Imagem de satélite mostra área desmatada em Mato Grosso, em março de 2025. Imagem: Reprodução/SAD Imazon
As áreas desmatadas da Amazônia tiveram um aumento de 18% nos primeiros oito meses do chamado “calendário do desmatamento”, período que por causa do regime de chuvas no bioma vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte.
Conforme dados do monitoramento por imagens de satélite do instituto de pesquisa Imazon, a derrubada passou de 1.948 km² entre agosto de 2023 e março de 2024 para 2.296 km² entre agosto de 2024 e março de 2025. Uma área maior do que Palmas, a capital do Tocantins.
Apesar do aumento, essa devastação é quase 60% menor do que a registrada entre agosto de 2020 e março de 2021, quando foram desmatados 5.552 km² — a maior destruição desde 2008, quando iniciou o monitoramento.
“Mesmo que os indicadores estejam abaixo desses picos, o crescimento observado em 2025 é um sinal de alerta. Estamos em uma janela de tempo que pode permitir a reversão desse cenário, onde as chuvas são mais frequentes na região. Logo, os distúrbios na floresta não são tão intensos quando comparamos com os meses mais secos, como de junho a outubro. Por isso, é preciso agir com urgência”, destaca a pesquisadora do Imazon Larissa Amorim.
Mato Grosso liderou desmatamento em março
Apenas em março de 2025, o desmatamento da Amazônia atingiu 167 km², uma alta de 35% em relação ao mesmo mês do ano passado, quando foram destruídos 124 km². Entre os estados, Mato Grosso liderou a destruição em março, com 65 km² perdidos (39%). Em segundo ficou o Amazonas, com 39 km² (23%), e em terceiro o Pará, com 29 km² (17%). Ou seja: apenas esses três estados concentraram 80% de toda a destruição registrada na Amazônia no mês.
Já entre os municípios, o campeão de desmatamento em março foi Apuí, no Amazonas, com 15 km² destruídos — 38% do registrado no estado. Itaituba, no Pará, ficou em segundo, com 13 km² devastados — 45% do detectado em solo paraense.
Ranking
Nome
Estado
Área (km²)
1
Apuí
AM
15
2
Itaituba
PA
13
3
Maués
AM
11
4
Colniza
MT
11
5
Nova Maringá
MT
8
6
Aripuanã
MT
5
7
Amajari
RR
5
8
Nova Mutum
MT
5
9
Cotriguaçu
MT
4
10
Itaúba
MT
4
Outro destaque negativo de março foi o desmatamento registrado no assentamento Rio Juma, no Amazonas, que atingiu 14 km², o equivalente a 1.400 campos de futebol. É uma área sete vezes maior do que a derrubada no PDS Realidade, de 2 km², o segundo assentamento mais desmatado em março, também em solo amazonense.
Já entre as unidades de conservação, a mais desmatada em março foi a Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no Pará, que teve 7 km² destruídos, o equivalente a 700 campos de futebol. O segundo território protegido mais desmatado, a APA do Lago de Tucuruí, também em solo paraense, registrou 1 km² de devastação.
“Esses dados indicam uma concentração significativa da pressão em locais específicos, que devem ser prioridade na montagem de estratégias de combate e fiscalização”, observa Manoela Athaide, pesquisadora do Imazon.
Degradação cai 90% em março, mas calendário segue em alta
A degradação florestal, ocasionada pelas queimadas e extração madeireira, atingiu em março deste ano 206 km², uma redução de 90% em relação ao mesmo mês do ano passado, que havia registrado o maior índice da série histórica para o período, de 2.120 km².
Porém, considerando o calendário de desmatamento acumulado de agosto a março, houve um aumento de 329% na degradação florestal, que passou de 7.925 km² de agosto de 2023 a março de 2024 para 34.013 km² de agosto de 2024 a março de 2025. Isso se dá principalmente por causa das grandes áreas atingidas por queimadas nos meses de setembro e outubro de 2024.
Por causa desses incêndios, a degradação florestal entre agosto de 2024 e março de 2025 também foi a maior da série histórica, que iniciou em 2008.
Entre os estados, o Pará foi o responsável por 91% da degradação registrada em março, de 188 km². Maranhão ficou em segundo lugar, com 9 km² (4 km²), e Roraima em terceiro, com 8 km² (4%). O restante ocorreu em Mato Grosso, 1 km² (1%).
No coração da cultura paraense, dois ritmos dançam entre a ancestralidade e a resistência: o carimbó e osiriá. Embora compartilhem raízes indígenas e africanas, essas manifestações possuem identidades próprias que as distinguem na música, na dança, nas vestimentas e em suas origens simbólicas.
A equipe do Portal Amazônia procurou pelas principais diferenças entre as danças que são sensações no Pará. Confira:
Carimbó
Originário da região do Salgado, próximo a Belém, o carimbó tem seu nome derivado do tupi: curi (pau oco) e mbó (furado), referindo-se ao tambor com que se marca seu ritmo envolvente.
A dança carrega a força dos povos indígenas com uma batida forte herdada dos africanos escravizados, tornando-se, ao longo do tempo, uma expressão vibrante e coletiva da cultura amazônica.
Na coreografia, o homem convida a parceira para a dança com palmas e, juntos, os casais formam uma roda animada. A mulher gira, tentando lançar a saia sobre o rosto do parceiro. Caso consiga, ele é desmoralizado e precisa deixar a roda. Um dos momentos mais esperados é a chamada ‘dança do peru’, em que o homem deve pegar um lenço com a boca, uma prova de agilidade e galanteria.
O vestuário é colorido e simples: mulheres de saias floridas e blusas brancas, homens com calças curtas e camisas estampadas. Todos dançam descalços, em uma celebração que é tanto artística quanto simbólica. Figuras como Mestre Verequete, Mestre Cupijó, Pinduca e Mestre Lucindo foram responsáveis por difundir o carimbó e adaptá-lo a sonoridades mais modernas, influenciando inclusive ritmos como a lambada e o zouk.
Se o carimbó nasce da musicalidade cotidiana, o siriá brota de um gesto de agradecimento. Em Cametá, conta-se que escravos e indígenas, após um dia de trabalho árduo, encontraram grande quantidade de siris que se deixavam apanhar facilmente. Vendo nisso um milagre, criaram uma dança para agradecer, a batizando de Siriá, uma distorção fonética típica da região amazônica.
Com base no batuque africano, o siriá apresenta um compasso que começa lento e vai acelerando, acompanhando os versos entoados durante a coreografia. Os casais fazem volteios com o corpo inclinado para os lados, em um balé que exalta a resistência cultural e a alegria de viver.
As vestimentas lembram as do carimbó, mas com variações: as mulheres usam saias rodadas com blusas rendadas, colares e enfeites na cabeça. Os homens se destacam pelos chapéus de palha adornados com flores, que as mulheres retiram em sinal de contentamento. A música, o canto e o ritmo do Siriá ainda ecoam em festas tradicionais e apresentações folclóricas.
Foto: Arquivo/Agência Pará
Expressões distintas
Embora ambos compartilhem a influência de povos originários e africanos, o carimbó e o siriá expressam diferentes narrativas: o primeiro, um jogo de conquista e brincadeira, marcado por passos coreografados e desafios simbólicos; o segundo, um agradecimento coletivo que transforma um episódio de sobrevivência em arte.
No Pará, terra de ritmos e tradições vivas, esses dois estilos continuam sendo celebrados e reinterpretados por novas gerações. Carimbó e Siriá são mais que danças: são manifestações que resistem ao tempo, fortalecendo a identidade cultural amazônica com cada batida, giro e verso entoado.
A integração da IA ao inventário florestal possibilita uma gestão mais sustentável dos castanhais nativos e de outras espécies florestais. Foto: Caio Alexandre Santos
A combinação de drones e inteligência artificial (IA) inova a realização de inventários florestais na Amazônia. Em um sobrevoo de pouco mais de duas horas, a metodologia Netflora, desenvolvida pela Embrapa Acre (AC), identificou 604 castanheiras-da-amazônia (Bertholletia excelsa) e mais de 14 mil árvores de outras espécies arbóreas em uma área de 1150 hectares na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas.
O uso dessa tecnologia representa um avanço significativo em relação aos métodos tradicionais de inventário florestal, que demandam 73 dias de trabalho e uma equipe de cinco profissionais para mapear a mesma área. A inovação não apenas reduz o tempo necessário para a coleta de dados, mas também aumenta a precisão e eficiência do monitoramento ambiental.
O mapeamento foi realizado em parceria com a Embrapa Amazônia Ocidental (AM) e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema/AM), na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã. A atividade, conduzida em fevereiro, integra o Projeto Geoflora, financiado com recursos do Fundo JBS pela Amazônia.
Segundo Evandro Orfanó, pesquisador da Embrapa Acre e um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Netflora, a integração da IA ao inventário florestal possibilita uma gestão mais sustentável dos castanhais nativos e de outras espécies florestais, além de conectar conhecimento científico aos sistemas tradicionais de uso da terra.
Castanhal digital
Os benefícios dessa inovação vão chegar diretamente à comunidade da RDS do Uatumã, que terá acesso ao inventário digital dos castanhais por meio de um aplicativo de celular. A ferramenta disponibiliza planilhas e mapas dinâmicos, e permite que os extrativistas localizem com precisão as castanheiras e outras espécies de interesse dentro da floresta.
“Por meio do aplicativo será possível visualizar a localização exata das árvores e se orientar na floresta da mesma forma que navegamos em uma cidade em busca de um endereço. Cada árvore mapeada passa a ter um endereço único, representado por coordenadas geográficas”, explica Orfanó.
Além de facilitar a coleta, esse sistema de georreferenciamento otimiza rotas e reduz o esforço físico dos extrativistas com longas caminhadas. A digitalização das informações também contribui para um monitoramento mais preciso da comunidade das áreas de extração, aspecto que auxilia na preservação dos recursos naturais e possibilita que a exploração dos castanhais seja realizada de forma sustentável.
Mais de 70 mil hectares de floresta já foram mapeados na Amazônia
O inventário florestal tradicional exige um grande esforço humano, com uma equipe de cinco pessoas levando um dia inteiro para identificar e localizar as árvores em uma área de aproximadamente 20 hectares. De acordo com Orfanó, esse processo é demorado e oneroso, o que desestimula empreendedores e, principalmente, comunidades locais a adotarem ferramentas de planejamento florestal.
Foto: Caio Alexandre Santos
No entanto, com a adoção do NetFlora, essa realidade mudou rapidamente. “Atualmente, é possível mapear até 3.500 hectares por dia e produzir informações detalhadas sobre o inventário florestal, como reconhecimento de espécies, localização geográfica, métricas e mapas, em uma velocidade de 2 hectares por segundo”, complementa.
O impacto dessa inovação já pode ser visto na prática. Mais de 70 mil hectares de floresta na Amazônia já foram mapeados, resultando na coleta de um vasto banco de dados de imagens de espécies florestais, captadas por câmeras RGB a bordo de drones (ortofotos). “Além de aprimorar a precisão dos inventários, essa tecnologia reduz cerca de 90% dos custos”, enfatiza o pesquisador.
Otimização do manejo
Um dos principais produtos extraídos na região Amazônica é a castanha-da-amazônia (também conhecida como castanha-do-pará ou castanha-do-brasil), que desempenha um papel vital na bioeconomia local. A coleta e a comercialização desse recurso natural é o principal sustento de diversas famílias agroextrativistas, contribuindo para a melhoria da renda e fomentando práticas sustentáveis de uso dos recursos naturais.
Além do valor econômico, a castanha-do-amazônia está profundamente ligada aos saberes tradicionais das comunidades locais, que se reflete na relação harmoniosa entre o homem e a floresta. Essa conexão é fundamental para a preservação cultural e a transmissão de conhecimentos entre gerações.
A chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Amazônia Ocidental, Kátia Emídio da Silva, coordena o projeto “Otimização da Coleta Extrativista da Castanha-do-Brasil no Amazonas“, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). O objetivo principal da iniciativa é validar o uso de cabos aéreos para o transporte das castanhas-da-amazônia em áreas de difícil acesso, a fim de minimizar o esforço físico dos agroextrativistas.
De acordo com a pesquisadora, tradicionalmente, os trabalhadores carregam sacos ou paneiros de castanha, atividade que, ao longo do tempo, pode causar sérios problemas ergonômicos, como dores na coluna.
“Nossa meta é reduzir esse impacto e tornar a atividade menos exaustiva. A parceria com a Embrapa Acre, além de facilitar a instalação dos cabos aéreos – semelhantes a tirolesas-, dentro da floresta, resultou no mapeamento preciso das castanheiras. Com essas informações, os extrativistas poderão ampliar as áreas de coleta em outras regiões da reserva ainda inexploradas”, destaca.
Outro aspecto apontado pela pesquisadora é que novas tecnologias podem atrair jovens para o extrativismo, que hoje não querem mais continuar na atividade dos pais, especialmente pelo grande esforço físico exigido na coleta e transporte primário da castanha-da amazônia, devido ao peso dos produtos e às longas distâncias.”, afirma.
Silva pontua ainda que, com a varredura do Netflora, novas espécies florestais de interesse comercial foram identificadas, como breu, baru e copaíba, entre outras, e também poderão ser manejadas na Reserva do Uatumã. A expectativa é que o mapeamento mais amplo das espécies na reserva auxilie os extrativistas na estimativa de produção e coleta, e possa trazer benefícios significativos para a comunidade local.
A identificação das castanheiras, no ambiente natural, não é uma tarefa fácil, devido à grande diversidade florística existente nas florestas tropicais que pode chegar a uma multiplicidade de até 300 espécies por hectare. “Essa configuração se torna um dos principais desafios durante a realização do inventário”, observa a pesquisadora.
Integração entre ciência e saberes tradicionais
A integração da inteligência artificial ao inventário florestal representa um avanço significativo para a gestão sustentável dos recursos naturais. Para Orfanó, essa tecnologia não apenas moderniza os métodos tradicionais de mapeamento, mas também fortalece as comunidades locais, oferecendo ferramentas que facilitam e aprimoram o seu trabalho diário.
Com acesso a dados precisos sobre a localização e distribuição das castanheiras e de outras espécies de interesse, os extrativistas poderão ampliar suas áreas de coleta de maneira organizada e responsável. Essa iniciativa promove uma exploração mais eficiente e sustentável desses recursos naturais, além de reduzir impactos ambientais e assegurar a conservação da floresta a longo prazo.
“Mais do que uma inovação tecnológica, esse projeto representa um avanço na integração do conhecimento científico com o saber tradicional, promovendo o uso da terra de forma equilibrada e sustentável”, destaca o pesquisador.
IA amplia conhecimento sobre a diversidade da floresta amazônica
A realização de novos voos em diferentes áreas de floresta tem sido fundamental para expandir o banco de dados do Netflora. Os primeiros treinamentos dos algoritmos começaram com cerca de 30 mil imagens, mas, com os novos sobrevoos, esse número mais que dobrou. A meta dos pesquisadores é alcançar entre 100 mil e 150 mil imagens, número que permitirá treinar os algoritmos de forma mais robusta e ampliar a aplicação da ferramenta em diferentes biomas.
Orfanó enfatiza que a IA já demonstrou uma capacidade avançada de identificar padrões regionais e realizar comparações entre espécies semelhantes. “Por exemplo, já é possível reconhecer a copa de uma palmeira da região Nordeste e classificá-la corretamente, mesmo em áreas nunca antes analisadas”, relata.
Imagem: Evandro Orfano
O pesquisador ainda explica que o sistema foi treinado para identificar espécies com base em dados provenientes de diversas regiões, demonstrando um grande potencial para mapear e classificar automaticamente novas áreas. “A IA reconhece padrões específicos, aspecto que facilita a identificação de novas espécies e o enriquecimento contínuo do banco de dados do Netflora”, acrescenta.
Outro avanço significativo foi a análise das imagens coletadas pelos drones, que, ao serem cruzadas com dados existentes, possibilitaram um enriquecimento substancial do banco de dados. Dessa forma, além das espécies já conhecidas, o algoritmo identificou muitas outras, incluindo diferentes tipos de palmeiras, clareiras e árvores mortas, ampliando o conhecimento sobre a diversidade da floresta amazônica.
Como utilizar a metodologia
De livre acesso, o Netflora está disponível no repositório do GitHub e pode ser facilmente executado por meio de um Notebook Colab simplificado (plataforma colaborativa aberta e gratuita, hospedada na nuvem do Google).
O uso da metodologia não demanda conhecimentos especializados, o passo a passo para sua adoção poderá ser conferido no curso Detecção de espécies florestais com uso do Netflora, de acesso gratuito, na plataforma e-campo, ambiente de aprendizagem virtual da Embrapa. Para mais informações sobre como utilizar os algoritmos treinados, acesse a página do Netflora.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Celular acoplado em caixa fabricada com impressão 3D para captura de imagens de amostras de café. Foto: Michel Rocha Baqueta
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de cafés da espécie canéfora (Coffea canephora) e também um dos maiores produtores de conhecimento sobre o tema. Durante o doutorado de Michel Rocha Baqueta na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp), por exemplo, foram publicados dez artigos em diferentes revistas científicas internacionais.
Em um deles, Baqueta e seus colegas usam imagens digitais, obtidas com um celular comum, para autenticar a origem geográfica dos cafés canéforas produzidos por indígenas em Rondônia, bem como para capturar adulterações no produto.
“Nosso método é baseado no sistema RGB [red, green and blue], que permite a obtenção de coordenadas de cores em dispositivos eletrônicos como celulares por meio de uma imagem, por exemplo. A foto é feita colocando-se a amostra [o café moído] em um dispositivo projetado com tecnologia de impressão 3D acoplado a um celular. O projeto do dispositivo foi criado para manter a análise sob condições de iluminação controladas e padronizar a distância e outras variáveis que são importantes nesse tipo de ensaio. As fotos carregam informações físicas sobre as amostras envolvendo medidas de colorimetria. Extraímos essas coordenadas de cor no programa de ciência de dados que utilizamos e criamos um modelo preditivo. A partir disso, conseguimos criar um sinal que fornece informação sobre aquela amostra e conseguimos treinar o modelo. É o que se chama de machine learning. Temos um grupo enorme de amostras autênticas e não autênticas e criamos um banco de dados. Quando estávamos com o modelo pronto e ‘treinado’, testamos as amostras restantes – já sabíamos previamente quais estavam adulteradas, e com o quê. As características do café apareceram na imagem e os nossos softwares conseguiram capturá-la. O modelo acertou em 95% das vezes”, afirma Baqueta.
A professora Juliana Azevedo Lima Pallone, da Unicamp, explica que esse modelo específico foi criado para essas amostras de café canéfora e para adulterantes como o café arábica (Coffea arabica), a borra de café, o café canéfora de baixa qualidade, a casca de café, a semente de açaí, o milho e a soja, mas pode ser adaptado. “Com base em informações sobre adulterações em cafés, produzimos amostras adulteradas em laboratório e desenvolvemos as técnicas. O modelo pode ser adaptado para detectar ‘cafés fake’, basta que seja ajustado e ‘treinado’ com outras amostras e outros adulterantes”, conta.
Imagem de amostra de café capturada pelo celular para análise. Foto: Michel Rocha Baqueta
Os demais estudos de Baqueta e colegas se baseiam em análises químicas, lastreadas em diferentes técnicas analíticas instrumentais e características sensoriais de cafés canéforas produzidos por cafeicultores de Rondônia (indígenas e não indígenas), Espírito Santo e Bahia. Sua tese de doutorado traz informações sobre como metabólitos, minerais essenciais, propriedades sensoriais e propriedades espectrais contribuem para identificar a origem e as características particulares dos cafés canéforas do Brasil.
O café da espécie canéfora, que possui as variedades robusta e conilon, é tradicionalmente usado em blends ou para a produção de café solúvel, sendo até pouco tempo considerado de menor qualidade. Trata-se de uma espécie resistente, que tem alta produtividade em regiões tropicais, e vem ganhando um novo protagonismo especialmente no Brasil, tornando o país, que já é o primeiro produtor mundial de arábica, uma referência também no segmento de canéfora de qualidade.
Os cafés especiais são classificados com base em suas características sensoriais. Porém, no caso de indicação geográfica ou de procedência do produto, a aplicação de testes sensoriais não é eficaz, pois não fornece informações sobre a origem do café. Os estudos de Baqueta e equipe procuraram transpor as dificuldades associadas à autenticação de cafés canéforas especiais, com destaque para os que apresentam indicação geográfica ou denominação de origem, uma vez que esses cafés começam a aparecer no mercado.
Indígenas
Segundo Baqueta, um dos pontos a destacar é que os canéforas produzidos por indígenas em Rondônia são de qualidade singular e têm características muito distintas dos cafés da mesma espécie produzidos no mesmo Estado ou em outras regiões do Brasil.
“O estudo integrado dos metabólitos, da fração inorgânica, das informações espectroquímicas e a análise do perfil sensorial evidenciaram como os terroirs amazônicos imprimem características únicas aos cafés canéforas cultivados por indígenas, diferenciando-os dos demais cafés produzidos na região amazônica e em outros locais. Isso está relacionado a condições de cultivo e de ambiente, bem como de uso do solo”, revela Baqueta.
Segundo ele, a sua tese é a primeira no Brasil a estudar quimicamente um café cultivado por indígenas. “A parceria da Embrapa com os indígenas de Rondônia data de 2015, mais ou menos, e o café demora três anos para produzir. São os primeiros dados desse tipo que temos no Brasil. E indicam que esse café tem alto potencial para o mercado premium.”
Financiado pela FAPESP por meio de três projetos (19/21062-0, 22/04068-8 e 22/03268-3), o trabalho de Baqueta mostrou ainda que os canéforas do Espírito Santo, da Bahia e de Rondônia (principais produtores da espécie no Brasil) são diferentes quimicamente de todos os arábicas avaliados pela equipe. “Tínhamos, na amostragem, arábicas especiais e canéforas especiais, de vários Estados. Sensorialmente, os canéforas que avaliamos são comparáveis aos arábicas no que tange à pontuação que define os cafés especiais. Eles podem ser vendidos como café especial”.
Na classificação internacional elaborada pela Specialty Coffee Association of America (SCAA), a pontuação que a bebida atinge ao final da degustação vai de 0 a 100. Os cafés que atingem uma nota final maior que 80 pontos são considerados especiais. Produtos entre 70 e 80 pontos são considerados cafés comerciais finos. A faixa entre 60 e 70 pontos refere-se aos cafés comerciais e, por fim, bebidas que atingem de 60 pontos para baixo são consideradas inferiores.
Os cientistas utilizaram técnicas avançadas de análise química e ciência de dados pelas quais foi possível identificar, entre os cafés canéforas brasileiros, padrões e variáveis importantes que os tornam distintos uns dos outros, e também distintos em relação aos cafés arábicas.
“A ideia central foi estudar, entre as diversas técnicas analíticas, qual seria o desempenho de cada uma e a melhor para identificar a origem, verificar autenticidade de indicação de procedência e classificar os canéforas brasileiros, que estão começando a aparecer no mercado de cafés especiais. As comparações foram realizadas usando ferramentas que envolvem ciência de dados, porque a quantidade de dados para processamento é imensa. Nós indicamos qual a melhor forma de autenticar os produtos, conectando esse processo à composição química de orgânicos e inorgânicos dos canéforas”, resume Pallone.
Entre as diversas técnicas usadas está a espectroscopia na região do infravermelho (próximo e médio), incluindo um equipamento portátil. Os cientistas também trabalharam com o espectro ultravioleta visível, com espectrometria de absorção atômica (técnica que provê informações sobre os minerais contidos no café), espectrometria de massas (que informa a composição orgânica) e ressonância magnética nuclear (geralmente para identificar metabólitos secundários). Todas as técnicas foram aplicadas associadas a ferramentas de quimiometria (aplicação de métodos estatísticos ou matemáticos para interpretar dados químicos).
“Em alguns casos, nós trabalhamos com um extrato, o mais próximo possível da bebida que as pessoas consomem. E, para outras avaliações, empregamos o pó de café torrado para realizar uma análise química direta”, esclarece Baqueta. A equipe fez essa abordagem de identificação de origem e procedência, bem como de detecção de adulteração, pensando na inserção da tecnologia no processo da indústria, no controle de qualidade interno e até mesmo para exportação. “Fizemos parte do trabalho com o café verde, que é exportado. A ideia foi criar métodos que possam ser usados pelos produtores e agências de certificação.”
Adulteração
O grupo deu especial atenção à detecção de adulteração, só que invertendo os papéis, já que, até hoje, os estudos feitos sobre o tema no Brasil enfocavam os canéforas como adulterante dos arábicas.
“E se a soja, o arábica, o milho, a casca de café, entre outros, forem usados para alterar o café canéfora especial? Nossos métodos conseguiram identificar até 1% de adulteração, que é um teor muito baixo, muito sutil. Conseguimos detectar impurezas que foram adicionadas como adulterantes em cafés canéforas especiais de Rondônia e Espírito Santo e demonstrar que o próprio canéfora do Espírito Santo poderia ser usado para adulterar o café conilon da Amazônia. As técnicas analíticas aplicadas permitiram identificar a alteração de conilon do Espírito Santo como se fosse café de terra indígena da Amazônia, caso isso possa ocorrer”, ressalta Pallone.
Ela revela que um adulterante surgido nos últimos anos é a semente de açaí torrada. “Conseguimos detectar a adulteração por semente de açaí, casca de café, soja, milho e canéfora de baixa qualidade em cafés canéforas especiais. Preparamos diversas amostras adulteradas em nosso laboratório, com diferentes proporções dos adulterantes, testamos e verificamos que os modelos funcionaram em todos os casos.”
Café fake
Os preços do café têm subido devido a fatores como mudanças climáticas, oscilações na produção e aumento da demanda global. Segundo os cientistas, esse cenário favorece a proliferação de práticas fraudulentas, como a adulteração com insumos mais baratos e que não são café. A prática compromete a autenticidade do produto e engana consumidores, que pagam mais por uma bebida que não corresponde ao padrão esperado.
“Além disso, já podemos notar nas redes sociais o compartilhamento de receitas em que matérias-primas alternativas são torradas a ponto de carbonizar, visando a criação de uma bebida que substitua o café. Essa prática gera preocupações para profissionais das áreas de controle de qualidade e segurança do alimento, pois o processo inadequado de torrefação pode levar à formação de compostos tóxicos”, alerta Baqueta, ressaltando que o fenômeno do café fake tem se tornado uma preocupação crescente, pois não se sabe os efeitos do seu consumo no organismo.
Para ele, essa realidade reforça a necessidade de avanços em métodos analíticos para detecção de fraudes e de uma regulamentação mais rigorosa para garantir a transparência e a qualidade na cadeia produtiva.
Os dez artigos publicados pelo grupo podem ser acessados em:
Spectroscopic and sensory characterization of Brazilian Coffea canephora terroir and botanical varieties produced in the Amazon and Espírito Santo implementing multi-block approaches. (Journal of Food Composition and Analysis): www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0889157524004769?via%3Dihub.
André Guimarães, diretor executivo do IPAM. Foto: Reprodução/IPAM
Proteger as florestas é fundamental para assegurar a produtividade do agronegócio brasileiro, afirmou André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), durante o evento ‘GLF FORESTS 2025: Definindo a próxima década de ação‘, organizado pelo Fórum Global de Paisagens, em Bonn, na Alemanha.
O encontro debateu temas relacionados à valorização das florestas e à integração entre áreas produtivas e vegetação nativa, com foco na criação de paisagens resilientes às mudanças climáticas.
“Primeiro, não há como pensar em alcançar a meta de 1,5°C sem as florestas tropicais. Sem a Amazônia, não existe Acordo de Paris. Além disso, sem essas florestas, não teremos segurança alimentar global. Isso porque entre 40% e 50% da produção mundial de alimentos vem de países tropicais, onde, na maioria dos casos, a agricultura não é irrigada e, portanto, depende das chuvas geradas pelas florestas. Tudo está interconectado”, destacou Guimarães.
“Temos regiões do Cerrado e da Amazônia em que foi registrado um aumento de até 4°C na temperatura média. Isso significa que o cultivo de soja e milho nessas áreas já não é viável ou lucrativo. Precisamos, portanto, mudar o paradigma e enxergar as florestas como parte do sistema produtivo. Quanto mais floresta tivermos, mais produção, mais água e mais controle natural de pragas teremos”, alertou.
O Fórum Global de Paisagens é uma organização multissetorial que apoia o desenvolvimento de paisagens produtivas e resilientes às mudanças climáticas. A entidade também atua na criação de mecanismos de financiamento para a proteção das florestas e estratégias de transição energética. Atualmente, o fórum é composto por mais de 10 mil organizações em 185 países. O evento foi gravado e está disponível no canal do GLF no YouTube.
Mantendo o desmatamento sob controle
Com a recente redução dos índices nacionais de desmatamento, Guimarães defende a criação de mecanismos para evitar que a perda de vegetação nativa volte a crescer, além da necessidade de adaptar as políticas de combate ao desmatamento.
“Se reuníssemos todo o dinheiro da filantropia mundial, ainda assim teríamos apenas uma fração dos recursos necessários para garantir a segurança ambiental do planeta. Mas é melhor investir agora do que lidar com um futuro incerto. Combater o desmatamento tem duas frentes: precisamos reduzi-lo, por meio de políticas de comando e controle e da aplicação da lei. No entanto, para mantê-lo em níveis baixos, são necessárias outras ferramentas. Precisamos substituir práticas insustentáveis por modelos mais sustentáveis de uso do solo, e isso exige investimentos”, afirmou.
Nesse contexto, iniciativas como o programa CONSERV, que remunera produtores rurais pela conservação de áreas de vegetação que poderiam ser legalmente desmatadas, podem servir como modelo para o futuro da conservação florestal. Desde 2020, o programa já firmou 21 contratos com produtores de Mato Grosso e do Pará, evitando a emissão de mais de 2 milhões de toneladas de CO₂ e protegendo mais de 20 mil hectares de vegetação.
Da mesma forma, o projeto Global Assessment from Local Observations (GALO) também pode ser fundamental para compreender a relação entre áreas produtivas e naturais no campo. A iniciativa, conduzida na Estação de Pesquisa Tanguro, investiga como as dinâmicas dos biomas Amazônia e Cerrado são influenciadas por fatores como o clima e a produtividade agrícola.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Lucas Guaraldo
Procissão durante a abertura do Sínodo para a Amazônia, em Roma (2019). Foto: Guilherme Cavalli/Cimi
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
Convocado pelo Papa Francisco, o Sínodo dos Bispos Assembleia Especial para a Região Amazônia, sob o tema “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral”, foi realizado em Roma, durante 21 dias, em outubro de 2019. O clima foi de trocas abertas, livres e respeitosas entre bispos, pastores da Amazônia, missionários e missionárias, leigos e leigas, e representantes dos povos indígenas. No encerramento do Sínodo, em 26 de outubro de 2019, o Sumo Pontífice enfatizou que o mote escolhido para o conclave animou bispos de todo o mundo a buscarem acesso a um estudo produzido por 13 autores, três dos quais são brasileiros e membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam).
O documento final salienta, dentre pontos transcendentais discutidos e decididos, que, “na Amazônia, a vida está inserida, ligada e integrada ao território, que, como espaço físico vital e nutritivo, é possibilidade, sustento e limite de vida”. A Amazônia é um extenso território com uma população estimada em 33.600.000 habitantes, dos quais entre 2 e 2,5 milhões são indígenas. A Pan-Amazônia, composta pela bacia do rio Amazonas e todos os seus afluentes, estende-se por 9 países: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Brasil, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.
Ressalta, por outro lado, que “a região amazônica atualmente é a segunda área mais vulnerável do mundo em relação às mudanças climáticas devido à ação direta do homem. Particularmente, a água e a terra desta região alimentam e sustentam a natureza, a vida e as culturas de inúmeras comunidades indígenas, camponesas, afrodescendentes (quilombolas), caboclos, assentados, ribeirinhos e habitantes dos centros urbanos. A água, fonte de vida, possui um rico significado simbólico. Na região amazônica, o ciclo da água é o eixo de interligação. Interliga ecossistemas, culturas e o desenvolvimento do território”.
O Sínodo dos Bispos para a Amazônia considera que a floresta amazônica representa “o coração biológico da terra, embora cada vez mais ameaçada”. Encontra-se em uma corrida desenfreada para a morte. Requer mudanças radicais de suma urgência e um novo direcionamento que permita salvá-la. Está cientificamente comprovado que o desaparecimento do bioma Amazônia trará um impacto catastrófico para o planeta!” De acordo com o documento final, “o caminho sinodal do Povo de Deus envolveu toda a Igreja no território, os Bispos, os missionários e missionárias, os membros das Igrejas de outras confissões cristãs, os leigos e leigas, e muitos representantes dos povos indígenas, em torno do documento de consulta que inspirou o “Instrumentum Laboris”.
O Papa Francisco, no encerramento do Sínodo, confirmou a decisão de criar um órgão dentro da Santa Sé dedicado exclusivamente aos cuidados com a Amazônia, com o objetivo de combater todo tipo de injustiça, exploração de pessoas e destruição da identidade cultural. Observou que “este é um momento de graça para exercitar a escuta recíproca, o diálogo sincero e o discernimento comunitário para o bem comum do Povo de Deus na Região Amazônica, e assim continuar caminhando sob o impulso do Espírito Santo nas pequenas comunidades, paróquias, dioceses, vicariatos, prelazias e em toda a região”.
O Sínodo Amazônia, por inspiração do Papa Francisco, salienta o documento final, “quer se constituir em forte apelo para que todos os batizados da Amazônia sejam discípulos missionários”. Observa que “o envio à missão é inerente ao batismo e é para todos os batizados. Por Ele todos nós recebemos a mesma dignidade de filhos e filhas de Deus, e ninguém pode ser excluído da missão de Jesus aos seus discípulos. “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). Por isso acreditamos que é necessário gerar um maior impulso missionário entre as vocações nativas; a Amazônia também deve ser evangelizada pelos amazônidas”.
Francisco lembrou sua encíclica “Laudato Si” (Louvado Seja) publicada em 2015, como um marco balizador do pensamento ecológico segundo as bases do catolicismo. O título refere-se às preocupações do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum (meio ambiente). A frase é uma citação do “Cântico das Criaturas”, de São Francisco de Assis, que louva a Deus por todas as criaturas. A encíclica critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável, e apela à mudança e unificação global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas.
Tais convicções marcaram o Papado de Francisco, particularmente ao expressar seu amor por nossa região nos seguintes termos: “Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas. Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos. Sonho com uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e a sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana”.
A preocupação da Igreja com a Amazônia, entretanto, vem de longe. “Cristo aponta para a Amazônia” (Paulo VI, Mensagem aos peregrinos de Belém, 10.10.1971). Por conseguinte, de acordo com o texto do documento final, a escuta da Amazônia, no espírito próprio do discípulo e à luz da Palavra de Deus e da Tradição, nos conduz a uma profunda conversão dos nossos planos e estruturas a Cristo e ao seu Evangelho. Que o governo brasileiro não despreze os objetivos e as recomendações do Sínodo em favor do desenvolvimento sustentável da região e jamais esqueça e honre os determinados compromissos deste Papa que foi argentino, mas também amazônico. Hoje encontra-se ao lado do Pai, mas seus ensinamentos e o amor pela Amazônia irão reverberar por toda a eternidade.
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
Foto: Reprodução/Livro “O Estado Independente do Acre”
José Plácido de Castro nasceu em 12 de dezembro de 1873, em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, e é lembrado como um dos principais heróis na história do Brasil, especialmente na luta pela integração do Acre ao território nacional. Sua trajetória é marcada por determinação e espírito de liderança.
Aos 12 anos, após a morte de seu pai, Plácido já era responsável por sustentar sua mãe e seus seis irmãos. Com 16 anos, ingressou na carreira militar e rapidamente se destacou no 1º Regimento de Artilharia de Campanha, o ‘Boi de Botas’, em São Gabriel (RS).
Durante a Revolução Federalista, ele se alistou ao lado dos Maragatos, oposição ao governo de Floriano Peixoto, onde atingiu o posto de major. Embora tenha sido derrotado, Plácido recusou a anistia oferecida e optou por abandonar a carreira militar, em busca de novos horizontes.
José Plácido na infância e juventude. Foto: Reprodução/Livro “O Estado Independente do Acre”
Sua jornada o levou ao Norte do Brasil e chegou ao Acre em 1899, em busca de novas oportunidades como agrimensor (profissional que se dedica à medição, demarcação e registro de áreas, sejam rurais ou urbanas, com o objetivo de garantir a precisão e legalidade das propriedades).
A região vivia um período tenso, com disputas territoriais envolvendo o Brasil, a Bolívia e os Estados Unidos, especialmente no contexto do ciclo da borracha.
Em 1899, moradores do Acre, liderados por Luis Gálvez Rodríguez de Arias, proclamaram o Estado Independente do Acre. A intervenção militar brasileira, seguida de uma tentativa fracassada de reconquista boliviana, criou um cenário de instabilidade que Plácido de Castro não ignorou.
Ao tomar conhecimento do acordo entre Bolívia e Estados Unidos para arrendar o Acre, Plácido se levantou contra o que considerava um perigo para a soberania nacional e iniciou uma revolução armada. Com o apoio de seringueiros e outros grupos locais, ele derrotou as forças bolivianas e proclamou pela terceira vez a independência do Acre. Sua luta culminou com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 1903, que garantiu ao Brasil a posse definitiva do território.
Em 1906, Plácido de Castro foi nomeado governador do Acre, mas manteve-se discreto e rejeitou honrarias no Rio de Janeiro. No entanto, sua vida foi tragicamente interrompida em 1908, quando foi assassinado em uma emboscada aos 35 anos. O crime nunca foi esclarecido e, até hoje, sua morte permanece impune.
Outro aspecto do Exército acreano em marcha. J. Plácido de Castro está montado. Foto: Reprodução/Livro ‘O Estado Independente do Acre’
Apesar da perda precoce, o legado de Plácido de Castro não foi esquecido. Em 2004, mais de um século após sua morte, ele foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília, reconhecendo sua contribuição vital para a história nacional. Plácido também é homenageado como patrono do 4.º Batalhão de Infantaria de Selva e da Polícia Militar do Acre, além de dar nome a um município localizado no estado.
Sua vida foi retratada em diversas produções culturais, como a minissérie ‘Amazônia, de Galvez a Chico Mendes’, que destaca sua importância na formação do Acre como parte do Brasil. A memória de Plácido de Castro, simbolizando a luta pela soberania e pela justiça, continua viva em monumentos, como o busto erguido em Porto Alegre, e é motivo de orgulho para todos os brasileiros.
De acordo com o livro ‘O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: Excertos Históricos’, de Genesco de Castro, o legado de Plácido de Castro reflete a importância da coragem e da determinação em momentos de crise, sendo um exemplo perene de heroísmo nacional. Confira a obra na íntegra:
Lançado em 1997, o refrigerante brasileiro Kuat carrega muito mais do que o sabor do guaraná típico da região amazônica — ele traz em seu nome uma herança cultural enraizada na mitologia indígena brasileira. Criado pela Coca-Cola Brasil, o Kuat rapidamente se destacou no mercado nacional.
Seu nome, de sonoridade marcante e única, vem da palavra tupi-guarani “Kuat”, que significa “irmão gêmeo da lua”. E essa escolha não foi por acaso.
Em um vídeo publicado em suas redes sociais, o jornalista Marcelo Duarte explicou que o nome do refrigerante é inspirado diretamente em uma lenda indígena associada à região amazônica.
Segundo a lenda, Kuat e Iae (ou Aê) eram irmãos gêmeos determinados a capturar um pássaro mágico responsável por controlar o ciclo entre dia e noite.
Após conseguirem aprisionar a ave, os irmãos dividiram seus destinos: Kuat se tornou o deus do sol, regendo a luz, o calor e a vida, enquanto Iae se transformou no deus da lua, soberano da noite.
A associação entre Kuat e o sol revela a intenção simbólica por trás da marca — conectar o refrigerante à energia, vitalidade e força da natureza.
O guaraná, planta nativa da floresta amazônica e conhecida por seu potencial estimulante, é cultivado na região Norte do país e carrega consigo esse poder ancestral, reforçado pela narrativa mitológica escolhida para batizar o produto.
Aspirador para coleta de insetos de solo. Foto: César Favacho/@bio_insecta
Uma equipe de 34 pesquisadores passou seis dias na Amazônia, mais precisamente na Estação Experimental de Silvicultura Tropical, também conhecida como Reserva ZF2 do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), para coletar espécies de insetos que vivem em uma área de 10 mil hectares da maior floresta tropical do mundo.
Ambos buscam revelar e monitorar a diversidade de insetos que ocupam os diferentes estratos acima do solo, até cerca de 30 metros de altura, para a sua conservação. Segundo os pesquisadores, a copa das árvores (dossel) das florestas tropicais é um dos ambientes terrestres ainda menos estudados pela ciência.
A unidade de conservação em que ocorreu a expedição fica a cerca de 80 quilômetros ao norte de Manaus (AM), na Amazônia Central. O grupo, composto exclusivamente de entomólogos (especialistas em insetos), coletou mais de 1.400 amostras, cada uma formada por dezenas a milhares de insetos dos diferentes grupos (ordens).
A empreitada teve como objetivo a coleta da diversidade de insetos que vivem em ambientes (hábitats) específicos da floresta, como corpos d´água e proximidades, no solo, em troncos, perto de plantas específicas e até acima da copa das árvores. O material foi todo preservado para análises moleculares posteriores em laboratório, o que permitirá aumentar a precisão e acelerar o trabalho de identificação das espécies.
“A gente coletou uma quantidade muito grande de insetos utilizando dezenas de métodos. Esse material vai demorar um pouco para ser analisado, mas conforme os resultados forem sendo divulgados certamente haverá um incremento absurdo de conhecimento sobre a biodiversidade que existe na área”, explica José Albertino Rafael, pesquisador do Inpa e coordenador do projeto BioDossel.
Os projetos BioInsecta/BioDossel deverão se tornar um marco de referência em projetos de grande escala de biodiversidade na literatura científica mundial, tanto em relação ao número de espécies coletadas quanto identificadas e com DNA sequenciado, bem como de novas espécies reveladas. É previsto o estudo do material genético de aproximadamente 500 mil exemplares.
Essa é provavelmente a maior expedição científica em termos do número de entomólogos especialistas em diferentes grupos de insetos na Floresta Amazônica, cobrindo cerca de 20 dentre as 28 ordens reconhecidas para o Brasil. Os pesquisadores estimam que metade dos exemplares coletados durante os seis dias de trabalho de campo seja de espécies novas, isto é, ainda desconhecidas pela ciência.
“Algumas técnicas de coleta recolheram exemplares um a um; e algumas das armadilhas capturaram milhares de exemplares. O número de espécimes coletados ainda é difícil de estimar”, declara Dalton de Souza Amorim, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, que coordena o projeto BioInsecta.
“O mais importante é que as técnicas utilizadas amostraram espécies que não seriam coletadas mesmo após os 14 meses de amostragens nas armadilhas em cascata. Isso ajudará a responder de maneira mais consistente a pergunta sobre o número de espécies de insetos existentes em uma área de 10 mil hectares de floresta tropical”, explica Amorim.
As armadilhas em cascata são o principal método de coleta utilizado nos projetos BioInsecta e BioDossel. Consistem em um sistema de cinco armadilhas integradas em uma cascata, que é içada até a copa das árvores e permanece montada durante 14 meses. Cada armadilha da cascata tem uma altura de 2 metros, permitindo a coleta dos insetos em cinco estratos ou “andares” da floresta – próximo ao nível do solo (0-2 m); no sub-bosque (7-9 m); e em três estratos do dossel da floresta (14-16 m; 21-23 m; e entre 28-30 m). Além da composição (identidade) e do número de espécies, esse sistema de armadilhas também permitirá revelar pela primeira vez como a diversidade de insetos está distribuída ou organizada verticalmente na floresta.
As cascatas de armadilhas foram instaladas em julho de 2024 nas três áreas de estudo e permanecerão montadas até setembro de 2025. A cada 14 dias, os locais de estudo são visitados por pesquisadores para a retirada dos espécimes coletados nos cinco estratos. Contagens preliminares apontam uma média de 59 mil insetos capturados em cada local de estudo a cada 14 dias.
Estima-se a coleta de mais de 5,5 milhões de exemplares pelas cascatas, além dos espécimes coletados durante a expedição, quando cada pesquisador utilizou uma combinação de técnicas mais adequada para o grupo de insetos de sua especialidade, ultrapassando 30 métodos diferentes.
Os pesquisadores se dividiram em equipes que se alternavam em trabalho diurno e noturno, de acordo com o hábito (período de atividade) dos insetos do grupo de sua especialidade e/ou para o uso de armadilhas específicas de coleta considerando os micro-habitats ocupados pelos insetos das ordens de interesse – por exemplo, besouros (coleópteros), percevejos e cigarras (hemípteros), moscas e mosquitos (dípteros), abelhas e formigas (himenópteros), borboletas e mariposas (lepidópteros) etc.
Foram usadas armadilhas de busca ativa diurna e noturna para procurar por insetos no solo, na vegetação, na água e suas proximidades. E foram instaladas armadilhas no ambiente, que eram visitadas regularmente depois de algumas horas para a coleta dos espécimes capturados.
Miniestúdio fotográfico improvisado no alojamento da Reserva ZF-2. Foto: Larissa Queiroz
As armadilhas e os métodos de coleta utilizados incluíram:
redes entomológicas ou coleta manual ao longo da madrugada para grupos que voam mal ou não voam, como louva-a-deus, bichos-pau e grilos;
redes para coleta em meio aquático para insetos que vivem exclusivamente dentro d’água (geralmente imaturos e alguns adultos), como certas espécies de percevejos e besouros;
armadilhas instaladas ao lado de corpos d´água para a coleta de insetos que vivem principalmente perto desses ambientes, como tricópteros, libélulas, efêmeras e mosquitos;
armadilhas para grupos que vivem no folhiço ou no solo, como colêmbolos, dipluros, proturos e formigas;
armadilhas suspensas que utilizam diferentes tipos de “iscas”, como essência de baunilha ou vinagre, e atraem grupos específicos de abelhas ou moscas, respectivamente;
e armadilhas luminosas, que utilizam uma fonte de luz artificial e são bastante eficientes para grupos de insetos noturnos, como mariposas e alguns tipos de besouros.
Simeão Moraes, Jovem Pesquisador apoiado pela FAPESP na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), utilizou armadilhas de luz em lençóis para atrair mariposas. O pesquisador está interessado em investigar as espécies de mariposas que vivem acima da copa das árvores da floresta. “Elevar a alguns metros de altura pode trazer resultados diferentes em relação às espécies coletadas, pois elas diferem em relação aos micro-habitats que ocupam”, explica.
Método de coleta utilizando luz artificial e lençol. Foto: Larissa Queiroz
Os indivíduos coletados durante a expedição eram levados até o alojamento, onde um imenso laboratório foi improvisado no campo, permitindo a análise preliminar dos espécimes em estereomicroscópio, o registro fotográfico de espécimes vivos e a conservação dos exemplares para a análise posterior de DNA, que será realizada nos laboratórios das instituições-sede (USP e Inpa), em parceria com a professora Daniela Takiya, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Moraes fez parte da expedição, que incluiu professores, pesquisadores, pós-doutorandos, técnicos e alunos de doutorado de diversas instituições. Mas esse grupo é só uma parte da equipe que integra os projetos BioInsecta e BioDossel, formada por uma rede que já chega a cem pesquisadores de 32 instituições – 24 nacionais e oito internacionais.
Biodiversidade amazônica
As florestas tropicais são um dos biomas de maior diversidade do planeta e estão entre os mais ameaçados em decorrência de ações humanas, como redução e degradação do hábitat, poluição, mudanças climáticas, extração de madeira e mineração, entre outras atividades.
Os insetos representam quase 60% das espécies conhecidas do planeta, considerando toda a diversidade já descrita de plantas, fungos e animais. Além disso, eles compreendem 73% (91 mil espécies) da diversidade de espécies de animais (125 mil espécies) registradas para o Brasil, o que representa 8,4% da diversidade mundial conhecida de insetos (1 milhão e 100 mil espécies), de acordo com o Catálogo Taxonômico da Fauna Brasileira (2023).
Apesar desse cenário, os insetos que vivem na Floresta Amazônica ainda são pouco conhecidos pela ciência, particularmente os que vivem alguns metros acima do nível do solo até a copa das árvores da floresta.
“Há mais de 100 anos foi dito pelo biólogo William Beebe que a fauna de insetos no dossel é como se fosse um outro continente. Tem muitas espécies que estão na copa das árvores e que não estão no solo, só que nunca foram estudadas devido à falta de acesso”, explica Amorim, referindo-se à inexistência de métodos adequados para coletar nesse ambiente. “Esse é um dos motivos dos projetos BioInsecta/BioDossel serem tão importantes, pois permitirão estudar as Amazônias acima do solo”, continua.
Em estudo anterior publicado na revista Scientific Reports por Amorim e colaboradores, que deu origem aos projetos BioInsecta/BioDossel, armadilhas do tipo Malaise foram montadas utilizando como suporte as plataformas de cinco andares de uma torre meteorológica de 40 metros na Reserva ZF2, em alturas muito próximas aos cinco estratos das armadilhas em cascata. Durante duas semanas, foram coletados aproximadamente 38 mil insetos. Um dos achados mais interessantes do trabalho foi revelar que mais de 60% da diversidade de espécies encontrada acima de 8 metros de altura não está presente no solo da floresta.
A Reserva ZF2 é um dos três pontos da Amazônia Central que estão sendo estudados pelos projetos, que incluem ainda um local a oeste do rio Negro (Iranduba/AM) e outro ao sul do rio Solimões (Careiro Castanho/AM).
Torre meteorológica na Reserva ZF-2 do Inpa, um dos locais de estudo dos projetos BioInsecta e BioDossel na Amazônia Central. Foto: Craig Cutler, National Geographic
Revelar a dimensão do número de espécies de insetos, grupo de maior diversidade conhecida do planeta, em uma área delimitada da Floresta Amazônica, desde o solo até o dossel, é considerado pelos coordenadores dos dois projetos um dos maiores desafios contemporâneos desse campo de estudo. Para superá-lo, os projetos têm dois componentes centrais – o uso do sistema de armadilhas em cascata para a amostragem massiva desde o solo até o dossel; e a utilização de tecnologias inovadoras de sequenciamento de DNA em grande escala combinadas a dados morfológicos para a identificação rápida e precisa de espécies.
O estudo mais abrangente publicado até o momento coletando insetos de forma sistemática e por um longo período (14 meses) do nível do solo até o dossel foi realizado por Yves Basset e colaboradores no Panamá, na floresta tropical de San Lorenzo, onde capturaram aproximadamente 14 mil insetos e outros artrópodes (aracnídeos, piolhos-de-cobra, crustáceos) e reconheceram cerca de 5,9 mil espécies.
A expectativa é estudar o DNA de até 500 mil exemplares. “Não há um número preciso agora, mas a proporção geral de espécies ainda desconhecidas em relação às conhecidas pode ser de 90% a 98% da fauna de insetos da Amazônia”, estima Amorim.
Além da importância incalculável em termos da diversidade que será revelada para a Amazônia, Albertino Rafael ressalta que “esse será um banco de dados muito útil para daqui a seis, dez anos, fazermos novas coletas e vermos qual o impacto do aumento da temperatura, da diminuição de chuvas e das queimadas na população dos insetos” em áreas ainda preservadas da Amazônia, o que deverá fornecer evidências robustas para embasar programas e políticas públicas para a preservação e conservação da floresta e dos insetos.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Leandro Magrini (bolsista de Jornalismo Científico da FAPESP vinculado ao Projeto Temático BioInsecta)
A Amazônia Legal tem se mostrado cada vez mais vulnerável aos desastres naturais influenciados pelas mudanças globais do clima. De 1995 a 2024, houve um aumento de 1.789% nos registros de eventos climáticos na Amazônia: foram 1.425 ocorrências no ano passado, contra 37 no início da série analisada pela InfoAmazonia, com base nos dados do Sistema Integrado de Informações de Desastres da Defesa Civil.
Os eventos hidrológicos, como enxurradas, inundações e alagamentos, são os mais recorrentes na região, representando aproximadamente 64% de todos os desastres naturais. Ainda segundo dados do Sistema Integrado de Informações de Desastres da Defesa Civil, foram contabilizados 3.430 desastres desse tipo entre 1995 e 2024. Esta predominância está diretamente ligada à relação das cidades amazônicas com os rios.
O Pará lidera o ranking de desastres hidrológicos na Amazônia Legal, com 1.147 registros entre 1995 e 2024 (33% do total). Em seguida, temos Amazonas, com 716 ocorrências, Mato Grosso (541), Maranhão (483) e Tocantins (238). Rondônia (97), Acre (89), Roraima (73) e Amapá (46) apresentam menor incidência dos eventos, mas seguem o mesmo perfil, com mais desastres relacionados à água como o principal problema enfrentado nas últimas três décadas.
A Defesa Civil Nacional define desastres como eventos graves naturais ou humanos que causam danos à vida, ao ambiente e à economia. Eles são classificados em naturais (como meteorológicos, climatológicos, geológicos e hidrológicos) e humanos (como acidentes com produtos perigosos ou incêndios). A Defesa Civil é responsável por monitorar e agir para reduzir os impactos desses eventos no Brasil.
Entre os naturais, está o desastre climatológico de chuvas. A Classificação e Codificação Brasileira de Desastres (Cobrade), criado pelo Ministério de Integração e Desenvolvimento Regional, define que esse tipo ocorre quando há grande volume de chuva em pouco tempo. Elas podem provocar inundações (transbordamento de rios), enxurradas (escoamento rápido em terrenos inclinados) e alagamentos (acúmulo de água por falha na drenagem urbana).
De acordo com o Atlas de Desastres Brasileiro, documento que disponibiliza dados sobre desastres no país, com base no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, essa interação de todos os eventos monitorados pela Defesa Civil Nacional leva a extremos com impactos significativos para o ecossistema, populações e atividades econômicas na região. A sistematização dos dados permite ter um panorama de situações de emergência no período de 1995 a 2024.
Municípios líderes em desastres
O levantamento mostrou ainda quais são os municípios com mais registros em cada estado da Amazônia. No Pará, destaca-se Oriximiná, localizado a 881 km de Belém, com um total de 139 casos de desastres naturais. Já em Mato Grosso, o município com maior número de ocorrências foi Sorriso, a 398 km de Cuiabá, com 61 casos — a maioria relacionada a incêndios florestais.
No Amazonas, Manacapuru, a 93 km de Manaus, registrou 37 casos, todos associados a inundações. Esses eventos não ocorrem de forma isolada, mas são intensificados por fatores críticos, como as mudanças climáticas globais, o fenômeno El Niño — que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e afeta o clima em várias partes do mundo, alterando os padrões de chuva e temperatura —, e também pela oscilação de temperatura no Atlântico Norte tropical, que influencia diretamente o regime de chuvas na bacia amazônica.
Tanto Mato Grosso, Rondônia e Roraima apresentaram mais registros de desastres climatológicos, provocados principalmente pela escassez de chuvas. Mato Grosso registrou 333 casos de incêndios florestais, Rondônia e Roraima registraram respectivamente 52 e 38 casos de estiagem e seca.
Apesar de Mato Grosso ter registrado a maior quantidade de incêndios florestais, e Roraima e Rondônia apresentarem como principais desastres a estiagem e seca, a maioria dos registros na Amazônia é decorrente deinundações. Esse tipo de tragédia vem impactando milhões de pessoas que vivem próximas aos rios, igarapés e do mar.
A complexidade dos desastres na Amazônia evidencia a necessidade de estratégias integradas de gestão de riscos, que considerem as particularidades de cada estado e seus desafios específicos. Além disso, é essencial reforçar iniciativas de conservação ambiental e políticas públicas que promovam a resiliência das populações afetadas e a proteção dos ecossistemas, assegurando o equilíbrio ecológico e a qualidade de vida na região.
Inundações na zona costeira
A região amazônica, em sua vasta extensão, apresenta uma disposição a desastres naturais, resultado da interação entre fatores climáticos, hidrológicos e meteorológicos. No entanto, dentro deste cenário, destacam-se áreas como a Zona Costeira Amazônica, que é considerada uma zona permanentemente de risco.
A Zona Costeira Amazônica possui um litoral que se estende por 1.294 km, abrange os estados do Amapá, Pará e parte do Maranhão, cuja característica principal é a presença marcante da Foz do Amazonas. Essa região é agravada tanto pelos processos naturais característicos de zonas costeiras, como erosão, aumento do nível do mar e mudanças na dinâmica sedimentar, quanto pela influência direta do oceano, que intensifica os impactos locais.
Segundo a doutora em geologia e pesquisadora no Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), Valdenira Santos, essa proximidade com o oceano influencia as dinâmicas ambientais e sociais até 800 km rio adentro, moldando o ritmo de vida das comunidades locais por meio do fluxo contínuo das marés.
“Um exemplo relevante é a foz do rio Amazonas, que inclui a parte norte da Ilha do Marajó e o litoral do Amapá. Nessa região, a intrusão de água salgada vinda do oceano pode alcançar grandes extensões devido à topografia plana e baixa. Os principais problemas enfrentados por essas zonas incluem inundações e processos de erosão costeira”, comenta a pesquisadora.
As constantes alterações na costa são frequentemente relatadas por muitas comunidades da Foz do Amazonas. Fenômenos como invasão salina, inundações, erosão e acreção têm se tornado mais frequentes e severos, especialmente sob o impacto das mudanças climáticas e da elevação do nível do mar.
Municípios como Macapá, no Amapá, que se encontra no canal norte da Foz do Amazonas, e Chaves, no Pará, que está no canal sul, integram a Zona Costeira de Baixa Elevação. Essa região é caracterizada por áreas com uma elevação de menos de dez metros, aproximando-se ao nível médio do mar. Com a característica do terreno baixo e plano, o risco de inundação na região da foz do rio Amazonas aumenta.
Valdenira Santos explica, ainda, que essa a dinâmica hidrológica do rio Amazonas está diretamente relacionada à periodicidade da Zona de Convergência Intertropical, um sistema que regula os padrões de chuvas na região. Além disso, também é influenciada pelo “El Niño” e “La Niña”. Quando o rio Amazonas atinge seu pico máximo de volume de água devido às chuvas intensas, ocorrem inundações fluviais que se espalham por diversos rios da região.
“Na Foz do Amazonas temos o encontro com o mar. O mar traz duas vezes por dia, no nosso caso aqui, as marés que elas sobem e descem. Com a alíquota máxima [nível máximo] do rio, e a maré subindo e descendo, temos um nível d’água que é mais exacerbado. Por isso, vemos inundações, principalmente em dias de lua cheia, devido a gravidade lunar que puxa a água em direção à lua e cria grande marés”, comenta Santos.
No distrito da Vila de Nascimento, que fica a 115 km da sede do município de Chaves, na Ilha do Marajó, no Pará, houve uma inundação em 2019, segundo dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres. Estima-se que o desastre tenha atingido 1.627 pessoas, entre elas alunos da escola municipal Júlia de Paula Moraes e destruído passarelas. A água também foi contaminada devido ao transbordamento dos banheiros (fossa rudimentar), morte de animais de espécies bubalinos e suínos, impossibilitando que 283 alunos tivessem acesso à escola entre os meses de março e abril.
A diretora Renata Melo, da escola Júlia de Paula Moraes, explica que, quando a maré vinda do oceano chega com força, ela avança sobre a terra, causando a queda de pontes. Mesmo durante o período de “maré morta”, em que o rio Amazonas apresenta menor volume, ela avança de forma mais lenta, mas ainda assim provoca danos, como a degradação dos portos e a intensificação da erosão.
“Quando está esse período de marés perigosas, a gente suspende as aulas e suspende também os alunos que moram perto da escola, porque eles precisam fazer esse percurso por ponte. Às vezes, a ponte está tomada de espinhos e de lixo que a maré traz, servindo de alojamento para animais peçonhentos como cobra, escorpião. Já aconteceu muito”, diz Melo.
A erosão é um outro problema que vem afetando as comunidades da região litorânea de Chaves. Segundo os dados Atlas de Desastres Brasileiro, a erosão é o desastre mais comum no município de Chaves.
Renata diz que, apesar de as casas nas comunidades não serem atingidas, é frequente que as famílias sejam transferidas para outros lugares. Dona Lucivalda Monteiro, moradora da comunidade do rio Tartaruga, 124 km da sede do município de Chaves, conta que, quando era criança, o rio era bem estreito, mas, com a intensificação da erosão, há uns dez anos para cá, precisou recuar sua casa para evitar perdê-la.
“Nós desmanchamos a antiga casa, construímos esta, e já construímos outra aqui para trás porque está aqui já está bem na beira. Tem que ver no inverno mesmo, que é muita maresia das embarcações que andam por dentro, né? Aí que cai”, explica Dona Lucivalda.
Totalizando os danos de todos os desastres ocorridos no município de Chaves e apresentados no Atlas de Desastres Brasileiro, os custos podem ultrapassar R$ 11,2 milhões. Os eventos aumentaram a vulnerabilidade das comunidades, provocando prejuízos materiais, risco à saúde, dificuldades no abastecimento de água potável e nas atividades essenciais de subsistência, como a pesca e a criação de animais.
O bailar das ilhas
Outra região que vem sendo atingida pelas mudanças costeiras associadas a eventos climáticos e hidrológicos extremos é o arquipélago do Bailique, distrito localizado a 180 km de Macapá, no Amapá. Atualmente, vivem cerca de 12 mil pessoas no arquipélago, distribuídas em 52 comunidades, divididas em doze ilhas banhadas pelo rio Amazonas, com acesso apenas por via fluvial.
O nome Bailique deriva do tupi e significa ilhas que bailam, fazendo uma referência ao processo de constante mudança da região. A pesquisadora Valdenira Santos fala que não é só o Bailique que “baila”, mas todas as ilhas da Foz do Amazonas têm esse mesmo comportamento. Esse processo é natural e motivado pela quantidade de partículas de barro vindo na água do rio Amazonas, unindo corrente fluvial e as variações de maré.
“[Isso ocorre] exatamente devido às correntes, do material sempre disponível que é depositado nas beiradas das ilhas ou removido no processo de erosão fluvial e depositado em outros lugares. São envolvidos três principais fenômenos nesse processo muito peculiar da região da foz do rio Amazonas: a erosão, a acreção e o transporte de sedimentos”, completa a pesquisadora.
O fenômeno da acreção se refere à formação de praias devido ao acúmulo de sedimentos, conhecido como “acamamento de maré”. Trata-se da deposição de camadas de lama e areia que, com o tempo e de forma constante, acabam emergindo. Depois, essas áreas passam a ser ocupadas por manguezais e vegetação de várzea.
Por não se tratar de um solo consolidado, e devido à força da correnteza ou à variação da maré, ocorre o processo de erosão — outro fenômeno característico da foz do rio Amazonas. Com a retirada do material das margens ou do fundo do rio, esses sedimentos erodidos são transportados para outras regiões, reiniciando o ciclo de acreção, erosão e transporte sedimentar.
Apesar dessas constantes alterações serem naturais, pesquisadores e as próprias comunidades começaram a notar que elas estão cada vez mais intensas nos últimos cinco anos. Ainda não se confirmou se ocorrem devido à maré do oceano ou ao aumento da força de corrente do rio Amazonas. A erosão vem atingindo fortemente as comunidades do centro do arquipélago do Bailique e causando danos humanos, materiais e afetivos com as comunidades.
Geová Alves, morador da comunidade Vila Macedônia e presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique – ACTB, diz que sua comunidade era totalmente diferente, tendo três vezes o tamanho que tem hoje. Conta que o processo de erosão ficou mais forte a partir de 2018-2019, onde ainda existia metade da comunidade e moravam cerca de 1.200 habitantes. Hoje são apenas 600.
“Nós já perdemos três fileiras de passarela. Cada passarela tem dois terrenos de 30 metros cada um. Então, foram 180 metros que a gente já perdeu só de comunidade, fora a área que tinha na frente. Tinha uma escola lá na frente, tinha um campo de futebol e tinha uma passarela enorme, com várias casas, que já se perdeu”, lembra Geová.
Passarelas são estruturas de madeira construídas para permitir a circulação dos moradores entre as casas e áreas comuns da comunidade. Como a região é cercada por rios e sujeita a inundações frequentes, essas passarelas funcionam como “ruas elevadas”.
A pesquisadora Valdenira Santos acompanha a situação da erosão nas comunidades de Chaves, no Pará, e do Bailique, no Amapá, por meio do Observatório Popular do Mar (OMARA). O projeto tem como objetivo monitorar os impactos desse fenômeno, coletando dados diretamente das observações realizadas pelos moradores locais para subsidiar iniciativas voltadas à solução do problema.
Santos destaca que, apesar das dificuldades e dos prejuízos já enfrentados, as comunidades da Foz do Amazonas têm uma notável capacidade de adaptação. Contudo, ela ressalta que para que essas adaptações sejam eficazes e alinhadas às necessidades locais, é fundamental compreender em profundidade como os fenômenos ocorrem na região.
“Por exemplo, eu não posso construir uma escola, um posto de saúde, numa zona de erosão. Mas como é que você vai saber disso? Não é só olhando. Você tem que ir lá. Você tem que medir, você tem que fazer análise de satélite, saber quanto é a velocidade de corrente para você saber se a corrente ainda está forte o suficiente ou não para manter aquele processo. Tem que saber como é esse fundo de rio. Então, você pega todas essas informações morfológicas, hidrodinâmicas, e aí consegue dar um diagnóstico e um prognóstico. Dessa forma, eu posso me antecipar aos problemas e não deixá-los chegar para a gente tentar tomar soluções imediatas”, comenta a pesquisadora.
Os dados do Atlas de Desastres Brasileiro mostram que do total de registros de desastres ocorrido em Macapá, 32% foram na região do Bailique, em sua maioria do tipo erosão. Em 2017 e 2018, o evento afetou 1390 pessoas, além de ter deixado 514 casas destruídas ou danificadas. Consta, ainda, que houve a destruição total de aproximadamente 2.400 metros de passarelas; danos na rede de distribuição elétrica com a queda de postes e danos parciais em unidades de saúde e ensino.
Mais recentemente, em 2021, houve dois registros de erosão e, em 2023, mais outro. O desastre afetou o abastecimento e a distribuição de água potável e de eletricidade das duas maiores comunidades do arquipélago, Vila Progresso e Macedônia. Estima-se que os desastres já tenham causado em reais R$ 39,4 milhões, mais da metade desse valor, cerca de 72%, foi danos em habitação da população do Bailique.
A Defesa Civil do Amapá não informou quanto vem destinando para responder desastres do tipo erosão nas comunidades, reforçou que a assistência prestada às famílias está na ajuda humanitária com cesta de alimentos e água potável. No entanto, não informou quanto foi gasto nesse período.
Esta reportagem foi produzida por jornalistas bolsistas da segunda edição do curso de Jornalismo Investigativo Ambiental e Geojornalismo, oferecido com o apoio da Earth Journalism Network da Internews, e é parte do eixo educacional da InfoAmazonia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Thales Lima