Jovens e comunicadores da aldeia aprenderam ferramentas digitais para uso consciente e produtivo da internet. Foto: Divulgação/EAF
O Projeto Terra Preta realiza, em Roraima, mais uma edição do Encontro de Cidadania Digital, fortalecendo o protagonismo indígena no uso consciente da internet e preparando comunicadores de territórios amazônicos para a chegada da conectividade de alta qualidade por meio das infovias.
A iniciativa, que chega à 9ª edição, faz parte do Programa Norte Conectado, coordenado pelo Ministério das Comunicações e pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), sendo executado pela Entidade Administradora da Faixa (EAF).
O evento ocorreu entre os dias 23 e 27 de fevereiro, com comunicadores populares, educadores, jovens e lideranças indígenas na Comunidade Tabalascada, região da Serra da Lua, no município de Cantá (RR). Esta foi a segunda vez que a iniciativa ocorreu em Roraima.
Em outubro do ano passado, a capital Boa Vista sediou o 6º encontro, que foi conduzido por uma equipe formada por educomunicadores amazônicos, que também atua em comunidades do Pará e do Amazonas.
Uma das principais atividades do Projeto Terra Preta são as rodas de conversa para troca de saberes. Foto: Divulgação/EAF
Os encontros promovem a troca de saberes para que o aprendizado de ferramentas digitais impulsione a comunicação popular, a garantia de direitos e o desenvolvimento socioeconômico, sempre respeitando as culturas dos povos envolvidos.
Na Comunidade Tabalascada, os comunicadores participaram de oficinas práticas de produção de conteúdo, elaboração de roteiros para podcasts e videocasts e manuseio de drones. Também fez parte da programação a criação de uma Web Rádio para o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Um dos destaques foi a atividade Partilha de saberes ancestrais e o “Ajuri” para pensar a Terra Preta Digital, coordenada por Nayara Kambeba, integrante do Projeto Terra Preta em Tefé (AM). Ajuri é uma expressão indígena que significa mutirão e ajuda mútua.
A capacitação abordou ainda temas como comunicação popular e indígena, uso seguro e crítico da internet e das redes sociais, combate à desinformação e às fake news, além de oficinas sobre plataformas digitais livres, ferramentas de participação social e utilização de serviços de governo digital (e-Gov).
Trajetória do Projeto Terra Preta
Iniciado em junho de 2025, o Projeto Terra Preta já promoveu encontros no Amazonas, Pará e Roraima. Participaram cerca de 300 integrantes de coletivos, comunidades ribeirinhas, quilombolas e povos indígenas de, ao menos, 12 etnias: Tikuna, Kambeba, Kokama, Mayoruna, Macuxi, Wai Wai, Taurepang, Wapichana, Yanomami, Baniwa, Galibi e Anajás.
As atividades ocorreram em Fonte Boa, Santo Antônio do Içá e Tefé (AM); Outeiro, Breves e Belém (PA); e Boa Vista (RR).
Foto: Divulgação
Conceito
O Projeto Terra Preta é realizado pela Entidade Administradora da Faixa (EAF), em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A iniciativa se inspira no conceito da terra preta — solo fértil criado há séculos por povos indígenas a partir de práticas sustentáveis e de convivência harmoniosa com a natureza.
Assim como esse solo simboliza regeneração e abundância, o projeto fortalece saberes locais e estimula o florescimento de iniciativas digitais nos territórios amazônicos, promovendo autonomia e apropriação consciente das novas tecnologias.
Sobre a EAF
A Entidade Administradora da Faixa (EAF) é uma instituição sem fins lucrativos criada por determinação da Anatel e vinculada ao Ministério das Comunicações. Entre suas atribuições estão a limpeza da faixa de 3,5 GHz, essencial para a operação do 5G no país; a execução dos programas Siga Antenado e Brasil Antenado; a implantação das infovias na Região Amazônica — para expandir a infraestrutura de telecomunicações no Norte do Brasil —; e a implementação de redes privativas de comunicação para o Governo Federal.
Imagine um lagarto que, na tentativa de escapar de um predador, ao invés de perder a cauda, acaba desenvolvendo duas caudas. Pode parecer ficção, mas foi exatamente o que as biólogas Alayne Albuquerque e Kelly Torralvo, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, encontraram em Tefé, no Amazonas. O achado incomum inspirou a criação da história em quadrinhos “Conheça o Ameiva: o lagartinho de duas caudas”, uma publicação que une ciência e educação para explicar o fenômeno.
O protagonista da história é o Ameiva ameiva, conhecido popularmente como calango-verde, um lagarto ágil e de hábitos diurnos que ocorre em várias regiões tropicais das Américas. O que chamou a atenção das pesquisadoras foi a presença de uma cauda bifurcada no animal — uma anomalia morfológica rara, resultado de um processo regenerativo incomum.
Os lagartos possuem uma habilidade chamada autotomia: em situações de perigo, eles conseguem desprender voluntariamente a própria cauda para distrair predadores e fugir. A cauda perdida pode ser regenerada, embora a nova estrutura seja formada por cartilagem, e não pelas vértebras originais.
No caso registrado em Tefé, acredita-se que a cauda tenha sofrido uma fratura incompleta, ou seja, ela se rompeu parcialmente, mas não chegou a se soltar. Desse ferimento, surgiu um broto de regeneração que deu origem a uma segunda cauda.
Embora esse tipo de anomalia já tenha sido documentado em outras espécies de lagartos, ele permanece pouco conhecido do público em geral. A partir daí, decidiu-se transformar o achado científico em uma ferramenta de popularização da ciência. A história em quadrinhos apresenta a história de forma lúdica e em linguagem acessível, incluindo curiosidades e até um caça-palavras para envolver leitores de todas as idades.
Trecho da história em quadrinhos. Ilustração: Norberto Ferreira
Segundo Kelly Torralvo, pesquisadora titular do Instituto Mamirauá e uma das autoras, “essa história em quadrinhos é importante para aproximar a sociedade dos trabalhos associados às coleções biológicas, muitas vezes vistos somente com animais em potes, e despertar o interesse em crianças e jovens para uma biodiversidade cotidiana, da qual encontramos em nossos quintais”.
“A história em quadrinhos também foi construída pelo olhar de uma bióloga que também é mãe, a Alayne, que encontrou entre os exemplares da coleção uma oportunidade de falar de estratégias biológicas, adquiridas evolutivamente pela espécie, com outro público além do acadêmico”, acrescenta Torralvo.
Mais do que uma curiosidade da natureza, o caso do lagarto de duas caudas ajuda cientistas a compreender melhor os limites e as variações da capacidade regenerativa desses animais. Os lagartos, aliás, desempenham papéis ecológicos fundamentais, como o controle de populações de insetos e como bioindicadores da qualidade ambiental.
A publicação já está disponível na versão digital e pode ser acessada AQUI.
Para quem quiser conhecer de perto o lagarto que inspirou a história, as autoras convidam o público a visitar a Coleção Herpetológica do Instituto Mamirauá. “Conheça o Ameiva” é um exemplo de como a ciência pode dialogar com a sociedade de maneira criativa, despertando o interesse pela biodiversidade amazônica.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Miguel Monteiro
Inventario Rápido Biológico e Social. Foto Fernanda Lessa/Field Museum
Cientistas de cinco países e especialistas indígenas apresentaram no dia 27 de fevereiro materiais que unem conhecimentos biológicos, indígenas e pesquisa social produzidos a partir de expedição científica realizada no extremo oeste do Amazonas.
O evento de lançamento do livro ‘Relatório do Inventário Rápido Biológico e Social do Alto Rio Içá #33’ foi no Auditório da Ciência do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI).
O inventário em campo no Alto Rio Içá foi realizado durante 25 dias, em maio de 2025. A região remota com paisagens pouco documentadas da Amazônia Ocidental agora conta com importantes materiais que trazem a caracterização da área estudada, informações sobre a geologia, flora e vegetação e catalogação de quatro grupos de animais (peixes, anfíbios e répteis, aves, mamíferos).
O relatório traz ainda um panorama social do Alto Rio Içá, a história socioambiental e registros sobre etnoconhecimento, gestão territorial, governança e conflitos socioambientais.
Cultura indígena serve de inspiração para relatório
Além do registro impresso, a alta diversidade biológica e a profundidade histórica e cultural do território foram registradas no vídeo “Ciência Intercultural para a Conservação no Alto Rio Içá”, exibido no evento. O Alto Rio Içá compreende uma área de 350,8 mil hectares de florestas públicas não destinadas ao longo do rio Içá e onde vivem várias comunidades indígenas, como os Kukama, Tikuna e Kambeba.
O Inventário Rápido foi um trabalho de ciência intercultural que contou com a colaboração de cientistas e a participação ativa dos povos indígenas. O objetivo foi revelar a importância da região para a conservação da biodiversidade amazônica e apoiar a proteção territorial formal da região, que sofre ameaças de garimpo, extração de madeira e tráfico de animais.
Os lançamentos foram realizados nas comunidades indígenas que participaram da pesquisa colaborativa (Mamuriá I, Mamuruá II, Nova Esperança, Nova Floresta Urutaí, São José e Três Corações de Jesus), além de Manaus. Os encontros envolveram ainda moradores, gestores e representantes de instituições locais.
Devolutiva com as comunidades. Foto Fernanda Werneck (Inpa) e Jeremy Campbell (Field Museum)
Segundo o coordenador do Inventário e diretor do Programa Andes-Amazonas, no Field Museum, o antropólogo sociocultural Jeremy Campbell, o engajamento com as comunidades para a pesquisa teve início em 2021 e buscou ouvir as demandas dos comentários.
“Os Kukamas, Tikunas e demais povos, são guardiões, cuidam das florestas e dos rios, por isso é importante valorizar esse conhecimento milenar indígena e fortalecer ainda mais o protagonismo das comunidades no manejo dos recursos naturais, que eles conhecem muito bem”, ressaltou Campbell.
Para a coordenadora do Programa Povos e Territórios Indígenas da Wildlife Conservation Society – WCS-Brasil, Ana Luiza Melgaço, o Relatório é fruto de construção conjunta, escuta e presença no Alto Rio Içá e as informações geradas fortalecem os direitos dos povos, os diálogos, orientam decisões e reforçam a defesa do território.
“O Relatório é resultado da confiança construída com as comunidades e do compromisso com uma conservação que respeita e aprende com a ciência indígena. Participar deste grande mutirão entre ciências foi de uma imensa satisfação”, disse Melgaço.
Equipe do INPE presente no lançamento do Amazonia-1 no Satish Dhawan Space Centre (SHAR), na Índia. Foto: Divulgação/INPE
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) comemorou cinco anos de lançamento e operação do Amazonia-1, colocado em órbita em 28 de fevereiro de 2021, a bordo do lançador PSLV, a partir do Satish Dhawan Space Centre (SHAR), em Sriharikota, na Índia.
Primeiro satélite totalmente nacional de observação da Terra, o Amazonia-1 atingiu, em 2025, a vida útil prevista de quatro anos e segue operando com excelente desempenho, mantendo todos os subsistemas em condições satisfatórias, segundo o Inpe.
Em cinco anos, o satélite já completou mais de 26 mil órbitas, garantindo constante revisita ao território brasileiro e fornecendo imagens para o monitoramento de biomas, áreas agrícolas, reservatórios hídricos, zonas costeiras e regiões impactadas por desastres ambientais.
Segundo o coordenador-geral de Engenharia, Tecnologia e Ciências Espaciais do INPE, Adenilson Roberto da Silva, “o satélite está com excelentes condições operacionais e continua apto a prestar serviços ao país, mesmo já tendo cumprido a vida útil inicialmente projetada”.
Equipado com a câmera WFI (Wide Field Imager), o Amazonia-1 produz imagens de ampla cobertura, sendo capaz de cobrir mais de 2 milhões de km² em 7 minutos, transmitindo as imagens em tempo real às estações terrenas do INPE e disponibilizadas gratuitamente, apoiando ações de monitoramento ambiental, análise do uso e cobertura da terra e gestão de recursos hídricos.
Além dos resultados operacionais, o Amazonia-1 representa um salto tecnológico com a validação em voo da Plataforma Multimissão (PMM). Desenvolvida pelo INPE para satélites na classe de até 7500 kg, a PMM foi concebida para atender diferentes tipos de missões científicas, meteorológicas e de sensoriamento remoto.
Composta por subsistemas como estrutura mecânica, controle de atitude e órbita, propulsão, geração e gerenciamento de energia, controle térmico e telecomando, o conceito de plataforma multimissão permite maior autonomia tecnológica ao país, reduzindo custos e prazos em futuras missões.
Sua consolidação fortalece a indústria nacional, pois muitos subsistemas são produzidos no Brasil. A PMM pode prestar serviços essenciais em áreas como energia, telecomunicações, defesa e monitoramento ambiental.
O sucesso do Amazonia-1 demonstra a capacidade da engenharia espacial brasileira e da equipe do INPE envolvida. Antes do lançamento, o satélite passou por extensas campanhas de qualificação, incluindo testes de vibração, acústica, interferência eletromagnética e termovácuo, totalizando milhares de horas de testes para garantir a confiabilidade do sistema em ambiente espacial, onde não há possibilidade de reparo.
Amazonia-1B: continuidade da missão e novos avanços
O legado do Amazonia-1 tem continuidade com o Amazonia-1B, atualmente em fase de integração no INPE. O satélite faz uso de equipamentos reserva do satélite Amazonia-1 e será a segunda missão a utilizar a PMM, comprovando sua capacidade multimissão. O que representa um importante elemento estratégico para o Programa Espacial Brasileiro.
Em janeiro de 2026, foi assinado o contrato de lançamento do satélite, previsto para 2027, a partir do Centro Espacial Europeu, em Kourou, na Guiana Francesa, a bordo do veículo Vega-C.
O Amazonia-1B será o primeiro satélite da Missão AQUAE, dedicada ao monitoramento dos recursos hídricos continentais e marinhos do Brasil, além de contribuir para o acompanhamento do estado da atmosfera e de sistemas meteorológicos.
Amazonia-1 passou por muitos testes antes de ser lançada. Foto: INPE
A missão também integra a cooperação internacional SABIA-Mar, em cooperação com a Argentina, e ampliará a oferta de dados para o monitoramento ambiental, o planejamento de recursos hídricos e a previsão de tempo e clima, assegurando também a continuidade de produtos atualmente fornecidos pelos satélites CBERS.
Ao completar cinco anos em órbita, o Amazonia-1 reafirma seu papel como símbolo da capacidade científica e tecnológica do Brasil. Mais do que um satélite, representa a consolidação de competências nacionais e a validação da Plataforma Multimissão, resultado do trabalho conjunto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), instituições que seguem fortalecendo a capacidade do país em desenvolver e operar missões espaciais voltadas ao monitoramento ambiental e ao desenvolvimento sustentável do país.
*Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
As mulheres estão presentes em todos os grupamentos da instituição. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
No mês dedicado às mulheres, histórias de coragem, liderança e compromisso ganham ainda mais significado. Na Guarda Civil Municipal de Boa Vista, elas são protagonistas de uma transformação que representa competência e preparo técnico no cuidado com a população.
A trajetória feminina na Guarda acompanha os 36 anos de história da instituição. A inspetora Signete Cirino, há 16 anos na corporação, é exemplo dessa construção. Atualmente no Policiamento de Proximidade Ostensivo (PPO), já atuou em diversos grupamentos e unidades.
“Para mim, vestir a farda é motivo de orgulho. Prezo por um serviço de excelência para proteger a sociedade boavistense. Fazer parte dessa instituição é uma honra e repassar os aprendizados que tive nos cursos, formações e vivências para quem está chegando é muito gratificante”, comemorou.
Inspetora Signete Cirino faz parte da GCM há mais de uma década. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
As mulheres estão presentes em todos os setores operacionais: ROMU, Grupamento de Proteção Ambiental (GPA), Ronda Escolar, Ronda Comercial, Defesa Civil, Patrulha Maria da Penha, Grupo de Ações Motorizadas (GAM) e no Canil do Grupamento Tático Municipal (GTAM).
A 3ª classe, Hadassa Said, de apenas 21 anos, já coleciona conquistas. Há dois anos na guarda, foi 1º lugar no Curso de Condutor de Cães de Guerra, da Base Aérea de Boa Vista, em 2025. Única mulher do seu grupamento na formação, se destacou em meio à maioria masculina.
“Foi uma surpresa muito positiva. Levar o nome da Guarda e ser reconhecida mostra que estamos cada vez mais preparadas. Uma inspiração para nós, desde o início, são as guardas mais antigas e a comandante. Elas têm um padrão elevadíssimo e nós buscamos sempre nos espelhar nas melhores”, disse.
Agentes do Canil protegem vidas e o patrimônio público, com o auxílio de parceiros de quatro patas. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
Mais do que ocupar espaços antes predominantemente masculinos, as mulheres da Guarda Civil Municipal ajudam a redefinir o conceito de segurança pública. Demonstram que preparo técnico e inteligência emocional são pilares tão importantes quanto a força física.
Atualmente, a corporação conta com 454 guardas, 316 homens e 138 mulheres, sob o comando da inspetora Cícera Mangabeira, de 45 anos. Bacharel em Direito, com 22 anos de serviço público, 16 dedicados à GCM, ela lidera a instituição em um momento de crescimento. Com a posse de 150 novos aprovados no concurso público, o efetivo passará a 604 integrantes.
Cícera Mangabeira é a primeira mulher no comando da Guarda Civil Municipal de Boa Vista. Foto: Fernando Teixeira/PMBV
“Estar à frente de uma instituição majoritariamente masculina é desafiador. Sou mãe de quatro meninas, incluindo uma bebê, e concilio a liderança da corporação com a família. Não é fácil, mas não é impossível. Com apoio e uma equipe comprometida, conseguimos oferecer um serviço de qualidade à população”, contou.
Segurança com olhar humano
A atuação feminina também fortalece políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher, especialmente por meio da Patrulha Maria da Penha. O atendimento alcança áreas urbanas, rurais e comunidades indígenas, com o suporte do aplicativo BV Protege, que facilita o contato das vítimas com as equipes.
O resultado desse trabalho conjunto reflete em números expressivos. Boa Vista está entre as 10 capitais mais bem avaliadas em segurança pública, de acordo com o Anuário 2025 de Cidades Mais Seguras do Brasil, elaborado pela MySide.
A Secretaria de Cultura e Turismo de Roraima (Secult), por meio do Departamento de Turismo (Detur), e a Agência da ONU para Refugiados (Acnur) celebraram um acordo inédito de cooperação técnica para implementar um projeto de turismo de base comunitária na comunidade indígena refugiada Warao a Janoko, localizada no município de Cantá.
Por meio da parceria entre Acnur, Secult e Conselho Indígena Najakara Mooru (Cinamo), a comunidade Warao a Janoko passa agora a desenvolver um projeto comunitário, com o objetivo de tornar-se um novo destino de visitação cultural em Roraima.
A cooperação envolve ainda a Universidade Estadual de Roraima (UERR), por intermédio do curso de Turismo, a Prefeitura Municipal de Cantá e o Centro de Apoio aos Municípios (CAM) da Assembleia Legislativa de Roraima.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) atua desde 2022 junto à comunidade Warao a Janoko, que se estabeleceu no município de Cantá em 2021. Atualmente, os indígenas já desenvolvem atividades de produção e venda de artesanato tradicional, refletindo sua cultura e identidade, além de demonstrar interesse em iniciativas voltadas para o turismo.
A Agência da ONU acredita que esta experiência poderá servir de referência para futuras iniciativas junto a outras comunidades indígenas refugiadas, contribuindo para soluções mais duradouras, sustentáveis e alinhadas às políticas estaduais.
Turismo de base comunitária como desenvolvimento regional
A capacitação integra o projeto Turismo de Base Comunitária dentro das Ações do Programa de Desenvolvimento do Turismo Regional do Plano Estadual de Turismo 2030. Atividades semelhantes já foram realizadas em outras comunidades indígenas de Roraima.
As capacitações abordarão temas como preparação, sustentabilidade e autonomia comunitária, permitindo que os moradores construam seu próprio modelo a partir das vivências que desejam compartilhar.
Foto: Divulgação/Secult RR
O diretor do Departamento de Turismo, Bruno Muniz de Brito, destacou o impacto da parceria. “O intuito do projeto é oferecer a essa comunidade um protagonismo que já vem sendo trabalhado pelas demais comunidades indígenas aqui do Estado de Roraima”, disse.
A proposta é convidar os agentes e operadores que atuam no Cantá, especialmente com a Serra Grande e os demais roteiros que o município dispõe, para que esses operadores conheçam o grupo e as experiências, e possam inserir a comunidade dentro da visitação turística e dos roteiros turísticos da localidade.
O trabalho de capacitação será realizado no mês de março com o envolvimento dos parceiros, que vão levar contribuições e somar esforços para que essa comunidade possa ser incluída na atividade turística, provendo condições de sustentabilidade, de valorização da sua cultura e da memória.
Após a conclusão das capacitações, a comunidade será acrescentada como ponto de parada em roteiros turísticos, especialmente nas idas à Serra Grande, Cantá e Buritizal Grosso. Essa ação reforça o compromisso do Governo de Roraima com a inclusão sustentável de populações refugiadas e indígenas, promovendo o turismo responsável, a valorização cultural e o desenvolvimento econômico local.
Gregório Thaumaturgo de Azevedo Comendador e General, foi uma das figuras mais destacadas do Exército Brasileiro e, político, atuando em diversas regiões do Brasil. Nasceu no Piauí a 17 de novembro de 1851, filho de Manoel de Azevedo Moreira de Carvalho.
Um jovem de invejável inteligência, bacharelou-se em Ciências Físicas e Matemática, pela Escola Militar do Realengo, Rio de Janeiro e, depois em Ciências Sociais e Jurídicas pela Faculdade de Recife. Foi um homem de vida dinâmica, tanto no Exército como fora dele.
Em mais de meio século seu nome encheu de vibração os faustos das atividades militares, civis e politicas, sobretudo, no estado que sempre esteve ligado. Seu nome fez jus a diversas honrarias heráldicas e de membro de sociedades beneficente e científicas.
Como Engenheiro Militar exerceu responsabilidades e várias comissões importantíssimas.
– Assim, o Tratado de La Paz, de 1867, sobre demarcação dos limites entre Brasil e a Bolívia, ficou em foco exigindo imediata realização: o traçado de uma reta partindo da foz do Beni, afluente do Madeira, rumando a nascente principal do Rio Javari.
A determinação desse ponto exigiu do Brasil e Peru sacrifícios sem contar nada menos com seis expedições de exploração, sacrifícios fabulosos de vidas preciosas, de despesas e de tempo. Foi nomeada a Comissão Mista Brasileiro Peruana para determinar o ponto geodésico da nascente principal do Rio Javari.
Por parte do Brasil, o governo designou o então Coronel de Engenheiros Thaumaturgo de Azevedo. Os dois elementos reúnem-se, na foz daquele rio, em Benjamim Constant, cada qual em suas embarcações, sobem o caudal, ate a embocadura do Galvez, tributário da esquerda. O delegado brasileiro reúne os peruanos e lhes comunica o seu propósito de subir o rio e não o Jaquirana, porque os considerava o outro, como verdadeiro curso do Javari.
A estupefação dos peruanos foi tremenda, havendo protestos. Pondere-se que a Comissão mista não foi nomeada com o fim de verificar qual seria o verdadeiro curso do Javari, mas, a sua nascente principal, sabidamente, no Jaquirana. O General, então Coronel, subindo o Galvez, queria dar ao Brasil cerca de 5.000 léguas quadradas.
Concomitantemente, outro problema, também de demarcação, se equaciona para solução imediata a determinação geodesia da passagem da linha reta estabelecida pelo referido Tratado de La Paz, passando pela povoação de Cruzeiro do Sul, Estado do Amazonas.
Comendador Gregório Thaumaturgo de Azevedo. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Nomeada a Comissão Mista para dirigir o caso, é designado chefe, o Coronel Gregório de Azevedo, Subchefe, o Capitão-tenente Augusto da Cunha Gomes. Por parte da Bolívia, o Dr. José M. Pando.
Cunha Gomes levara do Rio de Janeiro a incumbência de fazer deflexionar a reta, de modo a incluir, na jurisdição federal, as duas povoações citadas. Thaumaturgo de Azevedo discorda de semelhante sugestão. Queria sim, que se considerasse a nascente principal do Javari não determinada ainda, quando já o era desde 1878.
Abriu-se então, uma luta em setembro de 1895, entre Thaumaturgo, de um lado e Cunha Gomes e Pando, do outro, o Chefe da Comissão Brasileira deixa o serviço, assumindo-o, Cunha Gomes. E tudo correu conforme o desejo do Governo Federal. O Coronel Thaumaturgo procurou sustentar o seu ponto vista, em 1901, num livro e duzentas páginas, fartamente documentado livro esse intitulado ‘O Acre, Limites com a Bolívia’ (artigos publicados n’ A Imprensa, de 1900 1901), do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro e, Rodrigues & Cia. – 1901.
Dessa importantíssima Comissão de Limites, em que reafirmou grande competência técnica, sabedoria jurídica e honradez, o Coronel Gregório Thaumaturgo é chamado para outra função federal, de muito relevo, qual fosse o Departamento do Alto Juruá, também chamado Prefeitura do Cruzeiro do Sul.
Lembre-se que o território do Acre, depois de criado pelo Tratado de Petrópolis, de 17 de novembro de 1903, foi dividido em 3 partes: Acre, Alto Purus e Alto Juruá. Este último foi entregue ao Coronel Thaumaturgo de Azevedo, que para lá seguiu, em 1904, instalando-se em Cruzeiro do Sul.
Seu governo caracterizou-se por um dinamismo fantástico. É obvio dizer que tudo, estava por fazer, no planejamento da administração. É ele o conseguiu em cerca de um ano, auxiliado por uma equipe de funcionários competentes. Comprova-o Relatório de 1904, um grosso volume com as primeiras objetivações e muitas plantas e mapas geográficos, de todo o território de sua jurisdição. Dito relatório é o pórtico de uma grande sabedoria e civismo, obra de utilidade aos administradores que tinham de prosseguir no desbravamento daquela ubérrima região.
Mas o Dr. Thaumaturgo de Azevedo precisou ir ao Rio de Janeiro, no interesse do seu departamento. Lá permaneceu cerca de seis meses. Foi sua ausência, um colapso na vida pública do Alto Juruá. Di-lo em detalhes, no seu Segundo Relatório, datado de 31 de dezembro de 1905, o caos que encontrou. Foi o relato do seu derradeiro trabalho de engenheiro militar, de doutor em Direito Administrativo e de beneditino, na obra que pode realizar.
Deixei, de propósito para a parte final, o contexto da biografia do General, com a sua atuação politica e administrativa, no Amazonas. Façamos um retrocesso no tempo:
O ilustre Engenheiro militar estava no norte do país, a serviço da Comissão Demarcadora de limites Brasil Venezuela, sediado em Boa Vista do Rio Branco hoje estado de Roraima, quando se deu a mudança do regime. Dirigira-se a Manaus. Eduardo Gonçalves Ribeiro, então no poder, na qualidade de presidente nomeado pelo Governo Provisório da República, ia executar a constituição Federal de 24 de fevereiro de 1891, realizando a eleição do 1° governador do estado do novo regime.
Por, influencia militar, é sugerido o nome do Dr. Gregório Thaumaturgo de Azevedo que é eleito, pela Assembleia Constituinte, a 27 de julho de 1891 e empossado a 12 de setembro do mesmo ano, recebendo o governo das mãos do Coronel Guilherme José Moreira, no momento, seu sucessor legal. Eleito por quatro anos, só estava no cargo até 27 de fevereiro de 1892, quando foi deposto, em virtude dos acontecimentos que se deram na capital federal, após o contragolpe dado por Floriano Peixoto ao ato de Deodoro, dissolvendo a Carta Constitucional da República (24 de fevereiro). Gregório Thaumaturgo procurou resistir mantendo-se no cargo.
Mas, não o pôde. Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, não quis perdoá-lo. A última semana do seu governo foi um período de agonias, de ameaças de fuzilamento de adversário que, por sinal eram toda a gente. Tinha eu 16 anos de idade e, na minha adolescência, curiosa inconsequente, procurava tomar conhecimento dos fatos.
Thaumaturgo de Azevedo aguardou a chegada de sua demissão, tanto importava a nomeação do capitão de Fragata José Inácio Borges Machado, que assumiu as responsabilidades do cargo no mesmo dia 27 de fevereiro de 1892. Thaumaturgo não esperou no palácio do governo a presença do Oficial da Marinha, para entregar-lhe o timão da nau do estado, pois, bem cedo, dirigiu-se ao porto, recolhendo-se a bordo de um navio do Lloyd Brasileiro por acaso ali, partiu ao sul. Nunca vi um bota-fora tão bota-fora, como aquele.
Os acontecimentos do Rio de Janeiro, agravados em Manaus, fizeram-lhe uma chuva de pedras, após ter já prestado tantos serviços a pátria.
O General Gregório Thaumaturgo de Azevedo faleceu em idade avançada, mas, não conseguiu assistir o seu centenário de nascimento a 17 de novembro de 1951, quando seus parentes, amigos e admiradores celebraram o acontecimento.
Foi um dos maiores talentos de cultura e dinamismo, blindado por um caráter forte, mas sem perceber, por uma constante irritabilidade nervosa, que o incompatibilizava perante seus subordinados e amigos. Era o defeito desse vulto plutarquiano da nossa história, cuja, vida andou ligada a do Amazonas.
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
Na Ilha do Marajó, no Pará, o filme ‘Manas’ conta a história da jovem Marcielle, de 13 anos, que começa a questionar os limites impostos à sua vida. Em meio a uma comunidade ribeirinha atravessada por desigualdades históricas, o filme mergulha no cotidiano amazônico do Pará e revela as barreiras impostas às mulheres e meninas, conectando uma realidade local a debates de alcance global.
A narrativa de ‘Manas’ nasce de uma pesquisa realizada pela diretora Marianna Brennand Fortes na região, inspirada em relatos e escutas locais sobre violência e exploração sexual de crianças e adolescentes. Ao optar pela ficção, a realizadora constrói uma obra ancorada no território amazônico, sem expor vítimas reais.
O filme adota uma abordagem sensorial, acompanhando a protagonista de forma íntima e constante. A construção da linguagem — da fotografia ao som, passando pela ausência de trilha musical — evita a estetização da violência e aproxima o público da experiência emocional da personagem.
Mais do que ambientação, o território amazônico estrutura o próprio desenvolvimento da história. A dinâmica das marés, os deslocamentos pelos rios e a relação com o ambiente natural interferiram diretamente na realização do filme, incorporando o cotidiano local ao ritmo da narrativa.
A indicação do filme Manas ao Prêmio Goya reforça a projeção de produções do Norte do Brasil no circuito internacional e evidencia a diversidade regional como uma das marcas do cinema brasileiro contemporâneo.
“Ver uma obra produzida no Pará alcançar um espaço tão importante do cinema mundial é motivo de imenso orgulho. É a prova de que o nosso cinema tem identidade, força e voz”, avalia Jamilli Correa.
A protagonista da trama foi selecionada após testes realizados com centenas de meninas da região. Nascida e criada no Pará, a atriz estreou no cinema com o papel de Marcielle.
Fátima Macedo, que interpreta Danielle, também celebrou a indicação:
“A nomeação de Manas para o Prêmio Goya me emociona profundamente porque, além de confirmar a importância do cinema brasileiro no cenário mundial, comprova o impacto do filme em quem o assiste, revelando a universalidade dessa história e a urgência de pontuarmos narrativas como essa”.
Reconhecimento do filme
O filme já acumula reconhecimento internacional, com destaque para o Director’s Award nas Giornate degli Autori do Festival de Veneza e o Women in Motion Emerging Talent Award no Festival de Cannes, além de mais de 20 prêmios em festivais internacionais.
Para a secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), Joelma Gonzaga, o reconhecimento internacional da obra está diretamente ligado ao sistema de fomento existente no país: “A indicação de Manas ao Prêmio Goya reafirma a potência do audiovisual brasileiro e a importância das políticas públicas estruturantes. É resultado de talento, diversidade regional e de um sistema de fomento que permite que histórias brasileiras alcancem o mundo.”
A produtora Carolina Benevides ressaltou o significado da nomeação: “Ver Manas ganhar destaque no Prêmio Goya representa um momento de enorme orgulho e também de responsabilidade. Estar nesse espaço significa que uma história que se passa na Ilha do Marajó encontrou eco além das nossas fronteiras. O reconhecimento no Goya mostra que essa realidade, quando tratada com rigor artístico e compromisso ético, mobiliza públicos em todos os lugares por onde passa”.
Foto: Divulgação
Investimento público no filme Manas
A produção de Manas contou com recursos de políticas públicas federais de fomento ao audiovisual, além de apoio de cooperação internacional com participação brasileira. Ao todo, foram cerca de R$ 8,76 milhões em recursos públicos federais e de cooperação internacional com participação brasileira, considerando aportes do FSA, da Lei do Audiovisual e do Programa Ibermedia.
Por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) — principal mecanismo federal de financiamento do setor — o filme recebeu R$ 3,35 milhões, distribuídos da seguinte forma:
R$ 100 mil – Edital PRODAV 05/2013 (desenvolvimento) R$ 3 milhões – Edital Concurso Cinema 2018 (produção) R$ 250 mil – Opção de investimento do FSA em comercialização (distribuição)
Via Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993) — instrumento de incentivo fiscal que permite o investimento privado em obras brasileiras com renúncia fiscal — o fomento indireto somou R$ 5,37 milhões, por meio dos arts. 1º-A e 3º-A.
O filme também recebeu o Prêmio Ibermedia, no valor de US$ 8,6 mil (aproximadamente R$ 44 mil, considerando a cotação de hoje). O Ibermedia é um fundo de cooperação entre países ibero-americanos voltado ao apoio a coproduções audiovisuais. O Brasil integra o programa por meio de contribuição federal realizada via orçamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine).
Tucumã é fonte de renda para mulheres. Foto: Ruth Jucá/ADS
Uma pesquisa recente, publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais, demonstra que a coleta e comercialização de espécies nativas, como o tucumã, se tornam ferramentas vitais de empoderamento feminino e resistência territorial na Ilha de Cotijuba, em Belém (PA).
Coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental, o estudo concluiu que as práticas extrativistas vão muito além da geração de renda: elas redefinem o papel social dessas mulheres, oferecendo refúgio contra a violência doméstica e protagonismo político em um cenário de forte pressão imobiliária, em uma área de influência turística, cercada de praias tranquilas de água doce.
Realizado entre 2022 e 2023, a pesquisa analisou a atuação do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB), evidenciando a oferta de refúgio e condição de liderança como impacto na vida das mulheres.
Segundo a pesquisadora Dalva Mota, um dos pontos que mais chamou atenção no trabalho, recai sobre a autonomia pessoal e política das extrativistas. Em um contexto marcado por desigualdades de gênero e violência doméstica, o MMIB atua também como uma rede de acolhimento.
Relatos colhidos pela pesquisa mostram que a participação no movimento permitiu a muitas mulheres romperem os ciclos de submissão. Uma das entrevistadas descreve o movimento como um “refúgio” contra crises conjugais e a imposição do trabalho doméstico exclusivo.
Decisões pelas e para as mulheres
Politicamente, o estudo destaca que a coordenação do movimento é composta exclusivamente por mulheres, garantindo que a tomada de decisão permaneça em mãos femininas, enquanto os homens associados têm direito apenas a voto, mas não a cargos de direção.
Essa estrutura fortalece a autoestima e promove a qualificação profissional de mulheres que, em sua maioria, possuem trajetórias marcadas pelo trabalho doméstico precoce e pela migração em busca de melhores condições de vida.
A pesquisa aponta que a parceria comercial com uma multinacional brasileira de cosméticos, iniciada em 2002, para o fornecimento de priprioca (planta aromática amazônica) e estendida posteriormente ao tucumã (fruto de palmeira amazônica), inseriu essas mulheres em uma “bioeconomia inclusiva” cheia de paradoxos. Ao mesmo tempo em que traduzem seus valores locais para a lógica capitalista de preços e metas, as extrativistas desafiam a demanda industrial por escala.
O tucumã (Astrocaryum vulgare Mart.), especificamente, surge como um símbolo de resistência ecológica. Enquanto o açaí — principal cultura local — sofreu com secas recentes, o tucumã mostrou-se resiliente ao fogo e às alterações climáticas, garantindo uma alternativa econômica viável. Essa atividade ajuda a preservar a paisagem da ilha, hoje fragmentada pelo desmatamento e pela especulação imobiliária que expulsa famílias de seus quintais produtivos.
Tucumãzeiro. Foto: Reprodução/Embrapa
De acordo com as autoras Ana Felicien e Dalva Maria da Mota, a experiência do MMIB prova que a bioeconomia na Amazônia não pode ser vista apenas como uma transação comercial. Dela dependem relações sociais complexas e a manutenção da floresta em pé. Para as mulheres de Cotijuba, o extrativismo é uma forma de “segurar a terra” e garantir que, mesmo em meio a ruínas ambientais e pressões urbanas, suas vidas e saberes continuem a florescer.
O Artigo “O tucumã em movimento: extrativismo e ativismo de mulheres na ilha de Cotijuba, Pará” foi publicado na edição de dezembro, da Revista Brasileira de Ciências Sociais, uma das principais revistas interdisciplinares no âmbito das Ciências Sociais no Brasil. É de autoria da pesquisadora Dalva Mota e da então bolsista de pesquisa Ana Felicien (Universidade Federal do Pará, Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (INEAF), Programa de Pós-graduação em Agriculturas Amazônicas (PPGAA). Acesse AQUI.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
A diversidade cultural da Amazônia pode ser conferida na ‘Exposição dos Povos da Floresta: Ocupação Artística Contemporânea Mairi’, em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Pará, em Belém. A atividade integra o Festival dos Povos da Floresta, projeto itinerante e multilinguagens que tem apoio da Lei Rouanet.
Com visitação até 29 de março, a exibição multilinguagem com entrada gratuita reúne produções de artistas de Rondônia, Roraima, Amapá e Pará. Contempla trabalhos em fotografia, cinema, pintura, desenho, grafite, escultura e multimídia que se conectam com a cultura, memória e os saberes tradicionais da Amazônia.
Na capital paraense, a exposição traz um recorte das etapas do Festival promovidas em Porto Velho (RO), Boa Vista (RR) e Macapá (AP), além da ocupação artística local.
“A exposição parte de um processo curatorial por meio de conversas, que buscam representar as muitas vozes da Amazônia. E esse é o espírito do Festival, possibilitar esses encontros e construir uma experiência viva de território, memória e identidade coletiva”, explica a representante do Festival, Fabiana Barbosa Gomes.
O intuito é apresentar narrativas que evidenciam a heterogeneidade cultural da floresta, destacando os processos de reinvenção e resistência, além de valorizar o protagonismo de artistas amazônicos.
As obras convidam o público à reflexão sobre pertencimento, memória, identidade e patrimônio cultural da Amazônia.
“Quando falamos da Amazônia e o que ela representa nos deparamos com um grande desafio que é essa diversidade que se expande entre os territórios. O projeto multilinguagem é um caminho que encontramos para acessar e encontrar essas expressões que muito dizem sobre a Amazônia. Entendendo os diversos formatos de linguagens existentes, na capacidade das obras de se interligar articulando ancestralidade e contemporaneidade”, comenta Lucas Baim, que responde pela curadoria juntamente com Isabela Bastos.
MIS-PA
A Exposição dos Povos da Floresta ocupa o MIS-PA, equipamento museal mais antigo do estado do Pará, que somente em 2022 ganhou sua sede definitiva. Para a diretora do espaço, Indaiá Freire, a mostra tem um sentido especial.
“O MIS está instalado no Centro Cultural Palacete Faciola, antiga residência de Antônio Faciola, um barão da borracha. Cabe lembrar que os seringueiros eram mantidos em situação análoga à escravidão por seus patrões. Quando o Museu recebe uma exposição que tem como marca os povos ancestrais, da floresta e urbanos periféricos, estamos resignificando esta casa que foi um templo de luxo, resultado da exploração dos territórios, de corpos de indígenas, pretos e caboclos e os convidando a entrar pela ‘sala’ com suas falas artísticas”, salienta.
Foto: Divulgação
Itinerância da exposição
O Festival dos Povos da Floresta é um projeto itinerante e multilinguagens que celebra a arte como instrumento de resistência, sustentabilidade e valorização dos saberes tradicionais. Além da exposição Ocupação Artística Contemporânea Mairi, a programação abrange oficinas e shows.
Para a gerente administrativo da Rioterra – Centro de Inovação da Amazônia, criador do projeto, Edvania Brito, o Festival promove conexões reais, dando protagonismo aos povos da Floresta.
“O evento conecta artistas de diversas linguagens e expressões, então como guardiões dos territórios, eles ampliam o acesso à opinião pública, fortalecem a identidade das diferentes culturas Amazônicas e, isso gera engajamento, cria diálogos e narrativas através de suas expressões artísticas. Isso tudo fortalece a identidade e senso de pertencimento regional”, comenta ela.
Idealizado pela Rioterra, o Festival é apresentado pela Petrobras e realizado pelo Ministério da Cultura (MinC) e Governo do Brasil, por meio da Lei Rouanet. Para a atual edição foram captados mais de R$ 4,9 milhões pelo mecanismo de incentivo à cultura.
“Aqui no Escritório Estadual do MinC no Pará, temos dialogado intensamente com grupos, movimentos e coletivos culturais e artísticos sobre a importância da profissionalização. Quando falamos em profissionalização, estamos nos referindo à necessidade de que esses coletivos tenham seus CNPJs, seja como associações, cooperativas ou outras formas jurídicas”, destaca a coordenadora Telma Saraiva.
A atuação da Pasta, por meio de sua representação no território, fortalece a execução dessas iniciativas e reconhece a multiplicidade do fazer cultural no Norte brasileiro. Segundo ela, é fundamental que os coletivos também estejam estruturados formalmente para que possam acessar outras fontes de financiamento no futuro, como os mecanismos previstos na legislação de fomento cultural.
“Esta exposição é um exemplo concreto dessa possibilidade: um grupo que, por meio da Lei Rouanet, conseguiu viabilizar e manter sua mostra. Isso demonstra como a formalização pode ampliar as oportunidades de acesso a recursos e fortalecer o trabalho dos fazedores de cultura”, conclui.