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Como Norte e Nordeste se adaptam ao avanço do calor extremo intensificado pelo El Niño?

Seca e crise hídrica em rios da Amazônia, em 2024. Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil

“A impressão que eu tenho é que a própria gestão está perdida sobre o que fazer”.

A fala de Joice Paixão reflete a sua preocupação sobre a chegada do El Niño e seus impactos nas periferias do Recife. Moradora da Zona Oeste da cidade, a presidenta da Associação Gris Solidário e secretária executiva da Rede Por Adaptação Antirracista, acredita que, mesmo com os alertas dos especialistas de que esse pode ser o evento climático de maior proporção a atingir o Brasil desde os anos 1950, o Estado ainda está aquém e não apresentou um plano eficaz para mitigar as consequências nas regiões mais vulneráveis e suscetíveis aos desastres climáticos e ambientais. 

Em outra região do país, o paraense Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática, compartilha da mesma preocupação de Joice Paixão. Ele reforça a importância de que os governos federais, estaduais e municipais passem a estabelecer um maior diálogo com a população para que as informações cheguem de maneira mais acessível e sejam compreendidas da melhor forma possível por aqueles que sofrerão de forma direta os impactos da chegada do fenômeno.

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“Os dados do Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] são muito fortes e impactantes, mas esses dados não estão chegando para a população. São dados que são debatidos por técnicos e especialistas e que muitas vezes ficam só no âmbito do governo. Então, eu acredito que um passo importante é levar esses dados para as pessoas”, defendeu Farias. 

Os dados e informações mencionadas por Alex dizem respeito ao alerta que vem sendo feito há meses por meteorologistas e especialistas sobre o El Niño 2026. No dia 11 de junho deste ano, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciava a chegada oficial do fenômeno climático, que deve atingir grandes proporções. De acordo com o Inmet, “historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens, redução da umidade do solo e impactos sobre os recursos hídricos”. 

Como consequência do aquecimento global, o fenômeno do aquecimento das águas do Oceano Pacífico, conhecido popularmente como El Niño, apresenta uma tendência de ser ainda mais intenso. A previsão de um conjunto de multi-modelos (North American Multi-Model Ensemble – NMME) indica que há 63% de chances do El Niño ficar muito forte durante os próximos meses de novembro e dezembro deste ano, e janeiro de 2027, o que pode classificá-lo como um dos eventos mais fortes nos registros históricos desde 1950.

Leia também: Entenda as previsões para o Super El Niño em 2026, que promete ser o mais intenso da década

“O que acontece quando a gente tem esse aquecimento no Pacífico? Essa condição muda a circulação do ar, que começa a ter correntes descendentes de ar seco e quente sobre a região da Amazônia e boa parte do Nordeste do Brasil. Essas características começaram a ficar muito nítidas a partir de maio”, explica o meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Humberto Barbosa. 

Como Norte e Nordeste se adaptam ao avanço do calor extremo intensificado pelo El Niño?
Adolescente deitado na rede às margens de praia que se formou após a seca do rio Solimões, em 2024. Foto: Jullie Pereira/InfoAmazonia

Com imagens de satélite, o cientista tem monitorado de forma frequente os impactos do El Niño na atmosfera do Brasil e divulga, também, quais áreas do país estão mais suscetíveis a enfrentar fenômenos climáticos como secas e queimadas. 

“Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico — entre os meses de outubro, novembro e dezembro — nós enfrentaremos um El Niño de proporções extremas, para definir melhor qual a probabilidade dessa intensidade”, explica Barbosa. 

Há um consenso de que, atualmente, nós já estamos vivendo sob influência do El Niño, tanto no oceano quanto na atmosfera, mas um El Niño fraco, moderado, por enquanto. Precisamos esperar mais algumas semanas para saber se realmente no período de pico.Humberto Barbosa, meteorologista fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), da UFAL

O calor intenso para o Norte e Nordeste

Diante deste cenário, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Cemaden, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), criou um boletim, que será divulgado mensalmente, para apresentar atualizações sobre o monitoramento, previsão e impactos do El Niño no Brasil. 

primeiro boletim, divulgado em 29 de junho, afirma que “a previsão climática para o trimestre julho-agosto-setembro de 2026 indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas da região Sul e chuvas abaixo da média no Centro-Norte do país. Ainda, as previsões indicam alta probabilidade de temperaturas acima da média no segundo semestre, que podem aumentar os eventos de onda de calor e a ocorrência de incêndios florestais”. 

A seca nas regiões Norte e Nordeste deve resultar em um aumento nos incêndios, impacto na agricultura e comprometer a segurança hídrica local. Além disso, o calor extremo causado pela falta de chuva e um maior aquecimento da atmosfera traz consequências à saúde e ao bem-estar da população. 

“Isso significa uma diminuição de chuvas na região da Amazônia. A partir de setembro, outubro, você já começa a estação chuvosa na Amazônia. De um modo geral, isso vai reduzir, e a Amazônia é muito sensível quando você reduz o volume de chuva”, explica Humberto Barbosa.

Adaptação de caixa d’água para convivência com a seca. Foto: Hans Von Manteuffel/Epicentro Jornalismo

Para quem vive nas periferias, as consequências podem ser variadas, como explica Joice Paixão: “aqui no Recife, uma das políticas públicas mais divulgadas pela prefeitura é a concretagem das barreiras nas favelas. Além disso, são muitas as obras de ruas e parques que destroem árvores e áreas de mangue. Então, a cidade está cheia de ilhas de calor, as áreas verdes são cada vez menores. Juntando isso com o El Niño, imagina como vai ser o próximo verão na cidade”. 

Um levantamento publicado na revista científica Sustainable Cities and Society, feito por pesquisadores da Universidade de Oxford, estimou quais cidades são as mais impactadas pelas ondas de calor.  Entre as cidades brasileiras, Manaus aparece como a mais vulnerável. Na sequência, estão Goiânia (46ª posição no ranking global), Belo Horizonte (66ª), Fortaleza (67ª), São Paulo (77ª), Rio de Janeiro (83ª), Brasília (88ª), Recife (89ª), Salvador (93ª), Curitiba (119ª) e Porto Alegre (120ª). De acordo com o estudo, os riscos associados ao calor extremo não dependem somente das condições climáticas, mas também a fatores econômicos, sociais e de infraestrutura. 

“Além da falta de áreas verdes e de infraestrutura, quando vamos olhar para as dicas de como enfrentar o calor extremo nós escutamos coisas como ‘compre um arcondicionado para se refrescar, tome mais banho, use ventilador’, mas quem tem condições de tomar essas medidas? Na favela, as pessoas enfrentam constantemente o desligamento da água, a falta de abastecimento. Fora a questão do gasto com energia. Outro ponto importante pouco falado é a sobrecarga na rede elétrica que esse período pode causar”, reforça Joice Paixão. 

Além disso, na região Norte, a falta de um planejamento para eventos climáticos extremos como El Niño reforça um estigma que fortalece o racismo ambiental já enfrentado na região, como explica Alex Farias:

“Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras”. 

Leia também: Portal Amazônia responde: como El Niño e La Niña afetam a região amazônica?

Vemos alguns alertas, mas não vemos nenhuma ação para lidar com os eventos climáticos. Isso está muito ligado a um estigma de que a Amazônia é um lugar só de florestas. Mas a realidade é que nós temos muitas áreas periféricas que sofrem com esse calor extremo aqui no Norte, mas os investimentos do Estado privilegiam uma determinada região e excluem outras.Alex Farias, especialista em Direito e Governança Climática

“A COP foi um ótimo exemplo dessa disparidade no investimento na infraestrutura da cidade. Todo o investimento foi feito na área mais central e mais conhecida de Belém e nada para as periferias. E, ainda assim, a área ficou toda alagada quando teve uma forte chuva na cidade. O que eu vejo é que não há mesmo uma preocupação em resolver e ensinar a população o que fazer diante de um evento climático grave”, concluiu Farias. 

Quais medidas estão sendo tomadas para mitigar os impactos? 

Para o professor Humberto Barbosa, mais importante do que saber agir na emergência de um evento climático extremo, o Estado brasileiro, em uma articulação entre os poderes federal, estadual e municipal, precisa proporcionar formas e ferramentas para que a população possa conviver com as consequências de um cenário climático adverso. 

“É preciso criar programas permanentes de educação para que a população saiba como conviver com as altas temperaturas, da mesma forma que, ao longo dos anos, aprendemos a conviver com a estiagem e a escassez de água”, defende Barbosa. 

“A principal diferença para este El Niño será o aumento das temperaturas, impulsionado pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, resultado principalmente das emissões da indústria e das queimadas, além do aquecimento do Oceano Pacífico. Esse cenário tende a intensificar a seca, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino. Mais do que a redução das chuvas, que já são naturalmente escassas no segundo semestre, o problema é que o calor mais intenso acelera a perda de umidade do solo e eleva ainda mais as temperaturas, tornando a seca mais severa”, conclui o diretor do LAPIS. 

Barcos encalhados na Ponta da Piraiba, Manaus, em seca no final de 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Barbosa reforça, ainda, que o aumento das temperaturas representa uma ameaça direta às populações que vivem no semiárido. A escassez de água compromete o abastecimento humano e a criação de animais, especialmente caprinos e ovinos, importantes fontes de alimento e renda para milhares de famílias da região. 

Segundo o cientista, uma das principais estratégias para reduzir esses impactos continua sendo o fortalecimento de políticas de convivência com o semiárido: “A palma forrageira tem sido uma reserva importante de água para a pecuária e contribui para garantir uma certa segurança na produção de carne, mesmo em períodos de seca”.

Ele ressalta, no entanto, que episódios recentes de calor extremo também provocaram perdas na cultura, reforçando a necessidade de ampliar ações emergenciais, como o fornecimento de água potável às populações mais vulneráveis: “o sertanejo já desenvolveu uma grande capacidade de resiliência, mas estará submetido a condições cada vez mais desfavoráveis com as altas temperaturas. Por isso, ações emergenciais, incluindo a atuação do SUS, serão fundamentais”. 

Em um contexto de seca, um fato importante a ser considerado é a piora da qualidade da água. Com reservatórios, açudes e rios permanecendo por muito tempo com água parada, aumenta a proliferação de algas e cianobactérias, que podem contaminar a que é consumido pela população. Entre os problemas associados, estão quadros de diarreia, intoxicações e, em situações mais graves, até mortes. Por isso, é fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) atue de forma integrada com as secretarias de Recursos Hídricos e de Meio Ambiente para monitorar a qualidade da água, acompanhar as comunidades mais expostas ao calor extremo e orientar a população sobre os riscos.

Diante do agravamento dos eventos climáticos extremos, intensificados pelo El Niño, o Ministério da Saúde lançou o AdaptaSUS, um plano de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a capacidade de resposta do SUS até 2035. A estratégia reúne 27 metas e 93 ações voltadas à prevenção, adaptação e resposta a emergências climáticas, reconhecendo a crise climática como um desafio crescente para a saúde pública.

Entre as principais medidas estão a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima, a implantação do Painel Nacional de Excesso de Calor (que emitirá alertas com até cinco dias de antecedência sobre riscos associados às altas temperaturas) e a ampliação da Força Nacional do SUS para acelerar o atendimento em desastres. Segundo o Ministério da Saúde, a iniciativa busca proteger principalmente as populações mais vulneráveis aos impactos do calor extremo e de outros eventos climáticos.

Joice Paixão defende que o governo passe a investir cada vez mais em políticas públicas de saúde para a população periférica, relacionando com o enfrentamento da crise climática. Pessoas com doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, problemas cardíacos e doenças respiratórias, tendem a sofrer agravamentos durante os períodos de calor extremo, aumentando a demanda por atendimento nas unidades básicas de saúde, UPAs e demais serviços de média e baixa complexidade. 

“O calor extremo provoca um impacto direto na saúde básica. Pacientes hipertensos, diabéticos, cardiopatas e pessoas com doenças respiratórias entram mais facilmente em crise e procuram com maior frequência os serviços de saúde”, afirma a diretora do Gris Solidário.

Leia também: El Niño e calor extremo na Amazônia podem agravar sintomas de psoríase, alerta especialista

Paixão também alerta para a subnotificação dos efeitos do calor sobre a saúde. Na avaliação dela, muitos óbitos registrados como infarto ou Acidente Vascular Cerebral (AVC) podem ter sido desencadeados pelas altas temperaturas, sem que essa relação seja identificada pelos sistemas de vigilância: “muitas vezes a causa registrada é o infarto ou o AVC, mas esses eventos podem ter sido precipitados pelo calor extremo. Essa relação ainda é pouco considerada e precisa orientar políticas públicas”.

Para ela, ampliar a produção de evidências e incorporar esse conhecimento às estratégias governamentais é um passo fundamental para fortalecer a resposta do SUS às mudanças climáticas. “Os estudos precisam sair da academia e chegar aos gestores públicos para que sejam transformados em políticas de saúde capazes de proteger a população diante dos eventos climáticos extremos”, conclui a ativista climática. 

Além dos impactos físicos, Paixão chama atenção para os efeitos das ondas de calor sobre a saúde mental e o comportamento da população. Temperaturas elevadas podem aumentar a irritabilidade, a sensibilidade e a vulnerabilidade emocional, fenômenos que estudos internacionais já relacionam ao crescimento dos índices de violência: “existe uma correlação entre o aumento das temperaturas e o aumento da violência. No Brasil, esse debate ainda é pouco aprofundado, especialmente quando se trata da violência doméstica que atinge mulheres e crianças”. 

O especialista em Direito e Governança Climática, Alex Farias, ressalta a importância de uma ampliação nos investimentos em saúde como uma medida de mitigação para os eventos climáticos extremos, e alerta sobre a falta de infraestrutura das unidades básicas de saúde do Pará. “Acredito que ainda estamos errando em oferecer o básico. No Pará, nós temos lutado para garantir que a população tenha acesso a exames, consultas, que os profissionais estejam presentes nas unidades de saúde. Há um sucateamento muito grande na saúde. Então, fica ainda mais difícil de tratar os pacientes no dia a dia, imagina, então, como será em casos extremos”, conta Farias. 

“Infelizmente, o que eu vejo é que falta diálogo entre os poderes [federal, estadual e municipal] e deles com a população também, porque também é importante ouvir o que as pessoas têm a contribuir para a formação das políticas públicas de qualidade. Quem convive com o problema é quem melhor pode apontar a solução”, conclui o especialista.

Alex reforçou a importância da iniciativa da Rede por Adaptação Antirracista e do Observatório do Clima, organizações que protocolaram uma carta endereçada ao governo federal para cobrar transparência e ações preventivas diante da projeção de formação do El Niño no Brasil. O documento, assinado por 77 organizações, traz diretrizes claras de enfrentamento ao fenômeno. “Essa carta é a prova de que há inúmeras soluções que podem ser adotadas e que muitas vezes dependem da ação do poder público”. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Giovanna Carneiro

Potencial de minerais críticos e estratégicos na Amazônia é detalhado em estudo da ANM

Base única de dados reúne investimentos em pesquisa e lavra e traça um panorama dos principais projetos em andamento. Foto: Reprodução/ANM

Responsável por quase metade do valor gerado pelos minerais estratégicos do Brasil, a Amazônia Legal ocupa papel de destaque nos debates sobre mineração. Apesar do vasto potencial, a região se concentra na extração de ferro, bauxita, cobre e ouro, enquanto outras substâncias essenciais para o país, como cobalto, terras raras e potássio, ainda não têm produção. Essa é uma das conclusões do estudo “Amazônia Legal: Minerais Críticos e Estratégicos – Diagnóstico Setorial”, lançado no dia 23 de julho pela Agência Nacional de Mineração (ANM).

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A pesquisa traça um panorama geral dos direitos minerários e da produção da região, com recortes por substância e unidade da federação. Além disso, o relatório traz em uma única base dados a respeito de investimentos em pesquisa e lavra, arrecadação de royalties, comércio exterior e traça um panorama dos principais projetos em andamento.

Acesse o estudo AQUI.

Elaborado pela Superintendência de Economia Mineral e Geoinformação (SEG), o estudo qualifica os debates em torno da construção de uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos para o Brasil. 

“A Amazônia Legal tem uma importância estratégica para o setor mineral. Esse documento parte de toda a competência técnica da agência no tema para contribuir com os debates que visam construir uma política nacional robusta, capaz de atrair investimentos e assegurar o desenvolvimento do Brasil respeitando os desafios relacionados à região”, resume o diretor geral, Mauro Sousa.

“O objetivo é oferecer uma base técnica robusta, territorial e econômica sobre o potencial dos minerais críticos e estratégicos para subsidiar as tomadas de decisões. O diagnóstico demonstra que a Amazônia Legal ocupa posição relevante e estratégica no desenvolvimento mineral brasileiro”, aponta Inara Barbosa, superintendente da SEG.

Potencial de minerais críticos e estratégicos na Amazônia é detalhado em estudo da ANM

“Uma política pública de minerais críticos e estratégicos só é robusta quando parte de evidência, não de intuição. As informações reunidas  permitem à União, aos estados e ao setor privado desenharem instrumentos de política creditícios, regulatórios, de infraestrutura com foco e eficiência, em vez de medidas genéricas, bem como entender onde estão os gargalos e as oportunidades”, resume João Vasconcelos, gerente de Economia Mineral da ANM.

Dentre os destaques apresentados, está a constatação de que Amazônia Legal concentra 48,2% dos processos para minerais críticos e estratégicos do Brasil. Os estados com maior relevância são Pará, com 51% dos processos da região, Mato Grosso (19,0%) e Rondônia (10,3%). O ouro é a substância mineral predominante, marcando presença em 67% dos processos da Amazônia Legal. Na sequência, aparecem estanho (10%) e cobre (7,3%).

Investimentos e gargalos

De acordo com o documento, entre 2006 e 2024 foram investidos R$ 40,4 bilhões nas minas e usinas de beneficiamento de minerais estratégicos na Amazônia Legal, excluindo-se desta análise o minério de ferro. Os principais investimentos em 2024 foram direcionados a cobre (31,3%), níquel (19,8%), alumínio (18,7%), ouro (17,2%) e manganês (11,3%).

Os aportes em pesquisa mineral totalizaram R$ 4,9 bilhões entre 2003 e 2024, sendo 65,8% para ouro e 19,1% para cobre. Apesar do volume de recursos, o documento aponta a ausência de produção de substâncias fundamentais para o país, como potássio, terras raras e cobalto.

“Reverter isso exige mais investimento em pesquisa mineral, especialmente voltados a ampliar o conhecimento geológico do país em escala adequada para o conhecimento do potencial mineral da região. Também envolve destravar projetos estruturantes já mapeados (como Autazes, Araguaia e Vermelho), gerar maior segurança regulatória para atrair capital de longo prazo e parcerias público-privadas em pesquisa, desenvolvimento e inovação para agregar valor às cadeias produtivas subsequentes a mineração”, argumenta Vasconcelos.

Leia também: Conheça as principais riquezas minerais da Amazônia brasileira

Amazônia é marcada por desafios

Nos últimos anos, a demanda global por minerais críticos e estratégicos vem crescendo em razão de suas aplicações tecnológicas, na área de defesa e em equipamentos para a transição energética. Contudo, a localização de grandes reservas na região da Amazônia Legal traz o desafio adicional de conciliar sua importância econômica e geológica com a preservação ambiental e os direitos dos povos originários.

“Não dá para planejar o aproveitamento mineral da região de forma responsável sem reconhecer que parte relevante do potencial geológico está em áreas constitucionalmente protegidas ou sujeitas a consulta prévia, conforme a Convenção nº 169 da OIT. A partir disso, o estudo defende uma governança socioambiental robusta, consulta prévia, licenciamento com regras e prazos claros e vinculação da CFEM a fundos de desenvolvimento sustentável municipal, fornecendo a base técnica para um planejamento e gestão territorial integrado, em vez de decisões pontuais e reativas”, encerra o gerente de Economia Mineral.

*Com informações da ANM

Plataforma criada em Rondônia transforma palavras indígenas em dicionários digitais

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A Unir desenvolveu o DicWeb Indígena, uma plataforma que permite a povos da Amazônia criarem seus próprios dicionários digitais. Foto: Agnaldo Martiolli/Rede Amazônica RO

Uma plataforma desenvolvida pela Universidade Federal de Rondônia (Unir) está ajudando povos indígenas da Amazônia a preservar suas línguas por meio da tecnologia. Chamada de DicWeb Indígena, a ferramenta permite que as próprias comunidades criem dicionários digitais de forma colaborativa, registrando palavras, áudios, traduções e exemplos de uso no dia a dia.

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Diferente dos dicionários tradicionais, o conteúdo é produzido pelos próprios indígenas, que têm autonomia para documentar e organizar o vocabulário de suas línguas.

“A plataforma amplia o acesso aos conhecimentos linguísticos produzidos pelas comunidades indígenas e contribui para a preservação e o fortalecimento das línguas da Amazônia”, disse o coordenador do projeto, Quesler Fagundes Camargos.

Atualmente, a plataforma reúne mais de 4.500 palavras catalogadas e 12 dicionários em construção. Além de funcionar como um acervo digital, o DicWeb Indígena incentiva a autoria coletiva e ajuda a manter vivas tradições linguísticas que correm o risco de desaparecer.

Entre os primeiros registros está a palavra Tapi’ira, que significa anta na língua Kawahiwa-Amondawa, um exemplo da diversidade linguística preservada pela plataforma.

Leia também: Dicionários e centro de documentação registram línguas dos povos originários

Tecnologia que funciona até sem internet

Um dos principais desafios para o uso de ferramentas digitais nas aldeias é a falta de acesso à internet. Pensando nisso, o DicWeb Indígena foi desenvolvido como um Aplicativo Web Progressivo (PWA).

Na prática, depois do primeiro acesso com internet, a plataforma pode ser instalada no celular ou computador e continua funcionando mesmo offline. Assim, professores, estudantes e pesquisadores conseguem consultar e registrar informações sem depender da conexão.

Plataforma indígena DicWeb 1 Foto Agnaldo Martiolli Rede Amazônica ro
Foto: Agnaldo Martiolli/Rede Amazônica RO

Ferramenta também é usada na educação

Além de preservar as línguas indígenas, a plataforma também deve ser utilizada nas escolas das comunidades como ferramenta de ensino.

Segundo a vice-coordenadora do projeto, a professora Edineia Aparecida Isidoro, o sistema contribui para a formação de professores indígenas, incentiva estudantes a escreverem em suas próprias línguas e amplia a presença desses idiomas no ambiente digital.

“É muito mais do que um instrumento de documentação e sistematização do léxico. Ela é também um espaço potente de formação linguística e pedagógica para professores e pesquisadores indígenas, uma ferramenta estimulante para que estudantes aprendam a escrever e valorizar suas próprias línguas e, sobretudo, uma forma de inserir as línguas indígenas em um território no qual elas ainda precisam ocupar cada vez mais espaço: os meios digitais”, afirmou.

A proposta nasceu após anos de pesquisa na universidade e busca inverter a lógica tradicional da produção de dicionários. Em vez de pesquisadores registrarem as línguas, são os próprios povos indígenas que produzem e atualizam o conteúdo, fortalecendo a autonomia das comunidades e preservando conhecimentos transmitidos de geração em geração.

*Por Vallery Sena, da Rede Amazônica RO

Emigrantes do Distrito de Coimbra do centro de Portugal: uma história de relação com a Amazônia a ser contada

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Carregamento de mercadorias no Armazéns Coimbra (2000). Foto: Acervo da família

Por Abrahim Baze – literatura@amazonsat.com.br

A cofundadora do “ARMAZÉNS COIMBRA”, Branca Virgínia Seco da Costa Ferreira, nasceu em Portugal, na vila de Penacova, no Distrito de Coimbra, em 14 de julho de 1936. Filha de Heliodoro da Costa, proprietário de fornos de cal – indústria predominante naquela região – , e de Maria Branca Nogueira Seco, que conciliava as atividades domésticas com as de serviço às terras familiares, teve dois irmãos: Amândio Seco da Costa (in memoriam) e Maria de Lourdes Seco da Costa Passadouro.

Seus pais envidaram grandes esforços para que os filhos tivessem acesso ao restrito mundo da educação, privilégio de alguns à época. A dedicação aos estudos no Ensino Primário, fez com que sua Mestra convencesse seus pais a levarem-na para estudar em Coimbra, onde se formou, em 1956, na Escola do Magistério Primário de Coimbra.

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Emigrantes do Distrito de Coimbra do centro de Portugal: uma história de relação com a Amazônia a ser contada
Acácio Ferreira (1959). Foto: Acervo da família

Numa época em que as mulheres deveriam ter como objetivo primeiro o casamento, Branca Ferreira definiu como prioridade o exercício da profissão do Magistério. Em 1959, por aprovação em concurso público, foi assumir a Escola Primária em Vilarinho do Alva, distante 20 km de sua casa no Casal de Santo Amaro (Penacova).

Professora dedicada, logo cativou os alunos e seus familiares, dentre os quais o tio de uma delas, que, vivendo no Brasil, no Amazonas, havia retornado à sua terra natal, pela terceira vez, com o propósito de construir uma casa para seus pais: o jovem Acácio Duarte Ferreira.

O forte e verdadeiro sentimento entre os dois impôs à jovem professora decisões difíceis, que marcariam doravante sua trajetória. Decidir pelo amor, levou a um conflito com os pais pela separação iminente: a distância não seria mais de 27 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Coimbra) ou ainda de 20 km (distância entre Casal de Santo Amaro e Vilarinho do Alva), mas de milhares de quilômetros incluindo o Oceano Atlântico. Contudo, o tempo, com a evolução da tecnologia que foi diminuindo distâncias e facilitando deslocamentos, permitiu contornar.

Mas houve uma decisão amarga, que não pode ser revista nem contornada: a da desistência do exercício do Magistério. À época, em Portugal, o Decreto-Lei n.º 49473 determinava que o casamento das professoras do ensino primário dependia de autorização do Ministro da Educação Nacional, que só a concedia perante prova de situação moral e econômica do cônjuge compatível com o prestígio exigível para o exercício da função docente.

O casamento ocorrido, em 30.07.1959, no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Vila Nova de Ourém, em Portugal, selou as escolhas. No embarque em Lisboa em 25.01.1960 com destino ao Brasil, as últimas luzes avistadas sobre o Rio Tejo fizeram-na saber que ali se encerrava um ciclo de sua vida.

A Amazônia apresentou-se a ela em 18.02.1960, numa madrugada escura com uma leve neblina e uma chuva miudinha. Sob os olhares curiosos dos presentes ao cais do porto, o casal pisou o solo manauara. O casario à beira do rio mostrou uma realidade distante da imaginada, evidenciando desafios que somente a formação familiar e moral viriam a permitir enfrentar de forma exitosa, encontrando no nascimento da primogênita do casal, Socorro de Fátima Branca Seco Ferreira, em setembro daquele ano, uma razão a mais para lutar.

Casal Branca Ferreira e Acácio Ferreira – Embarque para o Brasil (Lisboa, 1960). Foto: Acervo da família

A percepção da árdua luta do esposo, no comércio que possuía na parte interna do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, e a disposição sempre presente de ajudar, fizeram com que suas visitas diárias para deixar a merenda fossem ficando a cada dia mais demoradas, na medida em que o ajudava no atendimento aos clientes e envolvia-se nas atividades burocráticas, entrando para o ramo do comércio.

A família ampliou-se com o nascimento da segunda filha, Acácia Branca Seco Ferreira, em Portugal, e, anos mais tarde, com o nascimento do benjamim, Acácio Sérgio Seco Ferreira, desta vez em Manaus. A ampliação da organização familiar aconteceu em paralelo com o seu crescimento na atividade comercial, que levaria à constituição, em 2.05.1967, de uma sociedade limitada com o seu esposo, em igualdade de condições – quer na participação societária, quer na gestão – , e que gira, há 59 anos, sob a designação de “ARMAZÉNS COIMBRA”, mas que a sociedade manauara conhece como a “Loja da D. Branca”.

Com sede inicialmente na Rua dos Barés, n.º 22, na parte externa do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, permanece o empreendimento no mesmo local, hoje sob o n.º 5. A reforma do mercado levou à transferência da sede da empresa, em 1977, para o local de funcionamento do seu depósito, localizado na Rua Mundurucus, n.º 90. Com a reabertura do mercado, o espaço, em 1980, passou a abrigar a Filial 1. Anos mais tarde, em 2006, uma nova reforma levaria à transferência dessa filial para o imóvel localizado na Rua dos Barés, n.º 264. O espaço subtraído à loja pela nova reforma do mercado limitou a oferta de produtos no local impedindo a transferência da Filial 1 e dando espaço à abertura, em 2014, da Filial 2.

Carregamento de mercadorias no Porto de Manaus (1962). Foto: Acervo da família

Nessas seis décadas, sob sua liderança, o Armazéns Coimbra atravessou tempos turbulentos, destacando-se sempre pela comercialização de produtos seletos e de boa qualidade, em especial o bacalhau. Sempre gerenciou o seu empreendimento como um ambiente familiar, onde cada colaborador sempre foi percebido como membro da família, resultando em vínculos de trabalho de mais de quatro décadas com alguns deles e até despertando sentimento filial em outros, como Maria Terezinha de Jesus Oliveira. Mestre na arte do convívio, soube fazer de cada fornecedor um parceiro e de cada cliente, um amigo.

O reconhecimento do seu empreendimento pelo seu nome resulta de uma trajetória alicerçada numa fé inabalável em Nossa Senhora de Fátima, marcada por trabalho árduo, jornadas exaustivas e intensa vontade de ajudar, a qual serve de inspiração aos netos Ataliba David Antônio Neto, Marcelo Acácio Ferreira David Antônio e Soraya Natasha Ferreira David Antônio, assim como a todos que a cercam.

Placa em azulejo português colocada na fachada da loja matriz aos 55 anos (2022). Foto: Acervo da família

Se o reconhecimento do seu trabalho para a consolidação do “ARMAZÉNS COIMBRA” é fato; também o é de que o empreendimento somente se tornou possível pela luta de seu cônjuge Acácio Duarte Ferreira. Esse jovem português, que, ao despertar para a mocidade num Portugal pós-Segunda Guerra Mundial marcado por forte repressão interna e pobreza, viu-se obrigado a deixar para trás sua família e sua terra natal.

Nascido, em 6.02.1930, na pitoresca aldeia de Vilarinho do Alva, localizada na freguesia de Pombeiro da Beira, pertencente ao concelho de Arganil, no Distrito de Coimbra, Acácio Ferreira – o filho mais velho do casal de agricultores Artur Duarte Ferreira e Eugênia Dias Soares – foi mais um dos inúmeros portugueses que participaram do forte movimento de emigração para o Brasil.

A Amazônia, cujos ciclos da borracha incentivaram a vinda de inúmeros portugueses que acabaram por dominar o comércio, havia, anos antes, atraído o seu tio Armindo Dias Soares, irmão de sua mãe, que, com muito trabalho, tornou-se sócio de duas lojas comerciais: Casa Dias e Renascença. Com a vida estabelecida, providenciou a vinda de dois sobrinhos, filhos de seus irmãos: Acácio Ferreira e Armando Soares.

Acácia Ferreira. Foto: Acervo da família

Embalado pelo sonho de voltar a Portugal, neste solo manauara o menino fez-se homem a trabalhar arduamente, primeiro com o seu tio e depois no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, onde inicialmente trabalhou na parte interna. Logo, seria a sua vez de viabilizar a vinda do seu irmão caçula Armindo Soares Ferreira e, mais tarde, de sua irmã Maria da Piedade Lopes, já casada com Benjamim Duarte Lopes.

A preocupação em preparar-se para a atividade empresarial fez com que conseguisse a proeza de conciliar jornadas exaustivas de trabalho, que começavam ainda na madrugada, com intenso estudo para obter a formação em nível médio, em datilografia e tirar a carteira de condução para poder dirigir caminhão.

Com disciplina elevada e trabalhando como um mouro, conseguiu em pouco tempo juntar dinheiro para tornar-se sócio da Casa Batista, localizada na parte externa do Mercado e onde ainda hoje funciona a Filial 2. A sociedade feita com Manuel Rodrigues de Almeida deu origem a RODRIGUES & FERREIRA LTDA., que viria a ser sucedida pela empresa ACÁCIO DUARTE FERREIRA & CIA. LTDA., resultante da sociedade daquele homem visionário com sua esposa, e que foi registrada na Junta Comercial do Amazonas em 5.05.1967. A escolha do nome de fantasia “ARMAZÉNS COIMBRA” aviva a condição de emigrante de seus fundadores, que escreveram suas histórias de vida servindo à sociedade manauara.

Por Acácia Branca Seco Ferreira: Administradora, Contadora e Advogada. Membro da Academia Brasileira da Qualidade – ABQ; Membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas – IGHA; Membro da Academia Amazonense de Administração – ACAAD; Integrante do Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade – CETUR-AM (FECOMERCIO-AM); Integrante da Diretoria da Associação Comercial do Amazonas – ACA; Integrante da Diretoria do Conselho da Comunidade Portuguesa e Luso Brasileira do Amazonas.

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Sobre o autor

Abrahim Baze é jornalista, graduado em História, especialista em ensino à distância pelo Centro Universitário UniSEB Interativo COC em Ribeirão Preto (SP). Cursou Atualização em Introdução à Museologia e Museugrafia pela Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e recebeu o título de Notório Saber em História, conferido pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (CIESA). É âncora dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no canal Amazon Sat, e colunista na CBN Amazônia. É membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), com 40 livros publicados, sendo três na Europa.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Dia Internacional dos Manguezais: presente na Amazônia, entenda a importância da conservação desse ecossistema

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Conheça a história de resistência dos povos do mar e das águas na defesa dos manguezais. Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

Quando pensamos no oceano, é comum imaginar praias, ondas e baleias. Mas a vida marinha começa muito antes de encontrar o mar aberto. Ela nasce onde os rios encontram o oceano, como na Amazônia, entre raízes que desaparecem e reaparecem conforme o ritmo das marés. Esse lugar é o manguezal.

Muito mais do que uma floresta costeira, os manguezais são verdadeiros berçários da vida marinha. Eles oferecem:

  • Abrigo e alimento para espécies como peixes, camarões e caranguejos.
  • Proteção costeira contra a erosão e eventos climáticos extremos.
  • Sequestro de carbono, contribuindo para o enfrentamento global dos impactos das mudanças climáticas.

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O manguezal sustenta uma das maiores biodiversidades do planeta e também milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, pescadores e pescadoras artesanais dependem diretamente desse ecossistema para garantir alimento, renda e manter vivas suas culturas.

Não é por acaso que proteger os manguezais significa muito mais do que conservar uma paisagem natural. Significa defender modos de vida, fortalecer a segurança alimentar, proteger a biodiversidade e preservar um patrimônio que beneficia toda a sociedade.

A origem do Dia Internacional dos Manguezais

Na década de 1990, uma nova ameaça avançava sobre diversos países tropicais: a expansão da criação de camarões em larga escala, também conhecida como carcinicultura industrial. Grandes áreas de manguezais passaram a ser desmatadas para dar lugar a essa criação intensiva de camarão, comprometendo ecossistemas inteiros e restringindo o acesso das comunidades aos territórios de pesca e coleta.

Um dos casos mais emblemáticos dessa disputa por espaço aconteceu em Muisne, na costa do Equador. Em 1998, comunidades organizadas pela Fundação de Defesa Ecológica equatoriana convidaram o Greenpeace Internacional para ajudar a denunciar a destruição dos manguezais causada pela carcinicultura. O navio do Greenpeace Rainbow Warrior chegou ao país para apoiar uma campanha que rapidamente ganhou repercussão internacional.

Leia também: Marchas mobilizam Maranhão e Pará em defesa dos manguezais amazônicos

Durante uma ação pacífica para desmontar um viveiro de camarão construído ilegalmente sobre um manguezal, o ativista do Greenpeace Internacional Hayhow Daniel Nanoto, natural da Micronésia, sofreu um ataque cardíaco e faleceu. Sua morte marcou profundamente todos que participaram daquela mobilização. Mas seu legado foi muito maior do que aquela tragédia.

A campanha pelos manguezais tornou-se uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace a articular conservação da biodiversidade, justiça ambiental e defesa dos direitos das comunidades tradicionais. Ela ajudou a fortalecer uma rede latino-americana de proteção dos manguezais que permanece ativa até hoje e transformou o dia 26 de julho em um símbolo de resistência. Anos depois, a data seria reconhecida pela UNESCO como o Dia Internacional para a Conservação do Ecossistema Manguezal.

“Mais do que uma denúncia ambiental, aquela campanha representou um marco para o movimento socioambiental. Foi uma das primeiras grandes mobilizações internacionais do Greenpeace a reunir conservação da biodiversidade, justiça ambiental e defesa dos direitos das comunidades tradicionais — uma visão que hoje orienta grande parte das nossas lutas pela proteção dos oceanos”, comenta Bruna Canal, porta-voz de Oceanos do Greenpeace Brasil.

Exemplo de resistência comunitária no Extremo Sul da Bahia

Enquanto comunidades equatorianas defendiam seus manguezais, um conflito semelhante começava a se desenhar no litoral do Extremo Sul da Bahia.

A região abriga um dos mais importantes complexos de manguezais e estuários do país, conectado ao Banco dos Abrolhos, onde esses ambientes funcionam como verdadeiros berçários da vida marinha. É deles que dependem inúmeras espécies que abastecem os recifes, os rios e a pesca artesanal da região.

No final da década de 1990, a expansão da carcinicultura também passou a ameaçar esse território. Diante desse cenário, comunidades ribeirinhas e organizações da sociedade civil iniciaram um amplo processo de mobilização para proteger seus modos de vida e garantir o direito coletivo de permanecer no território.

Foi dessa articulação que nasceu o Grupo Pró-RESEX, responsável por impulsionar a criação da Reserva Extrativista de Canavieiras, em 2006. Poucos anos depois, uma nova mobilização impediria a implantação de um grande empreendimento de carcinicultura na região de Cassurubá e contribuiria para a criação da Reserva Extrativista de Cassurubá, em 2009.

Assim como no Equador, foram os povos do mar e das águas que lideraram a defesa dos manguezais. As Reservas Extrativistas representam muito mais do que áreas protegidas. Elas reconhecem que conservar a natureza e garantir os direitos das populações tradicionais são objetivos inseparáveis.

Desafios atuais dos manguezais: a ameaça do petróleo na Foz do Amazonas

Atualmente a costa amazônica abriga a maior área contínua de manguezais do planeta. É um território onde rios, floresta e oceano se encontram para sustentar uma biodiversidade única e o modo de vida de milhares de pescadores, extrativistas, quilombolas, ribeirinhos e povos indígenas. Mas essa história de resistência está longe de terminar.

Leia também: Conheça os manguezais da Amazônia, o maior cinturão de manguezais do mundo

projeto mangues da amazônia no pará
Foto: Reprodução/UFPA

A região vive um momento decisivo com o avanço da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas. A abertura dessa nova fronteira para os combustíveis fósseis coloca em risco um dos ecossistemas mais ricos e sensíveis do planeta e levanta preocupações que vão muito além de um eventual derramamento de óleo.

Menos de três meses após o início da perfuração do Bloco 59, um vazamento de aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração interrompeu as operações e expôs, na prática, os riscos de uma atividade realizada em uma região de enorme complexidade ambiental. O episódio reforçou um alerta que organizações da sociedade civil e pesquisadores vêm fazendo há anos: quando se trata de um território tão sensível, qualquer falha pode ter consequências difíceis de prever.

Além disso, o processo de licenciamento segue sendo alvo de questionamentos. Organizações socioambientais apontam que a autorização para a exploração avançou sem a realização da consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais potencialmente afetados. Também foram levantadas preocupações sobre lacunas nos estudos ambientais e nos cenários de resposta a acidentes.

A história dos manguezais mostra que esperar o dano acontecer nunca foi o caminho. No Equador, em Canavieiras e em Cassurubá, comunidades se mobilizaram antes que fosse tarde demais para proteger seus territórios.

Proteger o manguezal é proteger o futuro do oceano

A história que começou em Muisne, passou pelos estuários de Canavieiras e Cassurubá e chega hoje à costa amazônica nos lembra que os manguezais nunca foram apenas árvores adaptadas à água salgada.

Eles são berçários da biodiversidade, aliados no enfrentamento da crise climática, fonte de alimento, cultura e identidade para milhões de pessoas.

Há quase três décadas, comunidades do Equador mostraram ao mundo que a defesa dos manguezais podia unir pessoas de diferentes países em torno de uma mesma causa. No Brasil, os povos do mar e das águas seguem escrevendo essa história todos os dias.

*Com informações do Greenpeace

Marina Sena celebra cultura amazônica em videoclipe do projeto ‘Nosso Canto’ do Sebrae

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Marina Sena em produção realizada pelo Sebrae em Belém. Foto: Reprodução/Youtube-Sebrae

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) lançou em seus canais oficiais e nas principais plataformas digitais, o videoclipe de ‘Feira de Mangaio’, interpretado por Marina Sena para o projeto ‘Nosso Canto’.

Gravada no Complexo Ver-o-Peso, em Belém (PA), a produção valoriza a cultura amazônica e apresenta histórias de pequenos negócios construídos a partir dos saberes tradicionais, da criatividade e dos elementos da floresta.

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“Como boa norte-mineira, eu sempre tive uma conexão muito forte com a música nordestina, principalmente com o forró e o baião. Poder regravar uma música de Sivuca e Glorinha que eu dancei a vida inteira, na voz da Clara Nunes, é muito especial. E a Clara, inclusive, também era mineira, assim como eu”, comenta Marina Sena.  

Durante o videoclipe, Marina Sena percorre as barracas do Ver-o-Peso e apresenta empreendedores como Maria Magalhães, que há 22 anos trabalha com cestaria e artesanato em fibras naturais. Com o apoio do Sebrae, ela vem aprimorando a gestão e profissionalizando sua produção, sem perder a identidade e as técnicas tradicionais da cultura paraense.

“O pedido do Sebrae para gravar o clipe no Ver-o-Peso veio como forma de homenagear quem empreende nas feiras brasileiras, representado ali pela maior feira a céu aberto da América Latina. A letra dessa música me leva direto para as feiras da minha cidade. No interior, a feira é esse lugar de encontro, de comércio, de cultura e de troca. Estar na maior feira do Brasil cantando uma música paraibana que retrata tão bem esse universo foi uma experiência emocionante”, acrescenta Marina.

O presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, destaca que o projeto dá visibilidade aos pequenos negócios e valoriza a diversidade cultural brasileira.

“Com o projeto Nosso Canto, damos visibilidade aos empreendedores de diferentes regiões do país e conectamos a música e a cultura brasileira às histórias, aos saberes e à identidade de milhões de brasileiros. É uma forma de valorizar quem transforma tradição, criatividade e conhecimento em oportunidades de geração de renda e desenvolvimento”, afirma Rodrigo Soares.

marina sena em clipe feito em belém para projeto do Sebrae
Foto: Reprodução/Youtube-Sebrae

Leia também: Artesãos do Amazonas assinam adereços usados por Anitta em EQUILIBRIVM II

Marina Sena é apenas uma das convidadas de um projeto maior

Para a agência NOVA, responsável pela criação do projeto, o videoclipe reforça a relação entre identidade, território e desenvolvimento.

“O ‘Nosso Canto’ nasceu para transformar a música em um ponto de encontro entre artistas, empreendedores e territórios. Cada videoclipe amplia o significado da canção ao revelar histórias reais de quem empreende a partir da própria cultura e identidade. Em ‘Feira de Mangaio’, essa conexão ganha ainda mais força ao mostrar como os saberes tradicionais e a criatividade da Amazônia também impulsionam desenvolvimento e geração de oportunidades”, afirma Ana Paula Terra, diretora de Atendimento da NOVA.

Lançado em maio, o “Nosso Canto” reúne artistas de diferentes estilos e regiões do país em novas interpretações de clássicos da música brasileira. O projeto já apresentou videoclipes com Ajuliacosta e MC Hariel e terá ainda lançamentos com Os Garotin e Liniker. Assista o mini-doc sobre o Ver-o-Peso:

*Com informações do Sebrae

Amazonas é o segundo estado do país com maior risco ambiental e climático para crianças, diz Unicef

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Seca em Rondônia, 2023. Foto: Tiago Frota/Rede Amazônica RO

O Amazonas é o segundo estado do Brasil mais vulnerável a riscos ambientais e climáticos para a infância e a adolescência, aponta o estudo “Painel Painel Crianças e Meio Ambiente” publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com a organização Vital Strategies. O levantamento avalia a exposição de crianças a cenários de secas severas, ondas de calor, fumaça de queimadas e falta de saneamento básico.

No ranking nacional de vulnerabilidade, o Amazonas fica atrás apenas do Pará, compondo o bloco de emergência máxima no país. Segundo os dados, 42,4% dos municípios amazonenses apresentam 10 ou mais indicadores no nível crítico de alerta, o patamar mais alto de gravidade do indicador.

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Entre as principais ameaças identificadas no interior do estado estão a oscilação extrema dos rios, que isola comunidades, paralisa o transporte escolar e dificulta o acesso à água potável, além da poluição do ar gerada pelas queimadas sazonais e o histórico déficit de esgotamento sanitário.

Segundo a Unicef, vulnerabilidade do estado decorre da sobreposição de crises ambientais e estruturais que afetam diretamente a saúde e o desenvolvimento de meninos e meninas. No interior, a rápida e violenta oscilação nos níveis dos rios atinge em cheio as calhas do Rio Negro, Solimões e Juruá, onde o isolamento provocado pelas secas históricas paralisa o transporte escolar, interrompe o abastecimento de água potável e impede o acesso a serviços básicos de saúde.

Esse cenário é agravado pela degradação da qualidade do ar provocada pelas queimadas sazonais, que atingem com severidade os municípios do sul e do oeste amazonense e disparam os índices de internações pediátricas por problemas respiratórios.

Ainda de acordo com o estudo, o cenário soma-se a crise climática um histórico déficit sanitário: a falta de saneamento básico e o esgotamento sanitário inadequado nas comunidades do interior mantêm a população infantil em constante exposição a Doenças de Veiculação Hídrica (DVH).

Leia também: Amazonas concentra 18% das áreas sob risco de desmatamento na Amazônia previsto para 2026, aponta PrevisIA

Situação em Manaus

Apesar de o interior registrar proporções mais severas de falta de infraestrutura básica, Manaus concentra o maior volume absoluto de crianças e adolescentes em situação de risco no estado. Cerca de 31,8% da população da capital tem entre 0 e 17 anos e vive sob alerta alto em metade dos indicadores ambientais analisados.

seca gera risco em manaus
Rio Negro em Manaus, 2023. Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

De acordo com o mapeamento, o cenário na capital é agravado por fatores urbanos:

  • Ilhas de calor e escolas desprotegidas: metade das unidades de ensino e creches na capital está localizada em áreas com alto estresse térmico e pouca ou nenhuma arborização.
  • Poluição e queimadas: no período de estiagem, a fumaça de queimadas na Região Metropolitana se acumula sobre a cidade, elevando os casos de problemas respiratórios infantis.
  • Eventos extremos: a ocorrência de alagamentos por chuvas intensas e o adensamento populacional em áreas de risco, como encostas e margens de igarapés, aumentam a exposição das crianças a acidentes e doenças de veiculação hídrica.

Como funcionam os indicadores de risco do estudo

O mapeamento combina dados oficiais de órgãos de saúde, meio ambiente e saneamento para avaliar a exposição dos municípios a riscos socioambientais em três patamares de gravidade. Quanto maior o acúmulo de indicadores classificados no nível 3 de forma simultânea, mais crítica é a posição do município no ranking de urgência para a infância.

Escala de gravidade em três patamares:

  • Nível 3: Significa que a cidade demanda atenção imediata e priorizada;
  • Nível 2: Para o qual se recomenda planejamento e adoção progressiva de medidas no curto a médio prazo;
  • Nível 1: Baixa prioridade, que demanda monitoramento contínuo, sem necessidade de intervenção emergencial.

Emergência na Região Norte

A Região Norte lidera os índices de vulnerabilidade no país. Além de Pará e Amazonas, o estado do Acre aparece na 3ª colocação nacional. Juntos, os três estados concentram as maiores taxas de municípios em que a sobreposição de crises ambientais e falta de serviços essenciais ameaça diretamente a saúde e o desenvolvimento de meninos e meninas.

Em nota, o Unicef ressalta a necessidade urgente de políticas públicas voltadas à adaptação climática com foco na infância, priorizando investimentos em saneamento resiliente, arborização de espaços escolares e proteção social para famílias afetadas por eventos climáticos extremos.

*Por Lucas Macedo, da Rede Amazônica AM

‘Entrevistas’ recebe ministro Waldez Góes para detalhar trabalhos diante do fenômeno El Niño na Amazônia

Arte: Reprodução/Amazon Sat

O programa ‘Entrevistas‘, exibido pelo canal Amazon Sat, uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica voltada às discussões que ocorrem em Brasília e impactam diretamente a região amazônica, recebe neste episódio o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Waldez Góes.

A conversa aborda os desafios impostos pelo fenômeno El Niño na Amazônia, os impactos provocados pela estiagem extrema e as estratégias do Governo Federal para reduzir os efeitos da seca sobre a população, a economia e o meio ambiente.

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Comandado pelo jornalista Welliton Lopes, o programa trata de temas como o monitoramento climático, a preparação dos estados e municípios para o período de estiagem, o apoio às comunidades isoladas e as ações coordenadas entre os governos federal, estaduais e municipais para minimizar os impactos do fenômeno.

Durante a entrevista, Waldez Góes comenta o cenário enfrentado pela Amazônia diante da possibilidade de um novo período de seca extrema e destaca a importância do planejamento antecipado para reduzir os prejuízos causados pelo fenômeno.

“Pode até ser mais grave [sobre os efeitos do el niño este ano na Amazônia]. Nós atuamos desde janeiro de 2023 sob a coordenação e liderança do presidente Lula, com muita aproximação aos estados, municípios e às populações de modo em geral. Seja para monitorar ou criar planos de contingência e trazer respostas para os desastres, ou seja, na atuação articulada de atender as pessoas”, afirma.

Leia também: Programa ‘Entrevistas’ levanta debate sobre o combate à criminalidade na Amazônia; assista

Waldez Góes é um dos convidados do programa Entrevistas - Amazon Sat
Waldez Góes é um dos convidados do programa Entrevistas. Foto: Reprodução/Amazon Sat

“Logicamente que há um amadurecimento gigante, de 2023, 2024, 2025 e chegamos em 2026. Temos um alerto de super el niño, que de certa forma tem grandes secas na Amazônia e eu já vivi isso há dois anos, ao ver rios que nunca imaginei secarem e eles secaram. Lá no meu Amapá ver o rio Amazonas ter problemas de navegabilidade, em seus afluentes também, dificultando toda a logística, já que aqui na Amazônia dependemos muito de nossos rios, sendo nossas estradas”, completa.

Ações para enfrentar a estiagem deste ano

Durante a entrevista, o ministro também detalha as ações previstas pelo Governo Federal para enfrentar os efeitos da estiagem na Amazônia ao longo deste ano.

Entre as medidas estão o monitoramento permanente das condições climáticas; o fortalecimento da atuação da Defesa Civil Nacional; a preparação para eventual reconhecimento de situações de emergência; o envio de ajuda humanitária às populações afetadas; além da articulação com estados e municípios para garantir o abastecimento de água, alimentos, medicamentos e combustível em regiões isoladas.

O ministro também destaca os investimentos voltados à infraestrutura hídrica, à logística e ao fortalecimento da capacidade de resposta dos entes federativos diante dos eventos climáticos extremos que tem afetado a região.

“A última estiagem aconteceu de ter que paralisar o funcionamento de usinas hidrelétricas, por não ter água suficiente para poder gerar energia. Isso também está no radar, principalmente pelo Ministério de Minas e Energia, para garantir o abastecimento principalmente de municípios mais isolados. […] Isso conhecido e percebido, se prepara um trabalho de contingência, que é recorrer a todas as necessidades, de produtos, equipamentos e pessoas, visualizar isso e ir empregando de acordo com a evolução do evento. Então acho que o Brasil está mais preparado para isso, até porque não podemos diminuir o número de eventos, a frequência deles, mas podemos chegar mais preparados quando ele ocorrer, diminuindo o sofrimento das pessoas”, assegura.

A entrevista também aborda a importância da integração entre as administrações do governos federal, estaduais e municipais, além do trabalho conjunto com órgãos de monitoramento, instituições de pesquisa e equipes de proteção e defesa civil para reduzir os impactos sociais, ambientais e econômicos provocados pelo El Niño e por outros fenômenos climáticos.

‘Entrevistas’

O programa Entrevistas, do Amazon Sat, nasce com a proposta de aproximar os amazônidas das decisões tomadas em Brasília que impactam diretamente a região. Produzido pela sucursal do Grupo Rede Amazônica na capital federal, o programa aborda temas ligados à política, justiça, economia e meio ambiente, ouvindo representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de especialistas e formadores de opinião.

Apresentado pelo jornalista Welliton Lopes, que há mais de duas décadas acompanha pautas da Amazônia em Brasília, o programa pretende aprofundar debates e revelar os bastidores das decisões que influenciam a vida de mais de 30 milhões de pessoas na região amazônica. A atração também busca transformar assuntos técnicos e complexos em informações acessíveis ao público.

‘Entrevistas’ tem sempre um episódio inédito às terças-feiras, às 19h30, e conta com reexibições: quartas, às 9h; quintas, às 13h30; sextas, às 17h30; sábados, às 9h30; domingos, às 15h45; e segundas, às 19h30. Todos os horários seguem o fuso de Manaus/AM (GMT -4).

5 médicos amazônidas que também se dedicam à literatura

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Fotos: Reprodução

Na Amazônia, diversos médicos encontraram na escrita uma forma de contribuir para a cultura da região, produzindo obras que vão da poesia aos romances, passando por pesquisas históricas, ensaios e crônicas.

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Esses profissionais mostram que o conhecimento científico pode caminhar lado a lado com a arte de contar histórias. Conheça cinco médicos amazônidas que deixaram importantes contribuições para a literatura:

1. Aristóteles Alencar

Cardiologista, Aristóteles Comte de Alencar Filho conseguiu unir a carreira na medicina ao interesse pela história e pela cultura do Amazonas. Além de artigos científicos, publicou diversas obras que ajudam a preservar a memória de Manaus e do estado.

Leia também: Conheça 20 livros de escritores indígenas de diferentes povos originários no Brasil

Médico Cardiologista e atual presidente da Academia Amazonense de Letras Dr. Aristóteles Comte de Alencar Filho. Foto: Reprodução/Academia Amazonense de Letras
Médico Cardiologista e atual presidente da Academia Amazonense de Letras Dr. Aristóteles Comte de Alencar Filho. Foto: Reprodução/Academia Amazonense de Letras

Entre seus livros estão:

  • Beleza Decifrada- Detalhes da arte antiga nos monumentos do Largo de São Sebastião e entorno: retrata um estudo sobre a arquitetura e os monumentos históricos do Largo de São Sebastião, em Manaus.
  • Reclames Médicos da Manaus Antiga: resgata anúncios de medicamentos, curiosidades e aspectos da prática médica em Manaus entre o final do século XIX e o início do século XX.
  • Centenário da Igreja de São Sebastião de Manaus (1888-1988): Livro que conta a história centenária do templo religioso.
  • Josephina de Melo: É uma obra dedicada à personagem histórica.
  • Maria Callas: Livro sobre a trajetória da célebre cantora de ópera.

2. Márcio Maués

O médico e poeta paraense Márcio Maués acredita que a medicina e a poesia têm um ponto em comum: ambas exigem escuta, empatia e humanidade. Em seus livros, leva para os versos referências à Amazônia, à memória e às experiências humanas, conquistando leitores dentro e fora do Brasil.

Médico e poeta paraense Márcio Maués Foto: Aldfecyr Cruz

Entre suas principais obras estão:

  • Anatomia das Estrelas: edição bilíngue (português e espanhol) que une poesia e memória.
  • Longitude das Ternuras: lançado durante a Festa Literária Internacional de Paraty, o livro é apontado como um dos livros de poesia mais vendidos.
  • Coreografia das Urgências: reúne cerca de 80 textos que traduzem a urgência em viver, sentir e expressar emoções cotidianas. 
  • A Pele que nos Habita: reúne o cotidiano amazônico do autor com temas relacionados com a ancestralidade, a natureza e o cotidiano.
  • Costuras do Infinito Sobre o Peito: obra que aborda as memórias e os silêncios que preenchem as ruas e as águas ao pôr do sol.
  • Poemas do Desmantelo do Campo de Espera: livro de poemas. 

3. Djalma Batista

Nascido no Acre e radicado no Amazonas, Djalma Batista foi um dos grandes nomes da medicina amazônica. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, destacou-se no combate às doenças tropicais e dirigiu instituições como o Sanatório Adriano Jorge e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Além da atuação médica, tornou-se um importante intelectual ao produzir livros que analisam o desenvolvimento da Amazônia, sua sociedade e sua cultura.

Médico e escritor Djalma Batista. Foto: Reprodução/Instagram-@manausnahistoria

Entre suas principais obras estão:

  • O Complexo da Amazônia (Análise do Processo de Desenvolvimento): considerada sua obra mais importante, discute os desafios econômicos, sociais e científicos da região.
  • Amazônia, Cultura e Sociedade: reúne ensaios sobre identidade, educação e desenvolvimento amazônico.
  • Introdução à Sociologia da Amazônia: analisa as dinâmicas sociais da região.
  • O Seringal e o Seringueiro: retrata aspectos históricos e sociais ligados ao ciclo da borracha e aos trabalhadores da floresta.

Leia também: ‘Sentido das águas’: três livros de Drauzio Varella que relatam vivências na Amazônia

4. João Bosco Lopes Botelho

Nascido em Manaus (AM), o médico, cirurgião, professor e doutor pela Universidade de Paris (França), João Bosco Lopes Botelho também construiu uma trajetória na literatura. Com mais de 16 livros publicados, ele escreveu obras sobre medicina, história, sociedade e ficção ambientada na Amazônia.

Médico João Bosco Lopes Botelho. Foto: Divulgação

Entre seus livros mais conhecidos estão:

  • Escolhas: romance que aborda os dilemas e decisões da vida.
  • História da Medicina – da abstração à materialidade: estudo sobre a evolução da medicina sob a perspectiva da Nova História.
  • Mulateiro: romance ambientado na Manaus ligada à Academia Amazonense de Letras e ao Clube da Madrugada.
  • As Pestes de Acará: romance que explora relações de poder e questões sociais nos rios Solimões e Negro.
  • Epidemias: contra o medo da morte: reflexão sobre as grandes epidemias da história e seus impactos na sociedade.

5. Erik Jennings Simões

Referência na medicina tropical e na dermatologia no Amazonas, o paraense Erik Jennings Simões também encontrou espaço para transformar suas experiências em literatura. Além de artigos científicos, relatórios e ensaios voltados à saúde pública, o médico escreve crônicas inspiradas na rotina da profissão e na vida amazônica.

Médico paraense Erik Jennings Simões. Foto: Reprodução/Instagram-@erikjenningssimoes

Entre suas publicações estão:

  • Paradô: histórias de um Neurocirurgião do Interior da Amazônia: reúne crônicas baseadas nas experiências vividas durante sua atuação médica no interior da região.
  • Olhando o Rio: livro de crônicas e reflexões inspiradas nos rios, nas paisagens e nas pessoas da Amazônia.

Mais de 80% das áreas protegidas da Amazônia tiveram desmatamento zero no primeiro semestre

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Desmatamento recua em áreas protegidas. Foto: Fábio Nascimento/Greenpeace

Com a menor área de floresta derrubada no primeiro semestre dos últimos oito anos, a Amazônia teve mais de 80% das áreas protegidas com desmatamento zero entre janeiro e junho deste ano. Isso corresponde a 588 territórios sem devastação, sendo 330 terras indígenas e 258 unidades de conservação. As análises são do instituto de pesquisa Imazon, que monitora a Amazônia por imagens de satélite desde 2008.

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Além disso, apenas uma terra indígena e sete unidades de conservação tiveram desmatamento maior que 1 km² no primeiro semestre deste ano. De janeiro a junho, as áreas protegidas registraram 97,37 km² de derrubada, apenas 8% do registrado em toda a Amazônia. Foram 9,38 km² em terras indígenas e 87,99 km² em unidades de conservação.

Áreas protegidas com desmatamento acima de 1 km² entre janeiro e junho de 2026, segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon:

TerritórioUFDesmatamento (km²)
APA Triunfo do XinguPA47,85
FLONA de AltamiraPA12,51
APA do TapajósPA4,01
RESEX Guariba-RooseveltMT3,47
FLONA do JamanximPA3,45
TI Porquinhos dos Canela-Apãnjekra (reestudo)MA2,05
APA do Lago de TucuruíPA1,41
APA das Reentrâncias MaranhensesPA/MA 1,32

O destaque negativo foi para a Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, no Pará, responsável por metade do desmatamento registrado em todas as áreas protegidas da Amazônia no primeiro semestre. Foram desmatados 47,85 km² entre janeiro e junho no território, o que corresponde a quase 5 mil campos de futebol. Ou seja, o território perdeu, em média, 25 campos de futebol de floresta por dia.

Além disso, a Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, que teve grande destaque neste mês após a aprovação, no Senado, de um projeto de lei que reduz sua área, foi a quinta unidade de conservação mais desmatada na Amazônia. O território perdeu 3,45 km² de floresta, o que equivale a quase 350 campos de futebol.

“A aprovação desse projeto mostra que o Congresso Nacional está legislando para favorecer um pequeno grupo de pessoas que invadiu ilegalmente essa unidade de conservação após sua criação, em 2006. As unidades de conservação são importantíssimas para conter o desmatamento e combater a crise climática. Por isso, esse projeto precisa ser vetado pela Presidência”, alerta a coordenadora do Programa de Direito e Sustentabilidade do Imazon, Brenda Brito. 

Leia também: Amazonas tem mais de 260 mil pessoas vivendo em áreas protegidas, segundo Censo

Em toda a Amazônia, foram derrubados 1.145 km² de floresta entre janeiro e junho de 2026, 10% a menos do que no mesmo período do ano passado.

“Porém, quando comparamos historicamente a área desmatada no primeiro semestre, a derrubada de 2026 foi 76% menor do que a de 2022, quando registramos o recorde de desmatamento desde 2008, ano de implantação do nosso sistema de monitoramento. Precisamos seguir nessa redução até atingirmos a meta de desmatamento zero para 2030”, afirma a coordenadora do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon, Larissa Amorim. 

Mais de 80% das áreas protegidas da Amazônia tiveram desmatamento zero no primeiro semestre
SAD Desmatamento – Janeiro a Junho de 2008 – 2026

A redução da derrubada é ainda mais expressiva na análise do chamado “calendário do desmatamento”, que por causa do regime de chuvas na Amazônia vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte. Em 11 meses, de agosto de 2025 a junho de 2026, a região teve 2.258 km² desmatados, 28% a menos que no período anterior. E 75% a menos do que entre agosto de 2021 e junho de 2022, ano em que a Amazônia teve recorde de devastação no período. Apenas em junho, a queda no desmatamento foi de 5%, passando de 326 km² em 2025 para 309 km² em 2026.

SAD – Série histórica do Calendário do Desmatamento (Agosto a Junho)

A degradação, dano ambiental causado pela extração de madeira e pelas queimadas, teve queda de 55% em junho, passando de 207 km² em 2025 para 94 km² em 2026. Já no acumulado de janeiro a junho, a redução atingiu 86%. E, no calendário do desmatamento, de agosto de 2025 a junho de 2026, a degradação caiu 93%. 

Pará, Mato Grosso e Amazonas lideram desmatamento

Apenas dois dos nove estados que compõem a Amazônia Legal registraram alta no desmatamento entre agosto de 2025 e junho de 2026: Roraima (de 25%) e Maranhão (de 20%).

“Esses territórios com aumento na derrubada florestal precisam intensificar suas políticas de combate ao desmatamento com urgência, tanto federais quanto estaduais”, alerta a pesquisadora do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, Raíssa Ferreira.

Os outros sete estados tiveram quedas de 67% (Tocantins) a 27% (Mato Grosso). Já em relação ao tamanho das áreas desmatadas, a liderança nesses 11 meses foi do Pará (684 km²), do Mato Grosso (509 km²) e do Amazonas (378 km²). “Apesar desses três estados terem registrado quedas no desmatamento, eles possuem grandes áreas florestais e precisam fortalecer suas ações de fiscalização e punição para evitar novas derrubadas”, completa a pesquisadora do mesmo programa, Manoela Athaide.

EstadoDesmatamento agosto de 2024 a junho de 2025Desmatamento agosto de 2025 a junho de 2026Variação
Pará1072684-36
Mato Grosso696509-27
Amazonas613378-38
Roraima19924925
Acre316230-27
Maranhão9110920
Rondônia13387-35
Tocantins248-67
Amapá74-43

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*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon