Home Blog Page 44

Redução da vegetação nativa deixa Brasil mais exposto aos eventos extremos do El Niño, aponta MapBiomas

0

Cerca de um terço (33%) do território brasileiro perdeu cobertura florestal nativa. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Apesar da redução no desmatamento observada nos anos mais recentes, no acumulado dos últimos 41 anos o Brasil viu sua cobertura de vegetação nativa cair de 79% para 65% entre 1985 e 2025. O retrato apresentado pela Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, lançada no dia 12 de agosto, revela uma paisagem em que áreas naturais continuam a ser reduzidas em detrimento dos usos antrópicos e ficam expostas aos efeitos de extremos climáticos, como secas e enchentes – fenômenos agravados em anos de El Niño.

Os dados históricos de precipitação (disponíveis na plataforma do MapBiomas Atmosfera) mostram que os biomas brasileiros têm registrado secas ou chuvas cada vez mais intensas em anos com El Niño de maior intensidade, como o que se espera em 2026.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A comparação dos dados da série histórica de cobertura e uso da terra do MapBiomas com as anomalias de precipitação (mm) entre os meses de setembro e novembro durante três eventos recentes de forte El Niño (1997/98, 2015/16, 2023/24) revela que a redução de chuvas vem se agravando, com exceção do Pampa e da região sul da Mata Atlântica, onde há um aumento da precipitação.

É nesse trimestre que são observados os extremos mais críticos de precipitação durante os eventos de El Niño no Brasil. Os dados apontam diferenças regionais desses efeitos sobre as áreas com vegetação nativa e as áreas com uso agropecuário.

Floresta no Acre tem vegetação preservada devido à leis ambientais do estado
Acre possui cerca de 85% de sua cobertura vegetal nativa preservada. Foto: Pedro Devani/Secom Acre

A Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados. No último El Niño (2023/2024), a maior redução de chuvas foi observada nas áreas de agropecuária no bioma Amazônia (178 mm abaixo da média climatológica). No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se acentua a cada novo evento de El Niño, principalmente nas áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último El Niño teve efeito pronunciado na redução das precipitações, sendo que 2024 foi o ano mais seco da série histórica mapeada.

Os eventos de El Niño produziram excesso recorrente de chuva no Sul do Brasil, considerando as anomalias de precipitação entre setembro e novembro. No Pampa, foi constatado que o excesso de chuvas foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa em dois eventos de El Niño analisados.

“Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explica Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

Transformações no território brasileiro

Ao longo de 41 anos, cerca de um terço (33%) do território brasileiro sofreu pelo menos uma mudança de cobertura e uso da terra, e 67% permaneceu estável.

Na comparação direta entre os anos de 1985 e 2025, quase um terço (28%) do Brasil passou por transições na cobertura e no uso da terra, variando entre biomas e dentro de cada bioma. Nessa análise, considera-se que uma área teve transição quando a classificação em 2025 difere da de 1985 e é classificada como estável quando as classes coincidem nestes dois anos, independentemente de mudanças ao longo do tempo.

As transições registradas englobam, por exemplo, ganho ou redução de superfície de água, o avanço antrópico sobre áreas naturais (e vice-versa), bem como a alternância entre diferentes usos da terra. A área com transições nesse período chega a 241 milhões de hectares, dos quais 56% (136 milhões de hectares) foram de vegetação nativa convertida para áreas de agropecuária.

Essa é a principal transição de cobertura e uso da terra na Amazônia (55 milhões de hectares, que equivalem a 83,6% de todo o território modificado no bioma), Cerrado (52 milhões de hectares, ou 59,4% da área total de transições no período), Caatinga (14,1 milhões de hectares, ou 58,9%) e Pampa (4 milhões de hectares, ou 44,1%).

Por outro lado, Caatinga e Mata Atlântica destacam-se por apresentarem as maiores áreas de transição de uso agropecuário para vegetação nativa, totalizando 4,4 milhões de hectares (18,2% do total das transições na Caatinga) e 6,2 milhões de hectares (13,6% na Mata Atlântica).

Leia também: Manaus perdeu, em 10 anos, floresta nativa equivalente a 347 Arenas da Amazônia

Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

A Mata Atlântica registrou ainda a maior proporção de expansão da silvicultura, que adicionou 4,1 milhões de hectares (9,1% de toda a área transicionada do bioma entre 1985 e 2025). Por sua vez, a conversão de pastagens para a agricultura consolidou-se com maior expressividade no Cerrado (8,8 milhões de hectares; 10% da área transicionada no bioma) e na Mata Atlântica (8,5 milhões de hectares; 18,8%).

Os mapas da Coleção 11 revelam que essas transições de coberturas naturais para usos antrópicos vêm se reduzindo nos últimos anos, um resultado já antecipado no Relatório Anual do Desmatamento de 2025.

“Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta desde 2019, resultado de uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior. Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, comenta Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

No bioma Pantanal, o encolhimento de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados é acompanhado pela inclusão, na Coleção 11, de uma nova classe de mapeamento: a savana alagada, caracterizada por espécies arbóreas distribuídas de forma esparsa em meio à vegetação arbustiva e herbácea ao longo de cursos d’água e planícies de inundação. Essa classe sofreu uma redução de 84% no Pantanal, caindo de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025.

Formação Florestal perdeu 65 milhões de hectares em 41 anos

A Formação Florestal continua sendo a principal cobertura natural do Brasil, com 359,5 milhões de hectares em 2025, o equivalente a 42,3% do território nacional. Também foi a cobertura que apresentou a maior redução absoluta desde 1985, com perda acumulada de 65 milhões de hectares.

Apesar dessa diminuição, as formações florestais continuam concentrando grande parte das áreas que permaneceram sem mudança ao longo dos últimos 41 anos. Dos 557 milhões de hectares mapeados com a mesma classe de cobertura ou uso da terra de 1985 a 2025, cerca de 335 milhões de hectares correspondem à Formação Florestal. Outros 84 milhões de hectares permanecem classificados como Formação Savânica e aproximadamente 35 milhões como Floresta Alagável.

Depois da Formação Florestal, dentre as demais classes de vegetação nativa, a Formação Savânica foi a que teve maior perda absoluta (-46 milhões de hectares), seguida da Formação Campestre (-6,3 milhões de hectares) e de Campos Alagados e Áreas Pantanosas (-3,2 milhões de hectares). No mesmo período, os usos antrópicos expandiram sua ocupação sobre essas áreas convertidas. A pastagem ampliou sua área em 61,6 milhões de hectares, a agricultura cresceu 48 milhões de hectares, a silvicultura aumentou 8 milhões de hectares, e as áreas urbanizadas, outros 2,5 milhões de hectares.

Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas de vegetação nativa

A distribuição dessas transformações varia entre os biomas brasileiros. Em área absoluta, Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Na sequência aparecem Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Quando a análise considera a participação da vegetação nativa dentro de cada bioma, o Cerrado e o Pampa apresentam as maiores reduções proporcionais ao longo da série histórica, com perdas de 34% e 32%, respectivamente. Em 2025, Amazônia e Pantanal permanecem como os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% de seu território ocupado por coberturas nativas.

Já a Mata Atlântica, apesar de ter a menor redução proporcional nesse período (12%), ainda é o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa (32%), especialmente por conta do desmatamento ocorrido antes do período mapeável por satélite.

25 estados e DF perderam vegetação nativa

As transformações observadas na cobertura e no uso da terra também aparecem em escala estadual. De 1985 a 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção a essa tendência, com aumento de 1% na cobertura de vegetação nativa no período.

Em 2025, Amapá e Amazonas permaneceram como os estados com maior proporção de vegetação nativa, ambos com 95% do território, seguidos por Roraima, com 92%. Na outra ponta está Sergipe, com 22%, seguido por Alagoas e São Paulo, ambos com 21%.

A intensidade das mudanças, no entanto, varia entre os estados. Rondônia reduziu sua cobertura de vegetação nativa de 92% para 59% de 1985 a 2025. Maranhão passou de 91% para 61%; Mato Grosso, de 90% para 61%; e Tocantins, de 90% para 61%. Em estados cuja ocupação territorial já era consolidada antes do início da série histórica, como São Paulo e Paraná, essas mudanças entre classes antrópicas e naturais foram menores ao longo do período.

Agropecuária predomina na maioria dos municípios brasileiros

Em 1985, o Brasil tinha 150,2 milhões de hectares ocupados pela agropecuária, ou 18% de seu território. Em 2025, a atividade já ocupa quase um terço (32%) do país, com 273,3 milhões de hectares. As pastagens continuam respondendo por mais da metade (60,6%) dessa área, com 165,6 milhões de hectares em 2025. Desde 1985, as pastagens incorporaram 61,6 milhões de hectares. A partir de 2006, a área de pastagem no país se mantém relativamente estável (com crescimento abaixo de 1,5 milhões de hectares ao ano).

agricultura familiar amazonas brasil
Agricultura familiar. Foto: Mauro Neto/Secom AM

A agricultura passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Entre as culturas temporárias, a soja foi a que apresentou a maior expansão, passando de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e representando 66,5% de toda a área de agricultura do país em 2025. A cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões de hectares para 11,1 milhões de hectares no mesmo período.

A silvicultura também expandiu sua participação na paisagem brasileira, passando de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025.

Essa expansão teve reflexos sobre os municípios brasileiros. Em 1985, a agropecuária era a cobertura ou uso da terra predominante em 46% deles. Em 2025, essa proporção aumentou para 59%. Em 2.114 municípios (38% do total), a pastagem é a principal cobertura ou uso da terra. A agricultura predomina em outros 1.092 municípios (20%), enquanto a Formação Florestal permanece como cobertura predominante em 1.104 municípios (20%). Nos últimos 41 anos, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

Marismas na Zona Costeira do Pampa passam a ser mapeadas

As marismas passam a integrar pela primeira vez o mapeamento do MapBiomas, ainda em versão beta e limitadas à zona costeira do Pampa, embora também ocorram ao longo de todo o litoral brasileiro. São áreas pantanosas sob influência de água salobra, localizadas nas margens dos estuários, onde ocorre o contato entre a água doce de rios ou lagunas e a água do mar. Sua vegetação é predominantemente herbácea, formada por gramíneas e juncos adaptados à água salgada.

Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas no Pampa. Essas formações predominam em climas subtropical e temperado e, no Brasil, ocorrem principalmente na zona costeira da Região Sul. O levantamento identifica marismas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí.

A área ocupada por usinas fotovoltaicas no Brasil chegou a 43,3 mil hectares em 2025, crescimento de 38 vezes em relação a 2016, o primeiro ano em que a classe foi mapeada na coleção 11. A Caatinga concentrava 63% dessa área, o equivalente a 27,2 mil hectares. Outros 32%, ou 13,9 mil hectares, estavam no Cerrado, e 5%, correspondentes a 2,2 mil hectares, na Mata Atlântica.

Minas Gerais reunia 16,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas em 2025, 37,6% do total nacional. O estado, cuja área mapeada cresceu 133 vezes na última década. Em 2025, Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte concentravam, juntos, 74,8% da área de usinas fotovoltaicas identificada no país, ou 32,3 mil hectares.

Os parques eólicos ocupavam 28,7 mil hectares em 2025, ante 4,8 mil hectares em 2016 – um crescimento de 6 vezes no período. A Caatinga concentrava 85% da área mapeada, com 24,4 mil hectares. O Cerrado respondia por 8%; o Pampa, por 6%; e a Mata Atlântica, por 1%.

Rio Grande do Norte e Bahia reúnem 61,7% da área de parques eólicos mapeada em 2025, totalizando 17,7 mil hectares. A área de parques eólicos nos estados do Nordeste aumentou 5,7 vezes no período mapeado, passando de 4,7 mil hectares em 2016 para 26,9 mil hectares em 2025.

*Material publicado originalmente pelo MapBiomas Brasil.

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro na Amazônia Legal

Foto: Reprodução/TMF Fertilizantes

A Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), por meio do projeto ABRAMPA pelo Clima, com apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lançaram no dia 14 de agosto, em evento online, o livro ‘Gado, madeira e ouro na Amazônia Legal: desafios e iniciativas de rastreabilidade e transparência‘.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A publicação oferece um dos mais completos diagnósticos já produzidos sobre os mecanismos de controle das três cadeias produtivas que mais pressionam a floresta amazônica, reunindo evidências científicas, análise jurídica, levantamento normativo, decisões judiciais e iniciativas públicas e privadas voltadas ao combate às ilegalidades.

Também foram lançadas notas técnicas sobre o fortalecimento da rastreabilidade das cadeias produtivas e dos critérios ambientais para a concessão de crédito rural. 

O estudo demonstra que transparência e rastreabilidade deixaram de ser apenas exigências de mercado para se tornarem instrumentos essenciais de proteção ambiental, combate ao desmatamento, responsabilização de infratores e manutenção da competitividade brasileira diante de novas exigências internacionais, como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR).

Ao longo de quase 500 páginas, a publicação identifica fragilidades estruturais comuns às cadeias do gado, da madeira e do ouro. Entre elas, as bases de dados que não conversam entre si, baixa transparência das informações públicas, fiscalização fragmentada entre diferentes órgãos e mecanismos de rastreabilidade incapazes de impedir que produtos de origem ilegal sejam inseridos no mercado formal.

“O livro mostra que o problema não é a falta de tecnologia. Em muitos casos, os dados já existem, mas permanecem dispersos, inacessíveis ou sem integração. Isso impede que informações capazes de identificar desmatamento, grilagem e outras ilegalidades sejam utilizadas de forma eficiente para proteger a Amazônia e dar segurança jurídica às atividades econômicas”, afirma Alexandre Gaio, coordenador do projeto ABRAMPA pelo Clima.

Leia também: Roraima atinge marca histórica de rebanho bovino com 1,3 milhão de cabeças de gado

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro
Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

“Ficou evidente, com o estudo, que o maior desafio da rastreabilidade é capturar os ilícitos ocultos, isto é, aqueles que ocorrem sob as copas das árvores ou em terras públicas, especialmente naquelas cobertas por florestas públicas não destinadas”, ressalta Paulo Moutinho, cientista sênior do IPAM e revisor técnico da publicação.

Segundo as entidades, a publicação busca apoiar a atuação do Ministério Público, do Poder Judiciário, de órgãos ambientais, do setor privado e da sociedade civil na construção de cadeias produtivas compatíveis com a conservação da floresta, a proteção dos direitos humanos e os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

Notas técnicas

Além do livro, também foram lançadas duas notas técnicas que transformam os principais achados da pesquisa em recomendações práticas para o aprimoramento da legislação, da atuação institucional e das políticas públicas, oferecendo subsídios técnicos para órgãos ambientais, Ministério Público, Poder Judiciário, reguladores financeiros e formuladores de políticas públicas.

A primeira, sobre a necessidade de aprimoramento dos sistemas de controle e transparência para a rastreabilidade das cadeias produtivas do gado, madeira e ouro na amazônia legal, apresenta contribuições técnicas e jurídicas para fortalecer os sistemas de controle, transparência e rastreabilidade das cadeias do gado, da madeira e do ouro na Amazônia Legal, defendendo a integração de bases de dados, maior interoperabilidade entre sistemas e ampliação do acesso a informações estratégicas para o combate ao desmatamento, à grilagem de terras e aos crimes ambientais. 

Leia também: Estudo aponta que 62% da área de exploração de madeira no Amazonas é ilegal

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Divulgação/Millpar

A segunda nota técnica, sobre a necessidade de aprimoramento dos critérios ambientais para a concessão e a fiscalização de crédito rural, apresenta propostas para aperfeiçoar o Manual de Crédito Rural, com o objetivo de fortalecer os critérios socioambientais aplicáveis ao financiamento da atividade agropecuária.

Entre as recomendações estão o reforço dos mecanismos de monitoramento e fiscalização dos empreendimentos financiados e a adoção de salvaguardas que impeçam a destinação de recursos a atividades vinculadas ao desmatamento ilegal, à grilagem de terras públicas e a outras irregularidades ambientais. 

Diagnóstico baseado em evidências

O diagnóstico consolida dados de pesquisas atualizadas sobre o tema. Entre 1985 e 2023, a área ocupada por pastagens na Amazônia cresceu mais de 363%, alcançando aproximadamente 59 milhões de hectares. Mais de um terço da madeira produzida na região ainda tem origem sem autorização. Já o garimpo em Terras Indígenas aumentou 1.217% em 25 anos, consolidando-se como um dos principais vetores de degradação ambiental e conflitos socioambientais na Amazônia. Além de apresentar esse panorama, a obra detalha como as fragilidades de cada cadeia favorecem a chamada “lavagem” de produtos ilegais.

Na cadeia do gado, por exemplo, o estudo mostra que as GTAs (Guias de Trânsito Animal), criadas originalmente para fins sanitários, poderiam ser utilizadas para reconstruir todo o histórico de movimentação dos animais quando integradas a bases como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), áreas embargadas e alertas de desmatamento. Entretanto, o acesso restrito a essas informações impede que elas sejam plenamente utilizadas para combater a lavagem de gado e o desmatamento ilegal.

Outro exemplo apresentado envolve os fornecedores indiretos — considerados o principal “ponto cego” da cadeia da carne. O livro cita investigações que identificaram mais de 90 mil cabeças de gado criadas em áreas griladas sendo transferidas para fazendas regulares antes do abate, permitindo que animais de origem ilegal chegassem ao mercado formal. O diagnóstico também destaca que nenhum dos 151 frigoríficos avaliados pelo Radar Verde 2025 comprovou monitoramento efetivo de fornecedores indiretos.

Na cadeia da madeira, o diagnóstico demonstra que possuir documentação não significa, necessariamente, que a madeira tenha origem legal. Entre os mecanismos de fraude identificados estão a criação de créditos florestais fictícios por meio da superestimação de árvores em planos de manejo, emissão de documentos falsos, uso de empresas de fachada, reutilização irregular de DOFs (Documentos de Origem Florestal) e mistura de madeira legal e ilegal durante o processamento industrial.

Diagnóstico inédito mapeia cadeias do gado, da madeira e do ouro. Foto: Reprodução/JusBrasil

Já na cadeia do ouro, considerada a mais vulnerável das três, o estudo conclui que o Brasil ainda não possui um sistema nacional de rastreabilidade capaz de acompanhar o minério desde a extração até sua comercialização. Essa lacuna favorece a lavagem de ouro ilegal proveniente de Terras Indígenas e Unidades de Conservação e fortalece estruturas ligadas ao crime organizado. A publicação descreve ainda mecanismos utilizados para conferir aparência de legalidade ao minério, como o uso de títulos minerários incompatíveis com a produção declarada e a mistura de ouro de diferentes origens antes da primeira venda.

Caminhos para fortalecer a governança

Além de sistematizar os principais desafios, o livro apresenta um conjunto de recomendações para aprimorar a governança das três cadeias produtivas. Entre elas estão a integração entre bases de dados ambientais, agropecuárias e minerárias; ampliação da transparência de informações públicas; fortalecimento da fiscalização; interoperabilidade entre sistemas federais e estaduais; uso de tecnologias de monitoramento e adoção de regras mais robustas de devida diligência socioambiental por empresas e instituições financeiras.

O diagnóstico é resultado de um trabalho multidisciplinar que reuniu especialistas em direito ambiental, políticas públicas e governança socioambiental. A autoria é de Lívia Cunha de Meneze, Vivian Maria Pereira Ferreira e Raquel Frazão Rosner, advogadas do projeto ABRAMPA pelo Clima, com revisão técnica de representantes da ABRAMPA, IPAM, Ministério Público Federal, WWF e Imaflora, refletindo um esforço colaborativo para consolidar evidências, marcos jurídicos e experiências sobre a rastreabilidade das cadeias produtivas da Amazônia Legal.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM Amazônia.

Biblioteca em Tefé, no Amazonas, reúne acervo científico especializado sobre a Amazônia

0

Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

Desde a década de 1990, a Biblioteca Henry Walter Bates, localizada no Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), reúne um dos mais importantes acervos especializados em ciência e pesquisa sobre a Amazônia. Com mais de 28 mil títulos catalogados, o espaço abriga livros, coleções raras, periódicos científicos, a produção técnico-científica do Instituto Mamirauá e obras de cronistas, escritores e pesquisadores que ajudaram a registrar, interpretar e compreender a Amazônia e a região do Médio Solimões ao longo do tempo.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

O acervo contempla obras voltadas à conservação da biodiversidade, ao uso sustentável dos recursos naturais, aos estudos sobre populações ribeirinhas e à diversidade socioambiental amazônica. Além da riqueza de seu conteúdo, a biblioteca chama atenção pela localização privilegiada, com vista de 180º para o Lago Tefé, um dos principais cartões-postais da cidade.

A bibliotecária Graciete Rolim trabalha na Biblioteca Henry Walter Bates desde sua implantação e acompanha a história do espaço desde os primeiros anos de funcionamento. Segundo ela, a origem da biblioteca está diretamente ligada às pesquisas que deram início ao Projeto Mamirauá e, posteriormente, ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

“A Biblioteca Henry Walter Bates nasceu, literalmente, das pesquisas do cientista e idealizador da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, José Márcio Ayres. Em meados da década de 1980, ele se instalou na região para estudar o uacari-branco e, ao longo desse trabalho, reuniu um importante acervo bibliográfico. Anos depois, no início da década de 1990, com a estruturação do Projeto Mamirauá, Ayres disponibilizou grande parte desse material para compor a biblioteca, criada em 1994″, explica Graciete.

“Com a criação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em 1999, o espaço passou a contar com uma estrutura ainda mais consolidada. Além dele, outros pesquisadores também passaram a doar livros, relatórios e publicações científicas, contribuindo para a formação do acervo inicial”, relembra a bibliotecária.

Graciete Rolim também destaca que o nome da biblioteca presta homenagem a um dos mais importantes naturalistas que estudaram a Amazônia. “A biblioteca recebeu o nome de Henry Walter Bates em homenagem ao naturalista inglês, cujos estudos sobre a Amazônia serviram de importante referência para José Márcio Ayres e para diversas pesquisas desenvolvidas na região”, explica.

Ao longo de mais de três décadas, a biblioteca consolidou-se como uma importante fonte de consulta para pesquisadores, estudantes e profissionais de diversas áreas do conhecimento. Inserida em uma região cercada por importantes áreas protegidas, o espaço apoia estudos desenvolvidos na Floresta Nacional de Tefé e nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, tornando-se referência para pesquisas sobre o Médio Solimões e a Amazônia.

Hoje, a Biblioteca Henry Walter Bates consolidou-se como uma guardiã da memória e da produção científica sobre essas unidades de conservação, preservando o conhecimento acumulado ao longo de décadas de pesquisas realizadas na Amazônia.

Leia também: Biblioteca Pública do Estado do Amazonas, a guardiã da história amazonense

Biblioteca é a ‘guardiã da memória científica da Amazônia’

Entre as milhares de obras que compõem o acervo, a Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas. O espaço também preserva mais de 400 títulos de periódicos científicos e informativos, além de coleções bibliográficas formadas a partir de doações de pesquisadores que marcaram a história da instituição, como José Márcio Ayres, Deborah de Magalhães Lima e Michael Goulding.

Um dos destaques é a Coleção de Obras Raras, composta por exemplares publicados entre os séculos XIX e XX. Entre eles estão as primeiras edições de duas das obras mais antigas do acervo: A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, de Alfred Russel Wallace, publicado em 1853, e The Naturalist on the River Amazons, de Henry Walter Bates, lançado em 1863 e considerado um dos mais importantes registros sobre a história natural da Amazônia.

a Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas.
Biblioteca Henry Walter Bates reúne toda a produção técnico-científica desenvolvida pelos pesquisadores que passaram pelo Instituto Mamirauá ao longo de décadas. Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

A coleção também reúne outros títulos históricos relacionados às primeiras expedições científicas realizadas na região.

O acervo também reúne obras de autores contemporâneos da região Norte que contribuíram para a produção científica, histórica e literária sobre a Amazônia. Entre os títulos estão Memórias de Mamirauá, de Edna Ferreira Alencar; Mamirauá, de Thiago de Mello; e A Formação Histórica do Território Tefeense, de Kristian Oliveira de Queiroz, além de diversas outras publicações dedicadas à história, à cultura e aos territórios amazônicos.

Além de preservar esse patrimônio bibliográfico, a Biblioteca Henry Walter Bates disponibiliza espaços destinados à leitura, ao estudo e à pesquisa, oferecendo computadores com acesso à internet para estudantes, pesquisadores e moradores da região. O diversificado acervo sobre a Amazônia também atrai turistas e visitantes interessados em conhecer um dos mais importantes centros de documentação científica da região.

Horários de funcionamento

Visitantes, estudantes e pesquisadores podem acessar a Biblioteca Henry Walter Bates mediante identificação na portaria do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, localizado na Estrada do Bexiga, nº 2.584, bairro Fonte Boa, em Tefé (AM). Parte do acervo da biblioteca também pode ser pesquisado aqui.

O atendimento ao público ocorre de segunda a quinta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 18h. Às sextas-feiras, a biblioteca funciona das 8h às 12h e das 13h às 17h.

Foto: Tácio Melo/Instituto Mamirauá

*Com informações do Instituto Mamirauá

Registro de fósseis sugere duas novas espécies de macacos que viveram na Amazônia brasileira

0

Registro fóssil de primatas na Amazônia ainda é extremamente escasso. Os restos foram encontrados às margens do Alto Rio Juruá e da BR-364, no Acre. Foto: Bart van Dorp/Flickr

Um grupo de cientistas desenterrou quatro dentes e um pedaço do “osso do tarso”, datados de cerca de 11 milhões de anos, na região do Acre, Amazônia brasileira, provenientes da formação geológica Solimões Superior. Embora pequenos e alguns em estado moderado de preservação, os fósseis mais do que dobram a diversidade conhecida de primatas do Mioceno na Amazônia brasileira, além de revelarem duas espécies totalmente novas: Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A nomeação dos dois macacos amazônicos foi possível graças à tomografia computadorizada de alta precisão e fotografia óptica dos fósseis encontrados. Os cientistas reconstruíram sua alimentação baseada nos macacos atuais: com cerca de seis quilos, Parabrachyteles vesperus tinha uma dieta composta de alimentos fibrosos, rica em folhas, como a dos muriquis. Já Migmacebus juruaensis provavelmente não ultrapassava um quilo, e teve uma dieta composta principalmente de frutas e objetos duros, como os atuais macaco-prego, macaco-inglês e parauacu.

De acordo com o artigo, publicado no Journal of Mammalian Evolution (Nature), a descrição do Parabrachyteles representa um capítulo da história evolutiva dos muriquis, enquanto Migmacebus se apresenta como uma “quimera morfológica dos macacos-esquilo atuais e dos macacos-prego”.

“A descoberta de um parente próximo dos muriquis na região do Acre, na Amazônia Ocidental, reformula drasticamente nossa compreensão da história evolutiva e biogeográfica do grupo, sugerindo que seus ancestrais já tiveram uma distribuição muito mais ampla do que se reconhecia anteriormente”, afirma Laurent Marivaux ao Jornal da USP.

Primeiro autor da publicação e pesquisador da Universidade de Montpellier, na França, o paleontólogo destaca que os muriquis modernos, hoje restritos à Mata Atlântica brasileira, não possuíam registro fóssil conhecido.

Leia também: Conheça espécies de macacos que só são encontradas na Amazônia

Esses achados são fruto de um esforço colaborativo de longa duração, que reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros em expedições sistemáticas realizadas com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade da proto-Amazônia brasileira. Annie Hsiou, coordenadora do Laboratório de Paleobiodiversidade Integrada (Lapi) da USP em Ribeirão Preto, participou do trabalho de campo que vem coletando fósseis ao longo dos últimos 15 anos.

“A diversidade dos platirrinos no Mioceno amazônico era maior do que se imaginava. O Migmacebus juruaensis apresenta uma combinação inédita de características compartilhadas com macacos-prego e macacos-de-cheiro, indicando que a diversificação dos cebíneos foi mais complexa do que o registro fóssil mostrava até agora”, aponta a professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coautora do artigo.

Da escassez à revelação dos fósseis

O trabalho foi idealizado por pesquisadores do Museu de Ciências Naturais (MCN) do Rio Grande do Sul, ligado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura e da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Cruzeiro do Sul. A coleta também envolveu pesquisadores da Universidade de Toulouse (França), do Instituto Argentino de Nivología e do Instituto de Ecorregiones Andinas (também da Argentina).

A maior parte dos pequenos fósseis detalhados na pesquisa foi encontrada a partir do processo de screenwashing (peneiramento) de sedimentos coletados em barrancas de rios. O material mais grosseiro é triado ainda em campo, enquanto os sedimentos mais finos são levados ao laboratório, onde passam por uma nova triagem sob a lupa de estereomicroscópios. Foi nesse processo que o grupo identificou os dentes de primatas descritos no artigo.

Leia também: Fóssil de dente achado no Acre desvenda chegada dos primeiros primatas às Américas

Mapa dos sítios paleontológicos no Estado do Acre, noroeste do Brasil. Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior: Três ficam às margens do Alto Rio Juruá (PRJ 09, PRJ 25 e PRJ 26), no município de Marechal Thaumaturgo, e uma (AC 65, Morro do Careca) está às margens da BR-364, entre Tarauacá e Feijó – Mapa: retirado do artigo
Mapa dos sítios paleontológicos no Estado do Acre, noroeste do Brasil. Os fósseis foram encontrados em quatro localidades associadas à Formação Solimões Superior: Três ficam às margens do Alto Rio Juruá, no município de Marechal Thaumaturgo, e uma nas margens da BR-364, entre Tarauacá e Feijó. Imagem retirada do artigo.

À primeira vista, o registro fóssil pode parecer modesto. No entanto, para a Amazônia, o achado é sem precedentes e cientificamente precioso. “Em ambiente tropical cheio de vegetação como a região amazônica e permeado por rios, é muito difícil a preservação. A quantidade acaba sendo insignificante se comparada com outras regiões mais abertas como, por exemplo, a Patagônia, onde as barrancas estão expostas”, explica ao Jornal da USP a curadora da Seção de Paleontologia do MCN, Ana Maria Ribeiro.

Modelos digitais 3D dos restos dentários de primatas platirrinos da Formação Solimões Superior, Estado do Acre, Brasil. Imagem retirada do artigo.

Além da Patagônia, regiões como La Venta, na Colômbia, contam com diversos registros fósseis, “com numerosas espécies e fósseis mais completos”, lembra Annie Hsiou. Porém, trata-se de sítios que vêm sendo investigados continuamente há mais de 60 anos. “A pesquisa na região do Acre ainda está em um estágio muito inicial. Com trabalho de campo contínuo e exploração constante, esperamos que o registro fóssil amazônico se torne progressivamente mais rico”, complementa Marivaux.

Experiente em sítios de difícil acesso, a paleontóloga Annie Hsiou comenta sobre os desafios da coleta em locais como a Amazônia: “A floresta densa encobre os afloramentos fossilíferos. Muitos afloramentos só ficam expostos durante a estação seca, quando o nível dos rios baixa e temos acesso às barrancas dos rios”. Além disso, as condições de campo são severas. “O calor e as temperaturas extremas no verão amazônico são um teste de resistência física e mental”, diz. Esses fatores limitam a prospecção e ajudam a explicar por que os fósseis de primatas amazônicos continuam tão raros na Amazônia brasileira.

Segundo Laurent Marivaux, cada nova descoberta responde a algumas perguntas, mas também levanta muitas outras. Por exemplo, quando diferentes grupos se originaram, como se dispersaram pela América do Sul e como as mudanças ambientais antigas moldaram sua evolução. “Essa é a natureza da paleontologia: cada fóssil é uma peça pequena, porém crucial, de um quebra-cabeça muito maior. É por isso que cada nova descoberta na Amazônia representa um importante passo adiante”, diz Marivaux.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, escrito por Tabita Said

Produção de mudas melhora renda de agricultores familiares em São Félix do Xingu, no Pará

0

Foto: Reprodução/Imaflora

No município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, uma família de agricultores transformou um sonho em realidade: converter uma antiga área degradada em uma propriedade com capacidade para produzir até 12 mil mudas de árvores florestais e frutíferas. Denominada Sítio Fé na Vida, a propriedade funcionava como uma fazenda de gado marcada pelo desgaste do solo, até que a implementação de um Sistema Agroflorestal (SAF) começou a redesenhar a paisagem local.

Leia também: SAFs de açaí são alternativa alimentar para enfrentamento da crise climática

​A história de sucesso do Sítio Fé na Vida nasceu da determinação do casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa. Há cinco anos, eles decidiram mudar os rumos da propriedade de cinco hectares, recebida como doação do pai de Diandson, para apostar na agricultura de baixo impacto ambiental.

​“A gente buscou trabalhar o SAF integrado com cacau, açaí, banana e cajá. Com isso, conseguimos iniciar também a recuperação das nascentes”, conta Daiane, com um sorriso de satisfação.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Casal Diandson Santiago e Daiane Feitosa apostou no plantio de espécies nativas e frutíferas para reflorestar área degradada e transformar desmatamento em desenvolvimento sustentável. Foto: Divulgação/Imaflora

​​Localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável com mais de 1,6 milhão de hectares, o Sítio Fé na Vida produz hoje mudas de cacau, cupuaçu, açaí, ipê-roxo, jatobá, cumaru, castanha-do-brasil, além de outras essências, além de diversas outras essências florestais.

​A trajetória, no entanto, exigiu resiliência. “Quando começamos, não tínhamos estrutura nenhuma. Produzíamos nossas mudas e os vizinhos vinham procurar, mas não tínhamos volume para vender. Começamos com uma estrutura pequena coberta de palha e era um grande sacrifício para regar”, recorda Dianderson, orgulhoso do caminho percorrido ao lado da esposa.

​Assistência técnica e restauração ambiental no Pará

O sistema de irrigação em viveiros garante uma lâmina hídrica uniforme e microclima ideal para o desenvolvimento radicular, elevando o padrão de qualidade das mudas. Foto: Reprodução/Imaflora

A virada de chave veio com a assistência técnica do Programa Florestas, do Imaflora. A assistência permitiu aos agricultores escreverem um novo capítulo. Primeiro, veio a implementação do SAF Cacau, focada na recuperação e proteção do solo, na diversificação da produção, na segurança alimentar e na geração de renda.

​“Conseguimos perceber de perto a forte vocação deles para a produção de mudas e, a partir dessa realidade, concluímos a ampliação do viveiro, fortalecendo a produção de espécies florestais e frutíferas. Hoje, o espaço tem capacidade média para produzir de 10 a 12 mil mudas por ciclo, ampliando as oportunidades e valorizando um trabalho que já faz parte da vida e da dedicação desse casal.”, explica Jefferson Campos, analista técnico do Imaflora.

Leia também: Mais de 10 mil mudas passam a ser monitoradas por tecnologia desenvolvida por startup amazonense

Produção de mudas envolve tecnologia, futuro e mercado sustentável

​De um solo exaurido a uma propriedade diversificada e rentável, o casal prova que o desenvolvimento sustentável na Amazônia é possível. “Hoje o viveiro está todo estruturado e conta com irrigação automatizada. Em apenas 10 minutos fazemos a rega de todas as mudas, processo que antes levava horas. Para o futuro, nossa proposta é introduzir novas espécies para criar um banco de sementes. O Imaflora tem sido fundamental, nos apoiando desde as técnicas de plantio, seleção de sementes até a comercialização das mudas”, finaliza Diandson.

A experiência do Sítio Fé na Vida mostra que recuperar áreas degradadas também pode significar criar oportunidades para quem vive e produz na Amazônia. Ao transformar a produção de mudas em fonte de renda, Diandson e Daiane contribuem para ampliar a oferta de espécies nativas e frutíferas, fortalecer a agricultura familiar e estimular a recuperação de áreas degradadas.

Iniciativas como essa ajudam a construir uma relação mais equilibrada entre produção e conservação, gerando benefícios que ultrapassam os limites da propriedade: cada muda produzida pode representar uma nova árvore no território, mais biodiversidade, proteção do solo e das nascentes e melhores condições de vida para as famílias que dependem da floresta.

É um exemplo de que investir nas pessoas e na natureza pode ser, ao mesmo tempo, uma estratégia de desenvolvimento para a Amazônia e um caminho para construir um futuro mais sustentável.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora

De Porto Velho para Paris: artista rondoniense tem obras selecionadas para exposição na França

0

Jessica Ribeiro, artista plástica de Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

A artista plástica e professora de pintura Jessica Ribeiro encontrou na arte, ainda na infância, uma forma de expressão. Moradora de Porto Velho (RO), ela ensina pintura para crianças e adultos e agora se prepara para levar o trabalho que desenvolveu em Rondônia para o Carrousel du Louvre, em Paris, na França.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Ao Grupo Rede Amazônica, a artista contou que esta não é a primeira vez que expõe fora do país. A primeira experiência internacional ocorreu em Portugal, em 2025. Antes de chegar a Paris, porém, a relação de Jessica com a arte começou ainda na infância.

“Quando criança, gostava de praticar, fazendo desenhos, olhando, copiando traços que eu queria aprender. Mas para eu me sentir artista, foi algo que foi crescendo dentro de mim e algo que eu fui aprimorando até eu perceber que aquilo era algo que realmente fazia parte de quem eu sou”, conta.

Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Reprodução

Grande parte do aprendizado veio de forma autodidata, observando outras pessoas e experimentando. Como nem sempre tinha acesso aos materiais adequados, Jessica também precisou improvisar, experiência que, segundo ela, acabou influenciando sua forma de criar.

Com o passar do tempo, foi aprimorando a técnica e, aos 10 anos, teve a primeira oportunidade de fazer aulas de pintura. Foi quando teve contato com a tinta a óleo, técnica que continua presente em seu trabalho.

“A arte faz parte da minha personalidade, está impregnada em mim. Eu não consigo me imaginar longe disso”, conta a artista.

Do pincel ao ensino

Pintura dos alunos de Jéssica Ribeiro em Porto Velho. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

A ideia de ensinar surgiu a partir de algumas experiências que Jessica teve como professora de pintura. A partir dos workshops que passou a oferecer, ela percebeu que também tinha facilidade para ensinar e decidiu abrir o próprio ateliê, onde hoje ministra aulas para pessoas de diferentes idades.

“Eu vi que era algo que eu conseguia fazer, porque você saber pintar, você saber desenhar é uma coisa. Agora, você saber ensinar isso para outras pessoas é diferente. Você tem que ter uma metodologia”, revela Jessica.

Para a professora, ensinar vai além do retorno financeiro. Ao longo dos dois anos de aulas no ateliê, ela percebeu que criou um ambiente de amizade e aprendizado entre os alunos. Além de ensinar técnicas, Jessica também busca dar liberdade para que cada estudante desenvolva a própria criatividade e encontre novos caminhos dentro da arte.

“Eu tenho alunos que já fizeram aulas aqui e hoje se sentem independentes para poder criar suas próprias artes, para poder buscar o seu próprio caminho. Mas é muito legal saber que eles começaram aqui”, revela Jessica.

Leia também: Artista de Rondônia expõe obras sobre a Amazônia em Nova York

Pinturas de Jéssica Ribeiro retratando à fauna e arquitetura regional. Foto: Reprodução

Hobby manual

Em tempos de inteligência artificial (IA), excesso de telas e consumo acelerado de conteúdo, a prática de hobbies manuais, como a pintura e o desenho, ganha ainda mais relevância. Para Jessica, ensinar essas técnicas também é uma forma de oferecer às pessoas um espaço para a expressão das próprias emoções.

A professora e artista visual Amanara Brandão Lube reforçou essa percepção. Segundo ela, a arte vai além de um simples passatempo ou de uma atividade com finalidade comercial. O processo criativo mobiliza habilidades motoras, criativas, imaginativas e emocionais, além de permitir que cada pessoa expresse sua subjetividade e suas experiências de vida.

“O mais importante, muitas vezes, não é a obra final, mas o processo percorrido para chegar até ela. Fazer arte exige que a pessoa esteja inteira, colocando na prática sua história, suas emoções e sua forma de ver o mundo”, explica Amanara.

Para Amanara, em um cenário marcado pela inteligência artificial e pelo consumo rápido de informações, a prática artística representa um momento de pausa e conexão consigo mesmo.

“A arte é uma forma de nos situarmos no mundo diante de tanto estímulo. Mobilizar as emoções, as habilidades manuais e intelectuais para criar algo que está além da lógica da produtividade e do consumo rápido já é um ato de resistência”, afirma.

A especialista também destaca que a arte fortalece a imaginação, considerada por ela uma ferramenta essencial para encontrar soluções, criar novas possibilidades e projetar um futuro diferente. Outro ponto ressaltado por Amanara é que desenhar e pintar não são habilidades restritas a quem nasce com um “dom”. Segundo ela, o desenvolvimento artístico depende principalmente da prática e do estímulo.

“Os estudos em arte mostram que esse ‘dom’ é um mito. Existem pessoas com mais facilidade, mas ninguém desenvolve uma linguagem artística sem prática e estudo. Qualquer pessoa pode fazer arte”, diz.

Ela lembra ainda que as crianças costumam desenhar, brincar e criar de forma espontânea, mas que, ao longo da vida, muitas acabam perdendo essa liberdade por causa da pressão por perfeição e do medo de errar.

“Nunca é tarde para encontrar ou reencontrar o artista que existe dentro de cada pessoa”, afirma.

Artista com reconhecimento internacional

Artista de Rondônia começou a paixão pela arte na infância.
Jessica Ribeiro, artista plástica expondo em Portugal. Foto: Reprodução

Depois de transformar a paixão da infância em profissão, Jessica agora vive um dos momentos mais importantes da carreira. A artista já expôs em Portugal e se prepara para expor no Carrousel du Louvre, em Paris. A oportunidade surgiu após ela passar por um processo seletivo, algo que, segundo Jessica, sempre sonhou ao acompanhar outros artistas brasileiros e estrangeiros sendo selecionados.

As obras que serão apresentadas são inéditas e foram produzidas especialmente para a exposição, mas mantêm a identidade que Jessica construiu em sua trajetória, com referências a mulheres, à cultura de Porto Velho e à própria história familiar.

Para ela, levar sua arte a Paris também significa apresentar Rondônia e sua cultura a pessoas de diferentes partes do mundo.

“Eu acho muito importante porque é um ponto muito incrível para a vida do artista. Você percebe que a sua arte não vai conquistar somente as pessoas que vivem essa cultura, que se conectam, que já têm uma história, mas também pessoas de uma cultura muito diferente da nossa”, afirma.

Jessica diz ainda que tem curiosidade para saber como o público estrangeiro vai receber suas obras e destaca a possibilidade de compartilhar um pouco da identidade amazônica com quem visitar a exposição. “É muito interessante poder dividir com essas pessoas um pouco mesmo do que me rodeia. Então, poder ter uma arte minha numa galeria tão famosa como o Carrousel du Louvre é muito incrível”, completa.

Pinturas de Jéssica Ribeiro. Foto: Mateus Santos/Rede Amazônica RO

*Por Mateus Santos, Rede Amazônica RO

Relatório sobre agricultura na Amazônia Legal aponta que região concentra dois terços de assentamentos ocupados por famílias

0

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A Amazônia Legal reúne 66% das famílias e 88% da área dos assentamentos de reforma agrária do Brasil. Essa concentração torna as famílias assentadas um público prioritário para políticas de adaptação climática, segurança alimentar e proteção florestal. Secas, cheias e incêndios já reduzem a produção, dificultam o transporte e comprometem a renda de produtores com poucos recursos para prevenir perdas ou retomar suas atividades depois de um desastre.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A região possui aproximadamente 480 mil famílias e 33 milhões de hectares em assentamentos tradicionais, organizados principalmente em lotes destinados à produção familiar. Também concentra modalidades como Reservas Extrativistas e Projetos de Desenvolvimento Sustentável, que reconhecem formas coletivas de ocupação, atividades extrativistas e compromissos de conservação. A Amazônia reúne 81% das famílias e 96% da área dos assentamentos diferenciados do país.

Os dados fazem parte do relatório Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas, do projeto Amazônia 2030. Entre 2021 e 2024, as perdas agropecuárias declaradas na Amazônia Legal ficaram próximas de R$ 6 bilhões por ano. Ao mesmo tempo, apenas 9% dos agricultores familiares da Região Norte tinham acesso ao crédito rural e proporção semelhante recebia assistência técnica.

Quase 90% dos assentamentos do Brasil são ocupadas por famílias
Amazônia Legal reúne 66% das famílias e 88% da área dos assentamentos de reforma agrária do Brasil. Foto: Nilo D’Avila / Greenpeace

Recursos já existentes podem financiar a adaptação

O relatório identifica o Fundo Social do Pré-Sal como uma fonte possível de recursos para adaptação climática, segurança alimentar e proteção florestal na Amazônia. Criado em 2010 para transformar parte das receitas petrolíferas em desenvolvimento social e regional de longo prazo, o fundo pode financiar programas de proteção ambiental e adaptação às mudanças climáticas. A legislação posterior ampliou as finalidades autorizadas, incluindo segurança alimentar, infraestrutura hídrica e proteção dos direitos dos povos indígenas.

A recomendação não envolve nem expressa apoio à abertura de novas fronteiras de exploração de petróleo, incluindo a Margem Equatorial. O relatório não avalia a conveniência ambiental, econômica ou climática desses projetos. A proposta refere-se exclusivamente aos recursos já arrecadados e às receitas decorrentes da produção do pré-sal que já ocorre.

Em 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou o esvaziamento financeiro do Fundo Social, a aplicação de recursos fora dos objetivos definidos em sua lei de criação e a ausência, naquele momento, de estruturas adequadas de governança. Dos aproximadamente R$ 146 bilhões arrecadados desde a criação do fundo, restavam cerca de R$ 20 bilhões ao final de 2022. Somente em 2021 e 2022, mais de R$ 64 bilhões foram usados para amortizar a dívida pública. (Portal TCU)

A constatação do TCU reforça a necessidade de vincular os recursos disponíveis às finalidades previstas em lei, com programas identificáveis, critérios públicos e avaliação dos resultados.

Agricultura familiar precisa receber recursos antes das perdas

O relatório propõe que parte dos recursos disponíveis financie serviços que as famílias mais vulneráveis dificilmente conseguem contratar individualmente. Entre as possibilidades estão assistência técnica, prevenção de incêndios, monitoramento, infraestrutura comunitária de água, adaptação das propriedades e apoio a sistemas agroflorestais.

agricultores_familiares_colhem_feijao-caupi_-_emanuel_cavalcante_-_embrapa_amapa.jpg
Agricultores familiares colhem feijao caupi. Foto: Emanuel Cavalcante/Embrapa Amapá

Algumas dessas ações exigem gasto público direto, especialmente assistência técnica pública, monitoramento, prevenção de incêndios e infraestrutura comunitária. Outras podem combinar recursos não reembolsáveis, orientação técnica e crédito, como recuperação de áreas produtivas degradadas, armazenamento local, sistemas agroflorestais e manejo sustentável.

O objetivo é aplicar recursos antes que secas, cheias e incêndios provoquem perdas de produção e renda. Para agricultores com pouco capital e acesso limitado ao crédito, a perda de uma safra pode afetar a alimentação da família, impedir o plantio seguinte e aumentar o endividamento.

Leia também: Agricultura familiar é 8ª maior produtora de alimentos do mundo; Região Norte representa 15,4% do país

Agricultura na Amazônia Legal: condições de produtividade, riscos climáticos e propostas para produzir melhor em áreas já abertas
Relatório está disponível para download. Foto: Reprodução/Imazon

Restauração pode proteger a produção e gerar renda

A restauração florestal é uma das aplicações possíveis analisadas no relatório. A floresta ajuda a regular as chuvas, reduz o risco de incêndios e sustenta rios utilizados para abastecimento, transporte e geração de energia. Sua conservação protege as condições naturais das quais a agricultura depende.

Além das ações examinadas no relatório, os autores defendem a criação de mecanismos que remunerem agricultores familiares pela conservação e pela restauração realizadas além das obrigações legais. Essa proposta exigiria critérios para selecionar áreas e beneficiários, verificar os resultados e definir valores e duração dos pagamentos.

“A agricultura familiar tem menos acesso a crédito e assistência técnica e menos recursos para enfrentar secas, cheias e incêndios. A proposta não depende da abertura de novas áreas de exploração de petróleo: ela trata de dar melhor destinação às receitas geradas pela produção do pré-sal que já ocorre. O Fundo Social pode financiar a adaptação da produção, a proteção e a restauração florestal. Além das ações analisadas no relatório, defendemos mecanismos que remunerem agricultores familiares pela conservação e pela restauração realizadas. Nos pequenos imóveis onde houver pastagens degradadas, isso permitiria combinar a melhoria da agropecuária, a recuperação ambiental e uma nova fonte de renda”, afirma Paulo Barreto, coautor do estudo e mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale, nos Estados Unidos.

Destinação depende das decisões orçamentárias

A destinação de recursos do Fundo Social para a Amazônia não é automática. Ela depende do Plano Anual de Aplicação de Recursos, da elaboração do orçamento federal e da aprovação da Lei Orçamentária Anual pelo Congresso Nacional. O plano orienta o orçamento, mas a decisão final passa pelo Poder Executivo e pelo Legislativo. (Serviços e Informações do Brasil).

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon.

Mesmo com potencial mineração, subsolo do Amazonas enfrenta gargalos ambientais, geológicos e jurídicos

Recuperação de área de mineração na Região Norte do País. Foto: Liliane Bello

Riquíssimo em insumos estratégicos para a transição energética e com um faturamento que alcançou R$ 908 milhões em 2024, o subsolo do Amazonas vive um paradoxo: apesar das jazidas de relevância internacional, o estado responde por apenas 6,1% dos processos minerários ativos da Amazônia Legal e por apenas 0,5% dos royalties arrecadados na região.

Os dados, que constam em um levantamento recente da Agência Nacional de Mineração (ANM), acendem o debate sobre os limites técnicos, econômicos e socioambientais para a extração de minérios no subsolo, em meio à floresta tropical. Para entender o que trava o avanço desse setor e os riscos envolvidos, o Grupo Rede Amazônica ouviu especialistas em geologia e em direito ambiental.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

As riquezas do subsolo amazonense

A Bacia do Amazonas concentra reservas de grande escala em seu subsolo. O principal destaque do estado é o Projeto Potássio Autazes, localizado no município de Autazes (a 112 km de Manaus). A silvinita (rocha de onde se extrai o potássio) se estende por mais de 155 km² na região, em profundidades que variam entre 685 e 865 metros.

Além do potássio, levantamentos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) apontam um alto potencial de nióbio e terras raras no subsolo, especialmente na Bacia do Rio Negro, enquanto a Mina Pitinga, em Presidente Figueiredo, se consolida como a maior reserva e produtora de estanho do Brasil.

Subsolo do Amazonas possui riquezas estratégicas
Subsolo do Amazonas possui grandes reservas minerais. Na foto, mineração realizada no Amazonas. Foto: Reprodução/G1 Amazonas

‘Potencial existe, mas ambiente e logística exigem rigor’, avalia especialista

Mesmo com riquezas estratégicas em seu subsolo, a baixa representatividade do Amazonas no total de processos minerários da região (6,1%) não significa ausência de minérios, mas reflete a predominância de rochas sedimentares e a densa cobertura florestal, que dificultam a identificação de jazidas.

Quem explica é o geólogo Tiago Felipe Arruda Maia, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e especialista em gênese de depósitos minerais. “Diversas apreensões de minérios nos nossos rios e em aeronaves clandestinas, feitas pelas polícias civil e federal, são prova disso, junto às inúmeras ocorrências de garimpos ilegais no estado. Uma maior cartografia geológica de detalhe e aerogeofísica no estado irão revelar os detalhes da geologia, mas o potencial existe com toda certeza”, afirma o professor.

Em relação ao projeto subterrâneo de Autazes em subsolo amazonense, o geólogo afasta os riscos de afundamento de solo como o registrado em Maceió, no Alagoas. Ele explica que a presença de uma camada selante de rocha sedimentar no subsolo amazonense e o preenchimento das cavas com o próprio sal residual garantem a estabilidade da operação.

Autazes no amazonas - potássio do brasil
Autazes, no Amazonas. Foto: Reprodução/Potássio do Brasil

“Haverá pouquíssima entrada de água superficial e/ou subterrânea nessa camada de sal capaz de dissolvê-lo e gerar afundamento do solo acima dele. Portanto o projeto tem viabilidade técnica para sua execução, mas um monitoramento e fiscalização precisos e constantes têm que ser feitos para garantir que tudo será executado corretamente”, pondera o geólogo.

Por outro lado, depósitos promissores na área do subsolo enfrentam limitações territoriais severas. No Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, há uma reserva estimada em 2,9 bilhões de toneladas de minério com teor médio de 2,8% de nióbio, mas a exploração é inviável por estar em uma área de tripla sobreposição de unidades de proteção e terra indígena.

Já na Mina Pitinga, onde a cassiterita ocorre associada ao tântalo e nióbio, o pesquisador destaca uma oportunidade na economia circular: as pilhas de rejeito acumuladas ao longo de décadas guardam alto potencial para a extração futura de terras raras.

Leia também: ‘Nova fronteira exploratória’, diz presidente do IBP sobre indícios de petróleo na Foz do Amazonas

Segurança jurídica não é flexibilizar direitos

Se a viabilidade técnica existe, o ambiente regulatório exige conciliação com as populações tradicionais e com a preservação da biodiversidade. Para o advogado Antonio Norte, doutor em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, a aplicação da Convenção 169 da OIT deve ser encarada como instrumento de pactuação socioambiental, e não como mera barreira burocrática.

“O maior desafio não está na existência da Convenção nº 169 da OIT, mas na forma como ela é implementada, uma vez que a consulta prévia, livre e informada não deve ser tratada como um obstáculo ao desenvolvimento, mas como uma garantia de legitimidade das decisões públicas”, avalia Antônio Norte.

A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é um tratado internacional que garante direitos aos povos indígenas e tribais, como a proteção de suas terras, cultura, identidade e formas de organização. Um dos principais pontos é o direito à consulta prévia, livre e informada antes da adoção de medidas administrativas ou legislativas que possam afetá-los diretamente.

O jurista também aponta um descompasso entre o faturamento da atividade mineral no estado (R$ 908 milhões) e a pouca compensação financeira revertida aos municípios afetados, que ficam com apenas 0,5% dos royalties (CFEM) gerados na Amazônia Legal.

Para corrigir essa distorção, Norte defende a reformulação da justiça fiscal ambiental, de modo que os recursos da CFEM sejam diretamente vinculados à infraestrutura local, à saúde e à recuperação de áreas degradadas.

Reserva Biológica Morro dos Seis Lagos está localizada no município de São Gabriel da Cachoeira. Foto: Foto/Araquém Alcântara

A insegurança jurídica motivada por disputas entre órgãos ambientais e o Ministério Público também é apontada como um gargalo que pode ser superado com regras claras desde as fases preliminares do projeto. Da mesma forma, em operações históricas como Pitinga, o especialista enfatiza que o controle ambiental deve cobrir todo o ciclo de operação do empreendimento.

“O licenciamento ambiental não deve ser compreendido apenas como autorização para iniciar a atividade, mas como um instrumento de gestão de todo o ciclo de vida da mineração. Na Amazônia, a boa governança exige que a exploração deixe como legado desenvolvimento econômico e social, e não passivos ambientais para as futuras gerações”, conclui.

*Com informações da Rede Amazônica AM

Justiça de Rondônia autoriza bebê indígena a ter três pais na certidão

0

Foto: Divulgação

O Tribunal de Justiça de Rondônia tornou pública, no dia 14 de agosto, uma decisão que garante que uma bebê indígena tenha os nomes de três pais na certidão de nascimento. A decisão, proferida em Guajará-Mirim (RO), reconhece o vínculo da criança com a mãe biológica e com os tios maternos, que a criam desde os dois meses de idade na Aldeia Pantrop.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

A menina, nascida em 2024, continuará com o nome da genitora, Iolanda Oro Eo, no documento. Agora, o registro também vai incluir os tios Joacir Oro Waram Xijein e Glenda Oro Eo como pai e mãe socioafetivos.

Justiça de RO autoriza bebê indígena a ter três pais na certidão
Foto: Reprodução/Instagram-@verdesflorestanoticias

Leia também: Relatório do Cimi aponta que Amazonas é o estado com mais mortes de crianças indígenas no país

Segurança para a bebê

A Justiça entendeu que o casal exerce a função com responsabilidade e garante um ambiente seguro para o desenvolvimento da bebê. O modelo, chamado de multiparentalidade, difere da adoção tradicional porque mantém a mãe biológica na vida e na documentação da filha.

Iolanda concordou voluntariamente com a inclusão dos irmãos no documento da criança. O juiz Eduardo Abílio, da 1ª Vara Cível, foi o responsável pela sentença. Ele destacou que a medida legaliza um arranjo familiar que já existia na prática.

Além disso, o magistrado afirmou que a ação respeita o interesse da menor e os costumes de organização social dos povos indígenas, garantidos pela Constituição Federal.

O processo teve pareceres favoráveis do Ministério Público e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Um estudo psicossocial também foi realizado e comprovou o “vínculo afetivo sólido e estruturado” entre a bebê e os tios.

*Com informações da Rede Amazônica Rondônia

Prefeitura mapeia casas para instalar armadilhas contra Aedes aegypti em Boa Vista

0

Agentes visitam 14 bairros para orientar moradores sobre as armadilhas contra o Aedes aegypti. Foto: Francisco Sena/PMBV

A Prefeitura de Boa Vista iniciou nesta segunda-feira, 10, o trabalho de mapeamento das casas que poderão receber ovitrampas, armadilhas utilizadas para monitorar a presença do mosquito Aedes aegypti. Ao longo da semana, equipes de Agentes de Combate às Endemias (ACE) estarão em 14 bairros da capital para identificar os locais e explicar aos moradores a importância da estratégia.

Utilizadas para monitorar a presença do mosquito, as ovitrampas atraem fêmeas para a deposição de ovos. A estratégia reforça a vigilância no município e permite identificar áreas com maior presença do vetor para intensificar as ações de prevenção e controle. A instalação das armadilhas começa na próxima segunda-feira, 17.

📲 Confira o canal do Portal Amazônia no WhatsApp

Prefeitura mapeia casas para instalar armadilhas contra Aedes aegypti em Boa Vista
Vigilância reforçada para identificar áreas com maior presença do Aedes e intensificar a prevenção. Foto: Francisco Sena/PMBV

A implantação será iniciada nos bairros com maior número de casos prováveis de arboviroses, como dengue, zika e chikungunya. São eles: Alvorada, Caranã, Cauamé, Cidade Satélite, Dr. Silvio Botelho, Dr. Silvio Leite, Jardim Equatorial, Jóquei Clube, Nova Cidade, Pintolândia, Raiar do Sol, Santa Tereza, Senador Hélio Campos e São Bento.

“As equipes farão todo o acompanhamento. Cerca de cinco a sete dias depois da instalação, serão recolhidas as palhetas que ficam dentro das armadilhas para análise. Com o monitoramento, a prefeitura passa a contar com informações mais precisas sobre a circulação do Aedes aegypti em diferentes regiões da cidade”, explicou o superintendente de Vigilância em Saúde e Ambiente, Pedro Siqueira.

Leia também: Revitalização do Laboratório do Hospital da Criança agiliza diagnósticos

A instalação da ovitrampa só é feita com o consentimento do morador ou responsável pelo imóvel. Foto: Francisco Sena/PMBV

Orientação à população faz parte da estratégia

A instalação da ovitrampa só pode ser feita com o consentimento do morador ou responsável pelo imóvel. Por isso, durante esta semana, os agentes também estão coletando as assinaturas dos moradores que aceitaram receber a armadilha. Durante a visita, os moradores recebem orientações sobre os cuidados necessários e são informados sobre a data prevista para a implantação do equipamento na residência.

“Quem tiver uma ovitrampa instalada em casa deve evitar retirar ou mudar o equipamento de lugar e, principalmente, deve permitir a entrada dos agentes no local. As equipes trabalham devidamente identificadas, para a segurança dos profissionais e dos moradores”, apontou Pedro.

A população deve manter a limpeza de quintais e eliminar possíveis criadouros. Foto: Andrezza Mariot/PMBV

Mesmo com o monitoramento, os cuidados dentro de casa continuam fundamentais para o combate ao Aedes aegypti. Entre as principais medidas estão a eliminação de recipientes que possam acumular água e a manutenção de quintais e demais áreas livres de possíveis criadouros.