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Belém do Pará: a capital amazônica que receberá a COP30

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Belém é uma “porta de entrada” para a Amazônia, onde tradição, fé e sabores únicos se unem em um cenário de rios e natureza exuberante. Foto: Raphael Luz/Agência Pará

Belém é uma das cidades mais emblemáticas do Brasil, não apenas por sua história e localização estratégica, mas também pelo papel importante na cultura, economia e turismo da Região Norte do país. Fundada há mais de 400 anos, em 12 de janeiro de 1616, a capital paraense possui uma rica herança histórica, que reflete as origens como cidade portuária e seu desenvolvimento ao longo dos séculos, sendo atualmente uma das maiores cidades da Amazônia e “porta de entrada” para a região. Em novembro de 2025, a capital do estado do Pará vai sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), um evento de relevância global, presidido pelo Brasil, que coloca a cidade e o país em destaque no cenário internacional.

Com uma população de 1,3 milhão de habitantes, Belém se apresenta como um polo regional, com um Produto Interno Bruto (PIB) per capita de R$ 20.562 bilhões, demonstrando uma economia diversificada e em crescimento. O município tem grande importância econômica para o estado e para a Região Norte, atuando como um centro comercial e logístico vital para o escoamento da produção da Amazônia para o resto do Brasil e o exterior. A localização geográfica da cidade, à beira do Rio Amazonas, faz de Belém um ponto estratégico para o comércio de produtos como açaí, guaraná, castanha-do-pará, cacau e peixe, além de ser um importante centro de indústria e serviços.

O açaí, em especial, é um dos grandes símbolos da economia local. Este fruto roxo, extraído de uma palmeira típica da Amazônia, é consumido de diversas formas no Brasil e exportado para outras partes do mundo. Na feira do Ver-o-Peso, uma das maiores da América Latina, o açaí é um dos produtos mais procurados, além de uma infinidade de iguarias típicas da culinária paraense, como o pato no tucupi, a maniçoba e o tacacá. A feira, com quase 400 anos de história, é um exemplo da vitalidade da gastronomia local e da importância cultural de Belém.

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O tacacá é um caldo típico da Amazônia, feito com tucupi, jambu, camarão e goma de tapioca. Foto: Bruna Brandão/MTUR

A cidade também se destaca por sua rica diversidade cultural. Com forte influência de comunidades indígenas, negras, da colonização portuguesa e dos imigrantes, Belém oferece uma experiência única de imersão nas tradições e costumes da Amazônia. O Círio de Nazaré, maior festa religiosa do Brasil, é uma das manifestações culturais mais significativas da cidade. Todos os anos, milhares de fiéis se reúnem para celebrar Nossa Senhora de Nazaré, a Rainha da Amazônia, em uma das maiores procissões do mundo, por terra e por água. Esta festividade, que ocorre no segundo domingo de outubro, atrai turistas de todo o país e é um dos momentos mais importantes para a população local.

Romaria fluvial do Círio de Nazaré. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Além da gastronomia e das festas religiosas, Belém é um importante centro turístico, com uma grande oferta de atrativos históricos e naturais. O bairro da Cidade Velha, onde a cidade nasceu, guarda construções coloniais, como o Forte do Presépio e a Catedral da Sé, que oferecem uma verdadeira viagem no tempo. No mesmo bairro, o governo brasileiro e a prefeitura da cidade entregaram recentemente a revitalização do Mercado de São Brás, marcando a primeira obra de infraestrutura realizada em preparação para a COP30. Com um investimento de R$150 milhões, a renovação do espaço não só moderniza o mercado, mas também simboliza um legado de infraestrutura e desenvolvimento sustentável para a população local.

Revitalização do Mercado São Brás é legado de infraestrutura para Belém, cidade sede da COP30. Foto: Amarilis Mariza

A cidade também é cercada por ilhas, como a Ilha do Marajó, famosa por suas praias e a peculiar fauna, e a Ilha do Combu. As praias do Rio Tapajós, próximas a Belém, também são muito procuradas por turistas que buscam relaxar em suas águas tranquilas e quentes.

A natureza exuberante da Amazônia se reflete ainda nas áreas verdes de Belém, como o Parque Ambiental do Utinga, que é um refúgio para quem deseja conhecer a fauna e flora da região. O clima equatorial úmido da cidade, com altas temperaturas durante todo o ano, é uma característica marcante, mas é justamente essa atmosfera tropical que atrai visitantes de todo o mundo em busca de experiências autênticas na maior floresta tropical do planeta.

No campo da infraestrutura, o Aeroporto Internacional de Belém é um ponto chave para o turismo e para o desenvolvimento econômico da cidade. Com um fluxo de 3 milhões de pessoas por ano, o aeroporto conecta Belém a destinos nacionais e internacionais, facilitando a chegada de turistas e investidores que têm na cidade uma porta de entrada para o restante da Amazônia e suas inúmeras oportunidades econômicas e naturais.

Além de sua relevância econômica e cultural, Belém tem se tornado cada vez mais um destino turístico promissor. A cidade, que atrai olhares por sua beleza histórica e natural, ganhou ainda mais destaque no cenário global com a confirmação de sua sede para a COP30. O evento trará um olhar global sobre as soluções para os desafios do clima. A realização da conferência será uma oportunidade para o Brasil se posicionar como um centro de discussões sobre o enfrentamento às mudanças climáticas.

Mercado Ver-o-Peso é uma tradicional feira ao ar livre com produtos regionais. Foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará

Belém do Pará é uma cidade que se destaca por sua história, cultura, economia e sua imersão na Amazônia. Com uma população vibrante e acolhedora, a cidade oferece aos seus habitantes e visitantes um ambiente único de convivência entre tradição e modernidade. A expectativa para a COP30 é o reflexo do potencial da cidade para se tornar um centro de referência internacional, quando se fala em ações para conter a mudança do clima.

*Com informações do Planalto

El Niño agrava impacto da seca em águas subterrâneas na Amazônia e eleva risco de incêndio, constata estudo

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Foto: Reprodução/Agência Brasil

O risco de incêndio na Amazônia é maior em regiões onde o armazenamento de água subterrânea está comprometido, principalmente se o El Niño estiver agravando a seca. Usando imagens de satélite e dados de queimadas, pesquisadores conseguiram demonstrar a relação entre o fenômeno climático e a propensão ao fogo, criando uma ferramenta que poderá, no futuro, auxiliar em ações preventivas.

Leia também: Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

Os resultados do estudo, com base em informações de 2004 a 2016, revelam uma diminuição nas condições de umidade em três níveis – do solo superficial (sfsm), da zona das raízes das árvores (rtzsm) e das águas subterrâneas (gws), sendo este último o que apresenta maior severidade de aridez. São esses “reservatórios” que demoram mais para se recuperar quando afetados por secas consecutivas e extremas decorrentes do El Niño, um dos fenômenos climáticos de maior impacto na Terra.

Nas últimas décadas, incêndios florestais provocados pelo homem (antropogênicos) alteraram significativamente a dinâmica da vegetação na região amazônica. Essas atividades humanas são consideradas “ignições” para o fogo na floresta tropical, sendo que a escalada das queimadas está ligada às condições climáticas.

A ilustração mostra o impacto do El Niño nos níveis de água subterrânea do solo superficial (sfsm), da zona das raízes das árvores (rtzsm) e das águas subterrâneas (gws), e a relação com o risco de incêndio. Imagem: Bruno Conicelli

Somente em 2024, o total de focos de incêndio registrado de janeiro a 20 de novembro na Amazônia é o maior desde 2010 – foram 132.211 em pouco menos de 11 meses, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Com uma metodologia diferente da usada pelo Inpe, o Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que já foram queimados cerca de 128 mil km2 do bioma neste ano, o que corresponde ao território da Inglaterra.

“Resolvemos investigar o impacto da seca meteorológica e hidrológica dos incêndios na Amazônia com atenção no papel das águas subterrâneas e eventos do El Niño dentro do projeto Sacre, que tem foco maior em áreas urbanas, mas também olha para zonas rurais e florestas. E conseguimos demonstrar a relação”, comemora o professor Bruno Conicelli, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), autor correspondente da pesquisa.

Publicado na revista Science of the Total Environment, o artigo tem como coautor o pesquisador Ricardo Hirata, coordenador do “Sacre: Soluções Integradas de Água para Cidades Resilientes”. Um dos maiores projetos de pesquisa aplicada em recursos hídricos no Brasil, o Sacre tem como tema central as águas subterrâneas e o objetivo de reduzir a vulnerabilidade de cidades e do campo em crises associadas às mudanças climáticas globais. Recebe apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático.

Base de dados

Para a caracterização da seca hidrológica, os pesquisadores utilizaram informações de satélite da missão GRACE, sigla em inglês para Gravity Recovery and Climate Experiment, que permite detectar o armazenamento de água terrestre integrando umidade do solo, água superficial e a subterrânea.

Cruzaram com dados sobre a gravidade da seca em cada local analisado. Com isso, conseguiram identificar áreas com menor concentração de umidade no nordeste da bacia amazônica, além de uma diminuição da umidade em direção ao leste.

As maiores áreas queimadas coincidiram com regiões que enfrentaram seca durante eventos extremos do El Niño, com um aumento entre 2015 e 2016. À época, o fenômeno foi considerado um dos três mais intensos já registrados (juntamente com 1982/83 e 1997/98). O de 2023/2024 está entre os cinco mais fortes, segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês).

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal da superfície do oceano Pacífico devido à diminuição da intensidade dos ventos alísios. Os padrões da circulação atmosférica sobre o Pacífico são alterados, com mudança também na distribuição de umidade e das temperaturas em várias partes do planeta. Relatórios internacionais apontam que haverá um crescimento na frequência e intensidade desse evento nas próximas décadas.

Quando a pesquisa começou, ela era aluna de graduação da Universidad Regional Amazônica Ikiam, no Equador, onde Conicelli foi professor durante quatro anos.

Em agosto, um grupo internacional publicou o primeiro relatório State of Wildfires, mostrando que os incêndios na Amazônia Ocidental – que inclui Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia – entre março de 2023 e fevereiro de 2024 foram impulsionados por secas prolongadas ligadas ao El Niño. Aliadas às condições meteorológicas, as secas explicaram 68% desses incêndios, seguida da influência de ações antrópicas, como desmatamento, agricultura e fragmentação de paisagens naturais.

Sistema de alerta

Com base no resultado do trabalho, o grupo desenvolve um índice de risco de incêndios adaptado à região amazônica, incluindo tanto indicadores meteorológicos (ligados às chuvas) quanto hidrológicos (água no solo, rios, aquíferos e outras reservas). O modelo pode ser aplicado em outros ecossistemas.

Ao demonstrar a interconexão entre as condições meteorológicas e hidrológicas e o agravamento dos incêndios florestais, os resultados podem contribuir com estratégias destinadas a mitigar o risco de queimadas e ações de prevenção. “Estudos como esses são importantes também para a conscientização do quanto a floresta fica vulnerável com eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e intensos”, completa o pesquisador.

Segundo Conicelli, a expectativa é no futuro acrescentar dados coletados em campo para que o sistema sirva como um alerta quando as águas subterrâneas ficarem em níveis baixos.

O artigo ‘Dynamics of meteorological and hydrological drought: The impact of groundwater and El Niño events on forest fires in the Amazon‘ pode ser lido em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969724067688.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Luciana Constantino

Temperatura global aumenta 1,6°C e segue subindo: “É como tentar parar um caminhão em alta velocidade”

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Foto: Ricardo Stuckert/PR

O Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (C3S) acaba de divulgar relatório em que confirma que 2024 foi o ano mais quente já registrado mundialmente e o primeiro em que a temperatura média global ultrapassou a marca de 1,5 grau Celsius (°C) acima dos níveis pré-industrialização (1850 e 1900). O número era o limite de elevação determinado no Acordo de Paris para evitar desastres climáticos mais graves.

Aproximadamente 44 % da superfície do planeta foi afetada por estresse térmico forte e extremo, a temperatura da superfície do mar chegou a 20,87°C, valor acima da média dos últimos 30 anos, além da quantidade de vapor de água na atmosfera ter subido 5%.

De acordo com o documento, as mudanças induzidas pelo homem continuam a ser a principal causa das alterações climáticas, ao lado de outros fatores, como o El Niño Oscilação Sul (Enos), que contribuíram para as temperaturas incomuns observadas durante o ano, resultando no agravamento de incêndios florestais e inundações de grande porte.

“Esse relatório é muito preocupante, porque ele confirma o que já vinha acontecendo desde 2023, quando a temperatura sofreu um grande aumento; os cientistas previam aumento de 1,3°C por causa do Enos, o terceiro El Niño mais forte do registro histórico, que foi de meados de 2023 até abril de 2024, mas já em 2023 ele chegou perto de 1,5°C”, comenta para o Jornal da USP o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

O C3S é coordenado pela Comissão Europeia e pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), cujos cientistas têm monitorado os principais indicadores climáticos e reunido dados de temperatura diários, mensais e anuais sem precedentes ao longo do ano passado. De acordo com o relatório, 2024 foi o ano mais quente nos registros de temperatura global desde 1850. O conjunto de dados de reanálise global ERA5 do C35 indica que a temperatura média global foi de 15,10°C, 0,72°C acima da média entre 1991 e 2020, e 0,12°C acima de 2023, o ano mais quente registrado anteriormente ano registrado, o que equivale a 1,6°C acima da estimativa da temperatura de 1850 a 1900, designada como o nível pré-industrial.

O documento relata que os últimos dez anos, entre 2015 e 2024, foram os mais quentes já registrados. A temperatura média global mensal excedeu 1,5°C acima dos níveis pré-industriais em todos os meses desde julho de 2023, exceto em julho do ano passado. O ano de 2024 foi o mais quente para todas as regiões continentais, exceto a Antártida e a Australásia, bem como para partes consideráveis do oceano, particularmente o Oceano Atlântico Norte, o Oceano Índico e o Oceano Pacífico ocidental. Foram registradas três estações quentes recordes para a época correspondente do ano: inverno boreal (dezembro de 2023 a fevereiro de 2024), primavera boreal (março a maio) e verão boreal (junho a agosto) com 0,78°C, 0,68°C e 0,69 °C, respectivamente, acima da média de 1991 a 2020, e um novo recorde de temperatura média global diária foi alcançado em 22 de julho, com 17,16°C.

“A resposta às mudanças climáticas deve basear-se em evidências. O futuro está nas nossas mãos, uma ação rápida e decisiva ainda pode alterar a trajetória do nosso clima”, afirma Carlo Buontempo, diretor do C3S.

Estresse térmico

Em 2024, a temperatura média anual da superfície do mar (TSM) sobre o oceano, excluindo os polos, atingiu um nível recorde de 20,87°C, que está 0,51°C acima da média de 1991 a 2020. A quantidade total de vapor de água na atmosfera atingiu um valor recorde em 2024, cerca de 5% acima da média de 1991-2020, de acordo com a ERA5, mais de 1% superior ao de 2016 e 2023, os anos que registraram os valores mais altos no período, respectivamente. Os dados da temperatura do ar à superfície, da temperatura da superfície do mar e dos dados de vapor de água total da coluna são provenientes do ERA5 do ECMWF Copernicus Climate Change Service, que combina observações locais e baseadas em satélite com modelos numéricos de previsão meteorológica de última geração. Os dados do gelo marinho provêm de uma combinação de informações do ERA5 e do EUMETSAT OSI SAF Sea Ice Index v2.2., índice elaborado pela Organização Europeia para Exploração de Satélites Meteorológicos (EUMETSAT).

Temperaturas extremas e alta umidade contribuem para níveis aumentados de estresse térmico, prejudicando as condições de vida de pessoas, animais e plantas. Grande parte do Hemisfério Norte viveu mais dias do que a média com pelo menos “estresse térmico forte” durante 2024, e algumas áreas tiveram mais dias do que a média com “estresse térmico extremo”. Em 10 de julho de 2024, a área do globo afetada atingiu um novo recorde máximo anual, quando cerca de 44 % da superfície do planeta foi afetada por estresse térmico forte e extremo, 5% a mais do globo em comparação com o máximo médio anual. Os dados de estresse térmico baseiam-se no Índice Climático Térmico Universal (UTCI) do conjunto de dados ERA5-HEAT. “Estas altas temperaturas globais, juntamente com os níveis recordes globais de vapor de água na atmosfera em 2024, significaram ondas de calor sem precedentes e chuvas intensas, causando miséria a milhões de pessoas”, alerta Samantha Burgess, líder estratégica para o Clima da ECMWF.

Carlos Nobre observa que houve um grande aumento da temperatura dos oceanos, principalmente do Atlântico Norte e do Equador, mas também boa parte do Tropical ao Sul, além do Pacífico Ocidental e do Oceano Índico baterem recordes, assim como a maioria dos continentes. “Isso levou nos últimos dois anos a um aumento global de 5% da umidade do ar em relação à média registrada entre 1991 e 2020; quando o oceano fica mais quente ele evapora, entretanto o aumento da evaporação tem sido exponencial, com mais água na atmosfera você gera chuvas mais intensas, secas prolongadas, ondas de calor, toda uma condição que também gera incêndios florestais em número recorde”, ressalta.

“Em Los Angeles, nos Estados Unidos, por exemplo, os ventos chegaram a 160 quilômetros por hora, expandindo rapidamente o fogo, com o tempo seco, a vegetação estava inflamável, não se sabe a causa, descargas elétricas ou um fogo de origem humana.”

A professora Luciana Rizzo, do Instituto de Física (IF), explica ao Jornal da USP que os eventos climáticos extremos, que temos presenciado inclusive no Brasil, são causados pela combinação entre o aquecimento global e a variabilidade climática natural.

“Por exemplo, quando o El Niño, que faz parte da variação natural do clima, soma-se a um planeta mais quente, com mais vapor d’água na atmosfera, resulta em eventos climáticos mais intensos, como os que presenciamos no Brasil em 2024, entre eles a seca histórica na Amazônia, com grandes rios atingindo níveis baixos recordes, e o desastre que ocorreu no Rio Grande do Sul em abril e maio”, afirma.

“O interessante é que quando observamos esse aumento da temperatura as consequências não são lineares. Na Amazônia, tivemos em 2022 e 2023 as maiores cheias, e em 2024 a maior seca; temos secas lá no Pantanal, o Pantanal que a gente conhecia, das inundações, esse ano não aconteceu, então as consequências se acumulam”, diz.

Reduzir a vulnerabilidade

O pesquisador do IEA reforça a necessidade de impedir que a elevação de temperatura no planeta continue a subir acima da marca de 1,5°C, estabelecida no Acordo de Paris de 2015, e reforçada na COP 26 em 2021, em Glasgow, na Escócia. “É um desafio enorme, apenas reduzir as emissões em 43% até 2030, como foi decidido na COP 26, já é uma tarefa difícil, e se só zerarmos as emissões em 2050, o aumento poderá chegar a 2,5 graus; é um suicídio ecológico para o planeta se isso acontecer”, diz Carlos Nobre.

Luiz Machado afirma que o aumento do vapor de água na atmosfera significa a ocorrência de eventos extremos que causam sofrimento a milhares de pessoas, especialmente as mais vulneráveis. “Além das metas de redução de emissões, agora é preciso se adaptar, então é extremamente importante haver políticas que permitam essa adaptação, por exemplo, no caso de tempestades severas, um serviço de predição imediata que exista de fato e reduza a vulnerabilidade da população”, recomenda o professor do IF.

Luciana Rizzo reforça que a causa do aquecimento global é a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, como o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), bilhões de toneladas a cada ano, majoritariamente pela queima de combustíveis fósseis, e desde a Revolução Industrial, a humanidade tem sistematicamente transferido carbono, que estava estocado no subsolo há milhões de anos, para a atmosfera.

“Estamos mexendo nas ‘engrenagens’ do clima. Então, do ponto de vista físico, a única forma de reverter essa situação é atingir a neutralidade de carbono. Isto é, reduzir drasticamente as emissões e aumentar os sumidouros, como reflorestamento e tecnologias de sequestro”, diz. “Fisicamente, a solução é simples. Mas do ponto de vista social, econômico e político, é um enorme desafio. Implica abandonar o uso de combustíveis fósseis. Implica promover mudanças substanciais no sistema econômico vigente.

“Estamos vivendo uma nova realidade. Então precisamos de sistemas de prevenção de enchentes, cidades permeáveis. Ondas de calor serão mais frequentes em alguns locais. Secas também. Precisamos aliar previsão de clima com ações para proteger a população”, diz ela.

“Por exemplo, se uma seca intensa está prevista, é preciso agir de antemão, garantindo abastecimento de água para populações vulneráveis”, conclui a professora do IF.

O Copernicus é um componente do programa espacial da União Europeia (UE), sendo o seu principal programa de observação da Terra, que funciona através de seis serviços temáticos: Atmosfera, Alterações Climáticas, Emergência, Terra, Marinha e Segurança. Fornece dados e serviços operacionais de acesso gratuito, proporcionando aos utilizadores informações fiáveis e atualizadas relacionadas com o nosso planeta e o seu ambiente. O programa é coordenado e gerido pela Comissão Europeia e implementado em parceria com os Estados-membros, a Agência Espacial Europeia (ESA), EUMETSAT, ECMWF, Agências da UE e Mercator Ocean, entre outros.

O relatório completo pode ser acessado neste link. O ECMWF é uma organização intergovernamental independente apoiada por 35 Estados. É ao mesmo tempo um instituto de investigação e um serviço operacional 24 horas por dia, 7 dias por semana, produzindo e divulgando previsões meteorológicas numéricas aos seus Estados-membros. O ECMWF opera dois serviços do programa de observação da Terra Copernicus da UE, o Serviço Copernicus de Monitorização da Atmosfera (CAMS) e o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (C3S). O ECMWF também contribui para o Serviço de Gestão de Emergências Copernicus (CEMS), que é implementado pelo Centro Comum de Investigação da UE (JRC).

O ECMWF expandiu a sua localização nos seus Estados-membros para algumas atividades. Além de uma sede no Reino Unido e um centro de computação na Itália, escritórios com foco em atividades realizadas em parceria com a UE, como o Copernicus, estão em Bonn, na Alemanha. Este ano, as organizações envolvidas na monitorização do clima global ECMWF, Nasa, Noaa, UK Met Office, Berkeley Earth e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) fizeram um esforço concertado para coordenar a divulgação dos seus dados, destacando as condições excepcionais experimentadas durante 2024.

*Com informações da Comunicação do ECMWF. Conteúdo publicado pelo Jornal da USP.

COP30 é oportunidade para Brasil se apresentar como referência na preservação da Amazônia, diz Philip Fearnside

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Fearnside durante participação no CIC 2024. Foto: Fábio Mazzitelli

Este ano, em novembro, os olhos do planeta vão se voltar para a Amazônia brasileira, que receberá na cidade de Belém a 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, a COP30. Espera-se que, como país anfitrião, o Brasil desempenhe um papel de liderança junto à comunidade global a fim de superar os muitos entraves que marcaram a COP29, em 2024. Paira no ar a possibilidade concreta de que o encontro de novembro assinale o início de um desmonte do arcabouço diplomático global, erguido durante décadas, para combater a mudança climática.

Porém, o governo brasileiro corre o risco de chegar à mesa de negociações carecendo da autoridade moral para exercer a liderança tão necessária neste momento, devido aos seus muitos insucessos na defesa de seu quinhão da maior floresta tropical do planeta. Pior: boa parte dos quadros do governo federal defende uma abordagem exploratória e pouco sustentável do bioma.

Uma das vozes mais ativas em denunciar as inconsistências na posição do governo brasileiro, à medida que se aproxima a COP30, é o biólogo Philip Martin Fearnside, 77. Americano que mora há mais de quatro décadas no país, Fearnside é um dos decanos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e também um dos líderes de um grupo internacional que agrupa dezenas de cientistas para investigar os impactos do desmatamento sobre a floresta. Ele também é um dos mais de 2 mil cientistas que integrava o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), quando o órgão teve sua atuação premiada com o Nobel da Paz em 2007.

Fearnside compartilhou suas preocupações com a Amazônia em uma palestra destinada aos estudantes e docentes da Unesp presentes à 36 ª edição do Congresso de Iniciação Científica (CIC) da Unesp, realizado em fins de novembro. Na ocasião, o pesquisador concedeu a seguinte entrevista ao Jornal da Unesp. Na conversa, ele fez questão de destacar a importância da COP30 vindoura, e a oportunidade que ela oferece para que nosso país reforce seu protagonismo na articulação diplomática em torno do clima, posicionando-se como exemplo para outras nações e lutando por um futuro melhor para os próprios brasileiros.

De acordo com o serviço climático europeu Copernicus, um dos principais fornecedores de dados globais, o ano de 2024 foi o mais quente já registrado e o primeiro a ultrapassar a marca de 1,5°C de aumento na temperatura média da Terra em relação aos níveis pré-industriais. A informação foi divulgada nesta sexta-feira, 10 de janeiro.

Foto: Fábio Mazzitelli

Este ano, pela primeira vez uma COP vai ocorrer na Amazônia, e o senhor tem falado sobre a importância do evento para intensificar a defesa do bioma. O que mais lhe preocupa, neste momento, com relação ao futuro da Amazônia?

Philip Fearnside: São muitas ameaças, que estão agindo em conjunto e convergindo no bioma. Você tem o desmatamento atual, já bem conhecido, mas também há obras que levarão ao desmatamento no futuro. Não é só o que acontece neste ano. Quando se abre uma grande área de floresta para a construção de estradas, por exemplo, o que acontece depois foge do controle do governo. Entram grileiros, [trabalhadores] sem-terra, madeireiros e outros, e destroem a floresta. E é isso o que está acontecendo com a reconstrução da rodovia BR 319, Manaus-Porto Velho, e as estradas ligadas a essa obra. Não se trata de uma estrada apenas. São várias estradas laterais que abrem aquela enorme área de floresta no oeste do estado do Amazonas. Essa é uma das maiores ameaças.

Existem outras [ameaças]. Tem a degradação da floresta, que não é um corte raso, nessa discussão. Por meio da exploração madeireira, prepara-se a floresta para pegar fogo. Porque você deixa toda a madeira morta dentro da floresta, além de galhos e árvores que são mortas acidentalmente. E tudo isso é lenha. Quando acontece um incêndio, isso leva a floresta a pegar fogo mais facilmente, o fogo se torna mais quente e mata mais árvores. Então, essa degradação é uma coisa do mesmo porte do desmatamento.

E também temos a mudança climática, gravíssima. Se escapar de controle, não vai ter mais floresta amazônica. Isso está muito perto de acontecer e a própria destruição da floresta está contribuindo para a mudança climática. Porque ela abriga uma quantidade de carbono tão grande que, se for liberada, em poucos anos irá empurrar o clima global para além do ponto de não retorno. Nesse caso, mesmo que toda a sociedade humana pare de emitir carbono, não queime mais nem um litro de gasolina, não corte nem mais uma árvore, não haverá mais como controlar.

A Amazônia está no centro de toda a discussão ambiental. O Brasil precisa assumir a liderança no combate ao efeito estufa, porque seria um dos países mais vitimizados. Perderia a Floresta Amazônica, que é essencial, obviamente, para pessoas que moram na Amazônia, mas também para quem reside em São Paulo. Porque aqui, em São Paulo, temos a água que vem da Amazônia pelos chamados rios voadores, os ventos que vêm de lá. Ela é reciclada por meio da Floresta Amazônica. Se a floresta for desmatada, aquela água irá embora pelo rio Amazonas, não virá mais para cá. Então, não temos mais tempo a perder. O clima aqui está mudando, e já podemos ver essas enormes secas, como as de 2014 e de 2021, quando São Paulo quase ficou sem água.

Outras regiões também seriam muito impactadas…

Philip Fearnside: O Nordeste pode virar um deserto, por exemplo. Dezenas de milhões de pessoas vivem de agricultura lá. A costa possui grande densidade populacional e pode vir a sofrer com grandes tufões, aumento do nível do mar. O agronegócio seria devastado, e toda a agricultura familiar… Tivemos surpresas climáticas como a grande enchente de 2014 no rio Madeira, e em 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul. Eventos desse tipo, que não foram previstos nos modelos de clima, tendem a aumentar.

Então o Brasil precisa assumir a liderança nessa questão. E não está fazendo isso. Existe todo o discurso sobre a importância da COP30 etc e tal. Mas, com exceção do Ministério do Meio Ambiente, que tenta controlar o desmatamento, todo o restante do governo está do outro lado. Por exemplo, querem ampliar a exploração de petróleo na costa, inclusive na foz do Rio Amazonas, grandes leilões para fazer dentro da Floresta Amazônica, um enorme plano justamente naquele lugar no oeste do estado do Amazonas para gás e petróleo… Tem que mudar [essas políticas]. Tem também a coisa de legalizar as reivindicações de invasões em terras públicas, o grande motor do desmatamento…

Por que você se opõe à proposta de exploração de petróleo na região da margem equatorial da Amazônia pela Petrobras?

Philip Fearnside: Em termos de efeito estufa, é uma loucura. Até a Agência Internacional de Energia, que não é um grupo ambientalista, divulgou um relatório dizendo que não se deve começar nenhum novo campo de petróleo e gás no mundo. Apenas usar os que já existem. E deve-se diminuir a extração paulatinamente, até zerar em 2050. Porque, quando se inicia um novo campo, como aquele proposto para a foz do rio Amazonas, a previsão é levar cinco anos apenas para começar a produção comercial. Daí, seriam mais cinco anos para pagar o investimento. E ninguém quer parar algo com zero de lucro, então, segue em frente. Essa exploração deverá continuar por décadas, e isso em um tempo em que o mundo inteiro tem que parar de explorar petróleo. Mesmo financeiramente, não faz sentido.

Ao mesmo tempo, em termos do impacto ambiental, é gravíssimo. É só lembrar o que aconteceu no Golfo do México em 2010: um grande derramamento da [plataforma] Deepwater Horizon, os poços da British Petroleum Company. Jorrou petróleo durante cinco meses e ninguém no mundo conseguiu parar o vazamento. Esse caso ocorreu em 1,5 km de profundidade na água. A exploração que querem fazer na foz do rio Amazonas será o dobro [profundidade], ou seja, ninguém no mundo tem tecnologia para parar um vazamento desse porte. Se tivesse, se a Petrobras tivesse esse conhecimento, teria ido lá ajudar, no Golfo do México, e parar o vazamento. Todo o discurso, de como o setor é muito avançado e preparado, não cola, porque de fato a prova é o que aconteceu lá. Então, é só uma questão de tempo. Se se colocar o risco de acontecer algum vazamento de forma constante, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer.

A lógica econômica sempre pressiona a lógica ambiental. Como romper esse suposto contraponto e uni-las?

Philip Fearnside: Quando se fala de sobrevivência das pessoas, geralmente se pensa nas pessoas mais pobres, que estão plantando para comer, mas isso é absolutamente mínimo em termos do total de desmatamento. A área desmatada está virando pastagem, e não sendo usada para plantar macaxeira e coisas deste tipo. Esse argumento serve como discurso para justificar não controlar o desmatamento, mas realmente a grande força é outra. Em termos econômicos, existe a força do mercado de exportação. O Brasil é o maior exportador de soja e também de carne de boi no mundo. Isso significa que o Brasil produz muito mais desses dois produtos do que a população brasileira come. Então, cada hectare a mais que é desmatado é para exportação, não é para alimentar a população brasileira.

Isso é uma decisão. As pessoas pensam que a economia é uma mão invisível que vai guiando o que acontece. A ideia de que a Floresta Amazônica vai ser transformada em uma grande pastagem ou em campos de soja porque o mundo quer comprar esses produtos é um engano. É uma decisão do país, se quiser transformar a Amazônia para exportar mais desses produtos. Os países são soberanos, tanto no que importam – a Europa, por exemplo, está questionando soja aqui, o desmatamento etc. – , e também no que exportam.

O Brasil no passado já decidiu não exportar várias coisas. Por exemplo, antes do Código Florestal de 1965, o país exportava pele de onça e o mundo queria pagar bem e queria comprar. O Brasil decidiu que não ia vender mais, e não exporta mais. Decidiu, é soberano para isso. Também teve moratória de mogno em 1996. O mundo quer comprar mogno e paga caro, mas o país diz “não. Se quiser comprar, compre de outro lugar e não daqui, porque o dano é demasiado”. Então pode-se dizer “não queremos transformar a Amazônia em pasto e soja, vamos parar aqui”. É uma decisão do Estado, não é a economia que governa o país.

Pode-se dizer “não queremos transformar a Amazônia em pasto e soja, vamos parar aqui”. É uma decisão do Estado, não é a economia que governa o país.

Durante sua apresentação, o senhor citou a questão dos serviços ambientais como uma estratégia para o desenvolvimento sustentável, algo que é defendido também pela ministra Marina Silva quando enfatiza que é mais vantajoso manter a floresta de pé. É possível visualizar essa abordagem prosperando em um futuro próximo?

Philip Fearnside: A biodiversidade tem um valor utilitário, tal como oferecer informações para novos fármacos, e também um valor intrínseco, muito importante. É só pensar que todas essas unidades de conservação foram criadas com base nesse valor, e não para produzir fármacos ou outra coisa. Muito menos para controlar a questão do aquecimento global. Então, na prática, tem muito valor. Você tem a reciclagem de água, essencial para o Brasil e para países vizinhos, como a Argentina, onde as pessoas realmente estão mais preocupadas do que os próprios brasileiros. Isso não é uma coisa global, não afeta o hemisfério norte, mas é essencial para o Brasil.

É isso que mantém, por exemplo, a cidade de São Paulo, e muito do agronegócio no Centro-Oeste. Ou seja, são áreas que dependem desta água, água que é reciclada da Floresta Amazônica. Sobretudo a parte da floresta que está sendo ameaçada pela rodovia BR-319 e as estradas ligadas a ela, e que é transportada pelos chamados rios voadores para o Sudeste do Brasil. E também tem a função de manter a própria Floresta Amazônica, porque toda a parte sudeste da Amazônia depende dessa água para que a floresta viva. Se isso se perder, será uma catástrofe enorme. Esse é outro grande serviço ambiental, mas não se pode esperar que os países ricos paguem por ele.

Agora, conter o aquecimento global, sim, é de interesse do mundo inteiro. O Brasil, claro, é o mais interessado, porque seria um dos países mais impactados, se esse processo escapar do controle. Evitar que isso aconteça é algo de muito valor. É uma questão de como isso pode ser recolhido e empregado para preservar a floresta, assim como as pessoas que realmente são os guardiões da floresta. Essa lei sobre o mercado de carbono, do que jeito que está, beneficia os grandes fazendeiros e não é voltada para manter a floresta com os povos tradicionais. Então é uma coisa que depende de como a legislação é empacotada, mas os serviços ambientais têm um valor real. É questão de montar as instituições para que isso aconteça.

O que, na prática, o Brasil poderia fazer a fim de chegar à COP30 em condições de se colocar como exemplo no combate à mudança climática, e em melhores condições para desempenhar um papel de liderança?

Philip Fearnside: Para servir de exemplo na COP30, o Brasil precisa tomar medidas práticas em todos os ministérios para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Atualmente, apenas o Ministério do Meio Ambiente e das Mudança Climáticas está efetivamente engajado neste esforço.

O Ministério de Minas e Energia precisa desistir de abrir novos campos de gás e petróleo e aumentar os campos já existentes, cancelando o segundo “leilão do fim do mundo” que está programado para as próximas semanas e declarando o abandono de planos futuros de extração, como a exploração na foz do Rio Amazonas e o projeto “Área Sedimentar Solimões” na Floresta Amazônica. O Ministério dos Transportes precisa desistir do seu plano de reconstruir a Rodovia BR-319 (Manaus-Porto Velho), que implica na abertura de grandes áreas de floresta à entrada de desmatadores. O Ministério da Agricultura precisa parar de subsidiar soja e gado, e o Incra precisa desistir de legalizar ocupações e reivindicações que envolvam terras públicas, pois esse é um dos grandes motores do desmatamento. Apenas adotar um discurso verde sem tomar as medidas práticas não vai transformar o Brasil em uma liderança climática. E o Brasil seria devastado se o aquecimento escapar do controle. Isso está bem perto de acontecer. O país precisa assumir de verdade este papel de liderança ambiental com urgência.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp, escrito por Fabio Mazzitelli

Acre ocupa 8º lugar entre estados que associam crescimento econômico a sustentabilidade

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Acre é pioneiro na implementação de programas estruturados para proteção ambiental e uso sustentável da biodiversidade. Foto: Marcos Vicentti/Secom AC

O Ranking Estadual de Gestão Sustentável de Ativos Verdes, avaliação realizada pelo Centro de Liderança Pública (CLP), colocou o Acre em oitava posição entre as unidades da federação em relação a ativos verdes, que são recursos voltados para projetos de sustentabilidade.

Divulgado em dezembro, o levantamento avalia os entes subnacionais a partir de indicadores alinhados à visão ESG (environmental, social and governance) e à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) e espelha a multidisciplinariedade da agenda de desenvolvimento sustentável e proteção ambiental, expressos nas metas desenvolvidas pelas organizações internacionais.

O levantamento inédito mede o desempenho das 27 unidades federativas a partir de 33 indicadores, distribuídos em quatro pilares temáticos considerados fundamentais para a promoção da gestão ambiental dos estados: gestão do Cadastro Ambiental Rural (CAR), uso da terra, orçamento verde e sustentabilidade. Todos os dados são públicos do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar) e demais fontes, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Sistema Nacional de Informações Florestais (Snif), entre outros.

Com os dados e cruzamento, há como medir, segundo o estudo, a associação entre crescimento econômico e bem-estar e a promoção dos indicadores de sustentabilidade.

Acre no protagonismo

O presidente da Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais do Acre (CDSA), José Luiz Gondim, afirma que o Acre tem se destacado no cenário nacional e internacional como protagonista no mercado de ativos ambientais, consolidando-se como referência em práticas sustentáveis e na gestão de recursos naturais.

O ranking é um reconhecimento do potencial estratégico do estado, que é pioneiro na implementação de programas estruturados para proteção ambiental e uso sustentável da biodiversidade, incluindo iniciativas como o Sistema de Incentivos a Serviços Ambientais (Sisa) e desenvolvimento do Programa Isa Carbono, que possibilitou a implantação do primeiro programa de REDD+: REM Early Movers, financiado pelos governos inglês e alemão.

Outro coeficiente de grande impacto nesse resultado, que coloca o estado entre os dez que mais associam desenvolvimento e sustentabilidade, é o fato de o Acre ter mais de 98% da área cadastrada no Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar), com previsão de orçamento verde, com Plano Decenal de Desenvolvimento Socioeconômico Sustentável e um forte arcabouço técnico e científico que orienta decisões estatais como o Zoneamento Econômico-Ecológico (ZEE) e o Plano Estadual de Controle de Desmatamentos e Queimadas (PPCDQ).

“Essas ações e estratégias institucionais, integradas aos marcos regulatórios, internacionais, nacionais e estaduais, conferem ao Acre capacidade técnica e institucional para habilitar-se ao padrão internacional ART-Trees (The REDD+ Environmental Excellence Standard), permitindo a geração de créditos de carbono de alta qualidade e credibilidade no mercado global”, observa o presidente da CDSA.

Para Gondim, a posição do Acre no ranking reforça a posição de destaque e é determinante para o fortalecimento do mercado verde e para atrair investimentos internacionais.

Alguns dados do REM

A experiência do Acre com o Programa REM (REDD Early Movers), na avaliação do gestor, trouxe valiosas lições, que reforçam a capacidade de liderança no mercado de ativos ambientais, como o primeiro programa implementado no território brasileiro.

Durante as fases I e II, o estado utilizou a metodologia Acre Carbono Standard (ACS), devidamente convalidada internacionalmente, garantindo alta credibilidade e reconhecimento global.

“Além disso, os valores remanescentes de tCO2eq [ferramenta usada para comparar as emissões de diversos gases de efeito estufa], provenientes do contrato com os governos da Inglaterra e da Alemanha, permitiram a internacionalização de mais de cem milhões de toneladas de ativos em contabilidade verde, posicionando o Acre para atuação estratégica em mercados internacionais de carbono de mercado voluntário”, frisa.

O programa beneficiou, ainda em sua primeira fase, entre 2012 e 2018, diretamente 21.940 famílias, incluindo 7.929 pessoas em 28 terras indígenas, promovendo o manejo sustentável de florestas e o aumento de estoques de carbono florestal.

Os projetos possibilitaram capacitação, aquisição e manutenção de equipamentos para sistemas agroflorestais, assistência técnica, insumos, regularização fundiária, apoio logístico e fomento à produção, entre outros.

Planejamento e estratégias

O Plano de Desenvolvimento Socioeconômico Sustentável do Acre, conhecido como Agenda Acre 10 Anos, define, a longo prazo, as prioridades para a próxima década, distribuídas em seis pilares para o desenvolvimento: reinvenção das cadeias produtivas, infraestrutura, cultura e turismo, capital humano, ambiente de negócios e inovação e serviços públicos ao cidadão.

Para cada pilar de desenvolvimento foram definidos indicadores e metas para os anos de 2023 a 2032.

“Esse plano visa promover o desenvolvimento socioeconômico com o uso sustentável dos recursos naturais, a diversificação e elevação de bens e serviços, e a geração de emprego e renda. A Agenda Acre 10 Anos foi apresentada durante a COP27, reforçando o compromisso do Estado com a sustentabilidade e a justiça social”, explica José Luiz Gondim.

O Estado já se destaca em negociações internacionais de carbono, sendo reconhecido como um parceiro confiável e estratégico em acordos bilaterais e multilaterais. A posição do Acre no mercado de ativos ambientais de carbono é sustentada por evidências empíricas e normativas que apontam para a correlação entre crescimento econômico, bem-estar e sustentabilidade, avalia o gestor.

“O Acre representa um exemplo vivo de como um estado pode aliar conservação ambiental, desenvolvimento sustentável e protagonismo geopolítico em mercados verdes. Sua abordagem inovadora, fundamentada em experiências exitosas em REDD+ Jurisdicional com a implementação do REM e na aplicação de metodologias reconhecidas internacionalmente, evidencia a capacidade do estado de traduzir seus vastos recursos naturais em ativos ambientais que beneficiam tanto a economia quanto as comunidades locais”, acentua.

O compromisso com a gestão dos recursos naturais e com a integração de políticas públicas robustas posiciona o Estado como um líder global no enfrentamento dos desafios climáticos, na visão de Gondim.

“No cenário internacional, o Acre surge como um catalisador para a construção de uma economia verde, liderando negociações bilaterais e multilaterais que contribuem para a transição econômica global. Assim, ao reforçar sua posição como referência em governança ambiental e inovação sustentável, o Acre não só consolida sua relevância no mercado de carbono, mas também reafirma seu papel como um ator essencial na agenda climática e ambiental global”, completa.

Para o governador Gladson Cameli, esse é o resultado de uma gestão realizada em conjunto, atuando em sinergia e colocando o bem-estar das pessoas em primeiro lugar.

“Queremos reforçar nosso compromisso de manter tudo aquilo que acordamos: o planejamento e a atenção à questão ambiental. Não abrimos mão desse compromisso. O Acre deve estar no protagonismo. Então, parabéns a todos os envolvidos. O mais importante é que, juntos e em colaboração, vamos conseguir alcançar nossos objetivos. A união é um fator essencial. Da parte do governo e de toda a equipe, nosso compromisso é não descumprir nenhum dos acordos firmados. Peço sempre essa compreensão e estou à disposição para qualquer coisa que precisarem”, ressalta Cameli.

*Com informações da Agência Acre

Projeto de lei prevê concursos específicos para educação indígena, rural e quilombola

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Professora em escola rural indígena em Roraima: com projeto, profissionais terão provas de seleção com conteúdos específicos. Foto: Jackson Souza/Prefeitura de Boa Vista

O projeto de lei (PL 4414/2024) prevê o ensino adaptado às características da vida rural, indígena e quilombola em cada região do país. A proposta da senadora Teresa Leitão (PT-PE) inclui a necessidade de conteúdos curriculares e metodologias apropriadas a essas realidades. 

O texto altera a Lei 9.394, de 1996, sobre as diretrizes e bases da educação (LDB). O objetivo é reconhecer as especificidades do ensino voltado para públicos com baixa visibilidade nas políticas públicas educacionais. 

O PL pretende consolidar as diretivas do  Plano Nacional de Educação (PNE) na LDB. O projeto acrescenta um artigo determinando que a seleção de professores para a educação indígena, do campo e quilombola deve ser, preferencialmente, por concurso público específico. E estabelece que o poder público deve incentivar a formação e a seleção de professores oriundos das próprias comunidades atendidas.

A parlamentar inclui entre os segmentos considerados “educação do campo” agricultores familiares, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, assentados e acampados da reforma agrária, trabalhadores assalariados rurais e comunidades que vivem na floresta. 

LDB e PNE

A LDB já prevê programas integrados de ensino e pesquisa, com escolas bilíngue e intercultural para os povos indígenas. O propósito é recuperar memórias, reafirmando as suas identidades étnicas e valorizando línguas e ciências. Também recomenda a formação de pessoal especializado, o desenvolvimento de currículos com publicação de material didático específico e diferenciado.

O PNE 2014-2024 também incluiu a oferta de um programa para a formação de educadores para essas populações tradicionais e itinerantes, além de comunidades indígenas e quilombolas. A senadora argumenta que a proposta aumentará a qualidade do ensino ao aprofundar o conhecimento da realidade local e respeitar o perfil de cada povo.

*Com informações da Agência Senado

‘Nativos’: exposição em Palmas reúne trabalhos do fotógrafo e indigenista Fernando Amazônia

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Foto: Fernando Amazônia

A Galeria Municipal de Artes da Fundação Cultural de Palmas (FCP) recebe a exposição Nativos’, do fotógrafo e indigenista Fernando Amazônia. A mostra está aberta até 31 de janeiro, de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas, e propõe uma reflexão sobre a presença histórica e contemporânea dos povos indígenas em Palmas e no Tocantins.

‘Nativos’ é fruto de uma iniciativa da Associação de Preservação Ambiental e Valorização da Vida (Ecoterra), fundada em 24 de setembro de 1995. Com uma trajetória de quase três décadas, a Ecoterra atua nas áreas de educação, cultura e meio ambiente, sempre com um compromisso profundo com a valorização da vida e o respeito às tradições indígenas.

Entre suas ações, destacam-se os intercâmbios étnicos, participação em eventos como jogos, fóruns e seminários indígenas, e programas de habitação social com cotas para grupos étnicos. Além disso, a associação promove capacitações tanto em escolas urbanas quanto em aldeias, consolidando uma abordagem ampla e inclusiva na defesa dos direitos e da cultura dos povos originários. Esse conjunto de ações contribuíram na classificação do projeto ‘Nativos’, no edital Nª 006/FCP, PROMIC 2013.

‘Nativos’

Resultado de uma relação orgânica e respeitosa de Fernando Amazônia com os povos indígenas, a exposição é composta por fotografias marcadas por uma estética em preto e branco, que enfatiza a dualidade entre luz e sombra, e revela as características étnicas de indígenas que vivem em Palmas.

As imagens registram tanto a herança ancestral quanto a presença contemporânea dos povos nativos, tecendo um elo entre o passado e o presente, e convidando o público a refletir sobre a preservação dessas identidades.

Foto: Fernando Amazônia

O artista

Fernando Amazônia nasceu em Miracema do Tocantins, em 1981. É fotógrafo, professor, geógrafo e indigenista, militante dos movimentos socioambientais e atualmente vive em Palmas. É no ativismo que revela as belezas e contradições socioculturais do povo brasileiro, em especial do centro do Brasil, além de uma relação intensa com as questões ambientais, como os povos das florestas, daí o nome artístico Fernando Amazônia.

O artista se considera como filho da terra e como tal procura registrar, estudar o universo do lugar onde vive, dentro de um universo muito pessoal, onde a imersão na natureza é algo buscado como parte fundamental na criação de sua obra e na reconexão com seu ser.

*Com informações da Prefeitura de Palmas

Artigo 250. Qual é o sentido?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

São 250 artigos durante 250 semanas, sem nenhuma interrupção, desde fevereiro de 2020. Nesta época, ainda não havia explodido a pandemia no Brasil e a ameaça parecia muito distante. Lembro que as pessoas ainda brincaram o carnaval, algumas semanas antes do isolamento, a que fomos todos submetidos.

No artigo 200, comentei como ocorreu o convite para escrever para o Portal Amazônia, pertencente ao Grupo Rede Amazônica de Comunicação, onde eu atuava como membro do Conselho Consultivo. Aceitar o convite era uma forma de aumentar o meu nível de contribuição ao grupo, além de uma honra. Seria por algum tempo, não por muito tempo. Sobre o tema dos artigos, não seria sobre a região, temática central do portal, já que não estaria qualificado por não ser de lá, mas algo para somar aos seus leitores. Poderia ser em uma frequência irregular, quando fosse possível, mas optei por estabelecer a mim mesmo o desafio de escrever semanalmente. Por poucas semanas. Até aqui, por 250 semanas.

Os artigos não se limitaram ao Portal Amazônia, que ajudou a materializar algo que estava sendo demandado pelo MCI (Mentoring Coaching Institute). A causa do instituto é a construção consciente da Felicidade, a consciência de que a cada um nós cabe construir a nossa felicidade. Ela é o objetivo final de todas as pessoas. Assim, o tema ficou definido como Felicidade. Para o portal, Felicidade no Mundo Corporativo, como está até hoje. O tema é abrangente e o conteúdo vem sendo tratado em diferentes abordagens para pessoas e para empresas. Em algum momento, foi incorporada à plataforma do Spotify e depois a do Youtube.

Em diversos pontos da jornada, estive tentado a interromper. Uma das limitações é o tempo disponível para isso, que é sempre um desafio. Chegar a 50 semanas foi a primeira marca, depois a 100 e a 150. Decidi que se chegara até ali, conseguiria ir até 200 artigos. Mais uma vez, segui em frente e me deparo aqui, no artigo 250, novamente em uma encruzilhada entre parar e seguir. Em cada momento destes, havia e há a questão: qual o sentido?

Em alguns momentos, o sentido veio pelo sentimento de cumprimento de Missão e de Propósito. Quando sentimos que estamos fazendo o que viemos fazer (Missão) e trabalhando algo de grande significado para nós mesmos (Propósito), uma coisa potencializa a outra e surge fortemente o Sentido.

Em outras ocasiões, este sentimento foi reforçado pelo incentivo de qualquer comentário, de qualquer leitor. Não fico preso a quantidade de leitores, embora de vez em quando goste de visitar os relatórios, mas qualquer pessoa que o leia e dê um retorno, mesmo que seja crítico, é muito significativo.

Em muitos momentos, senti um grande prazer em escrever. Isto ocorreu todas as vezes em que me senti plenamente conectado, como se estivesse apenas digitando algo que vem de algum lugar. Talvez venha do meu anjo da guarda ou do que os romanos chamavam de genius ou os gregos de musas, cuja função é inspirar seres humanos à arte. São forças interiores que atuam contra a resistência, que limita o uso de nossa capacidade criativa, segundo o roteirista de Hollywood Steven Pressfield. Sentir-se conectado a esta força interior e ser instrumento dela é uma sensação das mais prazerosas.

Nos questionamentos de parar ou seguir, o coração vem sendo ouvido e a razão também. Não sou capaz de medir o quanto os textos beneficiaram ou não os leitores, mas, racionalmente, reconheço alguns ganhos pessoais que tive. Um deles é o treino da disciplina e da determinação. Fazer o que me proponho a fazer me gera realização, que é uma das dimensões da felicidade. A busca pela realização também faz parte do sentido.

Quero agradecer ao Portal Amazônia e ao MCI pelo espaço. Quero agradecer ao meu anjo de guarda, ao meu genius interior e a minha musa. Quero agradecer a minha esposa Cláudia, que revisou todos os 250 artigos, a equipe de apoio que operacionaliza a publicação e a cada um dos leitores, que fizeram haver sentido nas publicações até aqui. Como você pode ver, é um verdadeiro trabalho em equipe. Se os artigos vão prosseguir? Quem sabe você não possa me ajudar a decidir?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Saiba como se prevenir de acidentes com animais peçonhentos durante o inverno amazônico

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Foto: Daiane Mendonça/Governo de Rondônia

Quando chega o período de chuvas mais intensas, conhecido como inverno amazônico, a incidência de acidentes com animais peçonhentos tende a aumentar em Rondônia e outros estados da Amazônia. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia (CBMRO), esse fenômeno ocorre principalmente devido ao comportamento dos animais, que saem de seus habitats naturais em busca de abrigos mais secos e quentes, o que acende um alerta para a população.

As espécies mais comuns incluem aranhas, escorpiões, lacraias, serpentes e outros animais, inclusive alguns tipos venenosos, que são encontrados em quintais e terrenos que acumulam entulhos, como madeiras e tijolos. A Corporação orienta que medidas básicas podem ser fatores decisivos para evitar ataques que podem levar a casos mais graves.

O tenente BM José Feliciano dos Santos Filho, que atua nas ações de orientação e captura realizadas pelo CBMRO, destaca a necessidade de conscientização sobre os cuidados necessários neste período chuvoso no estado.

Cuidados em casa

Um espaço limpo e organizado tem menos chances de abrigar animais peçonhentos. Por isso, é recomendado manter o quintal limpo e evitar o acúmulo de detritos, sempre utilizando Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) no momento da limpeza. Outra medida é vedar frestas em portas, janelas e buracos no piso, para proteger as aberturas ao redor e garantir que locais inapropriados da casa não sirvam de esconderijos para animais, como cobras e lacraias.

A população deve, ainda, revisar periodicamente áreas como porões, sótãos, banheiros e garagens. A presença de aranhas, por exemplo, é comum nesses locais, especialmente as mais venenosas, que podem causar sérios problemas de saúde se não tratadas rapidamente. Já os escorpiões, frequentemente encontrados em áreas de pouca circulação, também são uma preocupação durante o inverno, pois se deslocam em busca de calor e umidade.

Em caso de acidentes

Em caso de ataque de um animal peçonhento, como uma mordida de serpente, picada de escorpião ou aranha, é essencial procurar atendimento médico de emergência imediatamente. O estado de Rondônia conta com unidades especializadas e multiprofissionais, como o Centro de Medicina Tropical de Rondônia (Cementron), que oferece atendimento de urgência, acompanhamento de casos de envenenamento e avaliação adequada ao tratamento de vítimas.

O tenente BM José Feliciano, ressalta ainda que, em algumas situações, o animal pode ser capturado e devolvido ao seu habitat natural, o que também ajuda a evitar futuros acidentes. “Caso algum desses animais seja encontrado dentro ou perto de casa, é importante manter a calma e evitar o contato direto. O responsável pelo local deve entrar em contato com o 193, que fará o resgate do animal, além de prestar as orientações necessárias. A colaboração da sociedade é decisiva para minimizar eventuais acidentes e preservar a saúde e segurança de todos”, orientou.

Outros canais de informação

Além do 193, o cidadão também pode contatar outros canais de comunicação disponíveis para garantir atendimento rápido e adequado. Podem ser acionados os seguintes números de emergência: 190 (Polícia Militar) e 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU).

*Com informações do Governo de Rondônia

Plano de bioeconomia prevê investimentos para negócios sustentáveis em Belém

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Foto: Divulgação

Prestes a completar 409 anos, a cidade de Belém tem muitos motivos para celebrar. Em alguns meses, a capital paraense, também conhecida como ‘Portal da Amazônia’, vai sediar o evento mais importante de mudança climática do mundo: a reunião da cúpula climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP30, ‘Conference of the Parties‘. Neste edição, o evento ganhou dos paraenses o codinome de ‘COP da Floresta’. Belém será a primeira cidade do Brasil a receber a COP. 

Em paralelo, o Plano Estadual de Bioeconomia, que tem como objetivo investir, principalmente, na sociobiodiversidade e na valorização do conhecimento tradicional, visando ao desenvolvimento socioeconômico baseado em baixas emissões de gases de efeito estufa (GEE), já implementou mais 55% das 114 ações previstas em seu planejamento, impactando diretamente a realidade de mais de 200 mil pessoas e estimulando a renda de aproximadamente 1.800 famílias, através de fomento das cadeias da sociobiodiversidade, rodadas de negócios, feiras da bioeconomia, entre outros.

Foto: Divulgação/Fapespa

O Plano, enquanto instrumento de política pública do Estado do Pará, já injetou mais de R$ 77 milhões em mais de 1.000 negócios que promovem a valorização do conhecimento tradicional, soluções baseadas na natureza e economia de baixas emissões de carbono.

Lançado pelo Governo do Pará oficialmente durante a COP 27, realizada no Egito, no final de 2022, o Plano é coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente (Semas) e ancorado na Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC), sendo também um dos componentes do eixo desenvolvimento socioeconômico de baixo carbono do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA).

Desenvolvimento

O Plano prevê a promoção de soluções baseadas na natureza consolidando três eixos estratégicos:

– Fomento a cadeias produtivas, que conciliam desenvolvimento econômico com a preservação ambiental, produção de bioprodutos, manejo florestal sustentável e agricultura familiar;

– Reconhecimento e valorização da cultura e do conhecimento tradicionais das comunidades locais, com proteção da biodiversidade e do patrimônio genético do Estado;

– Apoio à pesquisa científica e tecnológica voltada ao desenvolvimento de soluções inovadoras e sustentáveis para os desafios da bioeconomia.

Investimentos 

Dentre os eixos de sustentação do Planbio estão a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico, de responsabilidade da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa), que priorizam projetos que aliam inovação, sustentabilidade e inclusão social para o desenvolvimento econômico da Amazônia.

Somente em 2023, a Fapespa investiu mais de R$ 11,3 milhões em projetos alinhados à bioeconomia e voltados para a valorização do conhecimento tradicional amazônida.

Já em 2024, mais R$ 10,5 milhões foram investidos para novos projetos de ciência, tecnologia e inovação. Um montante que até 2026, deve chegar a R$ 17.645.152,25 para o complemento de projetos já contratados. Esse trabalho prevê ainda novos editais e parcerias que estão em andamento e com a previsão de que em 2025, possamos contar com um aporte de mais R$ 15 milhões.

Apenas na região do Guajará, que inclui a cidade de Belém, atualmente, são fomentados 33 projetos pela Fapespa. Desses, sete projetos são diretamente ligados a pesquisas com novos alimentos que podem ser extraídos da bioeconomia. Há também oito projetos de startups que são fomentadas por meio do programa Centelha, realizado em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).

São projetos na área do desenvolvimento econômico de base social do chocolate, de conexão do campo e da cidade para uma agricultura mais sustentável, beneficiamento de sementes de açaí, negócios de bioeconomia que têm um potencial muito grande de geração de emprego e renda, geração de energia limpa e sustentável; novos bioativos para as indústrias farmacêuticas e de cosméticos; validação acadêmica dos conhecimentos ancestrais, entre outros.

Foto: Divulgação

Biotecnologia

Entre esses projetos está o “Soluções Biotecnológicas para o desenvolvimento sustentável na Amazônia. Um projeto inovador que busca promover soluções biotecnológicas para o desenvolvimento sustentável na Amazônia. A iniciativa aposta no aproveitamento de bioinsumos, como óleos e manteigas vegetais, e na valorização de resíduos agroindustriais, integrando o conceito de biorrefinaria.

Na Amazônia, onde a economia ainda é fortemente baseada no extrativismo, a pesquisa explora a valorização de resíduos lignocelulósicos e lipídicos para a geração de produtos como gás de síntese, polímeros e catalisadores avançados. Além disso, o uso de cianobactérias e rejeitos de mineradoras está sendo investigado para a produção de novos materiais e processos.

“A valorização dos resíduos é algo que pode gerar um novo produto, um lixo, que após os estudos de tecnologias, poderemos utilizar para gerar novos produtos. Tudo pode fazer com que essa cadeia seja ainda mais circular, favorecendo um ambiente de reutilização, de sustentabilidade e acima de tudo gerando renda e emprego para as pessoas da nossa cidade e mais qualidade de vida”, explica o professor Luis Adriano, Doutor em Físico-Química e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UFPA.

A iniciativa também fortalece a bioeconomia local ao capacitar cooperativas e comunidades na extração e beneficiamento de óleos vegetais, como o de andiroba. Resíduos de cadeias produtivas, como a do açaí, são transformados em novos produtos, ampliando a economia circular e gerando empregos na cidade.

Botelho explica que com essas ações cria-se ambiente para atrair mais investimentos com empresas mundo afora e a redução dos impactos ambientais, o uso sustentável dos recursos naturais e o desenvolvimento de produtos novos.

*Com informações de Fapespa