O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou no dia 28 de abril, que a União desaproprie terras que tenham sido alvo de incêndios criminosos ou de desmatamento ilegal. A medida deverá ser aplicada nos casos em que estiver comprovada a responsabilidade do proprietário na devastação do meio ambiente.
Conforme a decisão, a União e os estados terão de adotar meios para impedir a regularização de terras em que tenham ocorrido crimes ambientais. Também deverão ajuizar ações de indenização contra proprietários que sejam responsáveis por incêndios ou desmatamento ilegais.
Dino autorizou que os estados continuem a usar sistemas próprios para emitir autorizações para retirada de vegetação (as chamadas Autorizações de Supressão de Vegetação), desde que as informações estejam integradas ao Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor).
As determinações foram dadas pelo ministro em duas decisões na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 743. Nessa ação, o STF determinou a reestruturação da política de prevenção e combate aos incêndios no Pantanal e na Amazônia, com a implementação de medidas tanto pela União quanto pelos estados envolvidos. A Corte também realizou uma série de audiências em que foram discutidas e determinadas ações sobre o tema.
Prazos para informações
O ministro também abriu prazo para manifestação de órgãos e dos governos federal e estaduais. A União, por exemplo, terá que responder em 15 dias úteis sobre dados trazidos ao processo que apontam que uma “parcela significativa” de recursos para fiscalização e combate a incêndios florestais deixou de ser executada em 2024.
Na outra decisão, Dino deu prazo final de 10 dias úteis para a União apresentar uma análise sobre os recursos necessários para efetivar o cronograma de combate à criminalidade ambiental da Polícia Federal.
O Ministério do Planejamento e Orçamento terá 10 dias úteis para responder a pontos do plano de fortalecimento institucional para controle dos incêndios na Amazônia e no Pantanal. Entre os esclarecimentos, a pasta deverá dizer como vai mitigar o risco de contingenciamento da dotação orçamentária destinada a essa atividade.
Também em 10 dias úteis, os estados do Acre, Amapá, Rondônia, Maranhão, Tocantins e Pará deverão detalhar as medidas já tomadas em 2025 para prevenir e combater queimadas. Essas unidades da federação ainda terão que cumprir a ordem para instalar “salas de situação” destinadas ao monitoramento e acompanhamento dos focos de incêndio.
Em 15 dias, a Advocacia-Geral da União (AGU) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverão informar o resultado da avaliação sobre o projeto “Fortalecimento da Fiscalização Ambiental para o Controle do Desmatamento Ilegal da Amazônia”. Dados apresentados no processo anunciavam que a iniciativa estava em fase final de análise e havia sido posta à deliberação da diretoria do banco no final de março.
Na vastidão da floresta amazônica, entre galhos altos e a sombra das copas, pende o cipó-ambé (Philodendron spp.), uma planta enigmática, multifuncional e reverenciada por povos indígenas e comunidades tradicionais. Conhecido popularmente como ‘cigarro de índio‘, esse cipó guarda saberes ancestrais, utilidades práticas e até um tipo de “água da vida”.
O cipó-ambé é uma espécie de trepadeira que cresce em touceiras e se estende do alto das árvores até o solo. Quando cortado ainda jovem, com o talo macio, libera um líquido claro e fresco – conhecido como “água de cipó”. Os moradores da floresta posicionam recipientes para captar essas gotas lentamente. Acredita-se que essa água é pura e cristalina, perfeita para hidratar quem está em meio à selva.
Foto: Reprodução/Youtube-Nossas Histórias
“Se você se perder na mata, procure um cipó-ambé”, aconselham os mais antigos. A planta se tornou, assim, um símbolo de sobrevivência, mas também de sabedoria tradicional.
‘Cigarro de Índio‘
Além da hidratação, o cipó também é usado como um cigarro natural, sem aditivos. Popularmente chamado de “cigarro de índio”, ele é preparado de forma simples, mas precisa. Corta um pedaço do cipó, deixa secar ao sol por cerca de dois dias, e então retira-se a casca externa. O miolo, já endurecido, está pronto para ser fumado.
A jornalista Regina Volpato experimentou o ‘cigarro de índio’. Foto: Reprodução/YouTube-ReginaVolpatoOficial
A jornalista Regina Volpato foi uma das pessoas que experimentou essa tradição. Em uma visita a Alter do Chão, no Pará, ela registrou a experiência em seu canal no YouTube.
Auxiliada por um morador local, ela segurou o “cigarro de madeira”, acendeu com um isqueiro e deu algumas tragadas.
A cena é curiosa e autêntica. “Pode puxar, igual a um cigarro… Se quiser tragar, fique à vontade, quando traga é a melhor coisa que tem pra acalmar”, comenta o guia.
Ricardo e Tami, que viajam pelo mundo e contam suas experiências do canal Nossas Histórias, também passaram pela região e mostraram como foi fumar o “cigarro de índio”:
A cozinheira do restaurante Casa Igá (Belém/PA), Oriana Bitar, mostrou em suas redes que ficou surpresa com o cipó-ambé e deixou um registro sobre a experiência:
O uso do cipó-ambé vai além. Nas comunidades amazônicas, ele é também utilizado como fitoterápico. Receitas aprendidas com os povos indígenas são passadas de geração em geração e ainda hoje compõem os tratamentos de muitas famílias que vivem da floresta e com a floresta.
De acordo com a definição de George Duarte Ribeiro, no livro ‘Algumas espécies de plantas reunidas por famílias e suas propriedades‘, é uma planta também “muito utilizada na confecção de artesanato e utensílios domésticos, sendo também medicinal, com indicações até para minimizar problemas de picadas de cobra”.
Assim, a sabedoria popular e o conhecimento empírico fazem do cipó-ambé uma espécie de farmácia viva. E cada vez mais, pesquisadores e estudiosos voltam seus olhares para essas espécies vegetais, buscando nelas princípios ativos para a medicina moderna.
Um novo protocolo de produção de mudas desenvolvido pela Embrapa pode transformar o cultivo do açaí-solteiro em uma atividade planejada, sustentável e rentável para a Amazônia. A tecnologia reúne conhecimentos científicos inéditos e foi elaborada especialmente para atender produtores, viveiristas e técnicos da região que enfrentam dificuldades para implantar pomares da espécie. Com a nova metodologia, é possível obter mudas com qualidade sanitária e alto padrão comercial, adaptadas ao ambiente local e resistentes a doenças, como a antracnose, a principal inimiga da cultura.
A pesquisa foi conduzida pela Embrapa Acre, ao longo de sete anos, e responde a uma demanda crescente por frutos de açaizeiro-solteiro (Euterpe precatoria Mart.), palmeira nativa da floresta amazônica. A espécie é bastante comum em estados como Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima, mas sua exploração ainda é majoritariamente extrativista. Com o novo protocolo, o cultivo em áreas alteradas se torna uma alternativa comercial viável, contribuindo para a conservação de florestas nativas, da biodiversidade e fortalecimento da bioeconomia regional.
Os frutos do açaizeiro são matéria-prima para agroindústrias de processamento de polpa, produto comercializado com mercados locais e de outros estados. A cultura gera trabalho e renda para centenas de famílias e representa uma das bases da bioeconomia regional, entretanto, a ausência de conhecimentos científicos para o processo de produção de mudas dificulta o cultivo e limita a produção.
Segundo a pesquisadora Aureny Lunz, a produção de mudas de açaí-solteiro ainda é baseada em técnicas recomendadas para o açaí-de-touceira. Embora essas espécies de açaizeiro pertençam ao mesmo gênero, elas se desenvolvem de maneira distinta e apresentam exigências particulares de clima e solo. O uso de técnicas inadequadas para a cultura resulta em mudas pouco vigorosas e com baixa resistência a doenças, problemas que comprometem a sobrevivência e o desenvolvimento das plantas.
“Reunimos informações técnicas genuínas para a produção de mudas, considerando necessidades e particularidades do açaí-solteiro. Bem aplicado e aliado a práticas adequadas de manejo, esse conhecimento possibilita a obtenção de plantas resistentes e capazes de manifestar todo o seu potencial produtivo, aspectos essenciais para garantir pomares sadios e rentáveis”, ressalta a pesquisadora.
Foto: Aureny Lunz
Foco da pesquisa
De acordo com o pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE), Romeu Andrade Neto, que também participou do estudo, o açaí-solteiro é uma espécie de crescimento lento e bastante suscetível à antracnose (Colletotrichum spp), principal doença da cultura. Por isso, a produção de mudas é um processo demorado (leva entre 12 e 14 meses) e requer conhecimentos especializados sobre o comportamento da planta.
“A partir de demandas do setor produtivo e de programas governamentais de apoio ao cultivo comercial dessa espécie, percebemos a necessidade de disponibilizar informações científicas para garantir a oferta de mudas de qualidade, que pudessem atender a pequenas, médias e grandes propriedades”, enfatiza o pesquisador.
A elaboração do protocolo
Realizado por meio do projeto ‘Tecnologias para cultivo racional de açaizeiro (Euterpe oleracea e precatória) para a produção de frutos na região amazônica’, o estudo teve início em 2016 e avaliou o desenvolvimento de mudas em diferentes tipos de recipientes e substratos, a influência de níveis distintos de sombreamento, estratégias diferenciadas de adubação e de controle de doenças e a necessidade hídrica das plantas, em viveiro e em campo. Além disso, definiu práticas de manejo e tratamento de sementes para a produção de mudas com alto vigor e qualidade sanitária.
“Entre outros resultados, constatamos que o uso de substratos mais leves, com textura média a arenosa, para facilitar a drenagem de água, possibilita melhor crescimento e maior taxa de sobrevivência das plantas. Também atestamos que em termos de luminosidade, o ambiente ideal ocorre em níveis de sombreamento entre 65% e 75%, condição que ajuda no controle da antracnose. Além disso, o uso de fertilizantes de liberação controlada no processo de adubação garante melhor aproveitamento de nutrientes, processo que encurta o ciclo de produção das mudas e proporciona economia de mão de obra no viveiro”, explica Andrade Neto.
Os resultados da pesquisa estão disponíveis na publicação ‘Recomendações para a Produção de Mudas de Açaizeiro-Solteiro‘, que aborda desde o planejamento de viveiros, até o controle de pragas e doenças, além de detalhes sobre a obtenção, seleção e manejo adequado das sementes, único mecanismo de propagação dessa espécie.
Produção planejada
Contar com ampla oferta de mudas de qualidade permite o cultivo escalonado, estratégia que possibilita planejar a produção e pode gerar renda de forma contínua. Na propriedade do agricultor Loy Maleski, localizada em Vila Extrema, divisa com Acre e Rondônia, o açaí-solteiro, cultivado em sistema de monocultivo e em consórcio com outras espécies frutíferas, como coco e abacaxi, garante renda o ano inteiro. A área de dez hectares produz duas mil latas de frutos (com 20 litros), por safra, produção que rende 30 toneladas de polpa processada, volume todo comercializado com empresas de Rondônia e Acre.
“Quando comecei com o cultivo de açaí-solteiro não tinha conhecimento sobre a espécie, por isso, perdi um viveiro com 25 mil mudas, mas, devido ao seu potencial, busquei informações sobre a cultura. Esse açaí tem um “vinho” mais encorpado e maior rendimento de polpa em relação ao açaí-de-touceira. A nossa média de produção é 16 litros de polpa por lata de frutos, enquanto com o açaí-de-touceira, possivelmente pelas condições locais de clima e solo, não ultrapassava oito litros por lata”, relata o produtor, que acredita que os cuidados na produção das mudas e com o manejo, especialmente adubação e irrigação, contribuem para a qualidade dos frutos do açaí-solteiro.
Foto: Aureny Lunz
Vantagens do uso de mudas de qualidade
Uniformidade e produtividade: A produção de mudas selecionadas de açaí-solteiro, com qualidade agronômica e sanitária, resulta em cultivos com plantas uniformes, mais produtivas e melhor adaptadas ao ambiente de plantio.
Sustentabilidade: A oferta de mudas de qualidade de açaí-solteiro em larga escala favorece a transição do extrativismo para o cultivo comercial da espécie, com aproveitamento de áreas alteradas na Amazônia. Essa estratégia ajuda a conferir maior sustentabilidade à cultura e conserva a biodiversidade da região.
Controle de doenças e pragas: O manejo adequado nas etapas de produção de mudas de açaí-solteiro, incluindo o controle sanitário em viveiros, reduz a incidência de doenças e pragas na cultura.
Expansão da cultura: A implantação de cultivos planejados possibilita aumento na produtividade, expansão da área plantada e o fortalecimento da cultura.
Importância da seleção de sementes
Um dos aspectos indispensáveis para a obtenção de mudas de qualidade de açaí-solteiro é o uso de sementes selecionadas. Aureny Lunz explica que, por não perfilhar, essa espécie se reproduz exclusivamente por sementes.
“Essa característica torna a etapa de seleção de sementes essencial para garantir mudas saudáveis, com alta qualidade e produtividade. E investir em protocolos eficientes para a produção de mudas é outro requisito importante para assegurar o sucesso de cultivos comerciais”, afirma a pesquisadora.
Fortalecimento da bioeconomia
Os estados do Amazonas e Acre se destacam na produção de polpa processada de açaí-solteiro. A fruta responde por 93% do volume comercializado por agroindústrias na região. Na última década, programas governamentais investiram na capacitação de técnicos e produtores para o plantio comercial da espécie, mas a atividade ainda é pouco expressiva. A oferta de mudas produzidas com base em critérios científicos pode alavancar esses empreendimentos.
Foto: Vinícius Braga
Segundo o engenheiro florestal da Secretaria de Agricultura do Acre (Seagri), Vicente de Paula Simões, o desenvolvimento de tecnologias para a produção de mudas e manejo eficiente dos cultivos de açaí-solteiro é imprescindível para consolidar essa cadeia produtiva como geradora de trabalho e renda no campo e na cidade e fortalecer a bioeconomia regional.
“A adoção de conhecimentos técnicos gerados pela pesquisa vai contribuir para o atendimento de uma demanda crescente por polpa congelada, de mercados nacionais e internacionais, e fomentar o uso desse produto da biodiversidade amazônica, aliado a práticas de conservação ambiental”, ressalta.
Desafios para a pesquisa
No Amazonas, segundo maior produtor de açaí do Brasil, muitos produtores investem no cultivo comercial de açaí-solteiro, especialmente devido à qualidade e rendimento da polpa. Outra vantagem da cultura é a safra em período diferente do açaí-de-touceira, o que possibilita renda para as famílias em épocas distintas do ano. No município de Anori, principal fornecedor de frutos para Codajás, centro de produção e processamento de açaí com qualidade reconhecida por Indicação Geográfica (IG), mais de 90% dos plantios são formados com açaí-solteiro.
Para viabilizar a expansão sustentável da cultura, a Embrapa, por meio de suas Unidades do Amazonas e Acre, atua para estabelecer um programa de melhoramento genético do açaí-solteiro. Entre os objetivos da iniciativa está a realização de estudos de variabilidade genética da espécie para obtenção de cultivares com características de interesse dos produtores, como alta produtividade e qualidade de polpa, reduzido crescimento em altura e precocidade de produção. Outro desafio para a pesquisa é a recomendação de técnicas adequadas para manejo da cultura.
De acordo com a pesquisadora da Embrapa Amazônia Ocidental (AM), Maria do Rosário Lobato Rodrigues, a produção de mudas de qualidade de açaí-solteiro pode contribuir para aumentar a produtividade e rentabilidade tanto de cultivos implantados como de áreas extrativistas, com o enriquecimento de populações nativas. Entretanto, a cultura exige estudos contínuos para aprimoramento do sistema de produção de mudas e garantia da sustentabilidade dos açaizais.
“Além da seleção do material genético a ser cultivado, para o sucesso dos plantios comerciais é fundamental contar com um sistema de produção de mudas que proporcione taxas reduzidas de replantio, menor índice de mortalidade pós-plantio e plantas com produção precoce. Essas características reduzem custos na implantação, favorecem a ampliação das áreas de cultivo e permitem a oferta de frutos de qualidade, em larga escala, para agroindústrias da região, gerando mais renda para os produtores”, defende a pesquisadora.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Rio Negro chega a 27,56 metros e atinge cota de inundação em Manaus. Foto: Foto: Michel Castro/Rede Amazônica AM
O nível dos rios no Amazonas não deve superar, neste ano, as marcas registradas na cheia histórica de 2021 em Manaus, Manacapuru, Itacoatiara e Parintins, municípios do estado monitorados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB). A previsão foi divulgada no dia 30 de abril, durante a apresentação do 2º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas de 2025.
De acordo com o SGB, o segundo alerta ocorre 45 dias antes do possível pico da cheia neste ano, previsto para 14 de junho .
O levantamento aponta que a cota nas quatro localidades devem ficar entre 1,11m e 0,67m abaixo dos níveis recordes já registrados.
“A cheia para Manaus, Manacapuru , Itacoatiara e Parintins já é uma cheia de grande magnitude, já alcançou patamares que superam a cota de inundação e (superar) a cota de inundação severa, a gente tem uma probabilidade alta de acontecer”, disse o pesquisador de geociência do SGB, André Martinelli.
Confira as previsões da SGB para os municípios:
Manaus – Rio Negro
A cota do Rio Negro era de 27,63 metros no dia 30. Ele apresenta 42% de chance de alcançar a marca de inundação severa e menos de 1% para atingir a cota máxima registrada. O SGB prevê que no pico da cheia o rio atinja 28,91 metros.
Cota máxima registrada (2021): 30,02m Cota de inundação severa: 29,00m Cota de inundação: 27,50m Cota de alerta: 27,00m
Manacapuru – Rio Solimões
O Rio Solimões atingiu a marca de 18,36 metros, no dia 30, com 53% de chances para uma inundação severa e menos de 1% para atingir a cota máxima registrada. O SGB prevê que no pico da cheia o rio atinja 19,63 metros.
Cota máxima registrada (2021): 20,86m Cota de inundação severa: 19,60m Cota de inundação: 18,20m Cota de alerta: 17,70m
Itacoatiara – Rio Amazonas
No município, o Rio Amazonas está com a cota de 13,86 metros e apresenta 94 % de chances para uma inundação severa. O órgão aponta que há menos de 1% de chance de se atingir a cota máxima registrada. O SGB prevê que no pico da cheia o rio atinja 14,53 metros.
Cota máxima registrada (2021): 15,20m Cota de inundação severa: 14,20m Cota de inundação: 14,00m Cota de alerta: 13,50m
Parintins – Rio Amazonas
Ainda no dia 30, o rio Amazonas em Parintins marcou com a cota de 8,16 metros, apresenta 83% de chances para uma inundação e menos de 1% para atingir a cota máxima registrada. O SGB prevê que no pico da cheia o rio atinja 8,64 metros.
Cota máxima registrada (2021): 9,47m Cota de inundação severa: 9,30m Cota de inundação: 8,43m Cota de alerta: 8,00m
A cheia que atinge o Amazonas avança e já atinge 144 mil pessoas, segundo o mais recente boletim da Defesa Civil do estado, divulgado no dia 29 de abril. De acordo com Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais do órgão, as nove calhas de rios no Amazonas ainda seguem em processo de cheia até o mês de junho.
Conforme dados disponibilizados pela Defesa Civil do Amazonas, 13 municípios estão em situação de emergência devido a cheia no Amazonas (dados referentes até dia 30 de abril):
Rio Madeira: Humaitá, Apuí, Manicoré, Novo Aripuanã e Borba Rio Purus: Boca do Acre Rio Juruá: Guajará, Ipixuna, Itamarati e Eirunepé Rio Solimões: Benjamin Constant e Atalaia do Norte Rio Amazonas: Tonantins
A Defesa Civil informou que outros 36 municípios estão em estado de atenção, 13 em estado de alerta e nenhum em estado de normalidade.
Segundo o meteorologista e pesquisador, Leonardo Vergasta, dois fatores contribuíram para o aumento no volume dos rios em relação a 2024: o Inverno Amazônico, que causa chuvas acima da média na Região Norte e deve seguir até o fim de maio, e o fenômeno La Ninã, que chegou ao fim em abril e resfriou as águas do Oceano Pacífico, provocando fortes pancadas de chuva no Norte do país.
“A gente teve aí no início de 2025 a atuação do efeito La Niña, que é o resfriamento das águas do pacífico equatorial, então a gente tem um aumento das intensidades de chuva na região, e coincidiu com nosso período chuvoso, então a partir de fevereiro toda a bacia amazônica teve chuvas acima da normalidade”, explicou o pesquisador.
Situação do Rio Madeira preocupa
A cheia do Rio Madeira afeta ao menos dez cidades do Amazonas. O município de Humaitá é um dos mais impactados pelo alto nível do rio, e nesta quarta-feira atingiu a cota de 23,44 metros, e se aproxima da cota histórica de 25,63 metros.
Cota máxima registrada (2014): 25,63m Cota de alerta: 15,00m
Na zona rural de Humaitá, a cheia está devastando plantações e afetando a rotina escolar. De acordo com a Defesa Civil, cerca de 16 mil pessoas já foram afetadas pela cheia do rio.
“A gente plantou mil pés de bananas e deu perda total (com a cheia do rio). A banana que dá para colher não chega nem a R$ 200, deu perda total”, relatou o agricultor Júlio Cézar Góes.
Berlinda do Círio de Nazaré. Foto: Rosana Pinto/Ascom DFN
A história da berlinda no Círio de Nazaré surge no século XVI. De etimologia alemã, significa “uma carruagem que transportava pessoas de classes nobres e autoridades políticas”, para ficarem em evidência e, assim, todas as outras iriam vê-las. A berlinda é feita de madeira e vidro para ser possível visualizar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré.
Ela começou a ser usada em 1882 para substituir o palanquim, uma espécie de carruagem puxada por cavalos ou bois. Durante o Círio, a berlinda é ornamentada com flores naturais, sendo levada durante toda a procissão colocada sobre um carro com pneus e puxada pela corda conduzida pelos devotos.
*Com informações da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Cercada pela maior bacia hidrográfica do planeta, a região amazônica é historicamente isolada dos grandes centros do resto do país por falta de estrutura de acesso terrestre.
Isso pode ser explicado por diversos fatores: a complexidade do relevo (com florestas, planícies, colinas e montanhas); a menor conexão com diferentes regiões por terra, através de rodovias; e também o avanço de atividades como o desmatamento.
Contudo, uma alternativa para a logística de transporte entre a Amazônia e o restante do Brasil é a construção e utilização de ferrovias. A ferrovia consiste num sistema de transporte sobre trilhos por onde trens conduzem pessoas e mercadorias.
Na Amazônia existem três ferrovias ativas, voltadas principalmente para o escoamento de commodities agrícolas e minerais:
Estrada de Ferro de Carajás (EFC)
Inaugurada em 1985, a Estrada de Ferro de Carajás possui 892 quilômetros de extensão e liga o Porto de Itaqui, no Maranhão, às províncias minerais da Serra do Carajás, no estado do Pará.
A EFC é considerada uma ferrovia de alta capacidade, ou seja, capaz de movimentar grandes quantidades de materiais e passageiros – no caso, minério de ferro – e também é toda duplicada.
Em Açailândia, no Maranhão, a ferrovia se conecta à outra, a Norte-Sul, o que permite que as mercadorias com origem na Ferrovia Norte-Sul possam acessar o Porto de Itaqui.
A Estrada de Ferro Carajás também realiza o transporte regular de passageiros entre São Luiz, capital maranhense e Parauapebas, no Pará, com três trens semanais em cada sentido.
Foto: Reprodução/Associação Nacional dos Transportadores sobre Trilhos (ANP)
Ferrovia Norte-Sul
A Ferrovia Norte-Sul (EF-151) cruza o país de Norte a Sul e funciona como uma espinha dorsal do sistema ferroviário nacional, interligando as principais malhas ferroviárias das cinco regiões do Brasil.
O Tramo Norte da ferrovia, que é o trecho que passa na Amazônia, começa no município de Açailândia, no Maranhão, até Porto Nacional, no Tocantins. São 720 quilômetros de linha ferroviária.
As obras nesse trecho foram concluídas em 1996 e, à época, a operação foi concedida para a Vale. Contudo, com a criação da VLI – empresa de logística do Brasil que controla as concessionárias de transporte ferroviário de cargas – a mesma passou a operar a ferrovia.
Foto: Reprodução/Massa Pesagem e Automação Industrial
Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO)
A FICO, como é popularmente conhecida, faz parte de uma política para o desenvolvimento logístico como forma de interligar os produtores de grãos do Centro-Oeste até a Ferrovia Norte Sul.
Com 888 km de extensão, sendo 383 quilômetros de Mara Rosa, em Goiás, a Água-Boa, no Mato Grosso e 505 km de Água Boa a Lucas do Rio Verde no mesmo estado.
A FICO é responsável pelo escoamento da produção de soja e milho do Mato Grosso, pertencente à Amazônia Legal, e maior produtor de soja do Brasil, para os portos de São Luís, Maranhão; Santos, São Paulo e Paranaguá, no Paraná.
O projeto da Ferrogrão (EF-170), com 933 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso e Miritituba, no Pará, busca criar uma rota de exportação por meio dos rios da Bacia Amazônica. A ferrovia está incluída no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo federal, mas ainda não foi leiloada devido a impasses jurídicos e ambientais.
A proposta é voltada ao transporte de grãos, especialmente soja e milho. O traçado atravessa áreas sensíveis, como a zona de amortecimento do Parque Nacional do Jamanxim, o que gera debates sobre impactos ambientais e sociais.
Já a Ferrovia Tocantins (EFT) é um projeto estadual voltado à criação de um corredor ferroviário entre o estado do Tocantins e os portos do Arco Norte. A ferrovia visa conectar a malha regional ao porto de Vila do Conde, no Pará, passando por regiões produtoras e polos logísticos no Tocantins.
O projeto ainda se encontra em fase inicial, com estudos de viabilidade em andamento. A proposta é integrar a EFT à Norte-Sul e a outros corredores logísticos, aumentando a capacidade de transporte de grãos, fertilizantes e minérios.
Dia do Ferroviário
Você sabia que o Brasil tem uma data comemorativa ao dia do ferroviário? Ela é celebrada no dia 30 de abril, em memória aos trabalhadores das estradas de ferro. A data foi escolhida porque em 30 de abril de 1854 ocorreu a inauguração da primeira linha ferroviária do Brasil, que inclusive contou com a presença do imperador Dom Pedro Segundo e da imperatriz Tereza Cristina.
O Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), foi convidado a ser um dos autores do traçado de mapas do Monitor de Secas do Brasil. Durante a 5ª Reunião de Avaliação do Monitor de Secas, em abril, técnicos da Sema apresentaram um panorama do bioma regional, seus aspectos geográficos, e caracterização da climatologia local.
O evento foi promovido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), em Brasília, na sede da ANA, nos dias 23 e 24. O Monitor de Secas é um processo de acompanhamento regular e periódico da situação da seca no Brasil, cujos resultados consolidados são divulgados por meio de mapeamento mensal. O mapa apresenta a situação de seca nas unidades federativas no mês anterior, além das áreas que ficaram livres do fenômeno.
A composição do Mapa é feita pelos ‘autores’, ‘observadores’ e ‘validadores’. O autor é o responsável pelo traçado dos mapas, analisando o máximo de dados e informações disponíveis, como indicadores de seca e produtos de apoio (anomalia de precipitação e índice de vegetação, por exemplo), a fim de representar a situação de seca da forma mais realista possível.
“Os observadores, que são os gestores de Unidades de Conservação preenchem o Formulário Mínimo Padrão (FMP) em relação à climatologia local. A Sema condensa essas informações avaliando a realidade local dos municípios, é com elas que validamos o mapa. Agora, com a entrada do Amazonas como autor, o traçado da seca pode ser mais representativo, porque temos uma visão mais apurada daqui”, explicou o gestor da Assessoria de Recursos Hídricos da Sema, Maycon Castro.
Em 2022, o Estado entrou no Monitor de Secas como validador das informações de seca traçadas por autores de outras regiões. Os validadores são responsáveis por confirmar ou sugerir alterações no traçado do mapa proposto pelo autor, baseando-se em evidências que atestem a severidade da seca no estado.
A reunião do Monitor de Secas é um encontro de diversos especialistas ambientais para discutir os impactos das secas recordes na Amazônia, Cerrado e Pantanal, além de verificar ajustes nos mapas e redes de observação do fenômeno climático.
Os dados apresentados pelo Amazonas no evento foram utilizados para mostrar o histórico do monitoramento de secas e os registros de secas intensas dos últimos anos, com exemplificação das cinco maiores secas do estado, suas ações de mitigação e níveis de impacto.
“Os eventos de secas estão cada vez mais intensos, e o Monitor de Secas é uma das principais ferramentas para entendermos a dinâmica da seca em escala nacional e estadual, porque permite uma análise mais regionalizada através de uma rede de observação composta por colaboradores de diferentes órgãos”, finalizou o gestor da Sema.
Aliança de ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a conservação de quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
Uma parceria estratégica entre o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) está impulsionando o cenário da conservação de quelônios na região do médio curso do Rio Solimões, Amazônia.
Com foco na Floresta Nacional de Tefé (FLONA Tefé) e na Reserva Extrativista (RESEX) do Baixo Juruá, a iniciativa promove ações integradas de proteção, pesquisa e geração de renda junto às comunidades tradicionais com foco em quelônios amazônicos.
As tartarugas-da-amazônia (Podocnemis expansa), tracajás (P. unifilis), iaçás (P.sextuberculata) e outras espécies de quelônios têm papel vital tanto para a ecologia dos rios quanto para a segurança alimentar das comunidades locais. Porém, décadas de caça ilegal e coleta de ovos colocaram essas espécies em situação crítica, o que mobilizou os esforços comunitários e institucionais pela conservação desses animais.
Desde 2009, comunidades da FLONA de Tefé vêm se organizando para proteger os ninhos de quelônios, por meio da vigilância das praias e da translocação de ninhos para locais seguros. Em 2023, o Instituto Mamirauá, por meio de seu Programa de Manejo da Fauna, iniciou uma colaboração mais estreita com o ICMBio e a UEA, visando apoiar essas práticas com base técnica, organizacional e científica.
Aliança de ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a conservação de quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
Diogo Lima, coordenador do Programa de Manejo da Fauna do Instituto Mamirauá, explica que essas atividades têm raízes profundas na região. “Desde os anos 90, o Instituto já atua na conservação de quelônios, em projetos que começaram na Reserva Mamirauá e se expandiram por outras regiões da Amazônia. Agora, queremos fortalecer ainda mais esses sistemas, respeitando o saber tradicional e integrando a ciência e a legislação.”
Segundo Lima, a atuação conjunta visa não apenas aumentar o número de animais devolvidos à natureza, mas também apoiar a autonomia comunitária. “Estamos ajudando desde o mapeamento participativo até a capacitação em boas práticas de criação e soltura. E o mais importante: tudo parte da demanda das próprias comunidades.”
Uma das ferramentas utilizadas para entender melhor as realidades locais foi a aplicação da matriz FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças) em encontros com cinco comunidades da FLONA de Tefé: Cacautuba, Itaúba, Boa Vista, Tauary e Bom Jesus. Os levantamentos revelaram um total de 50 citações, com destaque para as fraquezas, que representaram 33% a mais que os outros elementos, evidenciando os desafios enfrentados pelas comunidades.
Quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
Entre os pontos fortes, os participantes destacaram a riqueza dos ambientes disponíveis para a conservação, o aumento perceptível das populações de quelônios e a ampla participação comunitária. Por outro lado, questões como falta de apoio externo contínuo, consumo excessivo de ovos e invasões ilegais das áreas protegidas foram apontadas como obstáculos significativos.
Afonso José Cruz Gonçalves Pereira, biólogo do ICMBio, vê na mobilização comunitária o caminho para reverter esse cenário. “Nesse programa, a ideia geral é trabalhar a conservação desse grupo animal junto aos comunitários da FLONA Tefé e RESEX do Baixo Juruá, tentando empoderá-los e capacitá-los para atuarem na proteção dos bichos e, consequentemente, do território”.
Solturas e geração de renda: um ciclo de sustentabilidade
Em janeiro e março de 2025, foram realizadas importantes solturas de quelônios nas comunidades Cumaru (RESEX Baixo Juruá) e Bom Jesus (FLONA de Tefé), com a devolução de mais de 3 mil animais à natureza. Essas ações se somam às capacitações em translocação de ninhos e boas práticas de manutenção em berçários.
Aliança de ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a conservação de quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
A geração de renda, aliás, é uma preocupação central para garantir a sustentabilidade dos projetos. “Essas ações demandam recursos. Temos custos com combustível, alimentação, infraestrutura”, explica Diogo Lima. “Por isso, buscamos viabilizar alternativas como o turismo de base comunitária e, no longo prazo, o manejo legal para comercialização.”
Algumas comunidades da FLONA de Tefé já começaram a explorar o turismo como alternativa econômica. “Elas têm buscado parcerias com agências locais para oferecer experiências de soltura aos visitantes. Isso gera receita e aumenta o engajamento na conservação”, acrescenta Lima.
Aliança de ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a conservação de quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
O programa também prevê a realização de atividades de educação ambiental voltadas ao público infantojuvenil das comunidades. Em 2025, o ICMBio planeja capacitações sobre práticas de conservação comunitária a serem realizadas na FLONA Tefé, com oficinas de organização comunitária, vigilância, educação ambiental e soltura de filhotes.
“Paralelamente, durante a mesma atividade, estamos pretendendo trabalhar ações de educação ambiental voltadas ao público infanto-juvenil dentro da temática de preservação e proteção comunitária (atividades lúdicas e minipalestras)”, informa Afonso Pereira, do ICMBio.
Conhecimento tradicional, ciência e legislação: um tripé eficaz
A colaboração com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) reforça o elo entre o conhecimento acadêmico e o saber tradicional. Para o professor e biólogo Rafael Bernhard, da UEA, a união entre comunidade, ciência e órgãos públicos é essencial.
Aliança de ciência e conhecimentos tradicionais fortalece a conservação de quelônios na Amazônia. Foto: Miguel Monteiro
“A Amazônia é um bioma gigantesco, continental. Dentro dele os quelônios sofrem intensamente com a pressão de caça e coleta dos ovos. Eles só não se encontram num nível maior de ameaça graças às ações para a sua proteção realizadas há décadas pelos órgãos de proteção ambiental federais, estaduais e municipais. A eles somam-se iniciativas de pessoas que vivem no interior e que estão dispostas a colaborar na proteção dos quelônios. Algumas são anteriores à chegada dos órgãos ambientais. Iniciativas que unem o conhecimento tradicional, científico e da legislação através da parceria dos comunitários com órgãos públicos e ONGs tendem a produzir um efeito sinérgico que aumenta a eficiência das ações de conservação”, afirma Bernhard.
A consolidação desse esforço coletivo caminha para a formalização de um projeto estruturado, com previsão de submissão a editais de financiamento para projetos complementares. A perspectiva é expandir o modelo para outras áreas da Amazônia, respeitando a especificidade de cada comunidade e promovendo a cogestão das Unidades de Conservação.
Diogo Lima reforça que o protagonismo comunitário é a chave para o sucesso de qualquer iniciativa de conservação. “Os projetos que deram certo são aqueles que nasceram da própria comunidade. Nosso papel é apoiar, orientar, mas sempre reconhecendo que o maior conhecimento sobre o território está com quem vive ali.”
Com base em uma atuação integrada, adaptada às realidades locais e voltada ao empoderamento das populações tradicionais, a parceria entre o Instituto Mamirauá, ICMBio e UEA aponta caminhos promissores para a conservação de quelônios na Amazônia. Em um bioma onde os desafios são tão vastos quanto os rios que o cortam e alimentam, a união entre saberes e forças se mostra não apenas eficaz, mas indispensável.
Unidade de Conservação no estado do Pará. Foto: Augusto Miranda/Agência Pará
Publicado no Diário Oficial do Estado (DOE) no dia 23 de abril, o Decreto nº 4.613, que regulamenta a implantação da Cota de Proteção Ambiental (CPA). O instrumento jurídico visa fortalecer o financiamento das Unidades de Conservação (UCs) do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), por meio da captação de recursos junto a pessoas físicas e jurídicas interessadas em contribuir com a preservação da biodiversidade paraense.
A CPA corresponde a um título representativo de 1 hectare de UC de Proteção Integral e poderá ser adquirida tanto para fins compensatórios quanto não compensatórios. A medida representa uma nova frente de sustentabilidade financeira para as áreas protegidas que integram o Sistema Estadual de Unidades de Conservação da Natureza (Seuc), gerido pelo Ideflor-Bio.
“O DOE [dia 23] publica o decreto 4.613 que regulamenta o artigo 18 da Lei Estadual 6.745/2005 e dispõe sobre a Cota de Proteção Ambiental. Esse decreto é muito importante para a manutenção das nossas UCs e para o fortalecimento institucional do Ideflor-Bio”, afirmou o presidente do Instituto, Nilson Pinto. Ele destacou, ainda, o trabalho técnico realizado.
“Parabéns a todos os que contribuíram para a formulação dessa medida, com destaque para as equipes do Ideflor-Bio, Semas [Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade] e PGE [Procuradoria Geral do Estado], que estiveram envolvidos na sua elaboração”, enfatizou.
As CPAs poderão ser adquiridas em duas modalidades: a compensatória permite que a compensação do passivo de reserva legal, prevista no Código Florestal Brasileiro (CFB), seja feita nas UCs paraenses. Já a Não Compensatória, que tem caráter exclusivamente voluntário e não poderá ser usada para fins de compensação de Reserva Legal. O preço unitário será estabelecido em ato específico do Ideflor-Bio, com a modalidade não compensatória custando 60% do valor da compensatória.
Unidade de Conservação no Pará. Foto: Reprodução/Agência Pará
A aquisição da CPA também envolverá um contrato com validade de 15 anos, podendo ser renovado. O decreto assegura ao adquirente a regularidade ambiental durante o período de vigência contratual, desde que esteja adimplente. Os recursos arrecadados serão depositados no Fundo Estadual de Desenvolvimento Florestal (Fundeflor) e utilizados para ações de criação, manutenção e restauração das UCs.
Além disso, o Ideflor-Bio será responsável por desenvolver e gerir um sistema informatizado para monitorar as operações envolvendo CPAs. Esse sistema deverá ser integrado aos demais sistemas estaduais de meio ambiente, assegurando transparência, rastreabilidade e controle público de todas as etapas do processo.
Entre os principais objetivos da iniciativa estão o estímulo à recuperação da vegetação nativa, o fortalecimento do financiamento ambiental descentralizado e a ampliação das alternativas legais de compensação ambiental. A norma também veda o uso das CPAs para compensação de Áreas de Preservação Permanente (APP) e não permite sua transferência entre terceiros.
Para o presidente do Ideflor-Bio, a criação da CPA é um marco na política ambiental do Pará. “Com esse decreto, a produção econômica torna-se aliada direta da proteção ambiental”, afirmou Nilson Pinto. Com a regulamentação, o Estado passa a contar com uma ferramenta moderna e eficaz para conciliar desenvolvimento rural e conservação ambiental em um dos biomas mais estratégicos do planeta.
As Unidades de Conservação (UCs) são áreas naturais criadas e protegidas pelos poderes públicos municipais, estaduais ou federais. Elas são regulamentadas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), estabelecido pela Lei nº 9.985/2000.
Por definição, essas unidades são espaços do território nacional e das águas jurisdicionais que possuem características relevantes do ponto de vista natural, com o objetivo principal de conservar os recursos naturais e a diversidade biológica.
Contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos;
Proteger espécies ameaçadas de extinção;
Promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais;
Recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;
Proteger recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando sua cultura e promovendo seu desenvolvimento social e econômico.
As UCs podem ser classificadas em duas categorias: Proteção Integral e Uso Sustentável. As UCs de Proteção Integral têm como principal finalidade a preservação da natureza, restringindo atividades de exploração dos recursos naturais, permitindo apenas turismo ecológico, pesquisa e educação ambiental. Já as UCs de Uso Sustentável buscam equilibrar a conservação ambiental com o uso dos recursos naturais de forma controlada.
Atualmente no Brasil, há 336 Unidades de Conservação federais, das quais 149 estão localizadas na Amazônia Legal. Estas, somadas a mais 202 unidades estaduais, compõe uma extensa rede formada por 126 unidades de proteção integral e 225 unidades de uso sustentável. Essas 351 federais e estaduais na Amazônia Legal se localizam em um total de 343 municípios, diretamente beneficiados pelo reconhecimento e destinação desses territórios para áreas de conservação, uso sustentável, repartição de benefícios, turismo de base comunitária e ecoturismo. São 150 municípios com incidência de Unidades de Conservação de Proteção Integral e 287 com UCs de Uso Sustentável na região amazônica.
A Universidade Federal de Rondônia (Unir) divulgou um estudo que mostra que os poços amazônicos utilizados pela população de Ariquemes estão contaminados. O levantamento avaliou a qualidade da água de abastecimento público e de poços amazônicos em diferentes pontos de coleta, abrangendo toda a área de Ariquemes. Para analisar os parâmetros de potabilidade, o estudo usou como base os padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde através da Portaria 888/2021.
Dentre as 12 amostras de poços amazônicos avaliados, todas indicaram presença de coliformes totais e 10 tiveram confirmação de contaminação pela bactéria Escherichia coli. O estudo afirma que, considerando os resultados, “as águas de poços amazônicos de Ariquemes são consideradas impróprias para consumo”.
Ainda de acordo com o estudo, em relação às amostras de água do abastecimento público, todas apresentaram padrões microbiológicos compatíveis com a legislação para água potável, com ausência de contaminação por coliformes totais e E. coli.
Usar água de poços é uma cultura da região. A água é retirada do lençol freático subterrâneo, acessado através de escavações manuais ou mecanizadas. O estudo aponta que “os resultados dessa pesquisa corroboram com a hipótese de que o lençol freático de Ariquemes esteja contaminado, possivelmente pelo uso de fossas como destino final de esgoto doméstico na maior parte da cidade”.
O estudo foi solicitado pelo Ministério Público de Rondônia, através da Promotoria de Justiça de Ariquemes, e realizado pelo campus da Unir na cidade, através da profª. doutora Gisele Teixeira de Souza, do curso de engenharia de alimentos.
“De acordo com os resultados obtidos e considerando que boa parte da população de Ariquemes ainda utiliza água de poço para suas necessidades, como escovar os dentes, lavar vegetais, frutos, utensílios e até mesmo para o consumo, muitos habitantes estão expostos a doenças causadas por água que não está própria para o uso e consumo”, explica Gisele sobre o estudo.
O estudo aponta ainda que Ariquemes possui um problema de saúde pública em relação à utilização de água de poços. Segundo a professora, os dados auxiliam o poder público a tomar medidas que melhorem a qualidade de vida da população.
“Um dos principais objetivos de expor esses dados desta forma é mostrar para as autoridades que algo precisa ser feito para conscientizar a população e facilitar a aquisição de água de qualidade”, aponta Gisele.
O estudo se dedicou ainda a um tema que tem gerado debate na cidade: a água turva, situação pontual, ocasionada por paralisação no sistema ou após a realização de reparos no sistema de abastecimento da cidade.
De acordo com a publicação, os dados de turbidez junto aos microbiológicos indicam que a coloração da água da rede pública de abastecimento de Ariquemes não tem relação com contaminação microbiológica.
“A turbidez na água não indica necessariamente contaminação por agentes patogênicos. Pode-se ter altos índices de turbidez sem contaminação microbiológica”, explica Gisele no estudo.
Os resultados atingidos pela Unir concluíram ainda que a água de abastecimento público atingiu o padrão de potabilidade em todos os pontos analisados. Em contrapartida, as amostras de águas de poços amazônicos são consideradas impróprias para consumo, considerando o padrão microbiológico.
Essa não é a primeira vez que o campus da Unir realiza um estudo como esse. Em um estudo divulgado em 2024, pesquisadores da Unir analisaram amostras de água de 40 poços em Buritis, também no Vale do Jamari de Rondônia. O resultado revelou contaminação fecal em 98% dos poços analisados. Todos os bairros da cidade possuem poços contaminados. As amostras foram colhidas em outubro e novembro de 2023.
A pesquisa revelou que a água distribuída pela rede pública estava de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, mas quase toda a água dos poços é imprópria para consumo.