Mais de 2 mil km de bicicleta: cinquentenário da viagem em duas rodas pela BR-319

Algumas fotos icônicas da viagem se tornaram o símbolo da aventura na BR-319, como a foto da parada na divisa dos territórios do Amazonas e de Rondônia.

José Américo na divisa do Estado do Amazonas com o Território Federal de Rondônia. Foto: José Américo/Acervo pessoal

Por Dudu Monteiro de Paula

Há 50 anos, dois manauaras decidiram desafiar a selva e também o senso comum: José Américo e Rubens Carneiro. A dupla pegou bicicletas simples e mochilas leves com o objetivo de chegar à Porto Velho (RO) em uma viagem pela BR‑319. No total, 885 quilômetros de viagem.

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Acompanhe as informações históricas de José Américo Reis Vieira no texto de Maristela Dorigo, cedido para divulgação:

Cinquentenário Manaus – Porto Velho – Manaus: de bicicleta na BR-319

No último mês de fevereiro, completou 50 anos da aventura pela Amazônia. Às vésperas da inauguração da BR 319, em 1976, dois desbravadores manauaras, José Américo Reis Vieira e Rubens Carneiro, se lançaram numa aventura para percorrer de bicicleta os 885 km que separam Manaus de Porto Velho. Atravessaram a Amazônia pela BR 319, fazendo ida e volta em 8 dias, num total de aproximadamente 2000 km, pois além do citado percurso Manaus – Porto Velho – Manaus, ainda desviaram uns 200 km indo para Lábrea.

A ideia de fazer esta viagem de bike surgiu a princípio em fazer uma experiência para sentir o quanto poderiam pedalar sem apoio e sem carregar alforges. A intenção era uma pedalada de Manaus à São Paulo até a fábrica da Monark que calcularam poder fazer em menos de um mês.

Saíram de Manaus no dia 3 de fevereiro, levando uma pequena mochila com alguns provimentos, tipo rapadura e carne desidratada (importada), ovos cozidos, algumas frutas, rede de nylon que cabia num copo, uma faca, uma garrafa de água que abasteciam no rio, pílulas contra a malária, máquina fotográfica Olympus tríplice 35, lanterna fixada no guidão e muita loucura.

Muitos fatos ocorreram durante a viagem. Certo dia cruzaram com a Polícia Rodoviária Federal (detalhe na foto — carro Brasília do ano e calças pantalonas), que os interpelou para saber o que estavam fazendo naquela estrada. Ao tomarem conhecimento de que vinham de Manaus em direção à Porto Velho, os chamaram de loucos, dizendo que se os índios os pegassem, iriam matá-los e das bicicletas fazer ponta de flecha. Sabiam que estavam com fome e lhes deram “bolacha de motor” e guaraná e assim seguiram viagem.

Numa madrugada em que dormiam com a cabeça recostada na mochila feito travesseiro, num recuo próximo à estrada, por ser mais quente devido ao calor acumulado pelo asfalto durante o dia, ouviram esturros de onças. Era por volta de três horas e num salto apanharam suas coisas e saíram pedalando desabalados. Após uma hora de pedalada ainda ouviam as onças, o que os levou a pensar que estavam os seguindo ou estavam indo justamente ao encontro destas.

José Américo atravessando uma ponte sobre igarapé. Foto: José Américo/Acervo pessoal

Foi assustador ouvir os esturros de onças ecoando pela selva.

Não menos assustador era passar sobre cobras à noite. Eram muitas que vinham para o asfalto. Durante o dia era fácil desviá-las, mas na calada da noite sentiam apenas o solavanco ou quando estas se enroscavam na bicicleta, tinham de ser rápidos em levantar as pernas e pular da bike. Restava a tarefa de, munidos de lanterna, retirar a peçonhenta. O medo era encontrar uma sucuri ou um jacaré “passeando” pelo asfalto. Era comum vê-los durante o dia, parados feito pedras na estrada.

Os perigos eram muitos. Causava muita tensão o fato de os alertarem sobre a existência de uma tribo nômade. Graças a Deus não tiveram a infelicidade de encontrá-los.

José Américo durante a pedalada. Foto: José Américo/Acervo pessoal

Também é curioso o fato de certo dia em que dormiam num paiol cedido por administradores de uma fazenda (produtora de arroz), Américo alertou o amigo para deixarem as bicicletas de ponta cabeça, com o selim e guidão no chão, e assim evitarem que ratos roessem os pneus. Foi a decisão certeira. Ao acordarem pela manhã, constataram que os punhos estavam roídos. Se fossem os pneus, teriam arranjado uma grande encrenca.

Certa noite, na parada para espera da balsa que fazia a travessia do rio, pediram a um caminhoneiro se poderiam dormir debaixo do caminhão e assim que amanhecesse, os acordasse antes de entrar na balsa. Ainda bem que o motorista não esqueceu de acordá-los.

Algumas travessias de rios foram feitas de canoas para não perderem tempo à espera das balsas.

Travessia de canoa. Aí vai a bicicleta bem amarrada. Foto: José Américo/Acervo pessoal

Outro fato que não caiu no esquecimento foi o dia em que pediram pouso na casa de um colono e os administradores ofereceram um guisado de carne. Comeram que se lamberam até saberem no dia seguinte que haviam degustado carne de macaco — viram até o couro do animal pendurado ao sol. O estômago se revirou de imediato.

Procuravam pedalar longos trechos à noite, pois durante o dia o calor era intenso e por diversas vezes aproveitavam para banharem-se nos igarapés e, na ocasião, molhavam uma camiseta extra para então enrolarem na cabeça, que além de proteger do sol ainda podiam pedalar mais um longo trecho com cabeça e corpo refrescados.

José Américo num banho de igarapé para refrescar. A tubulação passava sob a rodovia. Foto: José Américo/Acervo pessoal

As histórias são muitas e a cada episódio relatado, um novo vem à tona como um fio de meada.

Há algumas fotos icônicas da viagem que acabaram por se tornarem o símbolo da mesma. A foto da parada na divisa dos territórios, na placa em madeira onde se lia: BR 319 DIVISA — EST. AMAZONAS — T. F. RONDÔNIA (naquela época ainda era Território Federal).

José Américo na divisa do Estado do Amazonas com o Território Federal de Rondônia. Foto: José Américo/Acervo pessoal

A outra foto é um registro onde Américo aparece com sua bicicleta, segurando um mutum que foi abatido por um caboclo da região. Na oportunidade foram convidados a degustarem a ave então cozida com mandioca e urucum.

Durante o trajeto, desviaram por vários quilômetros em direção à Lábrea, mas não foram até a cidade, retornando para a BR 319 e ao anoitecer chegaram em Humaitá, onde pernoitaram. Por volta das seis horas da manhã partiram em direção à Porto Velho. Atravessaram o Rio Madeira de balsa e logo chegaram ao destino no centro da cidade. Foram recepcionados pela imprensa — Jornal Alto Madeira, por vários moradores e curiosos, além do Governador de Rondônia, que ofereceu estadia no Hotel Floresta e alimentação. Após dois dias de descanso, retornaram a Manaus.

No trecho em direção à Lábrea. Foto: José Américo/Acervo pessoal

A chegada na capital amazonense foi na Rua Carvalho Leal, defronte ao DER na Cachoeirinha, ao lado do antigo Cine Ipiranga, em frente ao Sanatório Adriano Jorge, especializado em tratamento de tuberculose.

Foram muitas as dificuldades encontradas, mas prevaleceu a vitória da conquista.

Os casos de malária eram tantos à época que surgiu a piada de que até os macacos contraíam a doença e, se oferecessem uma banana ou uma pílula contra malária para os primatas, estes escolheriam na certa a pílula.

José Américo na balsa da travessia do Rio Madeira. Chegando em Porto Velho. Foto: José Américo/Acervo pessoal

Ainda neste ano de 2026, em comemoração aos 50 anos da aventura, José Américo pretende voltar ao Amazonas para realizar parte desta façanha, fazendo um trecho de ida.

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Sobre o autor

Eduardo Monteiro de Paula é jornalista formado na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com pós-graduação na Universidade do Tennesse (USA)/Universidade Anchieta (SP) e Instituto Wanderley Luxemburgo (SP). É diretor da Associação Mundial de Jornalistas Esportivos (AIPS). Recebeu prêmio regional de jornalismo radiofônico pela Academia Amazonense de Artes, Ciências e Letras e Honra ao Mérito por participação em publicação internacional. Foi um dos condutores da Tocha Olímpica na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

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