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Festribal, o festival que celebra a diversidade dos povos indígenas no Amazonas

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Foto: Marlon Albuquerque/Amazonastur

Considerado a maior manifestação cultural dos povos originários da floresta, o Festival Cultural dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro (Festribal) recebe milhares de interessados em conhecer as lendas e tradições da festividade amazônica, no município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), no Amazonas.

O evento, criado em 1998, exalta a diversidade étnica indígena dos povos pertencentes à região, conhecida como “Cabeça do Cachorro”.

O presidente também destacou que o Festribal esteve entre os roteiros turísticos apresentados pelo Amazonastur no Salão Nacional do Turismo, promovido pelo Ministério do Turismo (Mtur), que ocorreu no início de agosto, no Rio de Janeiro.

“O Salão do Turismo é uma oportunidade para mostrar o que o nosso estado tem de melhor a oferecer ao Brasil. Fomentar o turismo e promover as potencialidades e experiências turísticas”, completou.

FotoMarlon Albuquerque/Amazonastur

As Associações Culturais Tribo Tukano, Baré e Filhos do Rio Negro são responsáveis pelo espetáculo da festa mais indígena do país.

Durante os dias da festa, representantes das três associações se vestem com suas cores místicas que retratam a história e a cultura dos povos originários do Noroeste do Amazonas.

Foto: Marlon Albuquerque/Amazonastur

Além das apresentações culturais, o festival traz na programação atrações musicais regionais e nacionais, feira de artesanato e gastronomia. “O Festribal é de suma importância para o município, nesse período a cidade fica em festa recebendo milhares de turistas e movimenta todo o comércio local, gerando emprego e renda para a população”, destaca a diretora de Turismo de São Gabriel da Cachoeira, Elaine Jeane.

São Gabriel da Cachoeira possui identificação de 23 povos que vivem na região. Por toda essa riqueza cultural, a festa representativa mostra a originalidade desses povos, além de evidenciar a criatividade, dança e beleza durante o encontro das etnias no Alto Rio Negro.

Turismo responsável

Para melhor auxiliar os turistas em uma viagem ao município, a Amazonastur orienta os turistas a procurarem estabelecimentos turísticos, tais como: hotéis, traslado, restaurantes e agências de viagem com o selo do Cadastro de Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur).

E alerta a proibição do manuseio de animais silvestres nas atividades turísticas, de acordo com a campanha “Nunca Toque, observe”, segundo o artigo 33 da lei federal 6.154/2008.

*Com informações da Amazonastur

Pesquisadores analisam capacidade de plantas de afastar a maior parte de seus predadores

Foto: Reprodução/UFMT

Sempre ficamos indignados quando os adolescentes de um filme de terror tomam uma decisão horrorosa e invariavelmente se deparam com o vilão-predador-assassino. Impossibilitados de fugir por qualquer motivo, aos adolescentes resta apenas um desfecho trágico. Mas se a protagonista estiver entre eles, então ainda há alguma esperança e podemos ver um grande feito de heroísmo para reverter a situação em um final feliz.

Quase todas as plantas terrestres vivem um filme de terror diário, incapazes de se moverem e rodeadas por milhares de espécies de seus maiores predadores, os insetos. São aproximadamente 500 mil espécies de insetos herbívoros e quase todas as plantas servem de alimento para alguns deles. Ainda assim, elas sobrevivem.

Em artigo publicado recentemente no Journal of Experimental Botany, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), coordenados pelo professor Marcelo Lattarulo Campos, apresentam alguns dos mecanismos que podem justificar isso e apontam para o potencial dessas pesquisas como forma de aumentar a resistência de plantações.

De acordo com a pesquisa, essa resistência se dá em consequência da efetividade do sistema imunológico das plantas, dando para elas a habilidade de manter afastado a maior parte dos predadores, mas não todos, de forma que algumas delas afastam os insetos que conseguem se alimentar de outras, e vice-versa.

Esse seria um desenvolvimento importante, pois a predação desses insetos representa um grande desafio na segurança alimentar do mundo. Dados da própria pesquisa apontam que a produtividade das plantações mais importantes para consumo humano é reduzida em quase 40% por causa de ataques de insetos.

O artigo está disponível para leitura completa na página do periódico. A pesquisa faz parte de um projeto apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

*Com informações da Notícias UFMT

A comunidade indígena da floresta amazônica luta por seu pleno reconhecimento

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Foto: Cleiton Lopes/Secom AC

Antes da chegada dos europeus, as terras baixas da Amazônia abrigavam várias centenas de grupos étnicos que viviam em dezenas de milhares de aldeias com uma população estimada entre quatro e quinze milhões de habitantes. Durante milênios, essas sociedades transformaram as paisagens ao longo do curso principal do rio Amazonas e de seus principais afluentes do sul, desenvolvendo práticas agrícolas que criaram solos de terra escura, uma tecnologia que melhorou as propriedades físicas e químicas dos solos tropicais, aumentou sua produtividade e garantiu seu uso sustentável durante séculos.

Essas sociedades rurais, em sua maioria, não tinham grandes centros urbanos, mas eram suficientemente sofisticadas para domesticar dezenas de espécies de plantas, e manipular populações naturais em florestas nativas, para criar bosques manejados dominados por espécies que forneciam alimentos e fibras. Simultaneamente, as culturas que ocupavam a floresta sazonal e as regiões de savana na borda sul da Amazônia criaram paisagens por meio da construção de lomas artificiais, calçadas e sistemas de canais que melhoraram a produção agrícola e criaram sistemas logísticos que sustentaram populações ainda mais densas.

Tragicamente, todas essas sociedades entraram em colapso nos séculos XV e XVI, quando epidemias causadas por patógenos introduzidos durante o Intercâmbio Colombiano devastaram suas comunidades. Embora a arqueologia ainda não tenha descoberto todos os terríveis detalhes, essas sociedades eram particularmente suscetíveis a pandemias devido à sua densidade populacional relativamente alta e a uma rede de comércio que promovia interações culturais. Acredita-se que a população tenha caído para menos de 400.000 indivíduos em um colapso demográfico de proporções gigantescas.

O número de grupos étnicos que existiam antes da “Great Dying” é desconhecido, mas as populações remanescentes eram bastante isoladas umas das outras, o que deu origem à percepção de longa data de que a floresta amazônica era uma região selvagem intacta. A transição para uma floresta selvagem escassamente povoada proporcionou proteção imunológica aos grupos amplamente dispersos devido ao maior isolamento entre eles e os colonizadores europeus. Nos dois séculos seguintes, a população continuou a diminuir devido às intervenções de missionários e agentes coloniais que reintroduziram patógenos em populações que ainda não haviam adquirido defesas imunológicas.

O “boom” da borracha no final do século XIX levou a outra rodada de dizimação, pois as comunidades indígenas foram escravizadas, deslocadas ou massacradas. A maioria sobreviveu  como entidades étnicas fugindo para o interior da floresta, ocupando paisagens florestais ao longo de afluentes terciários ou vales remotos no sopé dos Andes e nas terras altas da Guiana. Os antropólogos estimam que o Brasil amazônico tinha uma população aproximada de apenas 100.000 indígenas em meados da década de 1970.

O órgão responsável pelo censo brasileiro começou a coletar dados sobre grupos étnicos individuais em 1991 e essa pesquisa inicial sugeriu que seus números haviam aumentado em 50%, uma tendência confirmada pelo censo seguinte, com um aumento adicional de 72% (Tabela 6.1). O aumento refletiu as altas taxas de natalidade e um aumento em sua contagem catalisado pelo emergente movimento indígena.

Não só os indivíduos foram motivados a se identificar como indígenas como também as aldeias mais remotas foram colocadas no mapa pelo Estado brasileiro com a criação de novos territórios indígenas. Se as taxas de crescimento permanecerem as mesmas (cerca de 6% ao ano), o censo de 2022 deverá mostrar uma população indígena total superior a 700.000.

Imagem: Reprodução/Mongabay

Ocorreram repercussões demográficas semelhantes em outros países onde os incentivos para reivindicar uma identidade indígena motivaram as comunidades a afirmar ou recuperar seu patrimônio cultural. Infelizmente, há também forças sociais que fazem com que alguns indivíduos abandonem sua identidade étnica, principalmente em populações urbanas que sofrem discriminação ou animosidade racial. Na Bolívia, por exemplo, os indivíduos geralmente se identificam pela origem regional em vez da origem étnica; ambas são afetadas por um ambiente político altamente polarizado.

A chave para o renascimento demográfico foi a implementação de políticas que priorizam a formalização dos direitos à terra de comunidades com patrimônio étnico específico. As comunidades Ribeirinhas/Ribereñas, com raízes indígenas evidentes, estão cientes das vantagens legais de ter uma identidade étnica. Isso motivou as comunidades de toda a bacia a redescobrir seu legado indígena. A tendência de aumentar a autoidentificação é um processo contínuo ao longo de vários trechos do tronco principal do rio Amazonas, especialmente perto da junção do Marañón e do Ucayali (Kukama, Yagua), do Solimões (Tikuna, Miranha, Kokama, Kambeba/ Omágua), do médio Amazonas (Mura), e perto da foz do Tapajós (Arapium, Borari, Mawé).

A recuperação demográfica das culturas indígenas da Amazônia deve ser avaliada, no entanto, no contexto da população não étnica, que é o produto de 400 anos de migração e da subsequente fusão social causada pela miscigenação.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Timothy J. Killeen com tradução de Lisete Correa

Mel de abelha é fonte de renda para ao menos 200 famílias de apicultores em Roraima

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Produção de mel é considerada uma atividade sustentável à natureza. Foto: Josivan Antelo/Rede Amazônica RR

Ao menos 200 famílias vivem da produção do mel de abelha em Roraima, cenário que tem se expandido nos últimos anos no estado. A previsão é que sejam coletadas cerca de 240 toneladas do alimento doce natural este ano.

Leia também: Mel de abelha: saiba 8 propriedades do alimento

Um dos pioneiros no ramo da apicultura no estado é o produtor rural Waldemar Sartor, de 81 anos, dono de um apiário no município do Cantá, distante cerca de 35 quilômetros da capital Boa Vista.

“Realmente, nós estamos em um índice bastante de produção. Muita gente está interessada em produzir mel porque é uma coisa lucrativa”, diz Sartor. E ele explica porque considera uma atividade com boa renda:

“Você gasta um dia por mês. Você vai lá, colhe, não precisa colocar vigia, não precisa vacinar, não precisa pagar alguém para cuidar. Ela está lá e te dá esse resultado. Daqui um mês, eles vão lá de novo. Vão tirar a mesma quantidade de mel. Então, economicamente, vale a pena”, avalia.

Leia também: Meliponicultura: Entenda o universo das abelhas sem ferrão na Amazônia

E não é apenas Waldemar Sartor que dedica a vida à apicultura. O trabalho se tornou um negócio familiar. Com ele, o filho Eduardo Sartor, de 41 anos, também contribui para o manejo das abelhas para que o resultado seja um mel de qualidade.

Na propriedade da família Sartor, o processo de coleta do mel é feito forma manual. Por isso, a ideia é que antes de investir no setor, seja feito um mapeamento de área. Depois de retirar os favos de mel, o alimento vai para uma cooperativa em Boa Vista onde é feito o beneficiamento – o processo que consiste em transformar o mel in natura em um produto comercial no mercado.

Com as queimadas registradas no início deste ano em Roraima, a estimativa é que a produção de mel seja menor que no ano passado. No entanto, os apicultores têm expectativa de vender para lugares fora do estado.

Para garantir a qualidade, os apicultores contam com orientação técnica, em que são instruídos sobre como melhorar produção, aproveitar os recursos, além do uso de tecnologia.

“Nós estamos trabalhando para poder exportar o nosso mel do nosso estado. Temos um desafio a ser enfrentado que é conseguir o nosso SIF [Serviço de Inspeção Federal], a nossa Casa do Mel tá trabalhando. Estamos tentando conseguir o SIF, que é o que nos autoriza fazer a exportação do mel para outros países, como Alemanha, partes da Europa, e levar esse mel de altíssima qualidade de Roraima para o resto do mundo”, disse o técnico agropecuário Gustavo Vivian, que atua com a família Sartor e com outros apicultores no estado.

Rico em nutrientes, o mel tem uma série de benefícios ao consumo humano, como o seu alto potencial antioxidante e anti-inflamatório, além de ser um inibidor do crescimento de diferentes bactérias, vírus e fungos patogênicos, ou seja, apresenta atividade antimicrobiana, e tem propriedades anticancerígenas.

Por Nylo Monteiro, da Rede Amazônica RR

Extração ilegal de madeira aumentou 19% na Amazônia

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A área com extração ilegal de madeira na Amazônia cresceu 19% em um ano, passando de 106 mil hectares entre agosto de 2021 e julho de 2022 para 126 mil hectares entre agosto de 2022 e julho de 2023. O total equivale à retirada de madeira em 350 campos de futebol por dia sem autorização dos órgãos ambientais. As informações lançadas durante o 8º Fórum de Soluções em Legalidade Florestal – O Futuro das Florestas na Amazônia, foram compiladas pelo Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), a cargo de uma rede de organizações de pesquisa ambiental: ICV, Idesam, Imaflora e Imazon.

As áreas de exploração madeireira foram identificadas e mapeadas por meio de imagens de satélite e contrapostas às autorizações de exploração emitidas pelos órgãos ambientais. O Simex é o principal indicador da atividade madeireira legal e ilegal na região amazônica. Os índices reúnem informações de sete estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima).

No total, a área de florestas nativas explorada para fins madeireiros foi de 366 mil hectares, sendo 65% de forma legalizada. Mato Grosso liderou no quesito extensão de área florestal dedicada à exploração madeireira, com 60%, ou cerca de 200 mil hectares. Em seguida, ficaram Pará e Amazonas – 14%, cada um, na casa dos 50 mil hectares.

Veja o infográfico completo:

Perfil da ilegalidade

A maior parte da extração ilegal (71%) aconteceu em imóveis rurais privados. Ou seja, os principais protagonistas dessa prática criminosa estão identificados em cadastros públicos e são passíveis de responsabilização. Nessa categoria, em torno de 650 imóveis estão envolvidos na extração ilegal, sendo que apenas 20 deles responderam por quase um terço dos ilícitos.

O segundo tipo de território mais afetado pela extração criminosa foram as Terras Indígenas (com 16%), categoria mais atingida entre as áreas protegidas. As TIs Kaxarari e Tenharim Marmelos lideram o ranking e, não por acaso, ambas se situam em zona de influência da BR-319. As TIs são áreas de proteção integral, apenas para utilização indireta dos recursos naturais, com o objetivo de preservar os modos de vida dos povos tradicionais e a biodiversidade. No entanto, viram alvo fácil do crime, que invade esses territórios, promove degradação e ameaça os indígenas.

Ameaça ao mercado e às comunidades

André Vianna, diretor-técnico do Idesam, destaca que a exploração predatória afeta a oferta legal de madeira. “Há uma exposição a situações de risco para os trabalhadores que participam da atividade ilegal aliada a um impacto extremamente negativo para o mercado. O produto ilegal compete com a madeira licenciada, prejudicando todo o setor, tanto pelo achatamento do preço quanto em termos reputacionais, o que dificulta o acesso a mercados que valorizam o produto e pagam mais por ele.”

O cenário se agrava quando associado à constatação de uma queda de 17% na área de exploração autorizada, que passou de 288 mil hectares entre agosto de 2021 e julho de 2022 para 239 mil hectares entre agosto de 2022 e julho de 2023. Para Leonardo Sobral, diretor Florestal do Imaflora, aumentar o manejo florestal responsável é o caminho para combater as ilegalidades na extração madeireira e gerar benefícios para todo o planeta. “Com o acirramento das mudanças climáticas, o manejo florestal é fundamental para reduzir emissões e conservar a floresta em pé enquanto gera renda e desenvolvimento social. A extração ilegal leva à degradação, aumentando riscos de incêndios, perda de biodiversidade e conflitos fundiários.”

Dalton Cardoso, pesquisador do Imazon, destaca que a exploração madeireira realizada a partir de planos de manejo autorizados pelos órgãos ambientais precisa ocorrer de forma sustentável, gerar empregos e pagar impostos. “É muito importante que os governos criem mecanismos para incentivar a atividade legalizada e fiscalizá-la de forma efetiva. O aumento da ilegalidade gera danos ambientais, ameaça povos e comunidades tradicionais e enfraquece o setor madeireiro, além de prejudicar a imagem do país no mercado internacional”, afirma.

Forte queda na produção

A atividade madeireira foi objeto de um segundo mapeamento, também apresentado no 8º Fórum de Soluções. Produzido pela plataforma Timberflow, mantida pelo Imaflora e dirigida a operadores de mercado, esse mapeamento aponta recuo na produção madeireira da Amazônia. Segundo o levantamento, entre janeiro e dezembro de 2023, a extração de produtos madeireiros na região atingiu seu mais baixo patamar desde 2010, passando de uma média de 10 a 12 milhões de metros cúbicos de madeira em tora para 5,8 milhões de metros cúbicos.

Veja o estudo completo:

Baseada em dados oficiais, como o Documento de Origem Florestal (DOF) e a Guia Florestal (GF), que registram origem e transporte de produtos madeireiros da Amazônia, a plataforma acaba de ser redesenhada, com apoio de especialistas da Universidade de São Paulo, para utilizar modelos matemáticos que permitem aos compradores da madeira amazônica dimensionar a probabilidade do risco de ilegalidade em algum elo da sua cadeia de fornecimento.

Várias hipóteses se combinam para explicar a grande queda na produção em 2023. A primeira, apontada inclusive por produtores, é que a demanda caiu e os estoques estão altos no mercado interno, responsável por 92% do consumo. A segunda tem a ver com a imagem da madeira nativa. Poucos entendem que a produção madeireira sustentável é possível (e desejável), e o medo de envolvimento com madeira ilegal alimenta o surgimento gradativo de matérias-primas substitutas e mais baratas. “Um terceiro fator é a falta de uma estratégia para o setor, envolvendo atores públicos e privados. É preciso conectar as iniciativas públicas, como o impulso às concessões, a estratégias de valorização da atividade e de fomento do mercado, ou o futuro da atividade estará fortemente comprometido”, alerta Sobral.

A retração no consumo está presente no mercado interno e externo. E tem como agravante a concentração de 50% da demanda em apenas oito das mais de mil espécies madeireiras que a Amazônia oferece. As campeãs desse ranking são ipê, tauari e maçaranduba – o que prenuncia novos problemas para o setor. É que o ipê e o cumaru foram incluídos no Anexo 2 da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção. Com manejo responsável, elas podem ser exploradas, mas os produtores temem uma reação do mercado semelhante à que ocorreu quando o mogno brasileiro foi incluído nessa lista e simplesmente perdeu toda demanda.

Baseada em dados oficiais, como o Documento de Origem Florestal (DOF) e a Guia Florestal (GF), que registram origem e transporte de produtos madeireiros da Amazônia, a plataforma acaba de ser redesenhada, com apoio de especialistas da Universidade de São Paulo, para utilizar modelos matemáticos que permitem aos compradores da madeira amazônica dimensionar a probabilidade do risco de ilegalidade em algum elo da sua cadeia de fornecimento.

Várias hipóteses se combinam para explicar a grande queda na produção em 2023. A primeira, apontada inclusive por produtores, é que a demanda caiu e os estoques estão altos no mercado interno, responsável por 92% do consumo. A segunda tem a ver com a imagem da madeira nativa. Poucos entendem que a produção madeireira sustentável é possível (e desejável), e o medo de envolvimento com madeira ilegal alimenta o surgimento gradativo de matérias-primas substitutas e mais baratas. “Um terceiro fator é a falta de uma estratégia para o setor, envolvendo atores públicos e privados. É preciso conectar as iniciativas públicas, como o impulso às concessões, a estratégias de valorização da atividade e de fomento do mercado, ou o futuro da atividade estará fortemente comprometido”, alerta Sobral.

A retração no consumo está presente no mercado interno e externo. E tem como agravante a concentração de 50% da demanda em apenas oito das mais de mil espécies madeireiras que a Amazônia oferece. As campeãs desse ranking são ipê, tauari e maçaranduba – o que prenuncia novos problemas para o setor. É que o ipê e o cumaru foram incluídos no Anexo 2 da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagens em Perigo de Extinção. Com manejo responsável, elas podem ser exploradas, mas os produtores temem uma reação do mercado semelhante à que ocorreu quando o mogno brasileiro foi incluído nessa lista e simplesmente perdeu toda demanda.

Virada estratégica

“As pesquisas divulgadas indicam que o mercado de madeiras nativas da Amazônia está diante de desafios importantes. O 8º Fórum de Soluções é um espaço voltado a pensar em como desenvolver e amadurecer estrategicamente a atividade madeireira legal”, afirma Sobral. Ele ressalta que o manejo florestal é uma solução, sobretudo para a região de maior pressão na Amazônia. “As áreas de interior, com floresta conservada e sem pressão para desmatamento, podem encontrar outros caminhos de desenvolvimento econômico e social. O desafio são as regiões florestais sob pressão de desmatamento, na fronteira da atividade ilegal e predatória”, explica.

A busca de conformidade legal, a melhoria na transparência de informações e a rastreabilidade da madeira nativa são parte fundamental de uma estratégia que visa expandir concessões florestais para realização de manejo florestal por empresas e cooperativas, impedindo que a extração ilegal e predatória se instale. “Além dos benefícios diretos que as concessões florestais trazem para as comunidades locais, elas também garantem a origem sustentável da madeira. Por isso, estabelecemos uma meta ambiciosa: expandir as concessões de 1,3 milhão para cerca de 5 milhões de hectares nos próximos anos”, diz Renato Rosenberg, diretor de Concessões Florestais e Monitoramento do Serviço Florestal Brasileiro.

*Com informações da Imazon

Professores de escolas indígenas em Roraima lançam livro sobre a cultura do povo Macuxi

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Foto: Divulgação/IFRR

Histórias, lendas e práticas culturais que fazem parte da vivência do povo Macuxi foram reunidas no livro ‘Ko’Ko Rutî – Vovó Jamanxim’, produzido por 81 professores de escolas municipais das regiões da Raposa Serra do Sol e Baixo Contigo, em Normandia, o 5º município mais indígena do Brasil, no Norte de Roraima.

Formada por uma coletânea de seis histórias – ou pandom, em Macuxi – a obra foi lançada no dia 10 de outubro na Casa de Cultura Jaider Esbell, em Normandia, após um ano de pesquisa e produção. O trabalho surgiu como uma atividade acadêmica do curso Técnico de Magistério Indígena do Instituto Federal de Roraima (IFRR) no Campus Avançado Bonfim.

‘Ko’Ko Rutî – Vovó Jamanxim’ aborda temas importantes para a identidade e a conexão com a natureza. Além disso, é um registro cultural do cotidiano das comunidades nas regiões da Raposa e Baixo Contigo.

Entre as histórias, há os destaques para utensílios tradicionais indígenas, como o jamanxim, um tipo de cesta usada nas costas, a panela de barro e o tipiti, uma prensa em formato cilíndrico feita de cipó.

Compõem o livro as seguintes histórias:

  • Arari, A Lagarta da Maniva;
  • Umîî, A Roça;
  • O’ma’kon Emurukuntî Suminanse, A Festa dos Animais;
  • Maruwa Ye’ku, O Maruwai;
  • Kurakîti Ye, O Caimbé;
  • Oma’ Ne’ka’pî Etarumu Pantoni, A História do Rezo para Acidentes por Animais Venenosos e Peçonhentos.
Professores de escolas indígenas lançam livro em Normandia. Foto: Divulgação/IFRR

Obra bilíngue

O conteúdo do livro é voltado para professores, crianças e jovens matriculados em escolas indígenas de Normandia, por isso, é bilíngue: os textos estão em Macuxi e Português.

Para compor o livro, professores fizeram pesquisas e consultas com as lideranças indígenas da comunidades para registrar as tradições culturais e linguísticas de forma autêntica. O resultado integra o trabalho conjunto entre os autores, estudantes, anciões e colaboradores.

O pró-reitor de Desenvolvimento Institucional do IFRR, Adnelson Jati Batista, acredita que o livro respeita e valoriza a cultura do povo Macuxi.

O trabalho, para ele, é mais do que um simples material escolar, é uma celebração da cultura indígena, uma ferramenta de resistência e uma forma de manter viva a história e a língua do povo Macuxi.

O livro teve o apoio da prefeitura de Normandia e foi publicado pela editora Educitec, uma organização sem fins lucrativos. Os exemplares estão disponíveis nas escolas de Normandia que fazem parte das regiões da Raposa e Baixo Cotingo.

*Por Nalu Cardoso, da Rede Amazônica RR

Conheça 9 curiosidades dos escorpiões; a da espécie amazônica surpreende

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Fotos: José Felipe Batista e Denise Cândido

Os escorpiões não são exatamente bonitos. Eles podem até mesmo causar uma certa repulsa, já que muitas espécies representam um perigo à vida humana por serem venenosos. Mas esses animais também precisam ser respeitados: primeiro, porque eles desempenham um papel importante no equilíbrio ecológico como predadores de outros bichos e, segundo, porque são os aracnídeos mais antigos do planeta Terra. Isso mesmo: os escorpiões habitam nossa superfície há mais de 450 milhões de anos.

O Brasil abriga quatro espécies de escorpiões que são consideradas de interesse médico e registram a maior quantidade de acidentes. O escorpião-preto-da-Amazônia (Tityus obscurus), que ocorre na região Norte e no estado do Mato Grosso; o escorpião-amarelo-do-Nordeste (Tityus stigmurus), que também tem aparecido nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Tocantins; o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), frequente nas regiões do Centro-Oeste, Sudeste e Sul; e o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), com ocorrência em todas as regiões do país, mas na região Norte, ainda restrito em Tocantins.

Para além da importância em saúde, os escorpiões – assim como qualquer animal – possuem características interessantes, inusitadas e até mesmo arrepiantes. Mas mais importante do que qualquer curiosidade é entender os hábitos desses aracnídeos, para que você possa não só evitar os mais perigosos, mas também entender os motivos que podem fazê-los se sentirem ameaçados.

A bióloga e assistente técnica de pesquisa científica e tecnológica do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan, Denise Maria Candido, identifica nove curiosidades dos escorpiões que talvez você nem imagine!

Fotos: José Felipe Batista e Denise Cândido

1. Os escorpiões podem ficar fluorescentes

Esses pequenos aracnídeos carregam em sua cutícula substâncias que são chamadas de metabólitos secundários. Por isso, eles parecem fluorescentes sob a luz ultravioleta. Esse tipo de iluminação ajuda os especialistas a fazerem o controle e coleta dos escorpiões, o que precisa acontecer à noite, já que é nesse período que eles saem para caçar.

“Como eles ficam escondidos, é muito difícil achá-los. A luz os deixa brilhantes e nós conseguimos identificar a presença deles no meio de muros e no mato, por exemplo”, explica Denise.

2. Eles picam pela cauda e não pelas pinças

O veneno do escorpião é armazenado no interior do órgão conhecido popularmente como cauda. Na verdade, o nome real dessa parte do corpo é metassoma: ela ajuda a dar equilíbrio ao animal, além de servir como forma de defesa. As pinças, por sua vez, têm outras funções e são usadas para segurar presas, alimentar-se e acasalar.

3 . Soltar a “cauda” para se defender

Os escorpiões do gênero Ananteris, encontrados em todo o Brasil e em regiões das Américas do Sul e Central, têm uma capacidade bem diferente: conseguem se desprender de sua “cauda” para escapar de predadores. Esse fenômeno (que pode ser visto também nos lagartos) é considerado uma automutilação: quando o órgão é destacado do corpo do animal, seu intestino e ânus param de funcionar corretamente e as fezes ficam acumuladas, causando uma intoxicação e, posteriormente, a morte.

“Essa capacidade é vantajosa porque ele consegue fugir de situações de perigo, mas depois o escorpião passa a ter uma vida mais curta”, explica Denise.

Então qual o benefício? Na natureza, a função dos bichos é reproduzir. Se o Ananteris consegue fugir do predador e, no tempo que lhe resta de vida, acasalar, sua meta no mundo terá sido cumprida.

4. Um poderoso sistema sensorial

Apesar de possuírem até 12 olhos, a visão não é o forte dos escorpiões. O grande diferencial desses bichos é seu sistema sensorial: os pelos espalhados por seu corpo levam mensagens sobre o meio ambiente ao sistema nervoso, e os pentes que ficam no ventre são usados para sentir as vibrações, a temperatura e a umidade do ar. O resultado é que se eles notarem um pequeno barulho, fogem imediatamente.

Esses recursos foram sendo desenvolvidos ao longo de milhares e milhares de anos: é justamente por estarem há bastante tempo no planeta e terem sobrevivido a diversas revoluções ecológicas que os escorpiões adquiriram habilidades que os tornaram bastante resistentes – o sistema sensorial é uma dessas habilidades, e considerada bem efetiva pelos biólogos.

Veja no vídeo abaixo a movimentação dos pentes do escorpião, que ficam na parte de baixo do seu corpo:

5. Dança nupcial: um convite para o acasalamento

Algumas espécies, como o escorpião-preto-da-Amazônia (Tityus obscurus) e o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), acasalam para se reproduzir. O primeiro passo do romance é a escolha do local adequado, feita pelo macho. Depois, ele sai em busca de uma fêmea disposta a curtir o momento. É preciso encantar a pretendente, porque ela pode se negar e causar uma briga fatal para um deles.

Depois do aceite, o macho “dá as mãos” (na verdade, as pinças) à fêmea e começa a levá-la para o ambiente escolhido. Esses movimentos, antes do ato, são chamados de dança nupcial.

6. Partenogênese, uma forma de reprodução sem acasalamento

É isso mesmo. De acordo com Denise, cerca de 5% das espécies de escorpiões tem a capacidade de ter filhotes sozinhas, sem precisar de um parceiro. Esse tipo de reprodução é chamado de partenogênese, que é o desenvolvimento de embriões sem a necessidade de fecundação de espermatozoides.

“O que chama atenção nas Américas do Sul e Central é que as duas principais espécies do bicho, o escorpião-amarelo-do-Nordeste e o escorpião-amarelo, têm a capacidade de se reproduzir por partenogênese, aumentando a população dos escorpiões no meio ambiente”, diz a bióloga.

7. Assim como as cobras e cigarras, os escorpiões trocam de pele

Com apenas uma semana de vida, os filhotes já trocam de pele. Depois disso, eles trocam mais quatro vezes, até se tornarem adultos. Como eles são animais invertebrados, ou seja, não possuem coluna vertebral para sustentar o corpo, a sustentação é feita pela carapaça externa – e quando ela fica muito pequena para acomodar o animal, precisa ser abandonada.

8. O primeiro lar dos escorpiões são as costas da mãe

Assim que nascem, os pequenos escorpiões sobem logo para as costas da mãe e lá ficam por 15 dias. Esse comportamento acontece por segurança e proteção. A fêmea cuida da ninhada, é verdade, mas ai dos que caírem pelo caminho: eles podem virar comida da própria mãe!

O contrário não acontece: por todo o tempo que ficam em cima da mãe, os filhotes não se alimentam. É que, após nascerem, eles possuem uma espécie de reserva alimentar – como se fosse o vitelo dos mamíferos (material nutritivo contido no óvulo).

Outro aspecto curioso é que, depois dessa quinzena nas costas maternas, cada um segue sua vida solitariamente sem grandes problemas. “Depois da primeira troca de pele, quando já estão formados, eles ficam mais uma semana e então saem para desbravar o mundo”, detalha Denise.

9. Escorpiões cometem suicídio? É mentira!

Não acredite em tudo o que lê na internet. Há relatos de que se o escorpião fica no meio de uma roda de fogo, ele prefere se matar antes de morrer queimado. Mas a história não é bem assim.

“Na realidade, ele sente que tem o perigo, então tenta se defender. O que acontece é que, por vezes, ao se movimentar muito em momentos de estresse, ele mexe a cauda e encaixa o ferrão em seu próprio corpo”, explica Denise.

Mas como qualquer animal peçonhento, o escorpião é imune ao seu próprio veneno. Em uma situação como a da fogueira, ele morreria queimado ao se desidratar.

Atenção

Em caso de acidente com um animal peçonhento, procure o serviço médico mais próximo. Mantenha a calma: não faça torniquetes, não corte e não tente “sugar” o veneno, nem aplique nenhum produto sobre a ferida, pois essas práticas podem piorar o quadro.

*Com informações do Instituto Butantan

Como as hidrelétricas estão acabando com os peixes no Rio Madeira

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Foto: Bruno Kelly

Ao amanhecer, vinte pescadores receberam a informação de que peixes matrinxãs estavam descendo o rio Aripuanã em direção ao Madeira, o maior afluente da Bacia Amazônica. Era a oportunidade de interromper uma semana de pesca improdutiva em Novo Aripuanã, município do sul do Amazonas, para se dividirem em três canoas de madeira e irem para o rio. Deveria ser simples: só esperar o cardume, que nada na superfície, e lançar a rede.

Às 11 horas da manhã, sem sinal dos matrinxãs (Brycon melanopterus), metade dos pescadores desistiu e, na canoa maior, retornaram à cidade. Um pescador observava tudo desde as margens daquele encontro de águas brancas e pretas no Médio Madeira, ao mesmo tempo em que, logo à sua frente, vários botos cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxis (Sotalia fluviatilis) surgiam para respirar enquanto caçavam peixes. “Talvez o cardume nem chegue aqui, porque o rio está muito seco”, diz Raimundo Dias.

No final de abril, a bacia do Madeira estava em transição da estação chuvosa para a vazante. Com o nível da água ainda alto, os peixes se agrupam em cardumes e migram dos lagos, afluentes e igarapés para se alimentar de frutos, sementes e invertebrados terrestres que caem nos igapós e nas várzeas do Madeira.

No entanto, há uma década, mudanças abruptas e frequentes nos níveis dos rios têm desorientado os padrões migratórios. Cientistas e pescadores atribuem esses picos irregulares às usinas hidrelétricas do Madeira, duas grandes unidades instaladas no estado vizinho de Rondônia.

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 Foto: Bruno Kelly

Nascido e criado em Novo Aripuanã, Dias tem 50 anos e sempre viveu da pesca, mas diz ele que manter a atividade tem sido cada vez mais difícil devido à redução das capturas no Madeira, o rio mais diversificado da Amazônia, com 1.406 espécies de peixes catalogadas. “Havia muita fartura, não tinha como não pegar peixe aqui. De 10 anos para cá, a pesca diminuiu. Essa hidrelétrica acabou com a gente”, diz o pescador.

A usina de Santo Antônio, em Porto Velho, entrou em operação em março de 2012 e tem a quinta maior capacidade energética do Brasil, e a de Jirau, instalada 115 quilômetros rio acima, opera desde setembro de 2013; é a quarta maior do país.

De acordo com Dias, as espécies mais afetadas pelas hidrelétricas são as mais consumidas localmente: pacu (Mylossoma), aracu (Leporinus fasciatus), sardinha (Triportheus auritus, T. angulatus), matrinxã (Brycon) e jaraqui (Semaprochilodus insignis, S. taeniurus). Espécies de peixes de alto valor comercializadas para as grandes cidades, como os bagres migratórios dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) e piramutaba (B. vaillantii), também desapareceram.

Essa escassez tem impacto não só no comércio, mas também na alimentação dos moradores de Novo Aripuanã. O peixe, principal fonte de proteína da população ribeirinha da Amazônia, encareceu nos mercados e restaurantes. “A gente vendia um punhado de matrinxãs por cinco reais. Agora, custa até 40 reais”, diz Dias.

Vídeo: Reprodução/YouTube – Mongabay Brasil

Um rio imprevisível

Em Humaitá, município na divisa com Rondônia, a produtividade pesqueira é fortemente influenciada pela sazonalidade. Quando o rio seca, muitas espécies vêm do Baixo Amazonas, entram no Madeira pela foz e nadam rio acima até o rio de águas brancas, onde se reproduzem.

No entanto, o pescador José Pessoa, de 58 anos, diz que essa migração foi prejudicada porque o rio perdeu a correnteza após as barragens. “O peixe precisa de corredeiras para fazer a piracema”, explica, referindo-se ao período de reprodução. “Se não encontra no Madeira, ele pega o Amazonas, nada até o Solimões e vai embora. Aqui, a gente acaba não tendo nada.”

A pesca artesanal é também afetada pela crise climática, que intensifica os fenômenos meteorológicos. Em outubro de 2023, o Madeira sofreu a pior seca da história, quando atingiu 1,10 metro de profundidade, influenciado pelo El Niño e pelo aquecimento do Oceano Atlântico Norte. O Madeira baixou quase três metros em 15 dias, em junho de 2024, e Rondônia decretou estado de alerta para a seca.

Na comunidade de Paraisinho, localizada 10 km ao norte de Humaitá, a pesca se tornou ‘quase inexistente’, segundo João Mendonça, presidente da associação de agricultores locais, que também representa os pescadores. A comunidade se sustenta graças à agricultura de várzea, cuja produção é adquirida por programas governamentais de alimentação.

As barragens adotam o modelo a fio d’água, que retém menos água em seu reservatório, mas ainda assim afeta a hidrologia do Madeira. Depois de analisar os dados de descarga de três estações hidrológicas, os cientistas descobriram que “as operações da barragem aumentaram significativamente a variabilidade do fluxo diário e subdiário”.

Os cientistas mediram isso monitorando mudanças repentinas no fluxo do rio — ou eventos de ‘reversão’, as mudanças repentinas de um período de aumento para um período de queda dos níveis, ou vice-versa, em dois dias consecutivos. Esse evento quase dobrou (94%) na estação de Porto Velho, 5 km a jusante da barragem de Santo Antônio. Em Humaitá, a 255 km dessa usina, o aumento foi atenuado (13%), mas ainda significativo, segundo os pesquisadores, que atribuem os números às oscilações na demanda de energia.

O peixe sabe que precisa sair das planícies de inundação, florestas e lagos alagados e nadar até o rio principal quando o nível da água começa a subir diária e gradualmente, diz Doria. “Se essa cheia e seca acontecer, o peixe nem sai do afluente. Ele se perde. Fisiologicamente, há um descontrole.”

Barreiras para a obtenção de peixes saudáveis

Os moradores de Humaitá estavam acostumados com períodos bem definidos para a pesca. “Os peixes que a gente mais esperava na cheia eram o jaraqui e a matrinxã. Na seca, era o pintado, o pacu e o curimatã”, diz Mendonça. “A gente pegava em grande quantidade. Hoje, não dá para contar com isso”.

A dinâmica dos peixes está intimamente ligada à disponibilidade de água na bacia, segundo Marcelo dos Anjos, coordenador do Laboratório de Ictiologia e Ordenamento Pesqueiro do Vale do Rio Madeira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Segundo ele, essa perda de conectividade está ligada a um conjunto de fatores: hidrelétricas, desmatamento, assoreamento dos rios, mineração de ouro, assentamentos e expansão do agronegócio.

Samuel de Moraes, presidente da associação de pescadores de Humaitá, observou que os ribeirinhos do Madeira não podem mais se planejar de acordo com a dinâmica natural do ambiente. 

Além das mudanças na vazão do rio, os peixes também sofrem com a má qualidade da água, que vem caindo no Madeira, de acordo com Adriano Nobre, biólogo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). “As alterações antrópicas [feitas pelo homem] afetam diretamente a qualidade da água”, diz Nobre. “As mudanças no regime hidrológico feitas por hidrelétricas, a presença de mineração, o desmatamento, entre outros fatores, têm influência sobre a manutenção da vida aquática.

Em abril, pesquisadores da UEA começaram a desenvolver o primeiro Índice de Qualidade da Água (IQA) para um rio de águas brancas na Amazônia, para entender a saúde do Madeira. Em março, o grupo lançou o primeiro IQA para a Bacia Amazônica, desenvolvido para rios de águas pretas.

Os investigadores da UEA navegaram quase 800 km no Rio Madeira para avaliar o seu WQI; os resultados ainda não foram divulgados.

Foto: Bruno Kelly

A pesca em crise

No mercado local de Humaitá, Osvaldo de Araújo limpava branquinhas em sua banca enquanto relembrava a época em que pescava no Lago de Três Casas, 45 km rio abaixo. “Era tanto peixe que não dava para aguentar”, diz Araújo, um peixeiro de 63 anos. “A gente pegava qualquer espécie que quisesse.”

Araújo costumava pegar até meia tonelada de peixe em cinco dias em sua canoa, mas diz que hoje um pescador pode levar pelo menos 10 dias para pegar 100 quilos. “Nesse mercado, se não fosse o peixe de viveiro, essas bancas estariam vazias”, diz ele.

Houve uma redução de 39%, de 267 para 163 toneladas, na média anual do desembarque de peixes em Humaitá, segundo estudo da Ufam, comparando os períodos antes (2002-10) e depois (2012-16) das barragens. As espécies mais impactadas foram branquinha (Curimata inornata), pirapitinga (Piaractus brachypomus), tucunaré (Cichia), curimatã (Prochilodus lineatus), jaraqui e pacu. 

“Essas espécies são muito utilizadas na culinária local, principalmente entre os ribeirinhos, e também representam grande parte do esforço de pesca dessa população para o comércio regional”, diz o biólogo Rogério Fonseca, coautor do artigo e coordenador do Laboratório de Interações Fauna e Floresta da Ufam.

No período analisado, os anos mais produtivos ocorreram antes da entrada em operação das hidrelétricas: 2002 (294 toneladas), 2006 (350) e 2011 (407). Já os piores desembarques de peixes aconteceram após as barragens: 2014 (158), 2015 (94) e 2017 (101). “Hoje, não estamos mais chegando a 100 toneladas”, diz Moraes.

A associação de Humaitá tem cerca de 3.700 pescadores. O impacto das barragens “representa uma perda de aproximadamente 1,8 milhão de reais por ano para a atividade pesqueira em Humaitá”, segundo os pesquisadores.

Outro estudo recente concluiu que cinco pontos de pesca tradicionais se tornaram improdutivos. Há também locais com forte declínio nas capturas. No Córrego Beem, antes o mais produtivo, a captura caiu 99%, de 164 toneladas para 1,3. No Lago Três Casas, a redução foi de um terço, de 4,2 para 2,8 toneladas. Os pescadores precisaram buscar lugares mais distantes e passaram a pescar em 25 novos locais, segundo os pesquisadores. Em cada viagem de pesca, os ribeirinhos adquirem combustível, gelo, contratam funcionários e compram alimentos para o tempo no rio. 

Em 2013, mais de 1.500 pescadores de Humaitá entraram na Justiça contra as empresas proprietárias das usinas, com base em estudos que atribuíam às barragens impactos sobre a pesca e o pescado. As ações pediam danos morais e patrimoniais.

No entanto, o juiz de Humaitá considerou que os transtornos aos pescadores começaram durante a construção das usinas, em 2007, e decidiu que as ações estavam prescritas porque o prazo já havia passado. Os pescadores recorreram da sentença, e os processos estão agora no Tribunal de Justiça do Amazonas.

Foto: Bruno Kelly

Uma tradição em risco

Numa tarde de sexta-feira, muitas caixas cheias de jaraquis chegam ao mercado local de Manicoré, um município 355 km a jusante de Humaitá. “Este ano, esperávamos uma produção melhor, mas só agora esse peixe está chegando”, diz Ancelmo de Menezes, um pescador de 59 anos. Antes das barragens, ele conta que costumava capturar peixes em maior quantidade e diversidade. “Era matrinxã, era tudo. Agora, como vocês podem ver, só tem esse peixe aqui.”

“As espécies de peixes mais abundantes ficaram muito escassas”, diz Antônio Veiga, presidente da associação de pescadores de Manicoré. Para ele, o declínio só não foi maior porque Manicoré é cercada por cinco grandes afluentes do Rio Madeira, onde os lagos têm boa produtividade.

Segundo Veiga, que está à frente da associação há 25 anos, não houve nenhuma audiência ou consulta pública sobre as usinas hidrelétricas na região. “Não tínhamos conhecimento de nada de bom ou ruim que ela poderia trazer para o nosso município. Elas foram instaladas em Rondônia, mas o impacto veio para o Amazonas”, diz.

Em Manicoré, os transtornos no rio e nos peixes fizeram com que muitos pescadores desistissem e passassem a exercer outras atividades. Alguns começaram a garimpar ouro no curso principal do Madeira, o que também causa muitos danos ao rio, acrescentou Veiga, mas essa atividade ilegal está diminuindo após batidas da Polícia Federal.

Em setembro de 2023, os agentes destruíram 302 balsas e dragas de garimpo espalhadas entre Manicoré e Autazes. Em maio de 2023, 86 embarcações foram desativadas na região de Humaitá.

Um futuro crítico

No final de junho, os pescadores de Novo Aripuanã ainda estavam surpresos com a ausência de cardumes de matrinxã. “Até agora, eles não desceram”, diz Allan de Barros, presidente da associação de pescadores da cidade. Esse é um exemplo da incerteza da atividade pesqueira causada pelo desequilíbrio do Madeira.

“Consumíamos de 100 a 150 toneladas de peixe por ano no município e exportávamos mais de 500 toneladas para Porto Velho e Manaus”, diz Barros. “Hoje, não pegamos nem o suficiente para atender a demanda da cidade. É um fenômeno fora do normal”.

Em Novo Aripuanã, a piramutaba subia o Madeira até três vezes por ano, mas, desde a instalação das barragens, “nunca mais vimos um cardume em nosso rio”, diz Barros. Ele também observa que as espécies de bagres diminuíram de tamanho: o filhote (Brachyplatystoma filamentosum) chegava a 80 kg e a dourada, a 40 kg, mas hoje não passam, respectivamente, de 10 kg e 6 kg.

Em meio a esse contexto, o número de pescadores ativos na associação caiu quase pela metade. “Os peixes estão longe e a despesa é enorme”, diz Barros. “A cidade não tem fábrica de gelo ou subsídios para diesel e gasolina. Não temos uma câmara fria para armazenar o peixe, assim poderíamos vendê-lo mais barato na baixa temporada. Como o pescador irá tão longe para pegar esse peixe e vendê-lo por um preço justo?”

Os pescadores de Novo Aripuanã ainda não entraram na Justiça para serem reconhecidos como atingidos pelas barragens. Mas Barros diz que a melhor compensação seria um repasse contínuo de recursos, por exemplo, via royalties ou fundo de apoio, para que o município pudesse investir na piscicultura artesanal, a fim de atender às demandas dos cidadãos e ter recursos emergenciais para mitigar eventos extremos.

No encontro dos rios Madeira e Aripuanã, Raimundo Dias diz à Mongabay que a seca histórica de 2023 também contribuiu para o ano de pesca improdutiva na bacia do Madeira. Como resultado, os preços de outros tipos de alimentos também subiram. Com o rio secando rapidamente outra vez, dias espera outra época difícil. “Se continuar secando assim até agosto ou setembro, teremos uma crise muito grande aqui”.

Kevin Damasio e Bruno Kelly juntaram-se à expedição ao Rio Madeira com o apoio da Mongabay e da Ambiental Media.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Kevin Damasio, com fotos de Bruno Kelly.

Você sabia que o primeiro time indígena de futebol do Brasil é paraense?

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Foto: Magno Barros/Oficial Gaviões Kyikatêjê

Fundado na década de 1980 no estado do Pará, o Futebol Clube Gavião Kyikatêjê foi o primeiro time profissional de futebol registrado entre os indígenas no Brasil. O time representa a etnia Kyikatejê que, na língua Timbira Oriental, significa “povo do rio acima”.

O clube fica localizado no município de Bom Jesus do Tocantins, a pouco mais de 450 quilômetros de Belém, capital do Pará. A iniciativa chamou atenção por sua principal característica: a raiz indígena, com destaque em ser o primeiro time de uma etnia tradicional a disputar a divisão principal de um campeonato profissional estadual no ano de 2014.

Seu ex-treinador, o cacique Jakure Pepkrakte, “Zeca Gavião”, além de ser presidente do time, tornou-se ainda o primeiro indígena a comandar um clube do país. Anteriormente, o grupo era formado totalmente por indígenas e, atualmente, é um time misto.

O Gavião Kyikatêjê chamou tanta atenção por sua diversidade cultural que, em 2017, a Federação Internacional de Futebol (Fifa), entidade máxima do futebol mundial, produziu um documentário sobre a história do clube indígena, como forma de homenagear os indígenas pela iniciativa. Assista AQUI.

Conquistas

O Gavião já participou de quatro temporadas disputando a segunda divisão do Campeonato Paraense. Em 2013 teve o primeiro acesso à elite estadual, tornando-se vice-campeonato. Seguiu por dois anos na Série A do Parazão, até ser rebaixado em 2015.

Voltou para a elite paraense somente em 2020, mas foi rebaixado novamente. O time continua o trabalho de permanecer no cenário do futebol, focado em buscar o acesso à primeira divisão mais uma vez e também ter as categorias sub (-15, -17 e -20) e feminino fortalecidas.

*Com informações da Funai e Globo Esporte

Liderança do povo Manchineri no Acre participa da COP 16 na Colômbia

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Wuriu Manchineri participa da Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade em Cali na Colômbia. Foto: Wuriu Manchineri/Arquivo pessoal

Vice-diretor da Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (Matpha), uma organização civil ligada ao povo Manchineri no Acre, o ativista Wuriu Manchineri, de 28 anos, está desde esta segunda-feira (21) em Cali na Colômbia, para participar da Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP 16).

Com o tema ‘Paz com a Natureza’, o evento, um dos mais importantes para discussão de questões ambientais, busca discutir e encontrar soluções sustentáveis para o planeta.

Wuriu participa do evento a convite da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) como representante da Matpha. Se juntando a representantes de mais de 190 países e membros da sociedade civil organizada.

Segundo Wuriu, as COP’s só eram abertas para a população indígena como ouvintes e agora é possível ter voz nesses espaços e fazer parte da discussão. Ele ressalta ainda os apoios da Coiab, Greenpeace e Hivos, organização de cooperação internacional que presta apoio a organizações da sociedade civil, para ter voz nesses eventos.

“Segunda-feira eu participei de uma mesa que fala sobre a importância da biodiversidade, no caso como a demarcação dos territórios indígenas afeta diretamente a conservação da biodiversidade”, comentou ele.

Ele diz ainda que quer usar seu tempo no evento para reafirmar a necessidade das políticas indígenas de garantia de direitos e políticas coerentes para o cuidado da vida, segurança jurídica dos territórios indígenas e estratégias eficazes para políticas locais, nacionais e internacionais de combate às crises de biodiversidade e climática.

Quem é Wuriu Manchineri?

Além de vice-presidente de sua organização, o ativista indígena estuda Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e direito na União Educacional do Norte. É conselheiro no Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e bolsista pelo Programa de Educação Tutorial (PET) – Conexões de Saberes Comunidades Indígenas.

De acordo com a Matpha, desde 2007 o movimento Indígena luta contra o PL do Marco Temporal, que afeta diretamente o direito ao território dos povos indígenas, garantido no artigo 231 da Constituição Federal. O Projeto de Lei foi aprovado pela Câmara Federal, porém, a tese foi rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento indígena segue lutando para impedir que a medida seja implementada no Brasil.

Povo Manchineri

O Povo Manchineri tem a maior concentração aldeada no município de Assis Brasil, nas Terras Indígenas do Riozinho do Iaco e Mamoadate (Assis Brasil e Sena Madureira). Também há Manchineris de contexto urbano que se concentram em Rio Branco.

Elcio Manchineri, pai de Wuriu, cresceu em contexto de aldeia Mamoadate e depois veio para o contexto urbano. Hoje ele é o coordenador da COIAB.

COP 16

Durante o evento, o Brasil terá papel importante nas discussões sobre a implementação do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal (GBF, na sigla em inglês), adotado na última COP 15, no Canadá, reforçando sua posição como um dos países mais ricos em biodiversidade e com agenda ambiciosa voltada para o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental.

Foram definidas 23 metas para 2030 que objetivam deter e reverter a perda de biodiversidade para colocar a natureza em um caminho de recuperação para o benefício das pessoas e do planeta, conservando e usando de forma sustentável a biodiversidade e garantindo a distribuição justa e equitativa dos benefícios do uso de recursos genéticos.

O GBF inclui medidas específicas, incluindo a colocação de 30% do planeta e 30% dos ecossistemas degradados sob proteção até 2030. Ele também contém propostas para aumentar o financiamento aos países em desenvolvimento – um dos principais pontos de controvérsia durante as discussões.

*Por Hellen Monteiro, da Rede Amazônica AC