A Universidade Federal de Rondônia (Unir) divulgou um estudo que mostra que os poços amazônicos utilizados pela população de Ariquemes estão contaminados. O levantamento avaliou a qualidade da água de abastecimento público e de poços amazônicos em diferentes pontos de coleta, abrangendo toda a área de Ariquemes. Para analisar os parâmetros de potabilidade, o estudo usou como base os padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde através da Portaria 888/2021.
Dentre as 12 amostras de poços amazônicos avaliados, todas indicaram presença de coliformes totais e 10 tiveram confirmação de contaminação pela bactéria Escherichia coli. O estudo afirma que, considerando os resultados, “as águas de poços amazônicos de Ariquemes são consideradas impróprias para consumo”.
Ainda de acordo com o estudo, em relação às amostras de água do abastecimento público, todas apresentaram padrões microbiológicos compatíveis com a legislação para água potável, com ausência de contaminação por coliformes totais e E. coli.
Usar água de poços é uma cultura da região. A água é retirada do lençol freático subterrâneo, acessado através de escavações manuais ou mecanizadas. O estudo aponta que “os resultados dessa pesquisa corroboram com a hipótese de que o lençol freático de Ariquemes esteja contaminado, possivelmente pelo uso de fossas como destino final de esgoto doméstico na maior parte da cidade”.
O estudo foi solicitado pelo Ministério Público de Rondônia, através da Promotoria de Justiça de Ariquemes, e realizado pelo campus da Unir na cidade, através da profª. doutora Gisele Teixeira de Souza, do curso de engenharia de alimentos.
“De acordo com os resultados obtidos e considerando que boa parte da população de Ariquemes ainda utiliza água de poço para suas necessidades, como escovar os dentes, lavar vegetais, frutos, utensílios e até mesmo para o consumo, muitos habitantes estão expostos a doenças causadas por água que não está própria para o uso e consumo”, explica Gisele sobre o estudo.
O estudo aponta ainda que Ariquemes possui um problema de saúde pública em relação à utilização de água de poços. Segundo a professora, os dados auxiliam o poder público a tomar medidas que melhorem a qualidade de vida da população.
“Um dos principais objetivos de expor esses dados desta forma é mostrar para as autoridades que algo precisa ser feito para conscientizar a população e facilitar a aquisição de água de qualidade”, aponta Gisele.
O estudo se dedicou ainda a um tema que tem gerado debate na cidade: a água turva, situação pontual, ocasionada por paralisação no sistema ou após a realização de reparos no sistema de abastecimento da cidade.
De acordo com a publicação, os dados de turbidez junto aos microbiológicos indicam que a coloração da água da rede pública de abastecimento de Ariquemes não tem relação com contaminação microbiológica.
“A turbidez na água não indica necessariamente contaminação por agentes patogênicos. Pode-se ter altos índices de turbidez sem contaminação microbiológica”, explica Gisele no estudo.
Os resultados atingidos pela Unir concluíram ainda que a água de abastecimento público atingiu o padrão de potabilidade em todos os pontos analisados. Em contrapartida, as amostras de águas de poços amazônicos são consideradas impróprias para consumo, considerando o padrão microbiológico.
Essa não é a primeira vez que o campus da Unir realiza um estudo como esse. Em um estudo divulgado em 2024, pesquisadores da Unir analisaram amostras de água de 40 poços em Buritis, também no Vale do Jamari de Rondônia. O resultado revelou contaminação fecal em 98% dos poços analisados. Todos os bairros da cidade possuem poços contaminados. As amostras foram colhidas em outubro e novembro de 2023.
A pesquisa revelou que a água distribuída pela rede pública estava de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, mas quase toda a água dos poços é imprópria para consumo.
Inaugurada em 26 de junho de 1987, a Fonoteca Satyro de Mello, localizada em Belém (PA), na Biblioteca Pública Arthur Vianna (BPAV), é a segunda mais antiga do Brasil, perdendo apenas para a Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard, de São Paulo (SP), segundo dados da BPAV.
A fonoteca paraense foi criada a partir da aquisição do acervo fonográfico do colecionador Ricardo Pereira, do Rio de Janeiro. “A coleção de discos foi vendida por Pereira pelo valor simbólico de 600 mil cruzados para a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves”, informa a BPAV.
O nome ‘Satyro de Melo’, trata-se de uma homenagem ao músico paraense Raimundo Satyro de Mello, considerado por estudiosos o primeiro arranjador de músicas para discos do Brasil. Atualmente ela possui possui mais de 30 mil exemplares.
Os conteúdos disponíveis vão desde obras eruditas (concertos musicais, recitais e clássicos do Jazz) à músicas infantis (Xuxa, Trem da Alegria e Turma do Balão Mágico). Para ter acesso, o visitante deve escolher o que deseja escutar no catálogo e informar para o funcionário o Disco ou CD selecionado para ser escutado de forma individual em fones no local.
Além de disponibilizar parte do acervo para consulta e audição local, a fonoteca também promove atividades de workshops e palestras de forma gratuita.
Um exemplo é o projeto ‘Audição de Vinil’, criado em 2024. Em abril deste ano, houve a audição do álbum ‘Exagerado’, de Cazuza, lançado em 1985, com a mediação de Alexandre Roseno, servidor da Fundação Cultural do Pará (FCP). “O projeto é um sucesso, desde a realização da audição do trabalho de Maria Bethânia”, lembra.
Roseno refere-se à primeira edição do projeto, realizada em junho de 2024, em comemoração aos 78 anos da cantora Maria Bethânia, com a audição de vinil do álbum ‘Álibi’, que faz parte do acervo da fonoteca. Ele também foi o mediador da edição.
Foto: Valéria Ramos/FCPFoto: Reprodução/FCP
Outra atividade realizada pela fonoteca é a ‘Ouvir e Conhecer’. No Carnaval deste ano, por exemplo, a audição especial de vinil foi do LP das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, de 1989, mergulhando nos sambas-enredo.
Guiada por Wander Nunes, carnavalesco que tem forte ligação tanto com as escolas de samba do Rio quanto de Belém, o público participou de uma imersão no processo de gravação e no contexto cultural da obra. A atividade visa engajar o público a conhecer mais sobre o vinil, além de fazer uma reflexão sobre a importância da preservação dos discos e o papel da música na cultura popular.
Foto: Reprodução/FCP
Para quem quiser conhecer a Fonoteca Satyro de Melo, ela está localizada no 3º andar na Biblioteca Pública Arthur Vianna, na Avenida Gentil Bittencourt, n° 650, no bairro Nazaré (Belém/PA).
*Com informações da Fundação Cultural do Pará (FCP) e Biblioteca Pública Arthur Vianna (BPAV)
Certamente, quem mora no Amazonas, já ouviu perguntas como: “aí só tem bicho?” ou “vocês andam de onça-pintada?”. Para quem vive fora da Amazônia, a região parece ser apenas de floresta, pois muitos desconhecem a realidade dos estados amazônicos.
Pensando nisso, o Portal Amazônia foi buscar no ChatGPT a resposta para como seria o Amazonas, por exemplo, se realmente fosse como o imaginário popular de outras regiões do país pensa que ele é.
Será? Em alguns locais existem sim casas nas árvores, mas voltadas ao turismo. Na verdade, as cidades podem ser tão complexas e modernas que até casas inusitadas podem ser encontradas, como a casa borboleta em Manaus. Além disso, existem áreas que as casas são “suspensas” em função dos ciclos de seca e cheia e os famosos flutuantes.
“Só tem floresta e rio”
Essa aqui muita gente até queria que fosse verdade, pois a temperatura na região seria mais amena. Mas mesmo que muitos imaginem as cidades tal como o ChatGPT recriou, está longe de ser verdade. Quer ver como é mais complexo? Dá uma olhada nessa matéria feita com fotógrafos do Amazonas.
“Vocês andam de onça-pintada?”
Essa pergunta aí quem mora na região e ainda não ouviu, com certeza ainda vai ouvir. A onça-pintada é um dos felinos mais conhecidos – e até temidos – no país. Porém, ainda tem quem ache que elas são o “transporte” dos amazônidas, tal como seriam os cavalos em outras regiões (mesmo que seja apenas para fazer piada).
Seja nas lendas da cobra grande (a Boiúna) ou nas produções de filmes internacionais, as cobras são animais que causam arrepios em muitas pessoas. Na Amazônia, uma das maiores do mundo é encontrada: a sucuri. Por conta de sua fama, tem quem realmente tema encontrar com uma dessas, por isso acaba imaginando que elas podem ser encontradas em toda parte.
Essas são algumas frases que certamente até quem não é do Amazonas especificamente, mas de outros estados da região amazônica, já deve ter ouvindo. E aí? Que outras frases poderiam entrar pra essa lista?
Um grupo de pesquisadores de universidades da Amazônia e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificaram no óleo essencial extraído da Trattinnickia burserifolia — espécie típica de Tepequém, região de serra que é o principal ponto turístico de Roraima — um alto poder larvicida contra o Anopheles, mosquito transmissor da malária.
A pesquisa integra a tese da doutoranda em biotecnologia pela Universidade Federal de Rondônia (UFRO) Gisele de Oliveira e contou com apoio de instituições como a Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) do Amazonas e a Fiocruz Rondônia.
O estudo foi publicado recentemente na revista internacional Pharmaceuticals, da editora suíça MDPI, uma das mais conceituadas do meio científico, com classificação Qualis A1 — o mais alto nível de avaliação acadêmica no Brasil. Antes de ser publicado, o estudo passou por um extenso processo de validação científica.
“Publicar o resultado de uma pesquisa exige rigor: são muitos revisores, exigências e correções antes da aceitação”, afirmou a doutoranda Gisele.
A Serra do Tepequém, localizada no município de Amajarí, ao Norte de Roraima, é considerada o destino mais procurado pelos turistas locais e de outros lugares do Brasil, segundo o Departamento de Turismo do Estado (Detur). Fica distante cerca de 210 km de Boa Vista. O local é um dos mais visitados por apresentar atrações como cachoeiras, um platô que chega a quase 1.022 m de altura e pelo clima ameno durante a noite, proporcionado pelas serras.
Ajuda para inibir a malária na Amazônia
A pesquisa começou a partir da coleta de amostras da Trattinnickia burserifolia, planta pouco estudada da flora amazônica, conhecida entre populações locais pelas propriedades aromáticas.
As cascas do caule são retiradas para garantir a recuperação natural da árvore e enviadas a laboratórios especializados.
O óleo essencial é extraído por meio de um processo de hidrodestilação — técnica que utiliza a ação do vapor para liberar compostos voláteis presentes nas plantas. Em seguida, os pesquisadores realizaram a caracterização química do óleo, identificando cerca de 40 substâncias distintas.
Três compostos, em especial, chamaram atenção: limoneno, triciclênio e betapineno.
“Esses três componentes majoritários mostraram forte ação larvicida, mas há indícios de que outros constituintes também contribuam para a eliminação das larvas”, explicou Gisele de Oliveira.
Foto: Naamã Mourão/Rede Amazônica RR
Os testes de eficácia foram conduzidos no Laboratório de Malária do Inpa, em Manaus. Amostras de larvas do mosquito Anopheles foram expostas ao óleo essencial, e os resultados foram “surpreendentes”.
“As larvas apresentaram lentidão significativa e, em até 48 horas, observamos a morte da maioria delas”, relatou a pesquisadora.
Reconhecimento científico
A escolha da revista Pharmaceuticals se deu não apenas pelo prestígio da publicação, mas também pela linha editorial voltada a novas descobertas farmacológicas e produtos naturais com potencial terapêutico ou biológico.
“Quando você vê que uma pesquisa como essa, que trabalha no óleo essencial de uma planta, que é uma árvore, que você consegue ver que ela tem um potencial biotecnológico, aplicações que podem trazer benefícios à saúde, não só à saúde humana, mas também ao óleo digital, ou seja, dentro do conceito de saúde humana, você vê que essas pesquisas científicas se tornam cada vez mais relevantes para a sociedade”, avalia Andreimar Martins Soares, orientador da pesquisa pela Universidade Federal de Rondônia e Fiocruz Rondônia.
Para o professor Antonio Alves, da UFRR, que atuou como coorientador do projeto, a pesquisa reforça a importância de valorizar a biodiversidade amazônica.
“Estamos trabalhando com plantas da nossa região. E [essa descoberta] pode inibir essa questão da malária dentro da Amazônia, no Brasil, e até no mundo”, disse.
Foto: Naamã Mourão/Rede Amazônica RR
Malária
Segundo o Ministério da Saúde, a malária é endêmica nos estados da Amazônia Legal, que concentra quase a totalidade dos casos da doença no Brasil.
O Anopheles darlingi, principal vetor da malária na região, encontra no ambiente amazônico condições ideais para reprodução.
O próximo passo, de acordo com os pesquisadores, é aprofundar a análise da ação dos componentes isolados através da pesquisa com a Trattinnickia burserifolia. Gisele de Oliveira reforça como ponto positivo fundamental a seleção de alternativas dentro da natureza e da biodiversidade.
“É na natureza que está a grande riqueza. Toda variedade que nós precisamos preservar, pois dela podem surgir respostas para muitos desafios do nosso cotidiano”.
Aos 84 anos, o aposentado Valdemar Negreiros realizou um sonho. Agora, ele e a esposa, a também aposentada Lucimar Reis, moram em uma casa exatamente como imaginaram: em formato de barco.
O casal, que vive em Mâncio Lima, o município mais ocidental do Brasil, no interior do Acre, distante mais de 600 quilômetros da capital Rio Branco, ergueu a obra em uma área no centro da cidade. A ideia é preservar e relembrar as raízes, já que ambos foram ribeirinhos, e homenagear a resiliência destas famílias que se sustentam navegando as águas.
“Eu tive essa ideia porque eu gostava muito de viajar no rio [Juruá] para ver a floresta, vender mercadoria para o pessoal, para trazer sustento para casa”, comentou.
A casa-barco foi construída em uma pequena ilha, em um lugar chamado pelo dono de lagoa verde devido à tonalidade da água. Mas o local não é simplesmente o lar de um casal de idosos, mas também o símbolo da luta pela sobrevivência de milhares de famílias que desbravaram os rios da Amazônia para garantir o sustento de suas famílias.
“Para poder manter a família, a gente tinha um barco para viajar no rio e a gente subia para vender mercadoria, para arrumar recurso para botar os filhos na aula em Cruzeiro do Sul. E, aliás, na época até a mulher também estudava, e eu subia o Rio Juruá para fazer esse trabalho de regatão para arrumar dinheiro para manter a casa e os filhos na escola e a mulher”, relembra.
A lembrança também é compartilhada pela esposa que, por também ter vivenciado essa realidade, não teve dúvidas em apoiar o projeto do marido. O casal teve 11 filhos e se orgulha de ter construído a família com os frutos da vida ribeirinha.
“Não estranhei, eu sempre apoiei a ideia dele”, destacou.
A casa tem 25 metros de comprimento e cinco de largura, dividida em dois quartos, sala e cozinha. O espaço livre na proa serve como uma varanda e na popa da embarcação há uma área de serviço.
Quem chega ao local tem a impressão de realmente estar em um rio preparado para navegar. A casa conta até com um leme, que faz o morador lembrar dos trajetos na região do Vale do Juruá.
“É mesmo que eu estar viajando lá no rio, então fica matando a saudade daquele trabalho que a gente fazia”, disse.
Foto: Mazinho Rogério/Rede Amazônica AC
Orgulho que atrai visitantes
E toda essa paixão da família tem contagiado a região. A casa em formato de barco chama a atenção de quem visita o município.
Os vizinhos contam que diariamente muitos curiosos param para admirar a residência que preserva a história da família.
“Ele sempre teve um sonho de construir uma casa barco. E agora, nesses quatro anos atrás, ele realizou o sonho dele de construir e todo mundo que passa aqui fica admirado, vendo essa casa diferente das outras”, comentou Euclides Nascimento, vizinho.
Navegar é preciso
Após quatro anos do início dessa construção, Valdemar disse que o projeto ainda não acabou, e há mais detalhes a serem acrescentados, como móveis também em alusão às embarcações.
Porém, a saudade dos tempos de regatão não é amenizada apenas pelo cenário. Valdemar e a família ainda têm um barco, de verdade, que utilizam para navegar, agora por lazer.
Foto: Mazinho Rogério/Rede Amazônica AC
“Quando a gente parou com essa viagem no rio por causa já da idade avançada e os filhos não queriam mais deixar que a gente fosse, então a gente resolveu conseguir esse barco de alumínio, que tem três cadeiras que comportam seis pessoas e um fogãozinho lá atrás para a gente viajar no rio Môa para ir à serra, passear, visitar as comunidades, pegar peixe”, contou.
*Por Victor Lebre e Mazinho Rogério, da Rede Amazônica AC
O que faz uma língua continuar existindo e sendo falada por um povo, a cada nova geração? Essa foi uma das perguntas-chave de um evento realizado nos dias 22 e 23 de abril, na superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) no Amapá, em Macapá.
O ‘1° Encontro Qual(is) Língua(s) Você Fala?’ foi uma ação do projeto de pesquisa de mesmo nome, realizado no âmbito do Mestrado Profissional de Cultura e Política da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e contemplado em 2023 pelo edital do Programa Nacional de Patrimônio Imaterial (PNPI) do Iphan.
Reunindo pesquisadores, professores, estudantes e lideranças indígenas, o evento serviu para apresentar e pôr em discussão alguns resultados do projeto, que vem mapeando e busca criar um acervo digital de línguas indígenas faladas no Oiapoque, norte do Amapá.
Para isso, a equipe do projeto vem produzindo registros audiovisuais, aplicando questionários e conduzindo entrevistas nas 67 aldeias da região, com falantes das línguas:
Parikwaki (do povo Palikur-Arukwayene),
Kheuól Karipuna (dos Karipuna),
Kheuól Galibi-Marworno (dos Galibi Marworno)
e Kali’na (dos Galibi-Kali’na).
Com esse conjunto de dados qualitativos e quantitativos, os pesquisadores querem caracterizar a situação de cada uma dessas línguas – se estão em uso vigoroso, em processo de perda ou em fase de revitalização – para contribuir com a sua salvaguarda e o seu reconhecimento oficial como patrimônio cultural do Brasil.
“Esse tipo de trabalho tem valor por si só – por tudo que ele representa para as comunidades envolvidas –, mas também abre caminhos para novas políticas públicas, que garantam, por exemplo, educação bilíngue nas escolas indígenas, materiais de saúde traduzidos nas línguas das comunidades e o direito dessas pessoas de serem atendidas e compreendidas em sua própria língua”, disse o superintendente do Iphan no Amapá, Michel Flores. “Esse tipo de trabalho abre caminhos para novas políticas públicas, que garantam, por exemplo, educação bilíngue, materiais de saúde traduzidos e o direito das pessoas de serem atendidas em sua própria língua”.
O superintendente nota que a própria pesquisa celebrada no evento desta semana já é fruto de uma política pública de grande relevância, implementada pelo Iphan, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), que reconhece e protege as línguas faladas por diferentes comunidades no País.
Utilizando critérios padronizados e metodologia científica, o INDL é uma forma de documentação de línguas que, se reconhecidas como Referência Cultural Brasileira, podem contar com nível de proteção do Estado semelhante a outros bens culturais registrados como Patrimônio Imaterial do Brasil.
“O INDL entende que a língua é um patrimônio cultural, um bem precioso que deve ser cuidado como se cuida da memória de um povo”, disse Flores.
Participação das comunidades
Para a coordenadora do projeto, a doutora em Linguística Elissandra Barros, a pesquisa vai “fornecer dados sem precedentes sobre as línguas indígenas do Oiapoque”, município que abriga cerca de 8 mil indígenas – quase um terço de sua população. Segundo ela, além de contabilizar o número de falantes de cada uma das quatro línguas estudadas, a ideia é também investigar expressões e usos cotidianos, os níveis de proficiência e como se dá a relação entre elas e o português. Algo que pode variar muito de geração para geração.
“Os jovens entendem o que os mais velhos dizem, mas só respondem em português”, diz Nadilson Felipe, do povo Karipuna, que integra a equipe do projeto. Embora afirme que o Kheuól Karipuna continua vivo como língua e identidade étnica, Nadilson destaca que em muitas aldeias o português é a língua predominante, o que só reforça a urgência e a necessidade da pesquisa.
É um depoimento semelhante ao de Rudolph Lod, do povo Galibi Kali’na: “Meu povo no Brasil é pequeno, somente os mais velhos falam o Kali’na”, diz ele. “Mas passei a ter um outro olhar sobre a nossa língua quando entrei para o projeto e vejo que isso tem acontecido com muitos indígenas também”.
A participação de Nadilson e Rudolph na equipe não é por acaso. O projeto conta com a colaboração de organizações representativas dos quatro povos estudados: a Associação Indígena do Povo Palikur (AIPA), a Associação Indígena do Povo Galibi-Marworno (AIPGM), a Associação Indígena do Povo Karipuna (AIKA) e a Associação Na’na Kali’na.
Cada uma delas indicou um coordenador interno para articular as ações localmente, garantindo a participação direta das comunidades na pesquisa. Além de Nadilson e Rudolph, também integram a equipe, como coordenadores locais, Lenise Felício Batista, do povo Palikur, e Orineio Monteiro, dos Galibi-Marworno.
“Essa estrutura colaborativa assegura que o projeto seja conduzido em diálogo constante com os povos envolvidos, respeitando os saberes tradicionais e as dinâmicas locais”, diz Elissandra.
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) publicou, na Revista da Propriedade Industrial (RPI) do dia 8 de abril de 2025, o reconhecimento da Indicação Geográfica (IG), na espécie Indicação de Procedência (IP), para a região do Bailique, como produtora de açaí.
Com essa concessão, a segunda para o estado do Amapá, o INPI chega a 141 IGs reconhecidas no Brasil, sendo 102 IPs (todas nacionais) e 39 Denominações de Origem – DOs (29 nacionais e 10 estrangeiras).
A região do Bailique é composta de oito ilhas fluviais e área costeira próxima à foz do rio Amazonas, no leste do Amapá. O ambiente natural é marcado por uma rede de rios, igarapé e furos que desaguam no canal norte do rio Amazonas, formando extensas áreas de florestas de várzea, manguezais e campos inundados. São cerca de 51 comunidades ribeirinhas que se organizam em torno de sua religiosidade e de atividades produtivas como a coleta do fruto de açaí.
De acordo com a documentação apresentada pela Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique, a região produz o açaí mais sustentável do mundo. Ele é nativo da região e cultivado da forma natural, sem o uso de agrotóxicos, máquinas e fertilizantes. É apenas manejado pelos produtores e possui certificado FSC (Forest Stewardship Council, organização não governamental internacional que atesta que os produtos florestais são oriundos de florestas bem geridas), o que garante que todas as etapas do processo sejam feitas com respeito à legislação do país, aos direitos dos trabalhadores e ao meio ambiente.
Além do certificado FSC, o açaí do Bailique também possui o selo vegano SVB, da Sociedade Vegetariana Brasileira. Esse certificado garante que o produto não contenha, em sua composição, nada de origem animal, bem como que o processo de extração e de produção seja livre de qualquer tipo de exploração animal.
O açaí do Bailique é composto apenas da polpa da fruta, sendo inteiramente puro, sem adição de açúcares, xaropes, corantes, aromas ou conservantes. A notoriedade do arquipélago na produção de açaí o fez ser incluído no Polo Tucuju, da Rota do Açaí, uma das Rotas de Integração Nacional (RIN) do Governo Federal, redes de arranjos produtivos locais associadas a cadeias produtivas estratégicas capazes de promover a inclusão produtiva e o desenvolvimento sustentável das regiões brasileiras.
O Parque Zoobotâncio Mangal das Garças, em Belém (PA), promoveu um intercâmbio especial entre corujas murucututu (Pulsatrix perspicillata), em parceria com o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Pará (HV-UFPA). A ação teve como objetivo contribuir tanto para a conservação da fauna quanto para projetos de educação ambiental e reabilitação de animais silvestres.
O Mangal recebeu da instituição uma coruja da espécie murucututu batizada de ‘Iara’, que sofreu a amputação de uma das asas em decorrência de um acidente com descarga elétrica. Devido à gravidade da lesão e a perda funcional, sua reintegração ao ambiente natural tornou-se inviável.
Agora, sob os cuidados do parque, Iara assume um novo papel: contribuir com os programas de educação ambiental, sensibilizando o público sobre os impactos das atividades humanas na fauna silvestre e a importância da conservação das espécies amazônicas.
Foto: Divulgação
Como parte do intercambio, o Parque encaminhou ao HV-UFPA a corujinha ‘Tapioca’, também da espécie murucututu, que foi assim batizada pela público, por meio de votação nas redes sociais. Ela foi abandonada nas dependências do Mangal em outubro de 2024 e, desde então, era acompanhada por profissionais.
Por apresentar plenas condições físicas e comportamentais, Tapioca será submetida a um processo de reabilitação com treinamento de caça e outras habilidades fundamentais para retorno ao habitat natural.
“A Tapioca foi acolhida e passou pela avaliação clínica inicial feita pela nossa equipe. Ela está sendo submetida a exames complementares de triagem, para que possamos conhecer melhor seu quadro de saúde. Em seguida, ela iniciará as etapas de reabilitação, sempre acompanhada de perto pelos nossos médicos veterinários e biólogos. Estamos empenhados em oferecer o melhor cuidado para que, futuramente, ela tenha a oportunidade de retornar à natureza”, declara Cinthia Távora, técnica veterinária do Setor de Animais Silvestres do HV/UFPA.
Além da Iara, o Parque possui outras três corujas da espécie murucututu que podem ser vistas durante o funcionamento Mangal, em um recinto feito especialmente feito para elas, o qual fica localizado dentro da Reserva José Márcio Ayres (borboletário).
Segundo o médico veterinário do Mangal das Garças, Camilo González, essa ação é essencial para o equilíbrio entre conservação e educação ambiental.
“A Iara agora tem um papel fundamental na conscientização da população. Mesmo não podendo mais viver na natureza, ela contribui para que mais pessoas entendam a importância de proteger esses animais. Já a Tapioca é um exemplo de recuperação. Com o treinamento adequado, ela terá a chance de voltar ao seu ambiente natural, o que é sempre o nosso objetivo principal”, explicou.
A murucututu é uma das maiores espécies de coruja da América do Sul, conhecida por seu olhar penetrante e canto grave. Com hábitos noturnos, alimenta-se principalmente de pequenos mamíferos e aves pequenas. Discreta e silenciosa, exerce um papel importante no controle de populações de roedores e insetos, sendo uma grande aliada dos ecossistemas em que vive.
O intercâmbio, que foi realizado no último dia 25, reforça o compromisso do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Turismo e Organização Social Pará 2000, que administra o Parque, em realizar ações de fomento e conservação da biodiversidade amazônica e o bem-estar dos animais silvestres.
Produção de cacau nativo em comunidade indígena do Acre. Foto: cedida
No coração da floresta Amazônica, o Acre tem se revelado uma potência no universo do cacau. Terra de biodiversidade exuberante e de povos tradicionais com saberes ancestrais, o estado aposta em um tesouro: o cacau nativo, aquele que cresce naturalmente no meio da mata densa, e o cacau de cultivo, plantado a partir de material genético de alta produtividade.
Diferente das plantações comerciais do Sudeste ou do Norte da Bahia, o cacau nativo acreano nasce de forma espontânea nas matas, principalmente nas regiões do Juruá, Tarauacá, Envira, Purus e Alto Acre.
Produção de cacau. Foto: Marlon del Aguila Guerrero/CIFOR
Visando o potencial da cultura do cacau no estado, a Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri) tem investido, desde 2023, no incentivo à cultura do cacau nativo e do cacau de colheita em todo o Acre.
“O nosso cacau guarda uma genética de alto valor, por isso identificamos que o Acre tem um potencial de crescimento. A nossa expectativa é de que o cacau se torne uma das principais cadeias produtivas do estado nos próximos anos”, disse o secretário de Agricultura, Luis Tchê.
A Rota do Cacau no Acre é um conjunto de ações que busca mapear, fortalecer e integrar os elos da cadeia produtiva do cacau. A iniciativa conecta produtores rurais, extrativistas, comunidades indígenas, agroindústrias, universidades e o poder público em uma rede que tem como objetivo impulsionar a produção sustentável e agregar valor ao cacau nativo.
Desde a produção e beneficiamento até a comercialização e exportação, a rota busca oferecer capacitação técnica, infraestrutura, certificações e abertura de mercados, tudo isso alinhado à conservação da floresta.
Mapa da Rota do Cacau no Acre. Imagem Ilustrativa: Seagri
De acordo com o chefe da Divisão de Produção Familiar da Seagri e mestre em Gestão e Conservação de Recursos Naturais, Marcos Rocha, a rota do cacau ainda está em construção. “Estamos mapeando as plantações existentes no Acre, colocando tudo isso em um banco de dados. Visitamos os produtores, dando orientação técnica, fazemos levantamentos de dados, também abordamos a questão do controle de pragas e começamos a fomentar, incentivar e orientar, de forma técnica, o plantio e manejo da floresta”, declarou.
De acordo com Marcos, projetos para o fomento à cultura cacaueira começaram a ser aprovados pelo Programa REM. Um deles vai financiar a implantação de uma agroindústria de produção de chocolate, liderada por mulheres, em Cruzeiro do Sul.
Segundo a Seagri, mais de 300 famílias foram mapeadas pela Rota do Cacau, que tem como público-alvo populações indígenas, ribeirinhos, extrativistas e produtores rurais em todo o estado.
O fruto do cacau. Foto: Divulgação/USDA
A Rota do Cacau é um projeto desenvolvido em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Universidade Federal do Acre (Ufac), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Acre (Idaf), Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), prefeituras, cooperativas e associações de produtores.
À frente de muitos desses avanços está o governo do Acre, por meio da Seagri, que tem investido em políticas públicas estratégicas para o fortalecimento da cacauicultura. Entre as ações mais relevantes estão: capacitação técnica dos produtores com práticas sustentáveis; incentivo à regularização ambiental, parcerias com instituições de pesquisa e fomento à industrialização, com apoio a mini fábricas de chocolate artesanal e cooperativas de agricultores familiares.
Produção de cacau nativo em comunidade indígena do Acre. Foto: cedida
Segundo o secretário estadual de Agricultura: “O cacau nativo é uma das nossas maiores apostas. Ele representa não apenas um produto com alto valor de mercado, mas um símbolo de desenvolvimento sustentável, que respeita a identidade cultural e ambiental do Acre”, declarou Tchê.
Este ano, a Seagri vai lançar o programa de incentivo à cultura cacaueira no Acre, o que vai incentivar e promover a cultura no estado. O programa deve conectar produtores, empreendedores e instituições públicas para a valorização do produto.
Segundo uma estimativa da Seagri, atualmente o Acre possui mais de 80 hectares de cacau de cultivo plantados e 200 hectares de cacau nativo em diversas regiões da floresta.
Mais que um produto agrícola, o cacau acreano se consolida como símbolo de identidade e inovação. Uma rota que une saberes tradicionais, ciência e empreendedorismo, mostrando que é possível desenvolver e preservar ao mesmo tempo.
A cozinheira paraense Maria Helena Galdino cresceu ao lado da mãe, no bairro do Marco em Belém (PA). Desde criança, adquiriu o hábito de observar os temperos e modos de fazer das comidas de seu território. Na mesa da família matriarcal, sempre era possível encontrar uma maniçoba, um peixe no tucupi ou um arroz paraense. Porém, ao escolher uma profissão, Maria Helena não optou pela gastronomia de imediato. Ela trabalhou vários anos no ramo calçadista, até que em 2016, trocou de profissão para cuidar da saúde da mãe. “Por que não cozinhar?”, pensou.
No quintal da casa, começou a fazer os pratos que já conhecia, como a maniçoba e o peixe frito. Não demorou muito para o local virar um sucesso da vizinhança. “Muita gente começou a dizer que iria almoçar lá no quintal. As pessoas falavam que era um tempero único, que era o ‘sabor da nega’”, conta. Com a casa sempre lotada, mãe e filha expandiram o cardápio, oferecendo mingau de milho e tapioca. Assim, nasceu o Sabor da Nega, empreendimento culinário familiar gerido por Maria Helena.
Seu trabalho com a gastronomia paraense é a definição de “Patrimônios culturais que cabem num prato”. No dia a dia, prepara comidas que estão intimamente ligadas à cultura de seu povo.
“A nossa comida paraense é muito rica, cheia de ancestralidade. Aprendemos através das gerações até o dia de hoje”.
Tanto é que são base para alguns dos bens culturais imateriais registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), como, por exemplo, o ofício das doceiras de Pelotas (RS) e o ofício das baianas do acarajé, que é originário da Bahia mas é registrado em todos os estados brasileiros. Seja no dia a dia, numa manifestação religiosa, em celebrações e festas, as comidas estão sempre presentes na cultura brasileira das cinco regiões.
“Todo grupo social tem uma comida própria, uma comida que se come em casa”, afirma Ana Claudia Alves, especialista em Preservação Cultural pelo Iphan, onde trabalhou entre 1983 e 2010. Nessas décadas de experiência, ela pôde constatar que “as pessoas podem esquecer a língua materna, mas não esquecem as comidas maternas”.
No caso de Maria Helena, a origem materna é direta. “Me espelhei em minha mãe para cozinhar”, explica. O entendimento dela é que o trabalho com alimentação é também um trabalho com a cultura. “Eu sempre digo que não trabalho com comida típica. Eu faço comida regional paraense. É como estar com o Pará em nossas mãos. É sobre quem nós somos”, define. Assim como as comidas significam identidade e ancestralidade para ela, diversos outros pratos alimentares são registrados por sua importância cultural no Brasil.
Foto: Maria Helena Galdino/Acervo pessoal
Comida é transmissão de saberes
Sabrina Silva, técnica em História pelo Departamento de Patrimônio Imaterial e Coordenadora Substituta de Registro e Revalidação do Iphan, pontua que os sistemas alimentares refletem a história e as formas de convivência de comunidades.
“Esses saberes e práticas incluem modos tradicionais de cultivar, colher e preparar alimentos, além das dinâmicas culturais que incluem o significado de determinados alimentos, a transmissão de conhecimentos e o compartilhamento de refeições. Dessa forma, o alimento se torna um elemento simbólico que conecta pessoas, sociedade e cultura”, afirma.
Nota-se que o Iphan não reconhece as comidas em si ou as receitas culinárias como patrimônios culturais, mas sim as práticas e saberes ligados à alimentação. Isso se deve a um entendimento do órgão, que considera os alimentos como parte de processos culturais. “Por isso, a identificação, o reconhecimento e o apoio devem estar voltados às referências culturais associadas à produção e ao significado dos alimentos para determinadas comunidades, que por vezes não se limita à comercialização”, explica Sabrina.
As práticas e saberes ligados à alimentação já reconhecidos como patrimônio cultural são as seguintes: Ofício das Baianas de Acarajé; Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, Serra da Canastra e Salitre/Alto Parnaíba; Produção Artesanal e Práticas Socioculturais associadas à Cajuína do Piauí e Tradições Doceiras de Pelotas. Há ainda o Sistema agrícola tradicional de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) e o Sistema agrícola tradicional do Rio Negro.
Além disso, atualmente outras quatro práticas e saberes estão em processo de registro: Ofício de Tacacazeira na Região Norte; Ofício das Quitandeiras de Minas Gerais; Modo de Saber Fazer do Queijo Artesanal Serrano de Santa Catarina e Rio Grande do Sul; e Engenhos de Farinha de Santa Catarina.
Essas tradições devem ser adicionadas aos mais de 40 bens culturais de natureza imaterial já registrados pelo Iphan. Isso se tornou possível a partir do ano de 2000, com o Decreto Presidencial 3.551 que criou a Política de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, permitindo assim que celebrações, saberes da cultura popular e outras práticas passassem pelo registro do órgão.
Para além de decretos e registros do Iphan, “o principal motivo para que esses patrimônios estejam vivos é o olhar das comunidades entendendo que é um bem cultural e pensando coletivamente como mantê-lo” afirma a historiadora Gabriella Pieroni, autora da dissertação de mestrado “Fazedores de cultura, comedores de patrimônio: Estado e sociedade civil no registro do patrimônio imaterial ligado à alimentação (2000/2016)”.
Gabriella aponta também que entre os motivos que levam as comunidades a reivindicarem o registro de um bem como patrimônio cultural está a busca por um olhar mais atento do Estado para as dificuldades locais pelas quais passam para manter suas práticas e saberes.
Quais práticas e saberes alimentares são considerados patrimônio?
Na família de Maria Helena, e de milhares outras no estado do Pará, um patrimônio cultural imaterial ligado à alimentação é o Círio de Nazaré, manifestação de fé que conta com várias celebrações e procissão em homenagem à padroeira da Amazônia. Parte importante da tradição é o “almoço do Círio”, que inclui pratos típicos como a maniçoba e o pato no tucupi – presentes no cardápio do Sabor da Nega o ano inteiro.
Já no Rio de Janeiro, a tradição do Samba, registrada pelo Iphan em 2007, é outro exemplo de reconhecimento. Como não associar uma roda de samba a um boa feijoada?
No ano de 2004, houve o primeiro registro de uma prática diretamente ligada à alimentação: o Ofício das Baianas de Acarajé. O acarajé – bolinho de feijão fradinho, cebola e sal, frito em azeite-de-dendê – é de origem africana, vindo com os escravizados durante a colonização. E são as baianas do acarajé quem preservam e perpetuam esse legado.
O dossiê destaca que esse registro expressa a relevância das raízes afro-brasileiras na cultura. “O registro do Ofício das baianas de acarajé como Patrimônio Cultural do Brasil, no Livro dos Saberes, é ato público de reconhecimento da importância do legado dos ancestrais africanos no processo histórico de formação de nossa sociedade e do valor patrimonial de um complexo universo cultural”, diz o texto.
Em 2008, foi a vez do registro do Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, Serra da Canastra e Salitre/Alto Parnaíba, que destaca a produção artesanal de queijos de leite cru com técnica de origem milenar. “Fazer e comer queijo são parte do modo de ser mineiro”, resume-se no dossiê.
Já em 2010, houve a primeira definição de um sistema agrícola como patrimônio cultural: o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro. Passando por municípios amazonenses como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos, esse sistema é comandado por diferentes povos indígenas e baseado na mandioca, que desemboca no preparo de itens essenciais na culinária local, como farinha, beiju, tucupi e caxiri.
No ano de 2014, o reconhecimento cultural veio à Produção Artesanal e Práticas Socioculturais associadas à Cajuína do Piauí. A cajuína é uma bebida não alcoólica feita a partir do suco do caju, por meio de uma produção tradicional feita por diferentes famílias em seus próprios quintais.
Em 2018, houve o registro das Tradições Doceiras de Pelotas (RS). As produções envolvem doces como: bem casado, marmelada, quindim, pessegada, ninho, camafeu, figo em calda, amanteigado, ameixa recheada, abóbora cristalizada e bolo de noiva. A tradição se desenvolveu em casas de famílias ricas, contando com as trocas entre senhoras da elite e suas cozinheiras, formada em maior parte por mulheres negras escravizadas e suas descendentes.
No mesmo ano, o Iphan reconheceu o Sistema agrícola tradicional de comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) como patrimônio cultural. Além das técnicas de cultivo e diversidade das plantas, a prática envolve a transmissão de conhecimento e de consumo alimentar através de expressões de música e dança.
Origens afro-brasileiras e indígenas na alimentação
Ao olhar para os registros citados acima, ficam evidentes as contribuições de populações indígenas, africanas e afro-brasileiras para a construção da diversidade culinária existente no país e seus impactos nas culturas populares. Mas, para Gabriella Pieroni, essa representatividade ainda precisa ser ampliada. “O Iphan deveria fazer um trabalho de fortalecer as culturas indígenas e de matriz africana nos registros das práticas alimentares, é muito importante alguma ação pensando em priorizar esses processos”, afirma.
A pesquisadora, que analisou os pedidos de registro ao Iphan ligados à alimentação entre 2000 e 2016, destaca ainda que muitos desses pedidos trazem narrativas que promovem o apagamento das culturas alimentares indígenas e afro-brasileiras. “Muitos deles vem com uma narrativa que enaltece a cozinha portuguesa, a influência dos colonizadores, como é o exemplo da tradição doceira de Pelotas (RS), que foi registrada, e no meio do processo se aprofundou essa relação com as comunidades negras, que não existia anteriormente [no pedido de registro]”, explica.
Para além dos patrimônios culturais ligados diretamente à alimentação, há aqueles que de alguma forma se relacionam com isso, conforme explica Ana Claudia Alves. É o caso, por exemplo, do Ofício das Paneleiras de Goiabeiras, que trata de mulheres do Espírito Santo que produzem panelas de barro, as quais são itens indispensáveis para receber pratos como as moquecas de peixe e a torta capixaba. “A comida sempre faz parte da festa e do cotidiano. Tem comidas cerimoniais, tem as mais festivas e tem as comidas do cotidiano”, pontua Ana Claudia.
Gabriella Pieroni destaca que entender a comida como patrimônio pode reverberar em diferentes âmbitos da sociedade.
“É muito importante reconhecer os patrimônios alimentares do Brasil. A agricultura e a alimentação contém bens culturais que contam a nossa história e a nossa identidade cultural. E também, esse olhar da educação patrimonial e da salvaguarda do patrimônio imaterial é uma ferramenta muito interessante para se pensar o combate à fome e a resiliência às mudanças climáticas”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Beatriz de Oliveira e Anna Ortega