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Com ajuda da IA, estudo da Unemat revela devastação histórica na Amazônia-Cerrado

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Foto: Reprodução/Arquivo Rainfor

Uma parceria científica internacional entre a Universidade de Manchester, no Reino Unido, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a organização internacional sem fins lucrativos focada em ciência climática de alta tecnologia CTrees, dos Estados Unidos (EUA), resultou no mapeamento inédito de toda a extensão e dinâmica de distúrbios na vegetação da Zona de Transição Cerrado–Amazônia (CAT, na sigla em inglês).

O estudo, publicado na revista científica Biological Conservation, cobriu um período de 35 anos (1986–2020) e expôs dados alarmantes sobre o avanço do desmatamento e do fogo em um dos maiores ecótonos floresta–savana do planeta.

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Para alcançar esse nível de detalhamento em um território de mais de 1,1 milhão de km², a pesquisa utilizou um arcabouço tecnológico de última geração: combinou séries temporais de satélite Landsat ao algoritmo LandTrendr e a uma Rede Neural Residual unidimensional (1D ResNet), arquitetura avançada de aprendizagem profunda (deep learning).

Estudo analisou um período de 35 anos sobre a dinâmica de distúrbios na vegetação na zona Amazônia-Cerrado. Foto: Extraído do artigo
Estudo analisou um período de 35 anos sobre a dinâmica de distúrbios na vegetação na zona Amazônia-Cerrado. Foto: Extraído do artigo

O grande diferencial do modelo na região Amazônia-Cerrado foi a capacidade de diferenciar as marcas sutis deixadas pelo corte raso daquelas provocadas por incêndios na vegetação. Esse refinamento metodológico só foi possível graças à validação empírica realizada em solo mato-grossense.

Os dados de campo do Laboratório de Ecologia Vegetal da Unemat, que monitora uma rede de parcelas permanentes na região de transição desde 1994, funcionaram como a base de calibração que garantiu a acurácia global do sistema (taxa de acerto geral do modelo matemático), que variou entre 79% e 83%.

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A dimensão do impacto na Amazônia-Cerrado

Foto: Divulgação/Unemat

Os resultados revelam que, em uma estimativa conservadora, pelo menos 493.050 km² da zona de transição sofreram algum tipo de distúrbio nas últimas três décadas, (área superior ao território da Espanha).

O corte raso na Floresta Amazônica foi o principal vetor de degradação, respondendo por 35% do total da área afetada, impulsionado pela expansão da pecuária e de lavouras. O desmatamento no Cerrado somou outros 20%, concentrando-se em municípios de intensa atividade agrícola em Mato Grosso, como Nova Ubiratã, Nova Maringá, Feliz Natal e Marcelândia.

Além da extensão do dano, os pesquisadores constataram uma severa perda de resiliência dos ecossistemas. Mesmo dez anos após a ocorrência de incêndios, nem a floresta amazônica, com recuperação de 80% dos níveis espectrais pré-distúrbio (de acordo com os registros por satélite da floresta antes dos incêndios) nem o Cerrado, com apenas 60%, retornaram às suas condições originais.

Os professores da Unemat, doutora Beatriz Schwantes Marimon e doutor Ben Hur Marimon Junior, que integram as redes de pesquisa de Inventário Florestal Amazônico (Rainfor) e de Monitorização Global de Ecossistemas (GEM), destacam o peso do monitoramento contínuo para dar escala global aos fenômenos locais.

“Passamos décadas monitorando essa zona de transição Amazônia-Cerrado em expedições de campo. Nossas redes de parcelas documentam alterações na mortalidade de árvores, perda de biomassa e degradação de florestas. O que este novo estudo faz, e é isso que o torna tão poderoso, é conferir a essa realidade de campo uma dimensão regional. Ele confirma aquilo sobre o qual temos alertado: esta zona de transição é um dos ecossistemas mais vulneráveis do planeta, e sua proteção continua sendo completamente insuficiente”, afirmam os docentes.

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Lacuna de proteção e caminhos institucionais

A fragilidade da região é acentuada por um gargalo na governança ambiental. Enquanto o bioma Amazônia conta com cerca de 28% de seu território sob regime de áreas protegidas, a Zona de Transição Cerrado–Amazônia possui apenas 2% de sua extensão resguardada por unidades de conservação.

Monitoramento de Desmatamento e Fogo na Amazônia em julho de 2024. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

A partir do diagnóstico detalhado pelos mapas gerados, os autores do estudo elencaram três prioridades urgentes para a formulação de políticas públicas de conservação e mitigação:

  • Proteção territorial: Criação e ampliação de unidades de conservação, terras indígenas e corredores ecológicos nas faixas de fronteira mais pressionadas.
  • Governança do fogo: Regulamentação rigorosa e fiscalização contra queimadas antrópicas em áreas de baixa recuperação, com a integração do conhecimento de povos indígenas e comunidades tradicionais no manejo do fogo.
  • Restauração ativa: Implementação de programas de reflorestamento induzido em regiões onde a regeneração natural faliu, alinhando as ações às metas do mecanismo internacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) e ao acordo histórico internacional Marco Global de Biodiversidade.

A metodologia desenvolvida no estudo, além de subsidiar o planejamento em território nacional, possui caráter transferível, podendo ser aplicada no monitoramento de outras fronteiras tropicais críticas do planeta, como o Gran Chaco sul-americano e as florestas de Miombo, na África.

*Com informações da UNEMAT

Acelera Amazônia reforça desenvolvimento econômico e empreendedorismo como motores da transformação regional

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Foto: Divulgação

A primeira campanha publicitária do projeto “Acelera Amazônia” foi lançada em novembro de 2025 nos veículos do Grupo Rede Amazônica, reforçando o desenvolvimento regional a partir da valorização do comércio, dos serviços, do turismo e do empreendedorismo sustentável na Amazônia. A iniciativa integra uma parceria entre a Fundação Rede Amazônica (FRAM) e a Fecomércio Amazonas, marcando o início de uma série de ações estratégicas de comunicação voltadas ao fortalecimento da economia amazônica e à ampliação do debate sobre oportunidades e transformação social na região.

A campanha foi veiculada em diferentes plataformas do Grupo Rede Amazônica, com exibição de VT na programação da Rede Amazônica, SPOT nas emissoras de rádio do grupo e conteúdos digitais nas redes sociais, ampliando o alcance da mensagem junto ao público amazonense e fortalecendo a conexão entre informação, desenvolvimento e impacto social.

Com foco no impacto econômico e social promovido pelo setor produtivo regional, o roteiro evidencia como o comércio, os serviços e o turismo impulsionam oportunidades, transformam trabalho em geração de renda e fortalecem o desenvolvimento econômico local. As peças apresentam imagens de comunidades ribeirinhas, pequenos empreendedores, ações de capacitação, centros urbanos e trabalhadores amazônidas, reforçando a relação entre desenvolvimento sustentável, inclusão produtiva e valorização da população da região.

A narrativa também destaca indicadores ligados à força econômica do setor, evidenciando sua contribuição para a geração de empregos, o crescimento regional e o fortalecimento do empreendedorismo como vetor estratégico do desenvolvimento amazônico. A proposta da campanha é ampliar a percepção sobre o papel do setor produtivo na construção de uma Amazônia mais competitiva, inovadora e economicamente sustentável.

Segundo Anderson Mendes, a campanha inaugura uma nova etapa de comunicação estratégica voltada à valorização das potencialidades econômicas da região.

“O Acelera Amazônia nasce para mostrar a potência econômica da nossa região e das pessoas que fazem esse desenvolvimento acontecer todos os dias. Essa é a primeira de três campanhas previstas ao longo de um ano, levando informação, inspiração e valorização do empreendedorismo amazônida para diferentes plataformas e públicos”, destacou Anderson Mendes.

Ao longo de um ano, o projeto contará com três campanhas publicitárias integradas, ampliando o debate sobre inovação, geração de renda, oportunidades e desenvolvimento sustentável na Amazônia, com foco no fortalecimento da economia regional e na valorização dos empreendedores amazônidas.

O Projeto Acelera Amazônia tem o apoio da Fecomércio Amazonas e é uma realização da Fundação Rede Amazônica.

ICMBio realiza consulta pública e avança para criação de Reserva Extrativista no Maranhão

A área proposta pelo ICMBio para a Resex abrange parte dos municípios de São Luís e Bacabeira. Foto: Ana Mendes

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) realizou, no dia 17 de abril, em São Luís (MA), uma consulta pública para debater a viabilidade da proposta de criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim. O encontro ocorreu na sede do Instituto Federal do Maranhão (IFMA) e integra a etapa consultiva do processo de criação da Unidade de Conservação (UC) federal. 

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Em um teatro lotado, técnicos do ICMBio e pesquisadores apresentaram os estudos ambientais, sociais e econômicos que embasam a proposta. Na sequência, foi aberto espaço para manifestações de moradores, representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil e demais interessados, que puderam fazer sugestões ou questionamentos para elucidar dúvidas. 

A consulta pública é um dos instrumentos previstos dentro do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) que asseguram a participação social e a transparência no processo de criação de UCs.

“Esse é um momento de celebração da democracia de um país megadiverso tanto em termos de biodiversidade como de sua sociodiversidade”, destacou a diretora de Criação e Manejo de Unidades de Conservação (DIMAN) do ICMBio, Iara Vasco, abrindo os trabalhos da consulta pública. 

A área proposta para a Resex Tauá-Mirim abrange 16.217 hectares, localizados nos municípios de São Luís e Bacabeira. O território inclui parte da Ilha de Upaon-Açu, a totalidade da Ilha de Tauá-Mirim e um trecho da Baía de São Marcos. A área delimitada se sobrepõe majoritariamente à zona rural definida no Plano Diretor de São Luís, sem incidência sobre áreas portuárias ou zonas urbanas consolidadas. 

A região é formada por ecossistemas costeiros e estuarinos, com presença de manguezais, apicuns, brejos e áreas de vegetação secundária. A criação da unidade busca proteger esses ambientes e garantir a continuidade das atividades tradicionais, como pesca artesanal, extrativismo e agricultura familiar, que sustentam comunidades locais. 

Leia também: Atividades extrativistas promovem desenvolvimento sustentável em Resex de Rondônia

Durante a consulta, alguns participantes manifestaram oposição à proposta, argumentando que a criação da Resex poderia limitar o acesso a políticas públicas e ao desenvolvimento estrutural da região. Em resposta, o ICMBio esclareceu que a criação de reservas extrativistas não impede a implantação ou ampliação de infraestrutura básica (como ruas, pontes ou iluminação), nem a chegada de serviços e políticas públicas nas áreas abrangidas, como saúde, educação, transporte, entre outras melhorias urbanas. 

“O ICMBio [por exemplo] não constrói pontes. Mas não há objeção alguma para construção de uma ponte numa Resex. Desde que este seja o desejo da comunidade e, aí sim, o coletivo da reserva tem mais força do que uma pessoa só para exigir este tipo de infraestrutura junto ao governo ou quem quer que seja”, exemplificou Daniel Castro, coordenador de Criação de Unidades de Conservação (COCUC/CGCAP/DIMAN) do ICMBio. 

Histórico 

A primeira solicitação para a criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim foi encaminhada em agosto de 2003 ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT), quando ainda vinculado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). À época denominada Resex do Taim, a proposta foi apresentada pela União dos Moradores do Taim, por meio de um abaixo-assinado com 137 assinaturas de trabalhadores rurais, pescadores e catadores de caranguejo da comunidade. 

“O que a gente busca construir aqui nesta consulta é uma proposta de política pública que concilie os interesses de agentes públicos, comunidades e setor produtivo, para que a gente de fato promova um desenvolvimento sustentável com justiça social e ambiental. Construir aquilo que é comum. O bem viver, o bem-estar de toda a população”, conclui Iara. 

O pedido tinha como objetivo garantir a conservação dos recursos naturais e assegurar o uso sustentável da região. Após mais de duas décadas, as comunidades seguem mobilizadas e reafirmam o desejo de criação da UC, contando hoje com um abaixo-assinado com mais de 65 mil assinaturas favoráveis à criação.

Leia também: Instituições firmam acordo para integrar cultura e meio ambiente em territórios tradicionais

ICMBio realiza consulta pública e avança para criação de Reserva Extrativista no Maranhão
A consulta pública do ICMBio permanecerá aberta até o dia primeiro de maio. Foto: Geylson Paiva/ICMBio

Lembrada por inúmeros participantes, a líder comunitária pela criação da Resex Tauá-Mirim, Maria Máxima Pires, que faleceu em 2023, foi homenageada com uma foto colocada em frente à mesa que conduziu os trabalhos.  

Dona Máxima, como era conhecida, esteve presente nas reivindicações pela criação da Resex desde o início. 

“Estamos nesta luta há 23 anos, não há 23 dias. Maria Massima Pires morreu de câncer de pulmão, uma das lideranças que mais lutou por essa Resex era para estar aqui presente, mas nós estamos aqui para defender o nosso território”, recordou Jéssica Silva, líder comunitária de Tauá Mirim. 

Por definição, as reservas extrativistas são áreas protegidas que visam garantir o uso sustentável dos recursos naturais e a preservação da cultura das populações tradicionais que dependem do extrativismo. 

Benefícios gerados 

Para além da proteção do meio ambiente, a criação da Resex Tauá-Mirim deve apoiar milhares de pessoas de comunidades tradicionais cuja subsistência está diretamente associada à pesca artesanal, ao extrativismo e à agricultura familiar. 

O projeto foi elaborado em diálogo com as comunidades locais, instituições públicas, representantes do setor industrial e demais atores interessados. Ao todo, doze comunidades que se encontram integralmente ou parcialmente dentro do polígono delineado serão diretamente beneficiadas. Em 80% das famílias dessas comunidades pelo menos uma pessoa realiza alguma atividade extrativista.

A reserva também poderá impulsionar a economia regional. Foto: Geylson Paiva/ICMBio

A reserva também poderá impulsionar a economia regional por meio de políticas públicas voltadas às populações tradicionais. O Programa Bolsa Verde, por exemplo, com seu repasse quadrimestral de R$ 600 por família, poderá beneficiar cerca de 1,2 mil famílias, com repasses estimados em R$ 2,88 milhões anuais. Considerando os efeitos multiplicadores na economia local, esse montante poderá alcançar entre R$ 4,03 milhões e R$ 8,6 milhões por ano. 

Outro benefício gerado está no sequestro de carbono. As áreas de manguezais incluídas na área proposta para a criação da Resex sequestram cerca de 2,9 mil tCO2e/ano, que também podem trazer recursos que equivaleriam a US$ 418,5 mil ao ano, aproximadamente R$ 2 milhões, entre outros benefícios. 

Além disso, o fortalecimento do turismo de base comunitária desponta como uma oportunidade estratégica para diversificar a renda, valorizar os saberes tradicionais e promover o desenvolvimento sustentável da região. 

Próximos Passos 

A consulta pública permanecerá aberta até o dia primeiro de maio, para o recebimento de novas contribuições, contestações e pedidos de esclarecimentos. Esta é uma das etapas do processo técnico-participativo, regido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).  

Após o seu encerramento, o processo será encaminhado para análise e aprovação pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), encaminhado para observação de demais ministérios relacionados ao tema e, na sequência, para decisão final da Presidência da República. 

*Com informações do Instituto Chico Mendes de Consevação da Biodiversidade.

Aldeia Apiaká consegue autorização para atividade de turismo de pesca esportiva 

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Rio Juruena, na TI Apiaká do Pontal e Isolados. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Após anos de mobilização interna, apoio de parceiros e diálogo com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a aldeia Matrinxã, representada pela Associação Comunitária Indígena Tapi’ô do Norte do Mato Grosso (AITAM), finalmente conseguiu a carta de anuência para a atividade de turismo de pesca esportiva.

O documento, publicado em abril no Diário Oficial da União, tem validade até o final deste ano, mas pode ser renovado desde que a atividade siga as regulamentações normativas.

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“Esse é um projeto de base comunitária que a gente tem trabalhado há muito tempo. É a primeira vez que a gente recebe uma carta de anuência de um projeto nosso. É muito gratificante poder ter esse documento para trabalhar com mais segurança e ter visibilidade, mostrar que realmente nós, indígenas, temos a capacidade de fazer esse trabalho”, celebra Robertinho Morimã, cacique da aldeia que soma aproximadamente 15 famílias.

A Terra Indígena (TI) Apiaká do Pontal e Isolados está totalmente sobreposta ao Parque Nacional do Juruena, portanto os indígenas fazem a gestão compartilhada do território com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), orgão responsável pela gestão de Unidades de Conservação de Proteção Integral.

E embora a anuência tenha saído somente agora, os Apiaká já trabalhavam com turismo de pesca esportiva há alguns anos graças a um projeto inovador envolvendo pesos de pesca, as populares chumbadas, usados para garantir a ancoragem da isca no fundo dos rios.

As chumbadas, conforme sugere o nome, geralmente são feitas de chumbo, metal comprovadamente tóxico e que contamina peixes e rios, portanto impróprias para utilização em uma terra indígena sobreposta a uma área de conservação. Já as chumbadas ecológicas são biodegradáveis (à base de argila e areia). “A ideia é que os turistas fossem os voluntários deste projeto de pesquisa com a chumbada ecológica”, explica Ricardo Carvalho, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN), organização que acompanhou e deu apoio técnico e logístico aos Apiaká durante todo esse processo.

Histórico de pesca esportiva na TI Apiaká do Pontal e Isolados

Diante dos avanços extrativistas e expansionistas no final do século XIX, a população Apiaká diminuiu expressivamente e os sobreviventes tiveram que sair de seu território tradicional. Nessa diáspora, se espalharam e se misturaram aos Kayabi e aos Munduruku, mas mantiveram a identidade e o plano de um dia retornar. Então, já no século XXI, reocuparam o território tradicional, declarado pelo Estado brasileiro em 2024.

Quando retornaram ao território tradicional, em 2017, a pesca esportiva já era uma realidade na região e os Apiaká manifestaram a vontade de trabalhar com o turismo de pesca, entretanto não havia nenhuma regulamentação para a atividade em unidade de conservação de proteção integral, o que só foi criado pelo ICMBio em 2000. A partir de então, foi possível iniciar a construção de um Termo de Compromisso junto ao ICMBio e, simultaneamente, a elaboração da primeira versão do plano de visitação de acordo com a instrução normativa (IN 03/2015) da Funai, que estabelece regras para turismo de base comunitária em terras indígenas.

Assim, em 2021, os Apiaká concluíram o Termo de Compromisso e protocolaram processo na FUNAI solicitando a anuência para o turismo de pesca esportiva.

Leia também: Entenda como funciona a pesca esportiva e como deixar o peixe menos ‘estressado’ durante a pescaria

Aldeia Apiaká consegue autorização para atividade de turismo de pesca esportiva
Turistas se encantam pela diversidade e o tamanho dos peixes na região. Foto Adriano Gambarini-OPAN

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em articulação com o ICMBio, levou um técnico até a região para identificar, junto aos Apiaká, as áreas mais apropriadas para a pesca, as espécies de peixe de maior interesse para os turistas, a capacidade máxima de visitantes que cada área poderia receber, dentre outros pontos. Além de levantar informações que ajudaram a compor o plano de visitação, esse estudo foi importante para que os indígenas pudessem se apropriar melhor da atividade.

“A gente não tinha experiência de como trabalhar com turismo de pesca esportiva, mas a gente foi se preparando e se capacitando. O Ibama trouxe cursos de como manusear o peixe e fazer a soltura, o que fazer para não causar danos à natureza. E também foi feito todo um trabalho de mapeamento da região, tudo foi mapeado e desenhado, onde vai ser realizado o trabalho, onde vai pescar, onde não vai. Tudo isso ajudou a conhecer melhor o que é a pesca esportiva e hoje a gente tem essa habilidade”, relembra Robertinho Morimã.

Diante do interesse indígena, um dos operadores de pesca esportiva na região se aproximou dos Apiaká para propor uma parceria, no caso ele entraria com a estrutura física (pousada, barcos, materiais…) e a comunidade entraria com o ponto de pesca e a força de trabalho (camareiras, cozinheiras, guias, zeladores, garçons…). E o lucro da atividade seria dividido entre as partes.

Enquanto o Plano de Visitação e o Termo de Compromisso eram analisados pelos órgãos competentes e retornavam com pedidos de ajustes, o projeto de pesquisa da chumbada ecológica entrou em cena através do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio), ligado ICMBio, permitindo que a atividade fosse realizada na unidade de conservação no período de realização da pesquisa. “Possibilitou a continuidade da atividade enquanto não saísse a anuência”, pontua Ricardo Carvalho.

O projeto da chumbada ecológica foi importante para a estruturação e manutenção da atividade, mas era uma solução temporária. Ciente disso, durante esse processo de ajuste das propostas, algumas versões foram protocoladas juntos aos órgãos competentes, além de várias viagens até Brasília para fazer incidência política pela demarcação do território e conversar pessoalmente com os técnicos que estavam analisando o plano de visitação.

Pouco antes de protocolar a última versão do plano de visitação, em 2025, foi publicada a instrução normativa conjunta entre ICMBio e Funai para esses casos específicos de turismo em área de sobreposição entre unidades de conservação e terras indígenas. “É tudo muito novo nessa situação de turismo envolvendo sobreposição entre unidade de conservação de proteção integral e terra indígena, então o processo da aldeia Matrinxã foi tendo que se adaptar a essas normativas que também estavam sendo criadas. Essa última versão já contemplava essa instrução normativa conjunta”, explica Ricardo Carvalho.

Geração de renda e renovação da anuência

O manejo da castanha-da-Amazônia e o turismo de base comunitária na modalidade de pesca esportiva são as duas principais cadeias de valor da TI Apiaká do Pontal e Isolados. Além da geração de renda de forma sustentável, contribuem diretamente com a gestão territorial e o bem viver da comunidade, afinal possibilitam que o povo permaneça no território, ajudando também a impedir o avanço de pressões e ameaças que poderiam causar uma série de prejuízos socioambientais.

Os Apiaká se organizaram para estruturar essas duas atividades no calendário anual.

“A gente trabalha de março até novembro no turismo, aí entra o período da castanha, que vai de dezembro até o começo da outra temporada [de pesca]”, detalha Eduardo Morimã, uma das lideranças locais. Eles também tiveram que conciliá-las ao próprio calendário local. “A gente também não podia abrir mão da nossa roça, da nossa cultura e costumes, tudo está envolvido. Então, quando chega a época da roça, a gente reveza. Quem já está no turismo há mais tempo, vem pra fazer a roça. E quem estava na aldeia, e que já fez sua roça, vai pra lá trabalhar no lugar de quem veio”, complementa.

Essa renda tem contribuído com a autonomia financeira local, possibilitando que os Apiaká consigam realizar projetos prioritários para a terra indígena, além de melhorar a estrutura da aldeia, fazer a manutenção de veículos, pagar o aluguel de uma casa de apoio na cidade de Alta Floresta e até custear eventuais tratamentos emergenciais de saúde. “Você viver bem, morar bem, também é saúde, também é cultura. E a gente percebe essas melhorias dentro da comunidade”, ressalta Eduardo Morimã.

Leia também: Terra Indígena Apiaká do Pontal, em Mato Grosso, avança na construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental

A geração de renda local favorece a permanência das pessoas no território Apiaká. Foto: Marina Arruda/ OPAN

E além da parte do lucro da atividade que vai para a comunidade, também é importante a renda das pessoas que trabalham na operação do turismo. “A pessoa tem a carteira assinada trabalhando na própria terra indígena e gerando renda localmente”, destaca Ricardo Carvalho. Neste sentido, uma próxima etapa de fortalecimento da atividade prevê que o excedente da produção das roças seja absorvido pela operação de turismo, gerando assim mais uma fonte de renda interna para os Apiaká.

São muitas as expectativas futuras para esse trabalho que vem sendo construído e estruturado ao longo dos anos. A renovação da atual carta de anuência está condicionada a alguns ajustes solicitados pela Funai. Um dos pontos é o aprimoramento de espaços internos para fortalecer processos de prestação de contas e repartição dos recursos, afinal a ideia é que esse recurso seja destinado aos projetos comunitários e que a decisão em relação à sua utilização seja coletiva.

A elaboração dessa nova versão do plano de visitação, atendendo às demandas da Funai, está prevista para ser concluída no segundo semestre, possibilitando assim um tempo hábil de análise para que a renovação da carta de anuência seja publicada ainda este ano. “Agora a gente tem que seguir bem as normativas para que em 2027 a gente tenha a renovação dessa anuência”, conclui Robertinho Morimã.

*Com informações da assessoria

Ranking mostra quais municípios da Amazônia Legal tem melhor e pior desempenho de qualidade de vida

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Ranking mostra qualidade de vida nos municípios do país. Foto: Diego Oliveira/Acervo Portal Amazônia

O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil divulgou, nesta quarta-feira (20), a edição de 2026 com a avaliação dos 5.570 municípios brasileiros. Com base em 57 indicadores sociais e ambientais, o relatório mostra que a qualidade de vida no país segue marcada por desigualdades persistentes. Na Amazônia Legal, o destaque negativo entre as capitais é de Porto Velho (RO), capital com a menor pontuação.

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De acordo com o índice, o Progresso Social é definido como a capacidade da sociedade de atender às necessidades humanas básicas, garantir qualidade de vida e ampliar oportunidades para que todos os indivíduos possam atingir seu potencial. O cálculo gera notas em uma escala que vai de 0 a 100.

Ranking IPS Brasil 2026 – capitais da Amazônia Legal

Posição geralCapital/EstadoPontuação
96Palmas (TO)68,91
301Cuiabá (MT)67,22
663 São Luís (MA) 65,64
1050Boa Vista (RR)64,49
1270Manaus (AM) 63,91
1276Belém (PA) 63,9
1471Rio Branco (AC)63,44
3214Macapá (AP)59,65
3718Porto Velho (RO) 58,59

“O IPS mede resultados e não volume de investimentos, ou riquezas, nos interessa saber se os serviços públicos estão, de fato, sendo entregues aos cidadãos”, afirma Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil. “Apesar do bom desempenho das capitais, todas apresentam sérias dificuldades no componente de inclusão social, com altos índices de violência contra minorias, famílias em situação de rua e baixa paridade de gênero e raça nas câmaras municipais”, completa.

Ranking mostra quais municípios da Amazônia Legal tem melhor e pior desempenho de qualidade de vida
Indicadores avaliados no Ranking do IPS Brasil 2026. Imagem: Reprodução/IPS Brasil 2026

Ranking dos municípios

Dos 100 primeiros com melhores resultados, somente Palmas (TO) aparece na lista, em 96° lugar. Na contagem inversa, dos 100 últimos, 79 são municípios dos estados da Amazônia Legal, que é composta por Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Ranking IPS Brasil 2026 – 15 municípios da Amazônia Legal com pontuações mais altas

Posição geralMunicípio/EstadoPontuação
96 Palmas (TO)68,91
301 Cuiabá (MT)67,22
315 Araguainha (MT)67,13
359Primavera do Leste (MT)66,89
455Rondonópolis (MT)66,5
919Denise (MT) 64,87
1035Campo Verde (MT)64,51
1050 Boa Vista (RR)64,49
1183 Alto Taquari (MT) 64,1
1270 Manaus (AM)63,91
1276Belém (PA) 63,9
1345Sapezal (MT)63,74
1361 São José do Povo (MT)63,7
1386 Dom Aquino (MT)63,65
1415 Ponte Branca (MT)63,57

Uiramutã (RR), por exemplo, o município com maior proporção de indígenas do país, ocupa a última posição do ranking.

Ranking IPS Brasil 2026 – 15 municípios da Amazônia Legal com pontuações mais baixas

Posição geralMunicípio/EstadoPontuação
5570 Uiramutã (RR) 42,44
5569 Jacareacanga (PA)44,32
5568 Alto Alegre (RR)44,72
5567 Portel (PA) 45,42
5566 Amajari (RR)45,58
5565 Pacajá (PA)45,87
5564 Anapu (PA)45,91
5562 Santa Rosa do Purus (AC)46,7
5561 Uruará (PA)46,8
5560 Trairão (PA) 46,82
5559 Bannach (PA)47,23
5558 São Félix do Xingu (PA)47,38
5557 Recursolândia (TO)47,39
5556 Cumaru do Norte (PA)47,43
5555Peritoró (MA)47,53

O que o IPS avalia

O Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 mostra que o país alcançou pontuação média de 63,40, indicando uma evolução sutil em relação ao ano anterior. Entre as dimensões do índice, ‘Necessidades Humanas Básicas’ apresentou o melhor desempenho, com média de 74,58, seguida por ‘Fundamentos do Bem-estar’, com 68,81. Já a dimensão ‘Oportunidades’ registrou o menor resultado, com 46,82, mantendo o padrão observado desde as edições anteriores.

Os resultados do ranking também evidenciam os desafios regionais. Os estados da Amazônia Legal apresentam desempenho mais baixo no componente de ‘Qualidade do Meio Ambiente’, influenciados pelo desmatamento acumulado e pela concentração de emissões de gases de efeito estufa.

No site do IPS Brasil, é possível analisar o perfil detalhado de todos os municípios, identificando em quais áreas cada um se destaca e onde há necessidade de melhorias. A plataforma também permite comparar municípios com características semelhantes, como PIB per capita, população e território, oferecendo uma ferramenta para gestores públicos, investidores sociais e a sociedade em geral compreenderem melhor as dinâmicas de desenvolvimento local e planejarem ações mais eficazes para promover o progresso social e ambiental.

O índice é desenvolvido por meio de uma parceria entre o Imazon, Fundação Avina, iniciativa Amazônia 2030, Centro de Empreendedorismo da Amazônia e Social Progress Imperative, sendo baseado exclusivamente em dados públicos e atualizado anualmente.

Confira o relatório completo AQUI.

*Com informações do IPS Brasil 2026

Boi Caprichoso homenageia Arlindo Júnior no aniversário de 58 anos do artista com ajuda de IA

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Foto: Divulgação

O Boi-bumbá Caprichoso fez uma homenagem ao eterno levantador de toadas Arlindo Júnior, nesta quarta-feira (20), data em que o cantor completaria 58 anos. Familiares e torcedores do boi parintinense receberam um presente: uma versão especial da toada ‘Brinquedo Que Canta Seu Chão’, tema do Caprichoso para o Festival Folclórico de Parintins 2026, cantada pela voz do artista recriada por meio de Inteligência Artificial (IA).

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Reconhecido como um dos maiores ídolos da cultura popular amazonense, o artista marcou gerações com sua voz, carisma e paixão pelo boi Caprichoso, com uma trajetória que atravessou o tempo.

Leia também: Paixão de Torcedor: amor pelo boi-bumbá de Parintins vem do berço

Arlindo Junior
Arlindo Junior. Foto: Daniel Brandão

Homenagem à Arlindo Júnior é apresentada por seu filho

A homenagem foi apresentada pelo filho do cantor, Arlindo Neto, que destacou a importância da data e a emoção de compartilhar o registro com os torcedores apaixonados pelo boi nas redes sociais:

“Hoje, meu pai, um dos maiores ídolos da nossa nação azulada, estaria completando mais um ano de vida e nós não poderíamos deixar essa data passar em branco. Fizemos uma surpresa para os torcedores apaixonados do nosso Boi Caprichoso e para quem ama muito o nosso eterno Arlindo Júnior”.

A música emocionou os torcedores nas redes sociais, que se manifestaram nos comentários. A homenagem só está disponível no perfil do Instagram do Boi Caprichoso. Confira: 

Arlindo Júnior morreu aos 51 anos de idade no dia 29 de dezembro de 2019, após uma luta contra o câncer, em um hospital particular de Manaus.

‘Arte Kambeba’ proporciona imersão de saberes ancestrais para mulheres indígenas no Amazonas

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Mulheres indígenas e comunitárias do povo Kambeba. Foto: Marcelo Ramos

O projeto Arte Kambeba reuniu mulheres indígenas em uma imersão de saberes ancestrais na Comunidade Três Unidos, às margens do Rio Cuieiras, na região do Rio Negro, a 60 quilômetros de Manaus (AM). De sexta-feira (15) até domingo (17), a programação do evento contou com rodas de conversa e oficinas de artesanato, pintura corporal e empreendedorismo voltadas ao público feminino da comunidade.

A iniciativa parte da ideia de que cada peça artesanal guarda a história do grupo originário na Amazônia. Colares, pulseiras, biojoias, grafismos e materiais retirados da floresta são alguns dos produtos que “narram” a presença dos Kambena na região.

tainara kambeba
Tainara Kambeba, jovem ativista. Foto: Marcelo Ramos

O eixo afetivo da iniciativa está na trajetória de Diamantina Kambeba, chamada carinhosamente de Babá. Matriarca, liderança indígena e artesã há mais de três décadas, ela deu início à produção artesanal na Comunidade Três Unidos, transformando sementes da floresta em biojoias que carregam identidade, memória e pertencimento, além de fortalecer a economia local.

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Para Tainara Kambeba, idealizadora do projeto e jovem ativista ambiental, a imersão nasceu do desejo de reconhecer esse legado e mantê-lo vivo entre mulheres, jovens e crianças. Segundo ela, o artesanato é memória coletiva e caminho de fortalecimento identitário.

“O artesanato não é só uma simples biojoia. Ele carrega a história, a identidade e, principalmente, a essência de cada mulher que produz aquilo. É esse conhecimento que a gente sempre tenta passar para as próximas gerações, reconhecendo a coragem das nossas matriarcas”, afirma.

Mais do que ensinar técnicas, o projeto promove um espaço de encontro e troca. Ao longo de três dias, as participantes compartilharam histórias, práticas e experiências, com destaque para a roda de conversa com mulheres Kambeba, voltada à escuta coletiva e à continuidade dos saberes tradicionais.

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Roda de conversa do projeto Arte Kambeba. Foto: Marcelo Ramos

Identidade Kambeba

Grande parte da cultura Kambeba é transmitida oralmente pelos anciões às novas gerações. Entre os saberes preservados pelo povo está a prática ancestral conhecida como Kapara, técnica em que a cabeça dos bebês era moldada em formato achatado com o uso de junco, espécie de fibra amazônica, e madeira, como forma de identificação cultural e diferenciação entre os povos indígenas.

Hoje, essa prática foi ressignificada em um adorno de cabeça sagrado, símbolo da essência e da identidade. Por isso, a produção de kaparas na oficina de artesanato se tornou o marco simbólico do projeto, dedicado à criação desses objetos e à preservação da cultura.

Mulheres da Comunidade Kambeba. Foto: Marcelo Ramos

Essa transmissão aparece na fala de Diamantina Kambeba, que define a imersão como um compromisso com o futuro de seu povo. Para a matriarca, ensinar mulheres e crianças é uma forma de manter viva a memória Kambeba e evitar que seus saberes se percam com o tempo.

“Quando eu comecei, não tínhamos muitas ferramentas como a gente tem hoje e eu fiz mesmo assim. Eu deixo uma mensagem para elas não desistirem da nossa cultura. Eu quero que elas continuem, as mulheres daqui, as crianças, para não acabar a nossa cultura”, apela.

A iniciativa beneficia cerca de 25 participantes e contribui para a economia criativa, que apoia a subsistência da comunidade.

Comunidade Três Unidos

A Comunidade Três Unidos, no Rio Cuieiras, é um território Kambeba. Povo de várzea, eles mantêm viva sua relação com a floresta, o rio, a memória oral, o artesanato e o turismo de base comunitária. No projeto, a comunidade não é apenas o local das atividades: é a fonte dos saberes compartilhados.

Panorâmica da Comunidade Três Irmãos, às margens do Rio Cuieiras, na região do Rio Negro. Foto: Marcelo Ramos

Ao realizar a imersão dentro do território, a ação fortalece a autonomia das mulheres Kambeba e valoriza o conhecimento que nasce da vivência coletiva. A expectativa é que o aprendizado continue circulando nas famílias, nas futuras produções artesanais e nas próximas gerações.

*Com informações da assessoria

Pesquisa-documentário sobre carregadores do porto de Manaus é selecionada para mostra nacional

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Foto: Reprodução/Arquivo Rede Amazônica AM

Uma pesquisa-documentário em formato de curta-metragem sobre o trabalho exercido pelos carregadores do porto de Manaus e produzida pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) foi selecionada para o ECOA – Mostra Socioambiental de Cinema de Manaus, evento que reúne produções audiovisuais voltadas a temas contemporâneos e busca ampliar o diálogo entre ciência, cultura e sociedade por meio do cinema.

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O trabalho foi desenvolvido pela mestranda Anne Caroline Maciel, integrante do Laboratório de Psicologia, Trabalho e Saúde (LAPSIC), sob orientação do professor Ronaldo Gomes-Souza.

A obra lança um olhar sensível sobre a rotina dos carregadores da zona portuária de Manaus, trabalhadores que lidam diariamente com o transporte de mercadorias e que carregam, além do peso físico, histórias marcadas por resistência, invisibilidade social e desafios econômicos.

Imersão no cotidiano dos carregadores

Intitulado ‘Sem nós, o que seria do porto?’, o curta-metragem propõe uma imersão no cotidiano desses carregadores, convidando o público a refletir sobre o papel essencial que desempenham na dinâmica urbana e econômica da capital amazonense. A narrativa evidencia não apenas o esforço físico envolvido no trabalho dos carregadores, mas também as dimensões humanas e sociais que permeiam essa atividade.

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A produção surgiu a partir da disciplina “Tópicos em Subjetividade e Pesquisa-documentário”, vinculada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGPSI). A proposta pedagógica integra ensino, pesquisa e extensão por meio da construção coletiva de obras audiovisuais, aproximando estudantes da realidade social investigada. O uso de tecnologias digitais nesse processo fortalece práticas formativas mais democráticas e engajadas, ao mesmo tempo em que amplia o alcance das pesquisas acadêmicas.

Segundo a organização da mostra, o documentário se destaca por sua abordagem sensível e por dar voz aos carregadores, sujeitos historicamente pouco representados. A obra convida o espectador a percorrer o porto de Manaus sob uma perspectiva humana, ouvindo relatos que revelam as múltiplas camadas da vida desses trabalhadores.

Exibição reúne produções socioambientais no Teatro Gebes Medeiros

O curta será exibido no dia 24 de maio, às 15h, no Teatro Gebes Medeiros, no Centro de Manaus, como parte da programação oficial do ECOA. A sessão contará com a apresentação de outras produções audiovisuais que abordam diferentes temáticas socioambientais, reunindo olhares diversos sobre questões sociais, culturais e ambientais.

Pesquisa-documentário sobre carregadores do porto de Manaus é selecionada para mostra nacional

Entre os filmes selecionados para a mesma sessão estão “Cotas, Memória, e Luta Negra na UFPA”, “Uma menina, um rio”, “Praça Amazonas”, “O Jardim Mágico” e “Tanaru”. As obras compõem um panorama plural de narrativas que dialogam com identidade, território, memória e sustentabilidade, reforçando o caráter abrangente da mostra.

O ECOA – Mostra Socioambiental de Cinema de Manaus é um evento de caráter não competitivo que busca valorizar produções independentes e promover o debate sobre questões urgentes da sociedade contemporânea. Com alcance nacional e internacional, a mostra também disponibiliza parte da programação em plataformas digitais, ampliando o acesso do público às obras exibidas.

A produção do documentário conta com a realização da DUPLOFILME e da OCA Amazônia, além de financiamento por meio do Edital 001/2026 – Audiovisual PNAB Manaus, iniciativa que envolve o Governo Federal, o Conselho Municipal de Cultura (Concultura) e a Prefeitura de Manaus. O apoio institucional reforça a importância do investimento público na produção cultural e científica da região.

*Com informações da Ufam

ESG e indicadores estratégicos orientam nona videoaula do projeto Rede Educa

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Foto: Divulgação

A Fundação Rede Amazônica (FRAM), em parceria com o Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (CIEAM), realizou a nona videoaula do projeto Rede Educa com foco em ESG, indicadores de desempenho e comunicação responsável. O conteúdo foi conduzido pelo economista e pós-graduado em Gestão Financeira, Armando Ennes, e apresentou reflexões sobre a importância dos KPIs na gestão estratégica e no fortalecimento das práticas sustentáveis dentro das organizações.

Durante a videoaula, foram abordados conceitos relacionados à utilização de KPIs (Key Performance Indicators) como ferramentas fundamentais para mensurar resultados, acompanhar metas corporativas e apoiar processos de tomada de decisão alinhados às diretrizes ESG. A discussão também destacou o papel da comunicação responsável na construção da reputação institucional e no fortalecimento da relação entre empresas, sociedade e mercado.

ESG, desempenho corporativo e gestão estratégica

O conteúdo apresentou a relevância da integração entre desempenho operacional, responsabilidade socioambiental e governança corporativa como diferencial competitivo para empresas inseridas em um cenário econômico cada vez mais orientado por critérios sustentáveis, transparentes e estratégicos.

A aula reforçou ainda que o uso adequado de indicadores contribui para maior eficiência na gestão organizacional, além de ampliar a capacidade das empresas de atender às exigências contemporâneas relacionadas à sustentabilidade, à inovação e à credibilidade institucional.

“Os KPIs aliados às práticas ESG permitem que as organizações acompanhem resultados de forma estratégica e transparente, fortalecendo não apenas a gestão interna, mas também a credibilidade institucional diante do mercado e da sociedade”, destacou Armando Ennes.

Formação alinhada às demandas do mercado

A iniciativa integra a programação do projeto Rede Educa, que promove conteúdos voltados à qualificação profissional, inovação e desenvolvimento regional, conectando temas contemporâneos às necessidades do Polo Industrial de Manaus e aos desafios do setor produtivo amazônico.

A videoaula está disponível gratuitamente no canal oficial da Fundação Rede Amazônica no YouTube:

O projeto Rede Educa é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM), em parceria com o Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (CIEAM).

Por Pauline Lima, da FRAM

Estudo revela erro que compromete a produção de látex em seringueiras clonadas

Foto: Gilson Essenfelder/Sítio Pandorama

Apesar do advento da borracha sintética, que encerrou definitivamente o ciclo de opulência que teve seu auge na Amazônia brasileira na virada do século 19 para o 20, a borracha natural das seringueiras continua insubstituível para vários usos, como a confecção de pneus para aeronaves e de equipamentos médicos.

A borracha natural distingue-se por combinar, de maneira única, flexibilidade e robustez, oferecendo aos objetos produzidos alta elasticidade e poder de recuperação da forma original e resistência à fadiga, ao aquecimento, ao rasgamento e à abrasão. Além disso, possui a virtude de ser uma matéria-prima de origem renovável e de as plantações poderem ajudar na captura de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

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No entanto, o Brasil perdeu a primazia na produção de borracha natural, hoje liderada por Tailândia (35%), Indonésia (25%) e Vietnã (8-10%), seguidos por China (6-7%) e Índia (5-6%). Com menos de 2% da produção mundial, o Brasil não consegue abastecer o mercado interno e precisa importar a matéria-prima.

Um dado surpreendente para os não especialistas é que o epicentro da produção brasileira se deslocou da Amazônia para o Estado de São Paulo. Como a seringueira leva cerca de dez anos para entrar em sua fase produtiva plena, alguns fazendeiros sediados no território paulista, que se dedicam a outros cultivares como atividade principal, reservam uma parte da propriedade para o plantio da seringueira, como uma espécie de poupança para o futuro.

O grande problema é que, na hora de começar a colher o látex, muitos se surpreendem com a baixa produtividade das árvores, apesar de terem introduzido na fazenda os melhores clones disponíveis no mercado. A explicação foi dada agora, com o rigor do método científico, por um estudo conduzido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Agronômico (IAC) e publicado no periódico The Plant Genome.

A pesquisa mostrou que o porta-enxerto – isto é, a planta que sustenta o clone enxertado – desempenha papel decisivo na produtividade da seringueira, podendo determinar diferenças expressivas na produção de látex.

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As gemas de seringueiras são coletadas de clones produtivos e enxertadas em mudas germinadas a partir de sementes coletadas de plantações clonais. Esta combinação de enxerto e porta-enxerto é destinada ao plantio comercial.
As gemas de seringueira são coletadas de clones produtivos e enxertadas em mudas (porta-enxertos) germinadas a partir de sementes coletadas de plantações clonais. Esta combinação de enxerto e porta-enxerto é destinada ao plantio comercial. Foto: Wanderson Cunha/Acervo pessoal

“Investigamos, pela primeira vez, os mecanismos moleculares envolvidos na interação entre o enxerto e o porta-enxerto em seringueiras [Hevea brasiliensis], principal fonte mundial de borracha natural. Nossos achados evidenciam que os porta-enxertos não são apenas suportes para fixação dos clones, mas sim agentes ativos na regulação da expressão gênica do material enxertado, com impacto direto na produtividade e adaptabilidade da cultura”, afirma o pesquisador Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo.

O estudo sobre estas seringueiras foi coordenado por Anete Pereira de Souza, professora titular do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp e orientadora do doutorado de Cunha, apoiado pela FAPESP. Dentre vários colaboradores, contou com a participação do professor Paulo Gonçalves, pesquisador sênior do IAC e considerado uma das maiores autoridades mundiais em borracha natural.

“Na prática agrícola, a seringueira é propagada por enxertia, na qual a gema de um clone selecionado [como o RRIM 600, um dos mais utilizados no Brasil] é inserida sobre um porta-enxerto constituído por uma seringueira obtida a partir de sementes. Embora os programas de melhoramento tenham historicamente focado apenas no clone, descobrimos, no estudo, que o porta-enxerto pode alterar profundamente o desempenho da planta. Quando se planta o melhor clone sobre o porta-enxerto errado, a produção pode cair para apenas 25% do que seria esperado com a combinação correta”, afirma Souza.

Os resultados confirmaram essa influência: a combinação do clone RRIM 600 com o porta-enxerto PB 235 apresentou a maior produtividade média: 76,03 g de borracha seca por árvore em cada operação de sangria. Ao passo que, com porta-enxertos de sementes não selecionadas, a produtividade caiu para 43,29 g.

Principais resultados com as seringueiras

Para entender essa diferença tão marcante, os pesquisadores analisaram o transcriptoma – o conjunto de genes expressos – de árvores enxertadas em diferentes porta-enxertos. “Identificamos milhares de genes cuja expressão varia conforme a combinação enxerto-porta-enxerto, incluindo genes diretamente ligados à produção de látex”, informa Cunha.

Entre os achados mais relevantes, o estudo possibilitou a identificação de genes exclusivamente expressos (EEGs) e diferencialmente expressos (DEGs) associados a variações na produtividade; evidenciou a participação de vias metabólicas, como a do jasmonato (hormônio vegetal que atua principalmente na resposta a estresses e na regulação de processos metabólicos), na produção de látex; e apontou diferenças nas redes de coexpressão gênica, indicando maior ou menor sinergia entre genes envolvidos na biossíntese da borracha. Esses resultados mostram que o porta-enxerto não atua apenas como suporte físico, mas como um modulador ativo da fisiologia da planta.

Segundo os pesquisadores, o desconhecimento sobre a importância do porta-enxerto tem causado prejuízos significativos aos produtores.

“Quando o agricultor vai comprar a muda, ele pede o clone, mas não pede o porta-enxerto. E ninguém o informa sobre isso. Como a seringueira demora anos para entrar em produção, o erro só é percebido tarde demais. O fazendeiro espera mais de uma década para descobrir que está produzindo muito menos do que poderia”, sublinha Souza.

Além do avanço científico, o estudo tem forte aplicação prática. Com base nos resultados, o IAC está preparando uma cartilha para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos. Os autores defendem também a criação de políticas que exijam a identificação do porta-enxerto na comercialização de mudas.

Os resultados apontam para uma mudança de paradigma na cultura da seringueira. Até agora, os programas de melhoramento focavam quase exclusivamente nos clones enxertados. O estudo mostra que isso é insuficiente. Ao incorporar o porta-enxerto como componente ativo, abre-se a possibilidade de aumentar a produtividade, melhorar a adaptação a estresses (como seca), reduzir doenças e tornar a cultura mais competitiva.

O estudo também foi apoiado pela FAPESP por meio de auxílio ao Centro de Melhoramento Molecular de Plantas, de Auxílio Regular à Pesquisa concedido a Anete de Souza e de Bolsa de Mestrado concedida a Vinícius Mandolesi Rios, segundo autor da pesquisa.

O artigo Molecular mechanisms associated with rootstock-scion interactions in rubber trees pode ser lido em: acsess.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/tpg2.70147.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Fapesp, escrito por José Tadeu Arantes