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Contadora de histórias: “A natureza fala para quem sabe ouvir”, alerta Karla Martins

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Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Mídia Ninja

Karla Martins, ou @karlotadoacre, é atriz acreana formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e com pós-graduação pelo Instituto Superior de Arte em Havana, Cuba. Contadora de histórias, ativista cultural e ambiental, ela falou à newsletter Um Grau e Meio, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) sobre como mitos e lendas ajudam a nos enxergarmos como parte da natureza.

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‘Karlota’ é articuladora do Comitê Chico Mendes, também fundadora da Mídia Ninja, da Casa Ninja Amazônia e do movimento Fora do Eixo. Foi professora em seringais no estado do Acre, onde aprendeu que contar histórias é um processo coletivo.

A atuação na interface entre cultura e meio ambiente fez com que a atriz passasse a ser requisitada pela produção audiovisual nacional. Durante a entrevista, inclusive, ela estava em Pucallpa, no Peru, trabalhando como produtora de um filme que irá se passar na Amazônia transfronteiriça.

Fale um pouco sobre seu trabalho e sua relação com a contação de histórias

Karla Martins: Pelo fato de ter nascido em Rio Branco, no Acre, mas também ter vivido um período no Rio de Janeiro, fui entendendo, sem saber exatamente esse nome que a gente dá hoje, o que é o lugar de fala.

Existe uma visão no Brasil de que tudo aquilo que tem qualidade na cultura precisa da régua de aprovação do Sudeste. Durante muito tempo, nós, que morávamos longe, quando íamos para os grandes centros, a gente sofria muito preconceito. Hoje menos.

Depois de ter passado 10 anos fora do Acre,  quando voltei, comecei a entender essa força que a gente tem no território e que era muito pouco reconhecida.

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Karla Martins, contadora de histórias
Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Fui ser professora em escolas do Projeto Seringueiro e fui conhecendo os professores e os processos de oralidade. eu sou filha de mãe seringueira, avô seringueiro, isso tá dentro da minha família.

Então me deparei com as histórias, crenças e sabedorias populares. Se tem nome, é porque existe: já não chamo de lenda. Se escutei uma história, do Mapinguari, do Caboclinho da Mata… se você está me perguntando, é porque existe. A floresta fala para quem sabe ouvir.

O que é contar uma história?

Karla Martins: Antigamente, na escola, a gente aprendia que história com H era “história de verdade” e estória com E era “de mentira”. Só que inclusive a história com H era escrita por mentiras. Então, tudo é história.

O que a gente está fazendo agora é história. Todos nós temos nossas referências e isso nos permite contar. O movimento dos contadores de história fala muito disso. Não tem um tema específico, qualquer pessoa pode contar uma história e é importante trazer o processo da oralidade para nossa sociedade hoje.

Contar história é um lugar da humanidade. A gente tem esse código entre nós, um código letrado. Mas os povos indígenas nos ensinam que oralidade é o valor da palavra, o que a pessoa nos diz, e isso é muito importante. É uma coisa para a gente pensar. Contar história é um ato coletivo.

De onde vêm as histórias que você conta?

Karla Martins: Eu conto aquilo em que eu acredito. Como diz Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, se forem falar da Amazônia, nos chamem. Temos muito a contar sobre nós mesmos.

A coisa mais importante de pensar é que quando você conta uma história, você vai ver um processo coletivo.

‘Eu sou daqui mas vim de longe, contando histórias naveguei num barco grande. Tem rosa de cor morena e uma verbena para te enfeitar. São flores de carne e osso, do meu pescoço para o seu colar’.

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Karla Martins, Contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Eu canto e digo assim para as pessoas, dependendo da história: ‘quanto tempo faz que você não escuta uma história? Que você não senta numa roda, de coração aberto, para ouvir o que alguém te diz?’

‘Venho aqui para te dizer que você precisa lembrar de uma árvore, porque todos temos dentro de nós uma árvore. Aquela árvore que você desenhava, que você subiu para brincar, uma árvore que você viu florida. As árvores trazem ensinamento, porque gostam de viver junto uma das outras, se protegendo, se cuidando. Te desejo que você se lembre da sua árvore, que você seja árvore. Sinta onde está enraizado, sinta a copa em cima de você, a sombra… e assim eu vou te contar uma história’.

Como é a relação com quem escuta?

Karla Martins: Se a gente não tivesse perdido o pensamento real de que estar junto é bom, de que viver coletivamente é bom, a gente teria a floresta e a natureza mais cuidada.

Estou trabalhando na sala da oralidade para um museu que vai abrir em Belém, o Museu das Amazônias. Numa reunião, falaram que o tempo máximo de concentração que as pessoas têm hoje para visitar um museu é de 17 minutos. Fiquei rindo.

Quando eu dava aula no seringal, uma pessoa muito antiga disse para mim: ‘às vezes eu falo por duas ou três horas e paro. Depende do quanto os meninos estão olhando para o canto. Aí eu paro, mando todo mundo beber água e volta, para de novo eu ser o foco principal’.

As pessoas têm um lugar de concentração. Isso, nas cidades, pela tecnologia, tem se perdido muito. Mas eu te digo claramente, seja no campo, na cidade, em terras indígenas ou comunidades, quando você diz ‘era uma vez’ as pessoas param. Ainda está no ser humano a ideia da escuta.

Mesmo contar história para uma pessoa só faz sentido. Às vezes quando vou nos asilos, conto histórias mais engraçadas. É um brilho no olho.

De que forma a natureza entra na história?

Karla Martins: A natureza fala para quem sabe ouvir. Precisa pensar nisso quando vai contar histórias. Celebrar a palavra como algo muito importante. O ato da paciência. A coisa que mais aprendi com os povos indígenas e comunidades tradicionais foi a paciência, é ter calma para olhar o que está em volta.

Nessa época eu ainda andava a pé, às vezes 26 horas de caminhada. Eram dias até chegar na colocação. Andava com um seringueiro e uma vez falei ‘é tanto verde que a gente cansa de ver’, e ele disse ‘é não. É verde claro, escuro, tem marrom, cinza. Quando tá com flor, às vezes é vermelho, roxo’.

Leia também: Roraima, Terra de Macunaima: conheça a história que se entrelaça com saberes indígenas

Karla Martins, contadora de histórias. Foto: Reprodução/Instagram-@Karlotadoacre

Meu olhar era cheio de vícios. A floresta não é um verde só, ela é multicolor. A gente precisa abrir o olho e a paciência faz isso.

Às vezes eu digo assim: ‘todo mundo aprende na escola que a Amazônia é o pulmão do mundo, está errado. A Amazônia é o ar-condicionado deste planeta. E porque ela refresca o planeta, nos dá também a ideia de que poderíamos refrescar as mentes e os corações para pensar possibilidades futuras de vida. Por isso também a gente conta história’.

Qual é o papel da ludicidade na proteção ambiental?

Karla Martins: Contar histórias e fazer essa interface com o meio ambiente tem a ver com o pensamento orgânico de que meio ambiente e gente é tudo a mesma coisa. A gente parou de se enxergar como meio ambiente. Por mais que agora eu sinta que as pessoas levantam isso, a gente ainda se enxerga só como gente.

Houve um momento que nós nos ejetamos de nos pensar dentro do meio ambiente. Passamos a pensar a humanidade e criamos uma arrogância para nos manter, de que nós somos mais importantes do que qualquer coisa. Com isso, fomos perdendo o sentido de proteção para o todo. Mas quando eu protejo o meio ambiente, protejo todas as pessoas em volta, protejo a vida e o mundo.

A sociedade começou a estabelecer dinâmicas que você tem que ser o melhor, e se você não é o melhor, você não tem sucesso. Esse pensamento sistêmico social colocou isso na nossa cabeça e tirou, inclusive, a ideia de coletividade.

Mas o mito conservacionista da floresta em pé não existe. Onde tem floresta em pé, tem gente cuidando. Um amigo meu, Antônio Alves, pensador acreano, criou a palavra florestania, que as pessoas entendem como a cidadania da floresta. Quando você tem a ideia de coletividade, você compreende a floresta, porque a floresta é um lugar coletivo.

Às vezes, aquilo que parece modernidade, também pode ser uma maneira de matar o pensamento de um povo, de uma comunidade, de um lugar. Quanto tempo a gente ficou chamando indígenas de atrasados? Quanto tempo a gente ficou usando as palavras ‘índio’ e ‘seringueiro’ para desqualificar pessoas tímidas?

Todo mundo tem as suas folhas. Todo mundo tem uma árvore dentro de si. Se todo mundo se lembrasse da sua árvore, talvez fosse o primeiro passo para sair dessa agonia climática que estamos vivendo. É uma maneira de chamar as pessoas para esse lugar de escuta da história, da natureza, do que está dentro de você, muito mais como um chamamento.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito pelo Bibiana Alcântara Garrido

Convivência entre humanos e mamíferos aquáticos é foco de projeto em comunidades ribeirinhas

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Peixe-boi da Amazônia. Foto: Carolina Oliveira/Instituto Mamirauá

A primeira etapa do projeto ‘Coexistência entre população humana e mamíferos aquáticos em duas reservas de desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental brasileira’ ocorreu entre 2023 e 2026. Nessa fase, o objetivo foi compreender a relação entre mamíferos aquáticos e populações ribeirinhas por meio de um diagnóstico realizado em 25 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e em 40 comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã. 

A partir do diagnóstico, os pesquisadores puderam compreender melhor a atual relação entre os mamíferos aquáticos e as comunidades que convivem e compartilham o mesmo habitat, além de perceber a real necessidade de avançar com o projeto.

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“Na primeira etapa do projeto identificamos os principais pontos de tensão e de conflitos e, a partir deles, começamos a buscar as melhores práticas e soluções para reverter esses problemas e garantir que essas atividades humanas, seja a pesca e outras do cotidiano continuem acontecendo, mas também resguardando a sustentabilidade dessas espécies”, explicou João Borges, pesquisador do Projeto Viva o Peixe-Boi-Marinho, realizado pela Fundação Mamíferos Aquáticos (FMA).

Os principais mamíferos aquáticos com os quais o projeto planeja trabalhar junto às comunidades, e que fazem parte do cotidiano dessas populações tradicionais, são os botos (tucuxi e vermelho), os peixes-boi, ariranhas e lontras. Essas espécies são frequentemente afetadas por caça, captura incidental ou outros problemas relacionados às atividades de caça de subsistência.

Leia também: Conheça o peixe-boi-da-Amazônia: além de vítima de caça predatória é vulnerável na lista de espécies ameaçadas de extinção

Projeto na prática: próximos passos

Visando a próxima etapa, em fevereiro de 2026, os envolvidos reuniram-se na sede do Instituto Mamirauá para a elaboração de um plano estratégico com o objetivo de debater as melhores iniciativas para o equilíbrio sustentável entre as populações locais e os mamíferos aquáticos, etapa que busca amenizar significativamente os impactos negativos oriundos dessas interações e contribuir para o fortalecimento da coexistência na região.

Durante toda a pesquisa, até a reunião do plano estratégico, os pesquisadores elaboraram uma “teoria da mudança”, cujo objetivo é melhorar as interações entre as populações locais e os mamíferos aquáticos por meio de iniciativas práticas de longo prazo.

“A participação da população amazônica é fundamental para o processo deste projeto. As boas práticas são essenciais para a coexistência em áreas e recursos compartilhados, por exemplo, vigiar a malhadeira durante atividades de pesca, cercar a malhadeira, não colocar malhadeiras na entrada de rios e igarapés. Práticas que podem fazer total diferença para o equilíbrio ecológico”, explicou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

humanos e mamíferos podem ter ótima convivência, principalmente em comunidades ribeirinhas.
Foto:  Marcelo Ismar Santana / Instituto Mamirauá

Seca histórica intensifica monitoramento de mamíferos aquáticos na Amazônia

Com as mudanças climáticas influenciando as secas extremas nos rios da Amazônia, as espécies de mamíferos aquáticos têm ficado ainda mais vulneráveis, tornando a iniciativa ainda mais necessária dentro das comunidades ribeirinhas.

Durante a seca dos anos de 2023 e 2024, o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá destacou-se como uma das instituições à frente das iniciativas voltadas à compreensão da mortalidade de mamíferos aquáticos e à busca por medidas para mitigá-la. Entre essas iniciativas, destaca-se a colaboração com comunidades ribeirinhas.

“Após esse período, nos mantivemos em uma rede de contatos junto com a população local, tanto nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã quanto no Lago Tefé, que alerta e aciona o Grupo em caso de mortalidade das espécies em questão”, acrescentou a pesquisadora Míriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá.

Após a mortalidade dos botos, outras parcerias foram fortalecidas com diversas organizações locais, regionais e nacionais, com o objetivo de monitorar as espécies e estudar a vulnerabilidade desses animais ao clima.

O projeto é uma iniciativa da Fundação de Mamíferos Aquáticos (FMA), em parceria com o Instituto Mamirauá e com o Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do próprio instituto, que contou com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A iniciativa também mantém vínculo de pesquisa com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por meio do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Monitoramento Ambiental (PPGEMA).

*Com informações do Instituto Mamirauá

Encontro reúne comunidades tradicionais e indígenas para debater gestão participativa dos recursos naturais da Amazônia

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Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá

O Instituto Mamirauá realiza, nos dias 29 e 30 de março, o Encontro Anual de Caminhos e Resultados. O evento será realizado em formato híbrido, com polos presenciais em Tefé (Amazonas) e Bragança (Pará), conectados por meio de videoconferência. Participantes e comunidades do Amapá acompanharão a programação de forma online, ampliando o intercâmbio entre os diferentes territórios de atuação dos projetos.

O encontro marca a conclusão do primeiro ano de implementação dos projetos e visa alinhar expectativas, compartilhar aprendizados e planejar, de forma participativa, as ações para o próximo ciclo.

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O objetivo central dos projetos no encontro é unir instituições e comunidades tradicionais para fortalecer, por meio de pesquisa científica, metodologias de manejo e conhecimentos ancestrais, a gestão de recursos naturais de ecossistemas de várzea, manguezal e outras áreas prioritárias para a conservação.

Dávila Corrêa, diretora de Manejo e Desenvolvimento do Instituto Mamirauá, destaca a relevância dos projetos para as comunidades no encontro.

“São territórios de grande riqueza biológica e estratégicos para a mitigação das mudanças climáticas. São também as comunidades tradicionais e indígenas amazônicas que mantêm esses ecossistemas de pé. Os projetos buscam valorizar e fortalecer esses modos de vida, em uma iniciativa construída a muitas mãos, que integra conhecimentos ancestrais e científicos, além de promover inovação e tecnologias sociais”, afirmou a diretoria.

Leia também: Instituto Mamirauá disponibiliza novas edições de cartilhas sobre manejo do pirarucu

Pesca e encontro de comunidades ribeirinhas no Tapajós. foto Daniel Govino
Pesca de ribeirinhos do rio Tapajós, no Pará. Foto: Daniel Govino/The Nature Conservancy

O  Instituto Mamirauá é um centro de excelência em pesquisa aplicada vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).  O projeto Entre Águas Amazônicas é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e conta com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no papel de agência implementadora. O projeto Sustenta Mangue é financiado pela Fundação Gordon e Betty Moore.

Encontro recebe projeto ‘Entre Águas Amazônicas’

Com o objetivo de conservar os ecossistemas de várzea e manguezal, que estão entre os mais ameaçados da Amazônia, o projeto Entre Águas Amazônicas busca fortalecer a gestão participativa e o desenvolvimento econômico sustentável, com a meta de beneficiar diretamente mais de 8.000 pessoas.

De acordo com as metas estabelecidas, a iniciativa prevê melhorar a gestão de 26 territórios — entre reservas extrativistas, florestas nacionais, reservas estaduais e outras áreas prioritárias para a conservação — que, somados, abrangem aproximadamente 4,8 milhões de hectares, uma área maior que a Suíça.

“Esses ecossistemas amazônicos, como a várzea e o manguezal, são altamente produtivos e, por isso, concentram um grande número de comunidades tradicionais e indígenas. Ao mesmo tempo, são territórios sob intensa pressão e diversas ameaças. O manejo de recursos naturais já se mostrou uma estratégia bem-sucedida de conservação aliada à geração de renda. Em grande parte, o projeto busca replicar e desenvolver novas metodologias de manejo de recursos como o pirarucu, no Amazonas, e o caranguejo, no Salgado Paraense”, explica Dávila.

Estão contemplados também o manejo florestal (Amapá), o manejo de jacaré, o manejo de agroecossistemas e iniciativas voltadas ao turismo de base comunitária (Amazonas). A proposta se constrói em parceria com as comunidades, fortalecendo práticas já existentes e criando novas oportunidades a partir da troca de saberes.

Nesse processo, a formação de jovens e lideranças ganha destaque, com percursos formativos, oficinas e espaços de aprendizagem contínua voltados à gestão dos territórios, ao manejo sustentável e à geração de renda. A iniciativa contribui ainda para o fortalecimento das condições de vida e das economias das comunidades locais, a partir do uso sustentável da biodiversidade.

Manejo dos peixes pirarucu. — Foto: Adriano Gambarini/OPAN/Divulgação
Manejo dos peixes pirarucu. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

O projeto Entre Águas Amazônicas também adota uma diretriz de equidade de gênero, garantindo que ao menos 50% do público beneficiado seja composto por mulheres, além de buscar estimular a participação e o protagonismo de jovens de comunidades.

Já o projeto Sustenta Mangue tem como foco a costa do Pará e o manejo sustentável do caranguejo e outros pescados, buscando promover um futuro mais sustentável e participativo para os manguezais amazônicos. A iniciativa enfrenta desafios como a sobre-exploração dos recursos naturais, a poluição e os impactos das mudanças climáticas, por meio de ações que incluem formação técnica, elaboração de planos de gestão e uso público, fortalecimento da governança local e monitoramento da biodiversidade e das pressões antrópicas.

Comunidades participantes

Durante o evento, participantes — entre representantes comunitários, parceiros e equipe do Instituto Mamirauá — irão apresentar os resultados do primeiro ano de implementação por meio de um painel expositivo que representará um ecossistema de áreas alagáveis e os manejos de recursos naturais e rodas de diálogo voltadas ao compartilhamento de aprendizados e desafios.

A programação inclui ainda a validação coletiva do Plano de Ação 2026, com a definição de estratégias e prioridades para ampliar o engajamento dos diferentes atores e garantir transparência na condução dos projetos, reforçando o compromisso com uma gestão participativa e sustentável nos territórios.

*Com informações do Instituto Mamirauá

CUFA Amazonas oferece serviços gratuitos de saúde, esporte e cultura em Manaus

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Oficina de maracatu é um dos serviços oferecidos pela CUFA Amazonas. Foto: Divulgação

A CUFA Amazonas está com programação gratuita nas áreas de saúde, esporte e cultura, ampliando o acesso da população a serviços essenciais. As ações fortalecem vínculos comunitários, promovem qualidade de vida e reafirmam o compromisso da instituição com a transformação das periferias por meio de iniciativas permanentes e acessíveis.

O atendimento fisioterapêutico é realizado de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h, na sede da instituição, mediante agendamento prévio. O serviço é destinado a pessoas que necessitam de reabilitação, alívio de dores musculares, recuperação de lesões ou melhoria da mobilidade, promovendo mais qualidade de vida.

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“Nosso propósito é garantir que serviços fundamentais cheguem a quem mais precisa. A fisioterapia gratuita é mais uma ação concreta de cuidado com a nossa comunidade”, destaca Fabiana Carioca, vice-presidente da instituição.

IV Marcha das Mulheres Indígenas CUFA AM
CUFA Amazonas. Foto: Divulgação/CUFA

O esporte também faz parte da programação semanal. O treino de parajiu-jitsu acontece às terças-feiras, das 19h às 20h, na Av. Joaquim Nabuco, 2274 – Centro (esquina com a Rua Japurá, entrada pela Rua Japurá). Os atendimentos podem ser feitos pelo telefone (92) 99310-1558.

CUFA Amazonas e atividades

A atividade é gratuita e voltada especialmente para pessoas com deficiência (PcDs), contemplando o público juvenil e adulto. A modalidade é adaptada, respeitando as necessidades e potencialidades de cada participante, promovendo inclusão, fortalecimento físico, autonomia e integração social por meio do esporte.

A cultura ganha espaço aos sábados, às 17h, com a Oficina de Maracatu – O Baque das Ondas do Mar, realizada na sede da CUFA/AM, na Av. Joaquim Nabuco, 2224 – Centro. A atividade promove ritmo, ancestralidade e valorização da cultura afro-brasileira, com acesso gratuito. O atendimento aos interessados na oficina pode ser feito pelo telefone (92) 99208-2550.

Pesquisas da Amazônia paraense chegam à Inglaterra em intercâmbio do Museu Goeldi

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Grupo de pesquisadores e estudantes em simpósio da Universidade de Birmingham. Foto: Divulgação/UoB

Estudantes e pesquisadores da Amazônia paraense participaram, neste mês de março, do Decolonising Climate Change Symposium, na Universidade de Birmingham (UoB), na Inglaterra. Foi a segunda etapa do intercâmbio multidisciplinar financiado pelo projeto “Descolonizando as mudanças climáticas: produção colaborativa de conhecimento através das diferenças entre Norte-Sul globais”, que analisa os impactos do clima na Amazônia sob uma perspectiva local e global.

A iniciativa é coordenada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), instituição científica localizada em Belém-PA e vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e pela UoB.

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O Museu esteve representado pela coordenadora de Comunicação e Extensão (Cocex/MPEG), Sue Costa, que também é coordenadora do projeto, juntamente com a professora Emanuelle Santos, da Universidade de Birmingham.

Também participaram do evento o diretor-presidente da Fapespa, Marcel Botelho; os pesquisadores do MPEG Erêndira Oliveira, arqueóloga; Tatyana Mariucha, chefe da Estação Científica do MPEG; e Pedro Glécio Costa Lima, bolsista. Além deles, também estiveram envolvidos nas discussões estudantes e representantes da Universidade Estadual do Pará (Uepa) e de outras instituições de pesquisa do Brasil.

Foto: Divulgação/UoB

Durante o simpósio, que aconteceu entre os dias 2 e 6 de março, dentro da programação do The Brazilian Carnival, Sue Costa falou sobre as exposições do Museu Goeldi, com destaque para a Ahetxiê, que está em cartaz no Aquário Jacques Huber, no Parque Zoobotânico do MPEG. Ela explicou que a integração entre a ciência, a arte e a cultura indígena foi fundamental para a apresentação ao público de uma espécie de peixe em extinção, o peixe-espada ou espadarte. 

Ela também apresentou outras pesquisas do MPEG e os resultados da primeira etapa do projeto em colaboração com a Universidade de Birmingham, “Imersão Amazônia – desafios Globais”, que foi realizado em julho do ano passado, reunindo estudantes de cinco instituições (UoB, IFPA, Uepa, UFPA e Ufra), nas bases do Museu localizadas em Belém e na Floresta Nacional de Caxiuanã. 

Além dessa participação no simpósio, a coordenadora do projeto, Sue Costa, também ministrou, no último dia 12, a palestra “Descolonizando o encantamento: ciência e arte no Museu Goeldi, Amazônia brasileira”, em um seminário coordenado pela professora Emanuelle Santos, da UoB. 

“Apresentamos a estudantes e a outros pesquisadores como a ciência e a arte interagem nas exposições do Museu Goeldi, que detém um dos maiores acervos científicos e culturais da Amazônia brasileira. Enquanto a ciência fornece métodos rigorosos para investigar e para preservar a biodiversidade e as culturas, a arte amplia a percepção e incorpora a sensibilidade ao diálogo com o público. Juntas, elas transformam dados em narrativas e conhecimento em experiências significativas”, relatou Sue Costa. 

Leia também: Museu Goeldi estreia no Google Arts & Culture com exposição virtual do Parque Zoobotânico

Da arqueologia à etnobotânica

A arqueóloga Erêndira Oliveira falou sobre a importância das pesquisas arqueológicas para a compreensão da ocupação da Amazônia, não só no passado, mas também como afirmação para o presente no reconhecimento da longa permanência dos povos nos territórios amazônicos. 

Tatyana Mariucha apresentou a relação com a comunidade e mostrou como cosmologias diversas são importantes para os processos de reintegração e de conservação de espécies de peixes-boi na Amazônia. Pedro Glécio defendeu a importância da etnobotânica para conservação da floresta e o trabalho em conjunto com a comunidade na elaboração de guias botânicos para fortalecer a construção e a divulgação do conhecimento.

Expansão do projeto 

O projeto “Descolonizando as mudanças climáticas: produção colaborativa de conhecimento através das diferenças entre Norte-Sul globais” foi aprovado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), dentro do Edital 011/2025 – Connect Amazônia.

Em julho do mesmo ano, o projeto realizou o Immerse Amazonia Summer School, uma parceria entre o UBBI, o MPEG e a Fapespa, que promoveu a interação entre pesquisadores, alunos e comunidades de Caxiuanã-PA, na Amazônia brasileira. Este ano, a colaboração se expandiu com a realização da segunda parte do intercâmbio, na Inglaterra. 

Foto: Divulgação/UoB

De acordo com Sue Costa, além do intercâmbio – que integra pessoas de várias áreas, como das ciências naturais e humanas, da saúde e da museologia –, o projeto tem mais dois eixos. O primeiro é a produção acadêmica, com a elaboração de um artigo científico em coautoria, com os diferentes atores do projeto, sintetizando debates teóricos e soluções baseadas nos sistemas de conhecimentos.

O outro é o fomento a uma rede sustentável, com realização de eventos presenciais e online, como o simpósio Decolonising Climate Change, realizado em Birmingham.

Além dos eventos acadêmicos, o grupo de estudantes e pesquisadores brasileiros e britânicos participou das atividades culturais da segunda edição do The Brazilian Carnival, que contou com apresentações de samba e de capoeira e com comidas típicas da culinária brasileira.

*Com informações do Museu Goeldi

Aves migratórias mudam rotina e estimulam novos estudos na Amazônia

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Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

A seca extrema de 2024 na Amazônia trouxe uma surpresa para a Transpetro, o braço logístico da Petrobras. Da noite para o dia, uma revoada de milhares de andorinhas-azuis (Progne subis) ocupou as estruturas metálicas do terminal de carga da empresa no rio Solimões.

Durante a estiagem, com a redução da vazão do rio, o porto de gás liquefeito em Coari, no Amazonas, foi desativado; não havia calado para atracar os navios cargueiros. Sem a movimentação habitual de funcionários e embarcações, as aves migratórias encontraram uma nova morada e permaneceram ali durante todo o verão amazônico.

Em 2025, os bandos da andorinha-azul, que realizam anualmente uma migração desde os Estados Unidos, já estavam familiarizados com o gigante ninho metálico da Transpetro e voltaram a ocupar o terminal. Porém, desta vez, com o fim da seca, o sistema logístico voltou ao normal e a coexistência com as aves migratórias se tornou um problema.

Leia também: COP15: conferência da proteção global das espécies migratórias é realizada no Brasil em 2026

Revoada de andorinhas-azuis, espécies migratórias, no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal
Revoada de andorinhas-azuis no rio Negro, Amazonas. Foto: Marcos Amend/Arquivo Pessoal

As fezes dessas milhares de aves apresentaram um risco tanto para a operação do terminal como para os funcionários. Os relógios e medidores das tubulações ficaram cobertos de cocô de andorinha-azul. Trabalhadores do terminal chegaram a resvalar devido à mistura das chuvas torrenciais amazônicas com as fezes.

Em busca de uma solução, a equipe de meio ambiente da Transpetro entrou em contato com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Lá, um dos ornitólogos mais renomados na região, o pesquisador Mario Cohn-Haft, já estava mapeando os padrões de migração das andorinhas-azuis para a Amazônia brasileira, considerada a maior andorinha do ocidente. 

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Cohn-Haft e alguns de seus alunos de pós-graduação atuam em parceria com a Associação para Conservação Purple Martin (que recebe o nome da espécie em inglês). A organização, além de trabalhar com instituições como o Inpa e o Instituto Butantan, utiliza uma rede de voluntários brasileiros e estrangeiros para fazer o rastreamento da espécie. Por meio de um projeto de ciência cidadã, ajudou a entender as rotas migratórias da Progne Subis revelando sua presença em diversas partes do bioma brasileiro.

A andorinha-azul — cuja população estimada é de 7,5 milhões de indivíduos — se reproduz no leste dos Estados Unidos, mas passa a maior parte do ano na Amazônia . No inverno estadunidense, grandes bandos da espécie realizam uma viagem de milhares de quilômetros em direção à América do Sul, em busca de condições melhores para se alimentar.

Leia também: COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Ao chegar no rio Negro, as aves migratórias ocupam as copas de árvores das florestas alagadas. Os estudos indicaram que alguns grupos podem chegar a até 250 mil indivíduos.

“A migração é um fenômeno absolutamente impressionante e inspirador. É, na verdade, emocionante assistir a milhares de pássaros passando em uma viagem impressionante, inimaginável para a mente humana. Mostram a complexidade de suas vidas e uma forma de inteligência muito distinta da nossa”, afirma Cohn-Haft.

O cientista conta que a chegada dessas enormes revoadas nem sempre é apreciada. Não é incomum que prefeituras de cidades amazônicas entrem em contato com o Inpa pedindo uma solução para o “problema”. Cohn-Haft diz que sua única recomendação aos prefeitos é que celebrem o fenômeno da migração. Mas não é o que geralmente acontece: incomodados com a sujeira, os gestores municipais tentam expulsar as aves cortando as árvores escolhidas por elas.

No caso da Transpetro, a solução tentará a coexistência com as aves. Para receber a revoada de 2026, há previsão da construção de uma estrutura em uma balsa próxima ao terminal, ainda sem data definida.

Amazônia, destino de aves migratórias

A discussão sobre as aves migratórias na Amazônia ocupou um espaço de destaque na tarde da terça-feira (24), na 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que ocorre até o próximo domingo (29), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O evento reuniu cientistas, representantes de empresas, governo e comunidades indígenas que enfatizaram que ainda há muito por descobrir sobre os padrões de aves migratórias no bioma.

Saiba mais: Migração na Amazônia: conheça os principais fluxos de pessoas na região

Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin
Mapa com as rotas de migração rastreadas pelos voluntários da Purple Martin. Imagem: Associação para Conservação Purple Martin

Diferentemente do Pantanal e das zonas costeiras do Brasil, a Amazônia não é considerada uma região prioritária para o estudo de aves migratórias. A razão para isso é que a maioria das espécies de aves registradas na Amazônia são residentes (85%), ou seja, não realizam migrações.

Mesmo assim, os 15% restantes ainda representam um número significativo: segundo Cohn-Haft, 150 e 200 espécies de aves migratórias realizam algum tipo de deslocamento para o bioma. 

“A Amazônia é um destino de espécies que se reproduzem em outras regiões, mas que caem fora quando as condições são desfavoráveis. São espécies que se reproduzem nas zonas temperadas da América do Norte ou da América do Sul. Elas vão para lá para reproduzir e aproveitar o boom de insetos que ocorre na primavera e no verão”, diz o pesquisador do Inpa. Ele explica que dois terços de todas as espécies de aves no mundo são insetívoras.



Muitas vezes, a Amazônia é utilizada como um ponto de parada mais ao sul. São casos extraordinários, como os dos maçaricos que podem fazer migrações de até 30 mil quilômetros, viajando do Ártico à Patagônia. Na migração deste tipo de aves utilizam as praias de rio da Amazônia além das zonas costeiras como uma parada necessária antes de seguirem viagem. 

Mas existem outras espécies que ocupam a floresta por vários meses, como é o caso da andorinha-azul. Lá, elas trocam a plumagem, ganham gordura, fortalecem os músculos peitorais e, quando estão prontas, voam de volta ao norte.

Tudo isso passou a ser muito mais fácil de entender com as novas tecnologias de rastreamento. Até pouco tempo, os pesquisadores colocavam anilhas nos pássaros e contavam com sua rede de colaboradores para recapturar alguns destes indivíduos no destino final da migração. Considerando a extensão da Amazônia, esse método sempre foi pouco eficaz. Agora, cada vez mais se têm utilizado pequenos rastreadores com capacidade de envio de dados em tempo real.

Pesquisa intercultural como ferramenta

Um outro fenômeno da migração pouco entendido na Amazônia são as migrações dentro do próprio bioma. Há espécies que vivem em ambientes variados em diferentes épocas do ano, dependendo das variações da temperatura ou dos ciclos de cheia e vazante das planícies amazônicas.


Pesquisas entre organizações e comunidades indígenas enriquecem esses conhecimentos. Na COP15, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) apresentaram um projeto de 20 anos de pesquisa intercultural na região dos rios Tiquié e Içana, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela.

Pesquisadores indígenas registram os dados em diários e relatam a ocorrência de espécies migratórias, além de atividades culturais e ciclos de pesca, caça e agricultura. Desde 2017, a Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro passou também utilizar o aplicativo Open Data Kit (ODK) para inclusão das informações.

Essa coleta já soma 35 mil observações e permitiu a identificação de 18 espécies de aves. A combinação dos dados de ocorrência com registros de precipitação e nível dos rios tem permitido entender o impacto das mudanças climáticas: “nós sabíamos que elas buscavam as cabeceiras dos rios no inverno, em maio, junho e julho, e que voltavam nos meses de verão. Mas isso está mudando”, conta Tiago Pacheco, indígena Koripako, coordenador dos AIMAs da região do Médio Içana.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela InfoAmazonia, escrito por Gustavo Faleiros

Saiba quais espécies foram apresentadas pelo Brasil na COP15 para inclusão na lista da CMS

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Entre as propostas está a inclusão dos tubarões-martelo Sphyrna lewini e Sphyrna mokarran no Apêndice I da Convenção. Foto: Simon Pierce

Sob o lema ‘Conectando a natureza para sustentar a vida’, Campo Grande (MS) recebe a 15ª Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). 

Entre os temas centrais das negociações está a inclusão de novas espécies nos Apêndices da Convenção, mecanismo que define níveis de proteção internacional. O Apêndice I reúne espécies ameaçadas de extinção, que exigem medidas mais rigorosas de conservação, enquanto o Apêndice II contempla espécies cuja sobrevivência depende da cooperação entre países ao longo de suas rotas migratórias. 

Leia também: COP15: conferência da proteção global das espécies migratórias é realizada no Brasil em 2026

As propostas apresentadas pelo Brasil, isoladamente ou em parceria com outros países, contam com subsídios técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), elaborados por centros de pesquisa especializados e alinhados aos Planos de Ação Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção (PANs). 

Um trabalho, como explica a coordenadora-geral de Estratégia para Conservação (CGCON/DIBIO) do Instituto, Marília Marini, que começa muito antes do evento e não se encerra com as decisões tomadas durante a Conferência.  

“Nossos centros nacionais de Pesquisa e Conservação são uma engrenagem muito importante, são a peça fundamental no engajamento e execução dessas ações. Eles fazem a coordenação ao nível nacional das ações que vão ser implementadas regionalmente, com outros países”, explica Marília. 

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Os centros coordenam atividades como monitoramento de populações, pesquisas em campo, educação ambiental e articulação com universidades, organizações da sociedade civil e comunidades locais. É por meio dessa rede que o Brasil implementa, no plano nacional, os compromissos assumidos no âmbito da convenção. 

O conjunto de propostas levado à COP15 contempla espécies terrestres, aquáticas e aves migratórias que utilizam o território brasileiro em diferentes fases de seus ciclos de vida — muitas delas já contempladas por iniciativas de conservação desenvolvidas pelo ICMBio no Brasil. 

No céu, lua, sol, estrelas e aves migratórias 

O grupo de aves migratórias reúne algumas das propostas mais numerosas apresentadas pelo Brasil, com destaque para espécies limícolas (que vivem em áreas úmidas) e aves marinhas que percorrem milhares de quilômetros entre o Ártico e a América do Sul. 

“A gente está conseguindo trazer para cá propostas de aves que já estão contempladas há muitos anos nos nossos planos nacionais e que ainda não eram espécies listadas na CMS, apesar de serem migratórias e de poderem se beneficiar da cooperação internacional ao longo de sua área de ocorrência”, destaca Patrícia Serafini, analista ambiental e pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE/ICMBio). 

Entre as espécies em discussão está o maçarico-de-bico-torto (Numenius hudsonicus), cuja população apresenta declínio estimado em cerca de 70% nas últimas três gerações. A proposta apresentada por Brasil e Chile busca incluí-lo no Apêndice I da Convenção. 

Leia também: Extinção ameaça quase totalidade de peixes migratórios de água doce no mundo, aponta relatório global

Situação ainda mais crítica é observada no maçarico-de-bico-virado (Limosa haemastica), espécie que sofreu declínio populacional superior a 95% desde a década de 1980. Também está em debate a inclusão do maçarico-pernilongo (Tringa flavipes), proposta apresentada pelo Uruguai com apoio do Brasil. 

Entre as aves campestres, o Brasil propõe a inclusão do caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis) no Apêndice II. Descrita recentemente pela ciência, a espécie ocorre em áreas úmidas do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia e enfrenta ameaças associadas à conversão de campos naturais. 

Outro destaque é a proposta multiespécies que envolve petréis-das-tormentas dos gêneros Pterodroma e Pseudobulweria, aves marinhas altamente pelágicas que passam a maior parte da vida em mar aberto.  Típica do bioma que recebe a Conferência, a caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis) está proposta para o no Apêndice II.

Aves, peixes, cetáceos e mamíferos: conheça as espécies apresentadas pelo Brasil na COP15 para inclusão na lista da CMS
Típica do bioma que recebe a Conferência, a caboclinho-do-pantanal (Sporophila iberaensis) está proposta para o no Apêndice II. Foto: Márcio Reppening

Leia também: Ministério do Meio Ambiente defende debates globais sobre proteção de espécies migratórias

Entre ondas e correntes, as espécies aquáticas 

As espécies aquáticas de água doce e marinhas que realizam longas migrações ou possuem populações distribuídas entre diferentes países também estão em pauta. Peixes migratórios, tubarões, raias e cetáceos estão entre os grupos contemplados nas discussões.  

Um dos exemplos é o pintado (Pseudoplatystoma corruscans), peixe migratório de grande importância ecológica e econômica em bacias hidrográficas da América do Sul. A espécie realiza deslocamentos ao longo de grandes rios compartilhados por diferentes países, o que exige estratégias de gestão e monitoramento coordenadas. 

Também são diversas as iniciativas voltadas à conservação de tubarões e pequenos cetáceos do Atlântico Sul. Entre as propostas, a inclusão dos tubarões-martelo Sphyrna lewini e Sphyrna mokarran no Apêndice I, como dos tubarões-raposa (Alopias pelagicus, A. superciliosus e A. vulpinus), espécies altamente migratórias e vulneráveis à sobrepesca.  

Para inclusão no Apêndice II, foram apresentadas propostas para inclusão do cação-cola-fina (Mustelus schmitti) e do cação-anjo-espinhoso (Squatina guggenheim), bem como ações concertadas voltadas à conservação do tubarão-mangona (Carcharias taurus) e do tubarão-elefante (Cetorhinus maximus).  

A renovação da ação concertada para a toninha (Pontoporia blainvillei), considerada o pequeno cetáceo mais ameaçado do Atlântico Sul Ocidental, e a implementação de um plano de ação internacional para o boto-de-Lahille (Tursiops truncatus gephyreus), subespécie costeira endêmica do sul do Brasil, Uruguai e Argentina, também merecem atenção. 

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Os bagres amazônicos são peixes sem escama de grande importância ecológica e comercial. Foto: Julia Mantinian

Por fim, destaca-se a proposta de adoção de um Plano de Ação (2026–2036) para proteger espécies como a Dourada e a Piraíba (bagres amazônicos), conhecidos por realizar algumas das maiores migrações de água doce do planeta. Esses peixes percorrem milhares de quilômetros entre áreas de alimentação e reprodução ao longo da bacia amazônica. 

“As espécies precisam desse monitoramento internacional, para a gente entender o tamanho da população, exemplo. Se a gente não tem dados de um país, a gente não conhece o todo da espécie. Ficam mais difíceis ações de manejo e planos se a gente não entende melhor essa distribuição”, explica Daniel Kantek, analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA/ICMBio).

As pegadas nos campos e florestas das espécies terrestres 

Entre as propostas que envolvem espécies terrestres, dois carnívoros emblemáticos da fauna sul-americana estão no centro das discussões da COP15: a ariranha (Pteronura brasiliensis) e a onça-pintada (Panthera onca)

No caso da ariranha, proposta foi apresentada pela França, devido a incidência da espécie na Guiana Francesa e o Brasil apoia a proposta com base em avaliações técnicas elaboradas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio). Aqui, a ariranha, que é a maior lontra do mundo, já conta com um PAN, que prevê ações de pesquisa, monitoramento populacional e manejo de conflitos — especialmente em regiões onde a espécie compartilha estoques pesqueiros com comunidades locais. 

“Essa troca é importantíssima, porque a gente encontra colegas que trabalham na África, na Ásia, na Europa, em vários países com diversas espécies ameaçadas, onde a gente divide as mesmas preocupações. Problemas relacionados à degradação de habitat, problemas genéticos populacionais e conflitos. Essa troca traz novas estratégias e novas propostas”, coloca o coordenador do centro, Rogério Cunha. 

Já a onça-pintada, incluída nos Apêndices I e II da CMS desde 2020, segue como tema de debates na Conferência. Uma nova resolução em discussão busca atualizar estratégias internacionais de conservação diante do agravamento das ameaças em diversos países. 

Entre os desafios identificados estão a perda e fragmentação de habitat, o isolamento de populações e os conflitos com atividades humanas. A proposta em debate busca fortalecer a conectividade entre habitats, ampliar estratégias de coexistência entre pessoas e grandes carnívoros e estimular pesquisas sobre populações isoladas. 

A ariranha, também conhecida popularmente como onça-d’água, lontra-gigante e lobo-do-rio. Foto: Thiago Orsi Laranjeiras

Durante a conferência, países da área de ocorrência da espécie também discutem avançar na implementação de um plano regional em prol da espécie, que foi validado em reunião no último ano, no México. Busca-se alinhar as ações nacionais e ampliar a cooperação entre governos, uma vez que, hoje, apenas oito dos 18 países de incidência tem planos específicos. 

*Com informações do Intituto Chicos Mendes de Conservação da Biodiversidade

Contos com cheiro de terra molhada

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Capa do livro Nas margens do Rio Amazonas, de Eber Bentes. Foto: Divulgação

Por Jan Santos – jan.fne@gmail.com

Desde a Revolução Industrial, o mundo ocidental tem tomado o desenvolvimento como um projeto central. Cidades crescem, padrões de qualidade de vida são definidos, a terra dá lugar ao cimento e ao concreto. Contudo, as cidades não crescem para todos, os padrões de qualidade não são atingidos por todos, não há terra coberta o bastante para todos. A solução? Desenvolver mais, expandir mais, e mesmo assim, nunca será para todos.

O resultado? Um mundo desolado, sem um palmo de terra visível, coberto pelas coisas que construímos e, de repente, não achamos mais tão essenciais quanto um dia foram, gastas demais pelo tédio de possuir. E assim seguimos, sempre mais e mais desenvolvidos, em uma eterna corrida que mais cansa do que recompensa, porque corremos tanto, investimos tanto, que nenhuma linha de chegada será suficiente quando comparada com o tempo e o esforço que sacrificamos para cruzá-la.

A solução? Correr até a próxima linha de chegada, chegando novamente em lugar nenhum.

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Chegamos às estrelas, chegamos às entranhas da terra, chegamos ao fundo do oceano, e mesmo assim, não é o suficiente.

Há quem diga que é um engano chamar isso de desenvolvimento, coisa em que eu particularmente não acredito. O que eu sei é que, na lógica de mundo que adotamos, desenvolver é isso mesmo. O que devemos é querer outra coisa.

A professora Célia Xakriabá, ao falar sobre educação indígena em um texto chamado “Amansar o giz” (2020), descreve o processo de criação de objetos de barro que caracteriza seu povo. A forma como ela fala sobre a coleta do material das margens do rios na infância, sobre as memórias envolvidas em sua confecção e até mesmo a construção das casas feitas com o barro e suas próprias mãos enfatiza o que ela e vários outros originários chamam de corpo-território, uma experiência única de quem vive o solo como parte de si, e ambos, parte de um organismo maior, cujos participantes podem trocar forças mutuamente.

Assim como o corpo humano descansa no solo após a morte, é esse solo que oferece as condições materiais necessárias para que a vida humana goze de qualidade.

Máscara de barro por Zelina Xakriabá. Foto: Oscar Liberal

Uma compreensão parecida vive entre o povo Guna, no Panamá, que tece seus tecidos como quem tece um universo inteiro, e planta o cordão umbilical nas raízes de árvores que são, elas mesmas, suas filhas entrelaçadas. Ainda sobre a produção de cerâmica, um conto bastante curioso chamado de “Nãna e os potes de barro”, assinado por Chirley Maria Pankará, compõe o livro “Originárias: uma literatura antologia feminina de literatura indígena”, e conta como seu povo, em Pernambuco, utiliza um processo semelhante não apenas para produzir objetos, mas para manter contato com sua ancestralidade por meio da prática-ritual de trabalhar a terra.

Tais narrativas ilustram um conceito apresentado pela professora Célia, um que vai além das necessidades desnecessárias que o mundo ocidental insiste ter:

“Nós, populações tradicionais, temos condições de apresentar outro projeto de sociedade, não exatamente pela falácia do desenvolvimento e, sim, por meio do re-envolvimento, que representa a retomada de outros valores. Em nossa relação com o mundo, que é com o ambiente inteiro e não apenas com partes dele, não podemos criar laços impessoais ou sem espiritualidade. É impossível para os Xakriabá enxergar a natureza apenas como um bem a ser explorado, ou mesmo como um lugar que produz alimento”.

Ilustrações do livro “Originárias” (2023), por Maurício Negro

Ao ler sobre o re-envolvimento proposto por Xakriabá, percebo uma coisa fundamental: não podemos amar aquilo que não nos envolve. Desenvolver então ganha outro sentido: retira o envolvimento, separa, afasta. É fácil descartar aquilo pelo qual não temos afeto algum, então não é difícil sufocar com concreto e asfalto um metro de terra que não faz parte de mim.

Assim, procuro histórias com as quais possa me envolver, encontrar um espaço ao qual eu possa pertencer, e foi exatamente o que achei nas páginas de “Nas margens do Rio Amazonas” (2024), do parintinense Eber Bentes. Em seu livro de estreia, um dos vencedores do Prêmio Frauta de Barro da editora Valer, Bentes narra a história de um povoado ribeirinho que lida com o cabo de guerra entre o envolvimento e o desenvolvimento.

Eber Bentes durante evento de lançamento de “Nas margens”, em 2024, no Palácio Rio Negro. Foto: Jan Santos/Acervo pessoal

Além do fato óbvio de retratar um ambiente conhecido pela maioria dos amazônidas, com costumes, falas e sensações que nos dão um sentimento de familiaridade que é bastante acolhedor, Bentes conta a saga de uma comunidade que divide o solo com as forças da natureza, com os espíritos que desde seus ancestrais aprenderam a respeitar. O mais engraçado é que a história não é só sobre uma comunidade, mas ela é também comunitária, uma vez que ela é contada do ponto de vista dos vários moradores, a partir de experiências cotidianas que encontram na mística da floresta e do rio uma dinâmica própria de existência.

São pessoas que não vivem somente entre o rio e a floresta, mas entre a vida e o mistério, entre a segurança do conhecido e o fascínio do desconhecido, pois não questionam a existência da Boiúna, de Yurupary nem das visagens, mas encontram formas de coexistir com um mundo que conhecem bem o bastante para aceitar que há coisas que é melhor desconhecerem.

Nas margens de cada história, todas carregadas de um fantástico próprio, surge um horror inicialmente silencioso, quase um comentário despretensioso na boca dos moradores. Nos contos de Bentes, vemos o desenvolvimento surgir como uma figura monstruosa, que aos poucos engole gente, fé, terra, tudo. Na figura de um rico comerciante cearense, as histórias são lentamente devoradas pela fome infinita do desenvolvimento, e os moradores, impotentes, encontram nas narrativas que contam sua única estratégia de sobrevivência.

Sobrevivência não apenas das pessoas, mas também dos espíritos, da terra, da água e de tudo que forma aquela vila, aquele universo, às margens do Rio Amazonas. O ato de partilhar essas histórias, tal como o barro xakriabá, a cerâmica pankará e o tecido kuna, é a prática que preserva, para além da morte e para qualquer ato de des-envolvimento, a memória de um povo que sabe os caminhos para se envolver com a terra.

Ouvindo-as, nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo com o que nos envolvemos.

Leia também: Dragar a história de um rio é guerrear contra a vida

Sobre o autor

Jan Santos é autor de contos e novelas, especialmente do gênero Fantasia. Mestre em Literatura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e com graduações em Língua Portuguesa e Inglesa, é um dos membros fundadores do Coletivo Visagem de Escritores e Ilustradores de Fantasia e Ficção Científica, além de vencedor de duas edições dos prêmios Manaus de Conexões Culturais (2017-2019) e Edital Thiago de Mello (2022).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Livro analisa relação da crise climática e caminhos sustentáveis na Amazônia

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Foto: Arquivo pessoal/Luiz Villares

A relação entre crescimento econômico e degradação ambiental, os impactos cada vez mais intensos das mudanças climáticas e os caminhos possíveis para um desenvolvimento sustentável na Amazônia são temas centrais do livro ‘Ecos do Antropoceno – Legados, interesses e caminhos’.

A obra escrita pelo ambientalista Luiz Villares foi lançado no dia 26 de março na sede da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em Manaus (AM). 

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Livro Ecos do Antropoceno de Luiz Villares
Livro Ecos do Antropoceno. Foto: Reprodução/Amazon

Lançado pela Editora Casa Matinas, o livro é resultado de mais de duas décadas de atuação de Villares na área socioambiental, reunindo experiências, dados e reflexões construídas ao longo de sua trajetória.

Nesse período, o autor passou por instituições estratégicas para a agenda ambiental no Brasil, notadamente na FAS, onde colaborou desde o seu início, por mais de 15 anos, como Superintendente Administrativo Financeiro. 

O livro apresenta um panorama atualizado do bioma amazônico em conexão com o cenário global, incluindo os desdobramentos da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada ano passado em Belém (PA).

Para o autor, a crise climática não pode ser analisada de forma isolada, mas sim como consequência direta do atual modelo de crescimento econômico global. Segundo ele, sem mudanças estruturais nesse modelo, a transição para um futuro sustentável não será possível.

“Este é o paradoxo contemporâneo: quanto mais cresce o PIB global, mais crescem os desastres ambientais e ecológicos — e pior: em velocidade maior do que as soluções que poderiam mitigar os problemas”, afirma Villares.

Villares também destaca no texto que esse desequilíbrio ambiental contribui para o agravamento da desigualdade social. Pois as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem seus impactos. Ao mesmo tempo, o ambientalista defende a Amazônia como um ativo estratégico fundamental para o equilíbrio climático, a regulação hídrica e a preservação da biodiversidade. Como caminho viável, o autor aponta a bioeconomia e suas cadeias produtivas, como açaí, castanha e cacau, capazes de gerar renda sem comprometer a floresta.

Leia também: Turismo e crise climática: os caminhos sustentáveis para a Amazônia

Além disso, vê com otimismo ideias como sistemas agroflorestais (SAFs) e créditos de carbono, aliados à participação das populações tradicionais e de políticas públicas mais eficazes, são essenciais para essa transição.

“Manter a floresta em pé depende de cooperação internacional, vontade política, justiça social, pensamento científico e financiamento contínuo. É um caminho que exige muito, mas comprovadamente mais inteligente e valioso do que qualquer modelo baseado em sua destruição”, afirma.

Panorama global

Foto: Reprodução/Instagram-@Villaresluiz

A partir de dados qualificados, Villares indica que a prevenção de desastres ecológicos tende a ser mais eficiente do que as ações de reparação. Nesse sentido, ele aponta que a revisão de prioridades nos investimentos globais contribuiria significativamente para o avanço de soluções ligadas à transição energética e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A publicação também observa movimentos internacionais, como a reorientação de políticas ambientais na China, com iniciativas voltadas à ampliação do uso de energias renováveis e à recuperação de áreas degradadas, além de conceitos e discussões que ajudam a compreender a crise ambiental contemporânea.

Sustentabilidade Editorial

Ecos do Antropoceno é o primeiro livro lançado pela Editora Casa Matinas, que se dedica à reedição de livros imperecíveis no sistema de impressão sob demanda (POD). A editora modificou seu projeto editorial pelas afinidades com as ideias defendidas no livro de Luiz Villares.

Além de evitar desperdício de papel e de combustível fóssil na distribuição com o print-on-demand, é usado o papel Polén Natural e a impressão é em tinta a base de água. O livro pode ser encontrado aqui e também está disponível pela plataforma Amazon.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável

Tecnologia LiDAR pode tornar mensuração de carbono na Amazônia mais precisa, diz estudo

Foto: Bruno Cecim/Agência Pará

Medir biomassa florestal e converter esse dado em estimativas confiáveis de carbono ainda é um dos grandes desafios para quem atua com restauração, manejo, monitoramento e projetos climáticos. É nesse contexto que o LiDAR (Light Detection and Ranging) vem ganhando espaço como uma tecnologia capaz de ampliar a precisão e a eficiência do monitoramento florestal

Publicação visa tornar a mensuração de carbono mais precisa e confiável.Foto: Divulgação/Imaflora

Para contribuir com esse debate, o Imaflora lança a publicação ‘LiDAR & Carbono: Inovação na Quantificação de Biomassa Florestal‘, elaborada com apoio do Instituto Clima e Sociedade e em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e a ForLidar.

O material mostra, de forma aplicada, como o sensoriamento remoto pode fortalecer processos de mensuração de carbono com mais rastreabilidade, robustez estatística e eficiência operacional. 

Leia também: Entenda o que é e para que serve o mercado de carbono

A publicação parte de um problema concreto: monitorar florestas com qualidade técnica suficiente para atender às exigências de mensuração, reporte e verificação de carbono sem tornar o processo excessivamente caro, demorado ou limitado em escala.

O LiDAR aparece nesse cenário como uma ferramenta capaz de “ler” a estrutura tridimensional da vegetação e apoiar inventários híbridos, nos quais o campo continua essencial, mas passa a ser usado de forma mais estratégica. 

Para sair do plano conceitual, o documento se ancora na experiência de restauração conduzida pelo ISA no corredor do rio Xingu, em Mato Grosso, e na atuação do Carbon on Track, iniciativa de mensuração e verificação de carbono desenvolvida pelo Imaflora. A análise compara abordagens e apresenta a aplicação de inventário integrado com LiDAR embarcado em drone e amostragem dupla estratificada em 741 hectares de áreas restauradas. 

Mensuração de carbono 

Os resultados sistematizados na publicação indicam ganhos concretos. O uso do LiDAR foi associado à redução de 81% do esforço em campo, 76% do custo por hectare e 67% do erro percentual, além de contribuir para maior precisão estatística e espacial no monitoramento de áreas extensas.

Saiba mais: Solo da Amazônia estoca mais da metade do carbono orgânico presente no Brasil

Além de reunir evidências práticas, a publicação também chama atenção para barreiras ainda presentes nos sistemas de verificação e nos padrões internacionais. O material argumenta que parte das regras hoje adotadas não incorpora adequadamente as especificidades das florestas tropicais, o que pode elevar custos, criar entraves e dificultar a adoção de tecnologias já consolidadas no avanço dos inventários florestais. Por isso, a publicação se propõe também como contribuição técnica para atualizar práticas e fortalecer metodologias mais aderentes à realidade brasileira. 

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O Carbon on Track, solução de quantificação e verificação de carbono em plantios de restauração desenvolvido pelo Imaflora, ofereceu uma redução do custo por hectare de R$ 1.440,02 para R$ 336,44, enquanto o tempo corrido do processo passou de 540 dias para 385 dias em comparação ao monitoramento e verificação da principal certificadora do mercado no projeto analisado.   Esses resultados são frutos do uso de tecnologias e soluções adaptadas a realidade nacional. A comparação completa você acompanha na publicação.

Amazônia é considerada fonte de carbono. Foto: climatepolicyinitiative
Amazônia é considerada fonte de carbono. Foto: climatepolicyinitiative

Público

Voltada a um público técnico e transversal, a publicação interessa a equipes de restauração e manejo, organizações da sociedade civil, auditorias, certificadoras, financiadores, empresas e gestores públicos que precisam de métricas mais consistentes, transparentes e verificáveis para acompanhar desempenho ecológico e carbono. O objetivo é apoiar decisões práticas, orientar protocolos de MRV e ampliar a capacidade de monitorar com qualidade e credibilidade. 

Esta leitura é especialmente útil para: equipes de restauração; organizações e projetos territoriais que atuam com carbono; auditorias, certificadoras e verificadores; financiadores e investidores interessados em MRV robusto; gestores públicos e formuladores de protocolos.  

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora