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Amizade com Nietzsche e a Madeira-Mamoré: o austríaco que chorava a própria morte

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Julius Pinkas visitava o próprio túmulo. Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

A Guerra do Pacífico (1879–1883) deixou a Bolívia isolada, sem acesso ao Oceano Pacífico e com o desafio de redefinir suas rotas comerciais. Foi aí que os majestosos rios Madeira e Mamoré surgiram como a nova esperança de conexão ao Atlântico, e o Brasil viu uma oportunidade estratégica de estreitar laços com o vizinho. Assim, nascia o ousado e quase utópico projeto da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Em janeiro de 1883, uma comissão brasileira começou a traçar os primeiros planos para a ferrovia que prometia ligar Santo Antônio do Rio Madeira a Guajará-Mirim. Na linha de frente, o engenheiro Carlos Alberto Morsing, acompanhado pelo engenheiro austro-brasileiro Julius Pinkas Strauss, uma figura que, ao longo do tempo, provaria ser muito mais que um simples técnico: um excêntrico, um poeta e um espírito inquieto.

Cinco meses após assumir as operações, Morsing, debilitado pela saúde frágil, cedeu o comando a Pinkas. Este, por sua vez, trouxe uma visão única ao trabalho em Santo Antônio. Onde muitos viam um “inferno verde”, Pinkas enxergava uma natureza de beleza selvagem e avassaladora. Suas crônicas fogem ao modelo formal vigente e transportam o leitor para um cenário poético:

“Desapareça o navio que durante algumas horas empresta ruído e movimento a este porto de Santo Antônio o viajante achar-se-á no meio de uma natureza de aspecto mais selvagem que jamais sua fantasia pode ter desejado. Diante de si ruge a cachoeira, desprendendo faíscas de luz na corrida precipitada de suas águas revoltas, blocos de dimensões colossais, semeados pelos canais e nas margens das ilhas, rodeiam e limitam o seu horizonte. A floresta, tendo como guardas da sua originalidade as colossais sumaúmas, erguendo altaneiras suas cúpulas verdejantes, acima delas, como se vedando ao curioso os encantos e segredos, atrás do véu espesso que lhe forma a vegetação densa e impenetrável da margem”.

Mas nem poesia resistia às adversidades do lugar. Com sua saúde também comprometida, Pinkas foi forçado a retornar ao Rio de Janeiro, então capital do Império Brasileiro, em outubro de 1883. Ainda assim, sua paixão pela ferrovia e pela Amazônia o trouxe de volta em 1884, até que, em um golpe orçamentário, o projeto foi suspenso.

Foto: Reprodução/Acervo pessoal

A tentativa frustrada de domar a selva amazônica foi apenas uma das aventuras de Julius Pinkas. O engenheiro era um verdadeiro cidadão do mundo: atravessou o Atlântico inúmeras vezes, lutou pela consolidação da Prússia ao lado de um pálido soldado de artilharia de quem se tornou grande amigo. Seu nome: Friedrich Nietsche, um dos mais relevantes filósofos do mundo.

Nos anos 1900, estabeleceu-se no Chile, em Antofagasta, uma cidade portuária às margens do deserto de Atacama.

Em Antofagasta, a excentricidade de Pinkas alcançou novos patamares. Elegante até em ambientes de obra, limpava as mãos com lenços de seda e os deixava para os operários, que disputavam a peça suja como troféu. Fazia questão de ser recebido com um tapete de veludo vermelho ao sair de sua carruagem. Foi também ali que promoveu a estreia do pianista prodígio chileno Claudio Arrau León, abrindo as portas do palacete onde morava para o povo aplaudir o jovem talento das ruas.

Julius Pinkas, que construiu um jazigo para si mesmo e chorava saudades antecipadas da própria ausência, partiu deste mundo em 1927. Para um homem transbordando de vida, era inconcebível um futuro onde sua presença não iluminasse os dias. No Dia de Finados, ele passeava pelo cemitério como quem visitava um amigo querido, lamentando uma perda ainda não consumada. Sua última pergunta não apenas ecoa como um epitáfio imortal, mas também ressoa como um desafio ao próprio cosmos: ‘O que será do mundo sem mim?’

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

A nuvem que nos perseguia

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Às margens do Rio Madeira, o barco Veloz sob a nuvem. Foto: Bianca Darski

*Por Conexões Amazônicas – contato@conexoesamazonicas.org

Quando escrevemos um projeto para realizar uma pesquisa científica, temos que abstrair certas coisas que podem acontecer se o projeto for aprovado. Pesquisas que demandam trabalho em campo, por exemplo, são recheadas por histórias de situações completamente inesperadas. No mundo da ciência, quem gosta de fazer trabalho de campo, assume uma série de riscos sem fim. Não se trata de não pensar sobre os riscos, mas de ter coragem, criatividade e flexibilidade para lidar com o cenário que vamos encontrar. No meu caso, foi uma nuvem.

Durante muito tempo em minha carreira, realizei trabalho de campo em florestas, fazendo trilha, subindo e descendo morros e pirambeiras, no sol, na chuva, a pé, de carro, de barco, passando por pontes improvisadas, atolando os pés na água e na lama. Tudo para poder ver e ouvir as aves na Mata Atlântica e na Amazônia. Estes dois biomas são conhecidos por suas chuvas intensas e elevada umidade. E é principalmente a quantidade de água presente nestas florestas que as torna tão diversas, sobretudo em espécies de aves.

Em 2011, fiz parte de uma expedição de campo no Rio Madeira, juntamente com uma equipe de pesquisadores e técnicos do Museu Paraense Emílio Goeldi e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Nosso objetivo era catalogar espécies de aves, plantas, formigas, peixes e solos às margens (nas várzeas) do Rio Madeira. Para isso, percorremos cerca de 800 km em um barco ao longo de 40 dias.

Nosso ponto de partida foi a cidade de Porto Velho (RO) e navegamos até a foz do Rio Madeira, no encontro com o Rio Amazonas. Paramos em 16 locais, sendo dois dias em cada local para fazer o trabalho de campo. Para a pesquisa sobre as aves, usamos dois métodos: censo e captura. No censo, anota-se todas as espécies que são observadas em um dado local e a identificação pode ser tanto visual, quanto sonora. Para a captura, utilizamos armadilhas chamadas de rede de neblina, que é um método semelhante à pesca com rede ou malhadeira. Escolhemos ir nos meses de agosto e setembro porque é o período do ano em que as chuvas são escassas na região. Mas, como dizem, “no inverno amazônico chove o dia todo, já no verão chove todo dia”.

Logo no início dos trabalhos, tivemos uma visão surpreendente de uma nuvem movendo-se no mesmo sentido que o nosso barco. Tão logo armamos as armadilhas de captura de aves, caiu um toró. Chuva forte, daquelas de “pingo de um litro”. Na hora, o jeito foi correr para fechar as redes e eventualmente tirar o que tivesse caído na armadilha, podendo ser aves, insetos, mas também folhas e pedaços de galhos. Tudo isso no meio de um temporal. A chuva costuma ser rápida durante o verão amazônico, mas também pode ser volumosa e com ventos fortes. Em menos de uma hora depois parecia que nada havia acontecido. Céu azul e sol. Com as armadilhas novamente abertas, diversos passarinhos e outras aves acabaram caindo nas redes. Pensei: “valeu a pena a chuvarada”.

No caminho do próximo local onde iríamos realizar o trabalho, mais uma vez estava lá a nuvem. E o cenário se repetiu de forma parecida, tudo muito rápido, quase no mesmo horário: redes armadas, vento e chuva forte, corrida para fechar as redes, corrida para abrir, redes cheias de passarinhos, insetos, galhos e folhas. A rede de neblina precisa ser o mais invisível possível para que uma ave seja capturada. Por isso, é importante tirar todas as folhas e galhos que ficam presos. Isso é importante também para facilitar o processo de abrir e fechar as redes, pois os nós se criam com facilidade. Ou seja, um vento e/ou chuva forte no meio da mata gera um processo trabalhoso. E isso se repetiu ao longo de alguns dias.


Quem trabalha com captura de aves sabe que, às vezes, nos deparamos com indivíduos que têm garras e bicos afiados. Durante o trabalho no Rio Madeira, encontramos com frequência uma ave bastante desafiadora para manipular em uma armadilha de rede de neblina: a mãe-de-taoca (Phlegopsis nigromaculata). Dentre as características desta espécie, está o hábito dos indivíduos andarem em grupos ou em pares, geralmente próximos ao chão da floresta, além da presença de pernas fortes, unhas e bico afiados.

As pernas fortes, provavelmente, são importantes no seu papel de seguidoras de formigas-de-correição (também chamadas de taocas), pois a mãe-de-taoca se alimenta destas formigas que andam juntas em milhares de indivíduos. Possivelmente, logo após a chuva, as formigas também estavam mais ativas, o que deve ter alertado grupos de mãe-de-taocas. O resultado desta combinação foram vários dias com as marcas de unhadas e bicadas nas mãos.


Indivíduo de mãe-de-taoca (Phlegopsis nigromaculata) capturado pelo método de rede de neblina nas várzeas do Rio Madeira. Foto: Bianca Darski

A chuva é um elemento importante quando decidimos fazer um trabalho de pesquisa sobre aves (e certamente isso se aplica a outros grupos de animais). Isso porque os “penudos” ficam mais quietos e parados quando está chovendo. Desse modo, a detecção das espécies pelo pesquisador em campo fica comprometida, seja pelo canto, visualização ou captura das aves. O horário que decidimos ir a campo também é fundamental, porque estes animais têm hora para começar a cantoria. Se você perder a hora de maior atividade, por exemplo, no início da manhã e no fim da tarde, infelizmente não fará uma boa amostragem sobre as aves do local. Há outros fatores que influenciam, como o barulho que você faz ao entrar na floresta, as cores das roupas que você usa e os equipamentos que você tem à mão, por exemplo, gravador e binóculos. De certo modo, alguns fatores são controláveis, mas a chuva é algo que realmente acaba com a brincadeira.

Por outro lado, logo após a chuva passar, especialmente quando o sol aparece, as aves e outros animais se movimentam mais. Isso pode ocorrer no meio da manhã, ou seja, fora do horário que consideramos “ótimo”. E pode ter sido justamente essa conjunção de fatores que intensificou a captura de aves nas redes. Não havia muito tempo para esperarmos a condição climática ideal. Tínhamos que executar o trabalho em dois dias e logo depois navegar até o próximo ponto. Ao chegar em cada local, ouvíamos dos moradores da beira: “Faz tempo que não chove. Essa nuvem parece estar acompanhando vocês”. No total, entre as aves capturadas, vistas e ouvidas, registramos mais de 400 espécies. Bendita nuvem.


A chuva seguida do sol também proporcionou momentos com arco-íris às margens do Rio Madeira. Foto: Bianca Darski

Com a colaboração de:

Bianca Darski-Silva é analista de pesquisa e desenvolvimento em popularização da ciência, tecnologia e inovação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. É bióloga, mestre em zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e doutora em ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É co-fundadora da Rede Conexões Amazônicas e entusiasta de uma ciência colaborativa e inclusiva. Atualmente se dedica a atividades de comunicação e extensão para promoção de uso sustentável dos recursos naturais e igualdade socioambiental na Amazônia.

Sobre o Conexões Amazônicas

O coordenador da ONG Rede Conexões Amazônicas, Ayan Fleischmann, é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É representante da ONG na coluna no Portal Amazônia, onde recebe pesquisadores convidados que contam os bastidores de suas experiências de pesquisa na Amazônia.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Aumento de períodos prolongados de seca ameaça anfíbios brasileiros

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Perereca-de-ampulheta (Dendropsophus minutus), espécie que habita as florestas da América do Sul. Foto: Reuber Brandão, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

O Brasil abriga a maior diversidade do mundo de anfíbios: das mais de 8 mil espécies conhecidas globalmente, cerca de 1.200 são encontradas no país, sobretudo nos biomas Amazônia e Mata Atlântica. Mas seu futuro está em risco devido ao aumento dos períodos de seca em seus habitats.

Seca e anfíbios não são uma combinação viável. Esses animais dependem de água e umidade para sobreviver. Sem elas, podem desidratar em poucas horas e morrer.

“Os anfíbios possuem a pele fina e permeável, diferentemente de outros animais terrestres, como humanos, pássaros, répteis e insetos. Essa pele úmida deixa passar água e outras substâncias, tornando-a mais sensível ao ar seco. É por isso que você não vê sapos expostos ao sol por muito tempo – eles secam muito mais rápido do que outros animais”, explica o biólogo Nicholas Wu, pesquisador da Western Sydney University, na Austrália.

Leia também: Anfíbios amazônicos estão entre os 40% dos anfíbios no mundo ameaçados de extinção

Com a ajuda de outros cientistas, Wu mapeou regiões do planeta onde anfíbios anuros (sapos, rãs e pererecas), um grupo de vertebrados sensíveis à água, enfrentarão condições mais áridas e secas no futuro, podendo gerar um maior risco de declínio de populações e até de extinção de espécies.

“Descobrimos que muitas partes do mundo onde vivem anuros correm o risco de ficarem mais áridas e sofrerem com aumento de secas. Também constatamos que a combinação de temperaturas mais altas e ambientes mais secos terá grandes impactos na janela de atividades deles, ou seja, as horas em que o clima não impede os anuros de forragearem e procriarem”, diz o pesquisador.

estudo de Wu, publicado na Nature Climate Change, aponta que até 33% dos habitats dos anuros poderão se tornar mais áridos até 2100. Num cenário de aquecimento global, caso o clima no futuro fique 4 ºC mais quente, 36% desses habitats terão secas mais duradouras, com aumento de até quatro meses por ano.

Ainda de acordo com a análise, a previsão é que o agravamento das secas duplique as taxas de perda de água através da pele desses animais. No futuro, espera-se que a combinação de seca e aquecimento reduza pela metade o tempo em que os anuros ficariam ativos.

E essa é uma realidade que já está sendo sentida por biólogos. “A maioria das espécies não fica ativa o ano inteiro. No Brasil, o comum era perceber maior atividade de muitos anuros nas primeiras chuvas de setembro”, diz Rafael Bovo, pesquisador da Universidade da Califórnia, Riverside, nos Estados Unidos, e um dos coautores do estudo.

“Entretanto, nos últimos anos, quando realizamos trabalho de amostragem no campo, tem sido comum observar o adiamento tanto da estação de chuvas quanto do período de maior atividade desses animais”.

O brasileiro ressalta que, ao entrar em atividade mais tarde, esses anfíbios podem ter menos tempo para seu desenvolvimento biológico – como por exemplo, de seus órgãos sexuais –, realizar o chamado cortejo reprodutivo, encontrar alimento para ter energia e, finalmente, achar seus parceiros.

Preocupação com sapos no sul da Amazônia e na Mata Atlântica

A análise, elaborada a partir de diversos cenários climáticos e da distribuição de mais de 5 mil espécies de anuros, indica que várias regiões do planeta com grandes concentrações desses animais serão afetadas pela aridificação nas próximas décadas, mas com impacto maior em áreas da África e particularmente, da América do Sul.

O que realmente preocupa os envolvidos no estudo é que existem muitas espécies de anfíbios nas florestas do continente sul-americano, como já mencionado anteriormente. E mais do que isso, muitos são endêmicos, ou seja, não existem em nenhum outro lugar, como é o caso da perereca-flautinha (Aplastodiscus leucopygius) e do sapinho-pingo-de-ouro (Brachycephalus pitanga)que só ocorrem na Mata Atlântica.

“O bioma abriga mais de 700 espécies dos anfíbios anuros conhecidos no Brasil, e mais de 50% delas são endêmicas”, ressalta Bovo. “Quando se pensa em um cenário de Mata Atlântica, de perda de quase 90% de sua vegetação original, e agora com uma piora climática ainda mais rápida, boa parte dessas espécies pode desaparecer.”

Já na Amazônia o alerta cai sobre o Arco do Desmatamento, no sul do bioma, onde há maior expansão das atividades agropecuárias. “Essa é a área do nosso mapa onde aparecem manchas críticas em que haverá aumento de seca, sendo que essa região já sofre com um processo histórico de desmatamento, desde a década de 70, inclusive com a construção das estradas, que destroem não só as florestas como também outros habitats importantes para os anuros”, destaca Bovo.

Adaptação e evolução: uma incógnita

Anfíbios são animais essenciais para seus ecossistemas. Entre alguns dos muitos serviços ambientais que eles prestam estão a regulação de populações de insetos – como mosquitos, conhecidos vetores de doenças –, a ciclagem de nutrientes e a sustentação de diversas teias alimentares.

Em um clima mais quente e árido, a dúvida é se haverá tempo para que eles consigam se adaptar ou evoluir ao longo das gerações para sobreviver a essas novas condições.

Leia também: Seca e aquecimento global vão prejudicar anfíbios da Amazônia, aponta estudo

“É possível que os anfíbios se adaptem a um mundo mais quente, mas eles precisam de tempo para tal. Atualmente, a taxa de aquecimento excede sua capacidade de adaptação, razão pela qual muitos sapos correm risco de extinção”, afirma Wu. “Se fornecermos alguma proteção ambiental, por exemplo, restaurando florestas, isso fornecerá microclimas adequados para que os anfíbios se adaptem ao nosso mundo em rápida mudança.”

Os pesquisadores reforçam que estudos como esse são importantes para ajudar na elaboração de políticas públicas de conservação enquanto essas espécies ainda existem, antes que seja tarde demais, após elas já terem sido extintas.

O próximo passo é entender melhor como alguns animais são mais resilientes do que outros. Bovo cita como exemplo espécies com adaptações específicas, como aquelas que produzem cera na pele e conseguem resistir a situações adversas, sem desidratar muito rápido. E outras que se enterram, criando um casulo, com pele morta acumulada, desenvolvendo uma barreira física para reduzir a perda de água.

“Muitos dos estudos feitos nas últimas décadas sobre mudanças climáticas tiveram como foco apenas a mudança da temperatura, e não o efeito separado ou combinado de calor e seca, como esse nosso estudo. Além disso, estamos aprendendo que não é só a média que importa; é preciso levar em conta ainda a variação de temperatura e umidade e a ocorrência mais frequente de eventos extremos”, destaca o biólogo.

“Por isso não é fácil responder à simples pergunta se todos ou apenas alguns grupos de animais que dependem de água, como os anfíbios, irão sobreviver às mudanças climáticas”, conclui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo

COP 30: soluções sustentáveis devem liderar agenda climática, dizem especialistas

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Foto: Rodolfo Pongelupe

Pela primeira vez, o Brasil sediará a maior conferência global sobre mudanças climáticas. A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30) será realizada em Belém, no Pará, reunindo mais de 60 mil participantes, entre chefes de Estado, diplomatas, lideranças indígenas e tradicionais, empresários, investidores, ativistas e delegações dos 193 países membros da ONU. Com a Amazônia no centro das atenções, o evento é visto como uma oportunidade histórica para impulsionar soluções climáticas e baseadas na natureza efetivas.

A conferência traz pautas cruciais como a redução de gases do efeito estufa (GEE) e o financiamento climático por países desenvolvidos. Para especialistas, a realização da COP na Amazônia reforça a importância da região na luta contra as mudanças climáticas e destaca a necessidade de soluções sustentáveis. 

“A COP 30 é uma grande oportunidade para o Brasil, para a Amazônia, porque o país vai presidir e coordenar as negociações climáticas. Isso tem duas importâncias. Primeiro, o Brasil é muito reconhecido por sua competência diplomática; e segundo, a COP trará os impactos climáticos que tem nos afetados cotidianamente, principalmente os povos das florestas. Esse chamado para a realidade e a urgência possibilitarão que as negociações andem mais rápido”, pontua Victor Salviati, superintendente de Inovação e Desenvolvimento Institucional da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). 

A conferência ocorre após a COP 29, realizada em Baku, no Azerbaijão, que gerou frustração devido à falta de assertividade nas decisões climáticas. Um dos principais pontos discutidos foi a Nova Meta Quantificada Coletiva (NCQG, na sigla em inglês), que definiu o financiamento de US$ 300 bilhões anuais pelos países desenvolvidos até 2035. Entretanto, esse valor foi considerado insuficiente diante da demanda de US$ 1,3 trilhão por ano, conforme estabelecido no Acordo de Paris.

Outro ponto crítico é a falta de consenso sobre a redução do uso de combustíveis fósseis, tema que se arrasta desde a COP 28. Para Salviati, a COP 30 deve colocar essas questões em pauta e estabelecer metas realistas e ambiciosas com ampla participação social.

“Essa COP vai ser muito importante para que o governo brasileiro tenha uma plataforma muito compreensiva e inclusiva. A participação social vai ser muito intensa, que vai das Organizações da Sociedade Civil (OSC), movimentos sociais, lideranças indígenas, caboclas e quilombolas a empresas e cientistas. O governo brasileiro vai ter o nosso apoio para fazer da COP de Belém a ‘COP da Transformação’”, finaliza Salviati.

Virgilio Viana, superintendente geral da FAS, reforça que, apesar de ocorrer na Amazônia, a COP 30 não é um evento focado apenas no Brasil, mas uma agenda global que deve ampliar o debate sobre Soluções Baseadas na Natureza (SbN). 

“É necessário distinguir o que é uma COP na Amazônia e no Brasil, e uma COP sobre o Brasil. Essa não é uma COP sobre nosso país, ela é uma agenda global. O grande significado dela acontecer em Belém é que ela sai do Oriente Médio – países produtores de petróleo – e é importante que tenha ocorrido lá, porque o aquecimento global está ligado ao uso dos combustíveis fósseis. Com a vinda para o Brasil, a grande importância é debater as Soluções Baseadas na Natureza, o papel dos povos da floresta nesse debate, e o papel da diplomacia brasileira”. 

Com uma programação intensa, a FAS e diversas instituições já estão mobilizadas para a COP 30. “Enxergamos a COP como uma série de discussões de processo de tomada de consciência, educação, engajamento e, principalmente, decisões entre diversos setores na agenda de mudanças climáticas. A expectativa para a COP deste ano é enorme. A Amazônia estará no centro das atenções, e devemos estar preparados para cobrar as ações necessárias nessa agenda de mudanças climáticas, com um foco na adaptação. Não temos planeta B, precisamos agir agora”, finaliza.

Mais do que nunca, essa é uma oportunidade de trabalho conjunto entre governos, sociedade civil, empresas e organizações comprometidas com a floresta viva e com o cuidado com as pessoas que cuidam e vivem nela.

A ambientalista quilombola e superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Comunidades da FAS, Valcléia Lima, reforça outro ponto importante que também deve ser levado em consideração nesta COP: a equidade de comunicação direcionada às populações tradicionais. 

“É fundamental que as vozes das comunidades tradicionais sejam ouvidas. Povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas vivem as consequências das mudanças climáticas de forma direta. Muitas vezes, esses grupos são excluídos dos debates ou confrontados com uma linguagem técnica que os distancia do processo decisório. A comunicação equitativa deve ser uma prioridade. Tornar acessíveis conceitos como resiliência, sustentabilidade e adaptação é garantir que essas populações possam participar ativamente, não apenas como espectadores, mas como protagonistas”, pontua.

*Com informações da FAS

72% dos moradores da Região Norte acreditam que eventos climáticos extremos foram piores em 2024

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Foto: Divulgação/Facebook-Prefeitura de Viseu (PA)

Para 72% da população do Norte do Brasil, eventos climáticos extremos, como inundações, tempestades e secas, por exemplo, foram piores em 2024. É o que revela levantamento feito pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados.

Essa percepção é mais recorrente entre quem vive em áreas metropolitanas, que corresponde a 34% da população da região. Entre os que tem renda familiar superior a 5 salários mínimos, a taxa é de 35%. Já 31% têm ensino superior. 

Somente 19% afirmaram que os eventos de 2024 foram iguais aos anteriores. Para outros 4%, foram melhores que o normal, enquanto 2% consideram muito melhores que o normal. 

Ainda de acordo com a pesquisa, 51% acreditam que as mudanças climáticas são um grande problema, porém, não uma crise. Já 27% acreditam ser uma crise; enquanto 10% consideram um problema menor. Outros 6% disseram não ser nenhum problema.

Quanto aos próximos 5 anos, 65% acham que os eventos climáticos serão mais fortes. Porém, para 18% serão moderados, para 6% menos fortes e para 2% muito menos fortes. 

Sobre a compreensão de que o estado onde mora está passando por mudanças climáticas há quase unanimidade, com 96% das respostas. Somente 3% não acreditam nesse cenário. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Brasil 61, escrito por Marquezan Araújo

MCTI e CNPq abrem chamada de R$ 33,5 milhões para pesquisas na Amazônia Legal

Vista do AmazonFace (Amazônia). Foto: Reprodução/G20 Brasil

Estão abertas as inscrições para a Chamada Pública do Programa Integrado de Desenvolvimento Sustentável da Região Amazônica (Pró-Amazônia) destinada a fortalecer a pesquisa na Amazônia Legal. O edital MCTI/CNPq 03/2025 vai destinar R$ 33,5 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) a projetos voltados ao avanço científico e tecnológico na região.

Leia também: Entenda a diferença entre Amazônia Legal, Internacional e Região Norte

As propostas devem ser submetidas até 10 de junho. Os projetos devem ser realizados em parceria com pelo menos uma Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT) sediada em um país membro da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), formada por Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

A Subsecretaria de Ciência e Tecnologia para a Amazônia (SCTA) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) coordena a iniciativa. O objetivo é consolidar a base científica da região, incentivando pesquisas aplicadas, cooperação internacional e estratégias para reduzir desigualdades regionais.

A subsecretária substituta de Ciência e Tecnologia para a Amazônia, Cássia Damiani, explica que a SCTA participou da concepção do Pró-Amazônia e dos editais vinculados ao programa. A chamada mais recente reforça a colaboração entre os membros da OTCA.

“A SCTA reconhece a importância desse investimento como um instrumento essencial para fortalecer a pesquisa aplicada, estimular soluções inovadoras e promover uma cooperação internacional sólida, entre os pesquisadores. É por meio de ações como esta que avançamos na preservação dos recursos naturais e no desenvolvimento integrado da Amazônia, sempre com foco na valorização do conhecimento científico e no bem-estar das populações amazônicas”, disse.

A chamada contempla pesquisas em áreas como mudanças climáticas, cadeias produtivas da sociobiodiversidade, biotecnologia, recuperação de ecossistemas e inteligência artificial aplicada aos desafios da Amazônia. O resultado preliminar será divulgado em julho, com possibilidade de apresentação de recursos antes da publicação final.

A íntegra do edital está disponível no portal do CNPq.

Sobre o Pró-Amazônia

O Pró-Amazônia é um dos 10 programas estratégicos aprovados pelo Conselho Diretor do FNDCT para 2024 e tem como objetivo principal apoiar ou criar centros avançados de pesquisa, com colaboração entre instituições que atuem na ampliação do conhecimento científico da Região da Amazônia Legal, no aumento de recursos humanos capacitados, na melhoria da infraestrutura de ciência e tecnologia instalada e na diminuição das assimetrias regionais, sendo estas coordenadas por Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICT) da Região da Amazônia Legal.

A Amazônia Legal é uma área de 5.217.423 km², que corresponde a 61% do território brasileiro. Além de abrigar todo o bioma Amazônia brasileiro, ainda contém 20% do Bioma Cerrado e parte do Pantanal Mato-Grossense. Ela engloba a totalidade dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Estado do Maranhão. Apesar de sua grande extensão territorial, a região tem apenas 21.056.532 habitantes, ou seja, 12,4% da população nacional e a menor densidade demográfica do país (cerca de 4 habitantes por km²). Nos nove estados residem 55,9% da população indígena brasileira, cerca de 250 mil pessoas, segundo a Funasa.

*Com informações do MCTI

Patente de processo inovador para produção de nibs de cupuaçu é registrada pela Ufac

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Foto: Reprodução/Ufac

A Universidade Federal do Acre (Ufac) conquistou o registro da patente ‘Processo físico de separação dos nibs e dos tegumentos de amêndoas fermentadas e secas de cupuaçu (Theobroma grandiflorum (Willd. ex Spreng.) K. Schum)’.

Desenvolvido em parceria com a Cooperativa Reca, o método permite a separação eficiente dos nibs e tegumentos da fruta, tornando viável a produção de nibs de cupuaçu, produto alimentício de alto valor agregado e matéria-prima para fabricação de cupulate, análogo ao chocolate.

Leia também: Cupulate: pesquisadores estudam fabricação do chocolate de cupuaçu

Foto: Reprodução/Ufac

A pesquisa foi conduzida por professores e alunos da Ufac, junto com técnicos e agricultores da cooperativa, referência na agricultura familiar. Além do impacto econômico, a inovação agrega valor à produção local e fortalece práticas sustentáveis no setor.

O processo patenteado utiliza uma combinação de técnicas para a separação dos nibs e tegumentos das amêndoas fermentadas de cupuaçu. A torração ocorre em forno não rotativo a 130°C, seguida por trituração mecânica e peneiração em diferentes malhas.

A inovação está na aplicação do método de floculação em água, que permite separar os nibs das cascas de maneira mais eficiente e com menor custo, garantindo um alto rendimento e qualidade do produto final.

Foto: Reprodução/Ufac

Para o professor Eduardo Pacca Luna Mattar, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN), a remoção do tegumento das amêndoas de cupuaçu sempre foi um desafio para a cadeia produtiva.

“Diferentemente do cacau, esse processo no cupuaçu é mais difícil. Nossa patente criou um método de baixo custo para essa separação, viabilizando a produção dos nibs de forma mais acessível e eficiente”, explicou.

O pedido da patente foi depositado em 1º de agosto de 2023 e publicado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 4 de fevereiro de 2025.

A iniciativa contou com apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, por meio do Edital nº 01/2020 do Programa de Residência Profissional Agrícola.

A gestão do processo de patente foi conduzida pelo Núcleo de Gestão do Conhecimento e da Tecnologia (NGCTEC), vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propeg). “Levamos a ideia ao NGCTEC e recebemos todo suporte para os trâmites junto ao INPI”, disse Mattar.

Os experimentos foram realizados na Unidade de Tecnologia de Alimentos (UTAL) da Ufac. “Esse é um marco para a universidade”, destacou.

*Com informações da Ufac

Aplicativo é usado para monitorar andadas reprodutivas do caranguejo-uçá no Amapá

Aplicativo de monitoramento de andada de caranguejo-uçá contribui para preservação da espécie. Foto: Elimarcos Sacramento/Redemar Brasil

Uma ação de benefício para as comunidades pesqueiras no Amapá foi lançada pelo Instituto Redemar em 2025. O ‘Projeto Costamar‘ monitora as andadas reprodutivas do caranguejo-uçá em campo e através de aplicativo digital.

Leia também: Você sabe o que é a “andada” dos caranguejos?

A ação é para a preservação da espécie no local, contribuindo para a pesca sustentável na região. O monitoramento também é feito através de um aplicativo, o ‘Remar Cidadão’, que permite uma colaboração em conjunto para a pesquisa.

Thiago Couto, que é biólogo marinho da Redemar Brasil, explicou ao Grupo Rede Amazônica que a ação além de contribuir para reprodução da espécie, funciona para a previsão do período de defeso sem interromper a cadeia de fonte de renda dos catadores.

“Ele serve para que a gente consiga prever quando que vai ser a andada reprodutiva do caranguejo-uçá e para que período de defeso do caranguejo seja no tempo certo […] Que a gente analisa e pega os dados para que os catadores não passem mais tempo do que o necessário sem pegar caranguejo nem que o caranguejo fique menos tempo necessário protegido da pesca”, contou.

A pesquisa acontece em parceria com a Petrobras, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e outras entidades.

Aplicativo ‘Remar Cidadão’

Qualquer pessoa pode utilizar o aplicativo e registrar ocorrências em qualquer ponto do litoral brasileiro, até mesmo offline. O aplicativo pode ser adquirido de forma gratuita para IOS e Android. A ferramenta já foi utilizada com sucesso pra monitoramento de caranguejos no Pará até Bahia.

Remar Cidadão – Android
Remar Cidadão – IOS

“O cidadão pode entrar no aplicativo e preencher os dados. Por exemplo: ‘vi uma andada no dia tal’, registra se ela foi forte, se ela foi fraca, se foi de dia ou noite. Todos esses dados, com a ajuda da sociedade como um todo, isso vai ajudar com que a nossa absorção seja mais precisa”, disse o biólogo.

Mapeamento de caranguejos

O enfoque do treinamento é a utilização do aplicativo, permitindo que os próprios pescadores possam enviar dados sobre os padrões reprodutivos do caranguejo-uçá. Essa ação contribui diretamente para que o poder público defina os períodos de defeso de forma mais precisa.

Até o momento, as equipes da Estação Ecológica de Maracá-Jipioca e no Parque Nacional do Cabo Orange recebem treinamentos para o trabalho.

Projeto vai percorrer toda a costa do Amapá. Foto: Divulgação/Redemar Brasil

Com o intuito de fomentar a ciência participativa e envolver ativamente pescadores, catadores de caranguejo e trabalhadores de Unidades de Conservação, três oficinas serão realizadas nas comunidades pesqueiras atendidas pelo projeto.

Outro objetivo do projeto é traduzir conhecimento científico em informações de fácil acesso para pescadores, contribuindo para uma melhor compreensão e cooperação entre esses atores.

“A gente acredita que os períodos de andada do caranguejo vão ser diferentes esse ano, não sabemos quando, pode ser que aconteça no verão e no inverno […] Por isso a necessidade de implementar o projeto”, finalizou o pesquisador.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP

Búfalos selvagens: ainda sobre a ação civil contra os gigantes gentis do Guaporé

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Foto: Reprodução/Acervo NGI Cautário-Guaporé

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

A recente Ação Civil Pública (ACP) proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), que busca a erradicação total dos búfalos selvagens da Reserva Biológica do Guaporé, em Rondônia, fronteira com a Bolívia, tem gerado intensos questionamentos sobre sua base científica e as implicações éticas da medida proposta. A ACP sustenta-se quase exclusivamente no estudo realizado por Lidiane França da Silva, em 2021, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), levantando dúvidas sobre a abrangência e a solidez da análise apresentada.

Os búfalos chegaram à região na década de 1950, introduzidos na antiga Fazenda Pau D’Óleo, e hoje somam cerca de 5 mil indivíduos, chamados “Gigantes Gentis” devido à docilidade e à forma harmoniosa com que convivem com a natureza. A ACP propõe medidas drásticas, fala 28 vezes em “erradicação” – que é uma expressão leve para na verdade a matança – especula-se há anos que seria por vários meios, inclusive abate aéreo a tiros, alegando danos ambientais significativos, como compactação do solo, erosão e ameaça às espécies nativas.

Contudo, outros estudos, como os realizados por Eduardo Lage Bisaggio e técnicos do ICMBio, trazem abordagens mais moderadas. Esses trabalhos reconhecem que, após décadas, os búfalos se adaptaram ao ecossistema amazônico, recomendando estratégias de manejo sustentável e controle populacional, em vez da erradicação total sugerida pela ACP.

Outro ponto questionável na ACP é a estimativa, considerada exagerada por especialistas, de que a população de búfalos poderia alcançar rapidamente 50 mil indivíduos, (pulando de 5 mil em seis anos) caso medidas extremas não sejam tomadas imediatamente. Tal previsão não encontra respaldo sólido nos dados e em metodologias pertinentes, ampliando ainda mais as dúvidas sobre a urgência e necessidade das medidas extremas pedidas pelo MPF.

Em recente despacho judicial, o juiz responsável pela ACP destacou que o caso é “complexo” e determinou que o Instituto Chico Mendes (ICMBio) e o Estado de Rondônia se manifestem oficialmente antes de qualquer decisão judicial. Essa determinação abre um importante espaço para que diferentes perspectivas sejam apresentadas, enriquecendo o debate técnico-científico e ético sobre o tema.

Essas manifestações, tanto do ICMBio quanto do Estado de Rondônia, podem trazer novas informações, especialmente sobre alternativas sustentáveis já aplicadas em outras regiões amazônicas, que optaram pelo manejo populacional ao invés do extermínio total. Assim, torna-se evidente que uma visão ampliada do problema, baseada em múltiplas vozes científicas e éticas, será fundamental para evitar uma decisão apressada e potencialmente prejudicial.

Exemplo disso é o recente acordo firmado no Amapá, onde um pecuarista comprometeu-se a retirar 2 mil búfalos do leito assoreado do rio Araguari, sem que houvesse a necessidade de erradicação dos animais. Essa solução negociada demonstra que é possível conciliar a preservação ambiental com o manejo responsável dos búfalos, evitando medidas extremas e garantindo a sustentabilidade do ecossistema.

Nesse contexto, fica evidente a complexidade apontada pelo juiz responsável pela ação, que corretamente decidiu ouvir as partes diretamente envolvidas antes de avançar em qualquer decisão. A ampliação desse diálogo será crucial para uma solução ética, científica e equilibrada, que respeite tanto a vida dos “Gigantes Gentis” quanto a integridade ambiental da Amazônia.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Rondônia sedia Concurso Nacional de Cacau pela primeira vez

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Foto: Irene Mendes/Secom RO

Pela primeira vez, Rondônia sediará uma edição do ‘Concurso Nacional de Cacau Especial: Sustentabilidade e Qualidade’. A sétima edição do evento de premiação será realizada em dezembro deste ano em Cacoal. As inscrições para o concurso abrem dia 31 de março e seguem até 22 de agosto.

A disputa, que tem como objetivo valorizar os produtores brasileiros e fortalecer a cacauicultura nacional, premiará até 100 mil reais, distribuídos entre os vencedores do primeiro, segundo e terceiro lugares nas categorias Mistura/Blend e Varietal.

Leia também: Produtor rondoniense conquista prêmios nas duas categorias do Concurso Nacional do Cacau Especial

Poderão concorrer produtores de cacau de todo o Brasil, desde que os lotes inscritos tenham sido produzidos no país no ano de 2025. O edital e o passo a passo para participar estão disponíveis no site oficial do concurso.

Rondônia na cacauicultura nacional

O estado se destaca na cacauicultura, ocupando a 4ª posição no ranking dos maiores produtores de cacau do Brasil e o 2º maior produtor da Região Norte, com mais de 3 mil produtores.

Em seis edições do concurso, Rondônia já ganhou seis prêmios nas duas categorias da premiação.

Leia também: Cacau de Rondônia recebe selo de Indicação Geográfica

O Concurso Nacional de Cacau Especial – Sustentabilidade e Qualidade, em sua 7ª edição, é um marco na valorização do cacau brasileiro e no fortalecimento da cacauicultura nacional.

De acordo com o governo de Rondônia, o evento representa uma jornada de transformação, reconhecimento e impacto social, promovendo a qualidade, a sustentabilidade e a competitividade do cacau brasileiro no cenário internacional.