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Açaí industrializado mantém propriedades do fruto fresco, aponta pesquisa da Ueap

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Pesquisa mostra que açaí industrializado mantém benefícios do fruto fresco — Foto: Vinícios Braga

Um estudo liderado pela Universidade do Estado do Amapá (Ueap) comprovou que o açaí industrializado mantém as propriedades do fruto fresco e pode ser um grande aliado da saúde. A pesquisa mostrou que após processamento, os componentes benéficos continuam ativos.

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Participaram da pesquisa cientistas da Ueap, Universidade Federal do Amapá (Unifap), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade de San Sebastián, no Chile.

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Fruto do açaí — Foto: Instagram sorveteria Cairu

O produto com as mudanças industriais é o de consumo fora da Amazônia, comercializado como um sorvete.

O projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Amapá (Fapeap) por meio do Programa Pesquisa Para o SUS (PPSUS), pelo projeto Economias Comunitárias Inclusivas, do Fundo JBS pela Amazônia e pela cooperativa Amazonbai.

Leia também: Protocolo viabiliza mudas em larga escala para cultivo sustentável de açaí-solteiro na Amazônia

Resultados da pesquisa

Foram investigados os efeitos antioxidantes do açaí processado industrialmente e concluiu-se que o extrato manteve os compostos bioativos, mesmo após passar pelas mudanças.

O resultado mostrou os efeitos protetores contra o estresse oxidativo em células cardíacas, ou cardio protetor, e no fígado de ratos, o hepatoprotetor.

Açaí Foto: Divulgação

O pesquisador Jefferson Romáryo Duarte da Luz contou que a análise foi realizada durante o estágio pós-doutoral.

“Investigamos os efeitos do açaí industrializado em um modelo celular de estresse oxidativo, utilizando uma linhagem de células cardíacas. Induzimos o estresse nessas células e, em seguida, aplicamos o extrato de açaí processado. Os resultados foram muito positivos: observamos uma redução significativa do estresse oxidativo nas células tratadas em comparação com as não tratadas”, explicou.

O pesquisador explicou também que, além disso, foi feita uma análise do perfil químico do açaí industrializado. A etapa apontou bioativos importantes com potencial terapêutico em combate a doenças cardiovasculares.

“Outro ponto essencial foi que não identificamos efeitos adversos sobre o metabolismo hepático em ratos, o que reforça o potencial hepatoprotetor do açaí frente ao estresse oxidativo”, completou.

Fruto açaí. Foto: Luciana Pombo

Jefferson contou ainda que os achados são relevantes, mantendo propriedades importantes e sendo um aliado natural na prevenção de doenças crônicas.

“Isso valoriza um produto típico da nossa região, com forte impacto cultural, econômico e científico, e reforça a importância de investir em pesquisa na Amazônia e no Amapá”, completou.

Outro pesquisador presente no artigo é o professor Gabriel Araújo, da Ueap. Ele destacou a riqueza natural amazônica.

“A pesquisa agrega valor a um produto local e culturalmente vinculado ao dia a dia da Amazônia. Além de um alimento saboroso, uma reafirmação da cultura e do poder das florestas”, disse Gabriel.

*Por Isadora Pereira, g1 AP — Macapá


Fiocruz Amazônia avança nas pesquisas para desenvolvimento de testes para detecção do vírus causador da gripe aviária 

Fiocruz Amazônia avança nas pesquisas. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

A Fiocruz Amazônia, por meio do Laboratório de Diagnóstico e Controle de Doenças Infecciosas na Amazônia (DCDIA), vem trabalhando nas pesquisas para o desenvolvimento de testes destinados à detecção do vírus H5N1, causador da gripe aviária, utilizando abordagens moleculares e imunológicas.

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O estudo intitulado Pesquisas para Enfrentamento da Gripe Aviária H5N1 – já se encontra em fase de testes, inicialmente com genes sintéticos e extrações de isolados de cultura, visando a padronização do ensaio.

“Buscamos deixar o ensaio pronto para padronização com amostras reais, a ser realizada em laboratórios com o nível de segurança biológica apropriado, caso venha a se tornar necessário”, explica o pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Luis André Morais Mariúba, membro do grupo DCDIA e coordenador do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) da unidade.

Leia também: Pesquisador da Fiocruz Amazônia alerta para precarização sanitária da região no Atlas da Amazônia

Fiocruz Amazônia avança nas pesquisas. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Ele explica a importância do avanço das pesquisas nessa área, citando o risco cada vez maior de surgimento de emergências sanitárias mundiais a partir dos surtos já registrados da gripe aviária em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, onde foram relatados casos em aves.

“A situação já preocupa as autoridades sanitárias de diversos países e o momento atual é de monitoramento e controle da doença. A proposta é de que os testes sejam utilizados por agentes de saúde durante emergências sanitárias”, afirma Maríúba. Segundo ele, os novos testes podem chegar a um tempo de espera pelo resultado inferior a 20 minutos.

O pesquisador salienta que as pesquisas poderão avançar ainda mais. “Os ensaios até o momento já realizados são promissores, já estamos programando novos testes em colaboração com a Universidade de São Paulo (junto à Profa. Dra. Helena Laje) e do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), junto ao Prof. Dr. Felipe Naveca). Participam deste estudo alunos do Programa de Pós-graduação em Biologia da Interação Patógeno-hospedeiro, mestrandas Alice Alencar e Darleide Braga, Dra. Juliane Glória (ILMD-FIOCRUZ) e empresa EZscience”, observou.

Leia também: Fiocruz Amazônia realiza mapeamento de áreas de risco para surtos de raiva no Amazonas

Resumo

O projeto de pesquisa visa o desenvolvimento de insumos para o diagnóstico de H5N1 utilizando anticorpos de galinha e ensaios moleculares. “A equipe do laboratório trabalha em três frentes: produção de anticorpos extraídos de gemas de ovos de galinha (IgY); produção de anticorpos recombinantes scFv de origem galinácea; desenvolvimento de teste molecular rápido com detecção em fita com anticorpos scFv de origem galinácea”, afirma Mariúba.

Fiocruz Amazônia
Fiocruz Amazônia avança nas pesquisas. Foto: Divulgação / Fiocruz Amazônia

Segundo o pesquisador, os anticorpos IgY foram produzidos com sucesso utilizando peptídeos baseados no antígeno H5. “Iniciamos os ensaios em fitas imunocromatográficas; os anticorpos scfv foram desenvolvidos contra os antígenos H5 e N1, e estão atualmente em análise quanto a sua especificidade à estes antígenos; os ensaios moleculares rápidos foram padronizados com sucesso, sondas específicas para a detecção do gene H5 foram desenvolvidas. Novas sondas também serão testadas, assim como buscaremos desenvolver fitas de origem nacional”, enumera. 

Mariúba afirma que, em todas as frentes de trabalho (1, 2 e 3), são aguardados padrões a serem enviados por instituto internacional parceiro para melhor verificação da sensibilidade e especificidade dos insumos produzidos. Com contribuição dos resultados do projeto para o enfrentamento da H5N1, ele considera que, para uso imediato, é possível testar em campo o ensaio molecular rápido, por enquanto, utilizando as fitas imunocromatográficas internacionais.

“Estes ensaios permitem a detecção do vírus entre 15 e 20 minutos. A aplicação deste em amostras frescas poderá ser de grande contribuição para o enfrentamento atual da doença em granjas”, observa.

Leia também: Milhões de ribeirinhos da Amazônia se nutrem de alimentos contaminados, afirma Fiocruz

NIT-ILMD

Implantado em 2007, o Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), tem como objetivo prospectar projetos de pesquisa para identificação de tecnologias e produtos que possam ser patenteados, assim como intermediar o contato entre pesquisadores, tecnologistas e a Coordenação de Gestão Tecnológica (Gestec/Fiocruz) para elaboração de pedidos para depósito de patentes e acompanhamento do processamento das negociações, desde o depósito até a manutenção das patentes.

O Sistema Fiocruz de Gestão Tecnológica e Inovação foi criado em 2006 com a missão de promover a inovação em saúde, por meio da gestão da Propriedade Intelectual e da Transferência de Tecnologia, de forma integrada e articulada com as Unidades da Fiocruz. Através de sua atuação, tornou-se referência na gestão de Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia no Brasil.

O NIT/ILMD está ligado à diretoria e atua diretamente com os pesquisadores da Unidade, fornecendo-lhes orientações acerca de assuntos relacionados à propriedade intelectual e inovação em consonância com as políticas de gestão da inovação da Fiocruz e com o Programa de Inovação Tecnológica do ILMD/Fiocruz Amazônia.

Integração entre lavoura e pecuária garante renda o ano todo a produtores em Roraima

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Integração entre lavoura e pecuária — Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica

O sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), que é a combinação entre a plantação de grãos, como soja e milho, e a criação de animais, tem permitido que produtores rurais em Roraima mantenham a produção ao longo de todo o ano, mesmo com os desafios do solo e do clima da região.

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Um desses produtores é Leonardo Vendruscolo. Ele chegou ao estado em 2013 e desde então, investe na produção agrícola. Nos primeiros seis anos, o foco foi apenas na lavoura, até que passou a implementar o sistema ILP.

A técnica integra o plantio de grãos à criação de gado em uma mesma área. A fazenda de Leonardo fica na região de Alto Alegre, ao Norte de Roraima, e foi adaptada para comportar a estratégia.

Leia também: Ministro da Agricultura anuncia criação da Câmara Setorial para Agropecuária Indígena

Integração entre lavoura e pecuária
Integração entre lavoura e pecuária — Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica

Leia também: Aquicultura na Amazônia promove segurança alimentar com menos impacto que a pecuária

De acordo com ele, as áreas cultivadas servem também como base para o desenvolvimento do capim, o que contribui para a formação de pastagem com maior qualidade.

“As áreas que a gente trabalha com a agricultura, o capim é diferenciado. Elas já vêm com adubação, que vem da cultura da soja ou do milho. Se fôssemos plantar apenas o capim no lavrado, talvez não viabilizasse. Mas já temos as áreas corrigidas. O potencial é muito grande”, avalia.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja de Roraima (Aprosoja), Murilo Ferrari, explica que os agricultores precisam dessas estratégias para manter os negócios no estado.

“É muito desafiador produzir no lavrado de Roraima. Os profissionais, os agricultores, têm um perfil muito tecnológico. Para investir aqui no estado, precisa de tecnologia, de ciência, precisa fazer mais com menos”, resume.

Leia também: Produtores rurais apostam em drones agrícolas para aumentar produtividade na pecuária em Roraima

Integração entre lavoura e pecuária — Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica

Entre os benefícios da técnica estão o reaproveitamento de nutrientes no solo, o uso de adubação orgânica e a possibilidade de fazer controle biológico de pragas. A prática reduz o uso de fertilizantes químicos e permite a diversificação da renda.

Segundo Leonardo, a última plantação de milho deve ser colhida em setembro deste ano. A previsão é de que o período entre novembro de 2025 e março de 2026 seja voltado à pecuária, na mesma área.

“A integração na fazenda diversifica a nossa fonte de renda, hoje trabalhamos praticamente em todos os períodos do ano. Diminui o risco que é depender apenas de uma atividade. O milho já finalizou a braquiária [um tipo de capim forrageiro usado para alimentação de gado], na entrelinha dele. Isso vai servir como pastejo, a gente fala que é a nossa ‘safrinha de boi’”, explicou.

O produtor também contou que a atividade tem gerado oportunidades e possibilitado a sustentabilidade do empreendimento agrícola, o que gera mais trabalho, mais renda, e mais empregos.

“A gente consegue praticamente dobrar o número de funcionários na fazenda. Isso é muito importante para a sociedade, para a região. Temos armazém na fazenda, o confinamento. Isso tudo ajuda a ter mais uma opção de emprego na região”, avalia.

*Por Nalu Cardoso, Amazônia Agro — Boa Vista

Governo de Rondônia ainda tenta resgatar barco hospital que afundou há quase dois meses no rio Mamoré; relembre o caso

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Barco Hospital Walter Bártolo. Foto: Leonardo Mendes

Quase dois meses após o naufrágio, o governo de Rondônia ainda tenta resgatar o Barco Hospital Walter Bártolo, que afundou no rio Mamoré, em Guajará-Mirim (RO). A embarcação, que custou cerca de R$ 4 milhões, era responsável por levar atendimento médico a comunidades ribeirinhas, às margens dos rios Mamoré e Guaporé.

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Uma nova imagem aérea divulgada pelo governo de Rondônia mostra parte da estrutura do barco ainda submersa no rio. É possível ver balsas, maquinário ao redor da embarcação, equipes de mergulho e a movimentação de equipamentos usados na tentativa de levantar o barco.

Barco Hospital Walter Bártolo
Governo de RO tenta resgatar barco hospital de afundou no rio Mamoré. Foto: reprodução g1 Rondônia

A operação de resgate foi iniciada entre os dias 6 e 11 de junho, com o envio de balsas, empurradores, guinchos, mergulhadores e maquinário pesado. Segundo o governo, uma base flutuante foi montada no local para dar suporte técnico às ações, que estão sendo acompanhadas por equipes da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), com foco na segurança e no cumprimento das normas ambientais.

Entre os dias 12 e 15 de junho, mergulhadores realizaram novas incursões subaquáticas e retiraram materiais soltos do interior da embarcação. Técnicos também iniciaram a soldagem de olhais metálicos no casco do barco, estrutura necessária para o içamento da unidade.

Além disso, teve início a preparação de um porto provisório, onde o barco hospital será atracado e destombado após ser retirado da água. Um terceiro empurrador e uma escavadeira hidráulica foram enviados para reforçar a logística da operação, que ainda está em andamento.

Leia também: Barco Dominique: Relembre o maior naufrágio de Codajás, no Rio Solimões, no Amazonas

Relembre o caso

O Barco Hospital Walter Bártolo, que pertence ao estado de Rondônia, naufragou no dia 30 de abril, em Guajará-Mirim (RO). Testemunhas disseram que, por volta de 2h40 da madrugada, a embarcação estava descendo com a força da correnteza o rio Mamoré. Alguns equipamentos, como freezer, geladeira e boias estavam flutuando no rio.

Foto: reprodução g1 Rondônia

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesau) disse que a embarcação, usada em atendimentos a ribeirinhos e indígenas da região, estava atracada na margem do rio Mamoré e havia retornado de uma missão há dois dias, realizada em parceria com a Prefeitura de Guajará-Mirim.

A nota também informa todas as licenças, laudos e manutenções do barco estão em dia e que aguarda o parecer técnico da Polícia Militar e da Marinha do Brasil, que estão conduzindo as investigações sobre as causas do ocorrido.

Leia também: “Titanics da Amazônia”: relembre os 10 maiores naufrágios da região

O que tinha no barco?

Governo de RO tenta resgatar barco hospital de afundou no rio Mamoré. Foto: reprodução g1 Rondônia

A Unidade de Saúde Social Fluvial Walter Bártolo está equipada com:​

  • Consultórios médicos​
  • Salas de enfermagem, triagem, nebulização, procedimentos e curativos​
  • Sala de coleta e laboratório
  • Farmácia​
  • Cozinha e lavanderia

O Barco Hospital Walter Bártolo, operado pelo Governo de Rondônia, foi adquirido por meio de uma compensação social realizada pela concessionária da Usina Hidrelétrica Jirau, a Energia Sustentável do Brasil (ESBR), com o objetivo de mitigar os impactos sociais decorrentes da construção da usina.​

De acordo com a Jirau, o barco-hospital todo equipado custou R$ 4 milhões e foi entregue ao governo em 2016.

Rio Negro está próximo de alcançar cota de inundação severa em Manaus

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Cheia do Rio Amazonas. Foto: divulgação

O Rio Negro, em Manaus, alcançou a marca de 28,91 metros e está a 9 centímetros de bater a cota de inundação severa, de 29 metros. O nível foi registrado pela medição do Porto de Manaus nesta quarta-feira (18).

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Embora a cheia deste ano seja considerada de grande impacto, a projeção do Serviço Geológico do Brasil (SGB) é de que a marca histórica de 30,02 metros não seja atingida, conforme o 3º Alerta de Cheias da Bacia do Amazonas de 2025, divulgado pelo órgão, no último dia 30.

Leia também: Documentário ‘Manaus Extrema’ mostra detalhes sobre a seca do Rio Negro em 2023

Rio Negro
Cheia do Rio Negro em Manaus. Foto: Alberto César Araújo/Amazonia Real

De acordo com o SGB, o monitoramento do Rio Negro é feito com base em cotas de medição, tomando como referência a cheia recorde de 2021. Veja a classificação:

  • Cota máxima registrada (2021): 30,02m
  • Inundação severa: 29,00m
  • Inundação: 27,50m
  • Alerta: 27,00m

De 1º a 18 de junho, o Rio Negro subiu 31 centímetros, uma média de 1,7 centímetros por dia; confira o gráfico abaixo:

Em 2024, o Rio Negro registrou o nível mais baixo da história: 12,11 metros. A seca afetou duramente comunidades ribeirinhas, isolou áreas e impactou milhares de pessoas. Agora, o cenário se inverte, com a cheia gerando novas preocupações.

No bairro Educandos, na Zona Sul de Manaus, moradores cobram a construção de pontes de madeira para garantir o acesso às casas, especialmente nas áreas mais afetadas pelos alagamentos.

A aposentada Francisca de Alencar, que mora com a família na região, relata que a parte inferior da casa onde mora já foi completamente inundada pela água contaminada que vem do igarapé.

“Alagou porque choveu e ai quando chove vai enchendo. Ainda ta enchendo, não muito, mas está”, afirmou.

Leia também: Saiba quais foram as maiores vazantes do Rio Negro em Manaus

Cenário no Amazonas

A cheia ainda avança em outros municípios do Amazonas. Em Itacoatiara, o nível do Rio Amazonas permanece acima da cota de inundação severa (14,20 metros), segundo o SGB. Na medição mais recente, feita na terça-feira (17), o rio estava marcando 14,43 metros, ficando a 1,7 metros da cota histórica de 15,20 metros, registrada em 2021.

Lixo e água no entorno de casas no bairro Educandos, em Manaus. — Foto: Marcelo Dutra/Rede Amazônica

Em Anamã, 100% do território da cidade está alagado, segundo a Defesa Civil. Nesta quarta-feira, o Rio Solimões marca 17,07 metros.

Por lá, moradores transforaram as ruas inundadas em balneários improvisados. Um vídeo que circula nas redes sociais mostra adultos e crianças tomando banho, interagindo com animais, dançando e navegando em botes.

Apesar disto, a enchente na cidade acende um alerta para possíveis doenças causadas pela contaminação nas águas.

Confira as previsões da SGB para os municípios:

  • Previsão: 19,47m (entre 18,66 e 20,29m)
  • 98% de chance de atingir cota de inundação (18,20m)
  • 42% para inundação severa (19,60m)
  • Probabilidade inferior a 1% de superar a máxima de 20,86m (2021)

📍 Itacoatiara (Rio Amazonas):

  • Previsão: 14,33m (entre 13,67 e 14,98m)
  • 76% de atingir a cota de inundação (14,00m)
  • 61% de atingir a cota severa (14,20m)
  • 3% de superar a máxima de 15,20m (2021)

📍 Parintins (Rio Amazonas):

  • Previsão: 8,48m (entre 7,97 e 8,99m)
  • 56% de atingir cota de inundação (8,43m)
  • 2% de atingir cota severa (9,30m)
  • Probabilidade inferior a 0,5% de superar a máxima de 9,47m (2021)

Situação de emergência

A cheia dos rios no Amazonas já atinge mais de 420 mil pessoas, segundo o boletim mais recente da Defesa Civil do Estado, divulgado na terça-feira (17). Os afetados enfrentam dificuldades de locomoção, perdas na produção rural e inundações em suas casas.

Cheia do Rio Amazonas. Foto: divulgação

➡️ O consolidado também indica que 38 dos 62 municípios do Amazonas estão em situação de emergência devido ao fenômeno.

Confira os municípios em situação de emergência pela cheia no Amazonas:

  1. Guajará – Rio Juruá;
  2. Ipixuna – Rio Juruá;
  3. Itamarati – Rio Juruá;
  4. Eirunepé – Rio Juruá;
  5. Juruá – Rio Juruá;
  6. Carauari – Rio Juruá;
  7. Boca do Acre – Rio Purus;
  8. Borba – Rio Madeira;
  9. Nova Olinda do Norte – Rio Madeira;
  10. Apuí – Rio Madeira;
  11. Humaitá – Rio Madeira;
  12. Manicoré – Rio Madeira;
  13. Novo Aripuanã – Rio Madeira;
  14. Atalaia do Norte – Rio Solimões;
  15. Benjamin Constant – Rio Solimões;
  16. Santo Antônio do Içá – Rio Solimões;
  17. Tonantins – Rio Solimões;
  18. Amaturá – Rio Solimões;
  19. Fonte Boa – Rio Solimões;
  20. Maraã – Rio Solimões;
  21. São Paulo de Olivença – Rio Solimões;
  22. Japurá – Rio Solimões;
  23. Tefé – Rio Solimões;
  24. Coari – Rio Solimões;
  25. Jutaí – Rio Solimões;
  26. Careiro da Várzea – Rio Solimões;
  27. Caapiranga – Rio Solimões;
  28. Manaquiri – Rio Solimões;
  29. Anamã – Rio Solimões;
  30. Careiro – Rio Solimões;
  31. Anori – Rio Solimões;
  32. Caapiranga – Rio Solimões;
  33. Itacoatiara – Rio Negro;
  34. Itapiranga – Rio Negro;
  35. Boa Vista dos Ramos – Rio Negro;
  36. Santa Isabel do Rio Negro – Rio Negro;
  37. Manacapuru – Rio Solimões
  38. Uarini – Rio Solimões

Além dos municípios em emergência:

  • 20 estão em estado de alerta;
  • Lábrea em estado de atenção;
  • e três em normalidade.

*Por Lucas Macedo, g1 AM — Manaus

Hospedagem em Parintins dispara com proximidade do Festival: casa é anunciada por R$ 127 mil

Município de Parintins, no interior do Amazonas. Foto: Alexandro Pereira

Faltando poucos dias para a 58ª edição do Festival Folclórico de Parintins, a alta demanda por hospedagem tem feito os preços dispararem. Em meio à expectativa pelo evento, que neste ano acontece nos dias 27, 28 e 29 de junho, há imóveis sendo anunciados para aluguel na semana da festa por até R$ 127 mil, reflexo direto do aquecimento do turismo na ilha.

Leia também: Mini roteiro Parintins: conheça a ilha da magia, o Festival Folclórico e outras curiosidades

Segundo o Governo do Amazonas, cerca de 120 mil pessoas estiveram em Parintins durante o festival em 2024, e a expectativa é de que esse número cresça em 2025.

Realizado em uma ilha no interior do estado, o festival celebra o tradicional duelo entre os bois Caprichoso e Garantido, que transformam o Bumbódromo — uma arena em formato da cabeça de um boi — em um espetáculo a céu aberto, atraindo turistas de todo o país.

Um levantamento do Grupo Rede Amazônica feito em uma plataforma de hospedagem aponta que, entre os dias 22 e 30 de junho, uma casa mobiliada próxima ao Bumbódromo, para apenas uma pessoa, está anunciada por R$ 127,5 mil.

Em outra publicação, apenas uma suíte com vista para a arena custa R$ 12 mil durante o período de oito dias. Já o aluguel da casa completa, que inclui essa suíte e outros dois quartos, chega a R$ 95 mil.

Há quase um mês para festival, aluguel de casas em Parintins chega a R$ 127 mil. Foto: Reprodução

O estudante de odontologia Swan Santos contou que costuma alugar quartos de parte da casa onde mora durante o período do festival há três anos, com valores que chegam a R$ 5 mil.

“A gente permanece na residência, pois alugamos 2/4 suítes apenas, mas há quem aluga a casa toda deixando para os turistas. O valor varia de acordo com o espaço do quarto. Um quarto que acomoda três pessoas confortavelmente custa R$ 3 mil, independente se tiver 3 pessoas ou não. Um quarto que acomoda cinco, custa R$ 5 mil, mas claro, sempre podemos negociar. Alugamos como um pacote, você pode fazer check-in na quinta (festa dos visitantes) e checkout na segunda”, explicou.

Segundo Santos, o último quarto foi alugado no início de maio, após a divulgação de um anúncio nas redes sociais. Ele contou que já começaram os preparativos para receber os hóspedes, com troca de travesseiros e pequenas manutenções na casa.

“No momento que divulgamos já recebo muitas mensagens, a maioria só pra consultar o valor. Demorei em torno de 17 dias pra alugar o primeiro quarto após o anúncio. Os turistas não costumam pedir nada em especial. Na nossa casa oferecemos café da manhã regional todos os dias. Nossos quartos são suítes equipadas, banheiro com espelhos, box e água quente”, contou.

A cidade

Parintins é o quarto município mais populoso do Amazonas, com 96.372 habitantes, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Localizada na margem direita do Rio Amazonas, a cidade fica a 369 quilômetros de Manaus. A ilha só é acessível por via aérea ou fluvial.

É possível chegar a Manaus de avião e, de lá, pegar outro voo até Parintins — com duração entre 40 minutos e 1 hora. No período do festival, companhias aéreas oferecem voos diários, inclusive fretados por agências.

Barcos também saem de Manaus, tanto do Porto quanto da Manaus Moderna, ambos no Centro da capital. A viagem leva cerca de 18 horas no trajeto até Parintins e 30 horas no retorno, subindo o rio.

Leia também: O que fazer em Parintins em um dia?

O Festival

A histórica disputa entre o Boi Garantido (vermelho) e o Boi Caprichoso (azul) acontece há 57 edições em Parintins, conhecida como “Ilha da Magia”, a 369 km de Manaus.

Leia também: Conheça os 21 itens avaliados nas apresentações do Festival Folclórico de Parintins

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, o Festival Folclórico de Parintins tem como palco o Bumbódromo, que comporta até 35 mil espectadores e recebe, todos os anos, milhares de turistas do Brasil e do mundo.

Durante os três dias de espetáculo, a população da ilha — com pouco mais de 115 mil habitantes — chega a dobrar, segundo órgãos estaduais.

*Por Matheus Castro e Patrick Marques, da Rede Amazônica AM

Patrulhamento comunitário voluntário reduz crimes ambientais em áreas protegidas na Amazônia, aponta estudo

Foto: Rafael Forte

Um estudo de longo prazo demonstrou que o Programa de Agentes Ambientais Voluntários (AAV), desenvolvido em duas importantes áreas protegidas (APs) da Amazônia brasileira, tem sido efetivo na redução de crimes ambientais. O modelo de patrulhamento voluntário, baseado na comunidade e apoiado por instituições governamentais e não governamentais, conseguiu diminuir em cerca de 80% a incidência de crimes ambientais em 11 das 12 unidades territoriais monitoradas entre 2003 e 2013. 

Os resultados foram publicados na revista científica Conservation Biology, em uma edição especial do periódico dedicada à conversação ambiental e o papel das pessoas, com autoria de um grupo interdisciplinar de pesquisadores brasileiros e internacionais.  

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O estudo foi conduzido por especialistas do Instituto Mamirauá, em parceria com a University College London, Virginia Tech, Manchester Metropolitan University, Centro para Pesquisas Florestais Internacionais e Universidade de Gibraltar. Os autores também enfatizaram o papel das comunidades locais no sucesso da estratégia. 

Engajamento comunitário na linha de frente da conservação 

O Programa AAV foi implementado como uma alternativa viável à fiscalização governamental tradicional, muitas vezes insuficiente ou ausente em regiões remotas no bioma amazônico. Moradores locais foram treinados para realizar patrulhas regulares ou em resposta a denúncias de crimes.  

O programa é apoiado pelo Instituto Mamirauá, promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) do Amazonas e já existe há mais de 15 anos. O AAV tem como principal objetivo formar lideranças comunitárias capazes de inspirar atitudes coletivas em defesa da natureza, promover a cidadania ambiental e mobilizar ações sustentáveis nas Unidades de Conservação (UCs) e outras áreas de relevância ecológica no Amazonas.

Desde sua criação, mais de 2.300 comunitários foram capacitados, com ênfase na mediação de conflitos, educação ambiental e gestão participativa dos recursos naturais. 

Foto: Rafael Forte

O Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), desempenhou papel essencial na aplicação e consolidação do programa na região do Médio Solimões. A instituição ofereceu suporte técnico contínuo, além de atuar diretamente na formação de agentes ambientais voluntários, com foco em técnicas de monitoramento participativo, gestão adaptativa e conservação socioambiental.  

“A cogestão foi essencial para que o patrulhamento comunitário não fosse visto como uma imposição externa. As regras, rotas e formas de atuação foram construídas coletivamente, com base na realidade de cada comunidade”, explica o pesquisador no Instituto Mamirauá e primeiro autor do estudo, Caetano Franco. “Esse tipo de gestão compartilhada fortalece o compromisso coletivo com a proteção do território”.

Segundo a pesquisadora do Instituto Mamirauá, Isabel Soares, que atua há mais de duas décadas na região, o engajamento das comunidades está profundamente enraizado no vínculo com o território: “As pessoas são motivadas a proteger seus territórios porque veem os resultados do seu trabalho refletidos na fartura de recursos naturais, principalmente de pesqueiros. Mas essa proteção voluntária é também uma necessidade”, afirma.

As ações ocorreram principalmente nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e Amanã, no estado do Amazonas, duas das maiores e mais emblemáticas áreas protegidas da Amazônia brasileira. Juntas, elas somam mais de 3 milhões de hectares de florestas, rios e lagos, abrigando uma biodiversidade única e populações tradicionais que dependem diretamente dos recursos naturais para sua subsistência.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é turismo de base comunitária?

Essas reservas integram o maior bloco contínuo de áreas protegidas de várzea tropical do mundo e são reconhecidas como modelos de manejo participativo e conservação integrada entre natureza e comunidades. A relevância dessas áreas para a Amazônia se reflete tanto na proteção da biodiversidade quanto na geração de conhecimento científico, desenvolvimento social, e no fortalecimento de estratégias sustentáveis de uso dos recursos naturais. 

A análise revelou que a detecção de crimes nas Reservas Mamirauá e Amanã aumentava quando havia mais agentes voluntários envolvidos nas patrulhas e mais tempo era dedicado a cada saída. Embora as patrulhas lideradas por informantes representassem apenas 5% do total, elas foram proporcionalmente mais eficazes na detecção de infrações. 

Comparação com fiscalização governamental 

O estudo comparou os resultados do Programa AAV com 69 operações de fiscalização lideradas pelo governo em outras áreas fora das reservas Mamirauá e Amanã, na mesma região da Amazônia e no mesmo período.  

Essas operações, ainda que realizadas com mais recursos e agentes oficiais, não mostraram a mesma tendência de redução na ocorrência de crimes ambientais ao longo do tempo. Isso ressalta a eficácia do engajamento comunitário como estratégia complementar ao modelo tradicional de comando e controle. 

Além disso, o esforço empregado pelas patrulhas voluntárias manteve-se estável ao longo do tempo, indicando que a redução de crimes não foi simplesmente resultado de um aumento de esforço, mas de uma mudança concreta na dinâmica local. 

“Este estudo reforça que conservar a biodiversidade exige mais do que áreas protegidas no papel. É preciso investir em pessoas, relações de confiança e arranjos de governança que valorizem o protagonismo local”, pontua Franco. “Mostramos que comunidades bem equipadas são capazes de gerar resultados concretos — inclusive na ausência de fiscalização estatal tradicional”.

Tendência de redução e fatores de sucesso 

A redução significativa nos crimes ambientais dentro das áreas protegidas foi atribuída a uma combinação de fatores. Além da atuação direta dos agentes ambientais voluntários, destaca-se o forte senso de pertencimento das comunidades às áreas protegidas, reforçado por sua participação ativa na gestão dos recursos naturais. A inclusão das comunidades nas decisões estratégicas sobre rotas e métodos de patrulhamento aumentou a legitimidade e a eficácia do programa. 

Três elementos fortalecem a evidência de sucesso do programa: 

  • A estabilidade no esforço de patrulhamento ao longo do tempo. 
  • A expansão do programa para novas áreas. 
  • O envolvimento contínuo das comunidades, mesmo sem remuneração formal, motivadas por benefícios socioambientais diretos e pelo reconhecimento institucional. 


“O histórico de participação social e gestão colaborativa nessas reservas foi fundamental”, afirma Franco. “A existência de uma cultura de diálogo e corresponsabilidade foi potencializada com esse programa de liderança comunitária. E o apoio técnico contínuo do Instituto Mamirauá fez toda a diferença.”

Isabel Soares complementa essa análise com uma perspectiva social:

“Percebo que o nível de organização social de muitas comunidades melhorou muito; as lideranças estão mais empoderadas, dialogando e reivindicando seus direitos junto aos gestores municipais e estadual. Mas essa mudança não é igual para todas as comunidades, muitas ainda precisam de apoio para organização.”

Gênero, representatividade e diversidade

Foto: Rafael Forte

Embora apenas 26,5% dos participantes do Programa AAV sejam mulheres, essa proporção tem aumentado ao longo do tempo, refletindo avanços em direção à inclusão e à diversidade. A representação de gênero traz perspectivas distintas e enriquecedoras à proteção ambiental.  

Isabel Soares chama atenção para os desafios enfrentados por mulheres na interface entre compromissos domésticos e o engajamento com a conservação ambiental: “A maioria das mulheres precisa de um longo processo de negociação com seus respectivos maridos para participarem de atividades que culturalmente são dominadas por homens. Tem ainda a dupla jornada de trabalho que elas enfrentam porque as tarefas domésticas são delas e muitas, principalmente aquelas com filhos pequenos, são impedidas de sair para trabalho fora da esfera doméstica. E tem um problema que percebo há algum tempo que é a sobrecarga de atividades que elas estão assumindo, porque há incentivo (inclusive de alguns órgãos de fomento) para as mulheres se envolverem em atividades dominadas por homens, mas não existe o mesmo para homens assumirem atividades domésticas e elas acabam sobrecarregadas.”

Perspectivas para replicação e expansão

O modelo do Programa de Agentes Ambientais Voluntários (AAV) oferece lições valiosas para outras regiões. Sua eficácia está ligada à combinação de: 

“Os princípios centrais do programa – confiança, apoio institucional e protagonismo comunitário – são replicáveis. Mas é essencial respeitar as especificidades de cada território”, reforça Franco. “Não se trata de copiar um modelo, mas de adaptar uma abordagem.” 

Os benefícios vão além da conservação ambiental, promovendo a governança local, a educação ambiental e o fortalecimento do capital social. Investimentos em treinamento, equipamentos e incentivo à participação feminina e jovem são fundamentais para consolidar e ampliar esse modelo. 

Para o analista do Instituto Mamirauá e coautor Paulo Roberto de Sousa, que participou da consolidação do AAV desde os anos 1990, “a experiência de Mamirauá deu certo pelo compromisso da instituição em acompanhar de perto o trabalho dos agentes. Esse suporte contínuo, mesmo nos momentos de transição entre políticas, garantiu a continuidade e a qualidade das ações.” 

Um modelo viável e escalável de conservação

Foto: Vanessa Eyng

O estudo reforça que o sucesso do Programa AAV não pode ser atribuído apenas às patrulhas, mas também ao contexto mais amplo de gestão colaborativa, compartilhamento de benefícios e forte senso de pertencimento das comunidades às áreas protegidas. Os agentes ambientais voluntários desempenham papéis centrais na tomada de decisões e na proteção territorial, o que reforça o cumprimento das regras ambientais e fortalece os vínculos entre comunidades e conservação. 

  • Envolvimento comunitário genuíno
  • Apoio técnico e institucional contínuo
  • Reconhecimento formal das funções dos voluntários, com flexibilidade para atuação informal.

Programas como este criam condições para que os moradores locais se tornem protagonistas da proteção ambiental, promovendo práticas sustentáveis, transparência e engajamento cívico.  

“A nossa experiência funciona como um ‘farol’ quando se pensa em sistemas de proteção de base comunitária na Amazônia”, afirma Paulo Roberto de Sousa. “Mas não se pode achar que ela só funciona desse jeito. Há diferentes realidades amazônicas e o modelo deve se adequar a essas especificidades”.

Ele também destaca que “o agente ambiental voluntário é uma marca de inovação nos trabalhos do Mamirauá. O sucesso vem não só da capacitação técnica, mas do respeito às comunidades e da escuta ativa ao longo dos anos.” 

Comunidades protegem a floresta, mas quem protege as comunidades? 

Apesar dos resultados expressivos, é fundamental destacar a necessidade de garantir a sustentabilidade financeira das ações de patrulhamento comunitário. Em muitos casos, os próprios moradores arcam com parte dos custos logísticos e operacionais para proteger seus territórios, o que evidencia tanto o compromisso local quanto à ausência de mecanismos de apoio financeiro contínuo.

Além disso, é urgente fortalecer a segurança das comunidades envolvidas, que frequentemente enfrentam riscos reais em contextos marcados por conflitos de interesse, pressões econômicas e a presença de atividades ilegais. Proteger quem protege a floresta deve ser uma prioridade para políticas públicas e parcerias. 

“Hoje, muitos dos agentes continuam ativos mesmo sem o apoio logístico que existia no passado, o que mostra o enraizamento e a força desse modelo”, completa Paulo Roberto. “Mas é urgente que o poder público assuma a responsabilidade de apoiar quem está na linha de frente, oferecendo segurança e reconhecimento institucional”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por João Cunha

Paralisação da reforma agrária fomenta nova onda de invasões e violência na Amazônia

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Pessoas vêm de outros estados, como Maranhão e Goiás, esperando obter um pedaço de terra no Pará. Foto: Fernando Martinho/Mongabay

Julia e a filha de dois anos estavam dormindo no chão sob uma barraca de lona, em um acampamento cercado por uma dúzia de homens armados. Ainda assim, a jovem de 26 anos achava que valia a pena. “Lá era pior”, ela disse à Mongabay, referindo-se à sua cidade natal no Maranhão.

Julia vendeu seus poucos pertences, incluindo algumas galinhas, para pagar a viagem de 2 mil quilômetros para Novo Progresso, no Pará. Foi uma decisão impulsiva, tomada assim que ela recebeu uma mensagem no WhatsApp. “Uma amiga disse que o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] ia distribuir terra aqui”, ela disse.

O sonho de possuir um pedaço de terra também trouxe José para o acampamento montado a 12 km da rodovia BR-163, que conecta o estado do Mato Grosso, celeiro do Brasil, aos portos no Rio Tapajós, no Pará. Ele deixou sua família em Porto Velho, Rondônia, e viajou três dias de moto para se juntar ao movimento.

“Nós sempre trabalhamos de meeiro na terra dos outros, e metade do que colhíamos tínhamos que dar para os donos da terra”, disse José, cuja família sonha com a própria terra desde os anos 80, quando migrou de Minas Gerais para a Amazônia. “Seria uma chance de dar um conforto maior para a minha família”.

Julia e José, que pediram para que seus nomes verdadeiros fossem omitidos por razões de segurança, são como pequenas ondas de uma tsunami de migração que se abate sobre a Amazônia. Em uma região onde um punhado de fazendeiros controla áreas do tamanho de grandes cidades, movimentos sociais defendem há muito tempo que o governo federal promova uma política de distribuição de terras. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o cargo em 2023, muitos esperavam que ele reavivasse a agenda da reforma agrária. No entanto, isso não aconteceu.

“O Brasil todo fez essa retomada [das ocupações de terra] por entender que o governo não vai fazer”, disse Rosangela Alves dos Reis, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado do Pará. “Mesmo que o governo quisesse fazer a reforma agrária, ele não tem força para isso, porque tem uma bancada totalmente contrária”, ela acrescentou, referindo-se ao forte lobby do agronegócio no Congresso.

“Nos anos 90, houve um aumento na demanda por distribuição de terras na Amazônia, e agora estamos vivendo um novo ciclo, especialmente na região sudeste do Pará”, disse Ceres Hadish, da coordenação nacional do MST.

Leia também: O estabelecimento de assentamentos na Amazônia equatoriana

Em todo o Brasil, o Incra registrou cerca de 145 mil famílias vivendo em acampamentos à espera de um lote de terra. Isso representa um aumento de 81% em relação a 2022, quando 80 mil famílias estavam nesta situação. O Pará é o estado com o maior número de ocupações, com 29 mil famílias, muitas delas apoiadas pelo MST e também por organizações menores. Esse é o caso do acampamento de Julia e José, organizado por uma associação criada em janeiro de 2024 no distrito de Castelo dos Sonhos, às margens da BR-163.

A informação de que o grupo estava planejando um novo assentamento de reforma agrária se espalhou pelo Brasil por meio de mensagens de WhatsApp, e em poucos meses a associação tinha mais de 500 membros. A maioria é de Castelo dos Sonhos, mas também há famílias de outros estados como Maranhão, Rondônia, Mato Grosso e Goiás.

“Terra e ouro são bens que todo mundo quer”, Francisco das Neves Ferreira, presidente da associação, disse à Mongabay em nossa primeira entrevista, em abril de 2024. Mais conhecido como Goiano, ele quer que o Incra estabeleça um novo assentamento na região para as famílias associadas. Após várias reuniões infrutíferas, no entanto, ele decidiu levar o grupo para um assentamento já existente nas proximidades, o PDS Terra Nossa.

No entanto, conquistar a tão desejada terra nunca é simples quando se trata do Pará, estado campeão em conflitos agrários. Não demorou muito para que um grupo de grandes caminhonetes pretas chegasse, transportando uma equipe de 14 homens armados usando coletes à prova de balas e uniformes de uma empresa de segurança chamada Maxford.

“Quando eu cheguei achei muito bom o lugar, até pensei que a gente já iria marcar os lotes”, disse José à Mongabay. “Mas então veio a opressão, e fomos cercados”.

O grupo de luta pela terra ficou mais de um mês cercado por homens armados contratados por dois fazendeiros. Foto: Fernando Martinho/Mongabay

A empresa de segurança privada foi contratada por dois fazendeiros que, segundo o Incra, vêm ocupando ilegalmente terras dentro do PDS Terra Nossa. Um deles é Ari Friedler, que mora no Paraguai e reivindica a área onde o grupo de Goiano decidiu se instalar. Em 2008, a área de Friedler foi embargada pelo Ibama pelo desmatamento ilegal de mais de 2.500 hectares de floresta.

“[A fazenda de Friedler] está 100% dentro do PDS Terra Nossa, e essa área foi considerada uma ocupação irregular”, disse à Mongabay Antônio José Ferreira da Silva, conciliador agrário do Incra, enquanto visitava o acampamento em novembro de 2024.

O advogado de Friedler, Manoel Malinski, disse à Mongabay em uma mensagem de WhatsApp que seu cliente só falaria em juízo. A Mongabay também conversou pessoalmente com o irmão do fazendeiro, Ademar Friedler, mas ele se recusou a comentar a situação.

O segundo fazendeiro que contratou a empresa de segurança é o vizinho de Friedler, Bruno Heller, alvo de uma mega operação da Polícia Federal em agosto de 2023. Conhecido como um dos principais desmatadores da Amazônia, Heller é acusado de grilar uma área de 24 mil hectares  — maior que a cidade de Boston — 7,9% dos quais se encontram dentro do PDS Terra Nossa. Os advogados de Heller não responderam ao pedido de informações da Mongabay.

A Justiça já ordenou que ambos os fazendeiros deixem a área do PDS, mas as decisões ainda não foram cumpridas.

Mapa: Andrés Alegría/Mongabay

“Temos a situação absurda de famílias com perfis de beneficiários de reforma agrária ocupando um assentamento de reforma agrária que está ilegalmente nas mãos de concentradores de terra”, disse Maurício Torres, pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) e especialista em conflitos agrários. “E não duvido, nessa lógica canhestra, que essa população venha a ser criminalizada”, ele disse à Mongabay enquanto visitava o acampamento.

Em maio de 2025, membros do acampamento acusaram Goiano de roubar dinheiro da associação e fechar um acordo com Ari Friedler pelas suas costas. A procuradora federal do Pará, Thaís Medeiros da Costa, disse à Mongabay que está ciente das acusações, mas não detalhou as medidas tomadas. A Mongabay não conseguiu entrar em contato com Goiano para ouvi-lo sobre as acusações.

Cobrindo 150 mil hectares, uma área do tamanho do município de São Paulo, o PDS Terra Nossa foi criado em 2006 para abrigar mil famílias. Dezoito anos depois, no entanto, apenas 300 têm um lote de terra. Segundo Torres, grileiros ocuparam 97% da área: “É uma situação vergonhosa”.

Uma luta perigosa

“Está mais tenso do que pensávamos”, sussurrou Silva, o servidor do Incra, ao chegar ao portão do acampamento, guardado pelos homens armados. Naquela altura, o movimento de Goiano estava cercado há três semanas. E se Silva — um homem quieto e discreto, com 18 anos de experiência em conflitos agrários — disse que a situação era tensa, é porque havia um risco real de confronto.

A porteira estava fechada, dividindo o grupo em dois. Alguns assentados ficaram do lado de dentro; se saíssem, não poderiam voltar. Outra parte ficou do lado de fora, esperando para entrar. “Estamos muito preocupados porque sabemos que esta região é muito tensa. As pessoas não brincam por aqui”, disse Silva com um meio-sorriso, enquanto tentava negociar com a empresa de segurança uma forma de reunir as duas partes do grupo para fazer uma reunião geral.

O cerco só seria levantado dez dias depois pela Polícia Federal, que executou uma decisão judicial ordenando a abertura da porteira. Enquanto isso, o Ministério Público Federal do Pará abriu uma investigação sobre a empresa de segurança.

Após a intervenção policial, as tensões diminuíram, e o grupo pôde finalmente se reunir. Em dezembro de 2024, oficiais do Incra foram ao acampamento e cadastraram 494 pessoas que a partir dali entraram oficialmente na fila da reforma agrária. Os riscos, no entanto, permanecem.

“Os grandes grileiros são perigosos”, disse à Mongabay Cícero do Espírito Santo, membro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Castelo dos Sonhos. “Se o pessoal tentar invadir uma área, sai debaixo de chumbo. Todas as áreas onde criamos assentamentos foram retomadas de fazendeiros, e eles não gostam disso.”

O oficial do Incra, Antônia Silva (no meio) falou com os assentados e com Ademar Friedler (à direita) para tentar acalmar os ânimos. Foto: Fernando Martinho/Mongabay

Este trecho da rodovia BR-163 se estende entre os municípios de Altamira e Novo Progresso, e desde a década de 1980 vem sendo ocupado por migrantes em busca de ouro e madeira. Ao longo dos anos, mais áreas foram desmatadas para abrir espaço para gado e soja, cuja produção explodiu depois do asfaltamento da estrada nos anos 2000. O preço da terra disparou, aprofundando a violência agrária.

“É uma região onde o controle da terra é feito pela violência”, disse Torres. “Quem consegue um pedaço de terra não é quem tem o registro no cartório de imóveis; é quem é mais forte e consegue expulsar o mais fraco.”

O PDS Terra Nossa, onde o grupo de Goiano decidiu acampar, é o epicentro dessa agitação. Somente em 2018, cinco pessoas foram mortas em disputas envolvendo o assentamento, e os poucos assentados restantes vivem sob constante ameaça.

Leia também: Casa Azul: o passado sombrio escondido às margens da Transamazônica

“Eles quase me pegaram”, disse à Mongabay a assentada Maria Márcia, que lidera a resistência aos grileiros dentro do PDS, apontando para a trilha que usou para escapar de sua mais recente emboscada. “Minha sorte foi que corri e me escondi na mata. Mas naquele dia, pensei que ia morrer.” Em 2020, ela quase morreu depois que um motorista jogou um caminhão sobre o carro dela na BR-163. “‘Você tem que morrer, miserável”, ela ouviu do motorista do caminhão logo após o acidente.

“Em mais de 20 anos de pesquisa, poucas vezes eu encontrei um grupo tão violentado, aterrorizado e sitiado quanto os assentados do PDS Terra Nossa”, disse Torres, que acompanha o caso há anos.

Maria Márcia está constantemente sob ameaça por sua resistência contra os grileiros no PDS Terra Nossa. Foto: Fernando Martinho/Mongabay

O Incra concebeu o Terra Nossa como um projeto de desenvolvimento sustentável, ou PDS. O plano era que os assentados cultivassem pequenas lavouras em seus lotes enquanto gerenciavam coletivamente uma grande área de floresta para extrair frutos, castanhas e óleos. O modelo PDS floresceu na Amazônia nos anos 2000 como uma forma de atender às famílias sem-terra e ao mesmo tempo preservar a floresta. Grileiros, no entanto, viram estas áreas como um alvo fácil e começaram a avançar sobre os assentamentos, expulsando assentados ou convencendo-os a vender seus lotes (o que é proibido pelo Incra).

“Éramos muito felizes”, disse Márcia, lembrando os poucos anos antes da chegada dos grileiros. “Era tudo floresta aqui. As mulheres andavam no meio da floresta, colhiam castanhas e açaí, e depois vendiam. Não passávamos fome”. Hoje ela conta com doações de alimentos para complementar a alimentação.

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Em 2023, 45% do PDS Terra Nossa era coberto por pastagem para gado, segundo a rede da sociedade civil MapBiomas. A situação é ainda pior no PDS Brasília, um assentamento de 19.800 hectares também localizado próximo à BR-163, onde 75% da terra já foi convertida em pastagem.

O PDS Brasília possui 379 lotes, originalmente um para cada família. “Mas há uma concentração de lotes dentro do PDS”, disse Raimunda “Mariana” Rodrigues, presidente da associação de mulheres do PDS Brasília, na varanda de sua casa. “Tem gente que tem 10, 20, 50 lotes.”

Algumas famílias foram expulsas pelos grileiros. Outras venderam seus lotes por não conseguirem viver da terra sem apoio do governo. “Não adianta o Incra só jogar as pessoas lá”, disse Mariana, acrescentando que é preciso mais financiamento e assistência técnica do governo federal.

A pavimentação da BR-163 levou a um aumento no valor da terra, intensificando o desmatamento e os conflitos agrários. Foto: Bruno Kelly/Intercept Brasil

O PDS Brasília foi estabelecido em 2005, cobrindo uma área que até então era ocupada por um único fazendeiro. Assim como o PDS Terra Nossa, a história do assentamento é marcada por violência, a começar pelo sindicalista que deu nome ao PDS. Bartolomeu Moraes, mais conhecido como Brasília, foi morto em 2002 após anos de oposição a poderosos fazendeiros locais. Ele foi sequestrado, torturado e baleado com 12 tiros na cabeça.

“Aqui correu sangue para que essa área se tornasse um assentamento de agricultura familiar”, disse Mariana. “Não queremos que vire fazenda de novo”.

A longa espera pela terra

Em 20 de outubro de 2024, Rafael recebeu um telefonema de sua mãe: “‘Rafael, vamos sair hoje de madrugada para lá. Vai todo mundo. Vamos?’” Ele não pensou duas vezes: arrumou algumas roupas, pegou um pouco de comida e um pequeno fogão, e seguiu para o acampamento com os outros membros da associação.

“Há uma demanda enorme por terra aqui na região da BR-163”, disse Silva, o conciliador agrário do Incra, depois de ser recebido com aplausos e gritos de alegria em sua chegada ao assentamento.

Rafael, que mora no distrito de Castelo dos Sonhos, passou anos estudando para trabalhar na terra, primeiro formando-se técnico agrícola e depois matriculando-se em um curso de engenharia agronômica. No entanto, dificuldades financeiras o forçaram a trabalhar como mecânico enquanto nutria o sonho de cultivar maçãs, uvas e vegetais. “Pessoas com pouco poder financeiro não podem comprar um pedaço de terra”, disse o homem de 35 anos, que pediu para que seu nome verdadeiro não fosse publicado por motivos de segurança.

Muitos dos que vivem no acampamento migraram para a Amazônia décadas atrás, fugindo da pobreza ou da violência doméstica e sonhando com a terra própria. Mas eles não foram os únicos a atravessar o país em busca de oportunidades.

Centenas de famílias se juntaram a uma associação que prometeu criar um novo assentamento de reforma agrária em Novo Progresso. Foto: Fernando Martinho/Mongabay

Fazendeiros, principalmente do sul do Brasil, também aproveitaram a oportunidade para expandir sua produção sobre as terras mais baratas da Amazônia. Essa migração começou principalmente nos anos 60 e continua até hoje, com produtores de soja do Rio Grande do Sul vindo para o Pará após terem suas terras devastadas por enchentes e secas.

“Os grandes pegaram toda a terra”, disse José, cuja família veio de Minas Gerais nos anos 80. “O Incra era para chamar meu pai [para lhe dar um lote de terra], mas nunca chamou.”

As famílias sem-terra ficam com duas opções. Algumas se aventuram mais profundamente na mata, buscando terra mais barata, e perpetuando o círculo vicioso da expansão da fronteira agrícola sobre a floresta. Outros acabam nos arredores de centros urbanos, onde lutam para sobreviver. “Muitas pessoa desabrigadas estão vivendo nas ruas”, disse Rosangela Alves dos Reis, membro do MST. “Todo esse povo está esperando que retomemos as ocupações de terra para que possam ter um lugar para plantar e viver”.

A situação piorou após a crise econômica desencadeada pela pandemia de covid-19 durante a presidência de Jair Bolsonaro (2019-2022), que estimulou a ocupação predatória da Amazônia. Esse período marcou o ponto mais baixo de uma política de reforma agrária que vinha sendo gradualmente abandonada ao longo das décadas. “O governo Bolsonaro foi a negação da reforma agrária”, disse Ceres Hadish, da coordenação nacional do MST.

O número de famílias assentadas, que, segundo o Incra, girou em torno de 45 mil por ano sob Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) e o primeiro ciclo do governo Lula (2003-2010), caiu drasticamente para cerca de 7 mil sob Dilma Rousseff (2011-2016), menos de 4 mil sob Michel Temer (2017-2018), e apenas 530 sob Bolsonaro.

Gráfico: Andrés Alegría/Mongabay

Quando Lula retornou à presidência em janeiro de 2023, os movimentos sociais tinham a expectativa da retomada da reforma agrária. Até dezembro de 2024, o Incra disse à Mongabay que 52 assentamentos foram criados e 12.360 famílias receberam um lote de terra. Segundo o MST, no entanto, menos de 3.500 famílias foram destinadas a novos assentamentos até fevereiro de 2025. A organização acusa o governo de estar inflando os números ao contar como novos assentados a regularização de lotes em assentamentos já existentes.

“Estamos entrando no terceiro ano de conversas com o governo, mas efetivamente tivemos pouquíssimas entregas”, disse Hadish, acrescentando que a paralisia do governo de Lula ocorre em meio a uma nova onda de demanda por terra.

O fenômeno é confirmado não só pelos números oficiais do Incra como por dados Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma organização afiliada à Igreja Católica que defende os direitos dos camponeses no Brasil. Segundo a entidade, o número de ocupações de terras por sem-terra ou comunidades tradicionais cresceu de 46 em 2019 para 124 em 2023, enquanto o número de acampamentos organizados por sem-terra para reivindicar a criação de assentamentos triplicou, passando de seis em 2019 para 18 em 2023. Em 2024, as duas contagens caíram para 78 e 10, respectivamente. O número de conflitos agrários no Brasil, no entanto, foi o mais alto da última década (1.768), com a Amazônia respondendo por 56% dos casos (995).

Um dos casos mais recentes ocorreu em maio, quando um grupo de camponeses foi expulso por pistoleiros ao tentar ocupar uma área que o governo federal retomou de um grileiro no sul do Amazonas. Segundo o portal de jornalismo local Varadouro, a retomada da terra pelo Incra criou a expectativa de criação de um novo assentamento, o que até agora não ocorreu.

“Há muita gente pressionando por novos espaços para acampamentos e ocupações de terra. Então, há uma tendência para que a luta pela reforma agrária se impulsione”, disse Hadish. O sonho de receber um pedaço de terra, segundo o MST, é visto por muitas famílias como uma oportunidade de melhorar de vida longe do alto custo das grandes cidades.”Estamos sendo muito procurados por pessoas que não têm nada”, disse Reis diretamente de Marabá, onde o MST organizou duas novas ocupações em 2024.

Em janeiro de 2025, o MST publicou uma carta denunciando o que chamou de “paralisação da reforma agrária” e exigindo que o governo Lula assentasse as mais de 100 mil famílias que esperam em acampamentos.

Terra para ser distribuída é o que não falta. A Amazônia possui 56,5 milhões de hectares de terras públicas não destinadas, uma área do tamanho da Espanha. Essas áreas pertencem aos governos federal ou estaduais e não foram convertidas em territórios indígenas ou unidades de conservação, por exemplo.

Como não têm proteção legal, estas áreas viram alvos preferenciais de grileiros que derrubam a floresta para criar gado, plantar, ou simplesmente especular com o preço da terra. “Não há negócio melhor do que vender terra pública, e o maior motor do desmatamento é a grilagem”, disse Maurício Torres, pesquisador de conflitos agrários. “Essas terras devem ser retomadas e destinadas para a reforma agrária”.

No PDS Terra Nossa, o último levantamento do Incra identificou 80 ocupações ilegais. Em março, o Ministério Público Federal do Pará entrou com uma ação judicial para forçar o Incra a finalizar os processos administrativos contra dezenas de invasores, para que então a justiça possa decidir se eles devem ou não desocupar a área.

Uma vez que isso aconteça, a preferência na distribuição das terras será das famílias que deveriam ter sido assentadas no PDS há quase vinte anos, mas foram impedidas pelos invasores. Isso significa que aqueles como Julia, José e Rafael irão para o fim da fila.

“Os acampados têm que estar cientes de que há 700 famílias esperando também. Então não é tão simples quanto pensavam”, disse Silva, do Incra. “É um pouco frustrante para nós também. Mas é a realidade, e não tem jeito”.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Fernanda Wenzel

Amazomics: expedição científica investiga saúde da população ribeirinha do Amazonas

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Expedição busca informações de saúde da população ribeirinha amazonense. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

É amplamente conhecida a associação entre a falta de ferro no sangue e a anemia. Porém, e se uma população estiver com falta de zinco, ou magnésio? Se há uma deficiência nutricional, ela foi causada por uma alimentação desbalanceada ou por exposição a algum contaminante do ambiente? Essas são algumas das questões que o projeto ‘Amazomics: integração de abordagens ômicas na elucidação dos efeitos decorrentes da exposição a metais e contaminantes emergentes – um estudo epidemiológico em populações ribeirinhas na Amazônia Brasileira’, busca investigar em populações tradicionais da Amazônia.

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A pesquisa levanta o estado geral de saúde dos comunitários, analisa as concentrações de metais e contaminantes em amostras clínicas de comunidades ribeirinhas e investiga possíveis efeitos causados por contaminantes tóxicos. Esse estudo já vem sendo realizado no Rio Tapajós, e este ano ocorreu pela primeira vez na região do Médio Solimões, especificamente nas Reservas Mamirauá e Amanã e na Floresta Nacional de Tefé.

A expedição contou com um barco transformado em laboratório e percorreu 59 comunidades ribeirinhas da região durante 37 dias. Em cada comunidade, foram coletadas amostras de sangue, urina, fezes e cabelo dos participantes, além de medir a pressão arterial e avaliar a alimentação e a saúde mental de cada um.

Estas amostras serão analisadas para determinar as concentrações de metais – tanto do ponto de vista de metais tóxicos quanto de desnutrição de micronutrientes – avaliar os níveis de poluentes ambientais, como hidrocarbonetos e parabenos, e avaliar o perfil do material genético e da microbiota intestinal. No total, 1463 pessoas das comunidades locais participaram da pesquisa, um esforço de amostragem sem precedentes para a região.

Pesquisadores coletam informações sobre aspectos de saúde e da alimentação da população ribeirinha. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Um aspecto diferencial da pesquisa é que todos os participantes receberam os resultados dos exames de sangue (hemograma completo) e fezes (parasitológico) logo após a participação no estudo. Em uma região onde a população tem pouco acesso a serviços de atendimento médico, esses resultados de exame são fundamentais para prevenir ou diagnosticar possíveis doenças.

“Em alguns casos, um hemograma completo pode fazer uma diferença tremenda na vida de uma pessoa”, comenta Fernando Barbosa, professor da USP e coordenador da expedição.

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“Tivemos alguns casos em que o participante da pesquisa estava com um quadro muito grave de anemia que demandava internação imediata. Nossa equipe entrou em contato com funcionários da Secretaria de Saúde local para coordenar um atendimento, possivelmente salvando a vida dessa pessoa”, complementa o pesquisador.

De forma geral, a pesquisa detectou cerca de 100 casos de pessoas com níveis de hemoglobina abaixo do esperado, indicando uma tendência à anemia. Outro resultado já detectado em campo foi uma prevalência de alterações associadas a infecções por parasitas, algo que pode estar associado à falta de saneamento básico.

Abordagem integrativa

Segundo Daniel Tregidgo, pesquisador do Instituto Mamirauá que também coordenou a expedição, “no Brasil, a quantidade de crianças entre 0 e 5 anos com anemia, em média, é de 10%. Aqui na região Norte, esse número aumenta para 17%. Porém, em comunidades rurais, esse número pode chegar a até 50% ou mais, ou seja, mais da metade das crianças com anemia”.

“Por isso, é muito importante analisar a saúde dessas comunidades por inteiro – não é somente um problema de mercúrio, não é somente um problema de desnutrição – temos que ver o conjunto para entender o que está acontecendo nessa população”, comenta o pesquisador.

“Na região do nosso estudo, nós temos dados das plantas, dos animais, do ambiente e agora vamos analisar amostras da população humana, portanto poderemos utilizar uma abordagem de saúde única para estudar a relação do sistema como um todo”, conclui.

Profissionais de saúde coletaram amostras de sangue, cabelo, fezes e urina para análise. Foto: Miguel Monteiro/Instituto Mamirauá

Após o fim da expedição, milhares de amostras congeladas foram acondicionadas em 45 caixas e enviadas de volta para São Paulo, onde serão minuciosamente analisadas. Segundo Fernando Barbosa, “com o número de resultados nos estudos com essas populações ribeirinhas, que envolvem amplos aspectos de saúde relacionados à contaminação geral, alterações do clima, hábitos de vida, dieta, fatores relacionados à depressão, sono, entre outros, esse conjunto de informações pode servir como referência para ações de políticas públicas”.

“O intuito ao final do projeto é repassar esses resultados a órgãos do governo no sentido de promover intervenções que possam propiciar condições melhores de saúde nessas populações vulneráveis”, complementa o pesquisador.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Mamirauá, escrito por Miguel Monteiro

Festival de Parintins deve atrair 120 mil turistas e impulsiona recorde no aeroporto local

Foto: Reprodução/Prefeitura de Parintins

Previsto para começar em 27 de junho, o 58º Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, deve atrair mais de 120 mil turistas. Somente o aeroporto Júlio Belém, na cidade, deve receber mais de 20 mil passageiros durante o período.

O número representa um recorde histórico para o terminal, com aumento de 12% em relação ao mesmo período de 2024, quando 17.882 usuários passaram pelo local. Os dados foram divulgados pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor).

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Segundo o gestor do aeroporto, Jean Jorge Rodrigues, o terminal está ampliando suas operações para atender à alta demanda de visitantes, inclusive vindos do exterior. De acordo com ele, os investimentos vão além dos aspectos técnicos.

“A cada ano, a movimentação de passageiros cresce significativamente. Investir no pleno funcionamento do aeroporto é essencial, não apenas para garantir a segurança de quem embarca e desembarca, mas também para impulsionar o turismo, que movimenta a economia local e garante emprego e renda para muitas famílias de Parintins”, avalia Rodrigues.

Aeroporto de Parintins será incluído no Programa AmpliAR

Ainda em 2025, o aeroporto também receberá reforço de infraestrutura, com a inclusão na primeira fase do Programa de Investimentos Privados em Aeroportos Regionais (AmpliAR).

A iniciativa do MPor visa atrair investimentos privados para a malha aeroportuária regional por meio de um modelo simplificado e competitivo, com o objetivo de conectar áreas remotas aos principais aeroportos do país. A abertura das propostas está prevista para setembro de 2025 e os ajustes contratuais devem ser concluídos até o final do ano.

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Segundo o diretor de Outorgas, Patrimônio e Políticas Regulatórias Aeroportuárias, Daniel Longo, o município — com cerca de 102 mil habitantes — tem forte potencial turístico, o que contribui para o desenvolvimento regional.

“Investir na infraestrutura do aeroporto tem impacto direto no crescimento do município e de toda a região, pois permite oferecer serviços de melhor qualidade a quem utiliza o terminal aéreo, além de fortalecer o turismo como motor de desenvolvimento econômico e social”, pontua.

Movimentação de passageiros

Em 2024, o aeroporto de Parintins registrou a movimentação de mais de 40 mil passageiros, o que representa um aumento de 3,1% em relação a 2023, quando 38.875 usuários foram contabilizados. Os dados constam no Relatório de Demanda e Oferta da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

*Com informações do Brasil 61