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Estudo propõe nova estratégia para preservar a diversidade genética da Amazônia

Manter distâncias adequadas entre as árvores promove a polinização cruzada, resultando em um aumento na variabilidade genética. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

De acordo com estudo conduzido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), estratégias específicas para cada espécie de árvore são mais eficazes para manter a diversidade genética da floresta amazônica do que os critérios generalistas adotados pela legislação brasileira. Os resultados das investigações foram publicados no periódico Forest Ecology and Management.

Como explicam os autores, a proximidade entre as árvores é crucial para facilitar o fluxo gênico dentro das populações florestais. Definido como a transferência de genes entre indivíduos da mesma espécie, o fluxo gênico é essencial para a adaptação e a sobrevivência da população.

Financiada pela FAPESP (projetos 23/07753-624/14406-3 e 23/14668-5), a pesquisa analisou o impacto da exploração madeireira com base no diâmetro mínimo de corte (DMC), regra que define o tamanho mínimo das árvores que podem ser retiradas. Os cientistas avaliaram se as árvores que permanecem na floresta após o corte ficaram próximas o suficiente para garantir a troca de pólen e a diversidade genética.

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Para aprofundar a análise, o estudo utilizou modelos de simulação e propôs um novo critério, chamado “distância mínima de corte”, que considera a proximidade entre as árvores remanescentes. Os pesquisadores compararam esse método com os critérios atuais, avaliando seu impacto tanto na diversidade genética quanto no volume de madeira coletado.

O estudo foi conduzido em quatro áreas amazônicas de manejo florestal legal. Duas delas pertencem a empresas privadas certificadas no Estado do Amazonas. Outras duas, uma no Pará e outra em Rondônia, fazem parte de concessões florestais. Juntas, as quatro áreas totalizam 48.876,35 hectares.

Os resultados mostram que critérios específicos para cada espécie e área são mais eficientes do que regras generalistas, que utilizam o mesmo padrão para todas as árvores. Segundo os autores, a adoção de abordagens personalizadas pode contribuir para um manejo florestal mais sustentável, garantindo a conservação da biodiversidade e a continuidade dos serviços ecossistêmicos da Amazônia.

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“O estudo reforça a necessidade de revisão das normas de exploração madeireira, incentivando políticas que aliem produção e conservação ambiental”, relatou à assessoria de imprensa da Esalq o professor Edson Vidal, um dos autores do artigo.

“Manter distâncias adequadas entre as árvores promove a polinização cruzada, resultando em um aumento na variabilidade genética. Essa variabilidade é fundamental para a resiliência da população a mudanças ambientais, como a incidência de doenças e pragas. Isso torna mais eficaz esse critério de distância mínima de corte”, resume Vidal.

O artigo Maintaining genetic diversity in the Amazon: Species-specific strategies are more effective for managed forests than generalist criteria in Brazilian legislation pode ser lido AQUI.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp

Mineração ilegal e tráfico de animais serão crimes de maior gravidade

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Foto: Divulgação/Polícia Federal

A partir de agora, a prática da mineração ilegal e o tráfico de animais silvestres serão reconhecidos como crimes ambientais da “maior gravidade”, em âmbito mundial para todos os 193 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU). A Comissão de Prevenção do Crime e Justiça Criminal das Nações Unidas aprovou na última semana, em Viena, uma nova resolução, que foi proposta pelo Brasil, sobre o combate aos crimes ambientais.

As novas regras, aprovadas na 34ª assembleia da Comissão, também determinam que esses crimes de exploração irregular de minérios e o transporte ilegal de animais sejam considerados de responsabilidade compartilhada por todos os países. Na prática, a resolução implica em instituir medidas que combatam tanto a oferta quanto a demanda que movimenta esses crimes ambientais.

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A resolução, segundo a Comissão da ONU, promove a tentativa de harmonização das leis, enfatizando o envolvimento dos povos indígenas e das comunidades afetadas pelos crimes. A intenção também é facilitar a cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro associada a esses delitos.

De acordo com Ministério das Relações Exteriores, a aprovação do texto pelo órgão internacional reflete a prioridade do governo brasileiro em enfrentar os crimes ambientais e manter o papel de liderança nessa temática. 

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Justiça Federal determina suspensão imediata de extração de gás em TI no Amazonas

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Complexo Termelétrico Azulão 950, em 2023. Foto: Reprodução/Eneva

A Justiça Federal determinou a paralisação imediata das atividades de extração de gás realizadas pela empresa Eneva em área que se sobrepõe ao território indígena Gavião Real, no Amazonas, conforme indicado em mapa apresentado por laudo pericial do Ministério Público Federal (MPF). A empresa fica proibida de impedir o uso tradicional dessas terras por indígenas e ribeirinhos.

A decisão suspende a emissão de novas licenças ambientais no âmbito do complexo de gás conhecido como Azulão, operado pela Eneva nos municípios amazonenses de Silves e Itapiranga. Assim, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) não poderá expedir novas autorizações.

A liberação de licenças está condicionada à realização da consulta prévia aos povos indígenas e extrativistas, conforme estabelecido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além da realização, pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), dos estudos de impacto específicos sobre as comunidades e povos indígenas isolados e do Estudo de Componente Indígena (ECI). 

Em recente manifestação, o MPF apresentou à Justiça Federal novos elementos e provas, a partir de laudo pericial e de informações colhidas durante diligências presenciais realizadas nas comunidades tradicionais e indígenas dos municípios de Silves e Itapiranga. Diante das constatações trazidas pelo MPF, a Justiça determinou à Eneva e ao Ipaam que prestem todas as informações técnicas indicadas como necessárias pelo MPF. 

A Eneva e o Ipaam têm um prazo de 15 dias para manifestarem suas contestações sobre o caso (a partir do dia 27 de maio). 

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Irregularidades constatadas

O laudo de perícia multidisciplinar do MPF, elaborado por especialistas em Biologia, Engenharia Química e Geologia, constatou diversas irregularidades no licenciamento ambiental conduzido pelo Ipaam. O MPF destaca que as irregularidades encontradas no empreendimento apresentam impactos diretos sobre o meio ambiente e os povos indígenas e tradicionais que habitam a região. Aponta, ainda, a omissão do Ipaam em considerar a presença indígena na região, uma vez que o empreendimento se encontra em área sobreposta a terras indígenas, e, ainda, relata a omissão da Funai para suspender o empreendimento. 

A perícia apontou que não houve dimensionamento adequado da área de influência direta e indireta do empreendimento e constatou falha na identificação de impactos ambientais esperados, além de subdimensionamento da extensão dos impactos e de seus efeitos cumulativos e sinérgicos com outros empreendimentos. 

O documento mostra também os indícios de fracionamento do licenciamento ambiental, já que estruturas interligadas foram licenciadas separadamente. Também ressalta que a falha do Ipaam na condução do licenciamento e a atividade poluidora da empresa já estão acarretando danos às comunidades que habitam a região. 

Foi indicado, na perícia, que diversas comunidades indígenas e ribeirinhas vem sendo invisibilizadas ao longo do processo de licenciamento ambiental da Eneva, tanto por parte do empreendimento, quanto por parte dos órgãos ambientais.

Há aldeias indígenas próximas às estruturas dos empreendimentos que vêm relatando os impactos ambientais relacionados às instalações, impactos sobre a pesca e o afugentamento da caça e do pescado. As alterações ambientais em decorrência da instalação do projeto podem também aumentar os riscos de contato com aracnídeos e escorpiões potencialmente perigosos para a saúde humana.

Além disso, foram relatados desrespeito aos critérios do acordo firmado entre as comunidades e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a falta de diálogo com as comunidades, o que ocasiona o desconhecimento prévio dos reais impactos causados pelas obras, bem como uma série de ameaças às suas lideranças e a sensação de invasão de seus territórios. 

A perícia do MPF sugeriu que sejam tomadas diversas providências, entre elas a solicitação de esclarecimentos sobre eventuais lançamentos e captações da Eneva, seus pontos geográficos e o compartilhamento de infraestrutura entre os projetos da empresa. Outra sugestão foi solicitar à Funai que obtenha dados atualizados e consistentes sobre a distância entre as aldeias e o empreendimento, bem como investigar a discrepância nas coordenadas geográficas da Aldeia Gavião Real, área onde o empreendimento está sobreposto. 

Verificação in loco 

Em inspeções realizadas no ano de 2024, o MPF identificou pressões diversas da empresa para passagem de gasoduto pelas residências ao longo da estrada da região e a presença de poços e maquinário da Eneva em algumas propriedades, a poucos metros de distância de residências, moradias, criação de animais, inclusive com fogo e fumaça saindo constantemente. 

O MPF recebeu relatos de pressões para assinatura de contratos e para renovação e ampliação de novos contratos entre a empresa e comunitários. Além dos relatos de contaminação de água do lago de consumo dos indígenas e ribeirinhos, bem como de poços artesianos de agricultores familiares. 

Ação civil pública nº 1021269-13.2023.4.01.3200

Decisão judicial

Consulta processual

*Com informações do MPF

Cafezais das Matas de Rondônia sequestram 2,3 vezes mais carbono do que emitem

Agricultores familiares trabalham na pós-colheita e secagem do café. Foto: Enrique Alves

Um estudo inédito realizado na região das Matas de Rondônia revela que a cafeicultura familiar praticada nesse território da Amazônia brasileira apresenta um balanço favorável de carbono. Os resultados dessa pesquisa apontam que as plantações de Café Robusta Amazônico – uma variedade local do café canéfora (Coffea canephora) – sequestram, em média, 2,3 vezes mais carbono, anualmente, da atmosfera do que as emissões geradas no processo produtivo agrícola.

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A pesquisa demonstra que o balanço anual de carbono da região registra um saldo favorável de 3.883,3 kg, ou cerca de 4 toneladas por hectare ao ano. A média vem da diferença entre o carbono estocado na biomassa das plantas (6.874,8 kg) e a emissão de gases de efeito estufa (GEE) durante a fase de produção do café (2.991,5 kg). Por seu ineditismo, o balanço poderá ser utilizado como referência para outras pesquisas e, até mesmo, para abertura de linhas de créditos de carbono.

A iniciativa resultou também na criação de uma planilha de cálculos da emissão de carbono para uso dos agricultores locais. A intenção é mostrar o status atual de emissão do cafeicultor do estado, considerando critérios como irrigação, uso de fertilizantes, entre outros.

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Apresentação dos resultados e simulações

Os resultados da pesquisa da Embrapa estão sendo apresentados no Rondônia Rural Show Internacional, de 26 a 31 de maio, em Ji-Paraná (RO).  Essa é a maior feira de agronegócios da Região Norte e tem o objetivo de fomentar a integração entre ciência e setor produtivo.O evento será uma oportunidade para que os produtores de café testem essa planilha e façam simulações de forma a avaliar se os valores das emissões de seus sistemas de cultivo estão acima ou abaixo do balanço médio do estado.

Foto: Enrique Alves

“Estamos muito felizes com o resultado dessa pesquisa”, afirma Juan Travian, presidente da Cafeicultores Associados da Região das Matas de Rondônia (Caferon). “O estudo comprova a sustentabilidade da cafeicultura praticada no bioma Amazônia. Para nós, é importantíssimo mostrar ao mundo, por meio da ciência, que a produção de café na Amazônia é sustentável”, complementa.

O presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credip, Oberdan Pandolfi Ermita, ressalta que a monetização do carbono é um mercado novo que vem estimulando uma corrida de metodologias para calcular esse balanço. Para ele, o estudo da Embrapa consegue capturar a especificidade do Café Robusta Amazônico, considerando as condições fitoclimáticas da região. “São dados muito relevantes. Nosso objetivo é que seja trabalhada a monetização desse carbono, de modo a beneficiar o cafeicultor das Matas de Rondônia diretamente, ou por meio da redução da taxa de juros”, diz. 

COP30,  Jornada pelo Clima e Integra Carbono Embrapa

O projeto com os Cafés Robustas Amazônicos foi selecionado para ser apresentado na vitrine viva do Espaço AgriZone, exposição que será a casa da agricultura sustentável brasileira em Belém, na sede da Embrapa Amazônia Oriental, durante a COP30, de 10 a 21 de novembro próximo.

Esta matéria integra a série da Agência Embrapa de Notícias relacionada à iniciativa da Empresa Jornada pelo Clima. A ideia é identificar reportagens sobre ações de PD&I e tecnologias que favorecem a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares e dos biomas, de forma alinhada com os temas da COP 30.

Confira também outros resultados da Empresa e parceiros voltados à descarbonização da agricultura na página Integra Carbono Embrapa. A iniciativa é voltada à agregação de dados e resultados de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) capazes de contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) nos sistemas agroalimentares e florestais.

Sequestro de carbono

O pesquisador da Embrapa Territorial Carlos Cesar Ronquim, líder do estudo, acredita que o cafeeiro pode atuar como uma ferramenta de remoção de carbono. Por ser uma planta lenhosa, ela possui capacidade de armazenar grandes quantidades de carbono por mais tempo. Ronquim ressalta, no entanto, que o carbono sequestrado temporariamente na biomassa da planta do café retorna à atmosfera quando a lavoura é renovada ou desativada. Ele observa ainda que, se essas plantas forem utilizadas como substitutas de combustíveis fósseis, isso pode contribuir efetivamente para um balanço de carbono mais positivo na produção.

O estudo contou ainda com as participações do professor Eduardo Figueiredo, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar – Campus Araras), e do bolsista da Embrapa Territorial (SP) Guilherme Silva.

Foto: Marcos Oliveira

Os dados usados na pesquisa foram coletados em campo. O estoque de carbono armazenado nas plantas foi gerado a partir das análises laboratoriais de amostras de cafeeiros adultos (foto acima – média de idade de oito anos) obtidas nas lavouras. Os dados das emissões foram levantados por meio da aplicação de questionários e em reuniões com produtores locais.

Para quantificar o carbono estocado na planta, foram avaliados 150 cafeeiros adultos em dez propriedades rurais de cinco municípios da região das Matas de Rondônia. As análises laboratoriais mostraram que a maior parte do carbono está concentrada no tronco (36,4%), seguido por raízes (24,3%), folhas (23,8%), galhos (10,1%) e frutos (5,4%).

O pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia (RO), ressalta que muitos cafeicultores das Matas de Rondônia substituem parcialmente o uso de fertilizantes químicos por fontes orgânicas – como cama de frango e palha de café. “Essa prática favorece o pleno desenvolvimento vegetal das plantas, o acúmulo de carbono no solo ao longo do tempo, e a menor emissão de GEE, quando comparada aos fertilizantes nitrogenados sintéticos”, observa.

“As plantas da variedade botânica robusta são de grande porte e com alta capacidade produtiva. Isso, aliado a boas práticas agronômicas e novos arranjos espaciais mais adensados, fazem da cultura uma ferramenta de proteção do solo e sequestro de carbono”, ressalta o pesquisador.

O cálculo da pesquisa ainda não considera o carbono estocado no solo, o que poderá tornar o balanço ainda mais favorável em análises futuras. O projeto já direciona esforços para essa finalidade, comparando áreas de café, pastagens e florestas nativas. A expectativa é que o cultivo bem manejado do Café Robusta Amazônico em áreas antes ocupadas por pastagem resulte em aumento líquido de carbono no sistema, principalmente em pastagens degradadas.

“As coletas estão em andamento, com várias incursões de campo já realizadas. Acreditamos que as atividades de campo serão concluídas ainda neste semestre”, adianta o pesquisador Ronquim.

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Levantamento das emissões

O levantamento das emissões foi realizado em 250 propriedades localizadas em 15 municípios das Matas de Rondônia. Os dados foram coletados por aplicação de questionários durante visitas de campo e reuniões e entrevistas com os produtores, com o apoio de técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater – RO). O objetivo foi mapear as principais fontes de emissão de gases de efeito estufa associadas à cafeicultura local, como o uso de calcário e fertilizantes (sintéticos nitrogenados e orgânicos), o consumo de combustíveis fósseis nas operações agrícolas e o uso de energia elétrica nos sistemas de irrigação. Com base nesses dados, foi possível calcular a pegada de carbono da produção de café na região.

A pegada de carbono representa a quantidade total de GEE emitido durante o processo produtivo. Essa análise permite a adoção de ajustes técnicos que reduzem as emissões, promovendo uma agricultura de baixo carbono. A cafeicultura das Matas de Rondônia registrou a pegada de carbono média de 0,84 kg de gás carbônico equivalente por kg de café verde produzido. Em prática, isso significa que cada quilo de café verde produzido (quando são considerados só os grãos e desconsideradas outras partes do fruto do café) emite 0,84 quilos de GEE.

Foto: Marcos Oliveira

Ronquim explica que esse resultado coloca o Café Robusta da Amazônia brasileira em posição favorável em relação à média global, especialmente quando comparado a outros cultivos tradicionais a pleno sol. Os dados do estudo foram comparados com análises feitas por outros trabalhos científicos, englobando revisões e valores médios de pesquisa (que comparam sistemas de cultivo a pleno sol com os de agroflorestas) em centenas de propriedades cafeeiras nos principais países produtores com destaque para a região da América Central.

O pesquisador ressalta que a pegada de carbono varia conforme diversos fatores, como o local do estudo, o clima, o tipo de solo, o manejo adotado, a variedade ou clone utilizado, tecnologias aplicadas, insumos e ainda metodologia empregada.

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O estudo apontou que cerca de 80% da pegada de carbono é resultante da aplicação de fertilizantes nitrogenados sintéticos. Isso porque existe uma relação direta entre o aumento da dose de nitrogênio e o crescimento das emissões: quanto maior a aplicação de nitrogênio, maiores as perdas e menores as taxas de aproveitamento pela planta. Esse impacto pode ser mitigado com práticas como o uso de adubos orgânicos em substituição de parte do fertilizante sintético, o cultivo consorciado com leguminosas fixadoras de nitrogênio e o uso racional de insumos.

A cafeicultura bem manejada, com uso eficiente de recursos e estratégias de mitigação, torna-se uma aliada no combate às mudanças climáticas. O desafio de conciliar produtividade e sustentabilidade é cada vez mais relevante em um cenário global de busca por práticas agrícolas de baixo carbono.

“A cafeicultura amazônica entra em uma nova fase de modernização do sistema de cultivo. Isso inclui práticas regenerativas, como manejo da cobertura do solo, uso de Sistemas Agroflorestais (SAFs), ampliação da adubação orgânica, substituição de agroquímicos por biológicos e uso racional e parcelado da adubação química nitrogenada por meio da fertirrigação (técnica que aplica fertilizantes diluídos na água da irrigação). Além disso, a Embrapa, em um processo de melhoramento participativo, tem ajudado os cafeicultores na seleção dos materiais genéticos com maior potencial produtivo, qualidade e, principalmente, resiliência climática”, enfatiza Alves.

Além das práticas agronômicas sustentáveis, destaca-se também a eficiência na gestão das lavouras por parte dos pequenos cafeicultores de Rondônia, que demonstram resiliência frente aos desafios da agricultura. Isso se deve, em grande parte, à experiência acumulada após migrarem para o estado, à adaptação às condições locais e à abertura para adoção de novas tecnologias. Essas inovações têm contribuído para ganhos de produtividade e redução da área plantada nas últimas décadas.

“Como são cultivados em pequenas propriedades familiares, muitos dos manejos dos robustas amazônicos – como a colheita – são realizados manualmente, o que contribui para a redução das emissões de GEE relacionadas ao uso de combustíveis fósseis”, pontua o líder do projeto.

Agricultura familiar

O destaque da cafeicultura de Rondônia no cenário nacional vem se expandindo. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Rondônia foi responsável por 87% da produção no bioma Amazônia na safra de 2024, lançando-a à quinta maior produção total do País e à segunda maior produção da espécie Coffea canephora.

Foto: Enrique Alves

O sistema de cultivo do robusta amazônico nas Matas de Rondônia envolve cerca de 17 mil produtores. Em sua maioria, são agricultores familiares tendo por foco a produção sustentável. Dos 37 mil imóveis rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) na região, menos de nove mil produzem café — e 95% dessas pequenas propriedades são familiares, com média de 3,5 hectares cultivados com café.

O uso e cobertura da região, com foco na cafeicultura, foi realizado no âmbito do mesmo projeto da Embrapa, em 2024. Leia mais aqui. Conheça os detalhes do estudo clicando aqui.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Embrapa

Onça-pintada e peixe-boi têm genomas mapeados em alta qualidade, anuncia GBB

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Onça-pintada. Foto: Adriano Gambarini

A onça-pintada e o peixe-boi-da-amazônia estão entre 23 espécies brasileiras que tiveram os genomas totalmente mapeados e com alta qualidade. O anúncio dos primeiros resultados de dois anos do Consórcio Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), foi feito nesta terça-feira (27). O projeto é fruto de uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Tecnológico Vale (ITV).

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O genoma é como se fosse a imagem na caixa de um quebra-cabeça. E os genes fossem as peças. Sem a imagem de referência, é muito mais difícil de fazer montagem. Com o genoma referencial é a mesma ideia, ele facilita o sequenciamento de indivíduos da mesma espécie ou de similares. No total, o Consórcio sequenciou 743 genomas de 413 espécies.

O projeto aplica ferramentas modernas para desvendar a genética de espécies ameaçadas, exóticas e aquelas com potencial bioeconômico.

Leia também: Estudo realizado por pesquisadores do Pará e São Paulo sequencia primeiro genoma do cupuaçu

A coordenadora do GBB, Amely Martins, afirma que conhecer o genoma ajuda a entender como as espécies lidam com desafios como perda de área natural e mudanças climáticas.

“Quanto maior a diversidade genética de uma espécie, potencialmente ela tem um arcabouço melhor pra lidar com seleção natural, que tá aí batendo na porta e que vai pressionar as espécies. Então, quanto maior a diversidade genética,  mais facilidade, talvez, ela tenha de lidar e se adaptar a essas mudanças no meio ambiente”.

O diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio, Marcelo Marcelino, disse que a iniciativa vai reforçar as ações de proteção das espécies do país.

“Por exemplo, para avaliar o risco de extinção da espécie, a gente usa muito a perda de habitat, a fragmentação, o isolamento de populações. São uns dos critérios principais, os mais usados, que a maior parte das espécies cabem nesses critérios e a gente vai ter muito mais acurácia pra poder afirmar que a população está isolada e uma espécie está ameaçada”.

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O Consórcio Genômica da Biodiversidade Brasileira tem 114 projetos em andamento. A meta é produzir genomas de referência para 80 espécies.

Os resultados inéditos desses primeiros anos do projeto, iniciativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV DS), estão sendo apresentados até o dia 28 de maio, na sede do ICMBio, em Brasília (DF). O encontro conta com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV DS). 

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*Com informações da Rádio Agência Nacional e ICMBio

Nova espécie de peixe-elétrico é registrada no Amazonas: Microsternarchus javieri

Nova espécie de peixe-elétrico: Microsternarchus javieri n. sp. Foto: Reprodução/Acta Amazonica

Uma nova espécie de hipopomídeo, Microsternarchus javieri n. sp. , foi encontrada em riachos de savana inundados do Rio Branco e em riachos de terra firme nas porções média e baixa da bacia do Rio Negro, no Amazonas. Um hipopomídeo faz parte família de peixes da ordem Gymnotiformes, popularmente conhecidos como peixes-faca, tuviras, sarapós, ituís e poraquês (os peixes-elétricos).

Os dados foram publicados no Volume 55 da revista científica Acta Amazonica, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

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A família de peixes elétricos Hypopomidae (hipopomídeo) é um grupo monofilético com seis gêneros: Akawaio, Brachyhypopomus, Hypopomus, Procerusternarchus, Racenisia e Microsternarchus.

De acordo com o resumo do estudo ‘Microsternarchus javieri, nova espécie de peixe elétrico (Gymnotiformes: Hypopomidae, Microsternarchini) da bacia do Rio Negro, Amazonas, Brasil‘, foi realizada uma comparação da nova espécie com Microsternarchus bilineatus do Rio San Bartolo, Venezuela, e Microsternarchus brevis da porção superior do Rio Negro.

“Descrevemos uma das linhagens indicadas por Maia e Alves Gomes (2012) – linhagem C, das serras média e baixa do Rio Negro – como uma nova espécie, comparando suas características morfométricas, caracteres anatômicos, sequências genéticas e parâmetros de descarga de órgãos elétricos (EOD) com aqueles de seus congêneres M. bilineatus e M. brevis”, informam os pesquisadores.

Distribuição geográfica de espécimes de Microsternarchus javieri n. sp. em 47 pontos de coleta (círculos e triângulos) ao longo de riachos de terra firme da bacia do rio Branco, estado de Roraima, e da bacia do rio Negro, estado do Amazonas, no Brasil. Localidade-tipo indicada em vermelho. Os círculos brancos referem-se aos 15 pontos de localização dos espécimes incluídos na análise morfológica. O detalhe (retângulo vermelho) mostra uma vista mais próxima do Arquipélago de Anavilhanas. Imagem: Reprodução/Acta Amazonica

Para isso, foram examinados: morfometria, caracteres anatômicos, distâncias de código de barras de DNA para o gene COI (subunidade I da citocromo C oxidase) e parâmetros de descarga elétrica de órgãos (EOD).

Desta forma, afirmam os pesquisadores na publicação, “a descrição de M. javieri n. sp. aumenta para cinco o número de espécies no gênero”. “Diagnosticamos M. javieri n. sp. com base na variação da altura máxima do corpo, diâmetro do olho, número de vértebras caudais, número de raios da nadadeira anal e formato da maxila”, detalham.

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De acordo com o estudo, M. javieri n. sp. foi coletado em riachos de terra firme na bacia do rio Negro até o município de Santa Isabel (AM) e em savanas de escudo inundado na bacia do rio Branco (RR): “esses peixes habitam riachos bem oxigenados com correntes lentas e, portanto, não estão presentes no canal principal do rio. Durante o dia, quando em repouso, eles têm uma preferência de microhabitat por áreas rasas na estação seca, com grande abundância de folhas mortas, raízes abundantes, serapilheira, cobertura vegetal e raízes emaranhadas”.

Detalhamento do peixe-elétrico. Foto: Reprodução/Acta Amazonica

O nome ‘javieri‘ foi dado em homenagem ao pesquisador Javier Maldonado Ocampo, “cuja pesquisa sobre gimnotiformes, sistemática e conservação contribuiu significativamente para a nossa compreensão da ictiofauna neotropical”, explicam os autores do estudo.

Com nossa descrição aqui, o gênero Microsternarchus passa a compreender cinco espécies:

  • M. bilineatus (Fernández-Yépez, 1968),
  • M. brevis (Cox Fernandes, Nogueira, Williston, Alves-Gomes, 2015)
  • M. longicaudatus (Sousa, Wosiacki, Muriel-Cunha, Prudente, Sousa, Peixoto, 2024),
  • M. schonmanni (Cox Fernandes, Keeffe, Escamilla Pinilla, 2024),
  • M. javieri (Cox Fernandes, Escamilla Pinilla, Alves-Gomes, 2025).

Confira o artigo completo (em inglês):

Prefeitura de Boa Vista libera 400 toneladas de insumos para produtores da agricultura familiar

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Sulamita Moreira retirou fósforo, NPK, ureia e cloreto de potássio liberados pela prefeitura. Foto: Diane Sampaio/PMBV

Calcário, fósforo, NPK, ureia, cloreto de potássio e sementes estão entre os insumos liberados pela Prefeitura de Boa Vista a produtores rurais inscritos no Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA), para a safra de inverno 2025. A retirada de 400 toneladas de produtos tem ocorrido no Centro de Difusão Tecnológica (CDT), localizado na região do Bom Intento, zona rural do município.

Saiba mais: Conheça o Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio

Com o planejamento da gestão municipal, a agricultura familiar recebe os insumos no período correto para execução do plantio dentro do calendário agrícola, respeitando as condições climáticas da região. De acordo com o prefeito Arthur Henrique, as ações fortalecem a economia local e gera empregos, ao mesmo tempo em que contribui para a redução de desigualdades no campo.

“Incentivamos práticas agrícolas modernas e produtivas, ampliando a capacidade de produção e abastecimento às famílias produtoras. Nosso compromisso é fortalecer a agricultura familiar, oferecendo incentivos como disponibilização de insumos, máquinas, implementos e assistências técnica especializada, garantindo o desenvolvimento sustentável e valorizando o trabalho no campo”, disse.

Apoio a agricultura familiar

Hoje, o PMDA atende 1.615 famílias agricultoras na capital. Ao longo dos anos, a Prefeitura de Boa Vista trabalha para humanizar o trabalho no campo e garantir segurança alimentar à população. A produtora Sulamita Moreira está há 7 anos na região do Projeto de Assentamento Nova Amazônia, zona rural da capital. Ela retirou fósforo, NPK, ureia e cloreto de potássio para seguir com o cultivo.

Prefeitura de Boa Vista
A retirada de 400 toneladas de produtos tem ocorrido no Centro de Difusão Tecnológica, localizado na região do Bom Intento. Foto: Diane Sampaio/PMBV

“Produzo batata-doce, macaxeira, feijão, milho e melancia na minha propriedade. Sem o PMDA, eu não conseguiria produzir todas as culturas que trabalho. A Prefeitura de Boa Vista está sempre com a gente, seja na correção do solo, no plantio ou na colheita, com máquinas para agilizar todo o processo de produção”, contou.

Prefeitura de Boa Vista
Os insumos são liberados pela Prefeitura de Boa Vista a produtores rurais inscritos no Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA). Foto: Jonathas Oliveira/PMBV

Leia também: Boa Vista Junina 2025 – Arquibancadas montadas na praça Fábio Paracat terão capacidade para receber mais de 5 mil pessoas

Incentivos agrícolas

Agricultores fazem a retirada de insumos com subsídio de 50% do valor total. Ao longo do processo, tudo que o produtor paga até a data de vencimento é disponibilizado um desconto de 50% do montante. Os beneficiários dispõem ainda de prazo de carência com tempo para plantar, colher e vender. Assim, com o resultado da produção, as famílias pagam os insumos recebidos.

Atuando em seis frentes de trabalho ao mesmo tempo, as equipes da Secretaria Municipal de Agricultura estarão finalizando na próxima semana o plantio de aproximadamente 1.200 hectares de soja e milho, atendendo 280 famílias e distribuição de 510 toneladas de insumos para a agricultura familiar e indígena.

Lauro Sodré, o ex-governador paraense que entrou para o livro dos heróis e heroínas da pátria

Lauro Sodré (1916). Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

Nascido em Belém (PA), no dia 17 de outubro de 1858, Lauro Nina Sodré e Silva iniciou sua trajetória nos bancos do Liceu Paraense, seguindo depois para a Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Foi nesse ambiente que abraçou as ideias republicanas e positivistas, influenciado por correntes intelectuais que se opunham à monarquia, o que o levou a entrar no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2024.

Em 1878, ainda jovem, fundou um clube republicano secreto, tornando-se uma das vozes mais ativas na campanha pela República no Pará. Dois anos antes da Proclamação, redigiu um manifesto que defendia abertamente o fim da monarquia.

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Com a queda do regime imperial em 1889, Lauro Sodré foi nomeado oficial de gabinete de Benjamin Constant, um dos líderes do movimento republicano. Logo depois, foi eleito deputado constituinte em 1890 e, no ano seguinte, se tornou o primeiro governador constitucional do Pará, um cargo que exerceu com firmeza, especialmente durante o conturbado episódio do golpe de Deodoro da Fonseca, que posicionou contra.

Governante

Lauro Sodré governou o Pará de 1891 a 1897, período em que promoveu reformas administrativas e defendeu os princípios da República. Após sua gestão, foi eleito senador e, em 1898, disputou a presidência da República, sendo derrotado por Campos Sales em uma eleição marcada pela influência das oligarquias.

Figura polêmica e combativa, participou da Revolta da Vacina, em 1904, quando foi preso por se posicionar contra medidas autoritárias do governo federal. Anistiado, voltou à cena política, retornando ao Senado em 1912 e governando novamente o Pará de 1917 a 1921.

Além da política, Lauro Sodré teve forte atuação na maçonaria, ocupando o posto de grão-mestre do Grande Oriente do Brasil em diversos mandatos.

Com o advento da Revolução de 1930, que encerrou a chamada Primeira República, Lauro Sodré se retirou da vida pública, vindo a falecer no Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1944.

Palácio Lauro Sodré, que abriga o Museu do Estado do Pará, é uma relíquia do patrimônio arquitetônico. Foto: Reprodução/Agência Pará

Legado

Em Belém, sua memória está eternizada no monumento localizado na Praça Floriano Peixoto, no bairro de São Brás. A obra foi inaugurada em 10 de junho de 1959, por iniciativa do então governador Magalhães Barata, para celebrar o centenário de nascimento de Lauro Sodré.

Outro icônico local que leva o nome dele é o Palácio Lauro Sodré, que abriga o Museu do Estado do Pará, é uma relíquia do patrimônio arquitetônico. Concebido com características neoclássicas, a estrutura teve sua edificação concluída em 1772, assinada pelo arquiteto régio Antonio José Landi, para abrigar a residência oficial do governador/presidente da Província.

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Em meados do século XIX, a partir de ampla reforma, passou por mudanças internas significativas. Entre 1971 e 1973, uma restauração recuperou algumas das características modificadas em períodos anteriores, como a capela, de onde saiu o primeiro Círio de Nazaré, em 1793.

No Amazonas, existe ainda a Terra Indígena Lauro Sodré, habitada pela etnia Ticuna. De acordo com dados do Instituto Socioambiental, são cerca de 1150 habitantes na área, localizada na faixa de fronteira entre o Brasil (pelo Amazonas) e o Peru.

Por fim, Sodré também recebeu uma das maiores honrarias do país. No dia 12 de janeiro de 2024, foi publicada no Diário Oficial da União a Lei nº 14.805, que inscreveu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. A sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu oficialmente o legado do político, militar e líder republicano para a construção da República e da democracia no Brasil.

*Com informações da Agência Senado, Agência Pará e Planalto

Indígenas de Roraima mantêm tradição na produção artesanal de farinha e vendem até para a Guiana

Produção artesanal de farinha na comunidade Cumaru, Terra Indígena Manoá Pium, na região Serra da Lua, em Bonfim, em Roraima. Foto: Carlos Barroco/Rede Amazônica RR

Na Terra Indígena Manoá Pium, na região Serra da Lua, em Bonfim, ao Norte de Roraima, a produção artesanal de farinha movimenta a economia local e preserva a tradição da comunidade indígena Cumaru. Com cerca de 360 moradores, a maioria do povo Macuxi, a atividade faz parte da rotina de praticamente todas as famílias.

A farinha produzida em Cumaru é a farinha amarela, que tem uma textura mais grossa, crocante e granulada, diferente da farinha fina usada, por exemplo, no Sul e Sudeste do país. Geralmente, é consumida como acompanhamento de pratos à base de peixe e carnes. Também serve de base para preparos tradicionais, como a paçoca de carne seca.

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Além disso, a produção na comunidade não é apenas para consumo próprio das famílias. Parte da produção é vendida na sede de Bonfim e também exportada para a Guiana, país que faz fronteira com o Brasil na mesma região, segundo o primeiro tuxaua de Cumaru, Valdiney Souza.

Semanalmente, a comunidade comercializa, em média, 10 sacas de farinha para a Guiana. Cada saca tem o equivalente a quatro latas de 20 litros. Cada lata é vendida por R$ 200, o que representa um faturamento de R$ 800 por saca. No total, a venda gera aproximadamente R$ 8 mil por semana para a comunidade.

“Alguns vem de lá [Guiana] para cá fazer a compra. O pessoal vem de lá comprar e muitas vezes encomenda e o pessoal daqui leva para vender lá [na Guiana]. Nem todos tem roça, tem a mandioca para fazer farinha. Mas, assim mesmo fazemos, vendemos e ajudamos, damos colaboração para algumas famílias também internamente”, explicou.

A farinha produzida artesanalmente em Cumaru alcança também outros municípios de Roraima. O objetivo dos indígenas é criar uma marca e profissionalizar a venda, mas sem perder a essência e tradição.

“Temos este pensamento de ver essas marcas, de buscar parcerias com outras organizações, na parte da nossa agricultura familiar. É dessa forma que vivemos na nossa comunidade indígena aqui”, reforçou Valdiney.

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Trabalho coletivo no dia a dia

Em Cumaru, o trabalho na roça começa cedo, ainda nas primeiras horas do dia. É lá que o segundo tuxaua da comunidade, Valdemar Laurentino, segue diariamente, acompanhado de outros moradores, para colher a matéria-prima da farinha amarela: a mandioca.

“É o dia a dia das pessoas: trabalhar na roça, arrancando, cultivando a mandioca pra fazer a farinha”, resume a liderança.

No cultivo, a tradição é cortar o caule da mandioca, chamada de maniva pelos indígenas, para que possa ser aproveitada no plantio de roças na própria comunidade. O trabalho é manual e segue os ensinamentos acestrais passados de geração em geração.

O adolescente Rivanderson Aniceto, de 13 anos, filho mais velho do tuxaua Valdemar, acompanha o pai na colheita desde pequeno.

“Ele pede para cortar, limpar a mandioca, colocar dentro do saco, carregar. Minha família… todos ajudam. É uma tradição. Meu pai me explica que o pai dele também explicou a ele. É tradição”, disse o garoto.

Colheita de mandioca para fazer farinha na Terra Indígena Manoá Pium, em Roraima. Foto: Carlos Barroco/Rede Amazônica RR

Valdemar explica que além de ser fonte de renda, o trabalho de plantio e colheita da mandioca para fazer farinha é também uma forma de ensinar os mais jovens sobre a importância do trabalho indígena no campo e de se manter a tradição do povo Macuxi.

“Eu, como tuxaua, dou o exemplo para o meu filho. Sempre a gente vai para roça arrancar mandioca. Às vezes vai roçar, às vezes, capinar. Quando o manival tá limpo, temos o ensinamento dos nossos jovens. É nossa cultura. Vai passando de pai pra filho. Nós, como povos indígenas, vamos passando para o filho”, explicou.

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Barracão da farinha tradicional

Depois de colher as raízes de mandioca, os moradores levam até o barracão da comunidade, onde a farinha é produzida. O espaço tem uma estrutura tradicional: telhado de palha, panelões para a torra e equipamentos feitos de madeira, montados pelos próprios indígenas.

Nessa etapa, toda a comunidade se envolve. As mandiocas são descascadas, raspadas, prensadas e, depois, a massa seca vai para a torra, onde se transforma na farinha.

Plantio de mandioca para produção de farinha. Foto: Carlos Barroco/Rede Amazônica RR

Dona Luzia Trindade, de 80 anos, trabalha na raspagem. Ela aprendeu a técnica com o pais quando ainda era criança. “Desde os 7 anos trabalho com mandioca”, conta. Ela já não faz mais os trabalhos mais pesados, mas conhece todos os segredos de como deixar a mandioca no ponto certo.

“É muito trabalho a gente tirar essa mandioca”, explicou. Durante o processo para fazer a farinha, também é extraído o tucupi, um líquido amarelo usado tanto na culinária como na medicina tradicional.

“Tanto serve para remédio, como para alimento. Tem pessoas que usam no frango, temperam o frango para assar, na carne, também”, explica Isaac Aniceto, morador da comunidade.

O processo de produção da farinha ultrapassou gerações na comunidade. Desde a raspagem, a peneira, a prensa até a torra, tudo é feito de forma artesanal. Além de manter a tradição, a atividade é atualmente a principal fonte de renda das famílias da região.

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Apoio técnico do Sebrae

O trabalho dos indígenas da comunidade Cumaru recebe apoio técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por meio do projeto de agricultura familiar, que oferece consultoria e orientação de mercado para pequenos produtores, como os indígenas da região.

“O acompanhamento é para que eles tenham uma maior produtividade e que os produtos deles tenham uma qualidade melhor. Então, com um profissional acompanhando eles através dos projetos, faz com que tenham maior sucesso”, avalia o gestor do projeto da agricultura familiar do Sebrae, Helmes Dias.

O projeto de agricultura familiar do Sebrae oferece consultoria técnica para ajudar na profissionalização e formalização dos produtores rurais. Atualmente, atende cerca de 120 produtores em diferentes municípios de Roraima.

*Por Carlos Barroco e Rânia Barros, da Rede Amazônica RR

Projeto promove protagonismo de comunidades quilombolas do Amapá em debates climáticos

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Projeto chega até comunidades afetadas pela mudança climática. Foto: Divulgação/Utopia Negra

O projeto ‘Quilombo Vivo’, lançado em março deste ano pelo coletivo Utopia Negra, segue levando atividades que incentivam o protagonismo de moradores de comunidades quilombolas. Entre os debates estão discussões ambientais sobre impactos de mudança climática.

A ação busca incentivar o posicionamento ativo dessa população vulnerável e a incidência política no Plano de Adaptação Climática de Macapá. O projeto iniciou na escola a Escola Estadual Quilombola Raimundo Pereira da Silvana, na comunidade do Carmo do Maruanum, Zona Rural da capital amapaense.

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A ação forma oficinas que levantam a temática sobre o racismo ambiental, que destaca que populações tradicionais vivem em localidades que estão mais vulneráveis aos impactos da mudança climática.

“Não se trata apenas de ausência de políticas, mas da forma como se decide onde o lixo será despejado, onde faltará água ou luz, onde não chegará saneamento. E esses lugares têm cor, têm nome, têm história”, disse Alicia Miranda, estudante de história social e de gênero da Unifap.

Alicia é quem conduz o projeto e dá continuidade ao anterior: ‘Vida sobre águas’. Em conversas durante as oficinas implementadas, os moradores relataram as problemáticas enfrentadas no cotidiano, com infraestrutura precária e acesso limitado a serviços básicos.

“A gente tem a intenção de instigar a discussão sobre a adaptação climática. Por entender que as mudanças climáticas estão acirrando uma realidade que se afunila muito fácil para populações já minoritárias, como quilombolas, ribeirinhas. E infelizmente essas zonas são populadas por negros, então não tem como a gente negar os impactos de raça e classe na questão das mudanças climáticas”, disse.

Foto: Divulgação/Utopia Negra

A oficina funciona como uma denúncia para que os moradores contem sobre as suas lutas diárias e deve seguir para outras comunidades. A população também relata como são organizadas soluções para os problemas cotidianos enfrentados apenas com o conhecimento tradicional.

“As falas mostram que há uma riqueza de estratégias locais de cuidado ambiental e de convivência com o clima, que muitas vezes são ignoradas”, disse Alicia.

Tecnologia sustentável e saneamento básico

Paulo Cardoso, que é engenheiro florestal e gestor de projetos socioambientais e coordenador do ‘Quilombo Vivo”, disse que o projeto é uma iniciativa inédita na capital. Com os dados recolhidos pelos encontros através dos projetos, é possível consolidar recomendações técnicas aos órgãos competentes, conforme necessidade e de acordo com a vivência.

“Acreditamos que podemos ampliar o debate climático para outras áreas de Macapá, transformando esses espaços em centros de escuta para a criar um arcabouço técnico de recomendações para a elaboração do Plano de Adaptação Climática Municipal”, disse Cardoso.

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Na próxima etapa do projeto os debates e reuniões devem acontecer nos espaços públicos da capital, para que mais pessoas atingidas por essa problemática possam contribuir para a garantia de uma infraestrutura que gere qualidade de vida.

“Disseminar essa experiência para outras regiões é um passo essencial para a construção de políticas públicas mais inclusivas e conectadas com a realidade dos territórios, garantindo justiça climática e social”, finalizou Paulo.

*Por Isadora Pereira, da Rede Amazônica AP