É possível ter praia visível o ano inteiro na comunidade Tucumã. Foto: Prefeitura de Santarém
Imagine chegar a uma praia de areia fina e água cristalina que permanece exuberante em qualquer época. Assim é Tucumã, comunidade ribeirinha situada na margem direita do Rio Arapiuns, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, em Santarém (PA).
Diferente de outras regiões amazônicas, onde a cheia cobre as praias, ali o balneário natural é constante. Para o presidente da comunidade, Evaldo Santos, a praia é o principal cartão-postal de Tucumã. “Nosso maior diferencial é esse, a praia está sempre aqui. Nunca desaparece. Em qualquer época do ano, o cenário é lindo e acolhedor. Isso nos enche de orgulho”, destaca.
Mas não é apenas a praia e a paisagem que impressionam. Tucumã tem se organizado para fortalecer o turismo com base na valorização da cultura local, especialmente por meio do artesanato. A coordenadora do projeto turístico, Lidiane Cardoso, explica que o trabalho manual é uma das principais fontes de sustento das famílias.
“Produzimos biojoias de látex, mas o trançado da palha de tucumã é o nosso carro-chefe. Está presente no dia a dia da comunidade. Mesmo quando não conseguimos vender localmente, enviamos para outras comunidades ou para a cidade. O artesanato é como a farinha: nunca falta nas nossas casas”, afirma.
A tradição é mantida por dois grupos comunitários — Tranças e Trançados e Trançados do Tucumã — e ganha ainda mais significado com a presença de Dona Maximiana da Conceição, de 86 anos, considerada a artesã viva mais antiga do Arapiuns.
A comunidade também aposta na diversificação de experiências para os visitantes. Um dos projetos em andamento une atividades como canoagem e trilhas ecológicas, com foco no turismo de aventura.
“Queremos que Tucumã se torne referência em turismo esportivo. Já testamos um percurso de canoa e foi um sucesso. Agora, queremos investir em canoas coloridas e ampliar o roteiro. O visitante pode escolher entre a trilha, a canoagem ou combinar as duas, já que uma complementa a outra”, explica Lidiane.
A trilha, com 540 metros de extensão, atravessa a floresta até igarapés de águas claras, ideais para banho e contemplação. Já o trajeto de canoa, com cerca de 25 minutos, oferece uma imersão nos cenários ribeirinhos do Arapiuns.
Ao entardecer, a praia se transforma em palco para vivências tradicionais, como a pesca artesanal, em que o jaraqui é o peixe mais comum, e a piracaia, com peixes assados à beira do rio.
Outro atrativo é o redário, construído recentemente em um ponto privilegiado com vista panorâmica para o rio. Ainda em fase de finalização, o espaço já impressiona pela beleza e originalidade. Com dois andares, oferece uma área superior que amplia a paisagem e proporciona uma experiência ainda mais acolhedora. Totalmente artesanal, foi feito com palha e materiais que remetem à identidade da comunidade. Fica a poucos passos da praia e é o lugar ideal para descansar e se reconectar com a natureza.
A juventude também movimenta o turismo local. Alexandra Costa, 31 anos, e seu irmão Odilam, 23, ambos indígenas Arapiuns, lideram o grupo Tranças e Trançados e atuam como guias em trilhas que levam a igarapés próximos. O acesso a uma das áreas é feito por uma travessia de bajara que dura cerca de cinco minutos.
A comunidade possui atualmente cerca de 340 moradores distribuídos em 68 famílias. Foto: Prefeitura de Santarém
Com cerca de 340 moradores distribuídos em 68 famílias, Tucumã é exemplo de organização comunitária e hospitalidade. Os próprios moradores conduzem as atividades, cuidam dos espaços e promovem o turismo com base no respeito, na sustentabilidade e na valorização das tradições.
A Semtur atua em diversas frentes para fortalecer o turismo nas comunidades da região, com capacitações, apoio técnico e incentivo a novos projetos. Tucumã, com sua natureza preservada e riqueza cultural, desponta como um destino promissor que une beleza, tradição e acolhimento.
O secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, destacou o potencial da localidade.“Este é um dos lugares mais bonitos do Arapiuns. A comunidade está se estruturando com muito cuidado e tem tudo para se consolidar como referência em turismo de base comunitária. A praia é um espetáculo à parte, visível mesmo na cheia. Viemos ouvir os moradores, conhecer os atrativos de perto e oferecer apoio com formações e projetos. Aqui já é um sucesso”, afirmou.
Xamã em 2024, já reintroduzido na floresta amazônica. Foto cedida pelo Onçafari
Em cerca de seis meses, Xamã já percorreu mais de 14 mil hectares de floresta amazônica. Todavia, bastante cauteloso, ele evita circular em áreas abertas ou perto de plantações. Esse macho de onça-pintada(Panthera onca) parece ser igual a outros milhares de indivíduos de sua espécie que vivem na Amazônia. Mas não é. Além do colar GPS que carrega no pescoço, é um sobrevivente. E sua trajetória traz luz sobre as ameaças que o maior felino dos Américas enfrenta no Brasil.
Xamã foi encontrado quando tinha aproximadamente dois meses de vida em uma propriedade rural na região de Sinop, no estado do Mato Grosso – uma área no Arco do Desmatamento da Amazônia frequentemente assolada por incêndios. A suspeita é que sua mãe tenha sido vítima do fogo ou perdido o filhote ao tentar fugir das chamas.
Ao ser resgatado, Xamã foi levado inicialmente para o Hospital Veterinário da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). O filhote pesava pouco mais de 10 kg, estava desnutrido e desidratado. Lá recebeu os primeiros atendimentos, e exames mostraram que, embora debilitado, apresentava boa saúde. Além disso, era extremamente arredio. Ou seja, apesar do ocorrido, ele ainda preservava seus instintos naturais, o de ser um animal de vida selvagem, algo fundamental para uma possível reintrodução na natureza.
Xamã em 2022, quando foi capturado no Mato Grosso. Foto: Noelly Castro/Proteção Animal Mundial
O resgate de Xamã despertou a atenção da Proteção Animal Mundial, que viu ali uma oportunidade de usar sua história para alertar os brasileiros sobre o impacto da expansão agropecuária sobre a fauna silvestre.
“Por ser um animal que tinha tido pouquíssimo contato com seres humanos, ele era um bom candidato para ser reintroduzido. Logo acionamos nossos parceiros para identificar quem poderia fazer sua reabilitação”, conta Júlia Trevisan, bióloga e coordenadora de vida silvestre da Proteção Animal Mundial.
A organização escolhida para essa tarefa foi o Onçafari, uma referência internacional na reintrodução de onças-pintadas: em 2016, realizou a primeira soltura bem-sucedida, no mundo, de duas fêmeas, as irmãs órfãs Isa e Fera, e ao longo da última década já fez várias outras, tanto na Amazônia quanto no Pantanal.
Após cinco meses no hospital de Sinop, médicos veterinários atestaram que Xamã estava apto a viajar – com a ajuda de reposição nutricional, ele quase triplicou o peso, chegando a 27,5 kg. Durante todo esse período, houve um cuidado extremo para que se reduzisse ao máximo a interação humana com o animal e assim evitar o chamado imprinting, termo usado para descrever o apego com seus cuidadores.
Começava então uma longa jornada, de mais de 700 km, por terra, entre o Mato Grosso e o Pará. O destino era um recinto de reabilitação enorme, no meio da mata, construído pelo Onçafari e usado anteriormente por duas onças, as irmãs Vivara e Pandora, as primeiras a serem reintroduzidas pela ONG no bioma amazônico.
Contudo, dessa vez o desafio seria bem maior. “Pelo conhecimento técnico que já tínhamos, eu fiquei bastante receoso porque o Xamã era muito novo. Era realmente muito arriscado. Após a soltura dentro do recinto, que tem 15 mil m2, você praticamente não iria mais vê-lo. Era muito grande para um bicho tão pequeno. Não daria para saber se ele morreu, foi picado por uma cobra. Ele era um filhote!”, relembra o biólogo Leonardo Sartorello, coordenador do Programa de Reintrodução do Onçafari.
Recinto no Pará onde Xamã viveu antes de ser reintroduzido na natureza. Foto cedida pelo Onçafari
Após quase dois anos, a tão aguardada soltura
Para Sartorello, o período inicial foi o pior. Xamã estava de jejum durante a viagem e depois ficou quase seis dias sem comer, algo preocupante para um filhote. Mas pouco a pouco, ele foi se alimentando novamente, quando lhe eram deixados pedaços de carne de frango e de boi.
Para acompanhar a sua adaptação, havia câmeras dentro e no entorno do recinto. Elas ajudavam a equipe do Onçafari a avaliar seu progresso. Com o passar do tempo, foi possível ver que ele estava explorando mais o território. Em algumas áreas, porém, ele demorou mais de um ano para se aproximar.
Mas um dos fatores determinantes para a definição do momento certo para a reintrodução de Xamã foi a sua habilidade de caça. Quando as primeiras presas vivas foram soltas no recinto, ele levava entre 10 e 15 minutos para abatê-las. Quando adquiriu mais experiência, o bote certeiro ocorria em menos de dois minutos. “Quando soltávamos uma queixada no final do processo, você escutava o bicho dar dois gritos e acabava”, relata o biólogo. “Era sinal de que ele estava abatendo direito. Estava pegando a base do crânio, mordendo o pescoço e acabando com o bicho na hora. E isso era muito bom.”
Outro divisor de águas para estabelecer que o jovem felino estava pronto era sua interação com outras onças-pintadas, que passavam próximo à grade do recinto. Quando chegou ali, era possível ver pelos primeiros vídeos que Xamã demonstrava um comportamento de submissão frente a outros machos. Algumas vezes abaixava, ficava deitado e até virava de barriga para cima. Já nas últimas filmagens obtidas pelas armadilhas fotográficas, ele encarava os possíveis rivais e não se sentia mais intimidado.
Em outubro de 2024, chegou então a hora tão esperada. Após quase 24 meses, a porta do recinto foi aberta, no processo chamado de soltura branda, em que o animal deixa o espaço no qual viveu por um longo período quando quiser. Xamã levou mais de 12 horas para dar os primeiros passos rumo à vida completamente livre. Em nenhum instante voltou atrás.
Foi através do monitoramento pelo colar GPS, programado para enviar a localização da onça doze vezes por dia, que conseguiu-se calcular o seu deslocamento de mais de 14 mil hectares desde a abertura de seu recinto. A bateria do equipamento deve funcionar aproximadamente por um ano, quando o sinal por satélite irá parar de funcionar e a função VHF, por antena, será ativada – com pouca utilidade, porém, em uma floresta tão grande como a Amazônia.
Apesar da grande movimentação inicial, nos últimos dois meses Xamã parece ter se estabilizado em uma área, situada a cerca de 15 km do recinto. “Acredito que seja um lugar que ele tenha gostado mais, com boa oferta de alimento e sem muita disputa com outros machos”, diz o coordenador do Onçafari.
Uma história de sucesso, mas muitas outras sem final feliz
O Brasil é considerado o país com a maior concentração de onças-pintadas do mundo, por isso mesmo, um hotspot fundamental para a conservação da espécie. Em um passado distante, esses felinos eram observados desde os Estados Unidos até o sul da Argentina. Entretanto, acabaram sendo extintos em muitos países.
Atualmente, estima-se que a população de onças em território brasileiro beire os 10 mil indivíduos: entre 250 e 300 na Mata Atlântica, pouco menos de 500 na Caatinga, 3.500 a 4 mil no Pantanal e o restante espalhado na Amazônia.
Mas, em qualquer um desses biomas, elas estão ameaçadas. Em alguns mais do que outros, e talvez por diferentes razões. A história da reintrodução de Xamã é um sucesso, mas outras vítimas de incêndios não tiveram a mesma sorte. É o caso de Amanaci e Gaia.
Em 2024, mais uma vez o Pantanal enfrentou um período de estiagem severo. O nível da água do Rio Paraguai, o principal do bioma, atingiu recordes de baixa históricos. A vegetação seca, combinada com ventos fortes, foi o estopim perfeito para que os incêndios se propagassem por várias regiões. Áreas inteiras foram devastadas pelo fogo. O solo preto ficou coberto pelas cinzas. E animais foram encontrados carbonizados. Entre eles, a onça Gaia, uma fêmea que era monitorada há dez anos pelo Onçafari.
Amanaci não morreu, mas nunca mais voltará ao Pantanal. Precisará passar o resto da vida em cativeiro. Há quatro anos, em 2020, ela também se viu diante dos incêndios florestais. Quando foi resgatada por bombeiros em uma casa, na região de Poconé, no Mato Grosso, tinha queimaduras de segundo e terceiro graus nas quatro patas.
Amanaci foi levada para o NEX No Extinction, uma instituição situada no estado de Goiás, especializada no acolhimento, atendimento e reabilitação de felinos resgatados. Lá a fêmea passou por dois meses intensos de tratamento, que incluiu aplicação de células-tronco para ajudar no processo de cicatrização das feridas causadas pelo fogo. Entretanto, seus tendões sofreram lesões irreversíveis e ela nunca mais conseguiria caçar, o que impossibilitaria sua sobrevivência na vida selvagem.
Desde que foi fundado, no ano 2000, o NEX já recebeu 78 onças-pintadas. Atualmente abriga ali 27 indivíduos. O custo para a manutenção é alto, ainda mais para uma organização que depende de doações, sem ajuda nenhuma governamental. O gasto mensal com cada indivíduo gira em torno de R$ 4 mil (US$ 700). Em um ano, beira os R$ 50 mil (US$ 9 mil). Sem contar despesas extras inesperadas, como procedimentos cirúrgicos, por exemplo. “Cada onça come, em média, entre 3 e 5 kg de carne por dia”, revela Daniela Gianni, coordenadora de projetos e atividades do instituto.
Brigadista em área do Pantanal sul-matogrossense destruída pelo fogo em 2024. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Desmatamento, caça e tráfico
Enquanto os incêndios, intensificados pelos efeitos das mudanças climáticas e agravados pelo desmatamento impulsionado pela agropecuária, têm sido uma grave ameaça às onças-pintadas do Pantanal, em outros biomas seus inimigos são outros.
Na fronteira do Brasil com o a Argentina, os vizinhos Parque Nacional do Iguaçu e Parque Nacional Iguazú abrigam a maior população da espécie no bioma Mata Atlântica. Quase extinta décadas atrás, graças à atuação de dois projetos de conservação – o brasileiro Onças do Iguaçu e o argentino Proyecto Yaguareté, houve um aumento no número desses felinos na região. Mesmo assim, eles continuam vulneráveis ao impacto dos seres humanos.
“Na Mata Atlântica, as principais ameaças são a redução do habitat e a perda de conectividade da floresta, que pode levar à perda de diversidade genética. Com populações muito isoladas e pequenas, existe uma maior chance de acontecerem problemas genéticos, sem a introdução de novos animais para a reprodução”, explica a bióloga Yara Barros, coordenadora executiva do Onças do Iguaçu.
Outro problema enfrentado pelos felinos que vivem no Parque Nacional do Iguaçu são os atropelamentos e a proximidade com propriedades rurais, gerando possíveis conflitos com agricultores e produtores de animais. “Esses conflitos com seres humanos também são consequência da perda de habitat e o maior contato entre eles e as onças, já que as propriedades estão chegando cada vez mais perto das florestas”, afirma Yara.
Roberto Cabral, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente, acrescenta ainda que esses possíveis conflitos impulsionam a caça por retaliação. “E, se for ver, tudo é um grande ciclo. As pessoas na zona rural caçam capivara, jacaré, paca, cateto, queixada e veado, que são as presas das onças-pintadas. Com menos presas disponíveis, elas acabam direcionando suas caçadas para comer novilho, por exemplo, e aí os seres humanos não aceitam perder nenhum bezerro para uma onça.”
A demanda chinesa e uma legislação branda demais
No outro extremo brasileiro, ao norte do país, a execução de programas de conservação da onça-pintada em meio à imensidão da floresta amazônica, com seus 5,4 milhões de km2, é certamente bem mais complicada, e as ameaças são mais desafiadoras. Elas também envolvem a caça, e ainda o tráfico internacional.
Em 2022, uma reportagem da Mongabay mostrou como era possível encontrar facilmente peles de onças-pintadas e jaguatiricas em mercados de Iquitos, no Peru, nas margens do Rio Amazonas. E não era só. Comerciantes vendiam cabeças desses animais e joias feitas com dentes e garras.
Segundo a matéria, a demanda por esse tipo de produto se intensificou na última década, estimulada pela procura dos chineses. A suspeita é que, como restaram poucos tigres selvagens na Ásia, e em muitos países esses animais ganharam novas legislações para protegê-los, o mercado ilegal decidiu apostar nos “tigres americanos”.
“A demanda chinesa, tanto pela raridade da onça como para sua substituição aos tigres, já é uma ameaça também. Embora não seja a de maior importância no presente, apresenta potencial de se tornar uma das principais no futuro”, alerta Cabral.
Com o mercado asiático em expansão na Amazônia, aumenta o interesse daqueles que enxergam nele uma oportunidade de geração de renda extra – como os caçadores que entram na floresta para matar onças-pintadas. Recentemente uma dessas histórias ganhou as manchetes brasileiras. Denúncias levaram equipes das Polícias Militar e Ambiental a uma casa no município de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas, a 880 km da capital Manaus. Lá elas se depararam com um filhote de onça, com aproximados oito meses de idade, sendo criado como um bicho de estimação.
De acordo com o homem que cuidava do animal, ele teria saído para caçar e achado o felino sozinho, aí “decidiu adotá-lo”. Acredita-se que a mãe tenha sido morta.
“Esse papo de que foi para o mato e encontrou o filhote é a coisa mais esdrúxula que as pessoas podem falar”, afirma Leonardo Sartorello. “Há 25 anos eu trabalho com onça-pintada no meio do mato e eu nunca encontrei um filhote. E essa turma encontra filhote fácil.”
No caso de Santo Antônio de Içá, o filhote, batizado de Golias, foi apreendido. Muito dificilmente terá chance de ser reintroduzido na natureza. Foi muito domesticado, não tem medo nenhum de seres humanos. Seu destino foi o NEX.
O que faz com que caçadores como o do Amazonas e de outras partes do país não se sintam intimidados em tirar a vida de um animal tão majestoso como uma onça-pintada é a branda legislação brasileira, denunciam ambientalistas, representantes de organizações de proteção animal e até autoridades do governo.
A lei de crime ambiental no Brasil prevê pena para a caça de animais silvestres, sem autorização do órgão ambiental competente, de três meses a um ano de prisão. Já a multa para a atividade de caça irregular é de R$ 5 mil por animal (US$ 880).
“A punição não ajuda. Um homem que matou quatro onças-pintadas em 2023 pagou aí R$ 20 mil [US$ 3.500] e acabou. Vai responder ao processo em liberdade”, critica o coordenador do Onçafari.
Processo de reintrodução é longo e caro
Embora o retorno de Xamã à natureza seja muito celebrado, um processo de reintrodução não é simples, pelo contrário, envolve a parceria de diversas organizações e o trabalho de muitos profissionais, além de ser longo e caro, ressalta Daniela Gianni, do NEX. Segundo ela, o custo até a soltura fica entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão (US$ 140 mil a US$ 180 mil). E a soltura pode não dar certo. É sempre uma incógnita. O animal pode se adaptar bem de volta à vida livre, mas pode precisar ser recapturado.
“A burocracia é gigante, o custo é altíssimo e o governo não custeia nada”, diz Daniela. “Para a soltura, a saúde do animal tem que estar 100% e a área precisa ser mapeada. E, ao final do treinamento, um relatório minucioso precisa ser apresentado para passar pela aprovação dos órgãos ambientais. É um trabalho que leva no mínimo três anos. Além disso, dependemos da índole do animal. Às vezes, a burocracia é tanta que o tempo para ele ser solto passa e acabamos tendo que fazer um retrabalho para que aprenda a viver em cativeiro”, revela.
A Proteção Animal Mundial, uma das responsáveis financeiras pela reintrodução do jovem macho na Amazônia, transformou sua trajetória em um documentário: Xamã – No Rastro da Onça. O filme mostra a conexão direta entre a tragédia do filhote e o avanço do agronegócio.
“Em 2022, ano em que o Xamã foi resgatado, o Mato Grosso foi o estado que mais queimou no país. A área queimada foi equivalente a quase o tamanho da Dinamarca. A gente perde uma geração inteira na floresta”, destaca Júlia Trevisan.
Ela salienta que nem sempre a associação entre a produção alimentar e seu impacto sobre os animais silvestres é clara para a população. O documentário escancara essa relação entre o agronegócio e não apenas o desmatamento e as queimadas, mas também a contaminação por agrotóxicos, os atropelamentos de animais silvestres e a defaunação.
“Mesmo que a história do Xamã tenha tido um final feliz, sabemos que muitos outros animais irão passar por isso e esse é um problema grande no Brasil”, reforça Júlia. “Algo pouco percebido é que a fauna impactada não representa somente o animal que morre ou viverá para sempre em cativeiro, mas a fauna silvestre exerce funções ecológicas, participa da dinâmica de seu ecossistema, ao dispersar sementes, controlar presas ou ciclar nutrientes, por exemplo. A ausência desses animais irá provocar um impacto maior ainda na saúde das florestas e do clima”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Suzana Camargo
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Julia Harlley/SEC AM
Com três apresentações de ópera, três concertos e dois recitais, a programação da 26ª edição doFestival Amazonas de Ópera (FAO) integra um projeto de cooperação internacional que envolve instituições culturais do Brasil, Colômbia, Portugal e Áustria, com o objetivo de promover o festival internacionalmente.
A ópera ‘As bodas de Fígaro’, idealizada por Wolfgang Amadeus Mozart, em 1786, encerra as apresentações do festival este ano, no Teatro Amazonas. Criada com libreto de Lorenzo da Ponte, a obra se baseia na peça de teatro de mesmo nome de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais. Estreou em Viena, na Itália, mas se ambienta em Sevilha, na Espanha.
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Julia Harlley/SEC AM
A história
Realizada em quatro atos e com um intervalo de 20 minutos (com duração de cerca de 4 horas), a obra gira em torno do casamento entre os criados Fígaro e Susanna, que enfrentam diversos obstáculos impostos por seu patrão, o Conde Almaviva.
No primeiro ato, Fígaro descobre que o Conde está tentando seduzir Susanna, reavivando o antigo “direito do senhor” de dormir com a criada antes do casamento. Paralelamente, Marcellina tenta obrigar Fígaro a se casar com ela com base em uma dívida não paga, e Cherubino, o pajem, é enviado ao exército após ser flagrado com a filha do jardineiro.
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Isabelle Lima/Portal Amazônia
No segundo ato, a Condessa, triste com a infidelidade do marido, se une a Fígaro e Susanna para desmascarar o Conde. O plano envolve enganar o Conde com um encontro fingido com Susanna, usando Cherubino disfarçado. A farsa é interrompida e o Conde confronta a esposa. No meio da confusão, Marcellina reaparece com o contrato que obriga Fígaro a casar-se com ela, colocando em risco sua união com Susanna.
No terceiro ato, a Condessa e Susanna elaboram um novo plano: trocarão de roupas para enganar o Conde em um encontro noturno. Susanna entrega a carta com instruções ao Conde e, durante uma audiência sobre o contrato de Marcellina, é revelado que Fígaro é filho dela com Bartolo. O impasse se desfaz com a reunião familiar e os preparativos para um casamento duplo.
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Isabelle Lima/Portal Amazônia
O quarto ato se passa no jardim, onde ocorrem os encontros planejados. Fígaro, sem saber do disfarce, acredita que Susanna o trai e prepara uma vingança. A confusão se intensifica com os disfarces e mal-entendidos, até que tudo é esclarecido com a revelação da verdadeira identidade da Condessa. O Conde, ao perceber que foi enganado, pede perdão à esposa, encerrando a ópera com reconciliação e a celebração dos casamentos.
Para a realização das Bodas de Fígaro no Festival Amazonas de Ópera, foram necessários cerca de 280 profissionais entre a produção do evento, técnicos, músicos e responsáveis pelos cenários, iluminação, visagismo, figurinos e maquiagem.
O maestro Luiz Fernando Malheiro avalia a qualidade técnica do Festival, pontuando que cerca de 85% da mão de obra é local: “Na sua 26º edição, ele é o maior festival de ópera da américa latina, é reconhecido no mundo todo como um evento super importante culturalmente pela qualidade do que é feito aqui. Nós temos a melhor orquestra de ópera do país, coral profissional e nós trazemos cantores excelentes, maestros, diretores de cena”.
Para o maestro, é essencial a capacitação que tem sido feita desde o início do Festival, em 1997, na qual profissionais de diversas áreas, tanto do contexto musical, quanto da cenotécnica, por exemplo, tornaram-se mais qualificados.
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Isabelle Lima/Portal Amazônia
Giorgia Massetani, que assina a cenografia do espetáculo, ressalta que o trabalho todo só é possível se realizado em conjunto e harmonia com os outros setores da ópera. Na questão cenotécnica, explica que cada profissional tem sua importância.
“São profissionais que estão desde a confecção até a ópera em si. Temos pintores, escultores, aderecistas, tapeceiros, costureiros, que não são somente costureiros da parte da área de figurino, mas na confecção de cortinas, tapeçaria dos objetos cênicos. Temos também pintores, serralheiros e marceneiros. Todos eles são pessoas que, ao longo desses 26 anos de festival, foram sendo capacitados e geraram um profissionalismo muito potente ao Festival”, relata a cenógrafa ítalo-brasileira Giorgia, que atua desde 2012 no Festival.
Quem também atua há mais de uma década na produção do Festival é a amazonense Melissa Maia. Ela acrescenta que, em todas as camadas do Festival, são necessárias pesquisas do contexto, dos personagens, reuniões entre os campos artísticos e para adaptações da obra no contexto amazônico.
Além disso, também mostra a importância dos profissionais para as trocas de figurino, de forma que tudo se encaixe na apresentação.
Festival Amazonas de Ópera 2025. Foto: Isabelle Lima/Portal Amazônia
“As pessoas tendem a achar que a equipe de figurino se resume só ao figurinista, e realmente não é. Tem figurinista, tem produtor de figurino, tem camareiras, tem costureiras, tem adereçagem, contrarregras. São muitas pessoas que fazem essa magia do figurino e da cena acontecer. A gente tem uma equipe agora com oito camareiras que fazem toda essa logística de troca. A gente ensaia essas trocas, recebe os sinais do stage manager e organiza uma verdadeira dança nos bastidores para tudo sair perfeito”, explica.
Por fim, o maestro afirma que o Festival movimenta não só a cultura, mas o turismo em torno da região amazônica, fomentando passeios turísticos, imersão na gastronomia e na biodiversidade e assegura que a ‘energia’ amazonense é um diferencial.
“Jamais teríamos feito o que fizemos aqui em qualquer outro teatro brasileiro. Os funcionários do teatro, os técnicos, os maquinistas, os cenógrafos, o pessoal que trabalha na CTP, todos vestem a camisa do festival, não tem hora, todo mundo se entrega, veste a camisa e trabalha com amor. É fácil você andar pelos bastidores e ver o pessoal cantarolando os temas da ópera e isso é muito diferente do que acontece nos outros teatros brasileiros. Essa energia que vem da natureza, eu acredito, essa energia do amazonense é muito importante e continua sendo um diferencial para o Festival ter se tornado o que se tornou”, finaliza Malheiros.
Criado em 1997, o Festival Amazonas de Ópera (FAO) gerou importante impacto para a cultura e a economia criativa manauara. Foi a partir deste evento que os corpos artísticos do Amazonas começaram a ser montados. A arte, o turismo e outros setores da economia passaram a ganhar novo fôlego, mostrando para quem vive na região ou a visita a busca de algo novo o potencial local.
Conheça um pouco da história e fatos que tornam o Festival Amazonas e Ópera tão único:
Curiosidades do Festival Amazonas de Ópera. Arte: Joel Carter/Portal Amazônia
Comunidades agroextrativistas do Acre estão adotando uma técnica inovadora para a produção de mudas de castanheira-da-amazônia (também conhecida como castanheira-do-brasil ou castanheira-do-pará).
Desenvolvido por pesquisadores da Embrapa em parceria com os próprios extrativistas, o método se baseia em mini estufas — um sistema simples, prático e de baixo custo —, que têm se mostrado eficientes para a germinação e crescimento das plantas. A espécie é fundamental para a economia e o meio ambiente da região amazônica.
Mais de 360 extrativistas do Acre já foram capacitados nessa técnica e há casos dos que começaram a produzir mudas tanto para o plantio em suas propriedades quanto para iniciativas de regeneração florestal ou comercialização.
De acordo com a pesquisadora Lúcia Wadt, da Embrapa Rondônia, o método foi criado pensando na realidade das comunidades, que enfrentam desafios logísticos para transportar mudas produzidas em viveiros convencionais.
“As mini estufas são confeccionadas a partir de baldes plásticos reutilizados, criando um ambiente controlado que favorece o desenvolvimento das mudas”, explica a pesquisadora. “Nossa meta foi tornar a produção mais acessível e viável, principalmente em pequena escala, em que há maior necessidade de soluções práticas e econômicas”.
Reconhecida pela produção de castanhas de alto valor econômico no mercado nacional e internacional, a castanheira é uma espécie essencial para pequenos produtores e agroextrativistas. Contudo, o cultivo enfrenta desafios como a dormência das sementes, que possuem cascas duras, a falta de uniformidade na germinação e o ataque de roedores, atraídos pelas castanhas presas às mudas.
A principal forma de propagação da castanheira é por meio de sementes. Há diversas recomendações documentadas para a produção de mudas em viveiros florestais, o que exige estrutura e mão de obra especializada. São utilizadas sementeiras suspensas e canteiros com sombra e proteção contra animais, além do uso de insumos agrícolas, como sacolas plásticas ou tubetes para a germinação.
Foto: Emanuelle Araujo Granja
No entanto, essa tecnologia é pouco acessível para pequenos produtores e agroextrativistas que desejam produzir mudas em pequena escala, principalmente para uso próprio. Muitos relatam dificuldades na produção de mudas de castanheira.
A técnica das mini estufas busca resolver esses problemas, simplificando a produção e tornando-a mais acessível para comunidades que dependem do extrativismo.
“No método tradicional, é preciso ter irrigação ou alguém que regue três a quatro vezes diariamente. No método da mini estufa, essa frequência é eliminada; é preciso molhar, claro, mas a muda estará mais estabilizada”, afirma Wadt.
A pesquisadora considera que o desenvolvimento dessa metodologia representa um avanço significativo para a produção de castanhas em áreas agroextrativistas. Ela permite que os produtores aproveitem melhor o potencial de suas áreas de plantio, estabelecendo novas castanheiras ou enriquecendo florestas degradadas “Além de ter potencial de promover práticas agrícolas mais sustentáveis na região amazônica ”, conclui.
Iniciativas locais e exemplos de sucesso
A engenheira florestal Eneide Taumaturgo, da Secretaria de Agricultura do Acre, trabalha na transferência dessa tecnologia para produtores locais. Apesar de alguns desafios iniciais, a engenheira afirma que a metodologia foi adaptada para facilitar o processo e estimular a adoção. “Com o uso de materiais facilmente disponíveis, como baldes plásticos e substratos de fácil obtenção, é possível produzir mudas de alta qualidade com baixo custo e sem a necessidade de infraestrutura complexa”, observa.
Foto: Joziane Evangelista
Na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, a engenheira agrônoma e gestora ambiental Joziane Evangelista se destaca na produção de mudas. Após capacitação pela Embrapa, Evangelista implementou a técnica em um pequeno viveiro, contribuindo para a recomposição florestal e gerando renda para a comunidade. Ela destaca que o sucesso depende de cuidados específicos, como a rápida manipulação das sementes para garantir uma boa taxa de germinação.
“Fui aprimorando o método com algumas técnicas. Agora, estou iniciando meu próprio viveiro, já fiz meu cadastro no Registro Nacional de Sementes e Mudas, o Sistema Renasem, para poder vender as minhas mudas. Além de ser importante na recomposição florestal, a produção de mudas também vai agregar valor econômico para a comunidade, que poderá comercializar mudas produzidas na Reserva. Como sou filha de extrativista, saí apenas para estudar, acho importante trazer o conhecimento para a comunidade”, afirma Joziane.
Passo a passo da metodologia
A produção de mudas em mini estufas começa com a escolha de sementes de alta qualidade – um dos pontos chaves na aplicação do método -, coletadas de, pelo menos, 20 árvores matrizes com boa produtividade.
Lúcia Wadt observa que a castanheira-da-amazônia é uma espécie que necessita de polinização cruzada entre árvores diferentes para a produção de frutos (alógama). Dessa forma, para aumentar as chances de sucesso na germinação, é recomendado coletar sementes de árvores diferentes e selecionadas, que apresentem boa produtividade e regularidade ao longo dos anos.
Após a coleta, é ideal que as sementes sejam submersas em água para verificar sua viabilidade. As que afundam são as mais adequadas por serem mais novas.
As sementes devem ser misturadas a um substrato úmido – terra ou serragem (foto à esquerda)- e dispostas em camadas dentro da mini estufa, de modo que fiquem completamente cobertas. Baldes plásticos de 20 litros, higienizados e preparados com furos para ventilação, são utilizados para manter a umidade e temperatura adequadas durante o processo, o que ajuda na quebra da dormência.
Após a estratificação, as sementes germinadas devem ser descascadas e transplantadas para tubetes ou recipientes maiores. Nessa etapa, as mini estufas devem ser adaptadas com uma estrutura de arame coberta por plástico transparente, criando uma cúpula que ajuda a manter a umidade e a temperatura interna. Em cerca de três meses, as mudas estão prontas para o plantio em áreas de enriquecimento florestal ou regeneração de castanhais degradados.
O conteúdo sobre o processo de produção de mudas em mini estufas pode ser acessado no curso on-line e gratuito, disponível na plataforma e-Campo, Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) da Embrapa.
Impactos ambientais e econômicos
O plantio de castanheiras em consórcio com outras espécies ajuda a restaurar ecossistemas degradados, reforçando a resiliência das comunidades frente às mudanças climáticas. Além disso, a produção de mudas promove práticas agrícolas sustentáveis, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, como a erradicação da fome e a proteção ambiental.
A técnica das mini estufas representa uma solução prática e escalável, com potencial para transformar a produção de castanheiras na região, unindo ciência, sustentabilidade e o fortalecimento das comunidades locais.
Aspectos legais
A legislação brasileira, regulamentada pela Lei nº 10.711/2003, exige que produtores se inscrevam no Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem). Contudo, pequenos produtores que comercializam até 10 mil mudas por ano são isentos de algumas exigências, facilitando o desenvolvimento de negócios locais na Amazônia.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa
Espetáculo de ópera ‘Bodas de Fígaro’ será transmitido ao vivo. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat
O espetáculo ‘As bodas de fígaro’ (Mozart, 1756- 1791), no 26°Festival Amazonas de Ópera (FAO), será transmitido ao vivo em TV aberta para os estados de Amazonas, Rondônia, Roraima e Amapá e também pela internet pelos sites Amazon Sat, g1 Amazonas e Portal Amazônia, diretamente do Teatro Amazonas. A exibição da ópera acontece ao vivo nesta sexta-feira (16), às 19h.
A transmissão faz parte do projeto ‘Ópera em Rede‘, realizado pela Fundação Rede Amazônica (FRAM), que tem como objetivo democratizar o acesso à música lírica e a valorizar a cultura amazônica.
A diretora-presidente da FRAM, Cláudia Daou Paixão, ressalta o papel da entidade na promoção da cultura na região: “A gente quer proporcionar para quem está mais longe, para quem nunca teve a chance de estar aqui, a oportunidade de viver esse momento. É sobre fortalecer pessoas, desenvolver a região por meio da arte, da cultura e da educação. Esse é o nosso maior legado”.
“Nós do Amazon Sat já fizemos diversas transmissões do Teatro Amazonas e estamos muito felizes de mais uma vez fazer parte da programação do Festival Amazonas de Ópera, dessa vez levando esse clássico do século XVIII a todos os cantos da região norte. É muito importante proporcionar acesso a cultura para a nossa região, ainda mais uma ópera, que muitos pensam ser inalcançável”, comentou o supervisor multimídia no Amazon Sat, Victor Costa.
A ópera ‘Bodas de Fígaro’ é uma comédia que se passa em um único dia: o casamento de Fígaro e Susana, misturando intrigas, trocas de identidade e críticas sociais, com um final divertido e conciliador. O espetáculo, de Mozart, conta com a regência e direção musical de Marcelo de Jesus e participação da Amazonas Filarmônica e Coral do Amazonas.
“São 26 edições do Festival de Ópera, e já tive o prazer de participar de algumas dessas edições. Poder ver que um evento cultural tão importante para a visibilidade do nosso Estado, segue firme e forte, é uma honra. Ver o brilho no olhar da plateia e dos artistas, que fazem isso com tanto amor, é gratificante. Que venham muito mais edições”, destacou a Deborah Oliveira, analista multimídia no Amazon Sat.
Espetáculo de ópera ‘Bodas de Fígaro’ será transmitido ao vivo. Foto: Divulgação
O projeto ‘Ópera em Rede’ encerra dia 21 de maio com o plantio de 100 mudas de espécies nativas da região amazônica, em uma ação voltada para a conscientização ambiental.
Sítio arqueológico Arraial Bom Jesus do Pontal. Foto: Reprodução/ Acervo Nuta-Unitins
O sítio arqueológicoArraial Bom Jesus do Pontal, localizado na zona Rural de Porto Nacional, no Tocantins, foi ocupado por bandeirantes expedicionários que povoaram a região em meados do século XVIII, e compreende uma área com cerca de 90.000 m2.
Criado em 1738 pelo movimento dos bandeirantes que buscavam minerais preciosos, o sítio está correlacionado com o processo de interiorização do Brasil. Para Hosenildo Gato Alves, mestre em história pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o Arraial é uma memória da ocupação do interior do Brasil.
Sítio arqueológico Arraial do Bom Jesus do Pontal. Foto: Reprodução/ Acervo Nuta/Unitins
“É uma memória da expansão da territorialidade portuguesa para além do tratado de Tordesilhas, é uma memória também dos atritos dos bandeirantes com os povos indígenas do interior do Brasil, pois quando criado o espaço era ocupado por diversas etnias indígenas e a partir daí vai haver uma disputa territorial”, explicou ao Portal Amazônia.
A versão histórica diz que o que levou à destruição e o abandono do Arraial foi o ataque dos indígenas Xerentes, que forçou a migração de população para o Arraial de Porto Real.
No dia 4 de abril de 2025, o Arraial foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural do estado de Tocantins, com uma placa instalada informando onde começa o sítio arqueológico.
Placa instalada no sítio arqueológico Arraial do Bom Jesus do Pontal. Foto: Dornil Sobrinho/Secom Porto Nacional
O local é um dos 100 sítios arqueológicos registrados em Porto Nacional e é considerado uma lembrança do movimento histórico dos bandeirantes e da luta dos povos indígenas contra a presença dos colonizadores na região.
Para Hosenildo, a importância do Arraial é de levar reflexões sobre a ocupação e a luta dos povos indígenas: “O lugar vai passar a ser preservado, estudado, debatido, visitado, ele vira um lugar da memória e leva reflexões sobre a ocupação e sobre o processo de luta dos povos indígenas”.
Durante a instalação da placa estiveram presentes representantes do Iphan, prefeitura de Porto Nacional, Universidade Federal do Tocantins, Núcleo Tocantinense de Arqueologia (Nuta) – ligado à Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) – e moradores da região.
A prefeitura de Porto Nacional pontua que para os moradores esse é um avanço importante para a história do local. “Nós estamos aqui dentro das ruínas do Antigo Arraial, que está diretamente atrelado à origem da cidade de Porto Nacional e também ao processo de ocupação colonial aqui da região. Temos diversas ruínas de pedra, das antigas edificações que aqui existiam, além de cultura material móvel, como cerâmica, louça e outros elementos relacionados. Esse sítio é um dos 100 sítios arqueológicos cadastrados no município portuense. É um dos únicos relacionados a períodos históricos e, desses, ele é o mais importante, não só do ponto de vista regional, mas também do ponto de vista local”, comentou o arqueólogo do IPHAN Tocantins, Rômulo Macêdo, segundo informações da prefeitura.
*Por Rebeca Almeida, estagiária sob supervisão de Clarissa Bacellar
Remédios naturais encantam visitantes na comunidade São Miguel. Foto: Prefeitura de Santarém
Localizada na margem direita do rio, na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no interior de Santarém (PA), a comunidade São Miguel oferece uma experiência turística que une saberes tradicionais às belezas naturais da Amazônia. Um dos destaques do roteiro é a Mesa da Cura, onde Dona Alzira da Silva, curandeira de 77 anos, comercializa preparados medicinais feitos com raízes, cipós, cascas e sementes da floresta.
Entre os remédios estão garrafadas, chás, óleos, banhas e banhos, usados para tratar dores, inflamações, cólicas, sinusite, problemas de pele e também para promover a limpeza espiritual, incluindo o combate à “panemice”, termo popular que significa azar ou falta de sorte.
Remédios naturais encantam visitantes na comunidade São Miguel. Foto: Prefeitura de Santarém
Quem visita o lugar, se encanta com a comunidade pela preservação dos conhecimentos ancestrais, um dos pilares do turismo de base comunitária. Como parte dessa vivência, destaca-se a forma coletiva de organização. A venda dos remédios funciona em sistema de revezamento entre os moradores. Um dos representantes mais atuantes é Manoel da Silva, membro da associação local, responsável por recepcionar os visitantes e apresentar o uso de cada produto.
“O que mais vendemos é o pau-saratudo e a unha-de-gato. O pessoal também encomenda muitas garrafadas e banhos atrativos, principalmente para limpeza espiritual e para tirar a panemice”, conta Manoel.
Conheça algumas das plantas e compostos utilizados e suas finalidades:
Remédios naturais encantam visitantes na comunidade São Miguel. Foto: Prefeitura de Santarém
Plantas medicinais
• Pau-Saratudo: anti-inflamatório usado contra tosse e gripe.
• Unha-de-Gato: cipó com ação anti-inflamatória, indicado para infecções urinárias e ginecológicas; também usado em banhos.
• Batimão (ou Barbatimão): recomendado para corrimentos e alterações uterinas.
• Sucuba: casca utilizada em chás contra dor de garganta e inflamações.
• Cumaru: base para xaropes usados em gripes e tosses.
• Pau de Angola: aplicado em banhos para aliviar sintomas gripais, especialmente ao final do dia.
• Canamança: utilizada em banhos de limpeza espiritual e retirada de “panemice” — expressão local para energias negativas.
• Cipó Pajé: usado em banhos para aliviar dores de cabeça.
• Raiz de Marupazinho: combate diarreias e melhora o funcionamento intestinal.
• Uxi Amarelo: anti-inflamatório natural com ação nos pulmões e intestinos.
Óleos e banhas
• Banha de Piquiá: reduz inchaços e alivia dores.
• Banha de Tartaruga: aplicada no rosto para tratar espinhas.
• Banha de Galinha: tradicionalmente colocada no nariz contra sinusite.
• Óleo de Mamona: indicado para dores musculares e de cabeça.
• Óleos de Andiroba e Cumaru: usados em massagens e no alívio de sintomas gripais.
Xaropes e misturas
• Xarope de Cumaru: preparado com mel, limão, hortelã, gengibre, alho roxo, própolis, óleo de pequi, eucalipto e sucupira — eficaz contra gripe, tosse e irritações respiratórias.
Remédios naturais encantam visitantes na comunidade São Miguel. Foto: Prefeitura de Santarém
O roteiro inclui ainda uma visita à casa de Dona Alzira, que além de curandeira, atua como parteira. Ela aprendeu as práticas com a mãe, conhecida como “sacaca de nascência”, termo de origem tupi usado na Amazônia para designar curandeiras com saberes ancestrais ligados ao mundo espiritual.
Dona Alzira também é artesã. Produz peneiras, tipitis, colares de miçanga e peças decorativas, que ficam expostas no quiosque comunitário, ao lado dos remédios. Também confecciona cerâmicas e esculturas inspiradas na fauna local, como peixes, botos e o personagem folclórico “Curumim Tolo”.
Contudo, a experiência em São Miguel vai além da medicina tradicional. Os visitantes podem explorar trilhas ecológicas (inclusive noturnas), tomar banho em igarapés de águas cristalinas e dormir em redários coletivos protegidos por telas contra mosquitos.
O roteiro inclui ainda uma visita à casa de Dona Alzira, que além de curandeira, atua como parteira. Foto: Prefeitura de Santarém
As praias da região, como Ponta da Morena e Ponta Grande (acessível por travessia de barco), completam o passeio com paisagens deslumbrantes. Uma das tradições locais é a piracaia, peixe assado à beira do rio, em clima de confraternização entre moradores e visitantes.
A culinária regional também marca presença, com pratos típicos servidos no restaurante comunitário. À noite, a programação cultural valoriza os saberes locais com apresentações de carimbó autoral, músicas compostas pelos próprios moradores.
Oficinas práticas também integram o roteiro, com atividades como cerâmica, trançado de palha de tucumã, miçangas e tingimento natural de fibras vegetais. O artesanato, vendido no quiosque, retrata o cotidiano amazônico com utensílios tradicionais e figuras do imaginário ribeirinho, criadas pelo grupo Arte e Palha.
As praias da região, como Ponta da Morena e Ponta Grande, completam o passeio com paisagens deslumbrantes. Foto: Prefeitura de Santarém
Com cerca de 800 moradores distribuídos em 102 famílias, São Miguel é uma comunidade estruturada, com Unidade Básica de Saúde, duas escolas e duas aldeias indígenas. Ali, a floresta ensina, cura, alimenta e acolhe, um destino onde tradição e sustentabilidade caminham lado a lado.
O acesso à comunidade é feito por via fluvial, em embarcações como barcos regionais ou lanchas rápidas. A distância média até Santarém é de 65 quilômetros, com trajeto que leva de 4 a 5 horas de barco ou entre 2h e 2h30 de lancha.
A melhor época para visitar São Miguel é durante o verão amazônico, quando surgem as praias de areias claras e paisagens paradisíacas. No entanto, mesmo na estação das cheias, a comunidade oferece ricas experiências culturais, gastronômicas e de contato com a natureza.
Durante a visita institucional, Manoel da Silva agradeceu a presença da Semtur e das equipes das agências locais. “A visita das agências é importante pra valorizar o que a gente tem de mais precioso: nosso conhecimento, nosso jeito de viver e a força da nossa cultura. Sabemos do nosso potencial, mas precisamos de parceria pra melhorar nosso trabalho.”
O secretário municipal de Turismo, Emanuel Júlio Leite, enfatizou as belezas do turismo de base comunitária de São Miguel. “São Miguel é um exemplo vivo de como tradição e natureza podem andar juntas. Aqui, o turismo fortalece a cultura, gera renda e promove experiências únicas.”
O brilho dos lustres, a imponência da arquitetura e o som vibrante das vozes no palco marcaram o segundo encontro de cerca de 500 pessoas com o universo da ópera. A iniciativa ‘Minha Primeira Ópera‘ proporcionou a “estreia” de muitos manauaras no Teatro Amazonas, com a apresentação de dois atos do clássico ‘As Bodas de Fígaro’, de Mozart.
O visagismo é um fator importante na ópera. Foto: Diego Andreoletti/Amazon Sat
Enquanto o público se encanta com as vozes potentes e os cenários grandiosos de uma ópera, longe dos holofotes, um outro espetáculo acontece nos bastidores. É lá, entre pincéis, pós e sprays, que o visagismo entra em cena — a arte de traduzir, por meio de penteados e maquiagem, a essência dos personagens.