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Avanço de narcopistas no Peru leva ao assassinato de lideranças indígenas

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Abrir e manter pistas ilegais na floresta amazônica tornou-se um negócio em si dentro de Ucayali. Foto: Mongabay Latam

Uma voz angustiada é ouvida do outro lado do telefone. A ligação vem de um território nativo da Amazônia peruana. “Eles estão querendo voar de novo. Por favor, entre em contato com a Dirandro. Por favor, não quero ter problemas na minha comunidade”, arrisca-se a dizer um indígena, cuja identidade permanecerá anônima, que pede a presença de oficiais do Departamento Antidrogas da Polícia Nacional do Peru (Dirandro), enquanto vê um avião desconhecido escondido na floresta à distância.

No meio da escuridão, sem que ninguém pudesse vê-lo e com a respiração agitada, ele narra como um grupo de homens anota um carregamento de drogas em uma pista de pouso ilegal aberta no território de sua comunidade. O desespero é evidente, especialmente porque sabe que está enfrentando um monstro gigante entrincheirado em Ucayali, região que se tornou um novo foco do narcotráfico no país.

Esse pedido de socorro é um dos muitos que chegam de diferentes comunidades indígenas da floresta peruana que vivem cercadas pela ilegalidade. O líder que arrisca ligar é uma das mais de cinquenta fontes jornalísticas entrevistadas pela Mongabay Latam, como parte de uma investigação de um ano que conseguiu rastrear um total de 128 pistas de pouso ilegais em seis regiões da Amazônia peruana: Ucayali, Huánuco, Pasco, Cusco, Madre de Dios e Loreto. Trabalhos de verificação posteriores confirmaram episódios de violência por trás de 76 delas. Dessas, foi constatado que 67 pistas estão ligadas ao tráfico de drogas — a maioria dentro ou no entorno de territórios indígenas.

Cada um desses vestígios de atividades ilegais na floresta foi detectado ou corroborado pela Earth Genome, organização sediada na Califórnia, Estados Unidos, especializada em análise por satélite do território, com a qual a Mongabay Latam se uniu para trabalhar nesta investigação, e que conta com o apoio do Pulitzer Center. Especialistas desenvolveram uma ferramenta de busca que usa inteligência artificial (IA) para detectar pistas de pouso clandestinas na Amazônia peruana.

Para fazer a análise funcionar, as equipes trabalharam com informações do Open Street Map, com dados de  pistas oficiais reportados pelo Ministério dos Transportes e Comunicações, e com vestígios de pistas usadas pelo narcotráfico identificados pelo Dirandro e pelo Governo Regional de Ucayali. Com todas essas informações, a inteligência artificial foi capaz de rastrear padrões semelhantes no território.

Feita a análise por satélite, cada faixa detectada foi verificada com fontes locais e oficiais por uma equipe jornalística da Mongabay Latam, que confirmou a localização, extensão, uso, data de abertura, presença dentro de espaços proibidos — como áreas protegidas, reservas indígenas e concessões florestais — bem como a proximidade de estradas e rios.

Imagens de satélite, que frequentemente tiram fotografias do planeta, nos permitem estabelecer detalhes, como quando as trilhas clandestinas foram abertas, uma vez que basta comparar o traço detectado pela ferramenta de busca desenvolvida com IA com a fotografia anterior do mesmo local, quando a floresta ainda estava de pé.

A análise por satélite das pistas clandestinas detectadas confirma a existência de rotas sólidas de tráfico de drogas que fogem ao controle das autoridades. A facilidade com que as pistas destruídas reabrem é prova disso. De acordo com o coronel da Polícia Nacional do Peru, James Tanchiva, também chefe da Divisão de Manobras Contra o Tráfico Ilícito de Drogas em Pucallpa, os traficantes de drogas mal levam uma semana para voltar à operação quando suas pistas são desativadas. “As organizações que traficam drogas”, diz ele, “têm uma boa logística, têm o braço armado e têm dinheiro. Essa é a realidade.”

A realidade também indica que a ilegalidade vai além do tráfico de drogas. “Estamos em um momento de confluência de crimes no Peru,  porque não é mais apenas uma questão de tráfico de drogas, mas vários crimes que estão sendo gerenciados e tratados em conjunto”, comenta Luisa Sterponi, especialista em sensores remotos do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês). 

Um relatório de junho de 2024, do qual Sterponi é o autor, afirma que nos últimos três anos houve um aumento na perda anual de floresta, apreensões de madeira ilegal e uma forte expansão das plantações ilícitas de coca. “O número de laboratórios de processamento de cocaína destruídos pela Polícia Antidrogas tem sido o maior do país, acompanhado por um aumento exponencial de pistas clandestinas.”

Sobrevivendo no triângulo da morte

O panorama bruto desenhado pelas narcopistas pode ser visto claramente no triângulo que compõe as regiões de Huánuco, Pasco e Ucayali. De fato, a ferramenta de busca com inteligência artificial gerada pelo Earth Genome evidenciou a alta concentração de pistas de pouso clandestinas em um espaço que poderia muito bem ser chamado de “triângulo da morte”. As pistas e plantações ilícitas de coca são cenário do assassinato de pelo menos 11 indígenas, segundo a Coordenadoria Nacional de Direitos Humanos do Peru, embora o número suba para 15 na contagem da Associação Interétnica para o Desenvolvimento da Floresta Peruana (Aidesep, na sigla em espanhol). Fontes locais apontam, no entanto, que as mortes que não são relatadas por medo de represálias não estão sendo consideradas.

“Conheço dois irmãos indígenas que foram assassinados em 2023 e um que desapareceu este ano”, conta um diretor de uma importante federação indígena da região, que pediu a proteção de seu nome. Os assassinatos e desaparecimentos fazem parte da violência enfrentada por 28 lideranças indígenas que estão sob ameaça nas três regiões, segundo mapeamento realizado pela Organização Regional Aidesep Ucayali (Orau).

Os traços ilegais no solo não apenas cortam o território e desmatam as florestas, mas também semeiam dinâmicas de terror. As imagens de satélite fornecem evidências concretas dessa realidade. Das 67 narcopistas detectadas pelo Earth Genome e Mongabay Latam em Huánuco, Pasco e Ucayali, 30 estão dentro de comunidades indígenas e 26 outras próximas a elas. Sete territórios em particular não estão apenas invadidos por pistas como também cercados por elas.

Outro dado relevante é sobre as plantações de coca nas três regiões, que somam 18.742 hectares: 12.221 em Ucayali, 4.960 em Huánuco e 1.561 em Pasco, de acordo com o último monitoramento de coca realizado pela Comissão Nacional para o Desenvolvimento e a Vida sem Drogas (Devida). No caso de Ucayali, a produção triplicou desde 2020, e em Huánuco dobrou.

Em sentido horário, pistas de pouso em Atalaya, Puerto Inca, Reserva Indígena Kakataibo Sul e Oxapampa. Imagens: Airbus DS 2022 / Earth Genome.

Para se ter uma ideia mais clara, é uma extensão equivalente a quase cinco Florestas da Tijuca, no Rio de Janeiro.

A pesquisa também confirmou que as 67 pistas de pouso clandestinas servem ao tráfico de drogas. Pelo menos 60 entrevistados, incluindo fontes locais e oficiais, bem como importantes líderes de três federações indígenas da Amazônia peruana, foram fundamentais para determinar com precisão seu uso.

No meio dessas rotas de tráfico de drogas, vivem comunidades indígenas que dizem estar aflitas com a mudança cultural abrupta que elas trouxeram a suas terras.

Algumas comunidades foram forçadas a dividir seu território com colonos encarregados de transportar carregamentos de drogas, monitorar laboratórios ou abrir novas pistas. Enquanto isso, devem se acostumar a parar sua rotina a cada voo. “Quando um avião vai pousar para ser carregado com drogas, todo o tráfego para. A população também. Isso não acontece com muita frequência, mas é assim que vivemos”, conta um líder indígena que morava em uma comunidade na província de Atalaya e que teve que deixar seu território por segurança.

Um cálculo feito pela Mongabay Latam, com base em dados da plataforma de monitoramento por satélite Global Forest Watch, mostra que, para abrir as 67 pistas, pelo menos 109 hectares de floresta tiveram que ser desmatados. No entanto, Luisa Sterponi, do UNODC Peru, explica que as consequências da presença de pistas clandestinas nas comunidades amazônicas vão além do impacto ambiental do desmatamento. “A abertura de uma pista clandestina é muito maior do que se pode imaginar. Eles têm um impacto direto no desmatamento, mas o impacto real é mais amplo e também envolve dimensões sociais.”

Duas comunidades localizadas entre Huánuco e Pasco convivem com 15 narcopistas dentro e ao redor de seus territórios. A mais antiga das pistas foi inaugurada em dezembro de 2015 e a mais recente em fevereiro de 2023.

“Sim, existem pistas de pouso, não na comunidade, mas ao redor. O Estado sabe quantas pistas existem e onde elas estão. Em Constitución são mais de 100”, conta um líder indígena da região.

As duas comunidades, visitadas por uma equipe jornalística da Mongabay Latam, têm a má sorte de morar no meio de uma das rotas do narcotráfico que se articula a partir da cidade de Constitución, polo do narcotráfico onde “tudo que há de ruim” e “violência, extorsão e assassinatos” fazem parte da rotina, como descreve Florencio Carrillo, executivo do Escritório Regional La Merced, da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (Devida). As comunidades também estão assentadas, além de tudo, em um setor central da floresta, onde convergem as sub-bacias dos rios Pichis, Palcazu, Santa Isabel e parte do Rio Pachitea.

Qual é a razão para o aumento de pistas clandestinas nessa área? Diante da pressão policial e militar no Vraem (Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro) — local que concentra mais de 38 mil hectares de plantações de folha de coca, a maior quantidade em todo o país — , grupos criminosos são obrigados a deslocar o transporte da droga para outro ponto. Esses novos espaços de comércio são o se chama “triângulo da morte” e onde se observa o chamado “efeito balão”; ou seja, você pressiona um setor do território e a atividade passa imediatamente para outro.

Nicolás Zevallos, diretor de Relações Públicas do Instituto de Criminologia e Estudos sobre a Violência, explica que a área oferece duas vantagens aos traficantes. A primeira tem a ver com a facilidade logística e operacional para o transporte de drogas do Peru para a Bolívia, devido à proximidade dessa área com o país vizinho. E a segunda é a possibilidade de evasão do controle policial e militar.

“Operar dentro do Vraem, que produz muito mais cocaína do que o resto da região, é quase impossível em termos de voos e transporte, portanto é mais fácil deslocar o produto dois ou três distritos para cima e colocar as pistas de pouso nas áreas de Atalaya, Pichis-Palcazu-Pachitea e Aguaytía”, explica Zevallos.

É por isso que as máfias procuram os lugares mais remotos e menos acessíveis, como comunidades indígenas e reservas para povos indígenas isolados.

Nas comunidades nativas do entorno da Reserva Indígena Kakataibo, a inteligência artificial detectou três pistas de pouso clandestinas: uma dentro da reserva e outra ao redor, ambas localizadas na zona norte, e uma terceira muito próxima à zona sul do território protegido. Informação verificada pela equipe jornalística que chegou ao local.

Três outras pistas de pouso foram confirmadas em duas reservas indígenas: uma dentro e outra nos arredores da Reserva Indígena Murunahua; e uma terceira perto da Reserva Territorial Kugapacori, Nahua, Nanti. Nesses casos, os sulcos abertos são observados muito próximos aos rios e no meio da floresta densa.

“É chocante que existam pistas clandestinas em tantas reservas indígenas, o que significa que o Estado não pode garantir a proteção efetiva de nenhuma delas”, diz Vladimir Pinto, chefe da organização ambientalista Amazon Watch no Peru.

Em uma comunidade perto da reserva Kakataibo, um líder indígena disse à Mongabay Latam que “seu território está encurralado” e que as autoridades locais e regionais não prestam atenção às suas queixas. Somente a guarda indígena se esforça para liberar seu território da presença do narcotráfico e de outras atividades ilegais. Isso se repete em todas comunidades adjacentes às reservas dos Povos Indígenas em Isolamento ou Contato Inicial (Piaci).

“A guarda indígena faz rondas, destrói poços de maceração e queima lavouras, mas são muitas”, conta uma fonte no território.

O negócio dos ‘campinhos’

Quem mora na província de Atalaya, em Ucayali, sabe muito bem como funciona o narcotráfico. Os depoimentos o descrevem como um negócio planejado e bem articulado, no qual as pistas desempenham um papel fundamental. De fato, Atalaya é considerada pela Devida uma das áreas com maior concentração de pistas clandestinas em todo o país, e um dos territórios onde a ferramenta de busca desenvolvida com IA detectou uma das maiores concentrações de rastros ilegais.

Em Atalaya só se entra com avisos: não fale com estranhos, entre acompanhado, fique em lugares por pouco tempo e procure sempre passar despercebido. A premissa é clara: não confie em ninguém. Uma vez na área, os avisos dão lugar à dificuldade de conseguir fontes que estejam dispostas a conversar. A maioria deles pede a proteção de seus nomes.

A equipe jornalística conseguiu chegar a uma pista de pouso clandestina recém-aberta e liberada. “São 985 metros, um grande ‘campinho’”, como são chamadas as pistas usadas pelos narcotraficantes nessa parte da Amazônia peruana.

Os responsáveis por ‘facilitar’ a chegada e saída dos aviões carregados de drogas costumam ser pessoas que moram na área e que conseguiram se instalar dentro das comunidades nativas, diz um motorista da região. Seu trabalho é garantir que os traficantes de drogas tenham uma pista de pouso clandestina à sua disposição para que a operação transcorra sem problemas.

“Podem sair até quatro voos por dia. Às vezes, enquanto um avião está sendo carregado com drogas, outro está decolando. Cada operação deve levar no máximo cinco minutos. Assim, a mesma organização consegue transportar até 1.200 quilos de cocaína por dia”, disse uma fonte local ao repórter que visitou a área.

Pista de pouso clandestina detectada na província de Puerto Inca. Foto: Image ©️ Airbus DS 2023 / produced by Earth Genome.

As 31 pistas detectadas na província de Atalaya pela ferramenta de busca desenvolvida com IA são apenas a imagem da situação atual. A pior parte é suportada pelas comunidades indígenas, porque, quando resistem ou se opõem à operação ilegal, tornam-se um obstáculo para as máfias. Ainda mais quando 13 das 31 pistas ilegais de Atalaya estão dentro de seus territórios e outras 13 ao redor. Guardas indígenas são, em muitos casos, a primeira linha de defesa.

No entanto, lutar contra um inimigo tão poderoso sem ajuda é impossível. Organizações criminosas, explicam especialistas, se reestruturam o tempo todo e mudam de estratégia. Agora, por exemplo, eles terceirizam algumas das tarefas da cadeia de ilegalidade, o que dificulta que a polícia e o exército encontrem os responsáveis.

Uma primeira transformação ocorreu com a chegada dos cartéis mexicanos que deram lugar a um sistema de terceirização, explica Nicolás Zevallos, do Instituto de Criminologia e Estudos da Violência. “Agora isso está ainda mais fragmentado, a ponto de basicamente serem os intermediários que controlam o transporte de drogas de um ponto para outro, mas eles não têm controle absoluto de toda a cadeia, usam vários fornecedores”, afirma. Zevallos acrescenta que no Peru, embora existam alguns grandes laboratórios que produzem cocaína, a grande maioria são pequenos laboratórios que produzem volumes reduzidos da droga que são estocados até que uma remessa “mais ou menos importante” seja obtida.

O especialista explica que, para que esse sistema fragmentado funcione, as organizações criminosas transnacionais enviam uma pessoa que serve de conexão com países produtores de drogas, como o Peru. Este sujeito contrata pessoas e coordena com os responsáveis locais a coleta e transporte das drogas, e depois sai.

Luisa Sterponi, do UNODC, concorda que diferentes fenômenos estão sendo observados em torno das drogas, desde o aparecimento de grupos criminosos menores e especializados que prestam serviços diretamente ao narcotráfico, até grupos criminosos transfronteiriços, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) que estão entrando no território peruano. “Esses grupos criminosos dedicados ao tráfico ilícito de drogas também estão se dedicando a outros crimes. A confluência de diferentes delitos nos grupos do crime organizado está aumentando dramaticamente.”

Noam López, professor da Escola de Governo e do Centro de Pesquisas Sociológicas, Econômicas, Políticas e Antropológicas da Universidade Católica do Peru (PUCP), e investigador principal em segurança Instituto de Análise Social e Inteligência Estratégica (Pulso-PUCP), tenta resumir. “Existem grupos do crime organizado instalados no Peru que atuam em todas as atividades ilegais ao mesmo tempo. O que deve ser levado em conta é que essas pessoas têm conhecimento do território e sabem como se aproximar das autoridades.”

Ele explica que geralmente há um líder que desenvolve uma estratégia e que, se for bem-sucedido, a repete diversas vezes: “Um líder organiza todas essas atividades. Então, imagine que você tem um batalhão de 30 a 50 jovens que têm o conhecimento do território. Quando ele se dá bem em um lugar e tem tudo organizado, passa para outra área. É isso que está acontecendo.”

Na cidade de Constitución, distrito de Pasco, as aeronaves leves são quase um símbolo local. Nas proximidades, encontram-se dezenas de pistas ilegais detectadas pela ferramenta de busca desenvolvida com IA para esta investigação. Foto: Mongabay Latam.

O especialista indica que a transferência de conhecimento é rápida e que, se alguém morre, é imediatamente substituído, pois já existem outras pessoas que conhecem o sistema. “É por isso que, se você destruir algumas pistas, elas são construídas e voltam a operar muito rapidamente.” A estratégia, especifica López, inclui a criação de empresas para lavar dinheiro. “Nosso foco deve ser o crime organizado, a lavagem de dinheiro e tudo o que tem a ver com fluxos ilícitos, porque é um negócio internacional e multiproduto”, conclui Luisa Sterponi, do UNODC Peru.

Para onde vai a droga que sai dessa região peruana? Um agente da área de Operações Táticas da Divisão de Manobras contra o Tráfico Ilícito de Drogas-Pucallpa disse à Mongabay Latam que aeronaves leves Cessna, com bandeira boliviana, pousam em Atalaya para transportar carregamentos de 300 a 350 quilos de cloridrato de cocaína. Eles costumam ter o departamento de Beni como destino e, em alguns casos, depois de pararem no norte da Bolívia, seguem a caminho do Brasil. Às vezes, eles também vão para a Colômbia, como menciona o coronel da Polícia Nacional do Peru, James Tanchiva, chefe da Divisão de Manobras Contra o Tráfico Ilícito de Drogas em Pucallpa.

Em resposta a um pedido de informação, o escritório central de Dirandro disse que, entre 2013 e 2022, eles destruíram 705 pistas de pouso clandestinas nas regiões de Huánuco, Pasco e Ucayali. As intervenções aumentaram especialmente entre 2019 e 2020, os anos mais críticos da pandemia e da violência nesses territórios. Além disso, 12 aeronaves leves destinadas ao tráfico de drogas foram destruídas nas três regiões e 19 aeronaves foram relatadas como danificadas entre 2012 e 2022.

Concessões para voos altos

“Eles deveriam construir um centro de operações do tipo Vraem em Ucayali, porque o tráfico de drogas está insustentável. Aprendemos a conviver, desde que a gente não mexa com eles”, disse o representante de uma concessão florestal na qual foi detectada uma pista de pouso clandestina. Apesar das denúncias apresentadas ao órgão responsável, ele diz que as autoridades não agiram.

Se você olhar para as imagens de satélite das pistas detectadas dentro das concessões florestais de Ucayali, você conseguirá ver que as manchas de plantações ilícitas de coca se sobrepõem a elas. Seis das dez pistas ilegais nas províncias de Atalaya, Coronel Portillo e Padre Abad estão no meio de plantações de coca.

“Aqueles que receberam concessões do Estado devem agir como guardiões da floresta e têm a responsabilidade de informar as autoridades e fazer uma denúncia quando ocorre uma invasão e quando encontram lavouras ilícitas ou pistas clandestinas”, disse Navarro. Pelo menos seis dos nove “guardiões” relataram o que encontraram e apontaram que as autoridades não deram consequência a suas reclamações, conforme consta nos relatórios da Osinfor. Vale ressaltar que hoje apenas quatro das nove concessões estão ativas; os títulos das demais concessões florestais expiraram.

Franco Navarro, do Governo Regional de Ucayali, disse à Mongabay Latam que, em sobrevoos realizados em 2023, foram detectadas até 21 pistas de pouso clandestinas dentro de concessões florestais e que todas as informações foram enviadas ao órgão responsável e às autoridades correspondentes, incluindo o Dirandro e a Procuradoria Provincial Especializada em Crimes de Tráfico Ilícito de Drogas de Ucayali. No entanto, um agente antidrogas de Pucallpa disse que não recebeu “nenhum documento de qualquer empresa com concessão florestal que aponte a existência de uma pista naquelas terras”.

Enquanto as responsabilidades se movem para frente e para trás, mais pistas são abertas.

O mapa mostra três camadas de informações: a localização das 10 concessões florestais, a presença de cultivos ilícitos de coca e as pistas de pouso clandestinas detectadas. Imagem: Mongabay Latam.

De todas as trilhas abertas dentro das concessões florestais, cinco delas foram construídas entre 2020 e 2021, em meio à pandemia de covid-19, época em que as inspeções florestais foram significativamente reduzidas devido às restrições aos trabalhos de campo.

Sobre a reportagem

Os nomes de alguns entrevistados e pessoas que participaram da reportagem, além de todas as comunidades indígenas, foram alterados ou omitidos para sua segurança. A decisão foi discutida com a Organização Regional Aidesep Ucayali (Orau).

Esta pesquisa foi realizada em parceria com o Consórcio de Apoio ao Jornalismo Independente na Região (Capir), que lidera o Institute for War and Peace Reporting (IWPR) na América Latina.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay. Leia o conteúdo completo AQUI.

Festa de São Gonçalo: evento que mostra a devoção, fé e cultura do Amapá

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Foto: Aog Rocha/GEA

Mazagão Velho (AP) amanheceu em clima de festa e devoção com a realização da tradicional festividade de São Gonçalo neste dia 10 de janeiro. O evento, que reúne moradores e visitantes, é marcado pela união entre fé e cultura, reforçando a identidade e a história da comunidade.

Os foliões, vestidos com trajes amarelo, branco e verde, que representam o santo, transformaram as ruas do município em cenário de fé com cânticos, balançar de sinos e toque de violão. O trajeto saiu da casa do juiz do mastro, pessoa que tem a responsabilidade de guardar a imagem de São Gonçalo como sinal de fé e esperança, levando-a no dia seguinte à igreja matriz.

“Sou devoto há dois anos, a gente se sente muito feliz em participar desse evento que é tão importante na nossa comunidade. Sou o festeiro e o juiz do mastro que recebeu São Gonçalo em casa, e hoje a gente leva ele à igreja para que mais tarde com a nova derrubada do mastro outras pessoas possam também participar e serem escolhidas para receber em sua casa o santo”, explicou José Amaral, de 50 anos.

Após a missa, houve uma procissão seguida do cortejo cultural em volta do quarteirão que retornou à capela. Além dos ritos religiosos, a festividade segue pela parte da tarde com momentos de confraternização, almoço coletivo, música ao vivo e atividades tradicionais como o leilão e a derrubada do mastro.

Com mais de 200 anos de história, o evento preserva a herança portuguesa no Brasil e marca na comunidade a chegada do calendário oficial das demais celebrações religiosas realizadas em Mazagão ao longo do ano, como a Festa de São Tiago.

Quem foi São Gonçalo?

O santo é conhecido como o padroeiro dos violeiros e também casamenteiro. São Gonçalo de Amarante, foi um português, que viveu entre os séculos 12 e 13. Visto como protetor dos humildes, sua trajetória foi marcada por milagres. Com sua inteligência, foi um sacerdote que buscou maneiras diferentes de atrair o público.

Foto: Reprodução/Governo do Amapá

Vendo que muitas vezes era difícil alcançar pessoas para falar sobre o divino, um dia ele resolveu se fantasiar como alguém comum para ir em frente aos bordéis tocar, cantar e dançar, e nesses pequenos gestos contínuos que levavam alegria e entretenimento ao público, ele conseguia aproximar as pessoas e assim evangelizar através da arte.

*Com informações da Agência Amapá

Remada e conscientização ambiental marcam programação pelos 409 anos de Belém

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Foto: Divulgação/Ozone

Belém (PA) celebra seus 409 anos de história neste dia 12 com uma ação ambiental inédita promovida entre o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), o Instituto Alashaster e a Ozone Conexão Natureza, uma associação que reúne adeptos da prática de remo.

O evento, batizado de ‘Remada Caminhos do Acari‘, ocorrerá na Área de Proteção Ambiental (APA) da Ilha do Combu, reunindo remadores e voluntários em uma jornada de conscientização ambiental e celebração da cultura local.

A ação integra atividades esportivas, coleta de resíduos e rodas de conversa sobre sustentabilidade, com o objetivo de promover o descarte correto do lixo e estimular a preservação das águas da região ribeirinha.

Com concentração marcada para às 7h30 na Base Ozone, localizada na Marina Pública de Belém, o evento começa com uma travessia pelo rio Guamá em direção à Ilha do Combu. Durante o percurso, os participantes terão a oportunidade de vivenciar a beleza natural da região, enquanto contribuem diretamente para a limpeza das águas e margens. A coleta de resíduos será apoiada por uma lancha disponibilizada pelo Ideflor-Bio, que acompanhará a remada e garantirá o transporte dos materiais recolhidos.

Foto: Ozone Conexão Natureza/Divulgação

A ação integra atividades esportivas, coleta de resíduos e rodas de conversa sobre sustentabilidade, com o objetivo de promover o descarte correto do lixo e estimular a preservação das águas da região ribeirinha.

Com concentração marcada para às 7h30 na Base Ozone, localizada na Marina Pública de Belém, o evento começa com uma travessia pelo rio Guamá em direção à Ilha do Combu. Durante o percurso, os participantes terão a oportunidade de vivenciar a beleza natural da região, enquanto contribuem diretamente para a limpeza das águas e margens. A coleta de resíduos será apoiada por uma lancha disponibilizada pelo Ideflor-Bio, que acompanhará a remada e garantirá o transporte dos materiais recolhidos.

Envolvimento

Sylvia Gayoso reforçou, ainda, a importância da participação coletiva no evento.

Vale destacar que a ação também conta com o apoio de uma cooperativa de materiais recicláveis de Belém, a qual receberá os resíduos recolhidos para o devido tratamento e reaproveitamento, fechando o ciclo de impacto ambiental positivo. A expectativa é que a remada dure cerca de uma hora e meia, com o retorno à Base Ozone previsto para o final da manhã.

Para muitos, o evento representa mais do que uma atividade esportiva ou turística: é uma celebração da conexão de Belém com seus rios e um chamado à ação para preservar este patrimônio natural. “Estamos muito felizes em fazer parte desta iniciativa que une cultura, esporte e sustentabilidade em uma data tão especial para a cidade. O Ideflor-Bio sempre será parceiro de tudo aquilo que possa contribuir para a manutenção dos ecossistemas e o bem-estar da população”, complementa Júlio Meyer.

Os organizadores esperam reunir cerca de 100 participantes, entre remadores, voluntários e membros da comunidade ribeirinha, reforçando o caráter colaborativo da ação. Os interessados em participar devem se inscrever previamente diretamente com Ozone Conexão Natureza pelo número (91) 99143-1995. As vagas são limitadas.

*Com informações de Agência Pará

Cataratas de Santo Antônio: projeto propõe construir passarela em cachoeira no Sul do Amapá

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O Amapá pode ter o primeiro projeto de contemplação sobre passarelas em uma cachoeira, semelhante ao encontrado nas Cataratas do Iguaçu (PR). A ideia está sendo analisada pelo governo do Estado e pela prefeitura de Laranjal do Jari na cachoeira de Santo Antônio, no Rio Jari, na divisa com o Pará.

Nesta semana, uma empresa realizou o georreferenciamento, topografia e a perfuração para estudo do solo. A ideia é ter uma ponte onde os visitantes poderão percorrer pontos por cima da cachoeira.

Atualmente a região é visitada apenas através de embarcações, que partem da sede do município. A cachoeira também abriga a Hidrelétrica de Santo Antônio, que fica um pouco acima do local.

 Foto: Fecomércio-AP/Divulgação

*Com informações do Grupo Rede Amazônica AP

Arquivo Público expõe relatos de mulheres, indígenas e negros sobre a Cabanagem no Pará

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A exposição “Povo Cabano: Registros Documentais do Arquivo Público”, aberta ao público na última segunda-feira (6), em Belém (PA), retrata a vivência dos personagens que participaram da Cabanagem, revolta popular que completa 190 anos em 2025. O acervo conta com cartas escritas por mulheres, indígenas e negros. Mais de 50 pessoas já visitaram a exposição nesta primeira semana.

Segundo ele, a cada edição do Preamar Cabano, programação cultural do governo do Estado, é exposto algo novo sobre esse período. Desta vez, a escolha pelas cartas dos participantes surgiu com a ideia de trazer o registro daqueles que não recebem tanto reconhecimento na história da Cabanagem. 

“As pessoas costumam lembrar dos presidentes cabanos, que também foram figuras emblemáticas, ao seu modo, para a história, e esquecem desses que, de fato, foram os rostos da revolta. Se não fosse essa multidão de pessoas participando, o movimento não iria ganhar a amplitude que conquistou”, ressaltou Leonardo Torii.

Durante o período regencial, entre 1835 e 1840, na Província do Grão-Pará, região que atualmente abrange os estados do Pará, Amapá, Amazonas, Rondônia e Roraima, os rebeldes lutaram por melhores condições sociais e econômicas.

Foto: Reprodução/Agência Pará

História

Ivan Santa Rosa dos Santos, 73 anos, estudante de Licenciatura em História, está em Belém passando férias e soube da programação do Preamar Cabano. De acordo com ele, que deseja retornar a Belém, onde nasceu, para lecionar após a formatura, saber mais da história da revolta o ajuda a entender o passado da região.

“Acho imprescindível, para mim, que desejo dar aulas depois que me formar, saber mais da história do meu Estado. Mesmo morando há anos no Mato Grosso, a memória do Pará ainda é muito presente na minha vida, e desejo, cada vez mais, me aprofundar e entender. Achei muito interessante saber mais essa versão da história, contada pelos revoltosos. Sem dúvida, foi uma experiência única”, disse Ivan.

Junto com um grupo de amigos, o estudante de Filosofia João Pedro Costa soube da programação por meio das redes sociais da Secult (Secretaria de Estado de Cultura), e foi visitar a exposição. “Eu costumo sempre entrar nas redes sociais da Secult atrás das programações, até que eu vi essa exposição aqui no Arquivo e decidi vir. Coincidiu justo na semana que eu estou estudando sobre Domingos Antônio Raiol (que escreveu a obra ‘Motins Políticos’, sobre a Cabanagem, e recebeu o título de Barão do Guajará). Ter acesso a esses documentos expostos aqui me deixou entusiasmado”, contou o estudante.

*Com informações da Agência Pará

Seca e aquecimento global vão prejudicar anfíbios da Amazônia, aponta estudo

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Anfíbios anuros são bastante sensíveis à perda de água. Foto: Rafael Bovo

Um time internacional de pesquisadores realizou o mais completo mapeamento dos efeitos previstos sobre os anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas) da combinação entre mais secas e o aquecimento do planeta. O estudo foi publicado na revista Nature Climate Change.

A maior parte dos dados, inéditos para a ciência até então, foi coletada por Bovo durante o doutorado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro, e o pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), ambos com bolsa da FAPESP.

O trabalho integra ainda o projeto “Impactos das mudanças climáticas e ambientais sobre a fauna: uma abordagem integrativa” , apoiado pela FAPESP e coordenado por Carlos Navas, professor do IB-USP que também assina o estudo. As previsões indicam que entre 6,6% e 33,6% dos hábitats dos anuros se tornarão mais áridos entre 2080 e 2100, a depender das emissões de gases de efeito estufa até lá. Num cenário moderado de emissões, em que as temperaturas aumentariam em 2 ºC, 15,4% desses locais estariam expostos a mais secas.

Caso as emissões no fim do século cheguem a um nível alto, com aquecimento de até 4 ºC, mais de um terço (36%) desses hábitats serão submetidos a secas que podem ser devastadoras para os anfíbios anuros, grupo particularmente sensível à perda de água devido à pele fina e altamente permeável.

Na prática, num futuro 4 ºC mais quente, os anfíbios da Amazônia, América Central, Chile, norte dos Estados Unidos e Mediterrâneo europeu devem vivenciar um aumento de mais de quatro meses por ano na frequência de secas.

Mesmo um aquecimento de 2 ºC, porém, deve aumentar a duração das secas entre um e quatro meses consecutivos por ano na maior parte das Américas, Europa, sul e centro da África e sul da Austrália.

 Foto: Rafael Bovo

Impacto na reprodução

Os pesquisadores constataram que algumas regiões áridas podem até dobrar as taxas de perda de água pelos sapos, rãs e pererecas. Assim como a combinação de seca e aquecimento pode dobrar também a redução do tempo de atividade desses animais, comparando com o que se espera apenas com o impacto do aquecimento sozinho.

Simulações biofísicas realizadas pelos pesquisadores apontaram, por exemplo, que na parte tropical do planeta, que inclui Amazônia e parte da Mata Atlântica, o tempo de atividade se reduz em todos os cenários climáticos ao longo do ano. Enquanto apenas o aquecimento reduziria esse tempo em 3,4% e a seca sozinha em 21,7%, a combinação de ambos faria os animais passarem 26% menos tempo em atividade.

Além das informações coletadas em campo e laboratório por Bovo, outra parte dos dados foi reunida e padronizada a partir da literatura científica existente. O processo durou cerca de três anos.

O banco de dados resultante reúne tanto projeções climáticas previstas para o fim do século em todo o planeta quanto informações de história natural de um conjunto de espécies. Entre outras, distribuição geográfica, uso de micro-hábitats e presença de estratégias comportamentais e fisiológicas para evitar perda de água, como postura ou uso de abrigo para não expor parte do corpo ao ambiente ou secreção e espalhamento de fluidos na pele, diminuindo a evaporação.

Em um trabalho anterior, Bovo e colaboradores mostraram como a amplitude térmica dos anfíbios anuros pode variar até numa mesma espécie e como isso pode influenciar previsões de impactos de mudanças climáticas baseadas apenas em tolerância térmica.

Os pesquisadores agora trabalham para entender se algumas espécies têm plasticidade suficiente para se ajustar a ambientes mais áridos num curto prazo, ou mesmo se são capazes de se adaptar na escala evolutiva, ao longo de milhares de anos.

Com esses dados, será possível aperfeiçoar os modelos de previsão de extinções locais ou regionais de espécies, que poderão servir de referência para outros grupos sensíveis ao aumento da temperatura e à disponibilidade de água.

“Só existem três soluções possíveis para essas espécies: migrarem, se adaptarem ou serem extintas. Queremos entender melhor quais ainda teriam capacidade de ajustar a fisiologia e o comportamento em vida, ou ao longo das gerações, para sobreviver a essas mudanças tão profundas e prever o que ainda nos restará de biodiversidade para o fim do século”, conclui.

O artigo ‘Global exposure risk of frogs to increasing environmental dryness‘ pode ser lido em: https://www.nature.com/articles/s41558-024-02167-z.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por André Julião

Projeto de lei cria plano para conservação de rios e navegabilidade na Amazônia

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Foto: Reprodução/Agência Senado

Um projeto de lei apresentado no Senado propõe a criação do Plano Rios Livres da Amazônia, para promover a navegabilidade e a preservação dos corpos de água na região, onde os rios têm papel essencial na mobilidade e na economia. De acordo com o autor da proposta (PL 4.199/2024), senador Sérgio Petecão (PSD-AC), o objetivo é integrar ações voltadas à conservação dos rios e à promoção de um transporte hidroviário mais eficiente e sustentável.

De acordo com o projeto, o plano será implementado em cooperação com os estados da Amazônia Legal e terá como unidade de gestão as bacias hidrográficas da região, abrangendo os estados do Acre, Pará, Amazonas, Roraima, Rondônia, Amapá, Mato Grosso e partes de Tocantins, Goiás e Maranhão.

O plano, segundo Petecão, baseia-se nos princípios de precaução, prevenção, poluidor-pagador (quem polui deve responder pelo prejuízo ao meio ambiente), desenvolvimento sustentável e participação social. O texto também prevê que o Rios Livres será executado por meio de programas de execução das bacias hidrográficas, com ações de monitoramento, dragagem, sinalização e manejo integrado das vias navegáveis.

O autor lista, entre os objetivos principais do plano, as seguintes diretrizes:

  • promover a cooperação entre estados para execução do plano;
  • compatibilizar desenvolvimento econômico com a preservação dos recursos hídricos;
  • incentivar a educação ambiental e a participação social;
  • reduzir a poluição e danos ambientais nos corpos de água;
  • apoiar o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis para o transporte hidroviário;
  • preparar e prevenir comunidades contra eventos hidrológicos críticos.
Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia

A governança do plano ficará a cargo de um comitê gestor, composto por representantes dos órgãos e entidades federais e estaduais responsáveis pelos recursos hídricos e transporte hidroviário. Cada bacia hidrográfica terá seu comitê, que será responsável por instituir e acompanhar o programa de execução do plano em sua área de atuação, além de coordenar a integração entre os entes federativos.

O senador destaca que a Região Norte possui grande potencial para a navegação fluvial, mas enfrenta desafios, como falta de infraestrutura adequada, sazonalidade das chuvas, interferência das mudanças climáticas, poluição e degradação das margens dos rios.

O senador cita dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), segundo os quais apenas 31% dos 63 mil quilômetros de rios com potencial navegável são explorados comercialmente no Brasil. Para Petecão, o Plano Rios Livres da Amazônia permitirá um melhor aproveitamento do sistema hidroviário da região, em um modelo que valoriza a sustentabilidade e a participação social.

O projeto está na Comissão de Desenvolvimento Regional (CDR), onde aguarda recebimento de emendas.

*Com informações da Agência Senado

256 indígenas são empossados em 2025; saiba quantos são da Amazônia Legal

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Foto: Arquivo/TRE-MT

Com o montante de 245.701 votos, 256 candidatos indígenas foram empossados no início de janeiro para assumir cargos de vereadores, vice-prefeitos e prefeitos para os mandatos de 2025 a 2028 no país. Ao todo, 2.479 candidatos se declararam indígena para concorrer ao pleito do ano passado, o que indica um acréscimo de 14,13% de candidatos quando comparado às eleições de 2020, quando 2.172 candidatos foram registrados.

Do total de indígenas eleitos em 2024, nove são prefeitos (oito homens e uma mulher), 13 são vice-prefeitos (sendo quatro mulheres) e 234 são vereadores (36 são mulheres). De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 170 etnias foram registradas nas candidaturas indígenas. Segundo o Levantamento da Campanha Indígena da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), feito com base em dados do TSE, 1.635.530 votos foram direcionados para candidaturas indígenas no ano passado.

Os únicos estados que não elegeram indígenas para câmaras municipais e prefeituras foram Rio de Janeiro, Sergipe e Piauí. Os estados que mais elegeram indígenas são o Amazonas, com 47 eleitos; Pernambuco, com 31; e Paraíba, com 23. Já os que menos elegeram indígenas são Rio Grande do Norte, Rondônia e Goiás, com um vereador cada.

No comparativo com as eleições municipais de 2020, o aumento de indígenas eleitos foi superior a 8%, uma vez que 237 candidatos indígenas foram eleitos à época. Em relação às eleições de 2016, o resultado de 2020 apresentou o aumento de 28%.

Conforme o consultor legislativo do Senado Amael Moreira, o crescimento das candidaturas indígenas vem sendo observado há algum tempo. “A gente tem observado, tanto nas eleições municipais quanto nas eleições federais, um crescimento gradual de candidaturas indígenas. E isso está atribuído a uma maior conscientização e mobilização desse movimento e também da atuação muito importante de atores institucionais na promoção dessas candidaturas”, avaliou o consultor.

Confira quantos indígenas foram eleitos nos estados que compõem a Amazônia Legal:

  • Acre – 5 vereadores e 2 vice-prefeitos
  • Amapá – 5 vereadores
  • Amazonas – 43 vereadores, 1 prefeito e 3 vice-prefeitos
  • Pará – 9 vereadores e 1 vice-prefeito
  • Rondônia – 1 vereador
  • Roraima – 9 vereadores, 2 prefeitos e 1 vice-prefeito
  • Maranhão – 6 vereadores
  • Mato Grosso – 11 vereadores
  • Tocantins – 7 vereadores

*Com informações da Agência Senado e Ministério dos Povos Indígenas

Rondônia assume coordenação das Rotas Amazônicas Integradas em 2025

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Encontro do Rio Pacaaás Novos e Mamoré, em Guajará Mirim (RO). Foto: Gildo Júnior/Setur RO

No mês de dezembro de 2024, os secretários e dirigentes de turismo da Região Norte elegeram a nova coordenação das Rotas Amazônicas Integradas (RAI), que reúnem representantes dos sete Estados da Amazônia: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Tocantins, Pará e Rondônia.

A reunião correu de forma online com a presença de todos os Estados-membros, que discutiram os avanços da RAI nos anos de 2023/2024 com a liderança da AmazonasTur, destacando o acordo de cooperação técnica firmado com a Embratur para promoção da Região Norte em eventos internacionais e a estruturação de produtos e serviços locais e a participação da RAI no salão Nacional de Turismo em 2023 e 2024.

Para a condução das atividades da RAI no biênio 2025/2026, foi eleito por unanimidade o superintendente de turismo de Rondônia, Gilvan Pereira Junior, para coordenar as ações do grupo regional.

O superintendente atua na RAI desde a sua criação em 2021, quando a instância foi criada durante o Roraima Fishing Roraima, com a assinatura da Carta do Turismo da Amazônia.

A nova coordenação já apresentou as diretrizes para a atuação no seu mandato, tendo como foco principal a promoção do turismo da região no mercado internacional, tanto na América Latina em países como a Colômbia, Argentina, Peru e Chile, quanto em Portugal, aproveitando as conexões com a Europa via Belém e Manaus.

Segundo o coordenador local, Bruno Muniz de Brito, diretor do Departamento de Turismo de Roraima, será criado um vídeo promocional da RAI com a temática do turismo sustentável que será o foco da ação em 2025.

Turismo sustentável

Em 2024, uma estratégia que visa não apenas atrair turistas nacionais e internacionais, mas também preservar a rica biodiversidade e as culturas locais. Em vista da crescente demanda por viagens que respeitem o meio ambiente, a RAI pretende posicionar a Amazônia como um destino atrativo e responsável.

Dentre as ações previstas, destacam-se campanhas de divulgação que evidenciam as belezas naturais da região, como as florestas, rios e fauna, além da rica diversidade cultural dos povos amazônicos.

A RAI planeja ainda parcerias com agências de turismo e plataformas digitais para ampliar a visibilidade das Rotas Amazônicas, criando pacotes turísticos que incentivem a experiência autêntica e a imersão na cultura local. Pretende promover eventos e feiras de turismo, que servirão como vitrine para os atrativos da Amazônia.

*Com informações do Governo de Roraima

Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025

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Foto: Ana Amélia Hamdan/ISA

Enquanto o mundo assiste a eventos climáticos cada vez mais extremos como as secas históricas que assolaram a Amazônia em 2023 e 2024, e o sul do país com chuvas torrenciais que inundaram várias cidades no Rio Grande do Sul em maio passado, uma pergunta ecoa: como enfrentaremos a crise climática global? No coração dessa resposta estão os indígenas.

Em 2025, os povos originários terão muito a ensinar sobre como enfrentar um fenômeno que já afeta milhares de vidas no planeta.

Na bacia do Rio Negro, localizada no extremo noroeste do estado do Amazonas, onde vivem 23 povos indígenas, comunidades que habitam a região há milhares de anos enfrentam tanto as cheias recordes quanto secas prolongadas que desafiam sua sobrevivência. Foi que aconteceu em 2023, quando a navegabilidade dos rios foi afetada pela seca histórica, dificuldade o acesso à roça, de onde tiram o seu principal alimento, a mandioca.

Essas populações dependem da floresta e dos rios para viver. Mudanças no ciclo das chuvas afetam a dinâmica e comportamento dos peixes, das minhocas e até a fertilidade do solo. Esses impactos não são meramente “dados” para os povos indígenas: são vivências que alteram profundamente suas práticas de subsistência, rituais e a sua relação com a natureza.

Nessa região, desde 2005, quem tem feito esses registros são os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental, uma iniciativa da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Os resultados dessas pesquisas são publicados em uma revista chamada Aru, que está em sua quarta edição, disponível na internet e também circulando no formato impresso na região.

Mesmo diante dos desafios apresentados pelas mudanças climáticas, os modos de vida tradicionais dos povos indígenas oferecem um farol em meio à crise. Com práticas sustentáveis, como o manejo agroflorestal e o uso de técnicas de pesca e roçado que respeitam os ciclos naturais, essas comunidades demonstram que é possível viver em harmonia com a natureza eles preferem afirmar que são partes da própria natureza e da terra mãe, por isso, há tanto cuidado e respeito com ela.

As técnicas parecem simples, mas carregam uma sofisticação baseada em milhares anos de observação e interação direta com a natureza um conhecimento que os cientistas recém começam a reconhecer como essencial no enfrentamento das mudanças climáticas. Isso é comprovado por vários estudos, que deixam claro que os territórios indígenas são os mais preservados no Brasil.

Porém, os povos indígenas, guardiões das florestas, sofrem ataques aos seus direitos e garantias constitucionais todos os dias, seja no Executivo, no Legislativo e Judiciário. Por isso a necessidade de uma mobilização permanente e de luta por essas conquistas.

Foto dos comunicadores da Rede Wayuri sentados em frente a uma árvore
Foto: Ana Tui/ISA

Em um cenário de mobilização e de luta, a comunicação tem um papel crucial. É aqui que entra a Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, a Rede Wayuri. Criada em 2017 para fortalecer as narrativas dos povos indígenas, a rede utiliza podcasts, redes sociais e materiais educativos para divulgar informações que combinam saberes tradicionais e práticas contemporâneas. Além de alertar sobre os impactos das mudanças climáticas, a Wayuri valoriza e compartilha estratégias indígenas de adaptação, aproximando os povos da região e levando suas vozes ao mundo.

A Rede Wayuri também age como um radar, registrando os efeitos das mudanças climáticas em territórios indígenas e mobilizando comunidades para agir. Um exemplo é o trabalho realizado para documentar cheias e secas extremas, que não apenas informam os próprios indígenas, mas também ajudam a alertar a sociedade sobre a gravidade da crise. É a prova viva de que os povos indígenas não são apenas vítimas das mudanças climáticas, mas protagonistas na luta por soluções.

Enquanto o planeta busca saídas para a crise em reuniões e eventos como as COPs, os saberes indígenas e a comunicação comunitária se mostram ferramentas indispensáveis. Reconhecer isso não é apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. Como a floresta, os rios e as comunidades que nela vivem nos mostram, é preciso conectar saberes, práticas e vozes em uma verdadeira teia de soluções climáticas.

Em 2025, a tendência é que a comunicação popular, as redes comunitárias ocupem os espaços de decisão a respeito do clima, para poder comunicar aos povos da floresta o que se tem proposto para salvar o planeta, pois somos nós que estamos a segurar essa panela de pressão do aquecimento global.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Farol Jornalismo, escrito pela Rede Wayuri e faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2025