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Estiagem severa no Amazonas aumenta teleatendimentos psicológicos de indígenas e ribeirinhos

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Foto: Reprodução/Fundação Amazônia Sustentável

Durante a estiagem que atingiu rios amazônicos, o teleatendimento psicológico tem sido fundamental para apoiar pacientes que lidam com o aumento da ansiedade e angústia devido à incerteza do período. Entre os meses de agosto a outubro, a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), responsável pelos atendimentos, realizou mais de 50 atendimentos psicoterapêuticos, auxiliando no desenvolvimento de estratégias para melhorar a qualidade de vida e a saúde mental de indígenas e ribeirinhos na região.

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Em 2023, a FAS contabilizou 193 teleatendimentos psicológicos, seguidos de 229 em 2025, em comunidades dentro de Unidades de Conservação (UCs). Ou seja, um aumento de 18%. Além disso, entre os meses de agosto e setembro, 30 atendimentos foram registrados, dos quais sete (23%) tiveram como queixa principal os impactos da estiagem. Já entre setembro e outubro, oito atendimentos (33%), dos 24 registrados, destacaram a estiagem severa que afetou o Amazonas neste ano.

As queixas relatadas incluem sintomas de depressão, fobia social, transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), conflitos familiares e conjugais, e luto.

Cristina Maranghello, psicóloga clínica e responsável pelos teleatendimentos, vê que a alteração abrupta na rotina afeta a sensação de segurança e aumenta a imprevisibilidade em relação ao futuro.

“A maior diferença percebida nos relatos antes e durante a estiagem está relacionada à intensificação das preocupações e ao aumento da sensação de vulnerabilidade. Antes da estiagem, as queixas costumavam estar mais relacionadas a “desafios do cotidiano”, comenta.

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Foto: Fundação Amazônia Sustentável

Com a seca dos rios, os comunitários enfrentam uma queda de renda financeira e se vêem isolados, com muita dificuldade para conseguir itens básicos para subsistência, como água potável, alimentos e medicamentos. O calendário escolar é interrompido, o provisionamento de energia elétrica oscila e os lares passam a ter muitas pessoas reunidas em um período maior, o que favorece a ocorrência de conflitos familiares.

Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, destaca que a crescente valorização da saúde mental torna a oferta de psicoterapia via teleatendimento uma iniciativa fundamental. O programa que ela coordena foi criado durante a pandemia de Covid-19 pela instituição, fortalecendo as ações em saúde da FAS e, desde então, vem fazendo um diferencial em comunidades distantes da Amazônia.

“Essa abordagem promove qualidade de vida e ensina técnicas para lidar com sintomas como ansiedade e depressão. Conflitos familiares são comuns nessas comunidades, e a psicoterapia, via telessaúde, ajuda a melhorar o convívio familiar e a resolver essas questões conforme as necessidades de cada família”, diz Costa.

Devido ao forte calor, outro aspecto percebido foi a diminuição da prática de atividades físicas, um recurso extremamente recomendado para equilibrar os hormônios e neurotransmissores, que ajudam no combate à ansiedade e depressão.

Ecoansiedade

Referenciado de forma pioneira pela pesquisadora americana Susan Clayton, o termo “ecoansiedade”, ou “ansiedade climática”, é caracterizado como uma sensação de impotência e desesperança frente às mudanças climáticas que o mundo acompanha. Segundo um estudo publicado na revista científica The Lancet Planetary Health, em 2021, mais de 60% dos jovens entre 16 e 25 anos, no Brasil, se dizem “muito” ou “extremamente preocupados” com as mudanças climáticas.

Embora os termos não tenham critérios diagnósticos definidos pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), da Associação Americana de Psiquiatria, a psicóloga Cristina enfatiza que muitos sintomas estão relacionados a esse fenômeno.

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Foto: Fundação Amazônia Sustentável

“É evidente que a preocupação com o impacto das mudanças climáticas afeta diretamente a saúde mental dos pacientes, especialmente no contexto de cuja subsistência depende diretamente do equilíbrio ambiental. Essas preocupações são vivenciadas no dia a dia, com consequências concretas e imediatas na  Amazônia”, afirma Maranghello.

De acordo com a profissional, as novas informações sobre as mudanças climáticas não podem ser jogadas para “escanteio”. Para transmiti-las com ética e profissionalismo, a orientação é sensibilizar o público através de webpalestras e rodas de conversa, que são instrumentos de reflexão e acolhimento. A abordagem deve abarcar os aspectos realistas e uma perspectiva otimista, como iniciativas que se destacam em prol do meio ambiente.

Para os próximos anos, Cristina Maranghello também indica os passos que as populações tradicionais da Amazônia podem tomar para lidar com o assunto.

“Em primeiro lugar, o acesso ao conhecimento sobre o assunto é fundamental para a autonomia e o senso crítico do problema. Iniciativas para diminuir a pegada ambiental e formas mais sustentáveis de administrar os recursos caseiros são opções que não dão espaço para discursos alarmistas, na mesma medida em que as populações se tornam protagonistas frente às adversidades com resiliência e autonomia. Não podemos deixar de destacar o grande diferencial que é o atendimento psicológico para essa população. Com este acompanhamento os pacientes se tornam mais fortalecidos emocionalmente, frente aos problemas em geral”, finaliza Maranghello.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável

Laboratório paraense une tradição e tecnologia na criação de nanoprodutos com bioativos

Foto: Alexandre de Moraes

Tão importante quanto a geração de conhecimento e a qualificação de pessoal para o mercado de trabalho, fazer chegar à sociedade os conhecimentos, as tecno­logias e os produtos desenvolvidos nos laboratórios faz parte das preocupações dos vários grupos de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA). É dentro deste trinômio ensino, pesquisa e extensão que atua o Laboratório de Biomateriais, Bioprodutos e Tecnologias de Biofabricação (Labbio 3D), do Instituto de Ciências Biológicas, um dos mais novos e atuantes da UFPA.

O Labbio 3D desenvolve materiais e produtos para as áreas da saúde e agricultura utilizando recursos naturais da região. O grupo de pesquisa foi criado em 2017, mas sua trajetória foi interrompida durante a pandemia de covid-19. No início de 2024, o laboratório foi estruturado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Apesar da curta trajetória, o Labbio 3D possui mais de dez prêmios em editais de inovação e pesquisa científica.

Liderado por Marcele Fonseca Passos, professora adjunta da Faculdade de Biotecnologia (ICB/UFPA), doutora e mestre em Engenharia Química pela Unicamp, o Labbio 3D é um laboratório de biofabricação que desenvolve órteses, biocurativos, biocosméticos, biofertilizantes e fertilizantes organominerais.

Os materiais para a área da agricultura são produzidos em processos nanoestruturados e com resíduos agroindustriais; os de saúde agregam, além da nanotecnologia, a técnica da manufatura aditiva, conhecida como impressão 3D, empregada no desenvolvimento de protótipos e de órteses. Estas últimas podem substituir o gesso em fraturas, eliminando problemas de oxigenação e irritação da pele. O laboratório é o primeiro da UFPA a possuir uma bioimpressora 3D, tecnologia empregada no desenvolvimento de biocurativos para cicatrização de feridas.

Um dos objetivos do laboratório é fazer chegar aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) os materiais produzidos para a área da saúde, como os biocurativos feitos com base no conhecimento tradicional, resultando em produtos de baixo custo. A copaíba, por exemplo, é um dos bioativos da Amazônia empregados na produção de curativos.

Marcele Passos informa que o laboratório desenvolveu uma membrana associada à copaíba, a qual, aplicada à ferida, tem a capacidade de absorver a matéria exsudada, o pus. Essa ação lhe dá maior eficiência por não grudar no ferimento, como ocorre com a gaze.

Produzida nos formatos de esparadrapo e filme, a membrana desenvolvida no Labbio 3D tem ação antimicrobiana e anti-inflamatória. Ela impede a proliferação de microrganismos indesejados, além de melhorar a oxigenação no local.

Produção passa por rigorosas fases de análise

O emprego de bioativos (extratos e óleos vegetais) da Amazônia pelo Labbio 3D passa por diversas fases, a começar pela prospecção, ou seja, a busca e identificação de compostos biológicos adequados ao objetivo da pesquisa.

No caso de feridas, a procura é por bioativos que tenham propriedade antimicrobiana. Na fase seguinte, é realizado um estudo individual do bioativo para constatar suas propriedades e determinar a concentração necessária para alcançar a ação medicamentosa. Há de se considerar que os bioativos possuem certa variabilidade, como no caso da copaíba, cujo óleo difere segundo a estação da extração (inverno ou verão) e a localização geográfica da árvore.

Em seguida, é realizada a combinação do bioativo com outras matrizes, normalmente matrizes poliméricas, por meio da adição de diferentes tecnologias. O resultado é a produção de diferentes formatos de materiais. No caso dos curativos, o Labbio produz géis, películas, filmes e membranas.

“Então, dependendo do grau e do tipo de ferida, usamos uma tecnologia específica. Após a realização dessas etapas, fazemos os ensaios in vitro com células cultivadas em laboratório, em parceria com o Instituto Evandro Chagas. Somente depois, passamos para os testes in vivo, realizados em camundongos”, explica Marcele Fonseca Passos. No entanto, como há uma grande demanda, o laboratório está desenvolvendo uma nova vertente, chamada “pele sintética”, que vai reduzir a quantidade de animais empregados nos testes in vivo.

Na área agrária, o Labbio 3D atua em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) para o desenvolvimento de biofertilizantes com resíduos agroindustriais. O laboratório é responsável pelas formulações, cabendo aos pesquisadores da Ufra a realização de testes, dado o domínio que possuem em relação ao solo e à aplicação de produtos agrários.

Segundo a coordenadora, o Labbio 3D, em parceria com o Grupo Microbioma, atua na prospecção de microorganismos e bioativos amazônicos conforme o tipo de aplicação propiciada pela planta em estudo (fungicida, bactericida). Em outra vertente, o laboratório está desenvolvendo a produção de cosméticos enquadrados como bioprodutos. Os estudos estão se concentrando no desenvolvimento de máscaras faciais para acne, hidrogéis e materiais para regeneração de tecidos.

É extenso o rol de parcerias que o Labbio 3D mantém, dada a diversidade de produtos que pesquisa. Dentro da UFPA, o laboratório atua em parceria com pesquisadores de diferentes áreas. É o caso, por exemplo, do desenvolvimento de uma membrana com óleos essenciais e de um bionanossistema para tratamento da leishmaniose.

“A nossa equipe está espalhada na UFPA e nas instituições com quem temos parcerias, como o Instituto Evandro Chagas, o Museu Emílio Goeldi, a Uniara, a UFMG e a UFPB, entre outras. Eu não poderia desenvolver todas as pesquisas sozinha. Sem o apoio dos meus alunos e dos parceiros, este laboratório não iria para frente.”, diz a coordenadora.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por Walter Pinto

Organização peruana monitora possibilidade de La Niña em 2025: “improvável”

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Foto: Reprodução/Agência Andina

Os anúncios do fenômeno La Niña na costa peruana são diluídos. A Organização Nacional de Estudos do Fenômeno ‘El Niño’ (ENFEN) informou que o sistema de alerta permanece ‘Não Ativo’ e que esta situação poderá continuar até agosto deste ano.

Da mesma forma, a ENFEN indica que é “improvável” que o fenômeno conhecido como La Niña ocorra na parte central do Oceano Pacífico nos próximos meses.

Leia também: Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

Foto: Reprodução/Agência Andina

No mesmo documento, a agência aponta que “no Pacífico central, as condições de frio fraco são mais prováveis ​​até fevereiro de 2025, seguidas de condições neutras até agosto deste ano”. Nesse sentido, a ENFEN considera “improvável que um evento La Niña se consolide nos próximos meses”.

A organização explica a este respeito que é mais provável que “a condição neutra continue, por enquanto, até agosto de 2025”.

Condições “neutras”

Relativamente às chuvas, a ENFEN salienta que “é mais provável que ocorram condições normais a abaixo do normal nas terras altas ocidentais do norte e abaixo do normal na costa norte”.

Chuvas acima do normal provavelmente ocorrerão nas montanhas do centro e sul do país. Da mesma forma, afirma-se que o caudal nos rios da zona centro e sul será “normal e acima do normal”.

Na contramão, a zona norte do país, especificamente nos rios Piura e Chira, “predominariam fluxos muito abaixo do normal e abaixo do normal”. 

Foto: Reprodução/Agência Andina

Neste sentido, recomenda-se que as autoridades e a população “tenham em conta os cenários de risco baseados tanto nos avisos meteorológicos como nas previsões sazonais” para que tomem as medidas correspondentes para reduzir o risco de catástrofes “em caso de mudanças bruscas de condições oceânico-atmosféricas, principalmente na costa norte”.

Recursos pesqueiros

O comunicado refere ainda que os processos de maturação e desova dos indicadores reprodutivos continuarão a apresentar um aumento “de acordo com o seu padrão histórico”.

Espécies como o carapau, a cavala e o bonito aumentarão a sua disponibilidade “de acordo com a sua sazonalidade”.

Foto: Reprodução/Agência Andina

Relativamente à pescada, prevê-se que a sua disponibilidade continue, maioritariamente com exemplares inferiores a 28 centímetros.

*Com informações da Agência Andina

Plataforma potencializa combate a crimes ambientais na Amazônia

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Imagem: Reprodução / Green São Paulo

No último ano, o Brasil tem enfrentado um cenário climático extremo, com períodos de chuvas intensas alternando com secas prolongadas, que atingiram diversas regiões, entre elas o Norte do país. A região também apresenta grandes índices de queimadas, desmatamento ilegal e outros ilícitos, colocando em evidência a necessidade do monitoramento contínuo e eficiente das áreas florestais.  

Nesse contexto, o Programa Brasil MAIS é uma ferramenta importante para combater os crimes ambientais e acompanhar impactos potencializados pelas mudanças climáticas. Por meio da Plataforma Web, é possível acessar e compartilhar imagens diárias de alta resolução capturadas pela constelação PlanetScope e ter acesso aos alertas gerados pela SCCON.

Leia também: Saiba o que é o inverno amazônico e por que o Amazonas vive a estação ‘peculiar’

Rondônia eleva eficácia no combate ao desmatamento

De acordo com o Major Felipe Santos das Chagas, da Polícia Militar de Rondônia – PM/RO, a instituição tem obtido resultados expressivos. Desde a implementação da RedeMAIS em 2021, a PM/RO aprimorou sua atuação, elevando sua capacidade de resposta de cinco alvos semanais para uma média de quatro alertas diários.

“Com o uso do geoprocessamento e da ferramenta Brasil MAIS, as operações tornaram-se mais eficazes e assertivas. Dessa forma, podemos redirecionar os policiais conforme a necessidade, aumentando a eficácia na fiscalização, reduzindo os desmatamentos, além de facilitar a execução de ações preventivas”.

Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

Controle ambiental ganha agilidade no Amapá    

A RedeMAIS também tem sido uma aliada importante nas averiguações conduzidas pela Polícia Civil do Estado do Amapá (PC/AP), como na operação Protetor dos Biomas, um programa do Governo Federal que visa combater incêndios florestais, desmatamento e proteger Terras Indígenas. O projeto que conta com a participação de órgãos como a Polícia Civil, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar, resultou em prisões em flagrante e apreensões de madeira, motosserras e até armas de fogo, muitas vezes associadas a atividades de caça ilegal.

“O uso da plataforma tem sido crucial para dar suporte às equipes durante as operações. Por meio da análise de dados de satélite, alertas ambientais e da produção de mapas georreferenciados, conseguimos orientá-las ao levantar informações precisas dos pontos de desmatamento, áreas protegidas e vias de acesso atualizadas, antes mesmo delas irem a campo. Essa abordagem permite maior eficiência nas investigações e contribui diretamente para a proteção ambiental no estado”, afirma Thalita Barcessat Vaz Pelaes, escrivã da PC/AP.

Programa intensifica ações policiais e apresenta bons resultados

A Polícia Civil do Estado do Pará – PC/PA, em colaboração com a Força-Tarefa Amazônia Segura, utiliza o programa para verificar áreas protegidas e unidades de conservação, especialmente em municípios com decretos de emergência, identificando possíveis regiões de risco e degradação.   

Foto: Karla Silva/Sema-MT

“Com a ferramentas da RedeMAIS conseguimos identificar tipos específicos de danos, como instalações irregulares em corpos d’água, incêndios florestais e exploração ilegal. A tecnologia integra dados e relatórios completos e atualizados sobre os espaços territoriais de proteção, florestas públicas e embargos. Isso nos ajuda a elaborar mapas precisos e qualificar os delitos cometidos, facilitando nossa análise, planejamento e a tomada de decisões em campo”, explica Sandrison Ribeiro, Investigador da PC/PA. 

Já a Polícia Civil do Estado do Amazonas – PC/AM, por meio da Delegacia de Crimes Ambientais do Estado (DEMA), dedicada exclusivamente à investigação de infrações contra o meio ambiente, utiliza a RedeMAIS para aprimorar suas atividades de investigação e perícia criminal.  Apenas no primeiro semestre, foram instaurados 134 inquéritos policiais, realizados 71 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) e presas 20 pessoas, tanto em flagrante delito quanto em cumprimento a mandados de prisão por crimes como maus-tratos a animais, poluição sonora e ambiental, desmatamento e pesca ilegal. 

Para Jucélia da Silva Trindade, investigadora da PC/AM, “a ferramenta contribui para as análises das áreas críticas e na mensuração precisa dos impactos ambientais. Isso otimiza tempo e recursos, o que antes poderia levar até um mês. Hoje, conseguimos realizar o mesmo trabalho em minutos, principalmente em áreas de difícil acesso, sem a necessidade de percorrer todo o local do crime ambiental”.

Leia também: Secas e cheias devem tornar-se mais intensas e frequentes na Amazônia, aponta pesquisador

Programa Mais Brasil

Programa Brasil MAIS é uma iniciativa abrangente e pioneira, com o objetivo de promover cooperação, compartilhamento de tecnologias, metodologias, técnicas e dados atualizados. Hoje já conta com mais de 560 instituições governamentais cadastradas, que somam cerca de 110 mil usuários.   

O Programa Brasil MAIS monitora mais de 8,5 milhões de km² do território brasileiro e áreas costeiras marinhas diariamente. A adesão está disponível para as instituições públicas do Brasil que tenham interesse de fazer parte da RedeMAIS, sendo disponibilizado acesso às imagens diárias de alta resolução da Planet e os alertas de detecção de mudanças gerados pela SCCON via Plataforma Web integrada, simples e intuitiva.

   


 

Biólogo afirma que perda da biodiversidade na Amazônia representa prejuízo biológico, econômico e medicinal

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Foto: Reprodução/CENSIPAM

Em meio a um cenário mundial profundamente marcado pela mudança climática, a 30º Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 30) será sediada em Belém (PA) em novembro de 2025. Com a Floresta Amazônica como centro, discussões e projetos sobre sua sustentabilidade e biodiversidade tornam-se essenciais, como o projeto do professor e biólogo Dalton de Souza Amorim, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, que aborda a biodiversidade na Amazônia, o impacto do desmatamento sobre a biodiversidade e a importância das espécies de insetos para a floresta.

Segundo o professor, refletir sobre o cenário do desmatamento e sua ampla expansão na atualidade é essencial, principalmente ao se pensar na possibilidade do desmatamento zero.

“Entre agosto de 2023 e julho de 2024, o desmatamento na Amazônia Legal teve uma redução de 30%, um pouquinho mais de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso ainda representa a perda de 4.300 quilômetros quadrados só nesse período de um ano. Quatro mil e trezentos quilômetros são 80 quilômetros por 50 quilômetros que foram perdidos neste ano, ou seja, enquanto a gente não tiver desmatamento zero, a extinção da floresta é uma questão de tempo, porque ela é cumulativa”, enfatizou o professor.

Dessa maneira, a proteção da biodiversidade e interrupção do desmatamento não são apenas ações recomendáveis, mas éticas e urgentes, assim como explicado por Souza Amorim, que também enfatiza a importância da proteção dos pequenos insetos, classe de animais profundamente afetada pelo desmatamento. 

“Quando passa o “correntão” [técnica de desmatamento], 100 mil, 150 mil, 200 mil espécies podem estar sendo impactadas em cada lugar, pois não existe uma única Amazônia. Áreas diferentes da Amazônia têm espécies diferentes de mamíferos, espécies diferentes de aves, e deve ser o mesmo com os insetos. O nosso projeto precisa dimensionar o tamanho da biodiversidade, mostrar a complexidade, pois aí teremos ferramentas muito mais precisas para indicar caminhos para a conservação.”

Peculiaridades

E a perda de tal biodiversidade não representa apenas uma perda biológica, mas econômica e medicinal também, afinal, várias dessas espécies têm valores científicos para pesquisas farmacêuticas, além de sua importância para processos biológicos como polinização, por exemplo. “Cada espécie tem uma bioquímica própria e, portanto, tem um potencial de fármacos que podem ser encontrados, desde parasitoides e outros produtos que a gente usaria na medicina, que simplesmente são removidos sem que a gente sequer conheça”.

Souza Amorim ainda ressalta o aspecto econômico associado ao processo de desmatamento na região amazônica, profundamente ligado à indústria agropecuária e extrativismo brasileira. 

“A remoção da floresta interessa a um grupo muito pequeno dentro da economia como um todo, basicamente pecuária, mineração e extrativismo de madeira”.

Além disso, ele reitera que, sob o lucro dessa pequena camada de pessoas, toda a população brasileira é prejudicada: “Prejudica a sociedade inteira e inclusive a economia inteira. A água é o fator principal, tanto no sentido de água disponível para as cidades, para o consumo humano, quanto água para a agropecuária. Hoje a gente sabe que 80% da agropecuária brasileira depende de chuvas geradas na floresta em áreas indígenas. Isso significa que as nações originárias são nossos parceiros na preservação da floresta, na preservação da água, na geração de chuva para a agropecuária. Isso nem todo mundo entende. Não é uma questão romântica de preservação da floresta amazônica, é um elemento supercentral na economia”, explica o professor.

Sobre o futuro do projeto, Souza afirma-se esperançoso e detalha que tem coletado e estudado material biológico desde julho de 2023.

“Já estudamos o DNA de 20 mil exemplares de insetos aqui, ainda faltam 300 mil no nosso, e tem um projeto parceiro no Inpa, no Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, em Manaus, que vai estudar mais de 260 mil exemplares, junto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Então é um projeto muito grande, financiado pela Fapesp e com apoio de várias partes, e a gente deve ter um mapeamento da fauna de insetos da Amazônia Central que nunca teve antes.”

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP

Governo Federal destina R$ 45 mi para combate e prevenção a incêndios em Mato Grosso

Foto: Reprodução/Agência BNDES de Notícias

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciaram a destinação de R$ 45 milhões do Fundo Amazônia para fortalecer a estrutura do Corpo de Bombeiros Militar do estado de Mato Grosso.

A iniciativa, coordenada pelo MMA e executada pelo BNDES, foi aprovada pela diretoria do Banco no dia 23 de janeiro. Mato Grosso é o oitavo estado a receber apoio para ações de prevenção e combate a incêndios florestais, que totalizam R$ 405 milhões do Fundo na Amazônia Legal – valores não reembolsáveis.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o Fundo Amazônia?

O projeto compreende aquisição de helicóptero e acessórios, capacitação de agentes públicos, sensibilização de comunidades locais e formação de brigadas, ampliando os serviços prestados pela corporação.

“O Governo Federal vem reforçando a atuação no combate aos incêndios florestais às queimadas ilegais em cooperação com os estados. São R$ 405 milhões para aparelhamento e estruturação das corporações nos estados da Amazônia Legal, como é o caso de Mato Grosso, e o Fundo Amazônia cumpre seu papel de promover a prevenção, o monitoramento e o combate ao desmatamento”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

A destinação de recursos para os estados da Amazônia Legal que apresentarem projetos para prevenção e combate a incêndios foi aprovada pelo Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA) em 2023, após a retomada do Fundo e de seu Comitê. Atuando no apoio à prevenção e ao combate a incêndios, o Fundo Amazônia contribui para mitigar prejuízos ambientais, como a redução da biodiversidade, a contaminação do ar e da água, a erosão do solo, o aumento da emissão de gases do efeito estufa, além de danos à saúde humana e às cadeias produtivas. Ao longo de 2023 e 2024, foram aprovados os projetos para apoio às corporações de bombeiros em Rondônia, Acre, Amapá, Pará, Roraima, Amazonas e Maranhão.

“Os eventos climáticos extremos têm elevado o risco de incêndios. O apoio do Governo Federal, por meio do Fundo Amazônia, é essencial para fortalecer ações integradas de prevenção e combate, protegendo nossos biomas e comunidades. Nosso compromisso é promover ações estruturantes e integradas para enfrentar os desafios das mudanças climáticas de forma efetiva”, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima

Leia também: Área equivalente a 10 cidades de Cuiabá foi queimada em Mato Grosso no mês de setembro

Durante o período de estiagem, o helicóptero a ser adquirido com recursos do Fundo Amazônia poderá operar a partir de bases aéreas temporárias estrategicamente posicionadas, já que o sistema de pouso e decolagem deste tipo de aeronave é mais flexível e não depende de pista. Esse posicionamento estratégico não só reduz o tempo de resposta nas áreas de mais difícil acesso, como as áreas do Pantanal e da Amazônia, mas também aumenta a eficácia das operações de combate ao fogo em regiões de alto risco.

Em contrapartida, além de adquirir equipamentos para combate e fiscalização, o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso vai estruturar as bases temporárias de pouso e decolagem, realizar campanhas educativas para sensibilizar técnicos, brigadistas, agricultores e produtores rurais das comunidades locais sobre prevenção. Além disso, está previsto um aumento do número de missões de fiscalização e de combate, com a contratação de bombeiros temporários, a capacitação de novos brigadistas e a implementação de brigadas florestais mistas em pelo menos 10 municípios que não contam com unidades do Corpo de Bombeiros Militar do Estado.

“Esse recurso é de grande importância para nossos esforços em prol do meio ambiente. Temos investido todo ano, em média, mais de R$ 90 milhões para combate e prevenção aos incêndios e ao desmatamento ilegal. Somos um estado de dimensões continentais, então, um recurso dessa envergadura vai fazer toda a diferença”, ressaltou o governador Mauro Mendes.

Leia também: Dados alarmantes: Mato Grosso registra quase 400 focos de incêndio em quatro dias

Foto: Agência BNDES de Notícias

Fundo Amazônia

Criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2008 e reativado em 2023, depois de quatro anos paralisado, o Fundo Amazônia capta recursos para combater o desmatamento, promover a conservação e o uso sustentável da Amazônia Legal.

Sob gestão do BNDES e coordenação do MMA, o Fundo tem uma carteira de 119 projetos apoiados, no valor total de R$ 2,99 bilhões. Mais de 650 instituições ano país, beneficiando 239 mil pessoas com atividades produtivas sustentáveis e garantindo o manejo sustentável de 75 milhões de hectares de área de floresta. O instrumento já recebeu mais de R$ 4,5 bilhões em doações, de sete países Noruega, Alemanha, EUA e Reino Unido, Dinamarca, Suíça e Japão.

O Fundo apoia ações de monitoramento e controle, de ordenamento territorial e de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). São 1,1 milhão de imóveis rurais inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR), 1.896 missões de fiscalização ambiental realizadas, 101 terras indígenas (TIs) da Amazônia e 196 unidades de conservação (UCs) apoiadas, 61 mil indígenas diretamente beneficiados, 74 milhões de hectares de áreas protegidas com gestão fortalecida (TIs e UCs), 613 publicações científicas ou informativas produzidas e 2.159 pesquisadores e técnicos envolvidos nas atividades de CT&I apoiadas.

Dentre as ações de monitoramento e controle, destacam-se projetos como os do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), e do IBAMA (PrevFogo) além dos corpos de bombeiros militares estaduais. Avaliação externa, realizada com base nos resultados de quatro projetos no primeiro ciclo, indicou redução de aproximadamente 30,3% dos focos de calor entre os períodos de 2003-2012 e 2013-2019, sendo o resultado sido mais positivo nas áreas apoiadas pelo Fundo Amazônia.

*Com informações da Agência BNDES de Notícias

De origem ribeirinha, Gracialda Costa Ferreira investiga a identidade das árvores

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Ferreira na UFRA, onde começou a carreira acadêmica e atualmente leciona. Foto: Abner Reis/UFRA

Aos 22 anos escutei pela primeira vez alguém chamar as árvores pelo nome científico: Myrcia sylvatica, cujo apelido é “murta”, e Banara guianensis, conhecida como “andorinha”. Era 1992 e eu estava em Igarapé-Açu, cidade a cerca de 120 quilômetros de Belém, no Pará. Foi meu primeiro dia de trabalho de campo coletando amostras de plantas como parte do Programa Shift [Studies of Human Impact on Forests and Floodplains in the Tropics], fruto de uma parceria da Embrapa Amazônia Oriental com as universidades de Bonn e de Göttingen, ambas da Alemanha. Aquilo gerou em mim um encantamento e, desde então, tenho estudado e trabalhado para conhecer a identidade das árvores.

Sou ribeirinha, nasci em Abaetetuba, cidade que é a segunda produtora de açaí do Pará. Venho de uma família muito humilde, minha mãe é dona de casa e meu pai, pescador. Durante toda a minha infância tomei banho no igarapé antes de ir para a escola pela manhã. 

Na volta, ia para o mato, que é como as pessoas das comunidades ribeirinhas chamam a floresta, e escalava o tronco das palmeiras para colher açaí. Foi o interesse pelas espécies vegetais que me motivou a estudar engenharia florestal na Faculdade de Ciências Agrárias do Pará [FCAP], hoje Universidade Federal Rural da Amazônia [Ufra].

Não foi um percurso fácil. Para começar, tive que convencer minha mãe a me deixar fazer o ensino médio. Para ela, bastava saber ler e escrever. Foi o curso técnico em contabilidade que me permitiu assumir uma vaga de trabalho temporário em um escritório em Belém, em 1991. No ano seguinte, fui para a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] fazer o trabalho de coleta botânica que também era para ser temporário, mas no qual acabei ficando até 2004, sempre em projetos relacionados à identificação de vegetais.

Trabalhei ao longo de toda a graduação. Saía do laboratório e ia direto para as aulas, boa parte das vezes sem almoçar, uma rotina que acabou afetando a minha saúde. No terceiro semestre do curso, consegui uma bolsa Pibic [Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica], financiada pelo CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Com meu primeiro pagamento contratei um plano de saúde para tratar uma úlcera, resultado da má alimentação.

Leia também: Conheça cinco espécies de árvores que são encontradas somente na Amazônia

Para Ferreira, identificar as árvores evita que espécies raras sejam exploradas na mesma intensidade que espécies comuns. Foto: Abner Reis/UFRA

Em 2000, concluí a graduação e no mesmo ano fui aceita no Programa de Mestrado em Ciências Florestais da então FCAP. No estudo, analisei o angelim, árvore da família Leguminosae, cuja madeira é uma das mais comercializadas no Pará. Concluído dois anos mais tarde, esse trabalho foi publicado pela Embrapa, em 2004, como Manual de identificação botânica e anatômica – angelim. 

O termo “angelim” engloba um grupo de espécies de árvores com propriedades diferentes, mas que, frequentemente, são vendidas sob o mesmo nome. Isso traz várias consequências, desde o comprometimento da qualidade do produto feito com a madeira até riscos para a conservação de espécies raras, que, por erros de identificação, são exploradas na mesma intensidade que espécies comuns.

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Ao sair da Embrapa, dirigi o Bosque Municipal Rodrigues Alves, em Belém, entre 2005 e 2006. Ali, inventariamos 510 árvores, das quais cerca de 400 são espécies raras. A probabilidade de extinção dessas espécies pelo manejo incorreto e pelo desmatamento é muito grande. Estamos perdendo espécies para sempre. Há árvores ainda não descritas sendo derrubadas e associadas à espécie errada para ter o uso licenciado.

A COP30 [Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima], que ocorrerá em Belém, no próximo ano, tem chamado a atenção para a cidade. O evento pode atrair instituições de pesquisa, fortalecer as que já estão aqui e firmar novas parcerias baseadas na escuta das pessoas da floresta. Entretanto, me preocupam a chegada de projetos e as políticas públicas para incentivar negócios baseados na exploração dos recursos da floresta. 

Não sou contrária a essas iniciativas, mas para que elas sejam sustentáveis, de fato, é preciso conhecer, inventariar, mapear a floresta. Bioeconomia exige muito conhecimento. A identificação botânica é essencial para o bom manejo da floresta, ela agrega valor. E é isso que garante a conservação, a produtividade e, consequentemente, o retorno econômico e social. Essa é uma das minhas motivações para trabalhar com as comunidades.

Desde 2006, quando já era professora do Centro de Ciências Agrárias da UFRA, trabalho com a Associação Arte Miriti de Abaetetuba. Por meio de uma parceria com a Embrapa Amazônia Oriental, temos discutido a conservação das áreas de várzea que garantem a matéria-­prima para a produção dos brinquedos de miriti, uma palmeira bastante comum. 

Eles são uma importante fonte de renda na cidade, sendo comercializados especialmente durante a festa do Círio de Nazaré, que acontece em outubro, em Belém. Há cerca de 20 anos, a população local começou a cortar os miritizeiros macho para plantar palmeiras de açaí. Isso comprometeu toda a produção de miriti e, até hoje, os artesãos precisam adquirir a matéria-prima em outras localidades para fazer os brinquedos.

Como pesquisadora e ribeirinha, sei que precisamos facilitar o acesso de tecnologias para as pessoas que vivem na floresta e, sobretudo, estabelecer arenas de socialização de conhecimento. No doutorado, que defendi em 2009, no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, desenvolvi uma ferramenta de modelagem ambiental de espécies que pudesse ser acessível às comunidades e cooperativas. 

Ao combinar os inventários florestais de empresas, que incluem identificação e coordenadas geográficas das espécies, com dados de características ambientais como o tipo de solo e o clima, o modelo calcula a probabilidade de ocorrência de espécies em áreas ainda não inventariadas. Agora, esse modelo está servindo de base para o desenvolvimento de um aplicativo.

Não paro quieta. Desde 2018, participo de outro projeto entre a Embrapa e a UFRA para ajudar a prefeitura de Portel, na ilha de Marajó, a estruturar o Centro de Referência em Manejo de Açaizais Nativos do Marajó, o Manejaí. A ideia é ampliar, com responsabilidade, a produção de açaí de 1 tonelada [t] para 6 t por hectare. Isso teria um impacto significativo na renda das famílias locais.

No Marajó também realizamos pesquisas acadêmicas, especialmente sobre como certos fatores, a exemplo do solo, dos insetos e da disponibilidade de água, determinam mudanças nas copas das árvores ao longo do ano. Para esses estudos, treinei um grupo de jovens da comunidade para ajudar na coleta botânica. Eles são chamados de “pesquisadores da floresta”. 

Além disso, estamos implementando as primeiras áreas de coleta de sementes e de restauração de floresta em territórios comunitários do Marajó. Hoje não basta combater o desmatamento, é urgente recuperar as florestas que foram degradadas. Essa é uma das contribuições que quero deixar para a minha região.

A reportagem acima foi publicada com o título “Desvendando a identidade das árvores” na edição impressa n° 346, de dezembro de 2024, da Revista Pesquisa FAPESP.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Revista Pesquisa FAPESP, com depoimento concedido a Patricia Mariuzzo

Empresa desenvolve chocolate amazônico com impacto socioambiental no Amazonas

Foto: Divulgação/Acervo Na’kau Chocolate Amazônico

Fortalecer a bioeconomia local ao criar oportunidades de emprego e promover a qualidade de vida dos povos amazônicos, respeitando os diferentes aspectos da identidade cultural destes, bem como a preservação dos conhecimentos tradicionais e da própria floresta, é o que propõe a startup Na Floresta – Alimentos Amazônicos.

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Com o projeto “Na’kau – Em busca da sustentabilidade através de relações éticas, conservação da floresta e a valorização de produtos e pessoas amazônicas”, o empreendimento tem como propósito colocar em prática ações de impacto socioambiental que sejam positivas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

O projeto é fomentado pelo ‘Programa Inova Amazônia – Módulo Tração’, edital Nº 001/2023, com o apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), e em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

A missão da startup é estabelecer uma parceria justa e contínua com famílias ribeirinhas manejadoras do cacau selvagem de várzea, que pode ser encontrado nas calhas dos rios Madeira e Amazonas.

Artur Bicelli Coimbra, coordenador do projeto, é mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ele defende que é importante que a cadeia produtiva do cacau seja melhor estruturada e que o mercado valorize os agricultores familiares que produzem essa matéria-prima, com remuneração financeira justa.

Cultivado por famílias ribeirinhas, o Cacau Selvagem possui qualidade e sabor únicos devido às condições do solo e do clima da região amazônica, que influenciam diretamente no plantio, que é realizado de forma tradicional por meio de Sistemas Agroflorestais (SAFs).

O coordenador destaca também o alto potencial da cacauicultura e explica que os produtos da empresa são frutos de pesquisas e que a forma de produção se dá em harmonia com a natureza. Para que o processo de cultivo não agrida o meio ambiente, é necessário o uso consciente da tecnologia.

“É importantíssimo que a gente obtenha novas tecnologias para tornar a indústria competitiva, pensando em produtos alimentícios inovadores para oferecer ao mundo”, pontuou Artur Bicelli.

Foto: Divulgação/Acervo Na’kau Chocolate Amazônico

Parcerias

Atualmente, diversas famílias têm sido beneficiadas com novas opções de geração de renda nos municípios de Manicoré (distante a 332 km da capital), Novo Aripuanã (a 227 km), Borba (a 151 km), Nova Olinda do Norte (a 135 km), Urucurituba (a 208 km), Autazes (a 113 km), Codajás (a 240 km), Coari (a 363 km), Tefé (a 523 km), Tabatinga (a 1.108 km), Atalaia do Norte (a 1.138 km), Eirunepé (a 1.160 km) e Envira (a 1.208 km).

Segundo o fundador da Na’kau, Artur Bicelli, o quilo das amêndoas de cacau tem sido vendido pelos ribeirinhos à startup por uma quantia 120% acima do preço de mercado. Ações de conscientização são oferecidas aos produtores, como treinamentos específicos, investimento em equipamentos e assessoria técnica.

“Hoje, atuamos com mais de 300 famílias no estado do Amazonas, conservando mais de 200 mil hectares de floresta. A gente vem contribuindo consideravelmente para a organização social dessas famílias em comunidades, e para o entendimento delas sobre os negócios e o papel que possuem na conservação”, comentou.

A longo prazo, a expectativa é de que seja possível desenvolver cada vez mais produtos baseados em estudos que envolvam a socioeconomia, uma oportunidade para os produtos amazônicos que são inovadores e de grande possibilidade de crescimento. A startup já exporta para vários países, e tem uma taxa de crescimento ao ano de 45%.

O pesquisador considera que a análise sensorial do cacau e o contato direto com os cacauicultores de várzea durante o processo de cultivo são fundamentais para a coleta de informações a respeito da matéria-prima e para entender quais os melhores caminhos para a conservação da floresta.

*Com informações da Fapeam

Arte do terreiro em exposição: estudo analisa obras e artistas afro-amazônicos

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Foto: Divulgação/Acervo Centro Cultural da Justiça Eleitoral do TRE-PA

Ele saiu de casa e se dirigiu à Galeria de Artes The­odoro Braga, no centro de Belém (PA). A exposição em cartaz sai dos moldes tradicionais e apresenta ao público algo novo no cenário artístico-cultural da capital do Pará. Na abertura, em meio ao salão, o discurso de uma mulher emocionada, rodeada pelos organizadores do evento, chama atenção ao proferir:

“Eu não sabia que era artista. Quem disse que eu era artista foram vocês!”.

A artista em questão é a candomblecista Mametu Nangetu. A exposição é ‘Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro‘. “Ele”, o personagem citado na primeira linha, é Carlos Arthur Góes Cordeiro. Proveniente de família cristã protestante, historiador e professor da rede básica de ensino, Carlos Cordeiro se deparou com a cena em 2013, enquanto observava a exposição.

A frase da afrorreligiosa Mametu Nangetu foi tão marcante que se tornou o pontapé para sua jornada acadêmica, iniciada com a Graduação em História e estendida até o mestrado, com a dissertação intitulada ‘Eu não sabia que era artista!: exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro, no cenário cultural afro-amazônico paraense’

“A minha pesquisa, na verdade, foi um insight de quando eu ainda cursava a graduação. Porém eu só percebi isso em 2017, ao investigar como os alunos iden­tificavam essas expressões artísticas, de matriz africana, dentro do espaço escolar, com base em uma perspecti­va mais descolonizada e antropológica”, explica Carlos Góes Cordeiro.

Idealizada pelo então professor da UFPA Arthur Lean­dro (in memoriam), a Exposição Nós de Aruanda, Artistas de Terreiro surgiu como um projeto de extensão do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (Geam). O objetivo era trazer a arte afro-brasileira para fora dos espaços de terreiros, enfatizando que filhos e filhas de santo eram artistas. 

A ex­posição, que contou com oito edições, tinha como tripé: a aplicabilidade da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatória a abordagem da cultura e da história africanas em sala de aula; a exaltação da memória e luta de Mãe Doca (Rosa Viveiros), mulher negra, maranhense, que inaugurou o primeiro terreiro de tambor de mina em Belém, em 1891; e a apresentação para a população das experiências artísticas vivenciadas dentro dos terreiros.

Salões, galerias e outros espaços de sociabilidade

Com a pesquisa, Carlos Góes Cor­deiro quis mostrar a importância de o patrimônio afrorreligioso estar presente nos espaços de sociabilidade. 

“Vejo que é um desafio, principalmente den­tro dos programas de pós-graduação mais tradicionais, as pessoas percebe­rem as dimensões dessas formas de cultura. Quando se fala em patrimônio, percebemos um constructo social en­gessado: um casarão, um monumento ou um objeto, mas não notamos, em muitos casos, a presença material e a imaterial do patrimônio contido em ter­reiros sagrados”, ressalta o historiador.

A pesquisa procurou dar voz aos artistas de terreiro e perceber o que eles entendem como arte, considerando seus fazeres e suas vivências dentro das casas de santo. Inicialmente, foi feito um aporte teórico autores que tecem discussões antropológicas patrimoniais. Em seguida, Cordeiro buscou artistas e suas obras, usando, como critério, a disponibilidade, pois o período era de pandemia de covid-19.

O estudo evidencia a necessidade de ampliar o debate sobre o patrimônio dos povos de terreiro. Essa discussão está intimamente ligada à política histó­rica e cultural do Pará, uma vez que, na capital do estado, apenas o Terreiro de Mina Dois Irmãos, localizado no bairro Guamá, é tombado pelo Departa­mento de Patrimônio Histórico Artístico e Cultural (DPHAC). 

“Em Belém, temos mais de três mil terreiros e apenas um é registrado de forma imaterial. Existe um legado das tradições de matriz afri­cana que é pouco considerado pelo Poder Público e em debates sociocul­turais”, avalia o pesquisador.

“Discutir a religiosidade da nossa região é importante, porque nos deli­mita como indivíduos múltiplos e únicos entre tantas outras localidades do Brasil, mas sem perder de vista os laços que unem a identidade dos povos de terreiros para fortalecimento da cultura e a energia vital (Axé) presente nos cultos afros”, explica Carlos Cordeiro.

Cultos afros ainda enfrentam a intolerância religiosa

Outro ponto destacado na disser­tação é a intolerância religiosa, res­ponsável por propagar um imaginário ruim acerca dos cultos afros.

“Em um dos eventos da exposição, no ano de 2017, houve a circulação de uma per­formance do orixá das matas (Oxóssi), da Av. Presidente Vargas até a Galeria Theodoro Braga. Foi interessante ver a reação dos transeuntes diante de pes­soas trajadas com guias, indumentárias de santo, além da entidade vestida de folhagem amazônica. Foram recorren­tes os atos de se benzer ou se afastar e olhares de desprezo. Outro exemplo aconteceu em 2016, quando um grupo levou uma obrigação para o rio, no distrito de Icoaraci, e foi hostilizado por estar fazendo ‘macumba’”.

A pesquisa demonstra como a ex­posição foi importante para fazer com que filhos e filhas de santo passassem a se reconhecer como artistas.

“A minha intenção era não apenas responder problemas estruturais como a exclusão artística dos terreiros, mas também refletir sobre a arte produzida em Be­lém. Quando Mametu Nangetu se re­conhece como artista, indivíduo ativo na sociedade, produtora de cultura e saberes, mesmo que ela não entenda, está descolonizada da ideia de arte”, analisa, satisfeito, Carlos Arthur.

Falar sobre patrimônio no Brasil ainda envolve disputas de poder. “Ne­nhum de nós nasce com preconceito, eles nos são ensinados. Ao longo do tempo, vamos somando experiên­cias na escola, no trabalho e com os amigos, e então quebramos alguns paradigmas. Foi esse movimento que, em 2013, me fez mudar de concepção acerca dos cultos afros. Desconstruir começa na base do ensino”, finaliza o historiador.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal Beira do Rio, edição 173, da UFPA, escrito por André Furtado

Mortalidade por acidentes de transporte volta a subir nos últimos 4 anos em municípios da Amazônia Legal

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Foto: Tiago Ferreira/Unsplash

O Brasil registrou pelo quarto ano seguido aumento na mortalidade no trânsito, saindo de 32.879 mortes em 2019 para 34.892 em 2022, um crescimento de 6%. A taxa também cresceu, saindo de 16,4 em 2019 para 17,2 a cada 100 mil habitantes. O aumento foi de 5% em 4 anos. Os dados são do DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane, organização da sociedade civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que fomenta iniciativas no âmbito da saúde pública.

Boa Vista é a capital brasileira com maior taxa de mortalidade por acidentes de trânsito, com um índice de 26,7 a cada 100 mil habitantes no ano de 2022. Ela é seguida pela capital do Tocantins, Palmas, que tem a taxa de 25,9, e Cuiabá com 19,6 a cada 100 mil habitantes.

Na outra ponta, as capitais que registraram as menores taxas de mortalidade no trânsito em 2022 foram São Paulo (3,6), Salvador (5,1) e Natal (7,1).

Dados: DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane

Historicamente, no Brasil, as maiores vítimas de acidentes de transportes são os homens. Em 2022 eles representaram 83% dos mortos. No recorte racial, no mesmo ano, a maioria foi de pessoas negras (pretas e pardas), totalizando 20.743 (60%) das 34.892 mortes. Já a faixa etária que mais morre no trânsito é a de 25 a 34 anos, totalizando em 2022 6.991 mortes (20%).

Dados: DATASUS – SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública (OSP), da Umane

OSP

Observatório da Saúde Pública (OSP) é uma plataforma desenvolvida pela Umane que reúne dados, análises e pesquisas sobre saúde no Brasil de forma gratuita e de fácil acesso, com o objetivo de contribuir de facilitar o acesso a dados e contribuir para a tomada de decisões de profissionais de saúde, pesquisadores e gestores públicos, expandindo o acesso a informações de saúde confiáveis. Saiba como navegar no Observatório aqui.