Biodiversidade amazônica, bioeconomia, segurança alimentar, tecnologias espaciais e transformação digital estão entre os temas centrais do memorando de entendimento assinado no dia 28 de maio entre o Brasil e o Suriname para ampliar a cooperação bilateral em ciência, tecnologia e inovação.
O acordo foi firmado durante a visita oficial da presidente da República do Suriname, Jennifer Geerlings-Simons, ao Brasil, em cerimônia no Palácio do Planalto com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos.
A assinatura do documento estabelece uma base institucional para ações conjuntas entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Ministério de Assuntos Econômicos, Empreendedorismo e Inovação Tecnológica do Suriname em áreas estratégicas para os dois países, especialmente no contexto da integração amazônica e do desenvolvimento sustentável.
A ministra Luciana Santos destacou o papel da cooperação científica e tecnológica para o fortalecimento das relações bilaterais e para o desenvolvimento sustentável da região amazônica.
“Nosso memorando dará institucionalidade à colaboração em pesquisa e inovação em setores prioritários para os dois países, por meio de projetos conjuntos, mobilidade de pesquisadores, missões científicas e participação em redes de pesquisa”, afirmou a ministra.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Cooperação Brasil-Suriname
A titular da pasta também ressaltou o potencial de cooperação em monitoramento ambiental e tecnologias espaciais, com o compartilhamento de dados gerados pelos satélites brasileiros CBERS-4, CBERS-4A e Amazonia-1, que já cobrem o território surinamês.
“O bioma amazônico é de grande relevância para nossos países. Vamos aliar ciência, tecnologia e inovação aos conhecimentos tradicionais para desenvolver soluções que impactem positivamente comunidades locais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas”, acrescentou.
Para o presidente Lula, Brasil e Suriname são parceiros diplomáticos naturais.
“Os dois são países amazônicos, democracias que acreditam na cooperação, no multilateralismo. Nesta visita, assinamos 13 acordos em temas como infraestrutura, defesa, segurança, ciência e tecnologia, políticas sociais e desenvolvimento sustentável”, comemorou.
Segundo a presidente surinamesa, a parceria entre os países representa oportunidades de crescimento e avanço tecnológico para ambos os países. “Buscamos, em conjunto com o Brasil, soluções e cooperações que transformem nossas sociedades, que aumentem a nossa efetividade e que garantam um futuro melhor”, afirmou Jennifer Geerlings-Simons.
A assinatura do acordo reforça o compromisso brasileiro com a integração regional e com o fortalecimento da cooperação científica na Amazônia, incluindo iniciativas multilaterais desenvolvidas no âmbito da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e da Rede Bioamazônia.
O memorando tem caráter não vinculante e prevê que cada país seja responsável pelo custeio de suas próprias atividades e grupos de pesquisa. O documento terá vigência inicial de 5 anos, com renovação automática.
*Com informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
cuíca-de-cauda-peluda é um dos animais mais difíceis de registrar. Foto: Fernando Trujillo/ Inpa
O pesquisador-bolsista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) Alexander Arévalo Sandi publicou o artigo sobre a cuíca-de-cauda-peluda ‘The most elusive amazonian mammal? Distribution, survey, ecology and conservation of the bushy-tailed opossum Glironia venusta‘ (O mamífero amazônico mais esquivo? Distribuição, levantamento, ecologia e conservação do cuíca-de-cauda-peluda – Glironia venusta), na revista Mammal Review, um dos periódicos de maior relevância mundial em estudos de mamíferos e conservação.
O estudo reuniu 72 localidades confirmadas da espécie, ampliando em cerca de 77% a distribuição espacial reconhecida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A partir de armadilhas fotográficas, revisão de literatura e dados de ciência cidadã, a pesquisa confirmou que Glironia venusta tem atividade estritamente noturna e avaliou sua sobreposição temporal com outros mamíferos arborícolas.
Trabalho colaborativo é a maior compilação já feita sobre a cuíca-de-cauda-peluda, um marsupial arborícola raro e pouco registrado em toda a bacia amazônica.
Pela primeira vez, armadilhas fotográficas registraram a espécie em comportamento compatível com consumo de gomas vegetais, o chamado “gum-feeding”. O artigo também foi subsidiado por dados do MapBiomas para analisar mudanças quanto ao habitat natural da espécie e às transformações do solo, o que apontou a pressão humana como fator relevante para a conservação.
cuíca-de-cauda-peluda. Foto: Fernando Trujillo/ Inpa
“Apesar de décadas de pesquisas na Amazônia, Glironia venusta continua sendo um dos mamíferos menos conhecidos do mundo. Nosso estudo reúne informações sobre sua distribuição, ecologia e conservação, contribuindo para reduzir parte dessa lacuna de conhecimento”, explica Sandi.
O interesse pela espécie começou durante seu doutorado, com registros obtidos na Reserva do Alto Cuieiras, base de estudos do Inpa (80 km ao norte de Manaus). “A partir desses registros surgiu a ideia de reunir informações dispersas sobre sua ocorrência em toda a Amazônia”, completa.
O trabalho teve a colaboração de Fernando Ferreira de Pinho, Andressa Bárbara Scabin, Fernando Trujillo, Maria Nazareth Ferreira da Silva, Wilson Roberto Spironello e destaca a importância da conservação das florestas amazônicas para espécies raras e pouco conhecidas, especialmente mamíferos arborícolas de difícil monitoramento em ambientes naturais.
Apoio
O autor destaca que o Inpa deu suporte logístico fundamental e que a bolsa do doutorado e do Programa de Capacitação Institucional (PCI), além do apoio da Capes e CNPq, viabilizaram o trabalho e possibilitaram as descobertas descritas no artigo.
“A gente ampliou essa distribuição para a Amazônia toda. Com armadilhas fotográficas do nosso Grupo de Pesquisa, mostramos um comportamento raro, que é o bicho pegando gomas de uma planta, e confirmamos que é completamente noturna. Também avaliamos como o ambiente nas localidades de registro pode estar sendo modificado pela presença humana”. Atualmente, Sandi é bolsista PCI da Coordenação de Biodiversidade (COBIO), no Inpa.
O artigo foi publicado pela Wiley em parceria com a Mammal Society, a Mammal Review, na categoria “Practice Insights”, voltada a pesquisas com aplicação prática para monitoramento e conservação da biodiversidade.
“Me sinto honrado por ter passado essa etapa, porque é uma revista de alto impacto, uma das melhores quanto ao estudo de mamíferos. Estou muito grato pelo apoio recebido ao longo da pesquisa, incluindo colegas, colaboradores e todas as pessoas envolvidas que contribuíram de diferentes formas para que esse estudo fosse possível”, conclui Sandi.
O Instituto Soka Amazônia lançou o primeiro Guia de Aves da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Dr. Daisaku Ikeda durante o Avistar 2026, considerado o principal encontro de observação de natureza da América Latina. O evento ocorreu em maio, no Jardim Botânico de São Paulo, reunindo pesquisadores, observadores de aves, educadores ambientais e instituições ligadas à conservação da biodiversidade.
A publicação é resultado de uma parceria entre o Instituto Soka Amazônia e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), por meio do projeto de extensão acadêmica ‘Vem Passarinhar Manaus’. A iniciativa tem como objetivo incentivar a ciência cidadã, ampliar o conhecimento sobre a avifauna amazônica e estimular a participação da população em atividades de observação e monitoramento de espécies.
Nesta primeira edição, o guia reúne informações sobre as 30 espécies de aves mais frequentemente registradas na RPPN Dr. Daisaku Ikeda, área de conservação localizada em Manaus. Além de fotografias e descrições das espécies, o material busca facilitar a identificação das aves por pesquisadores, estudantes, observadores iniciantes e visitantes interessados na biodiversidade regional.
RPPN Dr. Daisaku Ikeda contará com outras catalogações
Segundo os organizadores, a publicação é apenas o primeiro passo de um projeto mais amplo de catalogação da fauna local. A expectativa é que, até o final de 2026, o guia seja atualizado com cerca de 130 novas espécies registradas na reserva, ampliando significativamente o levantamento da diversidade de aves presentes na área protegida.
O lançamento também destacou a importância da ciência cidadã para a produção de conhecimento científico e para a conservação ambiental. A proposta é envolver cada vez mais pessoas na observação e no registro de espécies, contribuindo para a geração de dados que podem apoiar pesquisas e ações de preservação.
RPPN Dr. Daisaku Ikeda, Instituto Soka Amazônia. Foto: Vitor T. K. Raposo
Durante o Avistar 2026, o Instituto Soka Amazônia foi representado pela educadora ambiental Rebeca Soares Braga. Em palestra apresentada durante o encontro, ela detalhou o processo de criação do guia, incluindo as etapas de coleta, organização e curadoria das informações utilizadas na publicação.
Disponibilizado gratuitamente ao público, o guia busca ampliar o acesso ao conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e fortalecer iniciativas voltadas à educação ambiental e à conservação das aves da região.
Caiaques na orla do Educandos, em Manaus. Remadores do Clube do Remo, 1961, registro de Marcel Gautherot. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br
Antes de descrevermos o nosso objeto de pesquisa – Luso Sporting Club – abordaremos um pouco sobre o nascimento da atividade esportiva no Brasil, para que possamos entender o contexto da atividade desportiva no período da construção do Luso.
Não se pode estudar o fenômeno desportivo alheio ao movimento e organização social presente. O desporto é um fenômeno cultural complexo e de grande importância para uma sociedade, capaz de anunciar e denunciar inúmeras manifestações latentes nos diversos grupos sociais.
Garcia descreveu o desporto como:
[…] um processo evolutivo e de modernização das praticas físicas milenares que sempre existiam nas diferentes sociedades. O homem, desde o mais primitivo até, sempre jogou ou correu. Estas mesmas atividades foram depois regulamentadas, dando assim origem ao moderno desporto.²¹
Segundo Garcia, o esporte é um dos fenômenos mais importantes do nosso tempo. Ninguém fica indiferente a essa atividade humana. De acordo com o autor, observamos que o desporto, tal como agora conhecemos, é um fenômeno relativamente recente. Tem pouco mais de um século, sendo originário dos países ricos do norte, especialmente da Inglaterra, França e Estados Unidos. Com efeito, foi principalmente nestes países que as diferentes modalidades desportivas (o futebol), basquete, o atletismo, etc.) apareceram, tendo se espelhado rapidamente por todo o mundo.
O esporte contemporâneo nasceu, cresceu e tem se desenvolvido no seio da sociedade urbana e industrial es tá sujeito as adaptações particulares da vida politica, econômica e social moderna. Surge pela primeira vez na Inglaterra, no mesmo momento em que se iniciava a Revolução Industrial.
Um dos fatores que estimulavam a prática desportiva em meados do século XIX era sua ligação com a questão da saúde, segundo Foucault:
[…] corresponde a consciência que a burguesia adquiriu ao longo do século XIX da necessidade de controlar as populações para assegurar sua produtividade. O amontoamento de corpos que ocorria nas fábricas e nas cidades, a duração da jornada de trabalho, a poluição, as enfermidades e a falta de saneamento urbano e as condições de moradia foram sendo percebidos como focos de perigo para a saúde da população ou para a saúde da nação. Entretanto, a extrema preocupação com a saúde da população dissimulava outras intenções.²²
Equipe de ciclismo. Henrique, Antonio Rocha, Manoel Reis, Faustiniano Fonseca, João Lemos e Miguel Martins. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Mas, não era apenas a saúde da população trabalhadora que preocupava as autoridades e demandava ações-soluçoes. Era preciso atuar também sobre a saúde dos jovens filhos da burguesia e principalmente, devolver bons hábitos de disciplina e de liderança.
Pois como afirma Sant’Anna:
[…] Como se após seculos de civilizações, o corpo tivesse conquistado uma importância inédita tendo sido totalmente liberados das coações religiosas e moral de um passado recente, para se reconstruído ao saber da moda e dos investimentos nos campos da cosmética, da dietética, das atividades físicas e terapêuticas […]²³
Segundo a autora, dessa forma, não podemos apenas entender a prática esportiva no século XX como apenas uma atividade de disputa ou brincadeira, tão pouco podemos apenas relacioná-la como uma atividade para a aproximação de um grupo, mas a busca pelo embelezamento do próprio corpo através da estética corporal.
A crescente transformação da educação das classes ascendentes, realizada ao longo do século XIX, chamou atenção sobre a necessidade de reforma dessas instituições. O esporte surgiu como estratégia de controle do tempo livre dos adolescentes das classes dominantes, num período curto, converteu-se num elemento central no conteúdo formativo dos currículos dessas escolas. Em pouco tempo campos e quadras foram convertidos em importantes meios educativos ganhando importância sobre disciplinas, como línguas ou cultura clássica.
O esporte foi defendido como argumento na formação de caráter dos futuros dirigentes sociais.²4
No Brasil, segundo Costa:
O turfe foi o primeiro esporte (no sentido moderno) a realmente se estabelece no Brasil, sendo também o que apresentou primeiramente uma organização mais estruturada e uma forte inserção social, manifesta inclusive em sua presença na imprensa da época, na influência de grande publico aos hipódromos (desde os mais populares até a família real e depois presidencial) e no impacto que tinha nas estruturas cotidianas da cidade. O turfe foi a primeiro esporte estabelecido ate mesmo por ser mais aceito devido a seu caráter aristocrático e social.²5
O remo também foi um dos esportes de primeiro momento no Rio de Janeiro do século XIX, mas segundo Betti, somente se estabeleceu realmente a partir de uma outra forte mudança nos padrões culturais da cidade, seguida de mudanças em torno do esporte.²6 Segundo o autor o remo passou a ser aceito quando o padrão de estética e saúde mudam, passando a permitir diversão para os homens, praticamente nus para época. Teve relação com os primeiros ventos de preocupações higiênicas e de saneamento.
Nos leva ao entendimento segundo o autor que, o campo esportivo ainda demoraria a se estabelecer efetivamente, pois necessitava de condições mais adequadas na estrutura de produção, social e cultural em construção, principalmente com o surgimento e ascensão de uma classe media brasileira. Nos primeiros momento uma série de atividades foram realizadas, buscando copiar as atividades europeias, chamadas de sport. Primeiro tipo seriam as manifestações esportivas bem desenvolvidas e organizadas. Nesse grupo destacariam o turfe e posteriormente as regatas (remo).
Outra prática que começava a se estabelecer no campo esportivo foi as corridas de velocípedes marcariam os primeiros momentos do ciclismo. As chamadas corridas atléticas ou corridas a pé davam origem ao atletismo brasileiro. A natação dava passos ainda tímidos. O futebol era desconhecido na cidade, embora algumas escolas já estivessem a estimular sua prática.
Time de futebol de 1918. Jacob Levy, Alcides de Mello, Gentil de Souza Ramos, Adelino Santos, Sophocles Oliveira, Felipe de Castro, Luiz Augusto Santos, Tácio Moura (capitão geral), Leopoldo Mello (capitão do time), Deusdet (Dedé), Orlando Maia e Oswaldo Santos. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Algumas das praticas segundo o autor ainda existem como em outros países, mas não mais no Brasil, como as touradas.
No modo de entender, ainda não constituindo efetivamente um campo, o uso do termo sport, denuncia um campo em formação, de alguma forma estabelece limites de participação para a população. Para que o campo esportivo viesse a realmente se estabelecer em terras brasileiras, os organizadores teriam que promover significativas mudanças de rotas em seus planos originais. Se o campo esportivo era sinal de distinção e negócios, ele somente seria se conseguisse manter as portas abertas. Este aspecto financeiro tornou-se obstáculo no início e determinou o fim de muitos clubes.
Precisaria de público para consumir o espetáculo. Assim não houve alternativa: os clubes deveriam ser abertos ao grande público. Mais do que isso o grande publico deveria entender o mínimo do que estava sendo realizado. Isso é conhecer algo, mas só o suficiente para consumir o espetáculo. E como afirma Bourdieu:
[…] sem dúvida é pela separação estabelecida entre os profissionais, virtuosos de uma técnica esotérica e os leigos reduzidos ao papel de simples consumidores e que tendem a se tornar uma estrutura profunda de consciência coletiva que ele o esporte exerce seus defeitos mais decisivos: não é apenas no domínio do esporte que os homens comuns são reduzidos aos papéis de torcedores […] dedicados a uma participação imaginaria […]²9
Assim, um publico maior passa a ter acesso aos esportes, a linguagem e aos termos. Como os individuais não são passivos perante os processos sociais, começam a elaborar desdobramentos dessa linguagem.
Enfim, o que nos mostra o autor é que ser sócio dos clubes significava prestigio social e abriria inúmeras portas para o status.
Normalmente os atletas eram escolhidos entre as camadas populares da sociedade assim como hoje. Como o atleta ocupara lugar de algum destaque na sociedade, os organizadores defendiam que era uma forma dos meninos pobres terem acesso a condições melhores, como mostra uma publicação do Jornal Esporte: Um joquey é considerado personagem de certa importância, com os grandes ordenados que recebe, depois de 10 ou 12 anos de trabalho, retirar-se a vida privada com uma fortuna.³²
Equipe de Remo do Luso Sport Club. Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal
Segundo o autor, esses personagens somente tinham acesso aos esportes se demonstrassem algum tipo de talento esportivo, como os jóqueis negros e pobres. Desde as origens, então, o esporte brasileiros também é marcado pelo divórcio entre pratica e consumo.
Também porque os aspectos ligados a estética, os aspectos higiênicos ligados a saúde, a necessidade de distinção e a possibilidade de realizar negócios no interior do campo, não faziam parte dos parâmetros e da realidade das camadas populares. Por fim lhes faltava tempo livre necessário.
Logo, segundo Costa para as camadas populares, as praticas esportivas eram fundamentalmente uma forma de diversão em uma cidade tão carente dessas possibilidades em disseminar um determinado sentido para o esporte.
No meu entender, isso pode ser observado no que se refere ao esporte no final do século XIX. Alguns clubes naquele período vieram a falir, muito em função das restrições impostas pelos nobres da cidade. Esses clubes mais populares organizados por pequenos comerciantes e militares de baixa patente, começaram a rivalizar com os grandes clubes, devido aos preços mais baixos de entradas e apostas.³5
Podemos perceber como um determinado objeto social o esporte tem sentido diferenciado e diferentes representações entre diversos grupos no interior de uma sociedade.
No caso do esporte no século XIX, existe a representação social geral que perpassa todos os grupos: era encarado como forma de diversão. Mas, os diversos grupos adendos a esse, um caráter diferenciado. Para os organizadores, mais do que diversão, era uma forma de status, distinção e de negócios diretos e indiretos. Já para a imprensa interessava mais o negócio do que o sinal de status e distinção. Para as mulheres, estava ligado as suas possibilidades de emancipação, enquanto para os negros pouco significava, a não ser para os mais habilidosos, usados como jóqueis e gozando de um status relativo. Já as camadas populares o encaravam como forma de diversão e distração.
Se a atividade esportiva nasceu para a sociabilidade e cuidado físico da elite, aos poucos esta atividade se popularizou. E dentre elas o futebol foi e é o mais popular dos esportes. Característica tal, foi que motivou a fundação do Luso Sporting Club.
Fontes
²¹ Garcia, Rui. A Amazônia entre o desporto e a cultura. Manaus: Valer, 2002.
²² FOCAULT, M. Microfisica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1993, p. 78.
²³ SANT’ANNA, Denise Bermuzede, Corpo, História e Cidadania. In: Anais do XIX Simposio Nacional da ANPUH: História e Cidadania, Vol, São Paulo: Humanites/FFLCH – USP, ANPUH, 1998, p.172.
²4 Esse assunto poder ser melhor analisado em: BORDIEU, Mário Gonzalez. Desporto e classes sociais. Material de Sociologia do Esporte. Curitiba: Editora Vida Turfista, 1961, p.108.
²5 COSTA, Cássio. O futebol de outrora. Rio de Janeiro: Editora Vida Turfista, 1961, p. 108.
²9 BORDIEU, Mário Gonzalez. Desporto e classes sociais. Material de Sociologia do Esporte. Curitiba: Editora La Piqueta, 1993, p.124.
³² JORNAL O Esporte de 28 de março de 1895. p. 1. Acervo particular.
³5 Informações retiradas do Jornal Diário do Rio de Janeiro de 17 de setembro de 1876.
Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.
O pré-candidato à Presidência da República pelo Democracia Cristã (DC), Aldo Rebelo, afirmou que a Amazônia possui potencial para ampliar significativamente a geração de energia elétrica no Brasil por meio de hidrelétricas. A declaração foi dada durante conversa com o jornalista Welliton Lopes, no programa ‘Entrevistas‘, do canal Amazon Sat.
Ao comentar o tema, Aldo Rebelo criticou a paralisação de projetos energéticos na região e afirmou que o país impõe obstáculos ao próprio desenvolvimento enquanto outras nações seguem investindo em grandes obras de infraestrutura.
“Segundo a Eletrobras, a Amazônia pode dobrar a geração de energia elétrica do Brasil por meio das hidrelétricas. Mas está tudo paralisado, enquanto a China constrói a maior hidrelétrica do mundo em rios que nem se comparam aos rios da Amazônia”, declarou.
Durante a entrevista, Aldo Rebelo defendeu que o Brasil adote uma política que combine desenvolvimento econômico e proteção ambiental, sem impedir o aproveitamento das riquezas naturais da região.
“Tem que remover esses obstáculos e criar uma via rápida para o desenvolvimento, com controle ambiental, como o mundo inteiro faz. Nenhum país sacrificou o próprio desenvolvimento em nome do meio ambiente. O que fizeram foi combinar desenvolvimento com preservação ambiental”, afirmou.
Aldo Rebelo é um dos convidados do programa Entrevistas. Foto: Reprodução/ Amazon Sat
Geração de riqueza pode fortalecer meio ambiente, segundo Aldo Rebelo
Segundo o ex-ministro, a geração de riqueza pode fortalecer as ações de proteção ambiental e melhorar a qualidade de vida da população amazônica.
“Quando você gera recursos, consegue proteger melhor o meio ambiente, fiscalizar mais, contratar guardas e investir em saneamento básico. A riqueza gerada pelo desenvolvimento pode ajudar a preservar a Amazônia”, concluiu. Assista:
O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.
Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.
‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições:
quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30.
Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT -4).
Especializada em registrar nascimentos, fotógrafa Anne Lucy viu sua foto estampada durante exposição internacional realizada no país francês. Fotos: Divulgação e Reprodução/Instagram-Annelucyfotografia
Uma fotografia feita pela amazonense Anne Lucy durante um parto ganhou espaço em uma exposição internacional realizada em Paris, na França. A imagem integrou a mostra “LOVE”, que reuniu artistas de diferentes países entre os dias 26 e 28 de maio para refletir sobre amor, intimidade e relações humanas.
Natural de Maraã, no interior do Amazonas, e radicada em Manaus, Anne foi a única brasileira convidada para participar da exposição. A obra apresentada retrata um momento real de nascimento e busca mostrar sentimentos como amor, força, vulnerabilidade e transformação. A fotógrafa construiu a carreira registrando partos e momentos marcantes na vida de famílias. Para ela, o nascimento representa uma das experiências humanas mais profundas e verdadeiras.
“Acredito que o meu trabalho dialoga com essa proposta porque fotografo o amor em seu estado mais cru, visceral e verdadeiro. O nascimento talvez seja um dos últimos lugares onde ainda não conseguimos performar completamente. Ali não existe personagem, filtro ou controle. Existe entrega total”, afirmou.
A imagem exposta em Paris mostra mais do que a chegada de um bebê ao mundo. Segundo a fotógrafa, o registro também fala sobre mudanças e recomeços vividos pelas mulheres durante a maternidade.
Foto integrou mostra internacional de fotografia em Paris. Foto: Divulgação
“O que mais me emociona nessa fotografia é que ela não mostra apenas um parto. Ela mostra transformação. Existe uma mulher deixando de ser quem era para nascer junto com o próprio filho”, disse.
Anne Lucy destaca que suas raízes amazônicas influenciam a forma como enxerga e registra essas histórias. “Existe algo muito presente no olhar amazônico: uma relação intensa com o humano, com o sensível e com aquilo que pulsa. Crescer no Amazonas me ensinou a observar textura, silêncio, calor, profundidade e presença”, afirmou.
A participação na mostra internacional representa mais um passo na trajetória da fotógrafa, que já recebeu reconhecimento fora do país por seus registros de nascimento. Agora, ela pretende ampliar sua produção artística e levar esse olhar para novos projetos. A fotógrafa também revelou o desejo de realizar uma exposição no Brasil inspirada nas histórias e emoções que acompanha por trás das lentes.
*Material publicado originalmente pelo G1 Amazonas.
Pelo terceiro ano seguido, Uiramutã ocupa a última colocação do ranking do IPS que avalia a qualidade de vida. Foto: Ronny Alcântara/Rede Amazônica RR
“Deixe nada além de pegadas, tire nada além de fotos, leve nada além de saudades”, diz a placa na entrada de Uiramutã, em Roraima, sobre as riquezas naturais do município. É o mesmo lugar que, segundo o Índice de Progresso Social (IPS), do instituto Imazon, tem a pior qualidade de vida do país.
O IPS mede a qualidade de vida nos municípios com base em 57 indicadores sociais e ambientais reunidos em três áreas: Necessidades Básicas, Bem-Estar e Oportunidades. A nota vai de 0 a 100 e mostra como a população vive, e não somente o quanto a cidade produz ou recebe em investimentos. O Uiramutã tirou 42,44 e ficou no último lugar do país pelo terceiro ano seguido.
O título incomoda os habitantes da cidade, sendo 96,6% autodeclarados como indígenas, que destacam o patrimônio cultural e ambiental do território marcado por um abandono estrutural histórico. O Grupo Rede Amazônica foi até a sede do município entender a realidade e o que significa qualidade de vida em Uiramutã.
Uiramutã, um local isolado
O desafio de viver no Uiramutã começa no trajeto. O município fica na tríplice fronteira do Brasil com a Guiana e a Venezuela, distante mais de 300 km de Boa Vista. Até a sede, a viagem dura mais de seis horas – cinco delas por estradas de terra precárias. Caminhonetes e veículos altos são recomendados para o percurso.
O acesso ao Uiramutã parte da BR-174, único trecho asfaltado, e segue pela BR-433. No período de chuvas em Roraima, a estrada de terra fica tomada por lama, buracos e atoleiros. O trajeto piora na RR-171, rodovia estadual que corta a região de serras, onde fica a sede do município. Esse isolamento cobra um preço alto de quem vive na sede do município.
Acesso ao Uiramutã passa por duas estradas precárias de terra, a BR-433 e a RR-171, que pioram com as chuvas. Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR
No dia da visita, em 22 de maio, o litro da gasolina custava R$ 9,40 e o do diesel, R$ 9,50. É o combustível mais caro do estado. O comerciante Eduardo Lima, de 24 anos, avalia que a estrada é o grande gargalo da economia local.
“A estrada nunca mudou. Já aconteceu de ficarmos sem mercadoria por conta de alguma ponte que caiu ou quebrou alguma coisa. Os representantes públicos podem fazer alguma coisa, mas não fazem”, diz Eduardo.
A vulnerabilidade descrita por ele reflete a atual crise do município. No último dia 28 de maio, a prefeitura de Uiramutã decretou estado de emergência após o transbordamento de rios e igarapés deixar mais de 8,7 mil pessoas (cerca de 56% da população local) isoladas e sem qualquer acesso terrestre.
Agora, pelo menos 16 comunidades indígenas do município enfrentam escassez de água potável, perdas agrícolas e paralisação de serviços essenciais. O temporal afetou 10 dos 15 municípios de Roraima e mobilizou uma força-tarefa do governo estadual.
“Melhor lugar de se viver”
Embora o IPS tenha avaliado serviços essenciais, como saúde, saneamento e segurança, a régua de qualidade de vida parece não fazer sentido para quem vive a tranquilidade do Uiramutã, apesar das dificuldades.
Nas ruas da vila, o sentimento de pertencimento é forte. Morando há três anos na cidade, Valdinar dos Santos, 62, reforça que as falhas apontadas pelo estudo não anulam o apego de quem escolheu a região como casa.
“Não tem como dizer que o Uiramutã é o pior lugar de se viver. Na minha opinião, é o melhor”, contesta.
Valdinar dos Santos, de 62 anos, mora em Uiramutã há quase três décadas. Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR
A sensação de tranquilidade descrita pelos moradores da sede do município, no entanto, esconde uma vulnerabilidade que reflete nos indicadores. O município lidera os registros de violência sexual contra crianças e adolescentes indígenas na Amazônia Legal.
Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta uma taxa de 443,5 casos por 100 mil habitantes, número muito acima da média regional, de 141,3. O levantamento foi divulgado em 2025, com dados coletados entre 2021 e 2023.
O Conselho Tutelar aponta que a violência no município ocorre, em grande parte, no ambiente intrafamiliar e em comunidades de difícil acesso. As estradas precárias atrasam o resgate das vítimas e o trabalho de acompanhamento feito pelos únicos cinco conselheiros da cidade e órgãos especializados.
Falta de água e torneiras secas
Moradores de alguns bairros da sede do Uiramutã (RR) sofrem diariamente com má distribuição de água na vila. Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR
Ao caminhar pela sede do município, é possível ver obras em andamento, novas calçadas, casas e comércios em construção. A sede possui sinal de telefonia e internet móvel. No entanto, o crescimento esbarra, por exemplo, na falta de saneamento básico e água tratada.
A vila possui oito bairros, com casas de alvenaria e de barro, além de ruas com e sem asfalto. No bairro Baixada, um dos mais novos, a falta de energia elétrica e a escassez de água viraram rotina. Moradores relatam passar até cinco dias sem uma gota nas torneiras e improvisam caixas d’água no chão.
O vendedor Wilisson Cubilian, de 34 anos, que vive na Baixada com a esposa e dois filhos, estava sem água havia três dias durante a visita. Ele contou que a população aguarda há oito anos pela perfuração de um novo poço artesiano.
“A gente não tem mais nada a fazer, só esperar a solução deles e do governo. A gente está na serra e tem água nos arredores todinhos, mas aqui é difícil. A gente não paga água, mas precisa”, pontua o pai de família.
O professor Robson Nascimento, de 46 anos, precisou pagar R$ 50 a caminhões particulares, que extraem água de poços artesianos e vendem em galões de mil litros, para encher um reservatório improvisado em casa.
“A gente liga para o responsável da Caer, e ele fala que a gente não paga água, então é por isso que sofre com isso. Eu, pelo menos, ainda posso comprar uma caixa d’água. Mas imagina as famílias mais humildes?”, questiona.
O vereador Rômulo Lima (PDT), que também mora na região da Baixada, afirma que as demandas foram repassadas ao governo do estado e à prefeitura. “É bastante complicada a situação. Principalmente no período de verão a gente tem muita dificuldade com a água nas comunidades indígenas, e mesmo no período de chuva falta água. Principalmente tratada”, explica.
O acesso à água foi avaliado no IPS, no quesito de Necessidades Humanas Básicas, que mede se a cidade atende às necessidades essenciais de sobrevivência da população. O Uiramutã ficou com a menor nota do país no quesito. Responsável pelo fornecimento de água, a Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer) informou que ampliou o sistema de abastecimento do município nos últimos anos com a construção de cinco poços artesianos, um reservatório e quatro mil metros de rede de distribuição.
Para atender aos bairros Baixada e São Francisco, a companhia concluiu a licitação para perfurar mais dois poços e prevê a construção de um novo reservatório de 50 mil litros.
Serviços públicos sobrecarregados
Sede do Conselho Tutelar do Uiramutã (RR), que opera com apenas cinco conselheiros tutelares. Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR
O tamanho do território e o isolamento logístico sufocam os servidores, que se desdobram para atender as centenas de comunidades isoladas e para entregar serviços essenciais como saúde e proteção social.
Em uma das unidades básicas de saúde, a José Júlio, a farmácia estava abastecida e visitas domiciliares eram realizadas por equipes multiprofissionais, segundo a diretora Luana de Carvalho. Contudo, atendimentos mais complexos exigem viagens exaustivas até Boa Vista. “O desafio mesmo é enfrentar a estrada”, resume a diretora.
Na área de assistência social e proteção às crianças, o cenário revela ainda mais sobrecarga. O município conta com cinco conselheiros tutelares para cobrir todo o território. Um deles é Fábio de Souza. Ele conta que as dificuldades logísticas para alcançar comunidades isoladas atrasam resgates e acompanhamentos.
“Às vezes, na comunidade indígena, não é só uma criança dentro do grupo familiar, às vezes são várias. Tanto ela como essas outras crianças têm que ser acompanhadas”, lamenta.
A rede de apoio a vítimas praticamente não existe. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) funciona com apenas uma assistente social e não conta com psicólogo, assim como o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).
A assistente social do Cras, Karlleide Pinho, de 38 anos, conta que a falta de profissionais afeta campanhas preventivas. “As maiores dificuldades que temos são por conta da parte geográfica, e também em relação a profissionais virem para cá”, relata.
Segundo ela, dois psicólogos e dois assistentes sociais aprovados em um processo seletivo realizado no ano passado desistiram de atuar no município.
O que diz a prefeitura
Serviço público tem dificuldade em acessar todas as 200 comunidades indígenas do Uiramutã (RR). Foto: João Gabriel Leitão/Rede Amazônica RR
Uiramutã não é um município com características comuns. Grande parte dos 13.751 habitantes vive nas 222 comunidades espalhadas pelo território, de mais de 8 mil km², inserido na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
A prefeitura, no entanto, pondera que medir o progresso social de comunidades indígenas com os mesmos critérios de áreas urbanizadas pode gerar distorções. A chefe de gabinete do prefeito Tuxaua Benísio (Rede), Eliane Cavalcante, de 40 anos, reconhece os problemas de saneamento e infraestrutura, mas defende que o modo de vida tradicional das comunidades indígenas tem formas próprias de compreender bem-estar e qualidade de vida.
“Se a gente for a uma comunidade indígena, não necessariamente não ter sinal de internet ou não ter água encanada significa que seja um lugar ruim de se viver. É um modo cultural. Não é só porque não tem sinal de internet nas comunidades [que a qualidade de vida é ruim], as pessoas foram criadas assim. É um município longe, com suas diversidades, suas especificidades. Mas não é um lugar ruim de se viver. Discordo dessa ideia totalmente”, defende Eliane.
Segundo a chefe de gabinete, no dia da visita, o prefeito estava ausente. Ela informou que a prefeitura busca parcerias para melhorar o cenário do município, mas a gestão lida com a falta de recursos e barreiras ambientais.
A prefeitura de Uiramutã também defende que a oferta de serviços às comunidades indígenas também depende das decisões tomadas pelos próprios povos em cada localidade. Segundo o município, a implementação de serviços passa por assembleias comunitárias em que os moradores decidem coletivamente quais estruturas e atendimentos desejam receber.
Além disso, a logística da região dificulta a oferta dos serviços. Eliane afirmou que o abastecimento de água é responsabilidade do governo estadual, por meio da Caer, enquanto o município atua na abertura de poços artesianos e busca recursos. Sobre as estradas, destacou que obras em áreas indígenas dependem de aprovações ambientais e das comunidades. “Há uma burocracia muito grande”, resume.
A responsabilidade pelas rodovias federais, como a BR-433, é do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), enquanto as estaduais, são de responsabilidade da Secretaria de Infraestrutura (Seinf). Em nota, o Dnit informou que realiza obras de melhoria na pista da BR-433 para facilitar o tráfego, mas ressaltou que não há contrato vigente para asfaltamento do trecho.
Já a Seinf comunicou que a manutenção da RR-171 começa após o período chuvoso e que abriu processo para estudo de viabilidade de pavimentação da rodovia.
Cultura não pode justificar abandono, alerta antropóloga
A antropóloga Lêda Leitão Martins pondera que indicadores nacionais de qualidade de vida podem, em algum aspecto, não refletir completamente o que significa “viver bem” para povos indígenas, já que comunidades tradicionais possuem outras formas de compreender bem-estar, desenvolvimento e qualidade de vida.
“Acho que agentes públicos, políticos usam um discurso cultural pra mascarar violências por parte do Estado brasileiro, ou de agentes do Estado ou de parte de políticas públicas que não são implementadas ou são implementadas de uma forma que traz mais prejuízos do que benefícios”, diz.
Ela alerta ainda que diferenças culturais não podem ser usadas para justificar ausência de políticas públicas e abandono estrutural dos responsáveis, como é o caso de Uiramutã. “Autonomia e respeito pela questão cultural não significam dizer: ‘Os indígenas têm direito à sua cultura, então têm que ficar como sempre viveram e nada pode ser mudado’. Os povos indígenas têm uma capacidade enorme de absorver novas tecnologias, de criar uma inteligência e uma sensibilidade para lidar com conhecimentos novos sem perder quem são.”
O pré-candidato à Presidência da República pelo Democracia Cristã (DC), Aldo Rebelo, afirmou durante conversa com o jornalista Welliton Lopes, no programa ‘Entrevistas‘, do canal Amazon Sat, que o avanço do crime organizado na Amazônia precisa ser enfrentado com ações integradas entre forças de segurança e investimentos em desenvolvimento econômico na região.
Ao comentar o tema, Rebelo relembrou o período em que esteve à frente do Ministério da Defesa e destacou operações realizadas nas áreas de fronteira com apoio das Forças Armadas e órgãos de segurança pública. Segundo ele, a criminalidade chegava a ser reduzida durante as ações, mas voltava a crescer após o encerramento das operações.
“Eu fui ministro da Defesa e nós tínhamos uma operação na Amazônia, na fronteira, que reunia Marinha, Exército, Aeronáutica, polícias militares, polícias civis, Receita Federal e Polícia Federal. A criminalidade era reduzida a zero. Claro que, quando a operação cessava, a criminalidade voltava”, afirmou.
Durante a entrevista, Aldo Rebelo também relatou experiências pessoais em viagens pelos rios amazônicos e afirmou que áreas antes consideradas tranquilas passaram a ser dominadas pelo crime organizado.
“Conheço bem a Amazônia. Conheço de navegar pelo rio Juruá, pelo rio Solimões, pelo rio Negro, pelo Tapajós e pelo Xingu. Há vinte ou trinta anos, esses locais eram tranquilos. Hoje, muitos desses rios estão dominados pelo crime organizado”, declarou.
O ex-ministro ainda citou relatos de agentes das Forças Armadas e autoridades policiais sobre a presença de armamento pesado nas rotas fluviais da região: “Recebi o relato de um oficial do Exército que subia o rio para entregar vacinas e remédios aos ribeirinhos quando se deparou com uma lancha do crime organizado equipada com uma metralhadora ‘.50’ na proa”.
Aldo Rebelo é um dos convidados do programa Entrevistas. Foto: Reprodução/ Amazon Sat
Combate à criminalidade exige ações conjuntas, segundo Aldo Rebelo
Segundo Aldo Rebelo, o enfrentamento à criminalidade exige estrutura, logística e atuação coordenada do Estado brasileiro.
“Se você não tiver um Estado agindo de forma articulada, com a logística das Forças Armadas, equipando as polícias com armas, lanchas e helicópteros, como vai enfrentar o crime organizado?”, questionou.
Ao final, Rebelo defendeu que o combate ao crime também deve vir acompanhado de oportunidades para a população jovem da Amazônia.
“Uma parte da juventude entra para o crime organizado porque não tem perspectiva econômica. Muitas vezes, não pode plantar, produzir ou trabalhar. O crime oferece essa alternativa. É preciso combinar repressão ao crime com uma política de desenvolvimento que ofereça oportunidades para os jovens, principalmente nas áreas de fronteira”, concluiu. Assista:
O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.
Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.
‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições:
quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30.
Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT -4).
Depois de atingir a cota de inundação, que é de 29 metros, nível do Rio Negro chegou a 27,80 metros nesta sexta, 29 de maio. Foto: Reprodução/Arquivo/Rede Amazônica AM
A cheia dos rios no Amazonas já dá sinais de enfraquecimento e os níveis monitorados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) devem permanecer abaixo da cota de inundação severa em 2026. A projeção foi apresentada no dia 29 de maio, durante o 3º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas.
O monitoramento considera os rios:
em Manaus, no rio Negro;
Manacapuru, no rio Solimões;
e Itacoatiara e Parintins, no rio Amazonas.
Segundo o órgão, os dados atuais já apontam início gradual da vazante em parte da bacia amazônica.
Em Manaus, a previsão é que o rio Negro alcance 28,20 metros, abaixo da cota de inundação severa, que é de 29 metros. Nesta sexta-feira, o nível do rio estava em 27,80 metros. Já em Manacapuru, a estimativa é que o rio Solimões alcance 18,98 metros. A cota de inundação severa no município é de 19,60 metros. Atualmente, o nível está em 18,57 metros.
No município de Itacoatiara, o rio Amazonas marcou 13,52 metros nesta sexta-feira e deve chegar a 13,63 metros nos próximos dias. Em Parintins, a previsão é de 8,17 metros, abaixo da cota de inundação severa, que é de 9,30 metros.
O 3º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas de 2026 foi apresentado nesta sexta-feira (29) em Manaus. — Foto: Jadson Lima/g1 Amazonas
Início da vazante dos rios
De acordo com o gerente de Hidrologia do SGB, André Martinelli, os dados mostram que o processo de enchente está próximo do fim em parte da bacia amazônica, especialmente nos rios já citados.
“Já há indícios de término do processo de enchente e início do processo de vazante. Em Tabatinga o rio está parado há quatro dias, com cota de 11,73 metros. Parintins também, que já é no outro extremo, na parte baixa da bacia, também está parado há três dias na cota de 8,09 metros, e Itacoatiara também já está oscilando. Então, isso é um demonstrativo de que o processo de enchente está findando”, disse.
O órgão também apresentou projeções para o período de vazante e seca na região, levando em consideração as condições climáticas atuais. O Alerta de Cheias do Amazonas foi divulgado em três etapas ao longo do ano, com previsões dos níveis dos rios feitas cerca de 75, 45 e 15 dias antes do pico da cheia, que normalmente ocorre em junho.
O pré-candidato à Presidência da República pelo Democracia Cristã (DC), Aldo Rebelo, afirmou em conversa com o jornalista Welliton Lopes, no programa ‘Entrevistas‘, do canal Amazon Sat, que a exploração de petróleo no Amapá poderia representar uma transformação econômica para a Amazônia e criticou o que considera entraves ao desenvolvimento da região.
Ao comentar o tema, Aldo Rebelo comparou o potencial petrolífero do Amapá ao da Guiana, país vizinho que ampliou sua economia após o crescimento da exploração de petróleo nos últimos anos.
“A Guiana hoje é chamada de novo petroestado do mundo. Eles extraem cerca de 920 mil barris de petróleo por dia. Com o barril a 100 dólares, isso representa uma receita de aproximadamente 92 milhões de dólares por dia e mais de 30 bilhões de dólares por ano”, afirmou.
Segundo o político, além da arrecadação, a atividade petrolífera também atrai investimentos industriais e fortalece a economia local. “A Guiana atrai investimentos por causa do petróleo barato. Tem brasileiros indo para lá fabricar ureia e fertilizantes”, disse.
Aldo Rebelo é um dos convidados do programa Entrevistas. Foto: Reprodução/ Amazon Sat
Aldo afirma que Amapá tem potencial
Durante a entrevista, o ex-ministro afirmou que o Amapá possui potencial ainda maior de exploração e defendeu que a atividade poderia gerar empregos, infraestrutura e recursos para investimentos públicos na Amazônia.
“O Amapá, segundo as projeções, tem muito mais petróleo do que a Guiana. Poderia estar extraindo hoje um milhão de barris por dia. Isso representaria uma receita anual bilionária, capaz de financiar saneamento básico, formar engenheiros e técnicos e desenvolver toda a cadeia produtiva do petróleo na Amazônia”, declarou.
Aldo Rebelo também criticou a paralisação de projetos de exploração na região e afirmou que parte da população amazônica vive sem alternativas econômicas. Assista:
O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.
Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.
‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições:
quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT -4).