Casa de Chico Mendes tornou-se ponto turístico do munícipio. Foto: Alice Leão/SeetAC
Berço da Revolução Acreana e terra do patrono do Meio Ambiente Chico Mendes, o município de Xapuri, distante 188 quilômetros de Rio Branco, comemora 120 anos em 22 de março. Localizada na região oeste do estado e com mais de 18 mil habitantes, Xapuri tem sido não apenas um marco histórico, mas também um símbolo de resistência e cultura para o povo acreano.
A cidade, que nasceu nas margens do Rio Xapuri, carrega em sua trajetória um legado de lutas, conquistas e contribuição para o desenvolvimento do Acre.
O nome Xapuri, inclusive, tem origem indígena, significando “Rio Antes” em razão de a cidade estar localizada em uma posição de encontro de dois rios: o Xapuri, (que deu nome à cidade), e o Rio Acre.
Elevado à categoria de cidade em 1905 com a chegada de seringueiros e a exploração das riquezas da borracha, a ‘princesinha do Acre’ foi um dos principais motores econômicos da região nos primeiros anos do século XX. Porém, antes disto, o território foi berço do início da Revolução Acreana. A célebre frase de Plácido de Castro, ‘não é festa, é revolução’, foi dita em Xapuri.
O povoado surgiu por volta de 1883, logo depois de Volta da Empreza (Rio Branco). Xapuri também foi o berço de importantes ações no campo social, como a criação de reservas extrativistas e o fortalecimento da economia local por meio da agroecologia e do extrativismo sustentável.
Ao longo das décadas, a cidade foi palco de grandes eventos, como o movimento de resistência dos seringueiros e a luta travada por Chico Mendes, um dos maiores defensores da Amazônia e do meio ambiente no Brasil.
Chico Mendes, morto em 1988, é um dos maiores ícones de Xapuri e do Acre. Seu legado de preservação ambiental e defesa dos direitos dos trabalhadores rurais continua vivo na cidade, que carrega sua memória em praças, escolas e monumentos.
Nos últimos anos, a cidade tem se destacado pela produção de alimentos orgânicos e pela aposta no ecoturismo, áreas que complementam o perfil rural e ambientalista do município, que segue sendo uma peça chave para o fortalecimento da identidade acreana e para a preservação de um dos maiores patrimônios naturais do Brasil: a Amazônia.
A Floresta Estadual do Paru (Flota do Paru), localizada no oeste do Pará, na Calha Norte do rio Amazonas, é considerada uma das maiores unidades de conservação do Brasil, com cerca de 3,6 milhões de hectares. Dentro desse território, 305 mil hectares são destinados ao manejo sustentável e, por isso, a floresta estadual tem grande importância ecológica na região amazônica.
A Flota também é uma fonte para pesquisas científicas sobre a fauna e flora amazônica, incentivo para atividades de educação ambiental e ainda turismo ecológico.
Foto: Divulgação/Ideflor-Bio
Cortada por extensos rios – como o Jari, Paru, Maicuru, Curuá e Cuminapanema – , a Flota do Paru ganhou destaque mundial em 2016, após a descoberta de ser o berçário da maior árvore da América do Sul e a quarta maior do mundo: um angelim-vermelho (Dinizia excelsa Ducke), com impressionantes 88,5 metros de altura e 3,15 metros de diâmetro, estimado entre 400 e 600 anos de idade.
Ao redor dele, segundo o Instituto Federal do Amapá (IFAP), foram identificadas ao menos 38 árvores de grande porte, duas delas com mais de 80 metros. Trata-se da maior incidência de árvores gigantes na Amazônia, um indicador da rica biodiversidade do território, o que o torna prioritário nos planos de proteção do bioma amazônico.
De acordo com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Local também é a casa dos Zo’é, um povo indígena de recente contato. Existe ainda um registro de povo indígena isolado em fase de estudos pela Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Cuminapanema, da Funai.
O Projeto Ywy Ipuranguete – Conservação da Biodiversidade em Terras Indígenas, lançado no dia 18 de março pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília (DF), fornecerá apoio a 15 Terras Indígenas por meio da implementação de Instrumentos de Gestão Territorial e Ambiental.
A meta é promover proteção territorial, soberania alimentar, geração de renda sustentável, fortalecimento institucional e preservação das culturas e tradições indígenas. Os objetivos incluem auxílio para a redução do desmatamento e aumento da resiliência climática.
Em alinhamento com a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e com o investimento de U$ 9 milhões, a iniciativa destinará recursos estratégicos para monitoramento ambiental e fortalecimento da governança indígena, garantindo que as comunidades tenham condições de proteger e gerir seus territórios de forma autônoma e sustentável. As ações de Gestão Territorial e Ambiental nas Terras Indígenas abrangidas pelo projeto contemplam cinco biomas, nos estados de Mato Grosso Do Sul, Bahia, Ceará, Pernambuco e Pará.
“Hoje vivemos um momento histórico ao colher os resultados de uma ação que foi engavetada após 2016, durante a gestão Temer. Temos cinco biomas contemplados e estamos com o Pampa na mira para as próximas ações do Ministério. O diferencial é que esse projeto também abrange áreas sem processo de demarcação concluído, porque o Estado não pode negar acesso a políticas públicas aos povos indígenas, enquanto aguardam a finalização da demarcação de seus territórios”, defendeu a ministra.
A iniciativa apoiará diretamente as atividades previstas em oito instrumentos de gestão indígena, tais como os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), em 15 Terras Indígenas e nove povos, ampliando a resiliência a pressões externas que degradam o meio ambiente. A implementação dos PGTAs será realizada de forma participativa, com protagonismo dos povos indígenas, expressando suas prioridades e respeitando as particularidades culturais e históricas de cada povo.
Ywy Ipuranguete significa ‘terra bonita’ em tupi-guarani, em referência à fertilidade e rica sociobiodiversidade dos territórios indígenas. Coordenado pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e gerido pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO), o projeto tem vigência até 2030 e será executado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com acompanhamento técnico da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
“O total de área contemplada pelo projeto é um pouco maior que a Paraíba e um pouco menor que a Noruega. Com seu conhecimento sobre o uso sustentável de seus territórios, os indígenas precisam de reconhecimento e valorização para que o futuro do país e do planeta esteja garantido”, disse a secretária-geral do FUNBIO, Rosa Lemos de Sá, que definiu a ação como um legado de conservação.
O financiamento é proveniente do recém criado Fundo do Marco Global para a Biodiversidade (GBFF), atualmente gerido pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), que também coordena outros fundos voltados para enfrentar os desafios ambientais e climáticos do planeta. O projeto foi aprovado na primeira lista de projetos do GBFF, em junho de 2024.
Durante o evento, o diretor de estratégia e operações do GEF, Claude Gascon, classificou “o projeto como inovador por transferir recursos diretamente para os povos indígenas ao passo que serve de modelo para outros países protegerem a biodiversidade em seus territórios”.
Histórico
A elaboração dos PGTAs e outros modelos de gestão indígena sempre ocorreu de forma autônoma nos territórios indígenas. O grande diferencial do Ywy Ipuranguete é que o projeto garantirá recursos para sua implementação, suprindo uma lacuna histórica em políticas ambientais e indigenistas. Por isso, o Ywy Ipuranguete é um marco para a proteção ambiental e a garantia dos direitos indígenas no Brasil.
Em seu pronunciamento, a minsitra relembrou dos primórdios dos PGTAs, em 2002, primeira oportunidade em que o GEF (Fundo Global para o Meio Ambiente) apoiou projetos em territórios indígenas. À época, foi desenvolvido o Projeto GATI, antecessor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), pelo movimento indígena, junto com a Funai e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), entre outras organizações. Na oportunidade, foram elaborados 34 projetos de gestão ambiental e territorial, passo que evidenciou a necessidade de ampliar a iniciativa por todos os territórios, com a participação ativa dos povos indígenas na construção de políticas públicas.
A PNGATI foi instalada pelo Decreto 7.747, de 5 de junho de 2012, com o objetivo de proteger, recuperar, conservar e usar de modo sustentável os recursos naturais das terras e territórios indígenas. As diretrizes são fundamentais à garantia dos direitos territoriais indígenas ao expressarem o reconhecimento da autonomia sociocultural e a valorização do protagonismo dos povos indígenas por parte do Estado brasileiro.
Após sete anos de paralisação, a PNGATI foi retomada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, ano que também foi reinstalado o seu Comitê Gestor, por meio do Decreto 11.512/2023, com a coordenação do Ministério dos Povos Indígenas.
Também segue em tramitação na Câmara dos Deputados projeto de lei da PNGATI (PL nº 4.347/2021), de autoria da então deputada federal Joenia Wapichana, atual presidenta da Funai. Sua aprovação é uma das prioridades do Ministério dos Povos Indígenas. Em junho, o texto foi aprovado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS), mas ainda precisa ser analisado pela Comissão de Finanças e Tributação (CFT) e a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) antes de passar pelo plenário da Câmara e do Senado.
“O projeto de lei precisa se tornar política de Estado, pois cria parcerias descentralizadas para além da Amazônia. Como Funai, estamos trazendo novos projetos para avançar com a estratégia que são os PGTAs”, defendeu Lucia Alberta da Funai, durante o evento.
Metas
O projeto tem como resultados esperados contribuir para os benefícios ambientais globais ao melhorar a gestão e integridade das TIs, estimadas em cerca de 6,4 milhões de hectares de Terras Indígenas, com gestão em cinco biomas brasileiros (Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica). Tomando como base dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, cerca de 57 mil indígenas, dos quais cerca de 50% são mulheres, serão beneficiados.
Alinhado à Convenção das Partes (COP), mecanismo principal da Convenção sobre Diversidade Biológica, que reconheceu o papel dos povos indígenas para a conservação da biodiversidade global, o projeto visa reduzir o desmatamento e a degradação dos habitats naturais, colaborando diretamente para a conservação da biodiversidade, a mitigação das emissões de gases com efeito estufa e o aumento da resiliência destas áreas e populações vulneráveis. A manutenção destes habitats também contribui para a manutenção dos ciclos hídricos nas regiões onde estão localizados. Além disso, a elaboração e implementação dos PGTAs produzirá conhecimento para facilitar a implementação de outros destes instrumentos no futuro, o que auxilia a eficácia da gestão de TI em outras áreas.
O Fundo Global para a Biodiversidade foi criado em 2023 para apoiar a implementação das metas Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework. O acordo foi adotado durante a Conferência da Partes (COP) 15, realizada em 2022, possui 23 metas até 2030 que buscam, em conjunto, atingir quatro objetivos até 2050, tais como a Conservação e Usufruto Sustentável da Biodiversidade e a repartição, inclusive com Povos Indígenas, dos benefícios gerados pela utilização dos recursos genéticos.
“Esse é um momento de convergência de esforços e saberes pela conservação da biodiversidade e equilíbrio do planeta. Além de vivermos uma emergência climática, há grande pressão sobre as Terras Indígenas. Os indígenas são os protagonistas das soluções que tanto precisamos para o planeta e a PNGATI transforma política em ação concreta nos territórios”, afirmou a coordenadora-executiva do IEB, Andréia Bavaresco, organização que será a executora do projeto nos territórios, em apoio aos povos indígenas.
Financiamento direto para os povos indígenas
No mesmo evento, o MPI, representado pela ministra Sonia Guajajara, e o FUNBIO, representado pela sua secretária-geral, Rosa Maria Lemos de Sá, celebraram a assinatura de um Acordo de Cooperação para a criação de um mecanismo de financiamento para a implementação da PNGATI. Trata-se de um mecanismo para o financiamento direto, sem intermediários, para viabilizar a política nacional em longo prazo.
A princípio, o mecanismo de financiamento da PNGATI está em fase de estudos jurídicos, financeiros e de governança com apoio do Funbio, instituição sem fins lucrativos que possui 28 anos de atuação com expertise na arrecadação de recursos para investir em sociobiodiversidade.
O acesso direto a recursos para a implementação da política está em processo de planejamento, e contará com a captação de recursos privados, provenientes de doações nacionais e internacionais, para alavancar as ações voltadas à gestão territorial e ambiental em territórios indígenas. O mecanismo foi inicialmente discutido em reunião do Comitê Gestor da PNGATI, em dezembro, e prevê o desembolso direto para organizações indígenas, reforçando a autonomia dos povos e fortalecendo as capacidades de concretização.
Conforme informou a secretária-geral do Funbio em dezembro, os recursos virão de doações bilaterais de ONGs, de filantropia e de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) e são captados por um mecanismo que recebe o dinheiro vindo do exterior de maneira ágil, transparente e menos burocrática.
Ambos os projetos anunciados no evento são medidas concretas que reforçam a importância do financiamento internacional para a conservação da biodiversidade, para o combate aos efeitos da emergência climática e para a reparação histórica, com a efetivação dos direitos dos povos indígenas, principais atores para as soluções aos desafios globais da atualidade.
Em novembro, a ministra dos Povos Indígenas participou da COP 29 do Clima, em Baku, capital do Azerbaijão. A Conferência, que antecede a COP de Belém, tratou da definição do novo objetivo de financiamento climático. A ministra defendeu o financiamento direto aos povos indígenas e o compromisso dos países desenvolvidos com as decisões do Acordo de Paris. A cúpula reuniu 198 países.
Na Conferência, Guajajara participou de um evento para discutir a promoção dos direitos dos guardiões das florestas e a defesa do aumento do financiamento direcionado aos povos indígenas e às comunidades locais. Em sua fala, ela reforçou o compromisso do governo federal com a demarcação dos territórios indígenas até o fim da gestão e cobrou por mais comprometimento dos países desenvolvidos com as metas de financiamento do Acordo de Paris, para que sejam criadas estruturas e condições para o cumprimento das metas.
Organizações indígenas representadas
A solenidade contou com diversos representantes dos povos indígenas que fazem parte do projeto: Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe, Pankararu, Tremembé, Terena, Kadiwéu, Guarani Kaiowá, Munduruku e Kayapó. Desde terça, as lideranças indígenas estão em Brasília para participae da oficina inaugural do projeto, realizada até quarta-feira (19).
Também participaram da solenidade a secretária-geral do FUNBIO, Rosa Lemos de Sá; a coordenadora executiva do IEB, Andréia Bavaresco; o diretor de estratégia e operações do GEF, Claude Gascon; a gerente de parcerias do GEF, Adriana Moreira; a substituta da presidenta da FUNAI, Lucia Alberta; deputada federal Célia Xakriabá e representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA).
Lona azul, estrelas amarelas, arquibancadas de ferro e madeira, o picadeiro e o globo da morte: essas são algumas das características do circo. Mas, para o professor de teatro da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Klindson Cruz, foram as apresentações dos palhaços que mais chamaram sua atenção na infância. A presença desse personagem aguçou seu amor pelo circo e o levou a buscar, nessa arte, a sua profissão.
“De todas as apresentações, a que mais me chamou atenção foi a dos palhaços. Quando eles entraram, parecia que o mundo estava em câmera lenta. Acho que ali surgiu meu instinto de querer brincar na palhaçaria. Claro! A vida te leva para outros caminhos”, lembra Klindson Cruz.
Para o artista, levar a arte circense amazônica para São Paulo tem grande importância, especialmente diante dos desafios enfrentados pelas produções do Norte. Ele ressalta que se apresentar na Avenida Paulista pode dar mais visibilidade ao trabalho da região, ampliando seu alcance para além do eixo Sudeste.
Klindson destaca que a visita é uma oportunidade de representar uma região distante dos grandes centros, muitas vezes esquecida. Para ele, ultrapassar os muros amazônicos é essencial para mostrar que a cultura está em circulação, apesar das dificuldades que a região enfrenta com transporte e acesso.
Klindson não foi sozinho na apresentação na Avenida Paulista. Ele estava acompanhado por Jamile e Imaginário, que também levaram seus espetáculos ao público. Os artistas foram selecionados após a visita de um curador a Porto Velho, responsável pela escolha dos participantes. A curadora dos espetáculos de Rondônia, Andressa Batista, teve um papel fundamental na seleção dos artistas.
Homenagem
Ao Grupo Rede Amazônica, o artista, que já percorreu diversos caminhos ao longo de sua trajetória, revelou que a ideia do espetáculo ‘Ensaio Geral’, apresentado pela primeira vez na Avenida Paulista no dia 9 de março, surgiu em um momento de perda e luto.
O ponto central da narrativa gira em torno da espera por uma diretora que nunca chega. O espetáculo foi criado em homenagem à diretora paulista e amiga pessoal de Klindson, Selma Bustamante, falecida em 2019, em São Paulo.
“Transformei a dor em arte. Selma dirigiria o espetáculo, mas, como faleceu, precisei buscar um novo diretor. A proposta do espetáculo é essa esperança pela diretora que não chega, refletindo minha própria experiência de esperar por Selma”, conta Klindson.
O artista incorporou ao seu espetáculo uma narrativa secundária de ‘O Barquinho’, de Ilo Krugli, diretor do grupo de teatro Ventoforte, do qual sua saudosa amiga Selma fez parte como atriz. Para Klindson, a apresentação também é uma homenagem aos grandes mestres que vieram antes.
“Minha geração costuma esquecer as pessoas, mestres e mestras que vieram antes […]. Quando um mestre ou uma mestra morre, uma biblioteca inteira também morre: diálogos, histórias… Morre também uma grande parte da cultura”, afirma.
Trajetória de um artista
Klindson sempre teve uma forte paixão pelo circo, mas seu caminho até a arte circense não foi direto. Antes de se graduar em Teatro pela Universidade do Estado do Amazonas, tornar-se mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Acre (UFAC) e se especializar em palhaçaria pela Escola Livre de Palhaços (ESLIPA), ele enfrentou conflitos familiares. Seus pais não aceitavam sua decisão de cursar teatro, pois sonhavam que ele seguisse a carreira de engenheiro.
“Quando descobriram que eu estava cursando teatro, ficaram três meses sem falar comigo. Outro baque foi quando souberam que eu fazia malabares no semáforo para pagar xerox e refeições na universidade, mas foi por pouco tempo”, relembra.
Com o tempo, seus pais passaram a entender e respeitar sua escolha. No entanto, sua trajetória como artista não foi fácil. Klindson relembra os desafios que enfrentou, como viagens complicadas para festivais, cancelamentos de apresentações e ensaios exaustivos. Ainda assim, ele considera que todas essas experiências fazem parte da vida circense.
Klindson Cruz interpretando. Foto: Reprodução
Oportunidade de criar
Apesar das dificuldades, a palhaçaria abriu grandes oportunidades para Klindson. Ele pôde viajar para outros estados, se apresentar sob lonas de circo, participar de festivais e se conectar com outros artistas circenses. Além disso, a arte do palhaço tornou-se um importante instrumento de pesquisa em sua trajetória.
“Circo e palhaçaria hoje são minha pesquisa. Foi meu projeto de iniciação científica, meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), meu mestrado e será meu doutorado”, revela.
Para Klindson, o circo é uma oportunidade de criação. Em “Ensaio Geral”, ele incorpora elementos da cultura amazônica, como barcos, árvores, rios e peixes, além de representar a identidade cultural da região.
Nesse cenário, nasce o palhaço Pingo, personagem que conduz a narrativa. Criado espontaneamente durante um retiro de palhaçaria promovido por Selma Bustamante e Jean Paladino, Pingo surgiu sem referências prévias. Com o tempo, Klindson aprimorou o personagem até chegar à sua versão atual.
O artista conta que Pingo reflete muito de sua própria personalidade. Como pesquisador da palhaçaria, ele acredita que seu personagem tem o poder de quebrar paradigmas morais, como o machismo e a homofobia.
“Eu atravesso o Pingo a partir disso: da minha personalidade, com meu corpo mais exposto, short curto, blusa curta, brincadeiras principalmente com homens, para desconectá-los […] A personalidade do Pingo é essa: um lado mais sexual e cômico”, finaliza.
O livro ’30 Receitas Fáceis e Saborosas – Pirarucu Selvagem de Manejo Sustentável’ é uma coletânea de receitas caseiras que celebram a versatilidade e o sabor único do maior peixe de água doce do mundo. A publicação virtual e gratuita foi lançada pela Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) e produzida por chefs parceiros do projeto Gosto da Amazônia, com o objetivo de estimular o público em geral a preparar o peixe em casa.
O material é um convite para trazer a Amazônia à mesa através de pratos adequados a diferentes ocasiões, com receitas fáceis e variadas, que carregam o compromisso de proteger a floresta, e transformar vidas nas comunidades ribeirinhas e indígenas que atuam com o manejo.
Entre os destaques do livro, podem ser encontradas delícias como o Bolinho de aipim com pirarucu; a Caldeirada de pirarucu defumado e legumes; Pirarucu com crosta de castanha e tartar de abacate e caju; Nuggets de pirarucu na air fryer; e o Pirarucu assado com creme de cebola.
De acordo com os produtores da publicação “consumir pirarucu manejado vai além da experiência gastronômica: é um gesto que ajuda a conservar mais de 11 milhões de hectares de floresta amazônica e fortalece as comunidades ribeirinhas e indígenas que vivem dela. Nos últimos 10 anos, a quantidade de pirarucu aumentou em mais de 600% nas regiões onde a atividade do manejo é realizada”.
“O pirarucu do Gosto da Amazônia já está presente em mais de 250 restaurantes em todo o Brasil e o nosso desafio agora é mostrar aos cozinheiros, e cozinheiras amadoras, responsáveis pelo preparo das refeições caseiras, que o peixe é também uma ótima alternativa para o dia a dia. Saudável, fácil de preparar e muito versátil, o pirarucu cozido, assado no forno, frito, feito na brasa, como tira-gosto ou prato principal, abre um grande leque de opções para a criação de novas receitas”, destaca Sérgio Abdon, responsável pela promoção da marca Gosto da Amazônia.
Foto: Divulgação
Já a professora de gastronomia Rosi Siqueira, autora de algumas receitas da publicação, comentou: “com meu carinho, apreciação e dedicação à gastronomia brasileira e por minha valorização aos ingredientes regionais, eu tenho o prazer de compartilhar neste livro minhas experiências e os meus segredos na hora de preparar pratos incríveis com o pirarucu. Não é apenas um dos maiores peixes de água doce do mundo, mas também uma iguaria rica em sabor, com textura macia e delicada, suas características únicas permitem a criação de receitas variadas, que vão desde pratos tradicionais até releituras contemporâneas, sempre exaltando a biodiversidade e a sustentabilidade da região”.
A chef de cozinha compartilhou também sobre a experiência de criar receitas para o livro digital. “Além de permitir momentos únicos, em cada receita pude celebrar a cultura brasileira e o respeito à natureza, com um olhar sensível sobre como o alimento conecta histórias, e pessoas com dicas práticas para quem deseja explorar novos sabores e conhecer mais sobre esse símbolo da culinária amazônica”.
Outra participante da publicação com a apresentação das suas receitas, Sueli Venâncio, revela que se surpreendeu com o potencial da carne do peixe amazônico. “O pirarucu me surpreendeu porque é um peixe que se destaca de várias formas, assado, grelhado, frito e tem uma carne linda de se ver e trabalhar, basta um bom marinado e as cocções certas. Recomendo o pirarucu e garanto que ele vai surpreender a todos nós, ele é gostoso, saboroso e bonito”, declara.
A Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC), no Amazonas, tem um site com venda direta do pirarucu: https://asproc.org.br. Baixe o livro de receitas AQUI.
Mascarada, com três olhos e desenhada com traços retos: é geralmente assim que Bonikta aparece nas produções do artista Caio Aguiar, natural de Ourém (PA). Como uma espécie de entidade, ela é uma presença constante no trabalho do artista visual, e os dois parecem andar de mãos dadas – fundindo-se em uma mesma autoria.
Desde a adolescência, a figura de Bonikta é como “uma extensão” de Caio. Juntos, já integraram exposições nacionais como a 1ª Bienal da Amazônias, a Delírio Tropikal, na Pinacoteca do Ceará, e a 14ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. O artista conta que a afetação profunda acontecem em uma travessia, entre Belém e Ourém, quando entraram em contato pela primeira vez. Muito além de um personagem, ele afirma que ela é um universo: “Ela [Bonikta] sai desse lugar de personagem, de persona. Ela acaba se tornando algo mais. Eu acho que o universo pode ser uma palavra que não define, mas que contempla ela”, explica o artista.
“Elas [boniktas] são também espíritos que conversam comigo pelos sonhos, que estão comigo, que vivem, que habitam esse lugar”, diz Caio Aguiar sobre as formas desse universo em entrevista ao Nonada. A forma como o artista leva Bonikta para suas obras é através da irreverência, subvertendo as estruturas rígidas do universo canônico da arte. É a partir da manifestação de entidade, na mescla de tecnologias e linguagens artísticas, que sua produção honra os próprios caminhos e percursos da vida.
O artista foi entrevistado enquanto finalizava um trabalho inédito no projeto ‘Ling Apresenta: Amazônias‘, em Porto Alegre. Na conversa, é possível perceber que Bonikta está sempre presente. A partir da obra de arte, realizada com colagens, ilustrações digitais, lambe e intervenções com caneta posca, ela se estende por todo o entorno, e, irreverente, convoca também os visitantes.
O artista Caio Aguiar. Foto: Reprodução/Eroica Conteúdo
O lugar onde você cresceu foi seu primeiro atêlie, isso?
Isso. Um lugar ilustrativo. Eu sempre fui uma criança muito artista, de brincar com as coisas e criar com o que se tem, com as folhas, de riscar o chão. De uma forma ingênua, talvez, sem entender o que era a arte. Eu trago esse quintal de casa para que as pessoas possam acessar o meu ateliê que agora existe. Enquanto artista, existe essa possibilidade de poder abrir uma janela para o meu ateliê.
Bonikta já existia nessa época do primeiro ateliê? Ou veio depois?
Caio Aguiar (Bonikta) – Eu considero que ela sempre andou comigo, a Bonikta é uma extensão da minha pessoa. Mas a Bonikta surge na minha travessia, quando eu saio do meu interior com 16 anos e eu vou morar para Belém, capital do Pará, a gente acaba tendo essa migração para estudar, para trabalhar, para acessar outros horizontes.
A Bonikta surge na travessia entre o interior e a cidade. Ela é esse lugar da travessia mesmo, onde tenho paz – diferente da cidade, um lugar mais caótico.
Existe uma diferença entre o universo da Bonikta e do Caio?
Caio Aguiar (Bonikta) – Eu acho que não, eles se encontram. Acho que é o mesmo. A Bonikta vive em um imaginário, e quando eu exponho ela, quando eu coloco ela para fora, torna-se parte do imaginário das pessoas também.
Você trabalha bastante com intervenções na fotografia. Você acha que essas intervenções enaltecem algo que já está na fotografia ou elas revelam algo oculto, no mistério?
Caio Aguiar (Bonikta) – Elas mais revelam. Por si só, a fotografia já conta, já é um registro da memória. Eu sempre gostei muito de fotografar, de forma muito livre e ingênua, de registrar a paisagem, de registrar ali o lugar de onde eu venho.
Esse trabalho com as fotografias já tem três anos e meio e eu chamo de Memórias Encantada. A série traz a memória da fotografia como encanto, em que uma outra camada revela algo que não está à mostra, mas que faz parte no processo criativo, no fazer artístico, na feitura.
Eu considero meu trabalho artístico como um ritual, como um feitiço. Tem esse encanto, algo com propósito de pegar as pessoas pelo olhar, de enfeitiçar de alguma forma quando elas olham.
Você diria que a sua produção artística está associada à espiritualidade também?
Caio Aguiar (Bonikta) – Totalmente. As boniktas são espíritos que conversam comigo pelos sonhos, que estão comigo, que vivem e habitam nesse lugar. De alguma forma, eles estão presentes. Eu acredito muito nisso. Tem a ver com a minha espiritualidade, com as águas. Eu venho de um lugar onde eu sempre acessei as águas. Sempre estive submerso e banhado nessas águas. As águas são essa tecnologia, onde me banho, me alimento, mergulho. É uma grande fonte do que me inspira
Qual sua relação com arte digital?
Caio Aguiar (Bonikta) – Eu gosto do digital, mas prefiro o manual. Eu gosto de pintar. E é justamente isso: mesclar. Eu gosto muito do digital, acho que é uma ferramenta que nem sempre é acessível para todo mundo, mas que abre um leque de possibilidades, de trabalhar com ilustração, com animação – que é algo que eu já trabalho, mas que eu pretendo expandir mais.
E você acha que a arte pode ser importante então para, quem sabe, apontar caminhos para a sociedade aprender a coexistir melhor com os sonhos, com a tecnologia, com o digital, com a natureza? Você acha que é possível uma coexistência de todos esses elementos?
Caio Aguiar (Bonikta) – Sim. Só a arte mostra coisas que não seriam visíveis. A arte é o lugar onde habitam os sonhos, as histórias, as possibilidades.
Incêndio em área próxima aos limites da Terra Indígena Kaxarari, em Lábrea (AM). Foto: Christian Braga/Greenpeace
Uma série de programas de sustentabilidade, saúde e meio ambiente na floresta amazônica está em risco após o governo dos EUA anunciar, no primeiro dia do mandato do presidente Donald Trump, uma pausa de 90 dias em todos os financiamentos de ajuda externa, incluindo os da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).
A medida gerou preocupação entre cientistas e conservacionistas, que, em entrevista à Mongabay, expressaram preocupação com os impactos na biodiversidade, nos meios de subsistência indígenas e na segurança na região. Eles alertaram que a suspensão temporária do financiamento afetará iniciativas de conservação lideradas pelas comunidades, além de programas essenciais no combate ao desmatamento ilegal e a outros crimes ambientais. Por outro lado, alguns argumentam que o financiamento da USAID trouxe desafios para as comunidades locais e que os possíveis impactos da pausa destacam os riscos da dependência da ajuda externa.
Em certos casos, os impactos já são perceptíveis. Alguns programas de monitoramento territorial, responsáveis por financiar ações de proteção dos territórios indígenas, foram suspensos.
Ivaneide “Neidinha” Bandeira Cardozo, residente na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, e coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, declarou à Mongabay que os EUA interromperam o financiamento de um programa de monitoramento territorial essencial para reduzir as invasões e o desmatamento ilegal em diversas terras indígenas da região.
“Tivemos que suspender nossas atividades de monitoramento”, afirmou ela. “O problema é que estamos sob enorme pressão de grileiros e madeireiros, e agora se tornou ainda mais difícil conter as invasões. O resultado será mais desmatamento, e nossas vidas estarão ainda mais ameaçadas.”
Desde que o apoio foi suspenso – uma medida que Neidinha descreveu como “uma quebra de confiança e uma fonte de insegurança” –, sua organização tem buscado alternativas de financiamento, mas, segundo ela, esse processo tem sido extremamente difícil.
Um aumento no desmatamento pode resultar em “mais incêndios” durante a estação seca, e “o calor será ainda mais intenso”, alertou ela. “No ano passado, durante a seca, os povos indígenas ficaram sem água potável. Tivemos que levar água e comida para as aldeias. Imagine o que acontecerá este ano, se o desmatamento aumentar.”
O Projeto Assobio, financiado pela USAID e voltado para o fortalecimento das organizações comunitárias e das cadeias produtivas da bioeconomia no Mato Grosso, também foi suspenso. Em nota, a coordenadoria de comunicações do Instituto Centro de Vida (ICV), responsável pela gestão do projeto, afirmou à Mongabay que ele beneficiava 5 mil pessoas, incluindo pequenos agricultores e povos indígenas de sete territórios.
Até o momento da publicação, o Departamento de Estado dos EUA não respondeu às perguntas da Mongabay. O governo Trump acusou a USAID de desperdiçar os recursos dos contribuintes americanos, e o Departamento de Estado confirmou que a medida está alinhada com as metas de política externa do governo sob a estratégia “America First”.
Em 2023, a USAID destinou US$ 375,4 milhões para programas internacionais de biodiversidade, 50% dos quais foram destinados aos países e regiões com maior diversidade biológica, como Brasil, Colômbia e Peru. Além disso, a agência investiu US$ 318,5 milhões em programas florestais, dos quais US$ 315,6 milhões foram destinados às florestas tropicais.
De acordo com o relatório anual de biodiversidade da USAID de 2023, parte dos recursos foi destinada a fortalecer a capacidade dos povos indígenas, melhorar o gerenciamento de recursos naturais e identificar ameaças às florestas e à biodiversidade por meio do uso de tecnologia.
“Esse apoio tem sido essencial para o avanço das iniciativas de conservação e desenvolvimento sustentável na Amazônia colombiana”, escreveu a Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (Opiac) no X. “A interrupção desses recursos coloca em risco projetos vitais para a proteção do meio ambiente, o bem-estar de nossos povos indígenas e as boas relações que foram construídas entre os povos indígenas da Amazônia e a sociedade ocidental, duas formas de ver a vida e de se relacionar com a natureza.”
O Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), da Amazon Conservation, divulgou em um comunicado à imprensa que diversos projetos de sua rede, anteriormente apoiados pela USAID para combater o desmatamento ilegal no Peru, foram interrompidos. “As decisões mais recentes do governo dos EUA sobre ajuda externa, conservação e clima – entre muitas outras decisões que afetam tudo, desde a assistência humanitária até a ciência – já estão criando grandes efeitos em cascata sobre as comunidades locais e a proteção da natureza”, afirmou.
Elizabeth Dickinson, analista sênior das operações do Crisis Group na Colômbia, uma organização que não depende de financiamento da USAID, disse à Mongabay em uma mensagem de voz que os cortes de financiamento poderiam desestabilizar a frágil segurança da Colômbia e colocar em risco as comunidades – questões intrinsecamente ligadas às florestas do país.
Desde 2017, os EUA forneceram mais de US$ 1,5 bilhão em assistência para apoiar a implementação do acordo de paz da Colômbia com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Dickinson afirmou que essa “lacuna monumental” terá um impacto sobre “muitas das reformas de longo prazo que deveriam abordar as causas fundamentais do conflito e evitar o ressurgimento desses mesmos tipos de conflito no futuro”.
De acordo com o relatório anual de biodiversidade da USAID, em 2023, a agência investiu US$ 27,5 milhões em programas de biodiversidade e US$ 40,3 milhões em programas de silvicultura e de florestas na Colômbia. Dickinson destacou que a segurança dos líderes comunitários está em risco por parte de grupos armados e membros da comunidade, pois eles frequentemente são o rosto desses projetos e terão que explicar às suas comunidades o motivo da interrupção do financiamento.
No Peru, Williams Arellano Olano, chefe da Osinfor, a agência estadual de florestas e vida selvagem, explicou à Mongabay em uma chamada de vídeo que o apoio financeiro dos EUA foi essencial para combater a extração ilegal de madeira, o tráfico de drogas e a mineração na Amazônia peruana, fortalecendo a capacidade operacional da agência. Embora o Peru não dependa exclusivamente do financiamento da USAID, sua ausência causará atrasos na implementação desses processos.
Voltar-se para outro lugar?
Alguns conservacionistas e líderes indígenas, que pediram anonimato por temerem represálias, disseram à Mongabay que a USAID é um sistema corrupto, vinculado à interferência política e à fragmentação das comunidades.
“À luz de todas as coisas ruins, talvez algo bom possa sair disso”, afirmou Torsten Krause, professor associado e vice-diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade da Universidade de Lund, na Suécia.
Krause destacou que a pausa temporária no financiamento serve para evidenciar os perigos de uma dependência excessiva da ajuda externa. Ele sugeriu que, em resposta, os governos e as comunidades devem buscar abordagens de baixo para cima e alternativas lideradas pelas próprias comunidades.
Pedro Bernt Eymael, pesquisador da Universidade de Michigan, nos EUA, disse à Mongabay por e-mail que países como o Brasil podem recorrer a outros doadores, como a agência de desenvolvimento internacional da Alemanha, a GIZ. A Alemanha foi a principal fornecedora de assistência ao desenvolvimento ao Brasil em 2023. No entanto, Eymael ressaltou que o acesso a novos recursos envolve processos burocráticos demorados e complexos, além de anos de construção de relacionamentos.
“Os projetos ambientais e comunitários dependem muito do financiamento [da USAID] e, com esses cortes repentinos, isso não só impedirá a expansão de novos projetos, como também colocará em risco sua própria existência e sobrevivência”, afirmou Gabriela Sarmet, coordenadora de parcerias do Decolonial Centre (DCC), sediado no Reino Unido, e consultora do Mining Observatory, em uma mensagem de voz à Mongabay.
“Precisamos pensar em mecanismos alternativos de financiamento e instituições que possam evitar retrocessos semelhantes em ações de governança ambiental global”, disse Sarmet. “As implicações políticas desses cortes podem ser enormes e estão sendo sentidas por muitos países ao redor do mundo.”
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Aimee Gabay
Produtor investe no cacau do tipo clonal. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR
Antes de virar chocolate e conquistar paladares, tudo tem um começo mais simples: o cacau. Em Caroebe, no Sul de Roraima — a 300 km da capital —, agricultores tem apostado na fruta como um caminho para fortalecer a economia local.
A plantação de cacau ainda é uma novidade em Roraima. Antes se restringia à Terra Yanomami, onde indígenas cultivam o fruto com o objetivo de fazer o Chocolate Yanomami.
No entanto, desde 2019, produtores rurais do Sul estado passaram a investir no plantio. Como o pé de cacau pode levar até cinco anos para dar o fruto, este é o primeiro ano de colheita do polo do estado, que inclui os municípios de Rorainópolis, São Luiz do Anauá, São João da Baliza e Caroebe. Em 2023, houve uma produção experimental, onde foram colhidas 80 toneladas de amêndoas secas, que são comercializadas para Rondônia.
Caroebe é o município com maior área plantada, com 220 hectares de plantação de cacau. Agricultores ouvidos pelo Grupo Rede Amazônica afirmam que há ao menos 10 produtores de cacau na região.
‘Semente plantada no meu coração’
A família de Nicanor Saraiva, de 59 anos, é uma das que acreditam no potencial do cacau no estado e que investe na produção. Há seis anos atrás, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) iniciou o incentivo com distribuição de sementes e desde então os cacauicultores começaram a investir no fruto no município.
Na propriedade de Nicanor, as sementes se tornaram 5 mil plantas que se preparam para a primeira grande colheita. A relação com a fruta, no entanto, é de longa data, pois o agricultor chegou a trabalhar na década de 70 em lavouras com o pai dele em Rondônia, estado que hoje ele vende a mercadoria que produz em Caroebe.
“Trabalhamos em Rondônia em 79 e acho que ficou no meu coração, ficou uma semente plantada no meu coração e aqui em Roraima surgiu a oportunidade de plantar os meus pés de cacau e estou acreditando que vai dar certo”, relembra Nicanor ao revelar que chega até conversar com as plantas para ter uma boa colheita.
Atualmente, a produção está em fase de floração e a expectativa é que, com o clima favorável, a colheita resulte em ao menos três toneladas de cacau em 2025.
Em 2024, devido ao El Niño e a seca que causou mudanças nos regimes de chuva, a plantação dele ficou prejudicada. A família conseguiu colher apenas uma tonelada, muito abaixo do esperado para uma plantação como a deles, segundo o agricultor.
“Essa chuva que caiu agora foi maravilhosa. Só Deus mesmo para poder providenciar essa chuva aí. Agora esses dias foi jogado um adubo que é para ele segurar, para ajudar ele segurar a carga, né? E estamos com outra remessa de adubo, nesses 20 dias vamos jogar de novo. Vamos botar ele para produzir”, explicou o agricultor.
Além do adubo, Nicanor pretende investir em um sistema de irrigação para que a produção não dependa somente do regime de chuvas. No entanto, para ele, além do investimento próprio, a implementação de políticas públicas é fundamental para que o polo de cacau no Sul de Roraima alavanque de vez.
“Realmente o incentivo para agricultura, para nós aqui é praticamente é zero. Porque assim, só depende do governo do estado para ele para ele trazer o incentivo. Isso aqui gera emprego […] É uma batalha, é uma luta e é a gente ir para a frente, erguer a cabeça, se tem política pública se não tem, a gente toca o barco”.
Pés de cacau na propriedade de Juares, em Caroebe. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR
‘Potencial de desenvolver nosso estado’
Na luta junto com ele está a filha, a técnica de fiscalização agropecuária, Kéully Freitas, de 36 anos. Ela acompanha a relação do pai com o fruto e é uma das principais incentivadoras. A agrônoma contribui principalmente com dicas técnicas para a plantação de cacau.
Além de encorajar o pai, como profissional Kéully acredita na potencialidade da fruta na região. Para ela, a expansão do cultivo pode tirar os pequenos agricultores da subsistência e tornar Caroebe a “rota do cacau” em Roraima.
A perspectiva de Kéully se fortaleceu após visitar o Pará, estado que faz divisa com Caroebe e lidera a produção de cacau no Brasil, respondendo por 51,80% da safra nacional. Com vegetação de floresta e um clima semelhante ao do estado vizinho, Caroebe também apresenta condições favoráveis ao cultivo do cacau.
“Quero muito que os filhos dos produtores consigam enxergar o que eu enxergo, ter a mesma expectativa e perspectiva que eu tenho porque eu enxergo um futuro promissor para o cacau. Eu enxergo mini fábricas, fábricas familiares, sabe? Tudo que eu vi lá se aplica para cá. A gente tem o mesmo padrão de solo, o mesmo padrão de clima. Então, nós temos o mesmo potencial de desenvolver o nosso estado com o cacau”.
Embora acredite no potencial, ela também aponta desafios para a expansão. Um deles é a falta de mão de obra qualificada para trabalhar com o cacau.
Entre as habilidades, os trabalhadores do cacau precisam saber fazer uma poda adequada, tratos culturais, manejo, colheita e quebra do cacau para enfim chegar no produto final, que são as amêndoas. Apesar disso, Kéully segue fazendo planos grandiosos para o cacau e ver o cenário como “promissor”.
“Hoje eu enxergo isso aqui como fonte de renda familiar, não só para o homem, o provedor, mas para as mulheres, para os filhos, para todo mundo, porque a lavoura de cacau, ela é uma uma lavoura familiar. Aqui começou em família e eu tenho certeza que muitas outras começaram em família. Então ela é para dar renda para todo mundo e ela vai dar”.
‘Me apaixonei pelo cacau’
Distante a alguns km da propriedade de Kéully e Nicanor, outro produtor de cacau é Juares Pereira de Souza, de 63 anos. Com uma plantação de 3 mil cacaueiros distribuídos em quatro hectares, as plantas dele se diferem da produção de Nicanor, pois são do tipo clonal e não seminal. Ele tem 17 variedades de cacau na lavoura.
No tipo clonal, as plantas são cultivadas a partir de técnicas agrícolas que unem material genético de boa qualidade, produtividade e com resistência ou tolerância a pragas. Já no seminal, as mudas de cacau tem como origem apenas as sementes da planta.
Natual de Pium, no Tocantins, ele mora em Roraima desde 1987 e relembra que Roraima a região tentou uma experiência com cacau naquele período, no entanto, devido à praga vassoura de bruxa, as plantações não vingaram. Apesar disso, o desejo de se tornar um cacauicultor seguiu.
“Sou tocantinense, mas me apaixonei pelo cacau. Aí disse: ‘um dia eu vou plantar cacau’. Quando eu comprei a terra, eu me decidi plantar cacau e fui atrás de resgatar esse material aqui. Isso aqui vem junto comigo nessa história”, relembrou.
Ele uniu a vontade de produzir a fruta com conhecimento técnico. Foi até Rondônia e buscou parceria com a iniciativa privada para desenvolver a lavoura de cacaus clonais. O resultado é um tipo da fruta que, segundo ele, combina planta indígena de Roraima e uma variedade mais produtiva.
“Colocamos o material indígena aqui que tem uma base radicular top para caramba [sic], que garante qualquer um desses materiais, e jogamos o material de alta produtividade em cima dele. Então a adoção de tecnologia que que nós estamos fazendo é essa. A clonagem e a enxertia são bem próximos”, explicou.
Apesar de sua paixão, Juares ainda encontra desafios para acessar políticas públicas de incentivo aos produtores. Entre eles estão os créditos rurais e financiamentos, o que o leva a buscar apoio na iniciativa privada para investimentos, como a implantação de um sistema de irrigação.
“A agricultura familiar de Roraima sempre foi tratada como agricultura de sobrevivência. Nós queremos sair disso. Nós queremos o agricultor familiar aí empreendendo com dinheiro no bolso. É por isso que nós estamos fazendo isso aqui. E nós vamos mostrar para os nossos governantes que com eles eles ou sem eles, nós somos capazes de superar isso”.
Embora ainda enfrentem desafios, os pequenos produtores esperam que, nos próximos anos, além de adoçar paladares, a fruta gere cada vez mais novas oportunidades e impulsione o desenvolvimento da região.
*Por Samantha Rufino, Lucas Wilame e Raquel Maia, da Rede Amazônica RR
A comunidade Passarão, em Roraima, recebeu uma edição especial do curso de tratorista agrícola, uma capacitação para produtores rurais oferecida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O curso foi realizado em cinco dias e contou com a participação de 22 alunos.
A iniciativa, que visa aprimorar técnicas agrícolas e pecuárias, chamou a atenção pela participação expressiva de mulheres. A presença feminina nessa formação, de acordo com o Senar, reflete uma mudança no setor agropecuário da região.
A estudante e moradora da comunidade do Passarão, Claudia da Silva, relata que viu no curso ofertado, uma chance de vencer seus medos e se profissionalizar.
“Vi uma oportunidade já que aqui é área rural, tem várias plantações e a maioria das pessoas usam o trator para esse tipo de serviço. Além de que, poucas mulheres tem coragem de fazer isso, eu arrisquei, me inscrevi para me profissionalizar”, contou.
Foto: Reprodução/Youtube-Amazon Sat
A equipe técnica do Senar diz que a realização desse tipo de capacitação tem um impacto significativo no desenvolvimento do setor. Com o avanço técnico no campo é essencial que os produtores estejam preparados para utilizar novas ferramentas e métodos de forma eficiente e sustentável. A federação desempenha um papel fundamental nesse processo, oferecendo qualificação prática diretamente no ambiente onde o produtor atua.
“A presença feminina nos cursos do Senar representa uma grande conquista para o meio rural. As mulheres sempre desempenharam um papel essencial na produção, mas agora ganham cada vez mais visibilidade e protagonismo. Elas deixaram de ser apenas auxiliares na propriedade para se tornarem gestoras, empreendedoras e donas do próprio negócio”, pontou a equipe técnica.
A equipe finaliza expondo os benefícios esses tipos de cursos podem gerar ao pequeno produtor: “O curso traz diversos benefícios aos produtores, permitindo que ele aprenda a operar e manter os implementos agrícolas de forma eficiente. Com isso, reduza custos, otimize o uso de insumos e minimize os impactos ambientais. Além disso, a capacitação contribui para o aumento da produtividade, melhora a qualidade do trabalho no campo e fortalece a sustentabilidade da produção rural”, conclui a equipe técnica do Senar Roraima.
Ministra Marina Silva assina acordo para estruturar os Escritórios Municipais de Governança. Foto: Rogerio Cassimiro/MMA
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) firmou um contrato de R$61 milhões para estruturar os Escritórios Municipais de Governança, no dia 20 de março, que reforçarão o monitoramento do desmatamento em 70 municípios prioritários da Amazônia Legal.
A iniciativa integra o Programa União com Municípios, um dos instrumentos de implementação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), e conta com o apoio do Projeto Floresta+ Amazônia. Será implementada a partir de parceria com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Com essa ação, as prefeituras receberão veículos, embarcações, computadores e drones, além de capacitação e assessoria técnica, permitindo que as equipes locais atuem de forma mais eficaz no combate ao desmatamento e na promoção de práticas sustentáveis.
União
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância da assinatura. “O acordo é um passo importante para equipar adequadamente os municípios no combate ao desmatamento. A parceria com os municípios é uma forma de criar um vínculo com a sociedade. A agenda de comando e controle, que deve ser cada vez mais intensa, é mais efetiva quando se tem um Sistema Nacional do Meio Ambiente funcionando nos diferentes entes federativos – União, estados e municípios”, pontuou.
Compromisso ambiental
O acordo busca reforçar a trajetória de queda do desmatamento na Amazônia, acentuada a partir de 2023. De acordo com o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de desmatamento no bioma registrou uma redução de cerca de 46% em 2024 em comparação com 2022. Somente entre agosto de 2023 e julho de 2024, a queda foi de 30,63%, o maior declínio percentual dos últimos 15 anos.
A assinatura do contrato reforça o protagonismo do governo brasileiro na agenda ambiental global, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e reafirmando o compromisso com a preservação da Amazônia.
Territórios vulneráveis
Para o secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, André Lima, a criação dos escritórios de governança é um passo importante para manter a floresta em pé nos territórios mais vulneráveis da Amazônia Legal. “Os municípios amazônicos são peças-chave para os esforços contra o desmatamento e queimadas. Com esse suporte, terão condições reais de atuar na proteção de seus territórios e na implementação de políticas ambientais eficazes”, pontuou.
O representante-residente do PNUD no Brasil, Claudio Providas, destacou os esforços do Governo Federal para criar um legado duradouro de proteção ambiental no bioma. “É com grande honra que o PNUD se soma para reduzir ainda mais o desmatamento na Amazônia e consolidar uma nova era de gestão ambiental, protagonizada pelos próprios municípios, em sintonia com os compromissos climáticos e de conservação do Brasil, e principalmente com a Agenda 2030”, declarou.
União com municípios
O Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais na Amazônia (UcM) é uma iniciativa do Governo Federal para fortalecer a governança ambiental em municípios da Amazônia Legal com altas taxas de desmatamento. Por meio da iniciativa, há a previsão de R$785 milhões em recursos para promover o desenvolvimento sustentável e combater o desmatamento e os incêndios florestais.
O programa oferece suporte técnico, equipamentos e capacitação para que as prefeituras atuem de forma mais eficiente na prevenção, controle e redução do desmatamento e da degradação florestal, estimulando também o desenvolvimento sustentável nesses locais. A iniciativa ainda leva ações de regularização ambiental, regularização fundiária e assistência técnica aos municípios.
Representantes
Também estiveram presentes na cerimônia de assinatura o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, e as secretárias nacionais do MMA Rita Mesquita (Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais) e Edel Moraes (Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável).
*Com informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República