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Perfil epidemiológico do câncer no Amazonas reforça a importância da prevenção

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Foto: Divulgação/FVS-RCP

No início do mês de fevereiro se celebra o Dia Mundial de Combate ao Câncer, dia 4, e com isso, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) reforça a relevância da conscientização, da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso oportuno ao tratamento contra a doença.

Entre os principais fatores de risco, aponta a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), destacam-se:

  • o tabagismo,
  • o consumo de álcool,
  • o excesso de peso,
  • a alimentação inadequada,
  • a inatividade física,
  • a poluição atmosférica
  • e infecções oncogênicas, como o papilomavírus humano (HPV) e as hepatites virais.

Segundo análise da Gerência de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis (GVDANT) da Vigilância Epidemiológica da FVS-RCP, com base em dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o Amazonas registrou 20.948 mortes por câncer entre 2021 e 2025. A idade média foi de 62 anos, e 61% dos óbitos ocorreram em pessoas com 60 anos ou mais.

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A mortalidade foi semelhante entre homens e mulheres, com leve predominância feminina (50,9%). No período, as taxas de mortalidade por câncer apresentaram crescimento, passando de 9,15 em 2021 para 15,62 em 2025, o que representa um aumento de 70,71%.

A diretora-presidente da FVS-RCP, Tatyana Amorim, destaca que fatores de risco ligados ao estilo de vida, como falta de atividade física, alimentação inadequada, excesso de peso, consumo de álcool e tabaco, além de sono insuficiente, influenciam diretamente o desenvolvimento de doenças crônicas.

”Esses mesmos fatores estão associados a problemas como hipertensão, diabetes e outras doenças metabólicas, o que mostra que as ações de prevenção são integradas e se reforçam mutuamente”, esclarece.

Leia também: Câncer de próstata: causas, sintomas, tratamentos e prevenção

Para a gerente de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (GVDANT) da FVS-RCP, Anny Antony, fortalecer ações de promoção da saúde, ampliar a conscientização da população, estimular hábitos mais saudáveis ao longo do curso de vida e promover o rastreamento e o cuidado oportuno no SUS são medidas fundamentais.

“Pequenas escolhas feitas no cotidiano, como se movimentar mais, cuidar da alimentação, dormir melhor e buscar os serviços de saúde no tempo certo, fazem diferença real na redução do câncer e de outras doenças crônicas. Informação salva vidas, e a prevenção começa antes do adoecimento”, destaca.

Pesquisa Nacional de Saúde no combate ao câncer

No Brasil, o monitoramento dos fatores de risco para doenças crônicas é realizado pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) do Ministério da Saúde, principal inquérito nacional sobre Doenças Crônicas Não Transmissíveis.

Em 2024, foram feitas 27.048 entrevistas nas capitais brasileiras, mostrando alta exposição da população a fatores associados ao risco de câncer, como excesso de peso, identificado em 62,6% dos adultos, e obesidade, presente em 25,7% dos entrevistados.

pesquisas sobre câncer no amazonas - fvs-rcp
Foto: Divulgação/FVS-RCP

O inquérito também apontou baixa prática de atividade física no lazer (42,3%), além da manutenção de comportamentos pouco saudáveis, como consumo de álcool, alimentação de baixa qualidade nutricional e sedentarismo. Outro fator de alerta foi o sono insuficiente, observado em até um em cada quatro adultos, condição relacionada ao aumento do risco metabólico e inflamatório.

Na Região Norte, cerca de 7 mil pessoas participaram do levantamento, sendo aproximadamente 1.000 em Manaus, com perfil semelhante ao nacional. Destacam-se a alta prevalência de excesso de peso, especialmente entre mulheres, além do sedentarismo, maior tempo de exposição a telas e descanso insuficiente.

Esse cenário contribui para maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de doenças crônicas e se reflete na mortalidade, concentrada principalmente em cinco tipos de câncer: estômago, pulmão, colo do útero, mama e próstata que, juntos, respondem por 43% das mortes por neoplasias no Amazonas.

*Com informações da SES-AM

Exploração de madeira em Mato Grosso está proibida até 1º de abril; saiba por quê

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Foto: Karla Silva/Sema MT

Está proibida, até o dia 1º de abril, a exploração florestal sustentável em Mato Grosso. A medida busca proteger o solo dos impactos da retirada da madeira na estação chuvosa, além de minimizar as consequências do transporte pesado dentro das florestas.

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O período proibitivo, que ocorre todos os anos, começou no dia 1º de fevereiro. A restrição abrange o corte, derrubada, arraste ou transporte de toras.

Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), cerca de 6% do território mato-grossense é atingido pela restrição, o que corresponde a 52 mil quilômetros quadrados de áreas que possuem Planos de Manejo Florestal Sustentável autorizados pelo órgão.

Leia também: Mato Grosso, Amazonas e Pará lideram extração ilegal de madeira em UCs na Amazônia

Exploração de madeira na Amazônia
Foto: Reprodução/Imazon

Em alguns municípios do Noroeste de Mato Grosso, na região amazônica, onde as chuvas são mais intensas, a proibição se estende até maio. As cidades afetadas são Aripuanã, Castanheira, Colniza, Cotriguaçu, Juína, Juruena e Rondolândia.

Leia também: Quase metade da exploração ilegal de madeira em Mato Grosso foi registrada em áreas protegidas

Proibição da exploração de madeira precisa ser respeitada

Extração legal de madeira cresce, mas atividade ilegal ainda é responsável por quase metade do total da atividade — Foto: Divulgação/Imazon
Foto: Divulgação/Imazon

A norma está prevista em resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e regulamentada pela Câmara Técnica Florestal de Mato Grosso por meio da Resolução nº 10/2017, que estabelece o período proibitivo para a exploração sob o regime de Manejo Florestal Sustentável de Baixo Impacto.

Só é permitido emitir a guia florestal e transportar o volume das espécies de madeira que foram estocadas nas esplanadas e cadastradas no Sistema Sisflora antes do início da proibição, ou após o término, em 1º de abril.

Conforme a superintendente de Gestão Florestal da Sema, Tatiana Paula Marques de Arruda, respeitar esse período é essencial para manter o equilíbrio entre o desenvolvimento ambiental, econômico e social.

“O período proibitivo se refere a época chuvosa, em que não há viabilidade para exploração. A restrição estabelecida nesse momento, garantirá uma exploração mais sustentável, reduzindo o impacto ambiental causado pela movimentação de veículos pesados na floresta e assegurando a conservação da vegetação”, afirma.

*Com informações do Governo de Mato Grosso

Saiba quanto custa e como participar de expedição exclusiva que leva mulheres ao Monte Roraima

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Expedição para mulheres ao Monte Roraima. Foto: Divulgação/Roraima Adventures

Uma expedição exclusiva para mulheres vai levar um grupo ao Monte Roraima a partir do dia 10 de março. O roteiro inclui trilhas até o topo da montanha, passagem por pontos tradicionais como o Vale dos Cristais e o Lago Gladys, além de dias de imersão no platô.

Para ir ao Monte Roraima é necessário sair de Boa Vista (RR) e passar por comunidade indígena na Venezuela. O topo do monte fica no país vizinho.

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Expedição é promovida pela empresa Roraima Adventures e é a terceira edição voltada apenas ao público feminino é realizada. O pacote custa R$ 7.850 por pessoa. Para que haja a expedição é necessário um grupo de, pelo menos, cinco participantes. O valor inclui:

  • Transporte terrestre de Boa Vista até a comunidade indígena de Paraitepuy (ida e volta);
  • Uma diária de hospedagem em Santa Elena de Uairén;
  • Alimentação completa durante o trekking;
  • Equipamentos coletivos de camping (barracas compartilhadas, cozinha e utensílios);
  • Guia de trilha;
  • Equipe de apoio e logística;
  • Taxas de entrada nas comunidades indígenas;
  • Kit de primeiros socorros.
monte roraima
Monte Roraima (RR). Foto: Divulgação

A viagem tem duração de até 10 dias e começa em Boa Vista, com deslocamento terrestre até Santa Elena de Uairén, na Venezuela. De lá, o grupo segue até a comunidade indígena de Paraitepuy, onde se inicia o trekking (modalidade de caminhada de longa duração, realizada em ambientes naturais como montanhas, trilhas e regiões remotas, geralmente durando vários dias).

O Monte Roraima é uma montanha com cerca de dois bilhões de anos e 2.734 metros de altitude. Ele fica na fronteira entre três países: Venezuela (80%), Guiana (15%) e Brasil (5%). A formação rochosa tem formato de mesa, conhecida como tepui, e está entre os destinos turísticos mais procurados da região. O acesso ao local ocorre por Roraima.

Leia também: Monte Roraima: o que você precisa saber antes de visitar o gigante da tríplice fronteira

Ao longo do percurso, as participantes passam por acampamentos na base do Monte Roraima, fazem a subida até o topo e permanecem cinco noites explorando diferentes áreas da montanha.

Durante a permanência no topo, estão previstos trajetos até o Vale dos Cristais, o Ponto Triplo — marco que delimita as fronteiras entre Brasil, Venezuela e Guiana —, o Lago Gladys, além de piscinas naturais, mirantes e formações rochosas conhecidas da região.

São dois dias de trilha até chegar ao topo do monte. As caminhadas variam de 4 a 8 horas por dia, em trilhas consideradas de nível médio a difícil, com terrenos irregulares e variações de temperatura que podem chegar a 0°C.

Custo da viagem ao Monte

O pagamento pode ser feito à vista, por transferência bancária ou Pix, ou em até oito vezes no cartão de crédito. O valor está sujeito a alterações.

Ficam fora do valor itens como passagens aéreas, transporte entre aeroporto e hotel em Boa Vista, hospedagem e alimentação na capital, seguro-viagem e equipamentos de uso pessoal, como mochila cargueira, saco de dormir, isolante térmico e barraca individual.

O seguro-viagem é recomendado, mas deve ser contratado separadamente pela participante.

Há ainda serviços e itens opcionais pagos à parte, como barraca individual durante toda a expedição, carregador pessoal, locação de mochila cargueira, saco de dormir e colchonete, além da possibilidade de hospedagem individual em Santa Elena de Uairén.

A organização informa que o trekking não exige técnicas de escalada, mas demanda preparo físico devido às longas caminhadas e às condições do terreno.

Para brasileiras, é necessário apresentar RG original, certificado internacional de vacinação contra febre amarela e comprovante de vacinação contra a Covid-19. A recomendação é também portar passaporte válido.

A Roraima Adventures atua há mais de duas décadas no turismo de natureza em Roraima, especialmente nos segmentos de ecoturismo, aventura e expedições ao Monte Roraima. Ao longo desse período, a empresa estruturou roteiros voltados a experiências imersivas em ambientes naturais, com foco em turismo responsável e sustentabilidade ambiental, o que rendeu reconhecimento regional e nacional no setor.

*Com informações da Rede Amazônica RR

Amazonas concentra 18% das áreas sob risco de desmatamento na Amazônia previsto para 2026, aponta PrevisIA

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Foto: Erick Xavier/Wikimedia Commons

O Amazonas aparece entre os estados mais ameaçados pelo desmatamento na Amazônia em 2026. Segundo dados da plataforma de inteligência artificial PrevisIA, 1.000 km² do território amazonense estão sob risco de devastação — o que representa 18% de toda a área ameaçada na região.

No estado, dois municípios do sul do Amazonas que compõem a região conhecida como Amacroestão no ranking das 10 cidades na situação mais crítica apontadas pelo previsIA. Os municípios citados são: Apuí e Lábrea.

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Amacro é um espaço considerado como a junção de uma das fronteiras da Amazônia, entre o Amazonas, Acre e Rondônia. É um conceito elabora por um estudo do Greenpeace Brasil feito com imagens de satélite que identificaram uma área de desmatamento envolvendo três estados do Norte do Brasil, onde foram identificados, planos de manejo florestal desmataram milhares de hectares de terras públicas. A região passou a ser conhecida como a Fronteira do Desmatamento.

Imagem mostra em mapa onde é região conhecida como “Amacro”, acrônimo para região identificada pelo Greenpeace. Foto: Reprodução/ Rede Globo

No total, a PrevisIA calcula que 1.686 km² da Amazônia estarão sob risco muito alto ou alto em 2026, o que corresponde a 31% do total. Outros 1.056 km² (20%) aparecem em risco moderado e 2.759 km² (50%) em risco baixo ou muito baixo.

Leia também: PrevisIA: inteligência artificial aponta 5,5 mil km² com risco de desmatamento na Amazônia em 2026

No Amazonas, a pressão se concentra em áreas de expansão agrícola e próximas a estradas. Desde 2020, cerca de 95% do desmatamento ocorre a até 5,5 km de uma via de acesso.

“A análise estadual é fundamental para que os órgãos competentes possam atuar em defesa da floresta. No caso do Amazonas, os municípios de Apuí e Lábrea são estratégicos para conter o avanço da devastação”, afirma Alexandra Alves, pesquisadora do Imazon.

Pressão sobre terras indígenas e unidades de conservação

Além dos municípios, o Amazonas também possui terras indígenas e unidades de conservação estaduais entre as áreas mais ameaçadas. 

O levantamento mostra que 357 km² estão sob risco em territórios indígenas e outros 598 km² em unidades de conservação, reforçando a necessidade de atuação local

O que é a PrevisIA

Lançada em 2021 pelo Imazon em parceria com a Microsoft e o Fundo Vale, a PrevisIA é uma plataforma que utiliza a inteligência artificial para indicar áreas sob risco de desmatamento na Amazônia. E, com isso, fornecer dados para evitá-lo.

Sua metodologia analisa um conjunto de variáveis como a presença de estradas legais e ilegais, o desmatamento já ocorrido, as classes de territórios, a distância para áreas protegidas, os rios, a topografia, a infraestrutura urbana e informações socioeconômicas.

“A ferramenta também possibilita análises municipais, favorecendo a adoção de políticas públicas pelas secretarias de meio ambiente e demais órgãos ligados às prefeituras na proteção da floresta”, explica Alexandra Alves, pesquisadora do Imazon.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

CUFA Amazonas abre inscrições para aulas gratuitas de dança e esportes em Manaus; saiba como participar

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CUFA amplia acesso ao esporte e cultura em 2026. Foto: Divulgação

A Central Única das Favelas (CUFA) abriu inscrições para aulas gratuitas de ballet, jazz, jiu-jítsu e tênis de mesa, voltadas para crianças, jovens e adultos, em Manaus (AM).

As atividades são voltadas para crianças, jovens e adultos e têm como objetivo ampliar o acesso da comunidade ao esporte e à cultura. Os interessados podem se inscrever pelo telefone (92) 93300-4782.

Leia também: Amazônia Negra: CUFA Amazonas celebra a força ancestral que resiste e transforma o território

As aulas na Cufa

As aulas têm vagas limitadas e acontecem em dias diferentes da semana. Veja as vagas abaixo:

  • Ballet: a partir de 12 anos, às segundas-feiras, das 19h às 21h;
  • Jazz/Contemporâneo: a partir de 12 anos, às quartas ou sextas-feiras, das 19h às 21h;
  • Ballet Infantil: crianças de 6 a 11 anos, aos sábados, das 10h às 11h.

No esporte, a instituição passou a oferecer treinos de jiu-jítsu e tênis de mesa em parceria com o Instituto Paradesportivo do Amazonas (IPA). As aulas atendem turmas infantis e adultas e acontecem às segundas e quartas-feiras, das 13h às 17h, na sede da CUFA.

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Foto: Antonio Lima e Mauro Neto/Secom AM

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Segundo a vice-presidente da central no Amazonas, Fabiana Carioca, o objetivo é ampliar o acesso de comunidades a oportunidades que muitas vezes não estão disponíveis.

Já o presidente da instituição, Alexey Ribeiro, afirma que a meta para este ano é incluir também o basquete adaptado, fortalecendo a participação de pessoas com deficiência.

“As novidades de 2026 representam mais um passo na construção de oportunidades reais, no fortalecimento da cidadania e na formação de campeões para a vida, por meio da cultura e do esporte”, afirma Alexey Ribeiro, presidente da CUFA Amazonas.

‘Beira’: filme produzido em Rondônia é selecionado para festival de curtas francês

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Cena do curta-metragem ‘Beira’. Foto: Divulgação/Curta-metragem ‘Beira’

O curta-metragem rondoniense ‘Beira‘, produzido em Porto Velho (RO), foi selecionado para integrar a programação do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, considerado o maior evento do mundo dedicado ao cinema curto.

O filme foi exibido no dia 5 de fevereiro, na Sessão do Mercado “Brésil 2”, ao lado de outras quatro produções brasileiras.

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Dirigido pela cineasta Marcela Bonfim, Beira está entre os cinco curtas escolhidos em todo o país para representar o Brasil no Marché du Court Métrage, espaço do festival voltado à circulação e difusão de obras audiovisuais no mercado internacional.

O festival, criado em 1979, é hoje o maior do mundo no formato curta-metragem e o segundo maior evento cinematográfico da França em público e presença profissional, atrás apenas do Festival de Cannes.

Saiba mais: Edital Brasil com S: produções apresentam a Amazônia ao mundo em estreias no Brasil e no exterior

Beira

Beira conta a história de Eva, uma mulher negra e lésbica que retorna a Porto Velho após anos afastada para cuidar da antiga casa da avó, Dona Dora. No reencontro com a cidade, a personagem lida com memórias, afetos e conflitos, em um território que a acolhe e, ao mesmo tempo, a rejeita.

A narrativa aborda temas como pertencimento, memória e resistência a partir das margens da capital rondoniense, com uma estética que dialoga com o cinema negro, o realismo poético e a espiritualidade.

'Beira': filme produzido em Rondônia é selecionado para festival de curtas francês
Foto: Divulgação/Curta-metragem ‘Beira’

Para Marcela Bonfim, a exibição do curta em festivais nacionais e internacionais representa a valorização de narrativas historicamente invisibilizadas.

“Ocupar os espaços onde as narrativas acontecem é fundamental para marcar a nossa própria existência, sobretudo quanto lugar é uma terra como Rondônia, uma terra forte, cheia de histórias e legados ainda negligenciados pelo próprio país. É simplesmente iluminar uma potência que sempre esteve ali e agora se expande pro mundo”, disse.

Antes da exibição na França, Beira integrou a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, no Cine Praça. A exibição marca a estreia nacional do curta.

Mangal das Garças fortalece formação acadêmica com visitas técnicas

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Estudantes vivenciam de perto a realidade dos empreendimentos voltados à fauna no Parque Mangal das Garças em Belém. Foto: Marjorie Brito/OS Pará 2000

O Parque Zoobotânico Mangal das Garças é um dos maiores pontos turísticos e de conservação em Belém (PA). Além disso, o complexo é referência internacional em diversas pesquisas, como na reprodução de borboletas e na reprodução de guarás.

Como um grande polo de diversidade de flora e fauna, o complexo possui parcerias com algumas universidades, como a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), para visitas técnicas de alunos da graduação e da pós-graduação.

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Rebecca Vasconcelos é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCAN) da UFPA e conta sua experiência como visitante:

“Os responsáveis (biólogos e médicos-veterinários) fazem um trabalho maravilhoso com os estudos que já possuem principalmente com os passeriformes, que são os animais centrais e que chamam a atenção nesse ponto turístico de Belém. Eu não sou da área de animais silvestres, sou engenheira de pesca, mas é sempre bom e válido entender tudo o que nos rodeia, como é visto no mangal. Experiência única que a universidade proporcionou, juntamente com a colaboração das nossas professoras e da equipe do mangal. Gostei bastante”.

parque mangal das garças, em belém
Foto: Marjorie Brito / OS Pará 2000

O Parque é constantemente um local escolhido para o aprendizado de discentes que têm grade curricular ou alguma atividade relacionada a zoológicos. O biólogo Basílio Guerreiro participa diretamente das visitas, guiando e tirando dúvidas dos estudantes.

“As atividades são relacionadas com a grade curricular da disciplina que os alunos estão estudando. Por exemplo, se a disciplina é ‘Animais Silvestres, Produção e Conservação’, o professor repassa o tópico que será importante ser visto na visita. Neste caso, falamos como é o processo de manejo dos animais em cativeiro, como é a dieta, os cuidados com a saúde e uma parte fundamental, que é o gerenciamento de estresse. Apresentamos os programas de enriquecimento ambiental aplicados no mangal. Em uma das últimas visitas, os alunos tiveram a oportunidade de ver a aplicação e as respostas dos animais”.

Leia também: Parque Zoobotânico Mangal das Garças, em Belém, destaca atuação dos biólogos

Foto: Marjorie Brito / OS Pará 2000

A equipe técnica do parque segue todos os protocolos de segurança para o cuidado com os visitantes. Na maioria dos casos, os discentes não realizam contato direto com a fauna por questões de segurança sanitária. Caso cursem ou estejam relacionados a atividades médicas, os discentes precisam estar com as vacinas em dia e, depois, realizam as atividades com os profissionais do Mangal no auxílio.

Brenda Braga é professora bióloga, pós-doutoranda em Ciência Animal, e compartilha que, desde que era aluna da graduação, participou de visitas técnicas no Complexo, o que lhe permitiu ampliar seus conhecimentos de maneira prática, além de contribuir diretamente para seu crescimento acadêmico.

Como professora, conta que esse tipo de experiência proporciona uma vivência muito relevante para os alunos: “Eles vivenciam de perto a realidade dos empreendimentos voltados à fauna em nossa região, além de observar o trato e o manejo de animais silvestres, sempre respeitando o bem-estar animal. Essa vivência contribui para o desenvolvimento de uma visão mais crítica e profissional, o que reforça a importância desse tipo de ação na formação acadêmica, ao preparar os estudantes para os desafios reais da atuação profissional e estimular a consciência ambiental”, explica.

Foto: Marjorie Brito / OS Pará 2000

A doutoranda em Ciência Animal, pelo PPGCAN/UFPA, Cristiany Nonato afirma que o Mangal é um verdadeiro laboratório a céu aberto.

“Conseguimos ver a ciência fora do papel e entender, na prática, como funciona o manejo e a recuperação da fauna, além da preservação do ecossistema de várzea em plena área urbana. Destaco que a visitação da qual participei foi muito enriquecedora para a nossa formação profissional, porque possibilita aprendizado na prática, unindo teoria, experiência e contato direto com a natureza. Vale ainda ressaltar que a equipe técnica e gestora do Mangal é maravilhosa e muito competente”.

Serviços no Mangal das Garças

Para realizar o agendamento de visitas técnicas ao Parque Zoobotânico Mangal das Garças, é necessário mandar email para: infomangal@para2000.com.br. O Mangal funciona de terça a domingo das 8h às 18h. 

*Com informações de OS Pará 2000

PrevisIA: inteligência artificial aponta 5,5 mil km² com risco de desmatamento na Amazônia em 2026

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Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

A queda na derrubada da Amazônia observada nos últimos três anos precisa continuar para que o Brasil chegue a 2030 com a meta de desmatamento zero cumprida. Por isso, é essencial que as ações de proteção da floresta sejam direcionadas às áreas mais ameaçadas, desafio que pode contar com a tecnologia como aliada.

Nos últimos cinco anos, a plataforma de previsão de desmatamento por inteligência artificial PrevisIA tem indicado os territórios com maior risco de perda florestal com assertividade média de 68% a até 4 km das áreas apontadas. Para 2026, a ferramenta indicou que 5.501 km² estão sob risco de desmatamento na Amazônia.

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O objetivo da plataforma é auxiliar ações de proteção da floresta. Ou seja: evitar a derrubada estimada.

“A assertividade da PrevisIA reduziu em 2025 com a queda do desmatamento, o que foi muito positivo para o Brasil, país anfitrião da COP30. Além disso, se tivermos acesso aos dados sobre as áreas onde ocorreram as operações de combate ao desmatamento em 2025, poderemos estimar o quanto de floresta foi efetivamente poupada, fornecendo evidências irrefutáveis de que as intervenções conseguiram evitar a destruição”, afirma Carlos Souza Jr., coordenador do programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, instituto de pesquisa que criou a ferramenta.

Mapa mostra áreas sob cinco categorias de risco de desmatamento: muito alto, alto, moderado, baixo e muito baixo
Mapa mostra áreas sob cinco categorias de risco de desmatamento: muito alto, alto, moderado, baixo e muito baixo. Imagem: Divulgação/Imazon

Além de indicar as áreas, a ferramenta ainda as classifica conforme cinco categorias de risco: muito alto, alto, moderado, baixo e muito baixo.

“O objetivo dessa classificação é fornecer informações detalhadas do risco de desmatamento para governos, setor privado e sociedade em geral, para apoiar ações preventivas. No final do ano, queremos que a PrevisIA erre a previsão. Ou seja: que essas florestas e seus serviços ambientais sejam protegidos e as emissões de carbono sejam evitadas”, completa Souza Jr.

Para 2026, a PrevisIA indicou que 1.686 km² de floresta estão sob risco muito alto ou alto de desmatamento, o que representa 31% do total. Outros 1.056 km² (20%) estão sob ameaça moderada e 2.759 km² sob risco baixo ou muito baixo (50%). “Evitar a derrubada nessas áreas pode inclusive viabilizar mecanismos de finanças florestais para pagamentos por desmatamento evitado na Amazônia”, indica o pesquisador.

Leia também: Pesquisadores desenvolvem IA que identifica desmatamento na Amazônia

A estimativa da ferramenta segue o chamado “calendário do desmatamento”, que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte, assim como os dados oficiais do governo federal. Conforme o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram devastados 5.112 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025, o que representa uma queda de 18% em relação ao período anterior.

“Além de analisar o risco de desmatamento com a PrevisIA, acompanhamos também como as estradas estão avançando na Amazônia, já que costumam abrir caminho para novas derrubadas. Inclusive, já conseguimos estimar onde há risco de novas estradas surgirem, o que ajuda a antecipar áreas de risco do desmatamento. Esse modelo de risco de expansão de estradas foi publicado recentemente na revista científica PNAS, e todos esses dados já estão disponíveis ao público no site previsia.org.br“, afirma Stefany Pinheiro, cientista de dados da plataforma.

Desde 2020, a análise espacial mostra que o desmatamento ocorre majoritariamente próximo às vias de acesso, com cerca de 95% da derrubada concentrada a até 5,5 km de distância de uma estrada. “Isso evidencia a forte associação entre abertura de estradas e o avanço do desmatamento na Amazônia, reforçando a importância de monitorar essa dinâmica para antecipar as áreas sob maior pressão”, completa Pinheiro.

Pará, Amazonas e Mato Grosso representam 72% do risco

A PrevisIA também indica a área sob risco de desmatamento em cada estado da Amazônia, dividida por classe de risco. Para 2026, Pará (36%), Amazonas (18%) e Mato Grosso (18%) lideram o ranking. Apenas os três concentram 72% de todo o território ameaçado na Amazônia, somando 4.049 km² sob risco.

“A análise estadual é importantíssima para que os órgãos competentes possam atuar em defesa da Amazônia. No Pará, por exemplo, o Imazon possui parceria com o Ministério Público Estadual (MPPA) e com a Defensoria Pública do Estado (DPE-PA) para usar a PrevisIA em ações de prevenção ao desmatamento em solo paraense”, explica Alexandra Alves, pesquisadora do Imazon.

“A ferramenta também possibilita análises municipais, favorecendo a adoção de políticas públicas pelas secretarias de meio ambiente e demais órgãos ligados às prefeituras na proteção da floresta”, completa Alves.

Para 2026, apenas os 10 municípios com maior área sob risco de desmatamento concentram 20% de toda a área ameaçada na Amazônia. Metade deles está no Pará, dois no Amazonas, dois em Mato Grosso e um em Rondônia.

Os líderes do ranking são os paraenses São Félix do Xingu e Altamira, municípios historicamente ligados à expansão do desmatamento na Amazônia. Além deles, as cidades amazonenses de Apuí, que ficou em quarto lugar, e de Lábrea, em sexto, chamam a atenção por se localizarem na Amacro, região de expansão agrícola na divisa do Amazonas com o Acre e Rondônia. 

Dez terras indígenas concentram 44% do risco de desmatamento

Para 2026, a PrevisIA estimou 357 km² sob ameaça de devastação em territórios indígenas, sendo 44% apenas nas 10 mais ameaçadas. A liderança do ranking ficou com a Terra Indígena Kayapó, no Pará, com 31 km² sob risco. Em 2024, o território possuía a maior área de garimpo ilegal na Amazônia, segundo o MapBiomas. Por isso, em julho de 2025, o governo federal iniciou uma operação de desintrusão no território. “Ações como essa podem impedir o avanço do desmatamento ilegal no território e são necessárias para as outras terras indígenas que estão entre as mais ameaçadas da Amazônia”, afirma Souza Jr.

Além do Kayapó, outros cinco territórios indígenas paraenses possuem as maiores áreas sob risco de derrubada: Parque do Xingu (que também possui parte da área em Mato Grosso), Apyterewa, Alto Rio Guamá, Cachoeira Seca e Munduruku. Isso faz o e\Estado ser o mais crítico para a proteção dos povos originários e suas florestas na Amazônia, segundo a PrevisIA. Amazonas, Mato Grosso, Roraima e Maranhão também possuem terras indígenas entre as 10 mais ameaçadas.

Unidades de Conservação Estaduais possuem maior risco de devastação

A PrevisIA também indicou 598 km² de desmatamento em unidades de conservação, sendo 339 km² (57%) em áreas estaduais, 246 km² em federais (41%) e 12 km² em municipais (2%). “Esse dado reforça a necessidade dos estados atuarem fortemente na proteção desses territórios, com foco nos mais ameaçados”, comenta Pinheiro.

Apenas as 10 unidades de conservação sob maior ameaça na Amazônia concentram quase metade de todo o risco de desmatamento dentro desses territórios, segundo a PrevisIA. A liderança do ranking ficou com a APA Triunfo do Xingu, no Pará, e com a Resex Chico Mendes, no Acre, ambas que figuram há anos entre as mais desmatadas na Amazônia.

Conheça a ferramenta

Lançada em 2021 pelo Imazon em parceria com a Microsoft e o Fundo Vale, a PrevisIA é uma plataforma inovadora que utiliza a inteligência artificial para indicar áreas sob risco de desmatamento na Amazônia. E, com isso, fornecer dados para evitá-lo.

Sua metodologia analisa um conjunto de variáveis como a presença de estradas legais e ilegais, o desmatamento já ocorrido, as classes de territórios, a distância para áreas protegidas, os rios, a topografia, a infraestrutura urbana e informações socioeconômicas.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon

Quadrinista parintinense lança graphic novel inspirada na cosmogonia indígena amazônica

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Graphic novel de ficção fantástica utiliza como base narrativa o universo das lendas, mitos e da cosmogonia das etnias indígenas brasileiras. Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal

O quadrinhista parintinense Romahs Mascarenhas, que há 14 anos integra a equipe de roteiristas da Maurício de Sousa Produções, lança neste domingo (8) a graphic novel ‘Akitãi e os Caçadores de Mapinguari’. A obra marca o início das atividades do Estúdio Romahs, e o lançamento está marcado para 18h30 no Encruzilhada Bar, localizado na Rua Ferreira Pena, nº 145, no Centro de Manaus (AM).

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O evento também conta com apresentação musical dos artistas Famorelo e José Choque, com violino, harpa e violoncelo.

Quadrinhista parintinense lança graphic novel inspirada na cosmogonia indígena amazônica
Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal

Universo das lendas na graphic novel

A obra de ficção fantástica ‘Akitãi e os Caçadores de Mapinguari’ utiliza como base narrativa o universo das lendas, mitos e da cosmogonia das etnias indígenas brasileiras.

Com forte viés regionalista e folclórico, a publicação inaugura uma saga épica idealizada por Romahs, construída a partir de extensa pesquisa sobre mitologias indígenas da Amazônia.

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Foto: Romahs Marcarenhas/Acervo pessoal

Entre as principais referências utilizadas no desenvolvimento da obra está o livro ‘Antes o Mundo Não Existia’, coletânea de narrativas míticas que apresenta a história da criação do mundo segundo a cosmogonia do povo Dessana, etnia indígena que habita a região do Alto Rio Negro, no Amazonas.

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Segundo a tradição, a criação do universo é atribuída a Yebá Beló, conhecida como a Avó do Mundo, entidade que teria surgido do nada e criado a ‘Maloca do Mundo’ e a humanidade por meio de sementes distribuídas por um demiurgo que viajava sobre a cobra-canoa.

A narrativa acompanha Akitãi, um jovem que vive com a mãe e a irmã em uma antiga casa no centro de Manaus, até que uma tragédia transforma sua vida. A partir desse acontecimento, o personagem é lançado em uma jornada por uma Amazônia encantada, onde cruza caminhos com figuras como Mátinta Perê, Curupira, Mãe D’água, Cobra-Grande e o lendário Mapinguari.

Estética europeia

Visualmente, a graphic novel segue o formato clássico das publicações europeias em quadrinhos, com capa dura, dimensões de 28 x 20 centímetros e um traço que dialoga com os quadrinhos franceses e belgas, reforçando o caráter épico da obra e estabelecendo um diálogo entre a estética internacional e as narrativas amazônicas.

A obra autoral é financiada pela Lei Paulo Gustavo, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC-AM).

‘Mães’ do primeiro Território de Uso Comum, mulheres do rio Manicoré resistem enquanto a destruição avança no Amazonas

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Maria Cleia testemunha a morte e resiste junto à floresta: vidas que seguem ameaçadas. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

O pacote chegou sem aviso. Não havia nem remetente. Ele estava dentro de uma marmita ainda morna. Para qualquer pessoa, poderia parecer só uma entrega no endereço errado. No entanto, para Silvia Elena Moreira Batista, liderança extrativista do rio Manicoré, um afluente do rio Madeira, no sul do Amazonas, o gesto era um recado claro: “quando chegou a marmita, eu entendi na hora: não era comida, era um aviso. Era para dizer: a gente está de olho em ti.”

Silvia segurou a embalagem por alguns segundos antes de colocá-la sobre a mesa. Não comeu.

Ela, Maria Cleia Delgado Campino e Marilurdes Cunha da Silva são lideranças históricas do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré. TUC é uma categoria fundiária criada no Amazonas para dar o mínimo de proteção fundiária e segurança social a moradores de comunidades tradicionais fora de áreas protegidas. Ele foi criado após os moradores locais conquistarem uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, um instrumento jurídico por meio do qual o poder público autoriza um grupo ou comunidade a utilizar terras públicas, de forma gratuita ou mediante pagamento, por prazo determinado ou indeterminado. 

Um TUC é como um título para vários donos da terra e utilizado em processos de regularização fundiária, especialmente em áreas de uso comum. Essa concessão assegura a posse coletiva e o uso sustentável da área, sem transferência da propriedade do imóvel.

A categoria do TUC foi regulamentada pelo Decreto nº 50.941/2024 do governo do Amazonas. Esse tipo de território é inédito no Brasil – é resultado de uma luta pela proteção territorial que tirou a paz da comunidade por muitos anos e virou sinônimo de insegurança, especificamente para as mulheres.

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Cinco anos de jornada

Acompanho como jornalista o rio Manicoré desde 2021, observando a luta para combater as invasões, as ameaças e todo o tipo de ilegalidade contra o lar dos moradores da região que abriga 15 comunidades e cerca de 4.500 moradores. Em 2025, voltei ao TUC pela terceira vez. Flagrei  o mesmo cenário: ausência do poder público, desmatamento e garimpo ilegais. Nesta reportagem, eu conto, em uma linha do tempo, a história de três mulheres-chave dentro da resistência do território: as “mães” do TUC do Rio Manicoré. 

‘Mães’ do primeiro Território de Uso Comum, mulheres do rio Manicoré resistem enquanto a destruição avança no Amazonas
Clareira flagrada pela reportagem mostra desmatamento ilegal e carregamento de madeira sem autorização dos moradores na região do Pedral. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

Em Manicoré, a 390 quilômetros de Manaus — acessível apenas por água ou pelo ar —, as ameaças não vêm com bilhete, mas disfarçadas de cotidiano: uma fofoca na mesa de bar, um disse-me-disse na igreja, uma conversa informal entre amigos. Depois, elas desembarcam no território, nos ouvidos ou no celular dos destinatários.

Elas não chegam aos berros. Chegam educadas, sorridentes, com um discurso cheio de promessas de dias melhores. Não anunciam violência com objetividade; é a tal da passividade agressiva que instala a angústia entre os alvos das ameaças e suas famílias.

Silvia Elena é secretária nacional de direitos humanos do CNS. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil

 “Eu vivo assim [preocupada], porque não posso deixar Manicoré para trás e me mudar para outra cidade”, me disse Silvia. “Minha família está toda aqui. Todo mundo sabe quem eu sou”, acrescenta. “A violência não precisa dizer que vai matar. Ela só precisa te deixar em alerta o tempo todo”, fala com a voz rouca e embargada.

Silvia nasceu na comunidade Três Estrelas, uma das 15 comunidades do TUC, em uma família de extrativistas que cortavam seringa, principalmente, mas também plantavam. Ela foi para a sede de Manicoré estudar e, depois, para Manaus. Construiu uma trajetória no serviço público, na gestão ambiental, inclusive de Unidades de Conservação. Hoje, atua no terceiro setor como secretária de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

“As ameaças não chegam direto. Elas chegam por terceiros, chegam pelos comentários, chegam pela família. Às vezes alguém vem e diz: ‘estão falando de ti’. Às vezes é um olhar atravessado. Isso vai criando um clima que não te deixa em paz”, relata Maria Cleia Delgado Campino, presidente da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (Caarim). “Eles não dizem que vão matar. Dizem que o nosso caixão já está pronto”, acrescenta a professora Marilurdes Cunha da Silva, outra liderança histórica do território.

 Encontro das águas barrentas do rio Madeira com as escuras do rio Manicoré, logo no início do território. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil

Margens que se cruzam

Quando minha vida entrou no curso do rio Manicoré, em 2021, o Amazonas passava por um dos anos mais difíceis da história recente, no auge da pandemia de Covid-19. Todos se asfixiaram de muitas formas. Eu trabalhava na secretaria-executiva do Observatório BR-319, uma rede de organizações da sociedade civil que monitora o processo de licenciamento da rodovia entre os estados do Amazonas e de Rondônia, e acompanhava denúncias da área de influência da estrada. 

Como comunicadora socioambiental, essa foi uma das minhas primeiras missões: noticiar invasões de grilagem, retirada ilegal de madeira, abertura de ramais, dragas por boatos de ouro no rio Manicoré. Logo descobri que quase sempre as mulheres são as principais vozes dessas denúncias.

Vista aérea do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Arquivo Pessoal

Eu, Izabel, me perguntava: “por que é tão difícil mandar fiscalização para lá?”. A resposta não estava na geografia amazônica, mas na política socioambiental do Brasil que, à época, estava sendo implodida em todas as esferas — municipal, estadual e federal. Era o governo de Jair Bolsonaro, com Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente.

Depois disso, nós queríamos entender o porquê que mesmo com a criação do TUC e com a área “no radar” do Estado, a situação persistia. Entre novembro e dezembro de 2025, na terceira vez que estive no TUC do Rio Manicoré, estava acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe. Peguei um barco na sede de Manicoré, no rio Madeira, para adentrar o rio afluente. 

Dragas de garimpo operam livremente nos rios Madeira e Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro

Manicoré. Foto: Izabel Santos/Jornal Varadouro

Não demorou para as dragas de garimpo aparecerem em longas “fofocas” — o agrupamento de várias dragas enfileiradas uma ao lado da outra — na boca do rio Manicoré. Flagramos e fotografamos as áreas desmatadas, os pátios de armazenamento de madeira e até uma balsa carregada de toras rio a dentro. Foi assim, por causa dessas “velhas-novas” histórias, que conheci Maria Cleia Delgado Campino, a Caia, maior liderança do rio Manicoré.

Maria Cleia é baixinha, quase passa despercebida. Cabelos longos e pretos, pele avermelhada e esturricada de sol. Os olhos parecem secos — “eu não choro por nada”, ela garante —, mas sustentam uma mirada firme, daquela que não pisca. A voz é um pouco grave, sempre alta e clara. A dicção às vezes troca o “p” pelo “b” e vice-versa, mas nada comprometedor. “Oi, jornalista Izabel!”, ela dizia nas nossas primeiras conversas.

Registro raro de Maria Cleia sorrindo. Foto: Thiago Araújo/IEB

Perguntei por que ela defendia o rio Manicoré. A resposta: “Porque ele é nossa casa! Se ele deixar de existir, a gente também some! Ele que dá pra gente o peixe, o nosso alimento, a mandioca pra farinha, a água de beber. Os pais dos meus bisavós já moravam aqui. Isso aqui tudo é nosso.

Não levou muito tempo para perceber que o seu tamanho era o próprio território; um território de mulheres ou de mulheres-território.

É assim que elas transcendem a linha de frente das associações comunitárias. Elas sustentam a ideia de pertencimento e de casa: convocam reuniões, enfrentam políticos, falam com promotores, assinam documentos, recebem jornalistas, lutam por políticas públicas e por conservação. Inspiram os demais. 

“As mulheres do TUC do Rio Manicoré assumiram protagonismo decisivo na luta social do território. Esse protagonismo passou a ser atacado por opositores por meio de discursos machistas que as rotulam como atrevidas, histéricas e encrenqueiras. Trata-se de uma tentativa de deslegitimação baseada em gênero, já que comportamentos semelhantes são valorizados quando exercidos por homens”, avalia Josinaldo Aleixo, técnico de campo do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), e que também ajudou a criar o TUC.

“Quando a gente começou a lutar pela proteção do rio, eu não imaginava que ia chegar nesse nível”, me disse Caia.

“Mas quando você mexe com terra, mexe com poder. Quando quem mexe com poder é mulher, a violência é maior”, disse Maria Cleia, resoluta.

Marilurdes, professora e “alma gêmea” de Maria Cleia na luta, fala disso com uma naturalidade que assusta. “Teve uma época que a gente ficou três dias trancada dentro de casa. Não podia sair nem pra comprar comida”. Dona Marilurdes, como a chamo, é emotiva como eu e nossos olhos logo se enchem de lágrimas. Ela pausa, respira, continua. “Mas a gente continuou. Mesmo sendo criticada, mesmo sendo perseguida, mesmo sendo ameaçada de morte”.

Marilurdes ama animais e gatos são o seu xodó. Foto: Izabel Santos/Varadouro

As ameaças contra essas mulheres começaram quando elas decidiram se unir e lutar por medidas mínimas de proteção ao território-casa, onde elas já estavam há gerações. O respeito e a liderança propriamente dita no rio Manicoré é como se fosse uma herança de família. Entre as que entrevistei, foi unanimidade que “meus avós, que não sabiam ler, eram respeitados porque sabiam rezar ladainha, sabiam rezar o terço, faziam via sacra”. A constituição de liderança pela Igreja Católica teve papel importante no desenho de autoridade que vemos hoje no rio Manicoré.

Entre o pertencimento e o papel

“A minha história de luta começou em 2006. Naquela época, a gente não sabia de quem era a responsabilidade pela área onde está o rio Manicoré: se era área estadual, se era federal. Então, em 2006, a gente montou a Caarim, para começar essa luta, principalmente para frear o desmatamento que já estava avançando pela região do km 180, do distrito de Santo Antônio do Matupi”, conta Caia.

Em 2009, após recorrerem ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), as lideranças descobriram que estavam em uma gleba estadual e entraram com o pedido de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Manicoré. “Desde então, começou, de fato, a nossa luta. Na época, o pedido da RDS não foi atendido. O rio Manicoré tem muitas riquezas e também muita pressão de influências políticas. Naquele momento, essas forças eram contrárias à criação da RDS”, recorda Maria Cleia.

A ideia foi ganhando aderência entre os moradores e entre diversas comunidades com mobilização para conseguir assinaturas para a criação da RDS. Mas, segundo Maria Cleia, Marilurdes e Silvia Elena, políticos começaram a interferir no processo, incomodados com o movimento de criação de unidades de conservação na área de influência da BR-319. A ação fazia parte das medidas de ordenamento territorial da Área de Limitação Administrativa Provisória (Alap), que pretendia organizar a região para dar início ao processo de licenciamento do trecho do meio da rodovia. Então, os ânimos se acirraram.

“Quando a luta ficou visível, quando o pedido da RDS avançou e o território ganhou nome, a coisa ficou feia. Terra sem nome é convite. Terra nomeada vira disputa”, contou Silvia Elena.

Nas ruas de Manicoré, corria à boca pequena que seria melhor os membros da Caarim desistirem da ideia da unidade de conservação, pois ela não agradava, principalmente, pessoas do distrito de Santo Antônio do Matupi ligadas a políticos de Manicoré. A localidade registra um dos maiores índices de desmatamento do Amazonas, fruto da expansão agropecuária. 

Caia foi durante muitos anos uma Agente Comunitária de Saúde pela Prefeitura de Manicoré, mas, por causa de sua luta, foi exonerada pelo então prefeito Lúcio Flávio do Rosário (PSD) — um dos nomes que se revezam no comando do município há anos.

O trabalho de Caia não se resumia à Caarim. Ela buscava melhorar a qualidade de vida no território, como a cobrança da execução do Programa Luz Para Todos, que levaria energia elétrica a todas as 15 comunidades. Logo após a reunião que definiu a Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva como solução inicial para a proteção do que hoje é o TUC, houve uma grande mobilização para cadastro para receber luz elétrica nas residências.

Sem apoio financeiro do poder público, os próprios moradores do rio Manicoré custearam o levantamento das informações necessárias para formalizar a solicitação à concessionária Amazonas Energia, uma vez que a prefeitura alegava não dispor de recursos para tal. 

Um marco para a RDS

Em maio de 2016, as intimidações eram tão graves que o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) acionou formalmente o sistema de Segurança Pública do estado. O órgão pedia a proteção de Silvia Elena, então suplente na Secretaria de Mulheres do CNS; de Marilurdes, como integrante da Caarim; de Aroldo da Silva, morador da comunidade Terra Preta e apoiador da luta pela RDS; e de Maria Cleia, como moradora da comunidade Mocambo. A justificativa do MPF, baseada em denúncias apresentadas pelo CNS, foi a de que as lideranças haviam recebido ameaças de morte “em retaliação às suas ações de organização social e política no processo de criação de unidades de conservação”.

As lideranças rejeitaram o acompanhamento permanente de policiais militares sob a alegação de que não se sentiriam seguras. Até hoje, ninguém foi punido pelas ameaças.

“Teve um período em que a gente mudou completamente a rotina. A gente não ia mais em festa, não saía com qualquer pessoa, não pegava qualquer moto táxi. Era orientação do Ministério Público. Isso não deixa de ser uma prisão”, relembra Maria Cleia.

“Teve gente que falou abertamente que um de nós tinha que morrer para a reserva não sair. Isso foi dito em espaço público, em reunião, na cidade”, contou Silvia Elena.

“No período mais intenso das ameaças no rio Manicoré, eu estava sendo ameaçada por um vereador. Ele já tinha ido armado ao escritório (do CNS) para me intimidar. Me perseguia à noite quando eu saía da escola. Na época, eu estava fazendo um curso técnico e, várias vezes, ele tentou me atropelar”, completa, com a voz embargada. A perseguição só parou com a intervenção de uma amiga que se compadeceu da sua situação.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável?

Fim da RDS, chegada do TUC

Em 9 dezembro de 2021, a Caarim foi comunicada, em reunião na Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM), que o processo de criação da RDS tinha sido arquivado, sem aviso às comunidades. Houve choro coletivo, quase briga generalizada. Mas foi ali que nasceu o embrião do Território de Uso Comum (TUC).

Eu estava nessa reunião.

Desci no mesmo elevador com outras pessoas e Marilurdes, que chorava copiosamente e esbravejava que o rio Manicoré havia sido traído. “Fizeram pouco caso da nossa luta! Viemos aqui pra nada!”, dizia, com os olhos vermelhos.

Àquela altura, o procurador de Meio Ambiente do Estado do Amazonas, Daniel Pinheiro Viegas, e o procurador da República, Fernando Merloto Soave, articularam uma reunião com o secretário de Estado das Cidades e Territórios (Sect), João Coelho Braga, o Braguinha, para discutir uma solução mínima de proteção ao território: uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, que regulariza terras de domínio público estadual destinadas a povos e comunidades tradicionais. Era a brecha possível dentro de um Estado que parece estar sempre contra o movimento socioambiental.

Reunião realizada na Sema em que os moradores foram informados sobre o arquivamento do processo de criação da RDS. Foto: Izabel Santos/Varadouro

As lideranças do rio Manicoré também foram recebidas por Braguinha, em 9 de dezembro de 2021. Na ocasião, foi acordado que instituições parceiras da Caarim reuniriam informações de estudos já realizados sobre o território para auxiliar na reabertura do processo de criação da RDS. Mas, para todos os presentes, aquilo soou como um “deixa disso”. Então, o processo parou entre a falta de recursos e a burocracia.

Organizações como Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), IEB, Greenpeace Brasil, Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) reuniram esforços para publicar uma nota técnica sobre a criação da RDS Rio Manicoré, produzida em tempo recorde. O objetivo era cumprir o acordado com a Sect e evitar que a Caarim tivesse que retroceder em etapas importantes, como o levantamento de informações sobre o território.

Então, em 17 de março de 2022, as Concessões de Direito Real de Uso (CDRU) do Rio Manicoré de diferentes territórios foram assinadas pelo governador Wilson Lima (União Brasil), em Manaus. Estávamos nervosos: no microfone, anunciaram entregas de várias concessões para unidades de conservação, menos a do rio Manicoré. Foi quando me levantei da plateia e fui até o local onde imprimiam os documentos para pressionar a assinatura do governador. Só saí para chamar Maria Cleia para a assinatura do documento. 

Maria Cleia assina a CDRU do rio Manicoré no dia da entrega do documento. Foto: Izabel Santos/Varadouro

“A CDRU é um passo importante para a retirada dos invasores da área de uso tradicional e para concluir a criação da unidade de conservação, que vai garantir a atuação dos órgãos de proteção no território. Mas o que vemos é que o Estado não tem agido nessa parte do processo para garantir a proteção desses povos”, me disse, na ocasião, a agrônoma e pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Jolêmia Chagas, da Rede Transdisciplinar da Amazônia (Reta), uma das mulheres engajadas na defesa do rio Manicoré.

O “pai” do TUC — que não gosta de ser chamado assim —, o procurador Daniel Pinheiro Viegas, explica que a CDRU não era a solução final e nem bala de prata. “Ela é uma primeira camada de proteção territorial. É o que dá para fazer quando o Estado se recusa a criar uma unidade de conservação, mas também não pode fingir que aquelas comunidades não existem”, disse. 

“Isso muda tudo, porque dá um mínimo de segurança jurídica num contexto de conflito permanente. O que aconteceu no rio Manicoré não encerrou o conflito. Apenas criou uma trincheira mínima para que as comunidades não sejam esmagadas enquanto o Estado decide o que fazer”, acrescentou.

“A CDRU do rio Manicoré foi uma solução emergencial para conter as invasões. Não era o ideal, mas era o possível diante de um governo que dizia abertamente que não criaria uma unidade de conservação’, me disse recentemente.

Daniel Viegas em videoconferência durante evento sobre TUCs. Foto: Thiago Araújo/IEB

Viegas reconhece que, apesar de a CDRU não ser a etapa final de proteção ao território, mudou o “jogo político e jurídico da disputa”: “Com a CDRU, o discurso muda. A comunidade passa a dizer: ‘o território já é reconhecido, agora queremos a RDS’. Antes, ela só estava pedindo”.

Ele explica que a concessão de direito real de uso é importante porque ela não privatiza a terra, que continua pública, mas passa a ser reconhecida como das comunidades, como se ela tivesse vários donos — e tem. Sobre o seu papel no apoio às mulheres-lideranças do território, ele faz questão de destacar:

“Eu não sou pai de nada. O rio Manicoré tem mães e é aí que reside a beleza dessa luta. Se o território tem alguma filiação é das  mulheres do rio Manicoré. Eu fui instrumento jurídico de uma vontade que já existia”.

Com a CDRU, quase 400 mil hectares passaram a ter uma posse coletiva no papel, como se os 4.500 moradores fossem vários donos da terra. Mas o conflito não acabou. “A gente ganhou o documento, mas não ganhou o sossego”, resumiu Marilurdes. “A invasão continua e a estrada do km 180 até o território continua abrindo.” Mas ela já está sendo aberta. Já tem até nome: Estrada Milton Mayer. A reação à CDRU veio forte.

Mais ataques

Pouco mais de um mês após a entrega da CDRU, agora como secretária de Direitos Humanos do CNS, Silvia Elena Batista Moreira sofreu uma tentativa de agressão física e ameaças — gritos cara a cara — por parte dos vereadores Charles Meireles (MDB) e Newton Cabral de Azevedo Neto (PSD), de Manicoré, durante uma reunião com o MPF — na presença de procuradores —, para esclarecimentos sobre a CDRU.

A agressão só não se concretizou porque alguns participantes contiveram os parlamentares e fizeram um escudo humano na frente de Silvia. O fato só repercutiu porque eu e outros colegas jornalistas de ONGs, que integravam a rede do Observatório BR-319, insistimos com a imprensa sobre a gravidade da situação.

Depois, em um evento organizado por ruralistas contrários à criação da RDS em Manicoré, o governador do Amazonas, Wilson Lima, atacou organizações ambientais e declarou que “iria barrar o pedido das comunidades tradicionais”. “Tem gente levantando a ideia de que se vai criar uma Reserva [no rio Manicoré]. Esqueça que não há a menor possibilidade disso acontecer. Eu vou lutar contra quem quiser fazer isso. Eu vou até às últimas consequências”, afirmou, justificando sua posição pela existência de riquezas como madeira e supostamente ouro no território.

“A violência não acabou depois da CDRU. Ela só mudou de forma. Hoje, ela aparece mais na intimidação, na deslegitimação, no constrangimento público. É como se o território tivesse sido reconhecido no papel, mas a nossa vida continuasse em disputa”, diz Silvia Elena.

Os conflitos territoriais localizados no sul do Amazonas vão além das disputas fundiárias ou ambientais: revelam a sobreposição de interesses econômicos, relações de poder e desigualdades de gênero, conforme aponta o antropólogo Cloves Pereira:

“Quando um território é delimitado, nomeado e reivindicado coletivamente, deixa de ser invisível e passa a existir no campo das disputas de poder”, afirma.

“São as mulheres que sustentam o cotidiano da vida comunitária: o quintal produtivo, a roça, as sementes, a alimentação. Esse trabalho é central para a segurança alimentar, mas historicamente invisibilizado e sem política pública”, completa.

Quando essas mulheres extrapolam os espaços tradicionalmente associados a elas — a casa e o quintal — e assumem posições de liderança política, denúncia e articulação institucional, ocorre um deslocamento profundo nas relações de poder. “Elas passam a ocupar espaços que sempre lhes foram negados, e esse deslocamento provoca reações violentas; tornam-se alvos preferenciais de violências físicas, simbólicas e institucionais, usadas para deslegitimar e silenciar a luta territorial”, afirma Pereira.

Enquanto as assimetrias de poder e de gênero persistirem, elas continuarão a enfrentar um duplo confronto: contra projetos econômicos predatórios e contra hierarquias que atravessam tanto o Estado quanto as próprias comunidades, analisa o pesquisador.

Corpos marcados para morrer

Relatórios do Instituto Igarapé, da Global Witness e da Comissão Pastoral da Terra revelam que mulheres defensoras ambientais da Amazônia estão expostas a uma violência desproporcional, produzida pela convergência entre conflitos territoriais, interesses econômicos e desigualdades de gênero. Estudos que mapeiam a Bacia Amazônica — incluindo Brasil, Colômbia e Peru — mostram que a taxa de violência contra mulheres na região é quase o dobro da registrada no restante desses países, especialmente em áreas marcadas por conflitos socioambientais, disputas pela posse da terra, água e recursos naturais.

A violência que atinge o rio Manicoré não é exceção. “O Brasil figura de forma recorrente entre os países mais perigosos do mundo para defensores e defensoras da terra e do meio ambiente, enquanto a América Latina permanece como a região mais letal do planeta. As mulheres defensoras desempenham um papel fundamental na defesa da terra, através de um extenso trabalho ‘invisível’, que permanece não reconhecido dentro de sistemas patriarcais”, diz Laura Furones, autora principal do relatório da Global Witness lançado em 2025.

No Brasil, as mulheres representam pouco mais de 38% das vítimas de violência contra a pessoa em conflitos no campo, desconsiderando os casos sem identificação de gênero. Os estados com maior número de registros são Pará, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

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As principais violências sofridas incluem contaminação por minério, intimidação e ameaças de morte, além de criminalização, prisões e tentativas de assassinato. A CPT alerta que a ausência de registros de estupro não indica inexistência do crime, mas alta subnotificação, realidade comum também fora do contexto agrário.

Na Amazônia, foram identificadas 184 mulheres vítimas de violência no campo em 2024, frente a 273 homens, além de um número expressivo de casos sem identificação de gênero.

Entre as mulheres, predominam os registros de:

  • contaminação por minérios (102),
  • seguidos por intimidação (27),
  • criminalização (19),
  • ameaças de morte (16),
  • prisões (10)
  • e tentativas de assassinato (3).

Para Cecília Gomes, coordenadora nacional da CPT, a violência contra mulheres defensoras tem raízes históricas na formação do território brasileiro e atinge de forma especial mulheres indígenas, para quem a destruição ambiental representa uma agressão direta aos seus corpos e modos de vida. “As mulheres não se sentem parte da natureza, elas se sentem natureza”, afirma.  

Enfrentar essa violência, afirma, exige não apenas políticas públicas e responsabilização dos agressores, mas também a desconstrução de uma cultura, mas também pela construção de uma cultura de respeito, amorosidade e valorização da vida, capaz de reconhecer mulheres, povos tradicionais e comunidades como sujeitos de direitos e de histórias próprias. 

 E a vida resiste 

Sobrevoo do Greenpeace Brasil e junho de 2022 sobre a área da CDRU. Foto: Christian Braga/Greenpeace Brasil

Agosto de 2022, cinco meses após a comemoração da assinatura do TUC, veio a cereja amarga do bolo: um incêndio de cerca de 2 mil hectares em área recém-desmatada no Tracajá, acesso a Santo Antônio do Matupi. A queimada, denunciada previamente por organizações socioambientais, avançava sobre a floresta do rio Manicoré.  A denúncia foi encaminhada pelo MPF ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM), que, meses depois, arquivou.

Já em 2025, presenciamos como as mulheres continuam semeando a vida, mesmo após as tragédias. Estivemos no rio Manicoré, hospedadas na casa de Caia, na comunidade Mocambo. Um pequeno paraíso onde ela e a família vivem e produzem. A roça cultivada por Maria Cleia é um retrato da diversidade que sustenta a vida. Ali, a mandioca não é uma só, são muitas, cada uma com seu tempo, seu uso, seu gosto e sua exigência.

“Mandioca não é tudo igual. Cada uma tem seu jeito e a gente aprende isso vivendo com elas”, explicou.

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Maria Cleia mostra sua roça no Mocambo. “Eu que plantei tudo”, diz. Foto: Izabel Santos/Varadouro

Todas as variedades de mandioca são cultivadas na roça de Maria Cleia, que ela mesma limpa, planta e cuida. A roça fica em um terreno íngreme, acima da casa, com acesso por um tucumanzal. A terra é fofa, macia, escura e tem cheiro bom. Ao redor, tem uma capoeira alta que protege o roçado. “Essa roça aqui é meu trabalho e meu orgulho”, diz Cleia. “Isso aqui garante comida, farinha e que a gente não dependa de ninguém”, conta. 

Maria Cleia mostra a macaxeira símbolo do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro

Além da mandioca, a pesca é fundamental para as famílias do rio Manicoré, garantindo peixe por meio da captura de diversas espécies nos lagos, igarapés e no leito do rio, parte para consumo e parte para venda na cidade, sempre procurando respeitar os acordos comunitários e períodos de reprodução.

A agricultura familiar complementa essa base, com roçados que seguem o ritmo do clima e produzem, também, frutas, grãos e hortaliças, que asseguram alimentação e renda extra.

Somam-se a isso o extrativismo de produtos como castanha-da-amazônia, açaí, buriti e óleos medicinais, coletados com base no conhecimento tradicional e voltados ao consumo e à comercialização em pequena escala, além da criação de pequenos animais, fortalecendo a autonomia e a reprodução do modo de vida comunitário.

O peixe é um alimento importante para a subsistência no rio Manicoré. Foto: Marilza Cruppe/Varadouro

O Tracajá e o Pedral

No final de 2025, acompanhada da fotojornalista Marizilda Cruppe, vi de perto o que, até então, aparecia em mapas, alertas de satélite e denúncias formais. Percorremos o território por rio e por terra. O que encontramos foi um cenário de violação contínua, incompatível com qualquer ideia de proteção territorial efetiva. Não vimos nenhum órgão de fiscalização ou sinal da presença deles.

No momento em que subimos o drone, a balsa estava sendo carregada de madeira, que estava guardada no pátio da imagem anterior. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

Do alto, visto de drone, a floresta parecia intacta à primeira vista, um tapete verde contínuo. Mas basta descer um pouco para enxergar as aberturas, tipo feridas na mata. Clareiras abertas, estradas de barro avançando em linha reta, pátios (gigantes) de madeira cravados no interior do território. No rio, vimos balsas carregadas de toras descendo tranquilamente. Em outros trechos, na embocadura com o rio Madeira, dragas de garimpo operam próximas às margens, revirando o leito do rio e turvando a água usada pelas comunidades para beber, cozinhar e pescar.

Balsa carregada no Pedral. Registro feito dois dias depois do carregamento, já no rio Madeira, na saída do rio Manicoré. Foto: Izabel Santos/Varadouro

Acordamos de madrugada e seguimos até a área conhecida como Tracajá, o local da queimada de 2022. Chegamos debaixo de chuva, que só piorava, e subimos pela estrada aberta para dar acesso a um imenso desmatamento. 

No chão, toras abandonadas empilhadas em pátios improvisados, marcas aparentemente frescas de máquinas pesadas, lama revolvida. Não parecia um desmatamento antigo, abandonado, porque com as fortes chuvas da época, aquelas marcas e lixo deixados por quem esteve ali, já deveriam ter desaparecido. Parecia uma atividade em curso, ativo, com circulação de pessoas e equipamentos.

Caminho que dá acesso à Estrada Milton Mayer, ligando o TUC a Santo Antônio do Matupi. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

Maria Cleia nos acompanhou em silêncio. Caminhou pela estrada aberta no meio da floresta e apontava o que já não estava mais ali. Falava irritada. “Esse caminho aqui que dá acesso à estrada do desmatamento destruiu todo o castanhal do Seu Lazarino, lá da comunidade Lago dos Remédios, dentro do TUC do Rio Manicoré. Ele coletava nesse local. Hoje não existe mais esse castanhal. Todo esse desmatamento está dentro do território de uso comum e vem prejudicar as populações do rio Manicoré, as comunidades que vivem aqui”.

O castanhal, explicou, era fonte de renda, de alimento e de continuidade para uma família inteira. Foi derrubado para abrir caminho para o desmatamento avançar.

Entre as toras empilhadas, latas de cerveja espalhadas pelo chão indicavam a passagem recente de pessoas na área. Nada parecia improvisado. Não adentramos mais a estrada aberta porque chovia muito e o chão era de um barro ensaboado.

Maria Cleia em cima de uma das toras encontradas na região do Tracajá. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

Questionada pela reportagem, a Sema se isentou de responsabilidade: “A formalização dos TUCs é de competência da Secretaria de Estado das Cidades e Territórios (Sect). No caso do TUC do Rio Manicoré, a Sema prestou apoio técnico em etapas complementares, como a elaboração do plano de gestão, publicado em 2025, a formação de instâncias de governança comunitária e a concessão do Contrato de Direito Real de Uso (CDRU), efetivada em 2022”, disse trecho da nota enviada, sem responder às perguntas da reportagem. “As ações de fiscalização ambiental relacionadas a desmatamento ilegal, garimpo e pesca irregular são de competência do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam)”, completou. Procurado até o fechamento desta reportagem, o órgão fiscalizador não se pronunciou.

O conflito acontece agora, em tempo real, e não é abstrato. Ele acontece diante da ausência de fiscalização permanente e da lentidão deliberada do Estado. O território foi reconhecido. A proteção, não.

Central das Associações Agroextrativistas do rio Manicoré (CAARIM) luta pela preservação de rios, florestas e da biodiversidade. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Varadouro, escrito por Izabel Santos