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Turismo e crise climática: os caminhos sustentáveis para a Amazônia

Foto: Ricardo Stuckert/PR

É início de dezembro em Manaus, e o calor é escaldante. O Amazonas enfrenta a pior seca da história, com níveis de água baixíssimos, como nunca se viu antes. No percurso de lancha até o encontro dos rios Negro e Solimões, o guia indica no horizonte partes de terra do continente e das ilhas que já deveriam estar cobertas por água.

Toda a região sente os efeitos sociais e econômicos da estiagem. Um dos setores mais afetados é o turismo, fonte de renda para boa parte da população. O calor e a seca afastam os visitantes, porque muitas atividades estão prejudicadas.

“Os ribeirinhos sofrem, principalmente aqueles que recebem gente de fora de Manaus. O pessoal que oferece a pesca do pirarucu, aqueles que trabalham com restaurante. Diminuem, por exemplo, as atividades de focagem de jacaré, que a gente costuma fazer durante a noite. E na seca fica muito difícil de ver jacaré. E também atrapalha muito a vida da gente que trabalha transportando os turistas pelo rio, porque nem todos os lugares estão navegáveis”, explica o guia turístico e capitão de lancha Rodrigo Amorim.

O cansaço é visível no rosto de Daniel Hanrori, indígena do povo Tukano, que lidera uma aldeia com 38 pessoas de diferentes etnias na região do Lago Janauari. No período de seca, parte do grupo se desloca para um acampamento perto do rio, que fica a duas horas de distância da aldeia. São entre quatro e cinco meses vivendo de um jeito improvisado, para conseguir receber os poucos turistas que ainda aparecem e alguma renda para sustentar as famílias.

“Aqui, quando tem temporal e ventania, é muito perigoso. É muito violento o vento aqui, então a gente corre muito risco. Mas a gente precisa da renda e não pode parar”, diz Daniel Hanrori.

Ele conversa com a reportagem sentado em uma pedra, mais ofegante e com muitas gotas de suor escorrendo pelo rosto. Foram 20 minutos de apresentação para um grupo de 15 turistas, com explicações sobre a cultura e danças tradicionais. Além do calor, o cansaço é agravado pela preocupação para manter a aldeia em condições básicas de moradia e alimentação.

“O número de visitantes está muito baixo, infelizmente. Quando o rio está cheio, a gente recebe aqui de 50 a 60 lanchas por dia. De 8h da manhã até 6h da tarde. Durante esse período da seca, a gente recebe só duas lanchas. E a gente depende muito do turismo e das vendas de artesanato”, complementa Daniel Hanrori. “Afeta também muito a pesca, que fica mais difícil, mais escassa. Em alguns lugares, morreu muito peixe. E tudo isso faz falta. A gente aqui vive 50% do turismo e 50% da pesca.”

O guia turístico Rodrigo Amorim diz que os ribeirinhos sentem os efeitos da estiagem. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Turismo e crise climática

O turismo na Amazônia gira em torno dos rios. A perda de volume, principal meio de transporte, impacta diretamente as principais atividades. Os extremos climáticos de 2024 mudaram até o mais icônico passeio ao redor de Manaus, o encontro das águas. A visualização da mistura da água barrenta do Solimões com a água escura do Negro ficou prejudicada.

Em setembro, a Praia de Ponta Negra, principal balneário de Manaus, foi interditada para banhistas, depois que o Rio Negro ficou baixo da cota mínima de segurança de 16 metros. O Museu do Seringal, que fica no Igarapé São João, foi fechado temporariamente, porque o acesso é exclusivamente pelo rio.

Em Alter do Chão, no Pará, cuja alta temporada costuma começar em agosto, o nível baixo do Rio Tapajós prejudicou o deslocamento das embarcações que transportam turistas para ilhas, restaurantes e estabelecimentos comerciais. O Sairé, um festival cultural realizado em setembro, teve de ser suspenso por falta de demanda.

A professora Isabel Grimm, doutora em meio ambiente e desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), destaca que, quando se fala de crise climática e turismo, no entanto, há de se pensar também sobre a responsabilidade que o próprio setor possui nos impactos ao meio ambiente.

“O turismo impacta com as emissões de gases do efeito estufa, principalmente por causa dos transportes. E o transporte aéreo é um dos que mais têm emitido gases. Mas há também o uso excessivo de água e de energia elétrica nos locais turísticos, que produzem impactos muito relevantes. Precisamos pensar em alternativas para o que chamamos de turismo de massas, com menores impactos aos ecossistemas”, diz Isabel.

A especialista reforça que toda a cadeia turística deve se envolver na mitigação dos custos ambientais: os povos locais, as empresas, os governos e os próprios turistas. Um dos pontos fundamentais, nesse sentido, é repensar a própria concentração de pessoas em destinos mais badalados e midiáticos, e valorizar outras experiências possíveis dentro do país. Para continuar existindo nesses novos tempos, vai ser fundamental fazer adaptações e buscar caminhos sustentáveis.

“O Brasil é muito extenso em termos de território e de heterogeneidade de paisagens. Tem muita diversidade cultural e natural. Nossa biodiversidade é muito rica. O nosso turista está buscando novas experiências, valorizar o tempo das férias dele e o investimento que faz. O destino turístico que ele vai visitar está muito ligado aos processos de divulgação. É preciso repensar nos incentivos e fomentos para novos atrativos. Nesse sentido, políticas públicas são importantes. Precisamos dar condições para que as comunidades locais participem das atividades turísticas, se assim elas desejarem. Tudo isso dentro de uma lógica que respeite a capacidade local para receber visitantes, para gerar o menor impacto ambiental possível”, diz Isabel Grimm.

Turismo de base comunitária

A 600 quilômetros (km) a oeste de Manaus, na região do curso médio do Rio Solimões, um programa de turismo de base comunitária tem contribuído para o desenvolvimento local desde 1998. Ele é promovido pelo Instituto Mamirauá, que leva o nome da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, e tem sede na cidade de Tefé. O principal resultado desse trabalho é a Pousada Uacari, que recebe visitantes para uma experiência imersiva na Amazônia.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

Entre as metas principais do programa estão contribuir para a conservação dos recursos naturais, promover empoderamento local e o desenvolvimento econômico e social das comunidades envolvidas. Mestre em gestão de áreas protegidas na Amazônia, Pedro Nassar coordena o programa no Instituto Mamirauá e contabiliza pelo menos 11 comunidades beneficiadas diretamente ao longo destes 27 anos.

“O turismo comunitário precisa ser diferente do turismo de massa. Não visa à exploração de atrações com grande quantidade de pessoas, em que elas chegam e saem do lugar como se nada tivesse acontecido. No turismo de base comunitária, os locais têm uma participação efetiva na gestão no planejamento e nas discussões. Não são trabalhadores que vão lá, cumprem a função, ganham dinheiro e vão embora para casa. Os benefícios do turismo precisam ser compartilhados com a comunidade, e precisam ser econômicos, sociais, culturais e ambientais”, explica Pedro Nassar.

O programa do Instituto Mamirauá inclui atividades de pesquisa e monitoramento de tecnologias de saneamento, impactos ambientais, estudos de viabilidade e planejamento turístico, monitoramento ambiental e socioeconômico. E tem como eixo central trabalhar a autonomia das comunidades na gestão do turismo, com geração de emprego e renda, e conservação dos recursos naturais.

Os moradores envolvidos no programa são afiliados a uma associação local e trabalham em sistema de rodízio, aproximadamente 12 dias por mês. Cada hóspede da Pousada Uacari contribui com a Taxa de Apoio Socioambiental, destinada ao financiamento de projetos e recursos comunitários, como compra de barcos, construção de centros comunitários e rádio de comunicação.

Outra preocupação do instituto é formar multiplicadores, que possam participar de atividades a fim de disseminar conhecimentos para o desenvolvimento do turismo comunitário em outras regiões do país.

“A ideia é passar nossa experiência no turismo para essas pessoas, além de trocar ideias e conhecer outras iniciativas. Mas é tudo muito prático, tiramos dúvidas, ajudamos os que estão começando a fazer turismo. Queremos que possam adquirir algum conhecimento e consigam aplicar dentro da realidade deles. Porque, obviamente, não é uma receita de bolo, cada lugar tem a própria peculiaridade”, diz Pedro Nassar.

Pousada Uacari proporciona aos visitantes uma experiência imersiva na Amazônia. Foto: Gui Gomes/Divulgação

Experiências comunitárias

Uma das pessoas impactadas pelo projeto foi Ilana Ribeiro Cardoso, artesã e empreendedora que vive no quilombo de Mumbuca, no município de Mateiros, região do Jalapão, no Tocantins. Em 2018, ela esteve no Instituto Mamirauá e conheceu de perto as iniciativas de turismo comunitário. A partir dali, a Amazônia virou uma fonte de inspiração e aprendizado.

Desde então, faz intercâmbios em regiões que trabalham com turismo comunitário e aplicando os novos conhecimentos no Jalapão. Ela ajuda a organizar restaurantes, pousadas e roteiros para que turistas conheçam de forma mais autêntica a comunidade e a história do quilombo. Entra as experiências, trilhas feitas por antepassados, mostra de plantas medicinais e oficinas de artesanato com capim-dourado.

Enquanto vê as atividades crescerem, Ilana se preocupa com os possíveis impactos de um turismo que não seja sustentável para a região.

“Hoje, não vemos muitos impactos ambientais. Mas, e no futuro? Como ficam meu filho e a comunidade? No Jalapão, tem muitas nascentes, fervedouros, cachoeiras, rios. Somos ricos em água potável. E há pessoas vindo para cá e pensando só na questão do agronegócio, em plantar soja, usar e poluir as nascentes de água”, diz Ilana.

“Daqui a pouco, podem montar um hotel de luxo, e a nossa pousadinha, que é simples, baseada na bioconstrução com adobe, vai ser prejudicada. Eu tenho medo de que o Jalapão possa ser invadido por esse turismo avassalador, que desperte o interesse de pessoas ricas, que não vão cuidar do nosso local e vão destruir a nossa natureza”, completa a artesã e empreendedora.

Ilana defende o turismo comunitário como o único possível para impedir grandes impactos ambientais e aumentar os efeitos da crise climática.

“Quando o turismo é sustentável, envolve cuidado. E quem cuida é a comunidade. Então, o turismo precisa vir de baixo, não de cima. Nós sabemos como cuidar, sabemos a quantidade de pessoas que podem entrar nos fervedouros, no campo de capim, numa vereda, numa nascente. A gente não pensa só na questão do lucro. No turismo sustentável, o guia é local, deixa dinheiro na comunidade e contribui para a preservação da natureza”, diz a empreendedora quilombola.

*Com informações da Agência Brasil

Amazonas inaugura primeira sala de cinema dentro de aldeia indígena

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Foto: Tácio Melo

O Amazonas vai ganhar sua primeira sala de cinema dentro de uma aldeia indígena. A sala do projeto ‘Cine Aldeia’, da Prefeitura de Manaus, será inaugurada em 1° de fevereiro, na aldeia indígena Inhaã-bé, localizada no Tarumã-Açu, em Manaus.

Durante o lançamento, oito curtas-metragens serão exibidos, permanecendo em cartaz nos primeiros meses do ano. Além dos curtas, o ‘Cine Aldeia’ também terá em sua programação o lançamento do documentário ‘Traços da Resistência’, dirigido e produzido pela produtora indígena e idealizadora do projeto, Thaís Kokama.

O ‘Cine Aldeia’ é uma das primeiras salas de cinema de aldeias indígenas no país e a primeira na Região Norte. Para Thaís, avanços como esse estão diretamente relacionados às novas oportunidades que surgiram nos últimos anos, por meio de editais para a cultura.

Foto: Reprodução/ @thaiskokama

“Atualmente, a aldeia Inhaã-bé, mesmo após o isolamento causado pela Covid-19 e recentemente afetada pela seca no lago Tarumã-Açu, ganhou força com diversas ações culturais e, agora, com a nova sala de cinema, vemos mais uma fase positiva para nós, indígenas, ao sermos inseridos neste segmento cultural”, disse a produtora.

As pessoas interessadas em comparecer ao lançamento deverão pegar o transporte gratuito, às 16h, no porto da Prainha, localizado no Tarumã-Açu. O retorno de volta ao porto está marcado para às 18h.

O projeto foi um dos selecionados pelo Concurso Prêmio Manaus Identidade Cultural – Audiovisual (Edital 004/2023), por meio da Lei Paulo Gustavo (LPG), da Prefeitura de Manaus, por intermédio do Conselho Municipal de Cultura (Concultura), com o apoio do Ministério da Cultura e do governo federal.

Pesquisadores do Maranhão desenvolvem lançador de micro e nano satélites

Foto: Reprodução/NASA

Pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão, junto com um consórcio de empresas do setor aeroespacial, estão desenvolvendo um novo lançador de micro e nano satélites na órbita terrestre. A ideia é tornar o Estado, por meio do Centro de Lançamento de Alcântara, em um novo polo do programa espacial brasileiro.

Saiba mais: Centro de lançamentos espaciais do Maranhão é um dos mais bem localizados do mundo

Duas empresas ficam responsáveis pelo desenvolvimento dos motores dos foguetes. Também serão destinados R$ 30 milhões para construção, em São Luís, de uma fábrica de propelentes, que é uma espécie de combustível para os foguetes.

Os detalhes foram dados pela ministra da Ciência, Luciana Santos, no dia 23 de janeiro, em São Luís. Ela esteve no Laboratório de Propulsão Aeroespacial, acompanhou o lançamento de um veículo lançador de satélites de pequeno porte e anunciou uma infovia, de 5.500 km de fibra óptica para Alcântara e mais 25 cidades da região.

O Centro de Lançamento de Alcântara tem uma posição privilegiada: fica a apenas 20 quilômetros de São Luís, cruzando a baía de São Marcos e somente a dois graus de latitude abaixo da linha do Equador, o que pode reduzir o  custo de lançamento de foguetes em até 30%, por causa da economia de combustível.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o equinócio?

Segundo a ministra, até 2026, o país não vai mais precisar usar bases fora do país para lançar satélites. Outros dois projetos de veículos lançadores estão em andamento. Um deles, para transportar um veículo hipersônico que vai alcançar até 30 quilômetros de altitude. De acordo com os contratos, de mais de R$ 486 milhões, os três projetos serão lançados até o final do ano que vem.

UFMA testa propelente para foguete 

Foto: Ingrid Trindade

O Maranhão tem se consolidado como um importante polo da engenharia espacial no Brasil e, consequentemente, para o Programa Espacial Brasileiro, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara. Nesse contexto, a UFMA têm se destacado no desenvolvimento de tecnologias com o objetivo de atender às demandas estratégicas do país.

O propelente do Veículo Lançador desenvolvido pela Acrux Aerospace Technologies, que foi testado, integra o projeto de construção do foguete que lançará um satélite no espaço, e estima-se que 90% da massa do veículo serão desenvolvidos em território maranhense. O feito, inédito no Brasil, possibilitará que o país passe a compor um conjunto de pouco mais de dez países que possuem domínio sobre essa tecnologia.

*Com informações da Agência Brasil e Universidade Federal do Maranhão

Argila, histórias e memórias: projeto valoriza tradição das louceiras de Bragança e do Marajó

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Foto: Reprodução/Acervo da pesquisa

Você já ouviu falar que comida feita em panela de barro é mais saborosa? Existe uma explicação para isso: a panela de barro preserva a essência dos sabores, pois seu tempo de preparo é mais lento, além disso, ela conserva o valor nutricional dos alimentos. No en­tanto engana-se quem imagina que esses utensílios foram totalmente substituídos pelos recipientes mais modernos, utilizados na cozinha atual. Muitos saberes acerca da pro­dução de cerâmica ainda são transmitidos, de geração em geração, por famílias que optaram por guardar a herança cultural deixada pelos povos originários e pelas comunida­des quilombolas.

Leia também: Cerâmica Marajoara: Arte que resiste ao tempo!

Empenhados na análise desse cenário, os professores Erasmo Borges, Tiago Samuel Bassani, Elaine Andrade e Jailton Gomes, da Faculdade de Artes Visuais (FAV), vinculada ao Instituto de Ciências da Arte (ICA/UFPA), decidiram estudar, por meio de um projeto de pesquisa e extensão, os registros da tradição da cerâmica preservados ao longo do tempo.

Com base nessa proposta, contemplada com o Prêmio Proex de Arte e Cultura/2022, os pesquisadores buscaram desenvolver práticas extensionistas, laboratoriais e de campo; capacitar pessoas interessadas na continuação do processo de produção da cerâmica nas comunidades; integrar as atividades do Laboratório de Cerâmica ao curso de Artes e estabelecer interseções entre diferentes linguagens e expressões artísticas da contemporaneidade.

Para isso, os pesquisadores foram ao encontro de louceiras na Vila Quiera, em Bragança, e no Quilombo de Santana do Arari, localizado na Ilha do Marajó, no Pará. Nas duas comunidades, o grupo pôde observar mulheres dessas localidades que dominam o processo de confecção das panelas de barro.

“Embora a prática da cerâmica seja muito difundida na nossa região e uma das referências mais antigas em termos de Brasil, ainda há muito o que estudar e descobrir”, destaca o professor Erasmo Borges, da Faculdade de Artes Visuais.

Técnica facilita manuseio de materiais durante a criação

O professor Erasmo Borges iniciou as pesquisas relacionadas à cerâmica na década de 1980, quando conheceu a técnica para a produção de um tijolo maciço, muito utilizado na construção de casas populares naquela época. Após essa experiência, Borges realizou trabalhos com xilogravura e, atualmente, com outros pesquisadores, desenvolveu a técnica denominada de argilogravura, método que possui formas de modelagem semelhantes, mas, diferentemente da xilogravura, permite a reutilização da argila, além de facilitar o manuseio dos materiais da criação.

Para aprofundar a pesquisa, o grupo visitou os locais de produção das louceiras. Com o tempo, foi possível partilhar aprendizados e ouvir diversas histórias, como a da dona Nazaré Furtado, da Vila Quiera, a qual guarda os saberes da tradição dos povos caetés, repassados, de geração em geração, pela família dela, e a história da dona Maria da Glória, ceramista mais antiga do Quilombo de Santana do Arari, a qual não realiza essas atividades em virtude da sua deficiência visual, mas também compartilhou as experiências dela com os pesquisadores.

Laboratório de Cerâmica recebe alunos da rede pública

Durante o processo de pesquisa e experimentação da argilogravura, alguns alunos tiveram a ideia de trazer estudantes da Escola Estadual de Ensino Fundamental José Bonifácio e da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Jarbas Passarinho para acompanhar as experiências no Laboratório de Cerâmica, na Faculdade de Artes Visuais da UFPA. A iniciativa promoveu ações que possibilitaram ao grupo trocar experiências, conhecer o campus da Universidade, compreender o papel das Artes Visuais na sociedade e ampliar as perspectivas em relação à confiança no seu potencial criativo.

Com o conhecimento inspirado na argilogravura, professores e alunos do Laboratório de Cerâmica produziram um painel artístico de 1,30m por 2,60m, que hoje se encontra no hall de entrada dos laboratórios do Atelier de Artes Visuais da UFPA. Na obra, estão presentes 36 placas cerâmicas que foram gravadas e utilizadas no antes e pós-cozimento das peças.

Sobre a pesquisa

O Projeto de pesquisa e extensão Saberes da Tradição em Cerâmica: registros e fazeres no Quilombo de Santana do Arari e Vila Quiera foi desenvolvido pelos docentes Erasmo Borges de Souza Filho, Elaine Andrade Arruda e Jailton Gomes da Silva, todos da Faculdade de Artes Visuais (FAV), vinculada ao Instituto de Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), e pelo professor Tiago Samuel Bassani, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A pesquisa ainda contou com a participação de 20 discentes do curso de Artes Visuais, com atividades realizadas de setembro/2022 a junho/2024.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por Victoria Rodrigues

Desmatamento aumenta presença de morcegos em áreas urbanas de Rondônia

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Foto: Reprodução/PG-ECO-INPA

O avanço do desmatamento na Amazônia, aliado às mudanças climáticas, está provocando mudanças profundas no comportamento de morcegos, forçando sua migração para áreas urbanas. Um estudo coordenado pelo ICB5/USP em Monte Negro (RO) identificou que entre 70% e 80% dos morcegos capturados estavam em zonas urbanas ou periurbanas, evidenciando como a destruição de habitats naturais tem aproximado esses animais das cidades.

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“Os morcegos são atraídos pela oferta de abrigo, como sótãos de igrejas e galpões abandonados, e pela maior disponibilidade de alimento, já que a iluminação pública atrai insetos”, explica o professor Luís Marcelo Aranha Camargo, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB5/USP), que coordena o estudo realizado pelos pesquisadores Leormando Fortunato Dornelas Júnior, Jaqueline de Oliveira, Dra. Helena Lage Ferreira, Dra. Clarice Arns e Dr. Edison Luiz Durigon.

A pesquisa também conta com a participação dos alunos de Iniciação Científica Bruno Jorge Ferreira Câmara, Igor Rodrigo Ferreira Siqueira, Hayslla Mikaella do Couto Araújo e Tainara Costa dos Santos.

Camargo também destaca o fenômeno conhecido como spillover, ou transbordamento, que ocorre quando as alterações ambientais levam à migração de espécies silvestres para ambientes urbanos, aumentando a proximidade com os seres humanos e, consequentemente, o risco de transmissão de doenças.

Leia também: Longe da fama do Drácula: morcegos são dispersores de sementes na Amazônia

Foto: Reprodução/Agevisa

Financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa revelou um potencial risco à saúde pública. Os ectoparasitos encontrados nos morcegos – como carrapatos e moscas – testaram positivo para bactérias dos gêneros Rickettsia e Bartonella. A primeira está associada à febre maculosa, enquanto a segunda pode causar doenças como febre das trincheiras e anemia febril aguda. Embora não tenha sido comprovada transmissão para humanos, o estudo reforça a necessidade de monitoramento constante.

Metodologia rigorosa 

Durante 25 meses, os pesquisadores capturaram morcegos em áreas de floresta, zonas urbanas e periurbanas. As capturas ocorreram três vezes ao mês, entre 17h e 23h, utilizando redes de neblina quase invisíveis à ecolocalização dos animais e busca ativa com o uso de puçá. Após serem submetidos a procedimentos não invasivos, os morcegos eram devolvidos ao local de captura.

Os ectoparasitos retirados com pentes finos e pinças foram analisados por técnicas de biologia molecular, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz de Manaus (FIOCRUZ/ILMD), Faculdade de Medicina Veterinária e Zoonoses da USP (FMVZ/USP), Instituto Butantan (IB) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  Além dos parasitos externos (ectoparasitos), amostras de sangue dos morcegos estão sendo analisadas para identificar outros patógenos, como os protozoários do gênero Leishmania.

Os pesquisadores pretendem expandir o estudo para regiões na fronteira entre Rondônia e Mato Grosso, onde há uma zona de transição entre Floresta Amazônica e Cerrado. “Esses ecossistemas raros podem abrigar espécies de morcegos e parasitas ainda desconhecidos”, observa o pesquisador.

Camargo destaca que, embora muitas vezes temidos, os morcegos desempenham papéis fundamentais no equilíbrio ecológico, como o controle de pragas, disseminação de sementes e a polinização. Apenas 5% das espécies são hematófagas, e a maioria se alimenta de frutos, néctar ou insetos.

Em paralelo, o núcleo de pesquisa em Rondônia, em parceria com a FIOCRUZ/ILMD e com fomento do CNPq (INCT/EpiAmo/CNPQ), estuda eventual ocorrência de leishmaniose visceral canina em Monte Negro. A equipe coordenada por Camargo conta com a participação de seu doutorando Leormando Fortunato Dornelas Júnior (FIOCRUZ/ILMD) e a aluna de mestrado Amanda Carolina Aguiar (FMVZ/USP), além dos alunos de iniciação científica Gabriel de Sá Pitangui Antônio de Andrade (UNISL/P.Velho), Janaina Rodrigues Raiser e Monizi Angélica Alves Steger (Veterinária IFRO/Ji-Paraná).

Embora ainda não haja casos registrados da doença em humanos na região, testes feitos pelos pesquisados com 450 cães na região mostraram que 15% a 20% dos animais testaram positivos para a presença de anticorpos contra Leishmania chagasi. Esse trabalho foi feito com testes rápidos, em parceria com o Ministério da Saúde. “Os cães atuam como hospedeiros e podem transmitir o protozoário aos humanos por meio do flebotomíneos, conhecido como mosquito-palha”, detalha o professor.

Foram capturados, até o momento 102 espécimes de flebotomíneos que estão sendo submetidos a testes de biologia molecular para ver se estão infectados. Além disso, o sangue dos cães que testaram positivo ao teste rápido está sendo testados por técnicas de biologia molecular para verificar se de fato estão infectados.

Novas fronteiras

Os pesquisadores também estão investigando a presença de variantes do SARS-CoV-2 nos morcegos, visando antecipar possíveis surtos.

“Acredita-se que na Ásia a transmissão aconteceu a partir de morcegos ‘raposa-voadora’, porém, no Brasil, não temos essa espécie, mas sim morcegos menores, por isso queríamos entender se esses animais também podem ser infectados por variantes do SARS-CoV-2”, afirma Camargo.

Realizado em conjunto com o Ministério da Saúde, ICB5/USP e o Instituto Butantan, esse braço da pesquisa objetiva prever um possível surto envolvendo variantes do SARS-CoV-2.  Atualmente, as amostras estão sendo estudadas na USP/SP.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo ICB-USP, escrito por Ana Carolina Guerra

BNDES e BID firmam convênio para investir em restauração de florestas estaduais na Amazônia

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Foto: David Rego Jr.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) assinaram no dia 24 de janeiro a Carta Convênio para estruturar projetos de parcerias entre estados e iniciativa privada que fortaleçam a bioeconomia da Amazônia, priorizando o manejo sustentável e a restauração de florestas públicas estaduais. 

A assinatura, que aconteceu na sede do BNDES em Brasília (DF), contou com as presenças do diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, e a chefe da Representação do BID no Brasil, Annette Killmer, e resultará num aporte de US$ 1 milhão do BID para a iniciativa.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o Fundo Amazônia?

As instituições já atuam de forma conjunta para viabilizar a implementação de projetos ambientais na região. Até o momento, o BID disponibilizou US$ 3 milhões para financiar iniciativas de sustentabilidade, enquanto o BNDES destinou R$ 30 milhões com o intuito de mitigar riscos financeiros aos estados da federação.

“A parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) é estratégica para fortalecer a bioeconomia na Amazônia, priorizando o manejo sustentável e a recuperação de florestas públicas estaduais. Estamos direcionando recursos financeiros significativos, com o BID oferecendo US$ 3 milhões (aprox. R$ 18 milhões) e o BNDES destinando R$ 30 milhões para mitigar riscos financeiros aos estados”, observou o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa.

Foto: Francisco Messias – Divulgação BNDES

Leia também: Investimentos do BNDES para Amazônia Legal superam R$ 10 bi de janeiro a setembro de 2024

“Hoje, entendemos muito melhor o importante vínculo entre a vida das pessoas, a economia do Brasil e a proteção de áreas de floresta. É um grande orgulho estar aqui e dar mais um passo para, de forma muito concreta, fomentar o reflorestamento de áreas federais e subnacionais”, afirmou a chefe da Representação do BID no Brasil, Annette Killmer.

Além do suporte financeiro, as equipes técnicas dos dois bancos de fomento também oferecerão expertise, fruto de experiências acumuladas em diversos projetos em diferentes setores e níveis de governo, garantindo a qualidade e a eficiência na execução das ações. Essa parceria se integra a outros investimentos já destinados a projetos federais, sob a coordenação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), ampliando o alcance e o impacto das políticas públicas voltadas à preservação e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia.

*Com informações da Agência BNDES de Notícias

Bosque dos Papagaios abriga centenas de espécies de árvores da região amazônica

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Bosque dos Paragaios. Foto: Diane Sampaio/PMBV

A proteção da flora Amazônica é essencial para a preservação do equilíbrio ambiental do planeta. Para garantir o papel de regulação do clima, na produção de oxigênio e no armazenamento de carbono, o Parque Ecológico Bosque dos Papagaios, localizado no bairro Paraviana, é um ambiente que abriga não apenas animais, mas também árvores típicas da Amazônia.

O Bosque dos Papagaios foi criado em julho de 2009 e está situado em uma área institucional de 12 hectares. Ao todo, são mais de 100 espécies de árvores distribuídas pelo local. O engenheiro agrônomo do bosque, Carvílio Neto, explicou que o solo é bem nutrido e as árvores da floresta crescem e se desenvolvem de forma saudável.

“O bosque é um espaço de proteção e guarda da biodiversidade amazônica. Aqui, a gente frisa bastante a preservação para que Boa Vista siga sendo uma cidade protegida para as gerações futuras. Passeando pelo parque encontramos um grande acúmulo de matéria orgânica, tanto da fauna do solo, como bactérias e fungos, quanto das folhas e galhos das árvores”, disse.

Leia também: Conheça o Bosque dos Papagaios, uma imersão na natureza em Boa Vista

Bosque dos Paragaios. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Espécies de árvores

Visitantes que passam pelo Bosque dos Papagaios encontram espécies de árvores como, andiroba, jenipapo, caimbé, samaúma, taperebá, pimenta-de-macaco, murici, ajarani, pata-de-vaca, castanha-do-brasil, sucuba, mari-mari, dentre outras.

Morando em Boa Vista há um ano com a família, Mariana Duarte sempre leva os filhos Heitor e Otávio para passeios no local.

“Viemos do Rio Grande do Sul e a experiência em Boa Vista tem sido muito bacana. A cidade é extremamente incrível. O bosque é um local que as crianças gostam muito. Todas as vezes que eles entram aqui é como se fosse a primeira visita, pois amam cada dia mais. Uma coisa muito bacana é que os animais e árvores são diferentes do que a gente está acostumado no nosso estado de origem”, destacou.

Bosque dos Paragaios. Foto: Diane Sampaio/PMBV

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Por mais que o bosque tenha sido criado há 15 anos, o espaço guarda árvores com idade superior a fundação do parque, que chegam aos 70 anos de idade, como é o caso de um pé de jatobá, uma das mais antigas do local.

David Vieira, de 7 anos, tem aproveitado as férias escolares com passeios pelas trilhas do Bosque dos Papagaios, ao lado da mãe, a psicóloga Lorena Vieira.

“Venho aqui com a minha mãe quase toda semana, pois moro aqui pertinho. Eu gosto muito de ver os animais e passear pelas trilhas, com a sombra das árvores e vento fresco. Sempre passeio de bicicleta aqui e nas praças da cidade. A gente gosta muito de tudo e já sabemos todos os animais que tem. Sempre vejo frutinhas que caem das árvores durante o passeio”, contou.

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Bosque dos Paragaios. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Bosque dos Papagaios

Aberto durante todos os dias, exceto feriados e pontos facultativos, o horário de funcionamento do bosque é das 8h às 18h durante a semana. Aos fins de semana, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Vale ressaltar que no local não é permitido entrar com animais domésticos, alimentar os animais, entrar com bebida alcoólica, consumir alimentos nas trilhas, fumar e descartar resíduos de forma irregular.

Leia também: Conheça cinco espécies de árvores que são encontradas somente na Amazônia

*Com informações da Prefeitura de Boa Vista

Quando o amor decide o apogeu do craque: Pavão

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Foto: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br 

O amazonense Cláudio Carvalho de Souza, com seus 1,79 m de altura e 69 kg, era conhecido no mundo do esporte, especialmente voleibol, como maior atleta de basquetebol também daquele período. Ele fez história, tornou-se celebridade.

Na despedida do Clube do Remo, de Belém do Pará, numa noite memorável para o basquetebol amazonense, apesar de não ganhar a partida, ali ficara registrado, mais uma vez, que possuía um atleta de alto padrão aproveitável, com muita força de vontade e atributos que, à época, eram relegados a plano inferior pelos dirigentes do esporte local. Exatamente porque tais dirigentes não tomavam a decisão para superar os obstáculos que impediam a realização do campeonato de basquetebol.

Cláudio Carvalho de Souza, conhecido no mundo esportivo como Pavão, naquela noite foi o astro mais figurante das três constelações: Rio Negro, Bancrévea e Caiçara. Com a jaqueta dessas três equipes Pavão deu muito trabalho ao Clube do Remo do Estado do Pará, no qual desfilavam campeões brasileiros e jogadores que direta ou indiretamente viviam do basquetebol profissional no Estado do Pará.

Pavão constituía naquela noite um espetáculo à parte pela velocidade, precisão nas marcações, golpe de vista espantoso, pontaria nos arremessos e lealdade nos choques. Disso talvez, valeu-lhe o convite que recebera do Clube do Remo para fazer parte de seu plantel.

O Clube que nos visitava conhecido como Leão Azul deixou proposta em poder do jogador, cujo valor à época era 150 contos com casa e comida e ainda a sua indicação pelo clube para exercer uma atividade no comércio de Belém. Naquele período o atleta ficou indeciso, não sabia se ia ou não, seus amigos afirmavam a provável possibilidade de não aceitar o convite permanecendo no Bancrévea que acabara de surgir com uma proposta de 600 contos pelo seu passe, cujo seu clube na época haveria de aceitar.

Discutia-se em família, no entanto, que o atleta colocara o seu noivado acima de todas as ofertas. Sua noiva Izete Correa, estudante do Instituto de Educação, representava para ele a última palavra.

Rio Negro, sempre Rio Negro

Pavão foi uma espécie de “cria” do Rio Negro, em Manaus. Desde a idade de 11 anos que ele frequentava e praticava esportes no Líder. Foi levado por Álvaro Santos e burilado no voleibol e basquetebol pelo saudoso técnico Carlos Coelho, de quem ele guardava amizade e eternas recordações e ainda afirmava que aquele técnico conhecia fundo todos os segredos e os recursos das duas modalidades e era detentor de seis títulos de campeão de basquetebol, todos pelo Atlético Rio Negro Clube que, no ano de 1957, tornou-se campeão no Torneio Canto Frio. E ainda pelo campeonato oficial em 1958, tornou-se vice-campeão nos jogos da ACLEA, em 1959, no Torneio Canto Frio, tornou-se campeão em 1961, 1962 e 1963 e ainda foi o cestinha.

Mas o voleibol, já a partir do ano seguinte, começou a enfrentar a dificuldade pelos dirigentes da época, para salvar o basquetebol, ficando em iminência de desaparecer embora houvesse seis equipes muito boas em condições de realizar o certame.

Assim, Cláudio Carvalho de Souza integrou a equipe do Rio Negro na excursão de 1964 para o Estado do Pará. Naquela viagem ganharam de todos os times paraenses (Paysandu, Atuna e o Clube dos 14) sem perder um set. No campeonato brasileiro, ocorrido em Brasília, o Amazonas conquistou o terceiro lugar. Lá estava o Pavão e tiveram que enfrentar as poderosas equipes de São Paulo e Pernambuco.

Fotos: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Manaus – Uma cidade em plena floresta amazônica onde vive Cláudio Carvalho de Souza

A baía do Rio Negro era bem a vitrine do que significou o poderio do período econômico do látex. Apesar de ser um período difícil para a economia do Amazonas, muitos navios de todos os tipos permaneciam no local, cujo contato com a terra eram ligados por dezenas de catraias remadas por portugueses da cidade de Póvoa de Varzim que traziam e levavam passageiros e tripulantes desses barcos nacionais e internacionais que aguardavam aqui por suas cargas a serem transportadas para Nova York, Liverpool, Hamburgo e outras praças.

Mesmo com a queda vertiginosa do látex ainda mantínhamos a exportação de castanha, óleos vegetais, couros de animais silvestres e demais produtos menores que eram trazidos do interior do Estado por navios a vapor, que foram denominados ‘gaiolas’, ‘chatinhas’ e ‘vaticanos’.

Manaus, neste período, apesar da crise, oferecia aos seus visitantes e moradores ruas largas, cortadas por belos espaços e logradouros públicos, com bondes de tração elétrica e carroças com tração animal que cruzavam a cidade. Naquele período os animais também eram uma forma de transporte de mercadorias, especialmente nas serrarias para transportes de madeiras.

Se a arquitetura é o símbolo mais visível de uma sociedade, a fisionomia urbana de Manaus reflete bem o espírito da sociedade que aqui floresceu. Na verdade, a arquitetura de Manaus daquela época apresentava uma atitude emocional e estética do apogeu de período do látex e da burguesia, enriquecida por um processo produtivo.

De uma aldeia dos indígenas Manáos, o antigo lLugar da Barra, se transformara num dos mais importantes centros do mundo tropical, graças à vitalidade econômica da borracha que lhe deu vida, riqueza e encantos, como na antiguidade o comércio intenso, no Mediterrâneo, nas artes, nas letras e na arquitetura da Velha Europa.

O movimento no centro comercial regurgitando de gente de todos os lugares: nordestinos, ingleses, peruanos, franceses, israelenses, norte-americanos, alemãs, italianos, árabes e portugueses. A Avenida Eduardo Ribeiro concentrava um número expressivo de casas comerciais. Nas proximidades do Mercado Municipal Adolpho Lisboa e nas ruas Marcílio Dias, Guilherme Moreira, Quintino Bocaiúva, Henrique Martins, Praça XV, não era diferente. Tudo o que o comércio internacional poderia oferecer era encontrado nesta longínqua cidade, plantada a milhares de quilômetros dos principais centros capitalistas.

As atividades comerciais bem constituídas abrigavam, no andar inferior, no comércio e no andar superior a residência do proprietário, instalado próximo ao seu trabalho, era razão para uma dedicação de maior tempo ao trabalho o que ocorria normalmente das 7h às 21h. Esse espaço residencial era o que predominava em nosso centro comercial. Mas, afastados como na Praça dos Remédios, onde havia uma grande concentração de árabes, ao longo da Joaquim Nabuco, Largo de São Sebastião, Sete de Setembro, Barroso, 24 de Maio, Saldanha Marinho e outras ruas circunvizinhas, dispunha-se as residências mais ricas, magníficos palacetes construídos no melhor estilo da época, assoalhos de acapu, pau-amarelo e pinho de riga, onde sol vazava as janelas e vitrais europeus. As salas normalmente iluminadas com belíssimos lustres europeus, paredes de tetos decorados de pinturas e telas ou ar frescos. Seus salões amplos exibiam luxuosíssimos móveis, porcelanas, cristais e pratarias e, que permaneciam sempre abertos para receber visitas e festas de aniversários, banquetes e saraus, as diversões familiares da Belle Époque.

Casas de alvenaria com porões habitáveis, com fachadas de painéis de azulejos europeus, com suas entradas de escadas em degraus de pedra de lioz ou mármore, sala de visita, alcova, sala de jantar, o grande corredor ladeado de dois ou três quartos, cozinha e mais dependências.

As famílias de menores recursos habitavam as extensas vilas de casas populares, o que encontramos ainda hoje nas ruas 24 de Maio, Lauro Cavalcante e Joaquim Nabuco e, as chamadas estâncias, extensas construções de meia-água, divididas em pequenos quartos para aluguel, vale apena lembrar a estância do Cangalha, que entrava pela 7 de Setembro até o Igarapé de Manaus, na antiga Ponte Cabral que existe até hoje.

Entre os hotéis destacavam-se: o Cassina, na Praça Dom Pedro II e, o Grande Hotel na Rua Municipal n.º 70, belíssimo edifício de dois andares com 42 quartos, cujos, cômodos eram caprichosamente mobiliados (este prédio muito mais tarde sofreu um grande incêndio, de suas ruínas sobrou apenas as fachadas pelas ruas 7 de setembro e Marechal Deodoro. A prefeitura propôs a demolição e em seguida houve a intercessão do então Secretário de Cultura da época Robério Braga que imediatamente, tomou providências para que as referidas fachadas fossem escoradas com enormes vigas de aço para sua sustentação, onde mais tarde foi restaurado).

O Atlético Rio Negro Clube é um clube que têm história

Não foi difícil constituir-se em nossa cidade times de futebol. O apogeu da borracha facilitava com a presença de firmas exportadoras aqui instaladas, cujos escritórios havia grande número de jovens que já praticavam o esporte em seus países de origens. De certa forma a economia da borracha permitia a prática desse esporte, dentre eles alguns se destacaram: o Satélite Clube, o Naval Foot ball, Manáos Sporting Clube, Manáos Atletic Club.

O Jornal a Gazeta da Tarde que circulava a época revelaria sociedade amazonense através da votação direta qual dos clubes de ‘Football’, da época que concorreria ao prêmio, participavam do concurso:

  • Atlético Rio Negro Club,
  • Luso Sporting Club,
  • Nacional Futebol Club,
  • União Sportiva Portuguesa,
  • Associação Athletica Desportiva,
  • América Futebol Club,
  • União Esportiva Hespanhola,
  • Amazonas Futebol Clube,
  • Monte Cristo Futebol Club,
  • Brasil Sporting Club,
  • Paysandu Futebol Club,
  • Liga Esportiva Italiana.
Fotos: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Em 6 de outubro de 1918, o Atlético Rio Negro Club foi declarado vencedor com 3.703 votos e o segundo colocado foi o Luso Sporting Club com 3.485 votos, tendo sido entregue uma placa em prata ao vencedor. Mais tarde, em 17 de abril de 1929, no aniversario da Revista de Carlos da Silva mesquita chamada “Amazônida”, o Atlético Rio Negro Club, foi eleito o mais querido do Amazonas.

De certa forma, naquele período a sede do clube era na rua Marcílio Dias, era o n.º 4.648, hoje 259 no famoso Palacete Vila Gião, foi nesta sede que o clube cresceu e saiu para grandes vitórias esportivas e sociais. Isso ocorreu em 1919, o Presidente do Atlético Rio Negro Club a época era o maranhense Francisco de Assis de Souza Guimarães, o precursor que deu início aos bailes de segunda feira gorda, o baile infantil e o baile de sábado de aleluia e a obrigatoriedade de ornamentar a sede. Foi neste momento que nasceu o celebre “Tanguinho” do maestro João Donizette Gondin.

Fotos: Abrahim Baze/Acervo pessoal

Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Biólogo explica incidência de grilos em Belém

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Grilos dentro das casas. Foto: Divulgação/Comus Belém

Moradores de diferentes bairros de Belém têm relatado o aparecimento de grande quantidade de grilos dentro das casas e o desconforto causado por esse animais. Segundo o biólogo da Secretaria Municipal de Ambiente e Clima, Tavison Guimarães, que atua no Bosque Rodrigues Alves, esse é um fenômeno considerado recente na capital paraense, não identificado nos anos anteriores.

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O biólogo explica que somente um estudo aprofundado poderia esclarecer as causas do aumento da incidência de grilos em Belém, entretanto é possível apontar alguns possíveis motivos para a infestação relacionada, principalmente, com as mudanças climáticas.

Clima quente contribui para infestação de grilos

Segundo Tavison, o mundo tem sofrido um aumento de temperatura com o passar dos anos e o clima mais quente favorece a proliferação de insetos. O chamado ‘inverno amazônico’ está ainda mais quente em comparação a períodos passados.

“Está chovendo bem menos em relação aos anos anteriores. Antes, as chuvas começavam em novembro ou dezembro, e agora começou em janeiro, e com baixa frequência. O grilo é um animal que prefere temperaturas mais elevadas”, pontua o profissional. 

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Redução de matas e predadores naturais

Outro fator que pode contribuir para aumentar a proliferação de grilos é a baixa reprodução dos predadores naturais, como sapos e aranhas, por exemplo. A perda de habitat natural, de áreas de mata, cada vez mais invadidas nas cidades contribui para o aparecimento mais frequente de insetos em ambientes urbanos. 

Danielle Souza, antropóloga e moradora do bairro do Telégrafo há outo anos, notou infestação de grilos em Belém. Ela diz que era comum aparecer um ou dois grilos pela casa dela nessa época do ano. Agora, são cerca de cinco, sete grilos todas as noites.

“Eu comecei a achar estranho a quantidade, porque realmente tem aparecido bastante. De noite eu escuto o som de vários grilos, o que não era comum. A gente ouvia o som de um ou outro, agora tem bastante mesmo”, comenta Danielle. 

Tavison Guimarães diz que é comum aparecer mais grilos entre o final do verão e início do inverno, por ser época da reprodução natural desses animais. Entretanto, nesse ano, o que se observa é um aumento significativo dessa incidência apontado pela própria população em diversos bairros. 

Sem riscos para os seres humanos

Os grilos não causam nenhum dano ao ser humano, e matar esses bichos inofensivos só prejudica a natureza e desestrutura ainda mais a cadeia alimentar.

“A única coisa que incomoda é o barulho que o grilo faz. Todo ser vivo tem uma importância, o grilo mata ervas daninhas e serve de alimento para outros animais”, explica Guimarães.

O biólogo acrescenta que, ao entrar um grilo em casa, o correto é capturar e colocar de volta à natureza.

*Com informações da Agência Belém

O que você faz? Qual é o seu negócio?

Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br

Quando conheço uma pessoa em uma festa, um coquetel ou em uma prática esportiva, depois de um breve tempo de conversa, é comum a pergunta: “O que você faz? Qual é o seu negócio?” Isto deve acontecer com você também, já que somos induzidos a nos enquadrar em caixinhas de profissão, gênero, estado civil e diversos tipos de preferência, inclusive as sexuais e de clube de futebol. Com exceção destas duas últimas, que podem ser percebidas ou respondidas diretamente, sobre várias outras, tenho sempre dificuldade de responder, de uma forma objetiva e simples, que não requeira maiores explicações.

Uma situação delicada que enfrento, por exemplo, é quando me pedem para, a fim de me apresentar em uma palestra ou em situações similares, definir o que “eu sou”. Você responde bem a este tipo de pergunta?

No meu caso, lido ainda com um conflito interno. De um lado, a consciência de que é preciso ter foco para ser bem-sucedido em qualquer área; de outro, com a atração por diversos temas e projetos em que anseio me aprofundar, sabendo que não terei tempo nesta jornada para fazer isto. Como acredito que terei outras empreitadas, encaro isto com tranquilidade, que é perturbada quando me fazem tais perguntas: O que você faz? Qual é o seu negócio?

O que faço, ou procuro fazer, é muito diversificado. Qualquer que seja o rótulo de título ou profissão, no entanto, converge necessariamente para “contribuir com pessoas e com empresas”. Mas contribuir com o quê? E é aí que entra o que é o meu negócio: “Felicidade”, o que implica em resultados, para pessoas e para empresas. Felicidade para o meu entorno, para o mundo (já que acredito em um efeito irradiador da felicidade) e para a minha própria felicidade. Talvez, na maior parte do tempo inverta a ordem, priorizando a minha felicidade, mas, conscientemente, sei que ela será consequência do quanto eu tratar bem o “meu negócio”, uma forma coloquial de dizer “a minha missão” e o “meu propósito”.

Falando sobre Felicidade, alguém detém a sua fórmula? Existem práticas recomendáveis, sim, mas não são propriedades exclusivas. Se dentro das grandes Leis da Natureza, existem caminhos para a Felicidade, então, eles nunca serão exclusivos, mas complementares entre si.

É esta convicção que leva a mim e ao MCI, instituição que lidero, a defender e estimular a prática da Felicidade Consciente, valorizando diferentes caminhos, independentemente de qualquer tipo de rótulo, categoria, crença ou separações, próprias da maneira cartesiana de pensar. Este paradigma científico, que nos trouxe muitos avanços, é claramente insuficiente para nos fazer seguir adiante e lidar com as grandes questões atuais, como Edgar Morin nos ensina. Sendo um cientista altamente reconhecido pela academia, Morin propõe a ruptura dos atuais paradigmas concretos e materialistas, ainda preponderantes.

É por tudo isto que o MCI apoia o estudo e a pesquisa de diferentes métodos de felicidade, cujo objetivo seja transformar o mundo em algo melhor do que temos e das ameaças que se apresentam. Temos o amparo da filosofia, da neurociência, da psicologia positiva e de diferentes crenças religiosas, orientais e ocidentais. Precisamos destacar o quanto estes conhecimentos se assemelham e o quanto há de sinergia entre eles. Não precisamos classificá-las pelas diferenças, o que somente enfraquece o objetivo final.

O Método MCI de Felicidade é aberto e facilmente acessível, mas desejamos que outros caminhos, baseados em princípios elevados, sejam oferecidos, permitindo que cada um de nós faça as suas escolhas conscientemente, visando a Felicidade de todos e de nós mesmos. Todos temos o que oferecer e o que receber.

Filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles e Mokiti Okada declararam que por detrás de tudo o que faz, o homem objetiva a Felicidade. Retornando a questão inicial, este é o meu negócio. E você? O que você faz? Qual é o seu negócio?

Sobre o autor

Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista