”, afirmou o pescador Sebastião Duarte Guedes.
União para vencer a força da natureza
Com quase 30 pessoas, os moradores iniciaram o deslocamento da casa. Para facilitar o movimento, usaram sabão e óleo queimado nos trilhos de madeira.
O terreno irregular, com areia, desníveis e áreas alagadas, dificultou o trabalho. Ainda assim, mulheres e crianças permaneceram dentro da casa durante o trajeto.
“É uma sensação estranha. Parece que a gente está caindo, mas tem que manter a cabeça no lugar”, contou a cabeleireira Maria Luzia.
O deslocamento durou cerca de três horas, com pausas, esforço coletivo e até momentos de descontração, com música e refeições compartilhadas entre os participantes.
Para os moradores, a experiência reforça o espírito comunitário. “Aqui todo mundo se ajuda. A união faz a força”, resumiu o pescador Raimundo José Nunes Guimarães.
Família enviou carta ao Papa em busca de conforto. Foto: Divulgação
Num gesto de conforto e solidariedade, o Papa Leão XIV respondeu uma carta enviada por uma família amazonense ao líder da Igreja Católica. A mensagem foi um resposta à Joyce Xavier, mãe do menino Benício, de apenas 6 anos, que morreu após suposto erro médico durante atendimento numa unidade hospitalar. O caso aconteceu em 23 de novembro (2025) e segue na Justiça.
Ao GrupoRede Amazônica, Joyce contou que escreveu a carta após iniciativa de uma amiga. Em meio às lágrimas, a mãe relatou no texto a dor da família pelo falecimento de Benício e pediu uma palavra de conforto ao Papa.
“Nosso filho tinha 6 anos de idade, uma criança pura, amorosa, inteligente e saudável. Nos ensine a lidar com essa dor imensurável. Nos dê alguma palavra de participação, de conseguir seguir”.
Resposta do Papa à carta
Em resposta à carta, o Papa Leão XIV expressou solidariedade e proximidade diante da dor da família:
“Estejam certos de sua proximidade e de sua ternura. Ele não está distante do que vocês estão vivendo, pelo contrário, compartilha e carrega isso com vocês. Com Maria, vocês saberão esperar com paz. Hoje há sofrimento, mas com a certeza da fé, um novo dia surgirá e vocês reencontrarão a alegria”.
Benício morreu em 23 de novembro de 2025, após receber adrenalina diretamente na veia durante atendimento hospitalar. Segundo a investigação, tanto a dosagem quanto a forma de aplicação não eram indicadas para o paciente. Após o procedimento, ele sofreu seis paradas cardíacas e não resistiu.
Benício, de apenas 6 anos, morreu após suposto erro médico. Foto: Divulgação
A médica Juliana Brasil Santos, responsável pela prescrição, e a técnica de enfermagem Raiza Bentes foram indiciadas por homicídio doloso. A Polícia Civil aguarda laudos para concluir o inquérito.
Em depoimento, a médica reconheceu que errou ao prescrever adrenalina por via intravenosa e afirmou que a medicação deveria ter sido administrada por outra via. Ela disse ter se surpreendido por a equipe de enfermagem não questionar a prescrição.
A defesa da médica alega que o erro ocorreu por falha no sistema de prescrição do Hospital Santa Júlia, que teria alterado automaticamente a via do medicamento durante instabilidades no dia do atendimento.
A técnica de enfermagem afirmou que apenas seguiu a prescrição médica ao aplicar a adrenalina, sem diluição, e que informou a mãe da criança sobre o procedimento. Segundo ela, após a aplicação, Benício apresentou palidez, dor no peito e dificuldade para respirar.
*Com informações da matéria de Karla Melo, da Rede Amazônica AM
Uma iniciativa de moradores transformou uma calçada do bairro Primavera no segundo distrito de Ji-Paraná (RO) em um ‘Condomínio das Corujas‘, após a comunidade construir pequenas casinhas para proteger uma família de corujas que vive no espaço.
A ideia surgiu durante um mutirão para reconstruir o calçamento em frente à igreja Santa Maria Goretti. Segundo o presidente da Associação de Moradores do bairro, Welder Filgueira, durante a obra, os moradores encontraram um ninho com filhotes de coruja no local onde estavam colocando entulho.
Mas, antes que o buraco fosse fechado, a aposentada Maria José Lima, que mora no bairro há cerca de 30 anos, chamou a atenção dos trabalhadores.
“Eu falei para eles tomarem cuidado com as minhas corujas, para não tampar o buraquinho delas. As bichinhas estavam lá dentro com os filhotinhos”, contou.
Segundo ela, a família de corujas vive na região há cerca de três anos. No início, a moradora diz que tinha medo das aves, mas com o tempo passou a observar o comportamento delas e se acostumou com a presença dos animais.
“Um dia eu vi elas sentadas ali e depois descobri o buraquinho no chão. Quando fui olhar, estavam lá dentro”, lembrou.
Depois do alerta de Maria José, os moradores decidiram preservar o espaço. A partir daí, surgiu a ideia de construir pequenas estruturas para proteger os animais da chuva e evitar que o ninho fosse destruído. Com o tempo, as casinhas deram origem ao chamado Condomínio das Corujas, nome que acabou sendo pintado no local.
Agora, cerca de oito meses após a criação do espaço, seis corujas vivem na área: um casal e quatro filhotes, e um novo ninho já começou a ser formado. A iniciativa também chamou a atenção de moradores de outras regiões e de pessoas que passam pelo local para ver as aves de perto.
Para Welder Filgueira, iniciativas como essa também ajudam a mudar a imagem do bairro Primavera, que por muitos anos foi associado à violência.
“Nosso objetivo é mostrar que aqui também tem união e gente trabalhando para melhorar o bairro”, disse.
Dessa forma, o “Condomínio das Corujas” é visto pelos moradores como um pequeno patrimônio da comunidade. Eles também pedem que visitantes ajudem a preservar o espaço, evitando jogar lixo ou danificar as estruturas construídas para abrigar as aves.
Manaus (AM) foi palco do lançamento do livro ‘Humanos’, do fundador da Central Única das Favelas (CUFA), Celso Athayde. Realizado pela CUFA Amazonas, o evento reuniu cerca de 60 pessoas na Livraria Valer, entre autoridades políticas, empresários e lideranças comunitárias, consolidando um importante espaço de diálogo sobre desigualdade, oportunidades e transformação social a partir das periferias amazônicas.
“Dado sozinho não muda nada. O que muda é quando ele vira decisão. O Data Favela rompe com a lógica da política feita de cima pra baixo e começa ouvindo quem vive a realidade”, complementa Celso Athayde.
A obra, escrita em parceria com Marcus Vinicius Athayde, copresidente do Data Favela e presidente da CUFA Global, apresenta dados de uma ampla pesquisa realizada em 23 estados brasileiros, ouvindo quase 4 mil pessoas.
Reconhecido internacionalmente quando o assunto é favela, empreendedorismo e impacto social, Celso Athayde compartilhará sua trajetória, a atuação da CUFA no Brasil e no mundo, e os bastidores da construção do livro.
“Ao mesmo tempo em que enfrentamos os desafios sociais, também precisamos enxergar a região amazônica como uma potência global. A Amazônia não pode ser vista apenas pelos seus problemas, mas, sobretudo, pela sua capacidade de gerar formas de vida sustentáveis para quem já vive nesses territórios”, pontua Celso.
Livro Humanos foi escrito por Celso Athayde, em parceria com o filho Marcus Vinicius Athayde, copresidente do Data Favela e presidente da CUFA Global. Foto: Divulgação//CUFA Amazonas
”É nosso papel dar visibilidade a essa potência para quem está fora da região, mostrando a força, a criatividade e as soluções que nascem dentro das periferias e comunidades amazônicas. Temos exemplos concretos de projetos que já acontecem na Amazônia e nas favelas, mas também realizamos ações de grande impacto. Um marco importante foi a construção do Hospital para o povo indígena Yanomami, em Roraima, essa iniciativa que demonstra nosso compromisso com o desenvolvimento da região”, destaca Marcus Vinícius Athayde, presidente da CUFA Global.
O livro propõe um olhar mais humano sobre realidades marcadas pela desigualdade social. A pesquisa revela que a maioria dos entrevistados é jovem, preta e possui família. Metade tem até 26 anos e 80% até 36. Quase metade aponta a falta de dinheiro com principal motivo para o ingresso no crime. Quando questionados sobre o que fariam diferente, a resposta mais recorrente foi ter investido nos estudos. Além disso, 84% afirmam que não desejam que seus filhos sigam o mesmo caminho.
“Trazer esse lançamento para Manaus é reconhecer que a favela não tem um CEP único no Brasil. Aqui ela é ribeirinha, é palafita, é marcada pelo rio e pelo abandono histórico. Mas a essência é a mesma: gente que sobrevive, cria, empreende e sonha mesmo quando tudo é contra”, afirma Celso Athayde.
O encontro reafirmou o compromisso da CUFA Amazonas em articular conhecimento, pesquisa e mobilização social como ferramentas para impulsionar políticas públicas eficazes, atrair investimentos e ampliar oportunidades reais para a juventude periférica do estado.
Evento de lançamento reuniu cerca de 60 pessoas, entre autoridades políticas, empresários e lideranças comunitárias. Foto: Divulgação/CUFA Amazonas
“É muito importante quando olham para a favela com mais humanidade. Nossa realidade é difícil, falta oportunidade, mas também tem trabalho, fé e sonho. A gente quer ser visto além dos problemas,” afirma Maria Cristina Pereira, moradora da favela Cidade de Deus.
CUFA Amazonas
A Central Única das Favelas (CUFA) é uma organização social reconhecida nacional e internacionalmente por sua atuação em favelas e comunidades, promovendo inclusão social por meio da cultura, educação, esporte e empreendedorismo.
No Amazonas, a CUFA atua em diversos territórios, fortalecendo a identidade negra e periférica e promovendo iniciativas que conectam ancestralidade e inovação.
Conhecer a leishmaniose e adotar cuidados no dia a dia são passos importantes para reduzir o risco de transmissão da doença no Amazonas. Com esse entendimento, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP) reforça orientações à população sobre prevenção e reconhecimento dos sinais da doença.
No estado, as condições ambientais favorecem a presença de diversos insetos que podem transmitir doenças. Entre eles conhecido como o mosquito-palha, responsável pela transmissão da leishmaniose.
Diante desse cenário, a informação em saúde se torna uma aliada importante para orientar a população sobre como evitar o contato com o inseto e adotar medidas de proteção.
A diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, destaca que ampliar o acesso a informações claras contribui para fortalecer a prevenção.
“Quando a informação chega de forma acessível à população, ela ajuda a orientar práticas simples de proteção no cotidiano e aproxima ainda mais a vigilância em saúde das comunidades”, afirmou.
Foto: Divulgação
De acordo com a gerente de Vigilância de Doenças Transmissíveis da FVS-RCP, Lilian Furtado, falar sobre a doença e suas formas de prevenção também contribui para ampliar o conhecimento sobre as estratégias de vigilância e controle.
“Promover espaços de diálogo sobre a leishmaniose é fundamental para compartilhar informações atualizadas e fortalecer as ações de prevenção e enfrentamento da doença”, explicou.
O que é a leishmaniose
A forma mais registrada no Amazonas é a Leishmaniose Tegumentar, que provoca feridas na pele. Essas lesões costumam apresentar bordas elevadas e fundo avermelhado ou com crostas, aparecendo principalmente em áreas expostas do corpo, como braços, pernas, rosto e orelhas.
Na maioria das vezes, as feridas causam pouca ou nenhuma dor, mas podem demorar para cicatrizar e aumentar de tamanho com o passar do tempo. Os sintomas podem surgir semanas ou até meses após a picada do inseto transmissor.
Pessoas que vivem ou trabalham em áreas rurais, regiões de mata ou locais próximos a estradas estão mais expostas ao risco. A ausência de medidas de proteção contra insetos também aumenta a possibilidade de contato com o mosquito-palha.
Como se prevenir
Algumas atitudes no dia a dia ajudam a reduzir a presença do inseto transmissor e a proteger a população:
Manter quintais, terrenos e abrigos de animais limpos;
Evitar locais que favoreçam a reprodução do inseto;
Instalar telas de proteção em portas e janelas e, quando possível, utilizar mosquiteiros;
Usar repelentes apropriados;
Em áreas com maior presença do inseto, optar por roupas que cubram a maior parte do corpo.
FVS-RCP esclarece que caso apareça alguma lesão suspeita na pele, a orientação é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. A leishmaniose tem tratamento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e a identificação precoce contribui para melhores resultados no cuidado.
Entre as espécies de aves mais comuns no bosque estão o sabiá, caraxué, joão-pinto, aracuã e papa-capim, que ajudam a compor a sonoridade natural do ambiente. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Entre árvores altas e trilhas com sombras, o som que domina o Bosque dos Papagaios, localizado no bairro Paraviana, não vem da cidade, mas da natureza. O canto dos pássaros transforma o espaço em um ponto privilegiado para observação de aves, uma prática que, além de aproximar a população da biodiversidade amazônica, também traz benefícios comprovados para a saúde mental.
O último levantamento feito no Parque Ecológico Bosque dos Papagaios apontou a existência de 52 espécies de aves em vida livre no local, dependendo da época do ano, além dos animais que ficam no mantenedouro de fauna silvestre. De acordo com o gerente do bosque, Francisco Ibiapina, os exemplares mais comuns são o sabiá, caraxué, joão-pinto, aracuã, papa-capim, dentre outros.
“Aqui é um corredor para observação de pássaros, pois aves migratórias e raras passam pelo parque constantemente, devido às frutas e sementes das árvores do boque. Somos procurados por fotógrafos de vida selvagem e grupos de observação, além da população em geral. Tem visitante que vem todo dia aqui para descansar a mente e depois voltar para a rotina”, disse.
Gerente do bosque afirma que aves chamam atenção dos visitantes. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Melodia que cura
Em um mundo cada vez mais digital e urbano, experiências sensoriais naturais, como ouvir pássaros, oferecem uma oportunidade simples de reduzir estresse e melhorar a saúde mental. Um estudo publicado na revista Scientific Reports e citado pela National Geographic relaciona o som do canto dos pássaros à redução dos níveis de depressão e ansiedade na mente humana.
Durante o estudo, os pesquisadores solicitaram aos participantes que registrassem, ao longo de duas semanas, informações sobre o ambiente em que estavam e como se sentiam durante o dia. Os resultados mostraram que, nos momentos em que as pessoas relataram ter ouvido o canto de pássaros, houve uma melhora no bem-estar mental, por horas, mesmo após o contato com as aves.
Espécies de aves podem ser vistas e ouvidas no bosque. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Saúde mental e natureza
Ferramenta acessível de cuidado emocional, a natureza potencializa os efeitos positivos estudados pela ciência. Para a psicóloga e Referência Técnica de Saúde Mental de Boa Vista, Gilvânia Matos, o contato com os sons do habitat natural tem enfeito psicológico imediato, sem contar que esse hábito pode ser adotado com tranquilidade e de forma gratuita na capital.
“Vivemos uma vida no modo automático, então essa conexão com a natureza faz com que a gente desacelere e consiga centrar-se. O canto dos pássaros e a conexão com a natureza diminui ruídos urbanos, reduzindo a ansiedade e pensamentos autodestrutivos, além de estimular a liberação de neurotransmissores no cérebro, como serotonina e dopamina, responsáveis pela sensação de bem-estar”, destacou.
Espaço conta com cerca de 50 espécies de aves em vida livre. Foto: Andrezza Mariot/PMBV
Refúgio que acolhe
Ciente dos benefícios, a Prefeitura de Boa Vista mantém e apoia ambientes urbanos, preservando a vida constante de todo o ecossistema. Morando em Boa Vista há mais de 20 anos, o advogado Kennedy Cavalcante visita o Parque Ecológico com frequência, acompanhado da esposa e neta, já que sente forte conexão com a natureza quando está no local.
“Vir ao bosque, definitivamente, melhora meu dia. O canto dos pássaros, inclusive dos que estão em observação aqui, como as araras, papagaios e tucanos, é fascinante. Sempre percebo também os animais que ficam na copa das árvores. Tudo isso traz uma paz muito grande para a nossa cabeça. A natureza, realmente, quando a gente se conecta com ela, traz benefícios”, destacou.
Queimadas recorde de 2024 cobriram porções da Amazônia com partículas nocivas à saúde por até 138 dias, aponta estudo inédito conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
“Em 2024, a Amazônia viveu um cenário bem crítico de poluição do ar por causa da seca extrema, com impactos claros para a saúde da população. Em 2025, com o clima mais favorável, a situação melhorou e a qualidade do ar também. Essa comparação mostra como eventos climáticos extremos e queimadas estão diretamente ligados ao aumento da poluição e reforça a necessidade de investir em prevenção, monitoramento e ações integradas entre meio ambiente e saúde”, explica Vanessa Ribeiro, pesquisadora do IPAM e uma das autoras do estudo.
Em 2024, queimadas impulsionadas por uma seca histórica elevaram a área atingida pelo fogo na Amazônia para mais de 17 milhões de hectares, segundo dados do Monitor do Fogo da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte.
Em 2025, com a normalização do regime de chuvas e a adoção de políticas de manejo do fogo, a área queimada caiu 78%, totalizando 3,8 milhões de hectares. Os estados mais atingidos em 2024 — Pará, Mato Grosso e Tocantins — registraram, em média, 47 dias de ar considerado nocivo à saúde, superando níveis de poluição observados em grandes metrópoles. Rondônia, oitavo estado com maior área queimada no período, somou 100 dias de ar poluído, liderando o ranking de exposição prolongada.
Publicada em 20 de março, a nota técnica “Amazônia em Chamas: a qualidade do ar em 2024 e 2025” foi elaborada por pesquisadores do IPAM, da Columbia Climate School, do Woodwell Climate Research Center e do Instituto Ar.
O estudo propõe incorporar o monitoramento sistemático da qualidade do ar associada a queimadas e incêndios florestais como uma nova camada de análise sobre os impactos desses eventos na população e no meio ambiente.
A iniciativa também busca preparar territórios sob influência do fogo recorrentes para lidar com a pressão adicional exercida pela poluição atmosférica sobre os sistemas de saúde e as estratégias de adaptação.
“Diferentemente de outros biomas, a Amazônia não possui um regime natural de fogo e não evoluiu para lidar com queimadas. Na prática, quase todo o fogo registrado na região tem origem humana — seja pelo uso agropecuário para limpeza de pastagens e preparo de áreas agrícolas, seja pela queima intencional de vegetação desmatada. Em anos de seca extrema, como 2024, essas ignições escapam ao controle e se transformam em grandes incêndios florestais, amplificando drasticamente a destruição ambiental e a poluição atmosférica”, explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM que também trabalhou na pesquisa.
Para minimizar os riscos associados à baixa qualidade do ar provocada pelo fogo, o estudo recomenda integrar metas de qualidade do ar aos planos de controle do desmatamento e das queimadas, como o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal).
A nota técnica também defende a capacitação de profissionais de saúde e a criação de protocolos específicos para reduzir os danos da exposição à fumaça e permitir respostas mais rápidas e coordenadas a crises ambientais.
Em 2025, observou-se uma redução da exposição à poluição atmosférica no sudoeste da Amazônia Legal, enquanto parte relevante do material particulado passou a se concentrar na porção leste do bioma. Nesse período, Maranhão e Rondônia registraram os maiores níveis de poluição, com 13 e 11 dias consecutivos, respectivamente, de ar com elevada concentração de partículas na atmosfera.
A diminuição das queimadas também reduziu o número de dias consecutivos com ar de baixa qualidade nos estados do sudoeste amazônico. Em Rondônia, o total caiu de 89 para 11 dias; em Mato Grosso, de 59 para 12; e no Acre, de 51 para 4 dias consecutivos. Por outro lado, o Maranhão apresentou aumento de 2 para 13 dias consecutivos, indicando maior quantidade dos episódios críticos na porção leste da Amazônia Legal.
“Entre 2024 e 2025, as mudanças não ficaram só na área total queimada. O que realmente fez diferença foram as condições climáticas, que influenciaram tanto a intensidade quanto a forma como a poluição se espalhou. Em 2024, a seca extrema ligada ao El Niño reduziu muito as chuvas, aumentou as temperaturas e deixou o ar mais seco. Esse cenário facilitou a propagação das queimadas, fez os incêndios durarem mais tempo e dificultou a dispersão dos poluentes”, explica Vanessa.
A atenuação dos efeitos do El Niño em 2025 contribuíram para o retorno das chuvas e a redução do número de queimadas e do ressecamento do ar. Ainda, políticas de Manejo do Fogo implementadas no ano passado também contribuíram para a redução da área atingida, assim como para a redução da duração das queimadas.
“Com chuvas mais regulares e um clima menos extremo, a vegetação ficou menos inflamável. Isso ajudou a reduzir não só o volume total de emissões, mas também alterou a circulação e o transporte das massas de ar. A comparação entre os dois anos mostra que a poluição atmosférica na Amazônia não depende apenas do tamanho das áreas queimadas, mas da combinação entre ações humanas e fatores climáticos, que influenciam tanto a emissão quanto a dispersão dos poluentes”, completa a pesquisadora.
Nos municípios, os indicadores permaneceram concentrados no Arco do Desmatamento — região que abrange o sul e o leste do Pará, o norte do Mato Grosso, Rondônia e Acre —, porém com menor intensidade e menor abrangência territorial em relação ao ano anterior.
Também houve mudança no perfil dos municípios mais afetados, que passaram a se concentrar predominantemente no Pará (Rondon do Pará, Jacundá, Novo Repartimento e Abel Figueiredo) e no Maranhão (Codó, Brejo de Areia e Lago da Pedra), evidenciando o deslocamento dos episódios críticos para o leste da Amazônia Legal.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
A escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã vem adicionando pesadas incertezas no cenário político e econômico internacional. Face aos repetidos aumentos que vêm se registrando nos preços dos combustíveis impulsionados pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, o petróleo bruto, cotado antes do conflito em torno de US$65/US$72, subiu na semana passada mais de 10%, para US$ 119.13 o barril.
Inevitavelmente, a disparada nos preços irá impactar seriamente a inflação e manter os juros altos sem previsão de retorno à posição vigente anteriormente à guerra. Definitivamente, juros elevados reduzem o acesso ao crédito, afetando negativamente o consumo das famílias, a renda e o emprego.
A incerteza da conjuntura mundial tende a desestimular investimentos produtivos. Segundo especialistas, a instabilidade do mercado petrolífero é reflexo da alta acumulada de 40% a 50% desde o início dos conflitos. Consequentemente, a guerra já está afetando seriamente o comércio global, e, certamente, as exportações brasileiras do agronegócio. O setor, ressalte-se, é o sustentáculo do crescimento do nosso PIB.
Levantamentos da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) apontam que as exportações deverão sofrer importantes impactos no período do conflito, sobretudo em decorrência de perdas potenciais do agronegócio devido a disparada nos preços dos fertilizantes, aumento nos custos de produção e logística das exportações.
Para a Embrapa, o Brasil é um dos líderes na produção mundial de alimentos. Entretanto, altamente deficitário nesse mercado, importa cerca de 85% do volume de fertilizantes utilizados anualmente. Em 2025, todo o estoque de ureia do país teve origem no exterior, com aproximadamente 41% das importações passando justamente pelo Estreito de Ormuz, segundo a consultoria Agrinvest.
Citado por Exame Agro, além das rotas interrompidas, armadores já aplicam taxas adicionais de guerra de até US$ 4 mil por contêiner, enquanto frigoríficos enfrentam dificuldades de embarque e avaliam reduzir temporariamente a produção destinada ao mercado halal (mundo árabe). Caso a crise persista, parte da carne pode ser redirecionada para outros centros, pressionando ainda mais os preços internacionais.
Outro fator de maior gravidade sobre a conjuntura econômica do Brasil para 2026 diz respeito à Selic (taxa básica de juros da economia brasileira). Mantida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central desde 18 de junho de 2025, foi finalmente cortada para 14,75% no último 17 de março. A medida visou sinalizar movimento destinado a tornar menos onerosa a obtenção de créditos financeiros, limitação que constitui incontornável “freio” para a atividade econômica, daí a taxa de juros configurar o principal instrumento usado pelo BC no controle da inflação. Em comunicado, o Copom salientou que “a decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”.
Não obstante à queda, o Brasil segue com a segunda maior taxa de juro real entre as principais economias do mundo, atrás apenas da Turquia. O juro real brasileiro calculado pelas consultorias econômicas MoneYou e Lev Intelligence será de 9,51% — acima de Rússia e Argentina (ambos com 9,41%). O BC informou ao mercado que, face à instabilidade da economia mundial, em 2026 deverá prosseguir a política de desaceleração da atividade econômica, projetando uma alta de apenas 1,8% para o PIB em pleno ano de eleições presidenciais, segundo a mediana de projeções colhidas pelo jornal Valor Econômico.
Como fator complicador adicional, o Brasil encerrou 2025 com 76,6% das famílias endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor divulgada em dezembro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cenário para nossa economia, como se observa, não é dos mais alvissareiros. Por conseguinte, sinal amarelo para a ZFM, que está a demandar ações preventivas de governo visando eliminar, ou minimizar, danos maiores à nossa economia decorrentes do cataclisma que se forma a partir do Oriente Médio.
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
UFPA é uma das maiores produtoras de conhecimento sobre a Amazônia do mundo e está entre as instituições científicas da região que sofrem com a distribuição desigual de verbas. Foto: Divulgação/UFPA
Essa assimetria histórica limita não apenas a capacidade científica regional, mas também a efetividade das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.
Recentemente, observou-se um novo exemplo dessa desigualdade estrutural. Em uma chamada suplementada do CNPq voltada à ampliação de bolsas de pós-doutorado no país, menos de 4% das bolsas foram destinadas à região Norte.
O número contrasta com a importância da Amazônia, que representa mais da metade do território nacional, contribui com 9,6% do PIB total do país (2022) e concentra uma parte expressiva das agendas científicas e das estratégias do país.
Essa distribuição desigual de recursos define, dentre outras coisas, onde jovens doutores conseguirão permanecer, onde grupos conseguirão se consolidar e em quais regiões as redes científicas ganharão maior densidade.
Essa lógica reforça um padrão conhecido: a Amazônia segue amplamente estudada, mas raramente decide os rumos da ciência que se faz sobre ela. Os principais centros de decisão permanecem concentrados em outras regiões do país ou no exterior, o que fragmenta os esforços científicos e dificulta a transformação do conhecimento produzido localmente em benefícios diretos para as populações amazônicas e para a conservação do bioma.
Apesar dessas desigualdades, experiências recentes mostram que, quando há financiamento estável e um desenho institucional adequado, a ciência produzida na Amazônia pode alcançar alto impacto. Programas estruturados em rede, como os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), reúnem pesquisadores e instituições em torno de problemas comuns, compartilhando dados, infraestrutura e conhecimento.
Em regiões como a Amazônia, esse modelo é estratégico porque permite otimizar recursos escassos, reduzir desigualdades internas e ampliar o alcance da ciência produzida localmente.
Em Manaus, o INCT-Adapta, dedicado ao estudo da adaptação da biota aquática amazônica às mudanças climáticas, mostra que redes científicas sediadas na Amazônia são capazes de atuar na fronteira do conhecimento. Entre 2017 e 2024, o instituto acumulou mais de 700 publicações, com ampla circulação internacional e inserção em redes globais de citação, ao mesmo tempo em que formou centenas de pesquisadores em diferentes níveis, da iniciação científica ao pós-doutorado.
A atuação do INCT-Adapta também evidencia a força temática da ciência amazônica. Pesquisas sobre mudanças climáticas, fisiologia de peixes, qualidade da água, pesca e aquicultura aparecem como núcleos de alta relevância científica, conectando conhecimento básico a problemas enfrentados pelas populações da região. Trata-se de ciência básica e aplicada, socialmente relevante e alinhada às grandes agendas globais.
Em Belém, outro exemplo relevante do potencial das redes científicas amazônicas é o INCT dedicado à Síntese da Biodiversidade Amazônica, o SynBiAm, recentemente analisado em artigo publicado nos Proceedings of the Royal Society B. A experiência do SynBiAm mostra que redes colaborativas, quando estruturadas de forma deliberada, podem funcionar como infraestruturas científicas voltadas não apenas à produção de novos dados, mas também à integração, curadoria e interpretação coletiva do conhecimento já existente.
O artigo destaca que o SynBiAm articula dezenas de instituições acadêmicas e não acadêmicas, combinando diferentes disciplinas, escalas de análise e contextos territoriais, com ênfase na formação de capacidades locais e na produção de conhecimento socialmente relevante.
Essas experiências deixam claro que o principal gargalo da ciência amazônica não é a ausência de competência, qualidade, relevância ou produtividade, mas a falta de políticas de fomento estáveis, proporcionais e de longo prazo.
Expandir redes, formar pessoas e fixar ciência na Amazônia
Expandir e fortalecer programas como os INCTs na Amazônia não significa apenas lançar novos editais. Exige reconhecer essas redes como infraestruturas estratégicas para formar pessoas, produzir conhecimento e fixar pesquisadores na região. Quando articuladas a bolsas de pós-doutorado e políticas de inovação, essas redes podem criar trajetórias científicas mais estáveis para jovens pesquisadores amazônicos.
Sem corrigir a concentração regional das bolsas e das oportunidades, a ciência amazônica continuará formando pesquisadores que acabam deixando a região. Isso enfraquece a capacidade local de inovação e de síntese de conhecimento.
A regra atual — que busca garantir que 30% dos recursos de alguns editais cheguem às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — tem se mostrado insuficiente. Na prática, essa proporção não garante que os recursos cheguem à Amazônia de forma compatível com sua extensão territorial, sua população, sua contribuição ao conhecimento científico nacional e, sobretudo, com seu papel estratégico para o futuro do país.
Nesse contexto, ganha relevância a moção aprovada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), durante sua reunião anual em Belém, que propõe a destinação de, no mínimo, 10% do orçamento nacional de ciência e tecnologia exclusivamente para a Amazônia. Trata-se de um marco político-científico que reconhece explicitamente o chamado “custo amazônico”, os maiores gastos logísticos, operacionais e humanos necessários para a realização de pesquisa de qualidade na região.
Além disso, é fundamental enfrentar a instabilidade crônica do financiamento científico. A cada ciclo de projetos, as instituições amazônicas precisam lidar com a incerteza quanto à continuidade de programas estruturantes. O caso do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) é emblemático: o atual ciclo se encerra em 2026, sem qualquer garantia de lançamento de um novo edital ou de manutenção do financiamento, o que coloca em risco décadas de construção de dados, formação de pessoas e monitoramento ambiental.
Diante desse quadro, a escolha é inequívoca: ou o país reconhece a ciência e, em particular, a ciência amazônica como infraestrutura estratégica de Estado, com financiamento estável, diferenciado e de longo prazo, ou seguirá reproduzindo um modelo que concentra capacidades, aprofunda desigualdades regionais e compromete sua própria capacidade de futuro.
Expandir redes, garantir bolsas, assegurar a continuidade de programas estruturantes e corrigir assimetrias não são concessões corporativas, mas decisões políticas que definem se o Brasil será capaz de produzir conhecimento onde seus maiores desafios se colocam.
Para um país historicamente marcado por assimetrias regionais e por ciclos curtos de financiamento científico, apostar na consolidação de redes como os INCTs na Amazônia é um projeto de futuro. Fortalecer a ciência amazônica significa fortalecer a capacidade do Brasil de responder aos desafios climáticos, ambientais e sociais do século 21, com ciência feita na Amazônia, por quem vive e trabalha nela.
Autores
Adalberto Luis Val – Coordenador do INCT ADAPTA e pesquisador, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)