Monitoramento dos rios é realizado pelo SGB. Foto: Chico Batata/Acervo Secom-AM
A última semana foi marcada pela retomada do processo de enchente no rio Solimões, em Tabatinga (AM). É o que indica o 2º Boletim Hidrológico da Bacia do Amazonas divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), no dia 13 de janeiro.
De acordo com os dados do monitoramento, o nível subiu cerca de 1 metro e chegou à marca de 7,58 m. Esse comportamento deve ser observado em outras estações da calha nos próximos dias e influenciar também os níveis do rio Negro em Manaus (AM).
“Esse cenário já era esperado e a tendência, a partir de agora, é que o processo de enchente seja normalizado na região”, explica o pesquisador Andre Martinelli, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial da Superintendência Regional do SGB em Manaus.
Em Manacapuru (AM), o Solimões apresentou oscilações e está na cota de 13,16 m. O mesmo ocorre com o rio Negro, em Manaus, que chegou a 22,01 m, uma variação de 4 cm em relação aos dados do boletim da última semana. Os níveis estão dentro da faixa de normalidade para o período.
Rio Solimões. Foto: Liam Cavalcante/Rede Amazônica AM
Já o monitoramento do rio Amazonas registrou redução no ritmo de subida, fazendo com que os níveis ficassem próximos às médias para a época. Em Porto Velho (RO), o rio Madeira continua o processo de enchente e o nível chegou a 11,54 m.
Ao longo da semana, o rio Acre, em Rio Branco (AC), registrou subida de 2,74 m e ficou acima da faixa de normalidade para o período. Na terça-feira (13/1), a cota observada foi de 13,11 m.
Enquanto isso, o rio Branco segue no processo de vazante, com estabilidade em Boa Vista (RR) e Caracaraí (RR). As cotas observadas são: 1,27 m e 1,80 m, respectivamente. Há previsão de chuvas com anomalia positiva, o que pode elevar os níveis dentro dos próximos 15 dias, indica o SGB.
Monitoramento dos níveis dos rios
O monitoramento dos rios é feito a partir de estações, que fazem parte da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN), coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O SGB opera cerca de 80% das estações e gera informações que apoiam os sistemas de prevenção de desastres, a gestão dos recursos hídricos e pesquisas. As informações estão disponíveis na plataforma SACE e são atualizadas diariamente.
O objetivo das pesquisas científicas é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis. Foto: Divulgação/ICMBio
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha a segunda etapa do projeto: ‘Janelas para a biodiversidade do baixo Amazonas (JABBA): contribuições dos sambaquis do passado para a preservação ambiental no presente amazônico’, em execução na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, localizada no Município de Porto de Moz, no Pará.
O projeto, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Museu Nacional de História Natural de Paris, combina a escavação arqueológica no sítio arqueológico Munguba com atividades de difusão científica junto à comunidade local, Nossa Senhora de Nazaré.
O projeto de pesquisas conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Foto: Ronald Azulay/ICMBio
O objetivo da iniciativa científica é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis (termo de origem tupi-guarani, no qual tamba significa “concha” e ki, “amontoado”), antigos monumentos indígenas construídos por uma mistura de sedimentos diversos, conchas de moluscos, restos de peixes e outros materiais orgânicos e minerais.
Estes sítios arqueológicos possibilitam compreender as antigas arquiteturas desenvolvidas pelos povos que habitaram o Baixo Amazonas e o manejo das paisagens de várzea ao longo do tempo.
Nesse contexto, o eixo central do projeto consiste em analisar as transformações da biodiversidade a partir do cruzamento de dados arqueológicos com informações contemporâneas sobre as várzeas amazônicas, com foco especial nas áreas localizadas entre os Rios Tapajós e Xingu, caracterizadas por um expressivo vazio de pesquisas tanto nas áreas da biologia quanto da arqueologia.
“Os sambaquis são sítios que possuem uma conservação excepcional dos restos orgânicos, assim, esta descoberta representa uma grande oportunidade para compreender melhor como as populações que os construíram se relacionavam com o meio ambiente”, destaca a pesquisadora Gabriela Prestes Carneiro, professora no Museu Nacional de História Natural de Paris e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) da UFOPA.
Ela continua que o sambaqui era conhecido pela comunidade como um “pedral” e foram os próprios moradores da Resex que entraram em contato com os profissionais de arqueologia, que só chegaram à área em 2022.
Nesta última escavação em 2025, foram encontradas diversas camadas arqueológicas que estão sob esse pedral, incluindo madeiras, possivelmente esteios de casas, pranchas instaladas antes da construção do sambaqui ou até estruturas de palafita.
Pesquisas com atividade de escavação para a turma de arqueologia mirim da Escola Nossa Senhora do Carmo. Foto: Divulgação/Projeto Jabba
Durante as pesquisas de campo, o projeto contou com o apoio de especialistas em madeira. O objetivo do trabalho com as madeiras será de identificar espécies e analisar anéis de crescimento para tentar correlacioná-los a mudança climática.
Também buscou-se refinar as primeiras datações, que apontam que o sambaqui foi ocupado entre 3.800 e 500 anos atrás, por diferentes grupos humanos, associadas a diferentes estilos cerâmicos. Também serão estudadas a vegetação e a fauna no entorno para entender se as condições ambientais no período em que o pedral estava sendo construído se aproxima das atuais.
Até agora, em termos de biodiversidade, foi observada uma grande variedade de espécies de peixes típicas de águas calmas, como pirambóia, pirarucu e muçum. Além dos peixes, neste sítio também havia consumo de tartarugas, jabutis, jacarés, peixes-boi, veados e porcos-do-mato.
Em relação à vegetação do sítio, vestígios botânicos demonstram que, no período das primeiras ocupações, o ambiente era diferente, pois foram encontradas uma grande quantidade de sementes e restos de espécies vegetais que hoje não ocorrem na várzea da região, como taperebá, uxi, maracujás variados, indicando que o sítio era rico em espécies frutíferas consumidas pelos habitantes, como informa a profa. Myrtle Pearl Shock, da UFOPA.
O sítio Munguba
De acordo com os pesquisadores, o sítio precisa ser entendido como um monumento construído para ser visível e marcante para as populações indígenas do passado. São cerca de 60 sepultamentos registrados até o momento. Por isso, a equipe também é composta por especialistas em arqueologia funerária, que investiga gestos e práticas relacionadas ao cuidado com os mortos.
Dada a conservação excepcional dos restos orgânicos no sítio Munguba e a variedade de material arqueológico encontrado, segundo a equipe coordenadora do projeto, vários anos serão necessários para que se possa compreender os povos que construíram os sambaquis e como eles se relacionavam com o meio ambiente.
Ainda assim, já se sabe que estes povos fizeram o manejo da biodiversidade das paisagens de várzea da Amazônia, trazendo e levando espécies de plantas, estabelecendo redes de troca de pessoas e materiais com várias outras regiões como Santarém (PA) e o estuário do Amazonas, região complexa e vasta, caracterizada por ser uma foz mista e um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, dominado pela Ilha do Marajó (PA).
Imagem: Reprodução/ Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Diálogo com a comunidade
Antes da realização das etapas de campo, o projeto tem se reunido com a comunidade Nossa Senhora de Nazaré para fazer os pedidos de autorização e organizar em conjunto as atividades das pesquisas, de maneira a envolver diferentes públicos. Em especial, os alunos da escola mais próxima, a escola Nossa Senhora do Carmo, que atende crianças de 5 a 11 anos.
Tendo em vista que a etapa de campo reúne falantes de várias línguas, a demanda das professoras no último ano foi desenvolver com as crianças uma pequena iniciação a línguas estrangeiras, como o inglês e o francês.
Além das línguas, as crianças foram recebidas no sítio arqueológico onde realizou-se uma oficina de escavação de arqueologia mirim e de produção de pigmentos naturais.
O projeto conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Pelo Brasil:
Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),
Universidade Federal do Amazonas (UFAM),
Universidade Estadual do Amazonas (UEA),
Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG),
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
e Universidade de São Paulo (USP).
Na França: o Museu Nacional de História Natural de Paris e Université Paris 1 Panthéon Sorbonne. Da Alemanha: Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology.
Ao permitir compreender práticas de uso e manejo sustentável da paisagem ao longo do tempo, evidenciar patrimônio cultural associado à paisagem, e gerar conhecimento que subsidia estratégias atuais de proteção e gestão territorial, o projeto arqueológico contribui para a conservação da Resex Verde para Sempre.
*Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
Dez profissionais de educação vão receber capacitação especializada para implementar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) no território Yanomami, em Roraima. A medida atenderá a 35 comunidades indígenas do povo Sanöma. A iniciativa integra o escopo do curso de formação intitulado ‘Capacitação Integrada para a Gestão do Território Yanomami e Educação: fronteira, escola e territorialização’.
O curso – que faz parte do planejamento do Governo Federal para implementar ações estruturantes e permanentes na Terra Indígena Yanomami (TIY) – ocorre de forma articulada com foco na proteção e fortalecimento da gestão territorial, soberania alimentar, línguas e culturas do povo Sanöma.
“A educação é um direito fundamental de todos e uma ferramenta para assegurar o acesso a direitos territoriais, sociais, civis e políticos”, afirma Joenia Wapichana, presidenta da Funai.
Coordenada pelo Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a formação conta com aporte de recursos da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e dos ministérios da Educação (MEC) e do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
A ação de qualificação faz parte de um projeto para levar profissionais de educação à TIY, e tem como finalidade o fortalecimento de práticas pedagógicas fundamentadas nos aspectos socioculturais, históricos, territoriais e educacionais do povo Sanöma. A previsão é que os educadores comecem a atuar no território em fevereiro de 2026.
Mesa de abertura do curso de formação dos povos indíegnas. Foto: Maia de Barros / Funai
De acordo com a Funai, a educação é uma estratégia para a consolidação da dignidade humana, como destacou a presidenta Joenia Wapichana em participação na mesa de abertura da solenidade, realizada em Boa Vista (RR), que marcou o início do processo formativo, na segunda-feira (5): “A educação é um direito fundamental de todos e uma ferramenta para assegurar o acesso a direitos territoriais, sociais, civis e políticos”.
Ela avalia que o curso se torna ainda mais importante ao considerar a crise humanitária vivenciada no território após o avanço do garimpo ilegal, entre 2021 e 2022, que impactou a saúde, o meio ambiente e a segurança alimentar das comunidades.
“A capacitação integra o conjunto de ações do Governo Federal para garantir soberania alimentar e nutricional, proteção social e territorial e geração de renda para os povos que vivem no território”, pontuou Joenia Wapichana, ao lembrar que, no primeiro momento da crise, foram adotadas medidas emergenciais, e, agora, tratam-se de ações estruturantes voltadas à autonomia das comunidades.
Segundo a coordenadora do curso pela UFRR, Adriana Santos, a equipe de educadores é composta por professores de matemática, português, geografia, história, artes, educação física e pedagogos que vão atuar na formação de estudantes indígenas a partir do sexto ano.
Os profissionais serão capacitados por pessoas com experiência no território indígena, explica a coordenadora, com o objetivo de assegurar o respeito e fortalecimento das culturas, tradições e identidade dos povos indígenas.
Além disso, antes do início das atividades, o povo Sanöma será ouvido para a construção conjunta da grade curricular das aulas que serão ministradas no território.
“Nosso trabalho agora é colocar em exercício uma prática docente diferente da escola regular, uma prática que respeite a identidade cultural dos Sanöma. Por isso, é o momento de desconstruir uma ideia de escola preconcebida que temos e se abrir para esse novo processo junto aos Sanöma”, destaca Adriana Santos.
Ainda de acordo com a coordenadora, trata-se de um projeto pioneiro no qual “a universidade é que vai para dentro do território ofertar a educação básica. Imagine o retorno com as escolas fortalecidas nas comunidades, com a política pública fortalecida dentro das comunidades. É uma política pública que a gente precisa que seja fortalecida dentro do território e a gente está levando as bases para que se consolide dentro do território.”
Governo Federal abre portas para EJA. Foto: Maia de Barros / Funai
Acompanhada da diretora de Gestão Ambiental e Territorial, Lucia Alberta, a presidenta Joenia Wapichana participou, no dia 6 de janeiro, de reunião de planejamento, acompanhamento e balanço da Força-Tarefa Yanomami Ye´kwana (FTYY), coordenada pela Funai.
O encontro teve como objetivo principal o acompanhamento das ações executadas em 2025, o planejamento das atividades para 2026 e o balanço geral dos projetos relacionados ao etnodesenvolvimento, diagnósticos e ações estruturantes realizados pela equipe, em parceria com outras instituições.
Entre as ações do Governo Federal no território, estão incentivos à produção de alimentos, à avicultura, à aquicultura e à pesca, a implantação de roçados e a oferta de cursos de formação destinados aos indígenas sobre segurança alimentar e nutricional e gestão territorial.
A reunião foi marcada por um momento rico de apresentações, diálogos, trocas de experiências e debates coletivos e, assim, contribuir para o fortalecimento das estratégias e para o alinhamento das ações futuras. Também foi apresentado o Plano Integrado Interinstitucional, voltado às ações que serão executadas em 2026 e à demonstração dos avanços alcançados pelos projetos.
*Com informações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas
Cuias feitas em Alter do Chão (Santarém/PA). Foto: Alexandre Nazareth da Rocha/Acervo Iphan
As cuias amazônicas ocupam um lugar de destaque na cultura tradicional da região Norte. Elas são utilizadas no preparo e no consumo de alimentos e bebidas como tacacá, açaí, mingaus, caldos e outras receitas típicas. Mas elas também fazem parte do uso cotidiano em comunidades ribeirinhas, em que servem para despejar água durante o banho, armazenar líquidos, auxiliar em rituais tradicionais e até mesmo integrar cerimônias culturais.
Feitas a partir do fruto seco da cuieira — planta nativa da Amazônia — as cuias são reconhecidas como um dos artesanatos mais antigos e simbólicos do território amazônico. Sua confecção envolve técnicas ancestrais preservadas por gerações, especialmente em regiões como o Baixo Amazonas, onde o ‘saber-fazer‘ da cuia é considerado patrimônio cultural e mantido, principalmente, por artesãs.
O Iphan produziu um vídeo contando como é esse processo:
O processo artesanal começa com a colheita do fruto maduro da cuieira. Depois, ele é cortado, esvaziado e deixado para secar ao sol até que a casca atinja a rigidez ideal. Em seguida, o artesão lixa, modela e pode aplicar desenhos tradicionais, pinturas ou entalhes. Muitas cuias amazônicas são decoradas com grafismos e símbolos culturais que representam a identidade das comunidades.
Em uma rede social, o influencer indígena Kallisson Waphichaca ensina em um de seus vídeos como fazer a preparação de uma cuia tradicional.
No vídeo, ele demonstra o corte do fruto, o processo de limpeza, a secagem e o acabamento, ajudando a preservar e divulgar uma das técnicas ancestrais que permanecem vivas na Amazônia.
A divulgação desse processo mostra a dificuldade em fazer esse tipo de material devido ao tempo e cuidado que se deve ter para a confecção.
Preparação e cura das cuias
Assim como as cuias usadas para chimarrão em outras regiões do país, as cuias amazônicas exigem um processo de cura antes do primeiro uso. Esse procedimento garante higiene, elimina resíduos naturais do fruto e fortalece a casca interna.
A cura começa com a lavagem em água quente para remover impurezas superficiais. Depois, a parte interna deve ser preenchida com erva ou material vegetal umedecido com água quente. Esse conteúdo permanece dentro da cuia entre 24 e 48 horas, ajudando a soltar fibras internas e reduzir o cheiro característico do fruto seco.
Após o período de descanso, o interior deve ser raspado cuidadosamente e novamente enxaguado em água quente. Essa etapa também prepara a cuia para receber alimentos ou líquidos quentes, tornando-a mais resistente, durável e segura.
A higienização após o uso deve ser feita apenas com água quente, evitando sabão, já que o material poroso absorve substâncias facilmente e pode reter cheiro ou sabor. E ela deve ser deixada para secar naturalmente em local ventilado. É importante que ela não permaneça com água parada, pois isso favorece a formação de mofo e fragiliza o material.
Se aparecer mofo, é necessário lavar novamente com água quente, raspar o interior e repetir a cura. Em casos persistentes, a cuia pode precisar ser substituída.
E aí? Conhecia esse todo esse processo para a produção de uma cuia?
Caminhão-pipa em operação de reabastecimento no Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), em Altamira (PA). Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa
O desenvolvimento urbano na cidade de Altamira, no Pará, impulsionado, em grande parte, pela construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, coexiste com os constantes desafios básicos no saneamento. O megaprojeto de Belo Monte trouxe grandes promessas de desenvolvimento para a região, entre elas, a universalização do saneamento básico na cidade.
No entanto a realidade pós-implementação da usina revela uma complexa teia de avanços e falhas que impediram o cumprimento integral dessa promessa.
O tema é investigado na dissertação de mestrado ‘Consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte para o saneamento básico na cidade de Altamira’, de Beatriz da Silva Martins, engenheira sanitarista e ambiental e mestra em Biodiversidade e Conservação pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
A Usina Hidrelétrica de Belo Monte é uma das maiores do mundo, e Altamira, embora não sediando diretamente a usina, foi impactada significativamente devido à sua localização estratégica, que facilitava a logística de acesso à obra e a chegada de pessoas. Para mitigar os impactos, foram estabelecidas condicionantes socioambientais que incluíam a universalização do saneamento básico na área urbana de Altamira.
O objetivo era preparar a cidade para o aumento populacional decorrente do empreendimento, dar conta da demanda histórica por saneamento para os residentes da cidade e acomodar o crescimento populacional das próximas décadas. Os investimentos de mais de R$ 480 milhões foram aplicados na implantação de tubulações, construção e ampliação de estações de tratamento de água e esgoto.
Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
A pesquisa de Beatriz baseia-se em dados de 2010 e 2022 e oferecem um retrato detalhado do avanço na cobertura do saneamento em Altamira.
No abastecimento de água, houve uma ampliação notável do acesso à rede geral, passando de 21,5% dos domicílios, em 2010, para 55,4%, em 2022. Contudo a presença de poços ainda é significativa, sendo utilizada por 43,2% da população, em 2022, contra 77,1%, em 2010.
“Para a instalação do empreendimento, era necessário desativar os poços e a população ter acesso ao serviço público de água. Mas, ainda assim, em 2022, na nossa pesquisa, verificamos uma porcentagem significativa de pessoas que ainda possuem poços em suas residências como principal fonte de abastecimento de água. Isso implica o quê? Elas estão utilizando essa fonte que pode estar contaminada devido à mudança na dinâmica do lençol freático em decorrência da construção de Belo Monte”.
Nos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs), a cobertura da rede pública é alta (99%), mas a dependência de caminhões-pipa e a irregularidade no abastecimento persistem, com 6,1% dos domicílios recebendo água por apenas algumas horas do dia e 15,2%, em alguns dias da semana.
Beatriz também destaca esta problemática: “Outra descoberta significativa foi a questão da utilização de caminhões-pipa, principalmente nos reassentamentos urbano coletivos, que deixam evidentes as lacunas no serviço de abastecimento de água disponibilizado para a população diretamente impactada pela usina Hidrelétrica de Belo Monte”.
Foto: Reprodução/Movimento dos atingidos por barragens
Em relação ao esgotamento sanitário, a cobertura da rede geral teve um avanço expressivo, saltando de 1,9%, em 2010, para 81,8%, em 2022. No entanto 16,8% dos domicílios em Altamira ainda utilizam fossas sépticas ou rudimentares, sendo essa prática mais comum nos bairros não pertencentes aos reassentamentos (20,5%). A persistência do uso de fossas, especialmente as rudimentares, pode levar a problemas de saúde pública, por exemplo, via contaminação cruzada com os poços de abastecimento de água, e à contaminação do meio ambiente.
Quanto à coleta de resíduos sólidos, a desativação do lixão a céu aberto e a construção de um aterro sanitário em Altamira são inegavelmente avanços positivos. Em 2022, 97,8% dos domicílios eram atendidos pelo serviço de limpeza pública. No entanto a pesquisa revelou uma disparidade na frequência da coleta: “O serviço de coleta é mais irregular nas zonas periféricas, especialmente nos reassentamentos urbanos que nós estudamos”. Enquanto mais de 60% dos domicílios nos demais bairros têm coleta diária; nos RUCs, nenhum domicílio tem, e 27% reportam irregularidade no serviço.
A dissertação aponta a governança como o “calcanhar de Aquiles” do saneamento em Altamira. A falta de um cadastro oficial da rede de distribuição de água dificultou o monitoramento e o planejamento da expansão do sistema. Além disso, a população de Altamira já possuía um histórico de descontentamento com os serviços públicos de abastecimento de água, resultando em queixas sobre a baixa qualidade, rede limitada e interrupções frequentes. Isso levou muitos moradores a desativarem suas ligações com a rede pública e optar por poços.
Moradores de palafitas em lagoa do bairro Jardim Independente I, em Altarmira (PA). Foto: Reprodução/Minitério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
A indefinição das responsabilidades entre o empreendedor (Norte Energia) e a gestão do município, especialmente quanto às ligações intradomiciliares, criou um “jogo de empurra”, inviabilizando a universalização dos serviços. A transição lenta dos serviços para a Prefeitura de Altamira, que só assumiu integralmente em 2022, foi um fator determinante para os desafios atuais.
O legado de Belo Monte
Altamira oferece lições valiosas para futuros projetos de infraestrutura de grande porte na Amazônia. O que fica após Belo Monte, segundo a pesquisa, inclui saldos positivos, como a desativação do lixão e a instalação de um aterro sanitário, mas também negativos, como o não acesso de muitas famílias à rede de água e à continuidade do uso de fossas.
Para o futuro de Altamira, Beatriz aponta: “Os próximos passos poderiam ser relacionados a parcerias entre o município e as instituições de ensino, e a trazer a população para a discussão”.
A sugestão para mediar os conflitos é um investimento em educação ambiental, de maneira que as campanhas de educação para a sociedade civil possam viabilizar mais esclarecimentos para a população, principalmente com relação àquela parcela que oferece resistência às mudanças. O desafio de Altamira continua exigindo uma gestão municipal mais eficiente e a participação ativa da comunidade para alcançar a tão esperada universalização do saneamento básico.
Sobre a pesquisa
Consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte para o saneamento básico na cidade de Altamira foi defendida por Beatriz da Silva Martins no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação, em 2024, sob orientação do professor Miquéias Freitas Calvi e coorientação do professor Igor Cavallini Johansen.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, da UFPA, edição 176, escrito por Luiza Amâncio
Posicionamento da Norte Energia
Após a republicação do conteúdo acima, a Norte Energia emitiu uma nota de posicionamento sobre a abordagem:
Em 2010, menos de 10% dos moradores da área urbana de Altamira tinham acesso à água tratada. No entanto, devido aos compromissos assumidos no licenciamento ambiental de Belo Monte, a Norte Energia construiu 610 km de redes de água e esgoto, englobando, além de Altamira, Vitória do Xingu, Senador José Porfírio e Anapu.
A companhia foi, inclusive, além das suas obrigações, ligando 19 mil domicílios à rede de abastecimento de água, o que não estava previsto. Os números incluem os 3.850 imóveis construídos pela companhia em seis novos bairros. Devido às ações estruturantes, a cobertura dos serviços de saneamento na área urbana de Altamira chegou, em 2018, a 92% da população da área urbana.
O repasse do sistema à Prefeitura de Altamira aconteceu em 01 de janeiro de 2023, por meio da celebração do Termo de Compromisso entre a companhia e a Prefeitura e Altamira em 26 de julho de 2022. A partir daí, o município assumiu toda a responsabilidade sobre o sistema, não cabendo mais à Norte Energia responder pela expansão dele, decorrente do crescimento populacional.
Destacamos, também, a construção de quatro aterros sanitários nos municípios de Altamira, Brasil Novo, Anapu e Vitória do Xingu.
Desde 2010, a Norte Energia investiu cerca de R$ 8 bilhões em ações socioambientais. A construção do sistema de água e esgoto está entre as ações realizadas com esses recursos, assim como a construção e reforma de escolas, unidades de saúde, hospitais, pontes, estradas e prédios públicos, como o da sede da Fundação Nacional dos Povos Indígenas.
Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), no âmbito do contrato de gestão ambiental da BR-319, rodovia que liga os estados do Amazonas e Rondônia, tem realizado atividades que visam acompanhar a presença e o deslocamento de espécies ao longo da área de influência do empreendimento, contribuindo para a mitigação de impactos ambientais associados à infraestrutura rodoviária.
O monitoramento é realizado por meio da instalação de câmeras-trap, dispositivos eletrônicos com sensor de movimento, em pontos estratégicos às margens da rodovia, como passagens de fauna subterrâneas ou suspensas e bueiros adaptados.
A iniciativa permite o registro sistemático de diferentes espécies, entre elas a anta (Tapirus terrestris), a jaguatirica (Leopardus pardalis), o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), além de pacas, cutias, quatis, tamanduás, iraras, esquilos e aves silvestres, evidenciando a diversidade da fauna presente na região.
Foto: Reprodução/ Associação dos Mineradores da Serra Azul
As estruturas implantadas no âmbito da gestão ambiental têm papel fundamental na redução do risco de atropelamentos de animais e na manutenção da conectividade ecológica entre os habitats, promovendo maior segurança viária e contribuindo para a conservação da biodiversidade.
Os registros obtidos indicam a efetividade das medidas adotadas e subsidiam o aprimoramento contínuo das ações ambientais.
O coordenador-geral de Meio Ambiente do DNIT, João Felipe Lemos Cunha, destaca que as informações geradas pelo monitoramento realizado no âmbito da gestão ambiental da BR 319/AM são consolidadas em ferramentas de inteligência de dados.
“Os registros da fauna são sistematizados e analisados por meio de ferramentas de “businnes inteligence”, o que permite acompanhar os resultados das ações ambientais e aprimorar continuamente as estratégias de proteção. Somente em 2025, mais de 7,5 mil animais foram avistados e registrados na região”, explicou.
Com a consolidação e análise dos dados ambientais, o DNIT reafirma seu compromisso com o desenvolvimento da infraestrutura rodoviária de forma responsável, integrando critérios ambientais às atividades de implantação, operação e manutenção da BR-319.
Ao chegar ao Oiapoque (AP), Johan foi recebido por Waldemar Justo, gestor do ICMBio e diretor na Rede Brasileira de Trilhas. Foto: Divulgação/ICMBio
O francês Johan Grondin, aos 47 anos, realizou ao fim do último ano um grande sonho: cruzar o Brasil de ponta a ponta, de Sul ao Norte, especificamente do Chuí (RS) ao Oiapoque (AP). Este será o maior corredor ecológico da América Latina, conectando cerca de 34 Unidades de Conservação (UCs) federais.
Foram 9.100 quilômetros, passando por diversos biomas brasileiros, mapeando a futura Trilha Oyapoque x Barra do Chuí. Em seu périplo, ele contou com apoio de servidores dos parques e reservas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), bem como de voluntários da Associação Rede Brasileira de Trilhas.
No dia 23 de fevereiro de 2024, quando saiu de seu destino na Barra do Chuí levando somente o necessário, seu único objetivo era realizar a travessia unindo dois pontos extremos do país. Não havia qualquer planejamento ou prazo de chegar ao destino, uma trilha inédita, que não havia sido percorrida por ninguém.
Seu destino se cumpriu no dia 20 de dezembro, mantendo a simplicidade que marcou todo o percurso. Foram quase dois anos de caminhada, 22 meses, auxiliando os Ministérios Turismo (MTur) e do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), ao qual o ICMBio se vincula, a mapear rotas estratégicas da grande trilha que será inaugurada em breve.
Um objetivo pessoal que se conecta com os trabalhos do Instituto, especialmente pela Coordenação-Geral de Uso Público e Serviços Ambientais (GGUP) do ICMBio, que articula, em nível governamental, iniciativas para estruturar e ampliar projetos de trilhas de longo curso no Brasil. O movimento ganhou reconhecimento legal em 2018, com a publicação da Portaria Conjunta MMA/MTur nº 407, que instituiu a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade – Rede Trilhas, inserida no Programa Nacional de Conectividade de Paisagens.
“Do Oiapoque ao Chuí”
A Trilha foi concebida para funcionar como um corredor natural que conecta centenas de Unidades de Conservação, muitas delas federais, espalhadas pelos biomas brasileiros.
“Trechos já estruturados, como a Trilha Amazônia Atlântica no Pará, cruzam reservas extrativistas federais e demonstram como essa grande rota pode integrar áreas protegidas ao longo do território nacional”, explica o diretor de Áreas Protegidas do MMA, Pedro Menezes.
A política pública tem por objetivo unir trilhas já existentes com a implementação de novas trilhas, criando um corredor verde contínuo que também possa ser usado pela fauna. Hoje já existem mais de 7000 km implementados e sinalizados com as pegadas pretas e amarelas que são a marca registrada da Rede Trilhas. Mapear essas conexões, em alguns lugares, entretanto, ainda era um desafio.
“A pernada de Johan foi pioneira, pois, se a façanha de conectar os dois extremos do litoral brasileiro já havia sido feita no século passado por Sérgio Rondelli, sempre seguindo a beira do mar, agora realizou-se uma rota diferente, conectando trilhas já implementadas pela Rede Trilhas e alternando litoral e interior, praias e montanhas”, afirma Carla Guaitanele, coordenadora-geral da GGUP/ICMBio.
O Arroio Chuí é um pequeno curso d’água localizado na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, sendo o ponto extremo sul do Brasil. Foto: Divulgação
O percurso: biomas e adaptação
A caminhada começou pelo litoral do Rio Grande do Sul, um território moldado pelo encontro entre o vento, o mar e a areia. Foram cerca de 700 quilômetros de praias, muitas vezes isoladas, como a Praia do Cassino, a maior praia em extensão do mundo, onde o horizonte parece não ter fim. Nesse bioma costeiro, o clima muda rápido e impõe respeito.
Do litoral, a travessia avançou para as áreas de clima úmido e relevo elevado, cortando a Serra da Mantiqueira, cadeia montanhosa que se estende por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde a vegetação é densa e o frio e a neblina contrastam com o cenário anterior.
Ao entrar no Cerrado, o caminhar ganhou outro ritmo. Considerado o “berço das águas”, o bioma mescla campos abertos, árvores retorcidas e uma biodiversidade que resiste ao fogo e à seca. A travessia exigiu atenção e adaptação, preparando o corpo e a mente para o maior desafio da jornada: a Caatinga.
Na Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, Johan enfrentou seu maior teste de resiliência. O calor intenso, escassez de água e as longas distâncias entre povoados exigiram mais do que força física, mas equilíbrio emocional e persistência.
Na etapa final, o cenário foi amazônico. Na Ilha do Marajó (PA), onde a Amazônia encontra o oceano, foram cerca de 500 quilômetros atravessando grandes fazendas, sob o sol intenso. Entre campos alagáveis e vegetação exuberante, Johan dividiu o caminho com a fauna local: búfalos, cobras e aves, que fazem parte da dinâmica natural da ilha.
A Ponte Binacional Franco-Brasileira atravessa o rio Oiapoque, ligando as cidades de Oiapoque, Brasil, e São Jorge do Oiapoque, na Guiana Francesa. Foto: Divulgação/Fecomércio Amapá
“Tudo consiste em se adaptar, senão você não consegue atravessar. Para uma caminhada assim, você não precisa se preparar. O corpo e a mente acabam se adaptando”, indica Johan Grondin.
Agora, depois de chegar ao Oiapoque, o caminhante tem planos de escrever um livro relatando sua experiência e cogita conectar o Brasil de Leste a Oeste, desde o Cabo Branco (PB) à Serra do Divisor (AC).
A Rede Brasileira de Trilhas
A Rede é a principal política pública de áreas protegidas do Brasil. Ela conecta UCs e fragmentos florestais, formando corredores ecológicos que ajudam na manutenção de processos ecológicos e na conectividade da fauna e flora.
Essa política inovadora une lazer, conservação e desenvolvimento econômico, tendo as trilhas de longo curso como estratégia de conexão entre pessoas, flora e fauna.
Marcos internacionais fortalecem a agenda das trilhas
No último ano, 2025, no Congresso Mundial da Natureza da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, as trilhas foram reconhecidas oficialmente como uma ferramenta vital para a conservação da natureza.
Enquanto isso, no Brasil, mas ainda no campo internacional, o projeto da Trilha Amazônia Atlântica, a maior trilha sinalizada da América Latina, foi inaugurado durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) em Belém, Pará, como uma iniciativa para promover a conservação, a bioeconomia e o turismo de base comunitária na região.
*Com informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
O povo indígena Ye’kwana agora conta com uma ferramenta para a preservação de sua identidade linguística e cultural: o Dicionário Multimídia da Língua Ye’kwana. O material foi consolidado em novembro de 2025, como resultado de um processo de pesquisa e documentação linguística realizado pelo Projeto Salvaguarda do Patrimônio Linguístico e Cultural de Povos Indígenas Transfronteiriços e de Recente Contato na Região Amazônica.
O projeto de cooperação técnica internacional é firmado pelo Museu Nacional dos Povos Indígenas (MNPI), órgão científico-cultural da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
A ferramenta é resultado do trabalho do Subprojeto Ye’kwana que integra o Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (ProDoclin). A devolutiva do produto desenvolvido pelo subprojeto aconteceu na comunidade Waichannha (Waikás), do povo indígena Ye’kwana, na Terra Indígena (TI) Yanomami, em Roraima.
A pesquisa e documentação da língua Ye’kwana pelo ProDoclin para o dicionário teve início em 2019 com o trabalho do subprojeto que, ao longo de seis anos, contou com a consultoria de pesquisadores indígenas Ye’kwana e produziu mais de 1.400 verbetes multimídia, incluindo palavras e expressões da língua originária Ye’kwana.
A iniciativa faz parte do projeto de cooperação técnica internacional entre o Governo do Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE), a Funai, por meio do MNPI, e a Unesco, que visa a salvaguarda do patrimônio linguístico de povos transfronteiriços (que vivem em mais de um país) e de recente contato na Amazônia.
Oficinas ensinaram como acessar o dicionário. Foto: Divulgação/MNPI
Atividades de campo para criação do dicionário
Foram realizadas oficinas formativas com professores das escolas estaduais Waikás (Alto Alegre), Apolinário Gimenes (comunidade Fuduuwadunha) e Mötaaku (comunidade Kudaatanha), em Roraima., para uso do dicionário As atividades foram coordenadas pela pesquisadora linguista Isabella Coutinho, responsável pelo subprojeto, e pelo pesquisador Ye’kwana Edmilson Estevão Magalhães.
O foco das oficinas foi o treinamento para o uso da plataforma Japiim, desenvolvido especialmente pelo projeto e que permite o acesso ao dicionário multimídia Ye’kwana em dispositivos móveis mesmo em áreas sem conexão à internet. A plataforma também hospeda mais de 14 dicionários multimídia de línguas indígenas produzidos.
Atendendo a uma demanda das lideranças indígenas e da Associação Wanassedume Ye’kwana (Seduume), foi produzido um vídeo tutorial na língua Ye’kwana. Gravado na sede da associação em Boa Vista, em Roraima, o material audiovisual detalha as funcionalidades da plataforma Japiim. O objetivo é facilitar a disseminação do conhecimento para além das salas de aula, alcançando famílias e jovens em diferentes contextos comunitários.
A conclusão dos trabalhos reforça a missão institucional da Funai, por meio do MNPI, em apoiar processos participativos de documentação que garantam que as línguas indígenas permaneçam vivas e integradas às novas tecnologias de informação.
Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas
O ProDoclin surgiu no antigo Museu do Índio (atual MNPI) em 2008, como uma resposta estratégica à vulnerabilidade de diversas línguas indígenas no Brasil. O programa foi desenhado para criar um acervo digital de alta qualidade, utilizando tecnologia de ponta para registrar não apenas palavras, mas cantos, narrativas, rituais e conhecimentos tradicionais.
Ao longo de quase duas décadas, o ProDoclin tornou-se uma referência internacional em metodologia colaborativa, onde o indígena deixa de ser apenas objeto de estudo para se tornar o pesquisador de sua própria cultura.
Entre os diversos povos já beneficiados pelas ações de documentação do programa, estão os povos indígenas do Xingu, como os Kuikuro e Kalapalo, assim como os Karajá, Xavante e Kayapó, e os da Amazônia e Nordeste, Incluindo os Baniwa, Ashaninka, Maxakali, Krahô e, mais recentemente, os grupos de recente contato e transfronteiriços, como os Ye’kwana e Korubo.
O Brasil convive com uma pluralidade linguística ainda desconhecida por grande parte da população. São 391 povos e 295 línguas indígenas faladas, de acordo com dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa atualizada em outubro de 2025, mostra que a população indígena passou de aproximadamente 897 mil para quase 1,7 milhão de pessoas, das quais 74,51% declararam seu pertencimento étnico em 2022.
Para a Funai, os números reforçam a necessidade de uma atuação integrada entre União, estados, Distrito Federal e municípios para assegurar o acesso dos povos indígenas a todos os serviços ofertados pelo Poder Público.
A autarquia lembra que todos os entes da federação devem atuar na promoção e proteção dos direitos dos povos indígenas, considerando, entre outros pontos, que o Censo 2022 aponta a presença indígena em 4.833 municípios. Segundo a pesquisa, São Paulo é o estado com o maior número de povos indígenas identificados pelo Censo — 271 ao todo. Em seguida, destacam-se o Amazonas, com 259, e a Bahia, com 233.
Canal do Livramento na foz do Rio Amazonas. Foto: Divulgação / Setrap
O Amazonas fechou 2025 com o menor número de alertas de desmatamento em oito anos. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram 2.798 registros, o menor índice desde 2017. O resultado representa queda de 28% em relação a 2024, quando houve 3.897 alertas.
Entre os municípios, Apuí teve o maior número de alertas em 2025: 543. Em seguida aparecem Lábrea (334) e Boca do Acre (232). Na área desmatada, Apuí também liderou, com 18,5 mil hectares. Lábrea registrou 12,2 mil e Novo Aripuanã, 6,4 mil hectares.
A área desmatada também caiu em 2025. Foram 72 mil hectares, contra 79 mil no ano anterior — redução de 9,4%. É o menor índice desde 2018 e confirma a tendência de queda registrada no estado desde 2023.
Realização do monitoramento no Amazonas
O monitoramento é feito diariamente pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), que usam as informações para orientar ações de combate e definir políticas ambientais.
Desmatamento no Amazonas. Foto: Divulgação / Embrapa
O Ipaam aplicou R$ 271,9 milhões em multas ambientais em 2025. Desse total, R$ 179,3 milhões foram por desmatamento ilegal. Em 2024, o valor havia sido menor: R$ 194 milhões, sendo R$ 106 milhões ligados ao desmatamento.
O órgão explica que os valores das multas não significam arrecadação imediata, já que muitos processos ainda passam por defesa ou recurso. O dinheiro efetivamente recolhido vai para o Fundo Estadual do Meio Ambiente (Fema), administrado pela Sema, que financia projetos de proteção ambiental no Amazonas.
A Amazônia colombiana registrou uma redução de 25% no desmatamento acumulado estimado entre janeiro e setembro de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024, segundo o Boletim Trimestral de Detecção Precoce do Desmatamento nº 44 do Instituto de Hidrologia, Meteorologia e Estudos Ambientais (Ideam) colombiano.
Segundo o relatório, estima-se que 36.280 hectares foram desmatados durante os três primeiros trimestres de 2025, em comparação com aproximadamente 48.500 hectares registrados no mesmo período do ano anterior, confirmando uma tendência sustentada de redução do desmatamento no bioma amazônico.
As maiores áreas estimadas de desmatamento concentraram-se nos meses de janeiro (14.250 hectares) e fevereiro (9.503 hectares), enquanto maio registrou o menor impacto, com apenas 54 hectares desmatados, refletindo tanto as variações sazonais quanto a implementação de ações de controle e contenção no território.
Da mesma forma, quatro departamentos foram responsáveis por 98% do desmatamento estimado na Amazônia colombiana em 2025: Meta e Caquetá, com 31% cada; Guaviare, com 24%; e Putumayo, com 12%, o que demonstra uma alta concentração territorial do fenômeno.
Rio Putumayo, na Colômbia. Foto: Daniel Acosta/Pixabay
O boletim destaca que as maiores reduções cumulativas foram registradas em Meta (-6.750 hectares), Caquetá (-4.734 hectares) e Guaviare (-1.499 hectares). Em contrapartida, Putumayo apresentou um aumento líquido estimado de desmatamento de +1.569 hectares, reforçando a necessidade de ações diferenciadas e direcionadas, em consonância com o Plano Integral de Contenção do Desmatamento.
De fato, o Governo Nacional fortaleceu as ações de restauração ecológica, o envolvimento de gestores ambientais e extensionistas, a implementação de acordos voluntários de conservação, a promoção de cadeias produtivas sustentáveis e manejo florestal sustentável, bem como o apoio a 5.562 famílias beneficiadas pelos incentivos econômicos do programa Conservar Paga.
Os alertas persistem no arco noroeste da Amazônia Colombiana
Embora os resultados acumulados demonstrem os esforços contínuos de coordenação institucional e gestão territorial com o objetivo de conter o desmatamento, o Boletim nº 44 alerta que o comportamento do fenômeno é influenciado por variações climáticas, entre outros fatores, o que exige a manutenção e o reforço das ações nos períodos e territórios de maior pressão.
Especificamente, durante o terceiro trimestre de 2025 (julho a setembro), a Ideam identificou o impacto da transição entre o fim da estação chuvosa e o início da estação seca, um período em que as pressões sobre a floresta se intensificam.
Nesse contexto, foram identificados quatro Núcleos de Detecção Precoce de Desmatamento, localizados no arco noroeste da Amazônia colombiana, nas áreas de Guaviare, Meta, Caquetá e Putumayo:
Cuemaní – Cartagena del Chairá (Caquetá)
Trata-se do núcleo mais relevante, associado a pastagens para apropriação indevida de terras, expansão da pecuária extensiva insustentável e aumento da infraestrutura rodoviária não planejada, inclusive em áreas da Reserva Florestal da Segunda Lei e em áreas próximas ao Parque Nacional Natural da Serranía de Chiribiquete.
Yaguará II – Calamar (Guaviare)
Essa área central afeta principalmente a Reserva Indígena Llanos del Yarí – Yaguará II e setores do Parque Nacional Natural Serranía de Chiribiquete, com dinâmicas de colonização induzidas por estradas ilegais e expansão de pastagens.
Puerto Caicedo – Puerto Asís (Putumayo)
Nessa região, predomina a expansão de cultivos ilícitos, combinada com processos subsequentes de conversão de pastagens.
Puerto Guzmán (Putumayo)
A pecuária extensiva e a apropriação de terras predominam nesta área, com impactos em reservas indígenas e áreas florestais estratégicas.
Em conclusão, o desmatamento na Amazônia colombiana diminuiu 25% no período cumulativo estimado entre janeiro e setembro de 2025. No entanto, o monitoramento mostra que as principais pressões que historicamente impulsionaram esse fenômeno, principalmente de origem antropogênica, persistem. Essas pressões estão associadas à conversão de terras para pastagens, à pecuária extensiva insustentável e à expansão de infraestrutura de transporte não planejada. No departamento de Putumayo, essa dinâmica é ainda agravada pela expansão de cultivos ilícitos, enquanto, em menor escala, também são registrados impactos relacionados à extração ilegal de madeira e à mineração ilegal.
Em casos excepcionais, foram identificadas causas naturais, como movimentos de massa associados a chuvas extremas, em setores do Parque Nacional Natural da Serranía de Chiribiquete e na Reserva Andoke de Aduche.
Por fim, o Governo apela à responsabilidade partilhada dos cidadãos e das entidades territoriais para reforçar a justiça ambiental, prevenir as queimadas a céu aberto, a exploração madeireira indiscriminada e as alterações não autorizadas na cobertura vegetal, e avançar na proteção e recuperação das florestas do país, em conjunto com as comunidades que habitam e cuidam do território.
*Com informações do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia