O Laboratório de Mamíferos Aquáticos (LMA) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Associação Amigos do Peixe-boi (Ampa) celebram, neste 9 de julho, o aniversário do peixe-boi fêmea mais antigo do Inpa. Boo completa 50 anos. Ela é uma das primeiras da espécie (Trichechus inunguis) que chegaram ao instituto.
Ela foi levada para o Instituto ainda filhote, com 116cm e 26kg, e cerca de um mês de vida, no dia 9 de julho de 1974, pela primeira pesquisadora do LMA, Diana Magor.
“A Boo foi o segundo filhote a ser recebido pelo laboratório, e os aprendizados do manejo foram de grande importância para os cuidados dos animais que foram resgatados posteriormente”, explica a coordenadora do LMA, a pesquisadora Vera da Silva.
Foto: Anselmo d’Affonseca/AMPA
Além de contribuir para os estudos de avaliação de saúde do plantel de peixe-boi sob cuidados humanos no INPA Boo também participou de algumas pesquisas científicas, como sobre a compreensão da fisiologia da espécie, de parâmetros vitais básicos, reprodutivos e estudos sobre a comunicação (bioacústica), dentre outros.
Reprodução
A primeira reprodução de peixe-boi da Amazônia em cativeiro foi com a Boo e o Tupy, peixe-boi também resgatado e reabilitado no LMA. O nascimento do Erê, foi considerado um marco no avanço da pesquisa científica e permitiu maior compreensão sobre os aspectos fisiológicos e nutricionais da espécie.
“Esse acontecimento foi essencial, pois os pesquisadores começaram a entender melhor as características nutricionais e conseguir resultados positivos na melhora nutricional dos peixes-boi, dos animais em cativeiro”, comenta o presidente da Ampa, o veterinário Rodrigo Amaral.
Foto: Anselmo d’Affonseca/AMPA
Amaral acrescenta que a contribuição se estende às pesquisas sobre comportamento do filhote ao nascimento, a relação com a mãe, e sobre as necessidades durante a amamentação, entre outros aspectos. “São conhecimentos importantes para a reabilitação e a manutenção dos filhotes órfãos resgatados pelo Inpa”, explica Amaral.
Ao longo dos anos, Boo também amamentou dois filhotes de peixes-bois que foram resgatados. “A Boo é daquelas mãezonas, cuidou dos seus filhotes e também adotou outros que chegaram resgatados”, concluiu o veterinário. Um dos filhotes resgatados adotados pela Boo foi o Tapajós, que se encontra hoje no Aquário de São Paulo.
Peixe-boi da Amazônia
O peixe-boi da Amazônia é a menor espécie de peixe-boi do mundo, chegando a até 3 metros de comprimento e 450 kg de peso. É um mamífero aquático endêmico da Amazônia, ou seja, essa espécie é exclusiva dos rios da Bacia Amazônica.
Foi maciçamente explorado no passado, mas ainda ocorre na maior parte de sua distribuição original, desde o Peru, Colômbia, Equador até a foz do rio Amazonas no Brasil.
É um animal herbívoro, alimenta-se de grande variedade de plantas aquáticas e semi-aquáticas, e consome cerca de 8% de seu peso vivo em alimento por dia.
A espécie contribui para a ciclagem de nutrientes nos rios e controle de plantas aquáticas nos lagos, que dificultaria a entrada de luz solar nos rios e até mesmo o transporte de pequenas embarcações.
Quando se discute o papel da Amazônia e a sua relevância para a regulação do clima global, não é incomum que as atenções se voltem para a floresta continental. Porém, quando se detém a mais longa área contínua de manguezal do mundo, não se pode ignorar o papel fundamental que a região costeira amazônica e as áreas de mangue possuem no contexto das discussões climáticas.
O oceanógrafo, doutor em Geologia Costeira e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Nils Edvin Asp Neto, lembra que na natureza não existe essa divisão rígida entre o que é a área continental e o que é a região marinha. Pelo contrário, o que se vê é uma transição em que tudo está interligado, fazendo com que aquilo que ocorre na Floresta Amazônica, por exemplo, impacte também o ambiente costeiro marinho adjacente.
“O rio Amazonas é disparado o maior rio do mundo e carrega, além de uma quantidade absurda de água, uma quantidade absurda de sedimentos, nutrientes, incluindo o carbono orgânico que vai para o ambiente marinho e que, em grande parte, é retido e distribuído nos manguezais. Então, de qualquer forma, a parte continental e a parte marinha estão muito conectadas, mais do que a maioria das pessoas percebe”, afirma o professor.
O próprio gigantismo que caracteriza não apenas a região amazônica como um todo, mas o próprio rio Amazonas, dá a dimensão do papel do bioma para a questão climática. Maior rio do mundo, o Amazonas pode representar até 20% da água doce que é descarregada no oceano. Junto com essa quantidade de água, são levados matéria orgânica dissolvida e sedimento inorgânico particulado.
“O manguezal é um grande sequestrador de carbono, inclusive, retendo parte da matéria orgânica (o carbono) e também do sedimento inorgânico que o Amazonas está jogando no mar. E o manguezal tem uma taxa de retenção de carbono por área que é de duas a quatro vezes maior do que a floresta continental amazônica. Então, o mangue é muito mais eficiente em reter carbono, por exemplo”, exemplifica Nils.
Mangue é o berçário da biodiversidade marinha
No caso específico da região amazônica, a combinação da existência do manguezal com o rio Amazonas possibilita que esse carbono excedente chegue até o ambiente costeiro marinho, condição em que o mangue, em associação à floresta, ajuda a reter essa matéria orgânica e esses nutrientes.
“Além desse papel, que é importante para o clima, o mangue tem o papel de berçário, de grande elo dessa biodiversidade marinha costeira. Então, a nossa região é uma região pesqueira muito importante, mas, se não fosse essa combinação do rio Amazonas, do manguezal e de recifes mesofóticos que ocorrem na parte mais externa da margem continental, não haveria essa produtividade. É uma combinação de fatores e, se uma parte desse sistema não funcionar, o sistema inteiro pode colapsar”, considera o professor Nils Asp.
Diante da importância e da complexidade do sistema, deve-se considerar que qualquer ação ou utilização dessa área e dos seus recursos, inclusive os pesqueiros, precisa ser muito bem planejada e discutida. Um aspecto positivo destacado pelo oceanógrafo é que a costa de manguezais, existente no litoral entre os estados do Maranhão e do Pará, apresenta um bom status de proteção em decorrência das Reservas Extrativistas (Resex), pois as comunidades tradicionais que nelas habitam colaboram significativamente para a sua preservação. Mas há que se considerar que riscos podem surgir, já que, como se trata de um sistema interligado, eles podem afetar externamente essa área que estaria protegida.
Entre os eventuais impactos que estão em pauta, está a possibilidade de exploração de petróleo na região da bacia da foz do Amazonas. Para o professor Nils Edvin Asp Neto, a grande questão está no fato de ainda não se ter uma compreensão clara do possível impacto que poderia ser ocasionado, caso houvesse algum acidente durante a exploração do recurso, por exemplo.
“Isso tem sido uma discussão longa e complexa, mas o problema atual é que as instituições carecem de financiamento para se estudar isso de maneira independente, sem considerar os interesses de empresas de óleo e gás, tampouco os de ambientalistas, por exemplo. Outro detalhe – que não é pequeno, mas que precisa ser discutido – é a falta de conhecimento da região. Estamos falando de milhares de quilômetros de manguezal, de uma pluma do rio Amazonas da ordem de 1 milhão de km², de milhares de quilômetros de ocorrência de recifes mesofóticos. Até hoje essa área não é claramente mapeada e realmente conhecida cientificamente”, alerta o oceanógrafo.
Ainda é difícil prever consequências em caso de acidente
Diante desse cenário, Nils Asp considera difícil discutir os impactos de um eventual acidente com a exploração de óleo e gás, porque o nível de conhecimento da região hoje não permite dimensionar o tamanho desse impacto ou garantir que o óleo não chegará até a costa, por exemplo.
Considerando, ainda, outros aspectos da discussão, Nils Asp avalia que também não se pode ignorar a necessidade urgente de se reduzirem o uso de combustíveis fósseis e as emissões de carbono, ao mesmo tempo que há uma discussão socioeconômica por trás do tema. “Essa discussão é mais profunda porque não é só como um eventual acidente poderia afetar a região, mas como a abertura de uma nova fronteira de óleo e gás atrasaria uma transição energética que é urgente”, avalia. “E também existe a discussão econômica. Muitas vezes, a preservação e a conservação dessas áreas têm um custo socioeconômico. Precisamos avançar nas políticas e nos mecanismos de compensação financeira em relação a isso”, afirma.
Para o professor, esta é uma discussão central, pois, dentro do modelo econômico vigente, a exploração de um recurso mineral importante como o petróleo traria recursos financeiros para o país e, especialmente, para a região amazônica.
“Nós somos pressionados internacionalmente para não abrir essa nova fronteira de exploração de óleo e gás, mas quem vai compensar financeiramente a região pela não utilização desse recurso? Esse debate precisa evoluir. Hoje os mecanismos de compensação de crédito de carbono ainda são precários. Esse ponto vai emergir durante a SBPC e, principalmente, na COP 30”, considera Nils Asp.
“Essa discussão climática precisa ocorrer e resultar em ações efetivas, até porque, se o sistema da foz do Amazonas colapsar, causará um impacto no clima global”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 171, escrito por Cíntia Magno
Com potencial para baratear e simplificar edificações sustentáveis, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) estão testando um protótipo de habitação feita com peças modulares de madeira em formato ogival, inspirado nas ocas indígenas. Uma apresentação do modelo foi realizada no dia 8 de julho, em frente ao Centro Olímpico de Treinamento.
O formato ogival foi desenvolvido pelo grupo de pesquisa ‘Tecnoindia’, a partir de estudos sobre habitações tradicionais indígenas. Este desenho foi utilizado de forma comercial em concreto e aço, como no caso do Centro Sebrae de Sustentabilidade, em Cuiabá, mas a sua construção a partir de módulos de madeira “pré moldados” representa uma nova etapa da pesquisa.
“São módulos feitos em tábuas de 2,5m por 30cm, cortadas já para criar o formato de ogiva e com os furos feitos para instalação de parafusos e travamentos necessários, permitindo construir com facilidade. Já fizemos a prova de carga, então agora vamos trabalhar com os tipos de cobertura e fechamento, mas o principal, que é a estrutura, já está funcionando”, explica um dos responsáveis pelo projeto, professor José Afonso Portocarrero.
Modelo em escala, feito de plástico. Foto: William Gomes
Para o pesquisador, além da possibilidade de uma construção sustentável de fácil utilização, incluindo a possibilidade de ser utilizada como habitações de emergência, a tecnologia representa uma valorização do conhecimento indígena. “Estamos avaliando os custos ainda, mas a princípio está ficando em um valor bem acessível”, completou.
O reitor da UFMT, professor Evandro Soares da Silva, que acompanhou a demonstração, parabenizou a conquista dos responsáveis, incluindo o professor Roberto Dalmázio.
“Essa é mais uma pesquisa da UFMT que atende diretamente uma demanda social, buscando uma solução para que a universidade possa cumprir seu papel como catalisadora do desenvolvimento social”, afirmou.
Sobre os próximos passos para que a tecnologia se torne acessível fora da Academia, o diretor do Escritório de Inovação Tecnológica (EIT), professor Raoni Teixeira, explica que ainda são necessários testes e interesse do setor produtivo.
“O trabalho do EIT é fazer a ponte entre os pesquisadores e o setor produtivo, dando o suporte necessário para a transferência de tecnologia. Neste caso, ainda precisamos entender qual será o melhor material, resolver as características de engenharia, e em seguida avançar na questão de custos, para demonstrar como isso pode ser valioso para a população”, concluiu.
A pesquisa tem apoio do Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (Cipem), que, para o protótipo, forneceu a madeira e o corte de precisão das tábuas.
Após passar por enchentes e ultrapassar 17 metros em fevereiro deste ano, o Rio Acre chegou à segunda maior seca da história no município de Xapuri, no interior do Acre. No dia 4 de julho, o nível estava em 1,44 metro, segundo o Corpo de Bombeiros da cidade, que integra o apoio à Defesa Civil estadual na região.
Com a marca, o nível está a 26 centímetros do pior índice já registrado, quando o Rio Acre chegou a 1,18 metro em 31 de julho de 2018. No dia 1 de julho, o município já havia alcançado a segunda menor marca, com 1,49 metro, nível superado nesta quarta.
O comandante dos bombeiros em Xapuri, capitão Ocimar Farias, ressalta que a tendência é de que os níveis sigam baixos, já que os volumes de chuva também são críticos e ainda restam vários meses de verão.
“A tendência é que sim, é uma estiagem prolongada. A gente está no começo do nosso verão. Ainda estamos no começo e os rios já estão com essa cota muito baixa”, afirmou.
O coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Carlos Batista, ressaltou que a situação é preocupante não só no Rio Acre, mas em vários trechos.
O Acre decretou, no dia 11 de junho, emergência ambiental por causa da redução da quantidade de chuvas e riscos de incêndios florestais. O decreto de nº 11.492 foi publicado no Diário Oficial do Estado (DOE) e é válido para os 22 municípios acreanos.
“O Rio Acre vem atingindo cotas históricas mínimas, não só em Xapuri, mas ao longo de toda a sua extensão. Em Rio Branco, por exemplo, a cota de 1,81 metros é a menor registrada para o mês de junho, em 53 anos de medições. Essa situação extrema não se limita ao Rio Acre; o Rio Iaco, em Sena Madureira, também apresenta níveis historicamente baixos, com 94 cm hoje, abaixo de um metro nos últimos três dias, indicando cotas mínimas históricas para junho”, explicou.
Situação na capital
O acumulado de chuvas em Rio Branco durante todo mês de junho não passou de 21,1 milímetros. O número representa apenas 34% do total esperado, que era 62 milímetros. A informação foi divulgada pela Defesa Civil Municipal no dia 1° de julho.
Sem chuvas, o nível do Rio Acre na capital marcou 1,78 metro no dia 2 de julho. Ainda segundo o órgão municipal, choveu apenas três vezes na capital acreana durante junho: no dia 21, 26 e 30. O Rio Acre perdeu 85 centímetros de lâmina d’água durante o período.
A Defesa Civil de Rio Branco destacou também que a chuva mais significativa foi no dia 26, quando choveu 19,2 milímetros.
No dia 28 de junho, o prefeito Tião Bocalom assinou um decreto de emergência em razão do baixo nível do Rio Acre e da falta de chuvas na capital. O documento com as medidas, no entanto, ainda não foi publicado no Diário Oficial do Estado (DOE).
Segundo o gestor municipal, são atendidas 32 comunidades com abastecimento de água durante este período de seca. O abastecimento nessas comunidades rurais, que geralmente inicia em julho, teve início no dia 17 de junho.
“Este ano nós começamos a atender no mês de junho, em função de que começou a faltar água muito mais cedo. Agora não são mais de dez comunidades, são 32 comunidades que a gente está atendendo”, disse.
Na ocasião, o coordenador da Defesa Civil municipal, tenente-coronel José Glácio, disse que a coordenadoria está atuando para atenuar os efeitos da seca antecipada. Há, pelo menos, 14 caminhões com capacidade de 6 mil a 18 mil litros de água abastecendo as 32 comunidades.
“A comunidade urbana tem o costume de usar a água de maneira indevida, lavando calçadas, lavando carros, abastecimentos de piscina, trocando a água sem necessidade, então nós temos que ter esse cuidado, porque a seca promete ser mais rigorosa do que o ano de 2016, que foi o ano que foi registrado a maior seca aqui de Rio Branco”, frisou.
Contingência
O governo do Acre montou um gabinete de crise para discutir e tomar as devidas medidas com redução dos índices de chuvas e dos cursos hídricos, bem como do risco de incêndios florestais. O decreto com a criação deste grupo foi publicado no dia 26 de junho, em edição do Diário Oficial do Estado (DOE), e fica em vigência até dia 31 de dezembro deste ano.
Emergência climática
O estado também decretou emergência, no dia 11 de junho, com validade até o fim deste ano. O decreto aponta para o baixo índice de chuvas para o período, aumento das temperaturas e queda nos percentuais de umidade relativa do ar, além do alerta para possível desabastecimento.
A situação alerta para uma possível seca antecipada, já que no ano passado, o decreto de emergência foi publicado em outubro.
O coordenador estadual da Defesa Civil, coronel Carlos Batista, disse que o Rio Acre, principal afluente do estado, estava com uma média de vazante de 5 centímetros por dia, e que há chances de ocorrer chuvas. No entanto, são rápidas e passageiras, o que pode contribuir para que cotas mais baixas sejam registradas também neste mês de julho.
“Tem uma previsão de temperaturas mais altas durante esse período, então o somatório disso tudo é a vegetação mais seca e aí vem uma maior probabilidade de incidência de incêndios florestais. Quando se deflagra o incêndio florestal, a tendência é de se propagar com maior rapidez. Temos redução dos mananciais e com essa redução dificulta um pouco a captação de água. Então, há todo esse problema na agricultura, na pesca”, complementou.
Rio Acre marcou 1.40 metro em 2023 em Rio Branco. Foto: Ana Paula Xavier/Arquivo Rede Amazônica Acre
Ainda segundo Batista, um plano estadual de contingenciamento foi elaborado para este período de seca. “Toda a estrutura da Defesa Civil Estadual, todo o sistema estadual do órgão está de prontidão. Já temos o nosso plano de contingência elaborado, anexo a esse plano, o plano das 22 coordenadorias municipais de Defesa Civil para o enfrentamento dessas ações”, concluiu.
Seca antecipada
Pouco mais de dois meses após o Rio Acre, em Rio Branco (AC), alcançar a segunda maior cota histórica e atingir mais de 70 mil pessoas com uma enchente devastadora, o manancial começou a ficar abaixo dos 4 metros.
A situação alerta para a possibilidade de um período de seca que, segundo especialistas, pode se antecipar e se tornar cada vez mais frequente em um menor espaço de tempo.
É preciso entender ainda que as chuvas na região precisam estar dentro da normalidade para o rio poder correr normalmente, o que não está sendo o caso do Rio Acre.
O ano em que o manancial apresentou a menor marca histórica foi em setembro de 2022, quando marcou 1,25 metro. Naquele ano, o rio já estava abaixo dos quatro metros no mês de maio.
O mesmo quadro foi observado em 2016, ano com a segunda pior seca. Em 17 de setembro, o rio atingiu a menor cota histórica da época: 1,30 metro.
Um projeto desenvolvido entre pesquisadores do Instituto Mamirauá, no Amazonas, e da Universidade Politécnica da Catalunha, na Espanha, quer monitorar a biodiversidade amazônica com auxílio de Inteligência Artificial (IA). A iniciativa é uma das finalistas da premiação internacional XPRIZE Rainforest Florestas Tropicais.
Batizado de ‘Providence’, ou Sistema de Monitoramento da Biodiversidade e Vigilância Territorial da Amazônia, o projeto é uma solução tecnológica de monitoramento da biodiversidade baseada em sensores com inteligência artificial.
Por meio de drones, a biodiversidade da Amazônia e de outros biomas pode ser monitorada em um nível inédito de velocidade.
Além de identificar espécies em tempo real e enviar dados remotamente, o sistema garante agilidade na obtenção de informações e auxilia na fiscalização e manutenção da conservação da floresta.
A tecnologia vem sendo desenvolvida há mais de uma década, revela o diretor técnico-científico do Instituto Mamirauá, Emiliano Ramalho. Ele conta que o projeto já demonstra resultados positivos em uma parte do território amazônico, hoje sendo a primeira área protegida do planeta totalmente monitorada por inteligência artificial.
“Hoje, já conseguimos monitorar inteiramente a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá em tempo real através dessa tecnologia”, diz Emiliano, destacando que um dos objetivos também é ampliar o uso da tecnologia para toda a Amazônia e, posteriormente, em outros biomas.
O prêmio
O XPRIZE Rainforest surgiu em 2019 com o objetivo de reunir especialistas de diferentes áreas para desafiá-los a usar novas tecnologias voltadas a acelerar o monitoramento da biodiversidade tropical.
Este ano, seis finalistas foram selecionados para a disputa pelo prêmio de quase R$ 55 milhões. Na fase final, que ocorre ao longo do mês de julho, os projetos serão testados em comunidades do interior do Amazonas.
Após a etapa final de testes, o resultado do XPRIZE deve ser divulgado somente em agosto. Para Emiliano Ramalho, a premiação será fundamental para implantar a tecnologia em todo o Brasil.
“A ideia, caso a gente vença, é aplicar esse investimento em prol do desenvolvimento da tecnologia para colocá-la para funcionar em outras áreas da Amazônia, implementando ainda o sistema como uma ferramenta nacional de monitoramento que hoje não temos para acompanharmos a biodiversidade e o meio ambiente e auxiliarmos na fiscalização”, conclui.
Encontro em Manaus
Cientistas do mundo inteiro se reuniram em Manaus, na quinta-feira (4), para desenvolver e apresentar tecnologias voltadas para mapear o ecossistema de florestas tropicais durante o XPRIZE Rainforest.
A primeira fase do evento, que foi a apresentação dos projetos, aconteceu em um hotel no Centro da capital amazonense.
Durante a mesa redonda ‘A Amazônia entre o extrativismo primitivista e desenvolvimentismo igualmente predatório: em busca de uma alternativa sustentável e inclusiva’, na 76ª Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os pesquisadores debateram sobre quais modelos de desenvolvimento tem sido pensados e trabalhados para a Amazônia em meio às lutas contra os processos exploratórios desenvolvidos na região.
“Hoje nós temos em torno de 25% da Amazônia devastada e já sofremos as consequências dessa devastação, com desastres severos para as populações originárias e consequências severas para os biomas brasileiros, principalmente”, analisou a doutora em Ecologia e coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do Museu Goeldi, Marlúcia Martins.
Além das ameaças impostas pelo desmatamento e a devastação causadas pelas ações humanas no bioma, Marlúcia considera importante entender a Amazônia também como uma região rica em conhecimentos tradicionais, diversidade e capacidade de adaptação e resistência.
Pesquisadores discutem os processos exploratórios e alternativas sustentáveis para o desenvolvimento da Amazônia. Foto: Reprodução/Museu Goeldi
“Não existe hoje na Amazônia a possibilidade de se ignorar os pontos de resistência a processos exógenos de desenvolvimento. A Amazônia produz conhecimento, produz filosofia sobre compreensão do que é a floresta, produz biodiversidade e estabilidade climática. Então, é interessante olhar nesse processo não apenas aquilo que nos ameaça enquanto Amazônia, mas aquele potencial que a Amazônia tem não só de resistir mas também de se readequar às conjunturas”, afirmou Marlucia.
Roberto Luiz do Carmo, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/UNICAMP), pontuou que o processo de ocupação do espaço do Brasil está associado à dinâmica secular de exploração das fronteiras litorâneas em direção ao interior, destacando alguns ciclos exploratórios, como o do pau brasil, o ciclo de mineração e, mais recentemente, a expansão da produção de soja, principalmente no Cerrado.
Do Carmo ressaltou como a perspectiva de desenvolvimento sustentável se tornou alvo de contestações, sobretudo por parte de segmentos políticos.
“Dentro dessa perspectiva ultraliberal e conservadora, a ideia de preservar os ecossistemas acaba sendo colocada como problema para o desenvolvimento. Ou seja, toda a ideia do desenvolvimento sustentável acaba sendo contestada de maneira até agressiva, fazendo com que a gente se depare com situações nas quais fica difícil se imaginar como será o futuro”, concluiu Roberto do Carmo.
Aumentar a produtividade na criação de tambaquis em até seis vezes, em comparação com os atuais modelos de piscicultura, e ao mesmo tempo, alavancar a produção de alimentos no Amazonas de modo sustentável e ambientalmente responsável, reduzindo custos, consumo de água e sem a necessidade de derrubar nenhuma árvore.
Estes são os objetivos da pesquisa inovadora realizada pela Universidade Nilton Lins, por meio de seu Programa de Pós-Graduação em Aquicultura, e que esta semana inaugurou sua unidade experimental no campus da instituição no Parque das Laranjeiras, zona Centro-sul de Manaus, visando o desenvolvimento de um sistema integrado e simultâneo para criação de peixes e hortaliças em um único ambiente aquático.
Coordenado pelos professores Lucas Pedro Gonçalves Junior e Juliana Tomomi Kojima, do curso de Mestrado e Doutorado em Aquicultura da Universidade Nilton Lins/INPA, a pesquisa é voltada especialmente para pequenos produtores e agricultores familiares do estado e na unidade serão testados e avaliados diferentes modelos de produção visando adaptar-se à realidade amazônica.
“Nosso desafio neste primeiro momento é desenvolver, na prática, um ambiente ideal elaborado nos estudos teóricos, que seja propício tanto para os peixes quanto para as plantas. Dessa forma, esperamos melhorar a produtividade pela qualidade da água dentro do sistema alternativo de aquaponia e permitir que os pequenos produtores tenham duas fontes de renda”, destacou Lucas.
Fotos: Divulgação
Na etapa inicial dos trabalhos em campo, a hortaliça escolhida foi a alface mas nos próximos meses, a proposta é expandir a pesquisa para incluir o jambu, manjericão e outras plantas de interesse comercial regional.
Sustentabilidade
Além das vantagens econômicas, o desenvolvimento de um sistema integrado de produção aplicado na agricultura familiar, permitirá o aumento da produtividade sem a necessidade de desmatar novas áreas e ainda reduzirá o consumo de água em comparação aos modelos atuais.
“É totalmente sustentável e respeita o meio ambiente da região. Nesta unidade experimental, contamos com 16 tanques, mas os produtores poderão usar viveiros de até 50m³. A piscicultura tradicional produz cerca de 1 kg de tambaqui por m³, enquanto com este sistema estimamos chegar a 6 Kg”, explicou Lucas.
A pesquisa teórica teve início em maio de 2023 e todo o trabalho está previsto para ser concluído em maio de 2025. Além dos experimentos, o local também servirá para a realização de cursos, contribuindo para a disseminação do conhecimento e capacitação dos produtores locais. O projeto conta com apoio da Fapeam pelo Programa de Apoio à Fixação de Jovens Doutores no Brasil.
Terezinha de Jesus: simplicidade e poesia. Foto: Júlio Olivar
Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com
“No meio do caminho havia uma pedra” – versos imortalizados por Carlos Drummond de Andrade. As pedras que dona Terezinha de Jesus encontra pelo caminho, ela transforma em obras de arte no estilo naïf, uma expressão surgida na França no século XIX que significa “ingênuo”. Essa forma de arte é popular e não acadêmica.
Aos 77 anos, Terezinha pinta desde os 14 e, recentemente, passou a utilizar pedras como suporte para suas pinturas feitas com tinta plástica e verniz. São muitas as paisagens típicas da Amazônia que a inspiram.
Nascida às margens do Rio Solimões, no estado do Amazonas, Terezinha se considera porto-velhense de coração, pois vive na região desde a infância. Atualmente, ela expõe seus trabalhos na Casa de Cultura Ivan Marrocos.
“Foi no quintal desta casa que encontrei as pedras que foram as primeiras que pintei. Não tinha a intenção de comercializá-las como obras de arte; era apenas para decorar o jardim aqui mesmo. Mas os funcionários do espaço me incentivaram”, conta dona Terezinha.
Durante toda a vida, Terezinha foi cabeleireira e criou quatro filhos, enfrentando as adversidades. Filha de seringueiro, teve que trabalhar desde cedo. A pintura era seu hobby. “Muitas vezes tive que parar com tudo, pois já cheguei a sustentar muitas pessoas que dependiam de mim. Mas o pincel sempre ficava ali, no cantinho, pronto para ser usado. Agora, dedico-me exclusivamente à pintura”, revela.
A natureza sempre presente nas pinturas. Foto: Júlio OlivarFoto: Júlio OlivarFoto: Júlio OlivarFoto: Júlio Olivar
Sobrinha de Afonso, o pioneiro
Terezinha é sobrinha de Afonso Ligório, um artista que faleceu há cerca de 45 anos. Embora seu nome não seja tão lembrado atualmente, ele é considerado um expoente das artes plásticas. A galeria da Casa de Cultura, onde Terezinha trabalha, leva seu nome.
Afonso foi um pintor muito requisitado, responsável por imagens sacras presentes até hoje na Catedral do Sagrado Coração de Jesus, em Porto Velho. Suas obras também estão nas paredes do tradicional Bar J. Lima. Além disso, ele era conceituado como santeiro. Uma de suas esculturas mais conhecidas é a de São Dom João Bosco, localizada em Ji-Paraná.
Dona Terezinha guarda com carinho as lembranças de seu tio. “Ele era um homem singular, desapegado de fama e dinheiro. Pintava por amor. Sempre usava seu chapéu e tocava qualquer instrumento musical de ouvido, tendo estudado apenas quatro anos. Além disso, tinha muitas outras habilidades artísticas. Por exemplo, adorava imitar pessoas, e fazia isso com mais perfeição do que os humoristas da TV”, orgulha-se.
Afonso faleceu aos 47 anos em 1980, vivendo com dificuldades financeiras. Muitas vezes, nem mesmo dispunha de um pincel adequado, utilizando capim e tinta de parede para suas pinturas. Sua obra-prima, intitulada “Ostentório”, faz parte da pinacoteca do Estado e está sob a responsabilidade da Casa de Cultura Ivan Marrocos.
Terezinha está a poucos passos dessa pintura deixada pelo tio. De segunda a sexta lá está ela, com suas pedras, telas e garrafas de vidro repletas de vida amazônica. “Ele era muito talentoso no que fazia, mas enfrentou muitas dificuldades. Foi vítima de câncer. Meu tio deixou seu legado nas artes, inclusive o meu prazer de pintar que ele me ensinou”, conclui.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
No coração do Centro de Boa Vista, um local guarda parte da história de Roraima e saiu da “quase morte” para se tornar o lar dos Imortais. Esquecida e abandonada por mais de uma década e meia, a Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller foi reinaugurada após restauração que mantém características originais do prédio – datado da década de 40. Agora, o espaço é a nova sede da Academia Roraimense de Letras (ARL).
Construído no ano de 1940, há 84 anos, pelo comerciante Milton Negreiros de Miranda, o casarão de dois pisos foi totalmente recuperado para ser reaberto à população.
A restauração aproveitou ao máximo os elementos da estrutura original, como os ladrilhos importados de Portugal no século passado. Em vermelho e branco na varanda, e em tons de azul e cinza nas salas, aqueles que não puderam ser preservados foram substituídos por réplicas idênticas.
Ladrilhos da varanda e do interior da Casa importados da região da Luzitânia, em Portugal, foram restaurados. Foto: Reprodução/Acervo g1 RR
Antes das obras, o que se via no local eram as ruínas de um prédio sem vida, espremido entre o Centro Comercial Caxambú e as lojas da Jaime Brasil. Agora, a imponência do casarão somado à beleza do jardim, que promove uma verdadeira volta no tempo ao século passado, se destacam em meio à paisagem urbana.
Tombada como patrimônio histórico de Roraima pelo pelo Governo do Estado na gestão de Ottomar de Souza Pinto, a Casa da Cultura é considerada um espaço com importância histórica no estado.
Lá, há relíquias guardadas por décadas, como cédulas de cruzeiros da década de 1940, utensílios de escritório, mobiliário e até documentos antigos.
Ainda com os últimos ajustes a serem feitos a área de mais de 400m² também contempla um elevador, áreas de exposição, banheiros e vestiários masculinos, femininos e para Pessoa com Deficiência e deve receber uma cafeteria ao lado do jardim.
Itens de escritório do século passado, preservados em memorial da Casa de Cultura. Foto: João Gabriel Leitão/g1 RR
Além dos vários cômodos, dentro da casa há uma escadaria feita em madeira freijó – uma das mais valorizadas em construção, que também teve a estrutura da década de 1940 preservada.
No andar de cima o piso é de madeira, e conta com quartos e duas sacadas, uma com vista para o jardim e outra para a área comercial das Avenidas Jaime Brasil e Sebastião Diniz, uma das mais movimentadas na capital.
Adquirida pelo governo do então Território, implementado no ano de 1943, a primeira reforma da casa custou Cr$ 89 mil (cruzeiros) para receber o governador Félix Valóis, morador do local de março de 1946 a julho de 1948.
Por décadas, o prédio foi residência oficial dos governadores do Território Federal do Rio Branco, 16 deles no total.
Após a construção do Palácio Senador Hélio Campos, onde atualmente é a sede do governo, a casa passou a ser usada como sede de repartições públicas. O último governador a morar no local foi o próprio Tenente Coronel Hélio da Costa Campos, de abril de 1967 a 1969.
Casa da Cultura na década de 1940. Foto: Fotógrafo anônimo/Acervo de Maurício ZoueinCasa da Cultura em 2024 após restauração. Foto: João Gabriel Leitão/g1 RR
Reinaugurada em 2001 para receber eventos culturais, a Casa da Cultura foi fechada novamente em 2010 por falta de manutenção e respeito à coisa pública e ficou abandonada desde então. A partir daí, a ARL tentou adquirir o prédio para ser a sede.
A ordem de serviço para a restauração foi assinada no dia 21 de dezembro de 2023, 29 anos depois do tombamento do local como patrimônio histórico. A obra durou seis meses e foi executada pela Secretaria de Infraestrutura (Seinf).
Espaço vai promover eventos culturais
A Casa foi reinaugurada no dia 23 de junho e se prepara para receber, além das reuniões da ARL, eventos culturais de todos os seguimentos, segundo a presidente da instituição e guardiã da História de Roraima, Cecy Lya Brasil, de 76 anos.
“A importância desse espaço é para que todos os fazedores de cultura tenham acesso e possibilidade de usufruir. Com certeza nós faremos parcerias com Universidades locais, com secretarias e instituições. Foi um ganho muitíssimo importante não só para academia, mas para a sociedade é cultural roraimense”, disse a presidente.
“No meu pensamento, será um dos cartões postais mais bonitos da cidade, se não for mais bonito. Eu ‘caduco’ muito com isso porque a minha luta foi muito grande ao longo dos anos solicitando esse prédio para Academia”.
O prédio leva o nome da Madre Leótavia Zoller devido à dedicação da freira da Irmandadade da Consolata à educação, música e artes plásticas ao longo de três décadas. Segundo Cecy Brasil, essa pluralidade cultural é refletida dentro da Academia Roraimense de Letras, que pretende transformar a nova casa em “um espaço para a cultura da nossa gente”.
“A nossa academia é eclética. Além das Letras e da literatura ela é também das Artes e abrange todos os segmentos da cultura. Entre os 33 confrades e confreiras temos membros que representam desde a cultura popular, ao teatro e à música. A casa estará aberta para acolher qualquer projeto cultural indistintamente”, frisou.
Memoriais
A “nova” Casa da Cultura tem ainda memoriais dedicados a personalidades ligadas à história do local. Acompanhados de textos escritos por Cecy Brasil, os espaços contam sobre a vida de pessoas como o primeiro dono da casa, Milton Negreiros de Miranda, a Madre Leotávia Zoller, que dá nome ao lugar, e ao patrono da Academia Roraimense de Letras: o professor Diomedes Souto Maior.
Outros espaços expõem objetos originais do século passado. Neste, dedicado às memórias da ARL, estão expostas cadeiras originais da época da fundação da instituição, acompanhados pelos retratos dos imortais da Casa.
*Por João Gabriel Leitão, estagiário sob supervisão e edição de Valéria Oliveira, do g1 RR
Não é uma questão de polícia. Promessas de ações ostensivas vêm se esvaziando com o tempo face à inépcia das ações dos órgãos responsáveis pela proteção do meio ambiente nos mais importantes biomas brasileiros. Pantanal, desde junho, e de julho em diante a Amazônia, haverão de registrar taxas recordes de incêndios. Há de se questionar: quais as ações específicas em curso de tantos ministérios criados para cuidar da gente e da nossa biodiversidade? Ministérios há, e muitos: Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Integração e Desenvolvimento Regional, das Cidades, Agricultura e Pecuária, Meio Ambiente e Mudança do Clima, Igualdade Racial, Pesca e Aquicultura, dentre outros dotados de funções mais abrangentes. O que se observa de concreto, contudo, é uma tempestade de promessas populistas e ineficazes desvinculadas da realidade local.
Especialistas atribuem o fenômeno a recorrentes falhas de prevenção de queimadas do governo federal, que já havia sido alvo de críticas em 2023 por causa do avanço de severos incêndios lá e cá na Amazônia. O planejamento do Ministério do Meio Ambiente é completamente, além de deslocado de suas características autóctones, agravado por histórica insuficiência de recursos humanos nos órgãos responsáveis pelo zelo do meio ambiente. Anúncio da Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) dá conta de que servidores federais do setor (Ibama, ICMBio, Serviço Florestal Brasileiro e do próprio MMA) encontram-se em estado de greve desde junho passado. Em tais circunstância, sem planejamento e sem pessoal como efetiva e eficazmente cuidar dessas joias geopolíticas e do conjunto dos ecossistemas dessas regiões?
Estudos da internacionalmente respeitada Nature Conservancy observam que “além de nos fornecer água e alimentos necessários para a nossa sobrevivência, o meio ambiente também é a fonte de matéria-prima para todas as atividades econômicas. Por isso, alterações no clima ou impactos ambientais afetam diretamente a disponibilidade e o preço dos mais variados produtos, e também os rendimentos de toda a cadeia de produção, típicos da agropecuária, totalmente dependente do clima e, por isso, sensível às mudanças climáticas”. Em 2023, o Brasil ficou em quarto lugar na lista de países que tiveram as maiores perdas econômicas associadas a eventos climáticos extremos. A Nature salienta que “93% dos municípios brasileiros registraram episódios de calamidade pública e só com reconstrução de habitações destruídas já foram gastos mais de US$ 5 bilhões nos últimos dez anos”.
Editorial do Estado de S. Paulo questiona que, entre as muitas lições deixadas pelas tragédias sem precedentes provocadas pelas queimadas, a pior estiagem da história ocorrida na Amazônia e as inundações do RGS, “uma tem tudo a ver com a natureza da gestão pública, em qualquer área: não basta apenas dinheiro para reagir a um desastre, é preciso que gestores públicos tenham capacidade de estruturar e apresentar projetos aptos a receberem os recursos”. Não basta fazer planos, é preciso implementar suas diretrizes e ter capacidade de avaliar e atualizá-los em tempo hábil. Na realidade, afirma o editorial, “tanto o Pantanal quanto a Amazônia continuam sendo um grande desafio para sucessivos governos brasileiros, que têm-se mostrado incompetentes de equacionar soluções eficazes”.
Efetivamente, ambos os biomas só estarão plenamente protegidos com o desenvolvimento. Os desafios são gigantescos. Não basta prender e confiscar propriedades, rebanhos e balsas de mineração; avulta, do atual quadro socioeconômico da região, a necessidade de definir políticas públicas e marcos regulatórios (ZEE, regularização fundiária, pesquisa e desenvolvimento) orientadoras de atividades preconizadas, todas, desde que regulamentadas, e exercidas sustentavelmente, do maior interesse para o crescimento econômico do país.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).