O Brasil registrou, entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área sob alerta de desmatamento na Amazônia nos últimos dez anos, desde que foi iniciada a série histórica em 2016. A área sob alertas foi de 2.874,38 km², o que representa uma redução de 36% em relação ao período anterior, o menor valor registrado e um resultado 55,6% abaixo da média de 2015/2016 a 2024/2025. Já no Cerrado, a área sob alertas foi de 5.119,46 km², com redução de 7,8% em relação ao período anterior e o menor valor dos últimos cinco anos.
Os dados são do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) e foram apresentados na última sexta-feira, 7, na sede do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). São eles que produzem alertas diários para orientar ações de fiscalização e controle do desmatamento. Na ocasião, também foram divulgados os resultados do Prodes, que faz o mapeamento anual da supressão de vegetação nativa e produz dados utilizados no acompanhamento das políticas públicas de proteção dos biomas.
Vista aérea de trecho florestal da Amazônia. Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace
Queda do desmatamento em outros biomas
Cerrado. Foto: Paulo Bernardino
Os dados também apontaram a redução em áreas do desmatamento de outros biomas. Na Caatinga, a área desmatada foi de 2.289,54 km², uma redução de 34,3% em relação ao período anterior. Na Mata Atlântica, a área desmatada foi de 402,36 km², uma redução de 15,32%.
No Pampa, a área desmatada foi de 305,48 km², uma redução de 41,7%, e a maior queda proporcional entre os três biomas. Os dados e as apresentações técnicas do Deter e Prodes estão disponíveis na plataforma TerraBrasilis e nos canais oficiais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do INPE.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e atua em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico nas áreas espacial, atmosférica e ambiental. Desde 1988, o INPE produz estimativas anuais do desmatamento na Amazônia Legal. Atualmente, realiza também o monitoramento anual da supressão da vegetação nativa em todos os biomas brasileiros.
A inauguração da Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), marcou uma nova fase da arte visual roraimense. A exposição coletiva, que aconteceu no dia 7 de agosto, no Complexo de Artes da instituição, apresentou ao público um panorama da diversidade das artes visuais produzidas no estado. Entre artistas experientes e estreantes, mestres dos saberes tradicionais, estudantes universitários, artistas indígenas e não indígenas, a mostra trouxe diferentes formas de criar, narrar e compreender o território amazônico.
Realizada pelo Núcleo de Apoio à Vida de Boa Vista (Navibv), a exposição marcou também o encerramento da residência artística promovida pelo Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima. Ao todo, oito artistas integraram a mostra: Alcione Peres, Ehuana Yaira Yanomami, Francisco Alves, Isaías Miliano, Joana Fidélix, José Leonel Casado Cliffe (Anâkok Taûrepang), Luis Antonio Hernandez Garcia (Lu Is Art) e Sourrio Nascente.
Sete deles foram selecionados por edital para participar da residência artística, recebendo uma bolsa de criação de R$ 3 mil destinada ao desenvolvimento de pesquisas e produções inéditas. A artista visual Ehuana Yaira Yanomami participou como convidada e também integra a exposição.
Ancestralidade, território e identidade
Um dos aspectos que mais se destacou na exposição foi a presença de artistas indígenas de quatro povos distintos: Patamona, Macuxi, Taurepang e Yanomami. Suas obras dialogam com ancestralidade, preservação cultural, espiritualidade e a relação entre os povos originários e seus territórios.
Isaías Miliano. Foto: Paulo Trindade
Com mais de 35 anos dedicados às artes visuais, Isaías Miliano, do povo Patamona, levou para a mostra uma produção marcada pelo diálogo entre arte, memória, ancestralidade e defesa do território. Natural da Serra do Mutum e residente em Boa Vista, o artista mantém um ateliê no bairro Jóquei Clube, espaço que também recebeu atividades da residência artística e serviu como ambiente de criação e troca entre os participantes.
‘Artivista’ (escultor, artesão e artista plástico), Isaías utiliza a arte como instrumento de denúncia política e socioambiental, promovendo reflexões sobre os direitos dos povos indígenas, a preservação da natureza e o patrimônio rupestre de Roraima.
Na exposição, apresentou a instalação “Raízes Aéreas em Mutação”, obra que chama atenção para os impactos da contaminação dos rios, igarapés, lagos e bacias hidrográficas sobre a fauna e os modos de vida tradicionais. O trabalho integra também uma mostra em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, ampliando o alcance das discussões propostas pelo artista.
Representando uma nova geração de artistas indígenas, a wapichana Alcione Peres, de 24 anos, participou de sua primeira exposição. Estudante do curso de Artes Visuais da UFRR, ela destacou que a residência proporcionou muito mais do que aprendizado técnico.
“Eu particularmente aproveitei cada momento com os demais artistas, ouvindo suas experiências, trocando conversas, energia e boas risadas”, relatou a indígena.
Sua obra aborda a simbiose entre o ser humano e a terra. Para a artista, a exposição representou o início de novas oportunidades. “Espero que esse trabalho coletivo possa nos abrir portas além daqui”, afirma.
Joana Fidélix. Foto: Paulo Trindade
Também integrou a mostra a mestra indígena macuxi Joana Fidélix, referência na preservação dos saberes tradicionais relacionados à cerâmica. Recentemente, ela recebeu o Título de Notório Saber durante o Encontro de Mestras e Mestres do Notório Saber no Brasil, realizado em Maceió (AL), reconhecimento nacional por sua trajetória na valorização dos conhecimentos ancestrais.
Na residência artística, Joana compartilhou conhecimentos tradicionais com os demais participantes. Durante uma das imersões realizadas no Espaço Jamaxim, conduziu um momento simbólico de proteção, aplicando urucum em cada integrante do grupo antes do início das atividades. Na exposição, apresenta a obra Ko’ko.
Anâkok Taurepang. Foto: Paulo Trindade
Outro estreante na galeria foi José Leonel Casado Cliffe, de 22 anos, conhecido artisticamente como Anâkok, palavra da língua Taurepang que significa “pássaro misterioso”.
Embora tenha sido a sua primeira participação numa exposição nesse formato, ele explica que sua trajetória artística começou ainda na infância.
“Já venho construindo uma trajetória na arte independente, com participações em outras mostras e projetos visuais. Trago a bagagem que desenvolvi desde criança com o desenho, o carvão e, mais recentemente, com a pintura acrílica sobre tela”, contou.
Ehuana Yaira Yanomami. Foto: Paulo Trindade
Segundo o artista, suas obras dialogaram diretamente com a proposta da exposição. “Minhas obras focam na preservação cultural, na ancestralidade indígena e na conexão profunda com a terra. Através das cores e das formas, busco retratar a identidade e a espiritualidade que sustentam o meu povo no território”, explicou José.
Fechando o conjunto de artistas indígenas, Ehuana Yaira Yanomami foi convidada especial da residência artística. Professora, pesquisadora, artista visual e liderança do povo Yanomami, a artista é uma das principais referências da arte indígena contemporânea brasileira.
Natural da região do Demini, na Terra Indígena Yanomami, sua produção artística registra e compartilha aspectos da cosmologia, do cotidiano e do protagonismo das mulheres Yanomami. Suas obras já integraram importantes exposições nacionais e internacionais, incluindo mostras na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, em Paris. Atualmente, também exerce o cargo de primeira tesoureira da Hutukara Associação Yanomami (HAY).
Sourrio Nascente. Foto: Paulo Trindade
Diversidade de linguagens
A pluralidade da exposição também se manifesta nas diferentes linguagens artísticas apresentadas ao público.
Pessoa não binária, Sourrio Nascente já participou de outras exposições, mas esta foi a de maior dimensão de sua trajetória até o momento. Em sua produção artística, utiliza materiais naturais, materiais reutilizados e técnicas que dialogam com a natureza e a espiritualidade a partir das vivências do cotidiano como pessoa trans, nortista e peregrine.
Segundo a artista, a produção dialoga com sua própria experiência de vida. “Essas obras falam sobre corpos não binários, corpos trans e espiritualidade. Trago para a minha arte essa conversa entre identidade, existência e o meu entendimento sobre o mundo”, contou.
Luis Antonio Hernandez. Foto: Paulo Trindade
O artista venezuelano Luis Antonio Hernandez Garcia, conhecido como Lu Is Art, também integrou a exposição. Com uma trajetória construída desde a infância, ele já participou de diversas mostras coletivas na Venezuela e no Brasil.
Francisco Alves. Foto: Paulo Trindade
Para esta exposição, apresentou a série “Symploké: os três gêneros da realidade”, composta pelas obras M1 Física, M2 Psicológica e M3 Ideal/Abstrata. Segundo o artista, participar da residência foi uma oportunidade de compartilhar o processo criativo com outros artistas que atuam em Roraima. “A exposição foi composta por grandes trabalhadores das artes e por uma ampla variedade de técnicas artísticas diferentes”, afirma.
A programação da abertura contará ainda com performances do artista e professor Francisco Alves, reconhecido por sua atuação nas artes cênicas em Roraima. Entre elas está Oratório Negro, intervenção que amplia a experiência do público e propõe reflexões sobre memória, identidade e resistência.
Contemplado pelo Programa Rouanet Norte e patrocinado pelo Banco do Brasil, o Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima busca fortalecer as artes visuais e a economia criativa na Região Norte. A iniciativa promove formação artística, incentivo à produção cultural e valorização da diversidade, reunindo artistas de diferentes trajetórias em processos colaborativos de criação.
Como visitar a Galeria de Arte Dam Kuy A’ki
A exposição poderá ser visitada gratuitamente de 10 de agosto a 10 de setembro, em dias úteis, das 14h às 18h, na Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, localizada no Complexo de Artes da UFRR, na Avenida Ene Garcez, nº 2413, bairro Aeroporto, em Boa Vista, ao lado do Centro Amazônico de Fronteiras (CAF/UFRR).
Informações sobre o projeto Nortear – Formação e Promoção das Artes Visuais em Roraima e sobre as ações desenvolvidas pelo Navibv podem ser obtidas pelo telefone (95) 99172-1487, pelo e-mail navibv.boavista@outlook.com ou pelo Instagram.
Área de garimpo ilegal no interior do Amazonas. Foto: Divulgação
O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça que obrigue órgãos federais e estaduais a criar uma estrutura permanente para combater o garimpo ilegal no Amazonas. A ação civil pública inclui rios, terras indígenas e unidades de conservação, do Vale do Javari ao rio Abacaxis.
O MPF quer a criação de uma coordenação permanente, um calendário integrado de operações, bases fixas de fiscalização e um plano estadual de combate ao garimpo ilegal. Também pede reforço de equipes e equipamentos.
São alvos da ação a União, o Governo do Amazonas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Segundo o MPF, investigações realizadas em diferentes regiões do estado mostram que o garimpo ilegal continua avançando mesmo após operações de fiscalização. O órgão atribui o problema, entre outros fatores, à falta de coordenação e continuidade entre as instituições.
“O que se pede aqui não é mais uma operação. Operação já houve, e muita: centenas de dragas foram destruídas e, meses depois, tudo estava de volta ao mesmo lugar. O que falta é organização permanente. Cada órgão trabalha isolado, sem planejamento comum e sem continuidade, e é justamente essa desorganização que garante ao garimpo ilegal a certeza de que pode voltar. Enquanto isso, o mercúrio segue no peixe que as comunidades comem todos os dias, e as pessoas seguem ameaçadas dentro das próprias aldeias”, ressalta o procurador da República André Porreca, titular do 2º Ofício da Amazônia Ocidental (19º Ofício da PR/AM) do MPF.
O que o MPF pede?
Entre as principais medidas solicitadas estão:
criação de uma estrutura permanente para coordenar os órgãos;
calendário anual de operações integradas;
plano estadual de combate ao garimpo ilegal;
bases fixas de fiscalização no Vale do Javari e nos rios Madeira, Japurá, Puruê e Abacaxis;
protocolo para prisões em flagrante;
participação permanente da Polícia Militar do Amazonas e do Ipaam;
apoio das Forças Armadas;
reforço de equipes e equipamentos.
Em caráter de urgência, o MPF pede que a estrutura de coordenação seja criada em até 60 dias e que o calendário de operações seja apresentado em até 90 dias.
O órgão também quer que a Justiça acompanhe o cumprimento das medidas por meio de relatórios e audiências.
Garimpo em diferentes regiões
Na sub-bacia do rio Madeira, um sobrevoo realizado em julho de 2025 registrou mais de 400 dragas entre Calama (RO) e Novo Aripuanã (AM). Em agosto de 2024, 459 embarcações haviam sido destruídas. Meses depois, imagens de satélite identificaram cerca de 130 balsas novamente na região.
Nos rios Japurá e Puruê, na fronteira com a Colômbia, a Polícia Federal identificou dragas avaliadas em mais de R$ 10 milhões e a atuação de dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
No Vale do Javari e no Alto Solimões, relatórios da Funai e do Ibama apontaram a presença de dragas, escavadeiras e pistas de pouso clandestinas em áreas indígenas, inclusive onde vivem povos isolados e grupos de recente contato.
Em Humaitá e na região do rio Abacaxis, as investigações registraram degradação ambiental, assoreamento de rios, grupos armados e episódios de violência relacionados ao garimpo.
Mercúrio e violência
Segundo o MPF, a expansão do garimpo também provoca contaminação por mercúrio e aumento da violência. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) citado na ação apontou que 21,3% das amostras de peixes analisadas em seis estados da Amazônia tinham níveis de mercúrio acima do limite de segurança.
Entre mulheres e crianças Yanomami das aldeias Maturacá e Ariabu, 56% apresentaram contaminação acima dos parâmetros de referência.
As investigações também registraram ameaças contra agentes públicos, confrontos durante operações e intimidação de lideranças indígenas. O MPF afirma ainda que o garimpo ilegal tem ligação com organizações criminosas, narcotráfico e lavagem de dinheiro.
Falta de estrutura
O MPF também aponta falta de servidores e equipamentos para a fiscalização. O Ibama informou ter 26 agentes ambientais federais no Amazonas. O ICMBio informou que a Estação Ecológica Juami-Japurá tem três servidores com perfil operacional.
Destruição de Garimpo ilegal. Foto: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
A Polícia Militar disse não ter embarcações próprias para patrulhar os rios. Já o Ipaam declarou não ter realizado ações de fiscalização em 2024 e afirmou não possuir conhecimento técnico para inutilizar balsas usadas no garimpo.
Segundo o MPF, uma operação da Polícia Federal chegou a ser cancelada devido à paralisação do Ibama. Para o órgão, o caso demonstra a falta de integração entre as instituições.
Tentativas antes da ação
Antes de recorrer à Justiça, o MPF realizou audiências públicas em outubro de 2025 e, no mês seguinte, enviou uma recomendação a 15 instituições.
Entre as propostas estavam a criação de uma estrutura permanente de coordenação, um calendário integrado de operações e bases fixas de fiscalização.
Segundo o MPF, mais de sete meses depois, nenhuma das medidas havia sido implementada.
“Roraima mostrou que o problema tem solução. A diferença entre os dois estados não está no tamanho do garimpo, está na existência de coordenação. É exatamente isso que o Amazonas não tem”, enfatiza o procurador da República André Porreca.
O manual Poranga Marandúa foi lançado na Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação
O manual de jornalismo indígena Poranga Marandúa, lançado no dia 10 de agosto na Câmara dos Deputados, em Brasília, é uma ferramenta inédita e reúne termos, orientações e princípios a partir da perspectiva dos povos indígenas.
Segundo a coordenadora geral da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), Luciene Kaxinawá, o manual é o resultado de um trabalho desenvolvido pela articulação entre mais de 40 povos indígenas.
“Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, reforça.
A primeira edição do Poranga Marandúa foi editada e revisada pela Organização Indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está disponível online, de forma gratuita.
Para os integrantes da Abrinjor, a chegada do manual, após um ano e meio de trabalho, é uma “boa notícia” – que é o significado da expressão Poranga Marandúa, na língua Nheengatu, da família Tupi-Guarani.
A inovação trazida pelo manual deve servir como um instrumento de trabalho para jornalistas em todo o país, mas também como uma ferramenta de educação, afirma Sônia Kaingáng, jornalista indígena pioneira e comunicadora do Inka.
“A gente precisa destacar que chegamos aqui pela via da educação. Nós somos brasileiros e temos visto que muitos brasileiros querem uma via que não é a da educação”, destaca.
Jornalismo e inclusão
Para a pesquisadora e comunicóloga Andreza Baré, são exatamente os jornalistas que saem das universidades e escolas de jornalismo que muitas vezes invisibilizam os povos indígenas.
“Essa é uma grande oportunidade que a gente oferece para os currículos, para as ementas dos cursos de jornalismo, que inclua esse manual como uma ferramenta pedagógica de redação antirracista para falar de povos indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais.”
Samela Sateré Mawé é assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e acredita que a ferramenta também servirá para estimular a chegada de mais indígenas a ocuparem os espaços de comunicação das entidades representativas e dos canais de comunicação de todo o país.
“Esse manual é uma porta que vai se abrir para dentro do movimento indígena que vai se abrir para os jornalistas indígenas ocupando esses espaços, porque ninguém melhor que a gente para falar sobre a gente”, conclui Samela.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Fabíola Sinimbú
Plantação de soja pronta para colheita em Roraima. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro
A colheita da soja começou em Roraima, mas a falta de chuva durante o desenvolvimento das lavouras deve reduzir a produtividade da safra pela metade. A previsão inicial era superar 500 mil toneladas do grão, mas o estado pode deixar de colher aproximadamente 260 mil toneladas, conforme estimativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja).
No ano passado, Roraima colheu mais de 430 mil toneladas de soja. Neste ano, a falta de chuva, influenciada pelo El Niño, afetou o desenvolvimento das lavouras e reduziu a expectativa para a safra.
O impacto também é financeiro, já que a Aprosoja estima que as perdas na colheita devem chegar a R$ 500 milhões. Considerando os impactos nos demais setores ligados ao agronegócio, o prejuízo para a economia de Roraima pode ultrapassar R$ 2 bilhões.
A falta de água que comprometeu as lavouras era prevista pelos órgãos de monitoramento climático. A estiagem está associada à influência do El Niño, fenômeno que altera o regime climático em diferentes regiões do país. A Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) havia alertado para os efeitos do fenômeno no estado durante este período.
Plantação de soja em Roraima. Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR
Início da colheita
Na Fazenda Flórida do Norte, na zona rural de Boa Vista, as máquinas começaram a entrar nos talhões para colher há poucos dias. O produtor rural Lucas Cavalcante explica que a colheita ocorre de forma escalonada, conforme cada área atinge o ponto ideal. A soja cultivada na propriedade tem um ciclo de aproximadamente 90 dias, mas a falta de chuva também alterou o manejo de algumas áreas.
Apesar de as primeiras áreas apresentarem resultado satisfatório, Lucas afirma que a expectativa para o restante da colheita é de uma produtividade menor.
“A gente está tendo uma boa produtividade, poderia ser melhor, mas o estado sofreu muito com a seca este ano. Então as primeiras sojas a gente está tendo um bom resultado, mas a tendência daqui para frente é que infelizmente não seja um ano muito bom”, destacou.
Colheitadeira em plantação de soja em Roraima. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro
A água é fundamental para o desenvolvimento da soja, principalmente durante as fases de floração e enchimento dos grãos. Quando a planta passa por um período prolongado de estiagem, reduz a absorção e o transporte de água e nutrientes. Na prática, isso pode resultar na formação de menos grãos e no menor enchimento dos que já se desenvolveram, o que reduz o peso e, consequentemente, a produtividade final da lavoura.
Como a colheita ainda está em andamento na Fazenda Flórida do Norte, o produtor não consegue mensurar com precisão o tamanho da perda. A estimativa, no entanto, é de uma redução de aproximadamente 30% na produtividade, podendo ser ainda maior nas áreas mais afetadas pela falta de água.
Para o produtor, a atividade rural exige capacidade de adaptação diante das dificuldades e disposição para seguir produzindo mesmo quando as condições não são as esperadas.
“A gente sabia da possibilidade do El Niño, mas acho que ninguém previu que ia cortar tão cedo a chuva. Então assim é um ano bem difícil para o estado. É mais um desafio que a gente vai ter que enfrentar. O agricultor é resiliente, não desiste fácil. Então, os problemas que tiverem, a gente vai resolver e vai continuar trabalhando”, disse Lucas.
Em 2025, o estado tinha 132.421 hectares plantados. Para 2026, a estimativa era de aumento para 144.893 hectares, conforme previsão do governo, por meio da Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi).
Vassoura-de-bruxa reduz cultivo, mas cupuaçu ainda garante sustento de famílias em Presidente Figueiredo. Foto: Reprodução/Rede Amazônica
Presidente Figueiredo, no Amazonas, já foi referência na produção de cupuaçu. Hoje, a área cultivada caiu para pouco mais de 55 hectares por causa da doença conhecida como vassoura-de-bruxa. Durante a safra, agricultores despolpam o fruto e congelam a polpa para garantir renda ao longo do ano. Balas somem rápido das prateleiras. O mesmo acontece com o licor e o tradicional salame da fruta.
Para atender à demanda, as doceiras Carmem Ribeiro e Maria Aparecida intensificam a produção e aproveitam cada quilo de polpa armazenado. A atividade garante renda durante o ano inteiro, mas cresce ainda mais no período da Festa do Cupuaçu, quando a fabricação praticamente triplica.
Vassoura-de-bruxa reduziu áreas de cultivo do cupuaçu em Presidente Figueiredo. Foto: Reprodução/Embrapa
Maria Aparecida conta que já produziu bastante e corre para concluir encomendas antes da festa. Carmem Ribeiro confirma o aumento da procura.
“Muito trabalho, mas a gente produz e vende bastante. Todas as pessoas querem as balas nesse período”, reforça.
Por trás das iguarias está uma história de resistência. O cupuaçu, fruto tradicional da Amazônia, já teve grandes plantações em municípios como Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Manacapuru e Autazes. Mas a vassoura-de-bruxa, doença causada por fungo, destruiu boa parte dos pomares.
O agricultor Withan Silva Laborda lembra que o cupuaçu já foi o carro-chefe da produção. Com a doença, houve queda e muitos deixaram de replantar, passando apenas a comercializar o que restava nas propriedades.
Hoje, agricultores apostam em espécies mais resistentes. Na propriedade de Alex Xavier, os cupuaçuzeiros já passam de três metros de altura. A expectativa é colher cerca de 650 quilos de polpa nesta safra.
Segundo a Secretaria Municipal de Agricultura, Presidente Figueiredo tem hoje 98 agricultores cultivando a fruta em 55 hectares. Nas safras de 2025 e 2026, foram colhidas cerca de 165 toneladas, o equivalente a 63 toneladas de polpa. Os números mostram que a produção segue importante para o município, mas ainda está longe do potencial registrado décadas atrás.
O secretário de Produção Rural, Jean Barros, explica que já existem variedades resistentes e que há parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para fornecimento de material genético e mudas. Neste ano, a Secretaria de Produção Rural comprou mil quilos de polpa de cupuaçu e distribuiu para seis doceiras cadastradas. A medida garante matéria-prima e ajuda a preservar um dos sabores mais tradicionais da Amazônia.
A comunidade Huni Kuī do Centro Huwá Karu Yuxibu, em Rio Branco, no Acre, que teve 100 de seus 200 hectares queimados em 2019 é um dos exemplos da publicação. Foto: Denisa Sterbova/Cimi
Artigo científico publicado na revista internacional Nature Sustainability, no mês de julho de 2026, aponta as crescentes ameaças em terras indígenas na Amazônia, com destaque à Terra Indígena Vale do Javari, localizada no estado do Amazonas. A pressão se dá, principalmente, pelas frequentes atividades ilegais registradas na região, como desmatamento, mineração, exploração madeireira, caça, pesca ilegal e narcotráfico.
Um dos coautores da publicação é o professor Dr. Wilderclay Barreto Machado, docente do curso de Ciências Atmosféricas do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). O docente contribuiu com análises no âmbito do sensoriamento remoto aplicado aos estudos ambientais, que constitui um dos pilares metodológicos do trabalho, especialmente no uso de dados para o monitoramento do desmatamento e da degradação ambiental em terras indígenas amazônicas.
O sensoriamento remoto é a técnica de coletar dados e imagens da superfície da Terra usando sensores distantes, como satélites, aviões ou drones. Nos estudos ambientais, ele serve para monitorar florestas, águas, o clima e mudanças no uso do solo de forma rápida e em grandes áreas.
De acordo com professor Wilderclay Machado, o estudo possibilitou a observação das pressões impostas à TI Vale do Javari:
“A análise demonstra que, embora o desmatamento no interior da Terra Indígena permaneça relativamente baixo, houve um aumento expressivo do desmatamento em seu entorno entre 2017 e 2022, indicando a intensificação das pressões de fronteira”.
O pesquisador acrescentou que o estudo reforça a necessidade de fortalecimento da fiscalização ambiental, da proteção das zonas de amortecimento, do combate à grilagem e da implementação de políticas públicas voltadas à conservação da Amazônia, à proteção dos povos indígenas e à manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais.
E ainda destacou o papel da Universidade Federal do Oeste do Pará nas discussões: “A publicação representa um importante reconhecimento internacional da produção científica desenvolvida na Ufopa e reforça o protagonismo da universidade nas pesquisas sobre Amazônia, mudanças climáticas, conservação ambiental e povos indígenas”.
Localização geográfica da TI Vale do Javari inserida na publicação. Imagem: Reprodução
A pesquisa foi liderada pelo professor Dr. Gabriel de Oliveira, da University of South Alabama (Estados Unidos), pesquisador do Dauphin Island Sea Lab e embaixador da American Geophysical Union (AGU). Reúne pesquisadores de diversas instituições, entre elas:
NASA Goddard Space Flight Center,
Purdue University,
University of California Santa Barbara,
University of Kansas,
Michigan State University,
University of Helsinki,
University of Manchester,
Rice University,
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE),
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM),
além da participação de importantes lideranças indígenas do Vale do Javari.
Publicação no periódico internacional reforça importância das pesquisas
A revista Nature Sustainability é um dos periódicos científicos mais prestigiados do mundo que faz a publicação de pesquisas originais sobre sustentabilidade, suas dimensões políticas e soluções práticas, abrangendo as áreas de ciências naturais, sociais e engenharia.
Avião é desenvolvido com apoio do Programa Centelha. Foto: Divulgação/Programa Centelha
Uma viagem que hoje pode levar dias pelos rios da Amazônia talvez passe a durar apenas algumas horas nos próximos anos. Essa é a proposta da AeroRiver, startup criada por engenheiros do Norte do país e apoiada pela segunda edição do Programa Centelha, que desenvolve uma tecnologia voltada para solucionar os problemas na logística do transporte, que hoje é um dos maiores gargalos para o desenvolvimento da região.
Fundada em 2020 por engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a empresa desenvolve veículos de efeito solo, tecnologia que combina características de embarcações e aeronaves e permite operar poucos metros acima da água.
A solução foi pensada para regiões onde as estradas são escassas, aeroportos são limitados e o transporte fluvial tradicional ainda representa a principal alternativa de deslocamento.
“A região possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo, mas enfrenta limitações significativas em mobilidade. Existe um compromisso claro da empresa em desenvolver soluções adaptadas à realidade local, que sejam eficientes do ponto de vista técnico e também gerem impacto social relevante”, afirma Lucas Guimarães, diretor executivo da AeroRiver.
A ideia surgiu a partir da própria experiência dos fundadores com os desafios logísticos da Amazônia. Segundo a empresa, além das longas distâncias, muitos deslocamentos ficam ainda mais difíceis durante períodos de seca dos rios, quando comunidades inteiras enfrentam limitações de acesso.
Hoje, a startup trabalha no desenvolvimento de veículos capazes de transportar passageiros e cargas em alta velocidade utilizando a estrutura fluvial da região, sem necessidade de infraestrutura aeroportuária complexa.
Startup foca em solução logística
Antes da participação em programas de apoio, a AeroRiver operava com foco quase exclusivo em pesquisa e validações preliminares. Lucas afirma que um dos principais desafios no início foi transformar o projeto em uma empresa estruturada. Foi nesse momento que ingressou no Programa Centelha, iniciativa voltada ao incentivo de negócios inovadores no Brasil que está atualmente em sua terceira edição.
“O Centelha teve um papel importante na transformação da ideia em um projeto estruturado e financiável. O apoio permitiu viabilizar as primeiras etapas formais de desenvolvimento, incluindo formalização da empresa, desenvolvimento do plano de negócios e amadurecimento da proposta de valor”, explica o diretor.
A partir do programa, a startup avançou na construção de protótipos experimentais e passou a organizar processos de gestão e desenvolvimento do negócio.
Além da redução no tempo de deslocamento, a AeroRiver projeta impactos econômicos na região ao diminuir custos logísticos e ampliar a conexão entre comunidades remotas e centros urbanos. A empresa também aposta na possibilidade de operação em áreas sem infraestrutura rodoviária ou aeroportuária como um diferencial para a realidade amazônica.
Atualmente, a startup se prepara para novas etapas de validação tecnológica, incluindo testes operacionais em ambiente e protótipos tripulados em escala real. Paralelamente, a empresa trabalha na definição de rotas prioritárias e em parcerias para futura expansão das operações.
“A meta é consolidar uma operação regular em rotas estratégicas da Amazônia e transformar a tecnologia em uma alternativa viável para regiões onde o transporte ainda representa um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico e social”, conclui o diretor.
Startup investe no projeto do modelo de veículo que combina embarcação e aeronave. Foto: Divulgação/Programa Centelha
Sobre o Centelha
O Programa Centelha incentiva a transformação de ideias inovadoras em negócios por meio da oferta de recursos financeiros em formato de subvenção econômica, bolsas de apoio técnico, capacitações e suporte. Em sua terceira edição, o programa chega a todos os 26 estados e ao Distrito Federal.
O tambaqui está ameaçado de extinção? A resposta é sim. A espécie está classificada como “Vulnerável (VU)” na avaliação de risco de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) o que, segundo o órgão, significa que o peixe enfrenta risco alto de extinção na natureza.
A classificação consta no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), na ficha da espécie Colossoma macropomum, nome científico do peixe amazônico.
O ICMBio classifica o risco de extinção das espécies em oito categorias:
Extinta (EX): Não há dúvida de que o último indivíduo morreu;
Extinta na Natureza (EW): Sobrevive apenas em cativeiro ou cultivo;
Criticamente em Perigo (CR): Enfrenta risco extremamente alto de extinção na natureza;
Em Perigo (EN): Enfrenta risco muito alto de extinção na natureza;
Vulnerável (VU): Enfrenta risco alto de extinção na natureza;
Quase Ameaçada (NT): Próxima de atingir os critérios de ameaça no futuro;
Menos Preocupante (LC): População abundante e segura no momento;
Dados Insuficientes (DD): Sem informação suficiente para avaliar o risco
Além da avaliação do ICMBio, o tambaqui também aparece na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção – Peixes e Invertebrados Aquáticos. A lista foi reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) por meio da Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026.
Assim, o tambaqui é classificado como espécie vulnerável pelo ICMBio desde 4 de setembro de 2023, enquanto a inclusão na lista oficial reconhecida pelo MMA ocorreu em 2026.
Por que o tambaqui foi classificado como vulnerável?
O ICMBio aponta que o tambaqui ocorre naturalmente nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco, com ocorrência em Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela e Brasil. Em território brasileiro, é natural nas várzeas do rio Amazonas, incluindo os estados do Acre, Rondônia e Amazonas.
A ficha do ICMBio aponta que o tambaqui apresenta tendência populacional de declínio. O documento apresenta análises populacionais feitas com dados do Ibama e projeções para a espécie.
Uma das análises apresentadas na ficha projeta uma redução populacional global de 43,4% em três tempos geracionais. O documento informa ainda que o tempo geracional do tambaqui foi estimado em 22 anos.
Entre as ameaças registradas na ficha está o uso de recursos biológicos, especificamente a pesca e o uso de recursos aquáticos.
O documento informa que Colossoma macropomum é uma espécie amplamente utilizada na piscicultura e na pesca comercial e de subsistência. O tambaqui já esteve entre as dez espécies de peixes mais exploradas na região Amazônica.
A ficha do ICMBio afirma que quase a totalidade do abastecimento de tambaquis nas feiras, mercados e frigoríficos de Manaus é composta por exemplares oriundos de piscicultura.
Tambaqui já tinha classificação de risco
A ficha do órgão registra que, na avaliação nacional realizada em 2014, o tambaqui era classificado como Quase Ameaçado (NT).
O histórico do processo de avaliação informa que, na avaliação anterior, fatores como a presença da espécie em áreas protegidas e a oferta abundante de exemplares provenientes de piscicultura foram considerados para atenuar o risco de extinção da espécie no curto período.
Foto: Reprodução/FAS
Na nova avaliação, porém, o documento afirma que, apesar de esses fatores terem sido considerados nas análises, não houve entendimento de que eles pudessem atenuar o risco de extinção, de acordo com as informações consideradas no estudo.
‘É mais um alerta para a espécie’, diz professor e biólogo
Para o professor e biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira, ainda não é possível indicar locais específicos onde haveria uma redução no número de tambaquis na natureza. Segundo ele, não existem dados estatísticos suficientes sobre a pesca ou sobre o volume de desembarque de tambaquis provenientes dos rios.
O especialista explica que a avaliação considerou principalmente áreas que não são protegidas por lei, ou seja, que não fazem parte de Unidades de Conservação (UCs) federais e estaduais ou de reservas protegidas. Segundo ele, essas áreas correspondem a cerca de 40% do território amazônico.
Por isso, Edinbergh considera a classificação como mais um alerta para a espécie. Ele afirma que ainda não há dados suficientes para determinar uma proibição ou uma liberação completa da pesca do tambaqui.
Produção de tambaqui. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro/Rede Amazônica
“Não temos estudos populacionais para a bacia como um todo e, com as secas cada vez mais severas nos rios e o aquecimento global, temos que planejar com pesquisas mais apuradas e por área a pesca na bacia”, afirmou.
Segundo o professor, existe ainda um prazo de 180 dias para que sejam ajustados os planos de manejo relacionados à exploração da pesca nessas áreas fora do período de defeso.
Ele também reforçou que a portaria ainda deverá passar por ajustes. “A portaria terá um tempo para ser ajustada”, afirmou.
O que o ICMBio recomenda?
Entre as ações de conservação registradas na ficha está a recomendação de uma suspensão temporária de cinco anos na pesca comercial do tambaqui na Amazônia brasileira, seguida de medidas complementares de manejo.
O documento também menciona a manutenção de medidas relacionadas a tamanho mínimo e período de defeso.
Indígenas protestam em Brasília contra o Marco Temporal definido no Congresso Nacional. Foto: Antônio Cruz/ Agência Cruz
O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou nesta sexta-feira (7) a análise dos recursos apresentados contra a decisão que considerou inconstitucional o marco temporal para a demarcação de terras indígenas. O julgamento ocorre no plenário virtual da Corte e tem previsão de encerramento em 18 de agosto.
A discussão havia sido interrompida em junho, após um pedido de vista do ministro Edson Fachin. Com a devolução do processo, Fachin apresentou divergências em sete pontos do voto do relator, ministro Gilmar Mendes, ampliando o debate sobre indenizações, novos processos demarcatórios e critérios para definição dos territórios indígenas.
Entenda o marco temporal
Em dezembro de 2025, o STF derrubou a tese de que os povos indígenas somente poderiam reivindicar terras que estivessem sob sua ocupação em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição Federal foi promulgada, ou que fossem alvo de disputas naquela ocasião.
Além de afastar esse entendimento, a Corte definiu parâmetros para os processos de demarcação, o pagamento de indenizações a ocupantes não indígenas e o direito de permanência nas áreas até determinadas condições serem cumpridas.
Após a decisão, a Advocacia-Geral da União (AGU), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), partidos políticos e outras organizações apresentaram recursos. Entre os pontos contestados estão as regras para indenização pela terra nua, os prazos fixados pelo Supremo, a possibilidade de redimensionamento de territórios e a tramitação dos procedimentos de demarcação.
O julgamento desses recursos teve início em junho, mas foi suspenso depois que Fachin solicitou vista do processo.
Votos dos ministros
Relator do caso, Gilmar Mendes votou pela rejeição da maior parte dos recursos. De forma geral, o ministro manteve as regras estabelecidas pelo STF no julgamento realizado em dezembro e acolheu parcialmente os embargos apresentados pela AGU em relação ao prazo de 180 dias para que o Poder Público cumpra as determinações da Corte.
O ministro Edson Fachin foi o terceiro e último a votar até sexta-feira (7) – Foto: Antônio Augusto/ STF
O ministro Cristiano Zanin apresentou divergência parcial sobre as indenizações. Para ele, o pagamento referente à terra nua deve ocorrer apenas em situações excepcionais e obedecer aos parâmetros estabelecidos no Tema 1.031 da repercussão geral, incluindo a existência de justo título e a comprovação de boa-fé do ocupante.
Fachin, por sua vez, apresentou uma divergência mais abrangente ao devolver o processo para julgamento. Embora acompanhe Gilmar Mendes em questões processuais, o ministro propõe alterações em sete pontos. Na avaliação dele, existem incompatibilidades entre o acórdão de dezembro e os parâmetros anteriormente definidos pelo próprio Supremo no Tema 1.031.
Novas reivindicações territoriais
Entre os principais questionamentos apresentados por Fachin está o prazo de um ano estabelecido para novas reivindicações de territórios indígenas. Após esse período, os pedidos seriam encaminhados por meio de desapropriação por interesse social, em vez de seguirem pelo procedimento tradicional de demarcação.
Para Fachin, essa limitação entra em conflito com a natureza originária e imprescritível dos direitos territoriais dos povos indígenas. Na avaliação do ministro, a regra poderia representar uma nova restrição temporal ao reconhecimento desses direitos.
“Não é coerente declarar inconstitucional o marco temporal de 1988 e, simultaneamente, instituir um novo marco temporal, agora ancorado no trânsito em julgado desta ação, com idêntico efeito extintivo.”
O ministro defende, portanto, a retirada do prazo de um ano e a garantia de acesso ao processo demarcatório enquanto permanecer caracterizada a ocupação tradicional, independentemente da data em que o pedido tenha sido protocolado.
Fachin também propôs que o prazo de 180 dias concedido ao Poder Público para cumprir as determinações do STF comece a ser contado somente após o trânsito em julgado da decisão.
Critérios para demarcações
Outro ponto questionado pelo ministro é a utilização da proporcionalidade entre população e extensão territorial como parâmetro para eventual redimensionamento de terras indígenas.
Segundo Fachin, a dimensão de um território tradicional não pode ser calculada apenas com base na quantidade de pessoas que integram determinada comunidade. Para ele, a ocupação indígena também considera espaços necessários à proteção ambiental, à qualidade de vida e à continuidade física e cultural dos povos.
Congresso Nacional teve diversas discussões sobre Marco Temporal. Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
“A demarcação reflete, ou deve refletir, o modo de viver tradicional, o qual não é matemático.”
O ministro também votou pela retirada da chamada “prioridade negativa”, mecanismo que coloca no fim da fila os processos de comunidades envolvidas em invasões ou retomadas de territórios. Fachin ainda se posicionou contra a adoção da ordem cronológica de protocolo como critério absoluto para a avaliação dos processos do Marco Temporal
Na visão do ministro, a Administração Pública deve considerar também circunstâncias como vulnerabilidade, risco e urgência na definição da prioridade dos procedimentos.
Sobre a possibilidade de transferência para um território alternativo na legislação do Marco Temporal, Fachin entende que essa medida somente deve ser adotada quando houver impossibilidade absoluta de demarcar a área tradicional. Essa condição, segundo ele, deverá ser verificada pela Funai, com participação das comunidades afetadas.
Regras de indenização sobre o marco temporal
Na questão das indenizações, Fachin se aproximou do entendimento apresentado anteriormente por Cristiano Zanin.
O ministro defendeu que o pagamento pela terra nua continue condicionado aos requisitos previstos no Tema 1.031. Ele também esclareceu que o chamado valor incontroverso corresponde à quantia calculada administrativamente pela União.
De acordo com o voto, o ocupante não indígena mantém o direito de retenção da área somente até o pagamento desse valor. Depois que o montante for depositado, eventuais divergências sobre a quantia deverão ser discutidas em processos separados, sem interromper o andamento da demarcação.
Fachin também propôs que a portaria declaratória da terra indígena seja adotada como marco final para o reconhecimento da boa-fé do ocupante.
O julgamento sobre o Marco Temportal envolve a ADC 87 e as ADIs 7.582, 7.583 e 7.586