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Turismo gastronômico na Amazônia Legal: 9 pratos que todo turista deve experimentar

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Foto: Divulgação/Amazonastur

Viajar pela Amazônia também é uma oportunidade de conhecer sabores, ingredientes e tradições que fazem parte da identidade de cada estado. Da carne seca com arroz às receitas preparadas com peixes amazônicos, a gastronomia da região reúne influências indígenas, africanas, portuguesas e de outros povos que ajudaam a formar a cultura local.

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Para quem pretende conhecer algum dos estados da Amazônia Legal, o turismo gastronômico pode ser uma maneira de descobrir os costumes de cada território, afinal, além das paisagens, rios, florestas e cidades, a Amazônia Legal também pode ser descoberta à mesa. Confira um prato tradicional de cada um dos nove estados que compõem a região – que você deve experimentar: 

Acre: Baixaria

No Acre, um dos pratos que mais representam a culinária local é a baixaria. Com um nome curioso, a receita é bastante conhecida entre os acreanos e pode ser encontrada principalmente em mercados populares e lanchonetes de Rio Branco.

A base é feita com cuscuz de milho, geralmente acompanhado de carne moída bem temperada, ovo frito e vinagrete, e dependendo do local, podem aparecer outros ingredientes, como banana-da-terra frita, queijo coalho e pimenta.

Baixaria, prato regional do Acre
Foto: Eduardo Duarte/Rede Amazônica Acre

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Além disso, a baixaria é conhecida por ser uma refeição reforçada e costuma aparecer no café da manhã. A origem exata do nome não é unânime, e entre as histórias populares está a ideia de que a palavra faria referência à mistura de vários ingredientes no mesmo prato, resultando em uma aparência considerada “bagunçada”.

Amapá: Caldeirada de gurijuba

No Amapá, o turista pode experimentar a caldeirada de gurijuba, preparada com um peixe bastante conhecido na culinária do estado. A gurijuba é um peixe de couro, conhecido como o “peixe ouro” do Amapá, valorizado tanto pela carne quanto pela bexiga natatória, conhecida como grude.

Foto: Reprodução/Facebook-Orgulho de Ser Paraense (Enviado por Nayara Paixao)

Na caldeirada, o peixe aparece em postas e é acompanhado por ingredientes como tomate, cebola, pimentão, batata, pimenta-de-cheiro, cheiro-verde e chicória.

Dependendo da receita, também podem ser acrescentados leite de coco, azeite de dendê, camarão e ovos cozidos. 

Amazonas: Pirarucu de casaca

No Amazonas, um dos grandes representantes da gastronomia regional é o pirarucu de casaca. O prato tem como ingrediente principal o pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo.

O peixe é tradicionalmente salgado ou seco, depois dessalgado, desfiado e refogado com temperos. Na montagem, ele é combinado com ingredientes como farinha de mandioca, banana-da-terra frita, ovos cozidos, azeitonas e cheiro-verde.

Foto: Indiara Bessa/Rede Amazônica AM

O nome ‘casaca’ está relacionado à montagem em camadas, que reúne os diferentes ingredientes em uma única preparação. É uma receita bastante associada a almoços, jantares e ocasiões especiais.

Mato Grosso: Maria Isabel

Em Mato Grosso, o destaque gastronômico vai para a Maria Isabel, prato preparado principalmente com arroz e carne seca ou carne de sol.

A receita combina arroz com pedaços de carne, além de ingredientes como alho, cebola e cheiro-verde. A preparação faz parte da culinária tradicional mato-grossense e está relacionada aos hábitos alimentares do interior do estado.

Foto: Divulgação

Acredita-se que a origem e o nome do prato seja uma homenagem à Imperatriz Maria Isabel, esposa do Imperador D. Pedro II. Segundo a história, durante uma visita à Província de Mato Grosso no século XIX, a Imperatriz teria sido recebida com um banquete especial, onde foi servido um prato que combinava a carne de sol com o arroz. A receita agradou tanto Maria Isabel que o prato foi batizado em sua homenagem. 

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Pará: Maniçoba

No Pará, um dos pratos mais emblemáticos é a maniçoba, muitas vezes chamada de “feijoada paraense”, embora não leve feijão.

A receita é preparada com a maniva, folha da mandioca-brava moída, que precisa passar por um longo processo de cozimento antes de ser consumida. Isso ocorre porque a folha fresca contém compostos que podem liberar cianeto de hidrogênio e, por isso, o preparo tradicional exige cozimento por no mínimo sete dias.

Foto: Reprodução/Agência Pará

Depois desse processo, a maniva é preparada com carnes e embutidos de porco, resultando em um prato de sabor marcante. 

Sua origem é tema de diferentes interpretações, já que há pesquisadores que relacionam a receita a tradições indígenas, enquanto outras interpretações destacam influências africanas na utilização das carnes e no desenvolvimento do prato.

Rondônia: Pirarucu Rondon

Em Rondônia, o Pirarucu Rondon é uma opção para quem deseja experimentar uma receita criada a partir de ingredientes característicos da Amazônia. O prato é preparado com pirarucu e reúne acompanhamentos como jambu, macaxeira, batata-doce e tucupi. 

Foto: Matheus Henrique/Rede Amazônica RO

A receita foi criada pelo chef Manoel de Jesus Evangelista e recebeu reconhecimento oficial como prato culinário de Porto Velho. O nome faz referência ao Marechal Cândido Rondon, personagem histórico ligado à ocupação e às expedições pelo interior do Brasil.

Roraima: Damurida

Em Roraima, o destaque é a damurida, um ensopado tradicional de origem indígena, associado aos povos Macuxi, Wapichana e Taurepang. O prato pode ser preparado com peixe fresco ou carne de caça e tem como características o uso de tucupi e uma quantidade generosa de pimentas. 

Foto: Yara Ramalho/Rede Amazônica RR

Entre os ingredientes também aparecem tomate, cebola, chicória e cheiro-verde. Além disso, a receita é conhecida pelo sabor intenso e picante e costuma ser acompanhada de beiju de mandioca.

Tocantins: Chambari

No Tocantins, o chambari é uma das receitas mais conhecidas. O prato é preparado com o músculo da perna do boi, cortado com o osso, semelhante ao ossobuco.

A carne é cozida lentamente com temperos como alho, cebola, tomate, pimentão e cheiro-verde. O longo cozimento deixa a carne macia e permite que o tutano presente no osso contribua para o sabor e a textura do caldo.

Foto: Reprodução/Receitas Nestlé

Tradicionalmente, o chambari pode ser acompanhado de arroz branco, farinha de mandioca e pimenta-de-cheiro, e em algumas regiões do Tocantins, o prato é consumido inclusive no café da manhã. A importância cultural da receita é tão grande que o chambari foi reconhecido como Patrimônio Cultural e Gastronômico do Tocantins em 2017, ao lado da buchada e da paçoca de carne seca.

Maranhão: Arroz de cuxá

Fechando o roteiro gastronômico, o Maranhão apresenta o arroz de cuxá, um dos principais símbolos da culinária maranhense.

A receita é preparada com arroz e o tradicional cuxá, feito a partir da vinagreira, planta de sabor ácido bastante utilizada na culinária do estado. Também entram na preparação ingredientes como camarão seco, gergelim torrado, alho, cebola e pimenta-de-cheiro.

O prato pode ser servido como acompanhamento de peixes, frutos do mar e outras preparações típicas.

Foto: Marcelo Resende

Estudos mostram que chuvas em Roraima podem ficar abaixo da média e incêndios florestais devem intensificar em 2027

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Incêndio ocorrido em 2016 na Terra Indígena Yanomami. Foto: Estêvão Benfica Senra/ISA

Dados consolidados de monitoramento do Instituto Socioambiental (ISA), com base na plataforma European Centre for Medium-Tange Weather Forecasts, mostram que Roraima deve sofrer, no último trimestre de 2026, com chuvas abaixo da média histórica do estado. A situação pode se estender até janeiro de 2027, conforme as previsões atuais.

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O cenário mostra ainda, de acordo com boletim do Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (Inpa), que incêndios florestais em Roraima devem se intensificar até o fim do primeiro semestre de 2027 em razão do El Niño.

Para Arthur Citó, pesquisador do Inpa, os efeitos mais intensos do El Niño serão observados entre janeiro e março de 2027, com impactos para a saúde da população do estado. 

“Se o fogo não estiver sob controle nesse período, podemos nos deparar com um cenário de intensa poluição atmosférica causada pela fumaça dos incêndios. Isso pode ser grave tanto para a população mais vulnerável, como crianças, idosos e pessoas com comorbidades, como para a população geral, dependendo dos níveis de poluição”, afirma Citó.

Conforme a análise do Inpa, em anos normais o fogo de incêndios se distribui pelo lavrado no nordeste de Roraima e avança em direção ao sul pelas BRs 432, 174 e 210. Enquanto em anos com influência do El Niño, os incêndios se concentram na fronteira leste da Terra Indígena Yanomami, entre a Perimetral Norte, Vila Apiaú, Vila Nova e Rio Mucajaí.

“A floresta, que costuma conter as queimadas graças à sua umidade, tem essa característica enfraquecida em fortes estiagens. Isso ajuda a deixar a fronteira leste da Terra Indígena Yanomami mais vulnerável, passando a concentrar boa parte dos incêndios em Roraima”, explica trecho do documento. 

Leia também: El Niño: pesquisadores identificam calor intenso e redução de chuva em área preservada na Amazônia

O impacto não é somente sobre o meio ambiente, envolve perdas na produção agropecuária e consequências na qualidade do ar sobre comunidades tradicionais, já que a densa fumaça é deslocada pelo vento para dentro do território Yanomami.

“Pela localização do território Yanomami, em relação à direção predominante do vento e de eventos de queimadas, é o território Yanomami que sofre os impactos do que acontece, majoritariamente, fora dele. Em geral, o contrário não tem sido observado pelos dados analisados”, detalha Arthur Citó.

Roraima pode ter até 500 mortes em razão do calor provocado pelo El Niño, é o que aponta uma estimativa do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago. A projeção, divulgada na quarta-feira (23), também estima 13,3 mil mortes no Brasil e 451 mil em todo o mundo. O período considerado para as estimativas é de setembro de 2026 até fevereiro de 2027.

Roças afetadas na Terra indígena Yanomami em Roraima

A região de Surucucu, uma das mais afetadas pelo garimpo ilegal, começou a se recuperar após a ação emergencial do governo federal. As lideranças começaram a abrir roças que já forneciam alimentos, mas os incêndios têm preocupado os indígenas quanto a viabilidade de manutenção das atividades.

Indígena com alimentos plantados nas roças de Surucucus. Foto: Erik Veisch/Cama Leão/ISA 

“Estamos preocupados com a seca na Terra Indígena Yanomami. As lideranças relatam que já está fazendo muito calor na terra e que não conseguem plantar porque com a terra quente como está, a roça vai queimar”, explica Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami.

Hekurari aponta ainda que há uma preocupação geral com os rios que devem começar a secar porque os pajés já preveem um verão forte pela frente.

Leia também: Quem são os Yanomami? Conheça um dos maiores povos indígenas da Amazônia Internacional

“Precisamos manter o diálogo com o governo sobre como lidar com essa situação. Neste ano, plantamos muito e agora estamos recuando porque estamos preocupados “, detalha.

O governo de Roraima decretou situação emergencial no início de setembro em razão da forte estiagem. Um gabinete de crise foi montado para ações coordenadas de combate e prevenção ao El Niño.

Anomalia nas chuvas

“Roraima está todo abaixo da média (de chuvas) em outubro e tende a piorar em novembro e dezembro. Em janeiro vai chover abaixo da média, talvez no norte do estado vai se manter a média de chuvas normais”, explica Ricardo Abad, analista do ISA.

Rio Branco, em Roraima, durante estiagem de 2024. Foto: Lucas Silva/Platô/ISA 

Em fevereiro, as previsões consolidadas pelo ISA indicam uma anomalia positiva com chuvas acima da média histórica que deve seguir até março. A partir de abril, deve haver chuvas acima da média em todo o estado.

“Para maio há uma anomalia polarizada. Enquanto no norte do estado há uma previsão de chuvas acima da média, o sul apresenta um cenário de chuvas abaixo da média. Mas é preciso lembrar que maio do ano que vem é muito distante e as previsões podem mudar. Por isso, seguimos acompanhando todas as semanas”, afirma Abad.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, escrito por Fabrício Araújo

Constituição é traduzida para línguas indígenas Macuxi e Wapichana por detentos em Roraima

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Idealizado pelo Tribunal de Justiça de Roraima em 2025, o projeto foi aprovado por 78 comunidades. A tradução já foi concluída e passa por revisão. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

Papel, caneta e a Constituição Federal. O material e o uniforme laranja identificam os 12 detentos indígenas que trocam as celas por uma sala de aula da Cadeia Pública Masculina de Boa Vista (RR) onde fazem uma tarefa inédita: traduzir a lei mais importante do país para as línguas indígenas dos povos Macuxi e Wapichana.

Leia também: Constituição Federal ganha versão indígena em Nheengatu

A iniciativa garante aos internos o direito de reduzir um dia da pena a cada três dias trabalhados. Como participam do projeto de ressocialização, eles são chamados de reeducandos pela unidade prisional.

A Constituição Federal é o conjunto de leis que determina a organização do país, assim como os direitos e deveres dos cidadãos. Está acima de todas as outras leis e nenhuma outra lei pode estar acima da constituição. É a base de todo o sistema jurídico brasileiro.

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“Nossa imagem não pode ser mostrada, mas nosso nome vai aparecer. Foi quando percebi que estávamos fazendo uma coisa muito grande aqui dentro”, afirmou um dos indígenas tradutores no projeto.

Idealizado pelo Tribunal de Justiça de Roraima em 2025, o projeto de tradução da Constituição Federal para duas línguas indígenas foi apresentado a 78 comunidades da região das Serras, no município de Uiramutã, ao Norte de Roraima, antes de ser colocado em prática dentro da cadeia.

A ideia era saber se os povos tinham interesse no material traduzido, e a proposta foi aprovada. Uiramutã fica localizado na Raposa Serra do Sol, a segunda maior terra indígena do Brasil em população, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As línguas Macuxi e Wapichana foram escolhidas por serem as mais faladas entre os povos indígenas de Roraima. Além disso, são os com a maior população tradicional do estado.

Os Macuxi são o primeiro maior povo indígena do estado, com mais de 52 mil pessoas, enquanto os Wapichana ocupam a segunda posição, com cerca de 17 mil, segundo o IBGE.

‘Grande Lei da República Federativa do Brasil’

Antes de iniciar a tradução dos 250 artigos da Constituição Federal, os internos, mesmo já sendo indígenas, passaram por um processo de alfabetização em Wapichana e Macuxi dentro do presídio. A ideia era garantir que eles tivessem domínio da escrita nas duas línguas.

Ao colocar o projeto em prática, um dos primeiros trechos traduzidos foi o nome da Constituição da República Federativa do Brasil. No texto indígena, o título ficou ‘Manawyny’u Zanai Mixiu Kazuwaytpaura Wanumaz Na’ik Amazad Baukuptinkiz Karaiw Idiweira’ – em português significa “Grande Lei da República Federativa do Brasil“.

“O primeiro passo foi traduzir a palavra ‘Constituição’. Ela não existe na nossa língua, mas existe a palavra ‘lei’. Então, pegamos o dicionário e pensamos: a Constituição nada mais é do que a grande lei do Brasil, a maior lei do Brasil. Assim, chegamos à ideia de ‘grande lei’. A partir daí, fomos construindo a tradução de ‘República Federativa do Brasil'”, disse o indígena que integra o projeto.

Além das palavras, os internos também imprimiram uma identidade própria na capa da Constituição traduzida. A bandeira do Brasil, que na versão tradicional aparece parcialmente, foi representada por inteiro, com as cores verde, amarelo e azul. À frente dela, um indígena com pinturas corporais e arco e flecha ocupa o centro da composição. O brasão da República também foi ampliado.

Além das palavras, os internos também imprimiram uma identidade própria na capa da Constituição traduzida. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

A previsão é que Constituição completamente traduzida fique pronta até o primeiro trimestre de 2027. Depois, os exemplares serão levados às comunidades que aprovaram o projeto.

“A tradução foi concluída. Agora, estamos na fase de revisão. Temos um prazo para encerrar o processo de revisão. Esse trabalho será apresentado ao grupo de monitoramento e fiscalização do sistema prisional do Tribunal de Justiça”, explicou o diretor da Cadeia, João Paulo Passos.

“Nosso nome vai estar nesse projeto”

As atividades na unidade têm início às 6h, de segunda a sexta. Os participantes do projeto recebem o café e passam a manhã trabalhando na tradução. Após o intervalo para o almoço, retomam o trabalho e permanecem até 16h ou 17h, dependendo do dia.

As atividades na unidade têm início às 6h, de segunda a sexta. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

Um dos reeducandos que participa do projeto é um homem de 37 anos, do povo Wapichana. Para preservar a identidade dos internos, a direção da unidade pediu que eles não fossem identificados na reportagem.

Nascido na comunidade indígena Nova Esperança, em Pacaraima, ao Norte de Roraima, ele lembra que a família falava a língua indígena em casa.

“Quando saí de lá, minha irmã falava a língua fluentemente. Eu, na época, entendia o que era falado, mas não falava”, conta.

A realidade dele também reflete um cenário mais amplo entre os povos indígenas que não fala a própria língua originária do estado.

Para se ter uma ideia, apenas 31% da população Wapichana fala a língua originária. Entre os Macuxi, esse percentual é de 14%, ainda segundo o IBGE.

“Me identifiquei muito com a língua Wapichana. Aprendi a ler, a falar e a escrever. Hoje estou aqui na tradução por conta disso, porque me empenhei bastante e procurei absorver do professor o máximo que pude de aprendizado na língua”.

Leia também: Portal Amazônia responde: quais leis garantem os direitos dos povos indígenas?

Inicialmente, eles tiveram dificuldades para traduzir palavras específicas, já que estudavam apenas palavras cotidianas. Por isso, recorreram aos indígenas mais velhos que eram fluentes. Mas, agora, a expectiva é pelo resultado final: “Nosso nome vai estar nesse projeto”.

Ele afirma que fazer parte da iniciativa dá um “sentimento de pertencimento”. A ideia é retornar à comunidade e manter a língua Wapichana viva.

“Tenho vontade de, quando sair daqui, pegar o material que produzimos e ver se a minha comunidade tem interesse em aprender a língua, para não deixar morrer. Muitas línguas indígenas no Brasil foram esquecidas ou extintas. A nossa língua é exclusiva e pertence ao tronco linguístico Aruak, que é muito raro. Saber que posso prolongar um pouco mais a existência dessa língua, para mim, é um privilégio”.

O Wapichana pertence à família linguística Aruak, um conjunto de línguas que têm uma origem histórica comum. Já o Macuxi pertence à família Karib.

Durante a reportagem, os reeducandos traduziram algumas palavras, como “virtude”, que também carrega o sentido de “o melhor potencial do ser humano”. Em Wapichana, a palavra é escrita como “Mauzkau”.

Acesso aos próprios direitos e ressocialização

A redução da pena por meio do trabalho, estudo ou leitura é um direito previsto na Lei de Execução Penal (LEP). A legislação permite que pessoas privadas de liberdade diminuam o tempo de cumprimento ao participar dessas atividades, desde que cumpram os requisitos previstos em lei.

A defensora pública que atua na Vara de Execução Penal em Roraima, Andreia Vilaça, vê o projeto como uma forma de aproximar os indígenas dos próprios direitos, ao permitir que a Constituição também seja compreendida nas línguas Macuxi e Wapichana.

Além disso, ela estaca o caráter educativo e cultural da atividade para os detentos que participam da tradução, assim como a possibilidade de remição da pena pelo trabalho.

As línguas Macuxi e Wapichana foram escolhidas por serem as mais faladas entre os povos indígenas. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

“Roraima possui uma expressiva população indígena, realidade que também se reflete no sistema prisional. Nesse contexto, a igualdade perante a lei não pode ser apenas formal. Não basta que os direitos estejam previstos na Constituição; é preciso que as pessoas possam conhecê-los e compreendê-los. A tradução para as línguas Macuxi e Wapichana ajuda a superar a barreira linguística, amplia o acesso aos próprios direitos e, ao mesmo tempo, valoriza a identidade, a cultura e as línguas dos povos indígenas”.

Andreia Vilaça frisou ainda que a execução da pena não deve se limitar ao encarceramento e que a educação é um importante instrumento de ressocialização.

“A educação é um importante instrumento de ressocialização, tanto que a Lei de Execução Penal prevê a remição de parte da pena por meio do estudo. Nesse projeto, há ainda o protagonismo dos próprios internos, que utilizam seus conhecimentos para produzir algo que pode beneficiar outras pessoas e suas comunidades”, destacou.

Alfabetização dentro da prisão

No projeto, há histórias de indígenas que chegaram ao sistema prisional sem saber ler e escrever. Mas, durante o processo, aprenderam mais de seis línguas originárias, além do português e de uma base de inglês.

À frente desse trabalho está o professor e idealizador do projeto de alfabetização, também do povo Wapichana, de 54 anos. Ele também é um dos detentos. Fora da unidade, trabalhava ensinando a língua materna.

“Nunca gostei de estudar a língua Macuxi, porque dizia para mim mesmo: ‘Sou Wapichana, por que estudar outra língua?’. Achava que não precisava, porque já falava a minha língua. Mas me enganei. Eu era cego, surdo e mudo para muitas coisas. Achava que já sabia tudo e não precisava aprender mais”.

Como integrante do projeto, ele avalia que a presença de indígenas na unidade reforça a necessidade de oferecer a eles a oportunidade de aprender a ler e escrever na própria língua.

“Eles [os reeducandos de povos originários] falam melhor a língua indígena do que o português, mas não sabem ler nem escrever. Alguns não sabem nem escrever o próprio nome. O meu povo está aqui dentro. Essas pessoas também precisam ter a oportunidade de estudar a própria língua”.

Finalização do projeto

A tradução feita na Cadeia Pública ainda é uma primeira versão. O material será revisado por professores de Macuxi e Wapichana, além de antropólogos e especialistas em tradução, antes de chegar à versão final. A intenção é levar o conteúdo para escolas indígenas e não indígenas de Roraima.

O vice-presidente do Tribunal de Justiça de Roraima, desembargador Almir Padilha, disse que é importante que o texto respeite os usos e costumes, as tradições e a cultura das comunidades indígenas.

“Isso representa, para mim, a expressão maior dos direitos humanos, o direito das minorias e das pessoas que são segregadas”, destacou Padilha.

O projeto busca ampliar o acesso das comunidades indígenas a informações sobre direitos e garantias fundamentais, além de valorizar as línguas maternas e a diversidade cultural. A iniciativa visa o reconhecimento oficial dessas línguas em Roraima.

O projeto busca ampliar o acesso das comunidades indígenas a informações sobre direitos. Foto: Nalu Cardoso/Rede Amazônica RR

Por Nalu Cardoso e Arthur Chaves da Rede Amazônica RR

Memória amazonense: ruínas centenárias de Paricatuba ganham nova rota turística

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Foto: Kamilla Barroso

A nova Rota Turística de Paricatuba, em Iranduba (AM), foi lançada no dia 26 de setembro com uma solenidade especial na vila que guarda a história das ruínas de um prédio centenário. A nova estrutura para receber visitantes valoriza a memória local e fortalece o Turismo de Base Comunitária (TBC), com a implantação de uma Sala-Museu, um mural e novas sinalizações no local, além do lançamento do site vivaparicatuba.com.br, de um documentário e do gibi “Paricatuba, a Vila das Mil Histórias”.

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As ações fazem parte do projeto Viva Paricatuba, implementado pelo Impact Hub Manaus, e passam a integrar a estrutura de visitação do destino. As iniciativas foram pensadas para permanecer como ferramentas utilizadas pela própria população. A proposta é ampliar o contato dos visitantes com o patrimônio histórico e o cotidiano da vila, movimentando atividades ligadas à economia local com atrações para todas as idades.

Na vila, os visitantes, acompanhados de guias locais, conhecem as novas sinalizações instaladas no trajeto, a exposição de fotos e totens que identificam locais da trajetória de Paricatuba, como o antigo necrotério, a igreja, o preventório e uma das casas mais antigas do local, além de homenagens a moradores ligados à história do território, com suas fotos em tamanho real.

Memória amazonense: ruínas centenárias de Paricatuba ganham nova rota turística
Foto: Kamilla Barroso

Leia também: Linha do tempo: conheça a história da Vila de Paricatuba, no Amazonas

Outro espaço apresentado ao público foi a Sala-Museu, instalada nas próprias ruínas, com artefatos, fotos e objetos antigos de Paricatuba dispostos em grandes mesas e armários de vidro, além da exposição “Cotidiano”, com fotos do dia a dia na vila assinadas pelo fotógrafo Bruno Mello.

Também foi criado um grande mural a céu aberto, o “Muro Parikás”, com imagens de animais, frutas e outros elementos encontrados na comunidade. A proposta leva assinatura do conceituado grafiteiro e produtor cultural Waldemir Nascimento, conhecido como Cria, após escutas com os moradores.

Para Thalia Galdino, coordenadora de projetos do Impact Hub Manaus, responsável pela iniciativa, o objetivo é transformar o patrimônio histórico em uma oportunidade para o desenvolvimento de novas atividades na vila.

“O projeto Viva Paricatuba tem esse objetivo de impulsionar a vila, a partir dos novos negócios que surgem por meio das ruínas e do Turismo de Base Comunitária”, comenta.

A memória de Paricatuba

A memória dos moradores também ganhou registro audiovisual com o documentário produzido pelo projeto. O filme percorre espaços históricos e cotidianos de Paricatuba e reúne relatos de pessoas que acompanharam diferentes momentos da trajetória da vila, entre elas Dona Josina, ex-paciente do antigo leprosário; Dona Tequinha, neta de Josina, que enfrentou desafios até se tornar professora; e Seu Manuel, comerciante e ex-líder comunitário. O documentário foi feito pela Take Films, sob responsabilidade do diretor e fotógrafo, Bruno Mello.

Outro diferencial do projeto é o lançamento do gibi “Paricatuba, a Vila das Mil Histórias”, produzido pelo cartunista, escritor, quadrinista e roteirista Romahs Mascarenhas, integrante da equipe da Mauricio de Sousa Produções. A publicação transforma referências históricas e culturais do território em uma aventura protagonizada por um menino de Manaus que viaja até Paricatuba para visitar a avó.

Além de apresentar a história da vila a novos públicos, o gibi será comercializado pelos próprios moradores, tornando-se também um produto turístico e uma alternativa de geração de renda. Já o site do Viva Paricatuba, que reúne informações sobre a vila, seus atrativos, sua história e as experiências disponíveis aos visitantes, amplia a presença digital do destino e facilita o acesso de quem pretende conhecer a região.

Foto: Kamilla Barroso

Para a presidente da Associação da Comunidade de Paricatuba, Jaqueline Lins, a movimentação turística pode beneficiar diferentes atividades mantidas pelos próprios moradores. Ela destaca que Paricatuba já conta com restaurantes, café da manhã, pousadas, praias e visitas guiadas, que ajudam a ampliar a experiência de quem chega à vila. “Quando a gente divulga as ruínas, a gente não está divulgando só as ruínas, mas todos os pontos atrativos da vila”. 

Ela também ressalta o papel das visitas guiadas na transmissão dos conhecimentos entre moradores e visitantes. “Conhecer o patrimônio acompanhado por quem vive na região é uma forma de manter a memória local presente e contribuir para sua preservação. Uma forma de não deixar a história local morrer é pelas visitas guiadas. Aqui você fica conhecendo um pouco da memória das ruínas. A sua visita aqui vai nos ajudar a não deixar a história morrer, a preservar a história, gerar renda para a comunidade”, afirmou.

As ações do Viva Paricatuba abrangem turismo, capacitação, infraestrutura, comunicação e fortalecimento comunitário. Com as novas ferramentas, a comunidade pode ampliar as possibilidades de receber visitantes, apresentar seu patrimônio e movimentar atividades que envolvem diretamente os moradores.

*Com informações da assessoria

Cruzeiro do Sul: segunda maior cidade do Acre é conhecida como ‘terra da farinha’

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Relevância da farinha em Cruzeiro do Sul cresceu após a crise dos seringais. Técnicas de produção foram aprimoradas pelas comunidades locais ao longo das décadas. Foto: Gleison Miranda/Secom AC

Se existe um jeito de reconhecer Cruzeiro do Sul (AC) pelo sabor, provavelmente é por causa da farinha. Mais crocante e produzida a partir da mandioca, ela virou uma das marcas da cidade e de quem vive no Juruá. Mas a história por trás dessa tradição é bem mais antiga do que os 122 anos que o município completa nesta segunda-feira (28).

Localizada a 633,5 quilômetros de Rio Branco pela BR-364, Cruzeiro do Sul foi fundada em 1904, às margens do Rio Juruá, e se desenvolveu em uma região que já era ocupada por povos indígenas e que ganhou importância durante o ciclo da borracha.

Leia também: Conheça a história de fundação da segunda maior cidade do Acre: Cruzeiro do Sul

Para contar como Cruzeiro do Sul construiu essa identidade, e entender o que faz a cidade ser tão diferente de outras regiões do Acre, o Grupo Rede Amazônica conversou com o historiador Marcos Vinícius Neves.

Ele explicou como a mandioca, a produção agrícola, a presença dos povos indígenas, o Rio Juruá e até os movimentos políticos ajudaram a formar a história e os costumes do município.

Segundo o historiador, o consumo da mandioca atravessa gerações e faz parte da alimentação de diferentes povos amazônicos há milhares de anos. Por isso, para ele, não é estranho que uma cidade localizada no coração do Juruá tenha desenvolvido uma relação tão forte com a planta.

”A mandioca é uma matéria-prima criada e desenvolvida na Amazônia. Ela foi domesticada por povos indígenas há milhares de anos e passou a fazer parte da alimentação de diferentes comunidades da região. Então seria estranho se o produto, o alimento produzido em Cruzeiro do Sul com excelência, fosse estrangeiro”, disse.

Mas uma pergunta permanece: se a mandioca é consumida em diferentes partes da Amazônia, por que a farinha de Cruzeiro do Sul ganhou características tão próprias?

Marcos Vinícius diz que ainda faltam estudos que expliquem exatamente como essa tradição se tornou tão forte na cidade. Ele, porém, relaciona o processo à própria história econômica do Juruá.

Com a crise dos seringais e a queda da importância da borracha, a produção local de alimentos passou a ter um peso ainda maior. Isso porque trazer produtos de outras regiões era caro, enquanto a farinha de mandioca já fazia parte da alimentação amazônica.

“Com a crise da borracha, é provável que tenha vindo uma retomada da importância da farinha de mandioca como uma base alimentar para uma região que não tinha mais tanta riqueza quanto durante o auge do ciclo da borracha”, explicou.

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Catedral Nossa Senhora da Glória em Cruzeiro do Sul. Foto: Vanísia Nery/Acervo Rede Amazônica AC

Produção agrícola

Além disso, Cruzeiro do Sul também tinha uma produção agrícola significativa em pequenas propriedades, principalmente em áreas ribeirinhas. O historiador destaca que havia uma variedade de alimentos produzidos na região e que, ao longo do tempo, os moradores foram aperfeiçoando as técnicas de fabricação da farinha.

Esses conhecimentos, segundo ele, foram sendo compartilhados entre as comunidades e aprimorados ao longo das décadas. O resultado é uma farinha que tem características facilmente reconhecidas por quem conhece a produção do Juruá. Para o historiador, essa tradição é fruto de um processo social e cultural construído coletivamente.

“Essa farinha especial, muito ao gosto do acreano, mais caroçuda, menos fina, é mais crocante e é uma das riquezas do Acre. Tudo isso tornou a farinha de Cruzeiro do Sul diferenciada em relação a outras regiões, não só do Acre, mas em relação a toda a Amazônia”, afirmou.

A fama da farinha de Cruzeiro do Sul também ganhou reconhecimento oficial. Em 2024, uma lei sancionada pelo presidente Lula declarou o município como Capital Nacional da Farinha. O produto já era patrimônio cultural do Acre desde 2019 e havia recebido o selo de Identificação Geográfica (IG) em 2017.

Leia também: Capital Nacional: saiba quais cidades da Amazônia Legal possuem o título

Farinha de Cruzeiro do Sul é conhecida como patrimônio. Foto: Francisco Rocha/Acervo Rede Amazônica AC

Cidade planejada

A história de Cruzeiro do Sul, no entanto, não começa na farinha. A região do Juruá já era ocupada por povos indígenas quando os primeiros exploradores não indígenas começaram a avançar pelo território. A partir da segunda metade do século 19, a busca pelo látex levou exploradores para a região e transformou a dinâmica de ocupação da Amazônia.

No Juruá, porém, esse processo encontrou uma resistência indígena que, segundo Marcos Vinícius, foi determinante para a formação histórica da região.

”O Vale do Juruá era ocupado principalmente por povos indígenas de línguas Pano, entre eles grupos como Náuas, Caxinauás, Jaminauás, Iauana(u)ás e Poyanauás. A resistência desses povos fez com que a ocupação não indígena avançasse de maneira diferente da observada em outras regiões do Acre”, ressaltou.

A cidade foi então fundada pelo então coronel Gregório Taumaturgo de Azevedo, conhecido como Marechal Taumaturgo, que posteriormente virou o nome de um dos 22 municípios acreanos.

A primeira sede chegou a ser pensada para o Miritizal, mas a área era alagadiça e foi considerada inadequada para a instalação da cidade. A sede acabou transferida para o Seringal Centro Brasileiro, onde Cruzeiro do Sul foi fundada em 28 de setembro de 1904.

“Thaumaturgo de Azevedo, que foi o fundador de Cruzeiro do Sul, planejou a cidade antes de abrir as ruas, antes de implantar os quarteirões”, explicou Marcos Vinícius.

Se hoje a distância até Rio Branco é de mais de 600 quilômetros pela estrada, no início do século 20 o Rio Juruá era ainda mais importante para quem precisava chegar ou sair da cidade.

Cruzeiro do Sul foi construída às margens do rio justamente porque ele era uma das principais vias de transporte daquele período. A localização ajudou a moldar não só a economia, mas também os costumes da população. A presença do Juruá, a vida ribeirinha e a distância de outras regiões do Acre contribuíram para que o município desenvolvesse características próprias.

Revolta pela autonomia

Cruzeiro do Sul foi capital do antigo departamento do Alto Juruá, quando o Acre ainda era um território federal dividido em três departamentos. Foi nesse cenário que a cidade entrou para a história como um dos primeiros centros da luta pela autonomia do Acre.

Em 1910, os autonomistas de Cruzeiro do Sul tomaram o poder, expulsaram o prefeito departamental nomeado pelo governo federal e defenderam a transformação do território em estado. A revolta acabou reprimida pelas forças militares federais que estavam na cidade e terminou depois de cerca de 100 dias.

Leia também: Terceira República do Acre: a revolução que redesenhou as fronteiras do Brasil

Registro histórico de Cruzeiro do Sul, interior do Acre. Foto: Beatriz Cameli/Arquivo pessoal

Segundo Marcos Vinícius, o movimento de Cruzeiro do Sul serviu de exemplo para outras revoltas autonomistas que ocorreram depois no estado. Sena Madureira teve uma revolta semelhante em 1912 e Rio Branco, em 1918.

“Cruzeiro do Sul sempre teve à frente do movimento autonomista em prol da transformação do território federal em estado”, afirmou.

Formação cultural e festas

A história do município não está apenas nos livros ou nos episódios políticos. Ela também aparece nas ruas, nas festas e nas manifestações religiosas.

Marcos Vinícius destaca que a cultura popular de rua sempre teve forte presença em Cruzeiro do Sul. No carnaval, manifestações como a Marujada, as Baianas e a Dança das Flores ocupavam as ruas. No fim do ano, era a vez de tradições como o Reisado e as pastorinhas.

A religiosidade também ganhou espaço na identidade local. A Festa de Nossa Senhora da Glória, segundo o historiador, se tornou uma das maiores manifestações religiosas do Acre e da própria Amazônia.

Para ele, essa formação cultural está relacionada às características próprias da região do Juruá e também à influência histórica da Igreja Católica no município. São tradições que, junto com a produção agrícola, a vida ribeirinha e a presença dos povos indígenas, ajudam a explicar o jeito próprio de Cruzeiro do Sul.

Ruas de Cruzeiro do Sul foram tomadas por um mar de gente no encerramento do Novenário de Nossa Senhora da Glória. Foto: Reprodução/Rede Amazônica AC

O que faz Cruzeiro do Sul ser diferente?

Para quem nunca esteve na cidade, Marcos Vinícius resume essa diferença pela combinação entre natureza e cultura. O Rio Juruá continua sendo uma das principais marcas da paisagem. Mas a região também reúne uma forte cultura ribeirinha, presença indígena, diversidade agrícola e áreas de floresta.

O historiador cita ainda a Serra do Divisor e a riqueza ambiental do Juruá como características que ajudam a diferenciar a região de outras partes do Acre.

“Cruzeiro do Sul é uma região superbonita, a própria presença do gigantesco Rio Juruá, do poderoso Rio Juruá na cidade”, afirmou.

Serra do Divisor tem uma das maiores biodiversidades do país. Foto: Reprodução/Secom Acre

Para ele, essa diversidade também aparece na história construída pelos diferentes povos que vivem na região.

“O que destaca Cruzeiro do Sul em relação a outras cidades ou regiões do Acre é a sua imensa riqueza ambiental, beleza natural e também a sua riqueza social e cultural”, completou.

*Por Jhenyfer de Souza, da Rede Amazônica AC

Entorno da BR-319 é incluído como área especial da Política Nacional de Desenvolvimento Regional

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Foto: Reprodução/DNIT

A Sub-região do Entorno da BR-319, nos estados do Amazonas e de Rondônia, foi incluída como área especial da Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), durante a 10ª Reunião do Comitê Executivo da Câmara de Políticas de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional.

A área reúne 20 municípios, sendo 18 no Amazonas — Autazes, Canutama, Lábrea, Tapauá, Beruri, Careiro da Várzea, Manaquiri, Rio Preto da Eva, Borba, Careiro, Humaitá, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manicoré, Manaus, Novo Aripuanã e Apuí — e dois em Rondônia: Porto Velho e Candeias do Jamari.

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A proposta considera características relacionadas à infraestrutura, ao acesso a serviços públicos, às atividades econômicas e à capacidade institucional dos municípios. Também são consideradas as características ambientais e as atividades econômicas relacionadas à biodiversidade.

A definição da sub-região foi discutida em reuniões envolvendo a Casa Civil, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Ministério dos Transportes.

Leia também: Mapa interativo apresenta dados sobre a BR-319, rodovia que corta a Amazônia

br-319
Foto: Rogério Cassimiro

Plano de Desenvolvimento

Também está em discussão a criação de um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para elaborar um Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para o Entorno da BR-319.

A proposta prevê a participação de representantes do MIDR, do MMA e do Ministério dos Transportes, com reuniões mensais e possibilidade de formação de subgrupos para temas específicos.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é o ‘trecho do meio’ da BR-319?

Estudos e diagnósticos elaborados pelo MMA sobre os municípios envolvidos poderão ser utilizados como subsídios para o trabalho. A proposta prevê ainda alinhamento com o Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia (PRDA) e utilização da Avaliação Ambiental Estratégica do Interflúvio Purus-Madeira.

BR-319

A BR-319 liga Manaus, no Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia. Em 2023, o Ministério dos Transportes criou um Grupo de Trabalho para estudar a rodovia e subsidiar estratégias relacionadas à sua recuperação e ao desenvolvimento sustentável da região.

Desde 2024, o MMA e o Ministério dos Transportes, sob coordenação da Casa Civil, trabalham na construção de uma governança socioambiental para acompanhar ações relacionadas à rodovia.

As medidas estão organizadas em três frentes: proteção ambiental e territorial; desenvolvimento sustentável; e mobilidade e integração.

*Com informações do MIDR

Pesquisa ouve turistas para mapear hábitos, preferências e experiências de viagens na Região Norte

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Foto: Maxwell Oliveira/Implurb e Divulgação/Semcom

Quem é o turista que visita Manaus? De onde ele vem, quanto tempo pretende ficar, como se desloca e o que mais aprecia na gastronomia e cultura amazonense? Para responder a essas perguntas e dar voz a quem vivencia os destinos brasileiros, o Ministério do Turismo e o Itaipu Parquetec estão realizando entrevistas presenciais diretamente com os viajantes nas cidades.

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A ação faz parte da primeira edição da Pesquisa Nacional de Demanda Turística (PNDT), que ouvirá cerca de 22,5 mil turistas em todo o país até o dia 3 de outubro. O foco central do levantamento é compreender a fundo a jornada do visitante — desde os seus hábitos de consumo e nível de satisfação até as suas escolhas de hospedagem e transporte.

As opiniões e experiências compartilhadas pelos entrevistados serão integradas ao Observatório Nacional de Turismo Sustentável. Esse diagnóstico servirá como guia para que governos e a iniciativa privada melhorem os serviços oferecidos, desenvolvam novos roteiros e aprimorem a infraestrutura dos destinos com base no que o próprio turista busca e necessita.

Segundo o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, os dados serão importantes para orientar as ações do setor. “Conhecer melhor quem visita nossos destinos é fundamental para que possamos planejar políticas públicas, promover experiências de maior qualidade e fortalecer a competitividade do turismo brasileiro”, afirmou.

Leia também: Nove pontos turísticos que mostram a diversidade da Amazônia brasileira

Turistas vão ajudar a melhorar experiências

A execução da pesquisa conta com a participação da Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT), responsável pelo planejamento metodológico, pela coordenação da coleta de dados e pela consolidação dos resultados.

O questionário, padronizado para todos os municípios participantes, reúne informações sobre meios de transporte, hospedagem, tempo de permanência, composição dos grupos de viagem, atividades realizadas e gastos durante a estadia.

Além de identificar padrões de comportamento dos turistas, o levantamento também vai trazer a percepção dos visitantes sobre infraestrutura, qualidade dos serviços, acessibilidade, segurança, conectividade e preços.

“A produção de dados confiáveis e comparáveis é um passo importante para orientar decisões, atrair investimentos e apoiar gestores públicos e o setor privado na construção de destinos cada vez mais preparados para receber visitantes”, destacou Gustavo Feliciano.

Os resultados terão representatividade estatística para cada município e serão disponibilizados por meio dos painéis do Observatório Nacional de Turismo Sustentável, com previsão de lançamento até abril de 2027.

turistas em belém
Belém também é está nos roteiros dos turistas que serão ouvidos. Foto: Adolfo Lemos/Acervo Ascom UFPA

Seleção dos municípios

Os 50 municípios participantes foram definidos com base no Mapa do Turismo Brasileiro vigente no início da execução do acordo de cooperação.

A seleção considerou os municípios turísticos mais bem posicionados em cada unidade da Federação – segundo o Índice Geral dos Municípios, ranking que categoriza os destinos a partir da análise de 70 indicadores, distribuídos em dez dimensões relacionadas ao turismo –, mas a expectativa é ampliar a participação.

Para isso, a infraestrutura desenvolvida para a pesquisa, que inclui questionário validado, plataforma de coleta de dados e capacitações oferecidas por meio de ambiente virtual de aprendizagem, será disponibilizada a municípios interessados em usar a metodologia.

Também estão previstos workshops nas cinco regiões do país e uma conferência nacional até o fim do primeiro semestre de 2027, com o objetivo de apresentar a metodologia e compartilhar conhecimentos relacionados ao levantamento.

A coleta da Pesquisa Nacional de Demanda Turística (PNDT) será feita por pesquisadores capacitados e identificados por crachá, em pontos de circulação e concentração de visitantes. Poderão participar turistas brasileiros e estrangeiros com 18 anos ou mais, não residentes no município pesquisado, que tenham realizado ou pretendam realizar pelo menos um pernoite no destino durante a viagem.

Confira as cidades onde as pesquisas serão aplicadas na Região Norte:

  • Acre: Cruzeiro do Sul e Rio Branco
  • Amapá: Macapá
  • Amazonas: Manaus
  • Pará: Ananindeua e Belém
  • Rondônia: Ji-Paraná e Porto Velho
  • Roraima: Boa Vista
  • Tocantins: Palmas e Paraíso do Tocantins

*Com informações do Ministério do Turismo

Cientista Carlos Nobre recebe Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 por mais de 40 anos dedicados à Amazônia

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O Dr. Carlos Afonso Nobre foi homenageado com o Prêmio Thomas E. Lovejoy de Liderança em Ciência e Conservação da Amazônia de 2026. Foto: Terria Clay/WCS

O cientista brasileiro Carlos Afonso Nobre recebeu o Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 por sua trajetória de mais de quatro décadas dedicada ao estudo da Amazônia e de sua relação com o clima global, assim como por suas contribuições para a conservação do bioma. O prêmio foi entregue no dia 23 de setembro, no Zoológico do Central Park, da Wildlife Conservation Society, durante a Semana do Clima de Nova York (EUA). O reconhecimento destaca contribuições para a conservação da Amazônia baseadas na ciência, na colaboração e no respeito à sua diversidade natural e cultural.

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Nobre dedicou sua carreira ao estudo da complexa relação entre a floresta amazônica e o clima da Terra. Iniciou sua trajetória como pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), trabalhou durante 30 anos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e atualmente é cientista sênior e professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

Também é membro do Conselho Deliberativo do WWF-Brasil. Ao longo de sua carreira, tem promovido a pesquisa científica, a colaboração e o desenvolvimento de soluções para a conservação da Amazônia.

Na década de 1990, Nobre foi um dos primeiros cientistas a identificar e modelar o chamado ponto de não retorno da Amazônia: o limite crítico a partir do qual a perda de florestas em grande escala e as mudanças climáticas poderiam alterar o ciclo da água que permite à floresta se sustentar e colocar em risco sua sobrevivência a longo prazo. Suas pesquisas contribuíram para ampliar a compreensão sobre as consequências do desmatamento e a importância da Amazônia para o clima global.

Leia também: Ponto de não retorno: a Amazônia não tem tempo a perder

O cientista afirmou:

“A floresta amazônica está muito próxima de um ponto de não retorno que pode degradar mais de 70% da floresta em um período de 30 a 50 anos. Se o desmatamento ultrapassar 20% da área total da floresta (atualmente está em 18%) e o aquecimento global chegar a 2,0 °C (chegará a 1,5 °C até 2030), o ponto de não retorno será atingido. Precisamos implementar imediatamente soluções baseadas na natureza: uma transição global para abandonar os combustíveis fósseis até 2040; alcançar desmatamento, degradação e incêndios zero até 2030; restaurar florestas em grande escala; valorizar os conhecimentos dos povos indígenas e das comunidades locais; e implementar uma sociobioeconomia baseada na floresta em pé e em rios vivos. Todos queremos salvar a Amazônia e o nosso planeta”.

Nobre também desempenhou um papel fundamental na criação de instituições e redes de colaboração científica que fortaleceram a pesquisa ambiental no Brasil e em outros países. Participou da concepção do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e fundou o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).

Ciência pela Amazônia

Como copresidente do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês) e por meio de sua iniciativa Amazônia 4.0, Nobre tem promovido o uso da ciência e da tecnologia para gerar oportunidades econômicas a partir da floresta em pé, especialmente para os povos indígenas e as comunidades locais, e contribuir para a conservação da biodiversidade.

Nobre colaborou com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e atuou como assessor de organizações internacionais. É membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Além disso, foi o primeiro cientista brasileiro em mais de um século a ser eleito membro da Royal Society.

O Prêmio Thomas E. Lovejoy honra o legado do biólogo da conservação Thomas Lovejoy, que faleceu em 2021 e dedicou grande parte de sua carreira à proteção da Amazônia. Lovejoy contribuiu para dar projeção mundial ao conceito de biodiversidade e promoveu a conservação da Amazônia e da natureza por meio da ciência, da colaboração e da defesa da conservação.

Leia também: Thomas Lovejoy: o “padrinho da biodiversidade” e defensor da Amazônia

carlos nobre realiza estudos sobre a amazônia
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entre os agraciados anteriormente com o Prêmio Thomas E. Lovejoy estão Belén Páez, do Equador; Marc Dourojeanni, do Peru; e Martín von Hildebrand, da Colômbia. Ao reconhecer Nobre, o prêmio dá continuidade ao reconhecimento de pessoas que dedicaram seu trabalho e liderança à conservação da Amazônia e ao bem-estar das comunidades e da vida silvestre que dela dependem.

Para Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil, “Carlos Nobre ajudou o mundo a entender que o destino da Amazônia não é uma questão distante ou restrita à floresta: ele está diretamente ligado ao equilíbrio climático e ao futuro das sociedades. Seu trabalho transformou conhecimento científico em um alerta que não podemos ignorar e em caminhos concretos para manter a floresta de pé.”

“O legado de Carlos Nobre mostra que conhecer os limites da Amazônia é também assumir a responsabilidade de agir antes que eles sejam ultrapassados. Sua trajetória nos lembra que conservar o bioma exige combinar ciência de ponta, inovação e os conhecimentos de quem vive e protege a floresta”, acrescenta Mariana Napolitano, diretora de Conservação do WWF-Brasil.

O reconhecimento ocorre em um momento decisivo para a região. As mudanças climáticas, o desmatamento, os incêndios, a degradação florestal e outras ameaças afetam cada vez mais a floresta e os processos ecológicos que ela sustenta. As pesquisas de Nobre e de outros cientistas demonstraram a importância de conservar uma Amazônia saudável e funcional para a biodiversidade, as comunidades da região e o clima global.

O Prêmio Thomas E. Lovejoy 2026 é uma iniciativa conjunta da Conservation International (CI), do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), da The Nature Conservancy (TNC), da Wildlife Conservation Society (WCS) e do World Wildlife Fund (WWF), juntamente com pessoas próximas a Thomas Lovejoy e comprometidas com a conservação da Amazônia.

Assista ao curta documental “Ponto de Virada da Amazônia”, produzido pelo WWF-Brasil, que contou com a participação de Carlos Nobre e foca em soluções para salvar o bioma:  

*Com informações da WWF-Brasil e WCS

BR-319, novas medidas de proteção essencialmente retardatárias da conclusão das obras de recuperação da rodovia

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BR-319. Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Decisão do governo federal da última semana resolveu designar a sub-região do entorno da BR-319, único meio de reintegração rodoviária entre Boa Vista (Roraima), Manaus (Amazonas), e Porto Velho (Rondônia), como área especial da Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), durante a 10ª Reunião do Comitê Executivo da Câmara de Políticas de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional, realizada no último dia 17, em Brasília. A área reúne 20 municípios, sendo 18 no Amazonas — Autazes, Canutama, Lábrea, Tapauá, Beruri, Careiro da Várzea, Manaquiri, Rio Preto da Eva, Borba, Careiro, Humaitá, Iranduba, Itacoatiara, Manacapuru, Manicoré, Manaus, Novo Aripuanã e Apuí — e dois em Rondônia: Porto Velho e Candeias do Jamari.

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Comunicado da presidência da República fundamenta a decisão como resultante de discussões em reunião conjunta da Casa Civil, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MDR), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Ministério dos Transportes. A medida prevê ainda a elaboração de um Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável para equilibrar infraestrutura, ordenamento territorial e preservação ambiental na rodovia, coordenado por um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI).

Estudos preliminares elaborados pelo MMA sobre os municípios envolvidos poderão ser utilizados como subsídios para o trabalho. A proposta prevê ainda alinhamento com o Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia (PRDA) e utilização da Avaliação Ambiental Estratégica do Interflúvio Purus-Madeira.

Ao que se há de intuir, a decisão choca-se, ou se interpõe, ao Plano Regional de Desenvolvimento da Amazônia – PRDA 2024-2027, aprovado pelo Conselho Deliberativo da Sudam por meio da Resolução/Condel N°106, de 4 de agosto de 2023, cujo foco central é, ou deveria ser tornar-se “instrumento de planejamento norteador e catalisador de políticas públicas a espelhar anseios dos governos e da sociedade regional, ao tempo em que oriente ações estratégicas do governo federal na região fundamentado nos princípios de sustentabilidade, inclusão social e governança compartilhada”.

Donde se pode concluir que a nova medida ou refere-se a uma intervenção extemporânea e oportunista adotada em campanha eleitoral, ou que possivelmente terá o mesmo destino do Plano em vigor desde 2023: o engavetamento oficial.

Há de se destacar que a BR-319, única ligação rodoviária entre Manaus e o resto do Brasil, é amplamente protegida por uma verdadeira “barreira verde” interposta pelos governos Federal e do Amazonas por meio de Unidades de Conservação (UCs) situadas ao longo de toda sua extensão de 875 km, o interflúvio Purus-Madeira, uma das regiões mais biodiversas e intocadas da Amazônia. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), as UCs visam oferecer garantias segundo os princípios de ordenamento territorial e conservação ambiental em relação ao Sul do Amazonas, abrangendo os municípios de Canutama, Humaitá, Lábrea e Manicoré, e de Porto Velho, capital de Rondônia. No total, 28 unidades, sendo 11 federais, 9 do Amazonas e 8 de Rondônia.

br-319
BR-319. Foto: William Magnussom/PPBio Cenbam

Adicionadas a essas, o governo federal assinou na terça-feira, 8, decreto criando quatro novas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) como forma, segundo o Palácio do Planalto, de celebrar o Dia da Amazônia, em 5 de setembro. As quatro unidades estão localizadas na região de influência da BR-319, no Sul do Amazonas, e abrangem cerca de 669 mil hectares. São elas: Tupana Igapó-Açu I, em Borba, com 114.076 hectares; Tupana Igapó-Açu II, em Beruri e Tapauá, com 422.100 hectares; Canaã, em Careiro e Autazes, com 109.607 hectares; e Mirari, em Humaitá, com 22.775 hectares. As RDS objetivam proteger a biodiversidade e os modos de vida das populações agroextrativistas que vivem na região, permitindo o uso sustentável dos recursos naturais por seus povos. Ou não?

Não se pode menosprezar o fato irrefutável de que a seca causada pelos impactos do El Niño na região Norte do Brasil pode elevar o custo do transporte de contêineres para Manaus em até 150%, segundo estudo realizado pela A&M Infra, da Alvarez & Marsal, empresa de infraestrutura e transporte, para a Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem). Em um cenário de restrição de 2,0 a 2,50 m hoje registrado na região de Porto Velho, a capacidade é reduzida em 35% e o custo unitário aumenta 63%, mostra o estudo. Armadores que operam com balsas na área informam que o transporte de cargas desde Manaus só vem sendo possível com botes precursores medindo o calado e identificando o “canal”.

Num cenário ainda mais severo, a capacidade de transporte cai 55%. Dentro de aproximadamente duas a três semanas dificilmente haverá condições de navegabilidade ao longo de todo o rio Madeira. “O efeito ocorre porque, mesmo transportando menos carga devido às limitações de calado, grande parte dos custos da viagem permanece. Além disso, a estiagem provoca atrasos, omissões de escalas, armazenagem adicional e pode exigir soluções logísticas alternativas”, afirma o estudo. Nesse cenário só resta a Manaus recorrer à BR-319 para evitar o caos total no abastecimento de mercadorias da capital amazonense e de Boa Vista (RR). O que evidencia a vital necessidade de conclusão imediata das obras da rodovia.

Leia também: BR-319 e a infraestrutura do agro

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Veja os roteiros das 14 procissões do Círio de Nazaré 2026 em Belém

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Foto: Reprodução/Ascom FDN

A Diretoria da Festa de Nazaré (DFN), por meio da Diretoria de Procissões, apresentou o Roteiro de Eventos do Círio 2026 no dia 23 de setembro. O material traz datas, horários, percursos, distâncias, duração e público estimado das 14 procissões da quadra nazarena deste ano em Belém (PA).

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A programação começa em 7 de outubro, com o Traslado dos Carros, e termina em 26 de outubro, com o Recírio. O ponto alto é o domingo, 11 de outubro. A missa na Catedral Metropolitana de Belém começa às 6h, e a procissão sai às 7h rumo à Basílica Santuário de Nazaré. São 3,6 km pela Rua Padre Champagnat, Av. Portugal, Castilhos França, Av. Presidente Vargas e Av. Nazaré, com cerca de 6 horas de duração e público estimado de 2,3 milhões de pessoas.

Na véspera, dia 10, a Trasladação sai às 17h30 do Colégio Gentil Bittencourt para a Catedral, após missa às 16h30, e deve reunir 1,9 milhão de pessoas. O mesmo sábado concentra a Romaria Rodoviária, a Romaria Fluvial e a Moto Romaria. A maior distância é a do Traslado para Ananindeua e Marituba, na sexta-feira (9): são 58 km e cerca de 10 horas de percurso, com público estimado de 1,5 milhão de pessoas.

Leia também: O caminho da fé: saiba quais são as procissões que integram o Círio de Nazaré

Festa religiosa, Círio de Nazaré em Belém conta com mais de 10 roteiros de procissões
Foto: Roberto Castro/MTur

O roteiro também inclui os mapas operacionais feitos com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará. Eles mostram os pontos de bloqueio, as vias liberadas para carros, os pontos de observação e os postos de atendimento da Cruz Vermelha e da Defesa Civil. Traz ainda a ordem de formação da abertura do Círio, com carros, barcas, bandas e as escolas responsáveis por cada trecho.

“Cada uma das 14 procissões é planejada nos mínimos detalhes, do horário de saída ao último ponto de atendimento no percurso. Trabalhamos lado a lado com os órgãos de segurança, a Cruz Vermelha e a Defesa Civil para que o romeiro possa viver sua fé com tranquilidade. Nosso compromisso é acolher bem os milhões de devotos que vão às ruas acompanhar Nossa Senhora de Nazaré”, afirma Mário Tuma Jr., diretor de procissões da Festa de Nazaré.

Confira o calendário das procissões:

  • 07/10 (quarta): Traslado dos Carros. 20h, saída da Praça Santuário
  • 09/10 (sexta): Traslado para Ananindeua/Marituba. 8h, saída da Basílica Santuário
  • 10/10 (sábado): Romaria Rodoviária. 5h30, saída da Igreja Matriz de Ananindeua
  • 10/10 (sábado): Romaria Fluvial. 9h, saída do Distrito de Icoaraci
  • 10/10 (sábado): Moto Romaria. 11h30, saída da Escadinha do Cais do Porto
  • 10/10 (sábado): Trasladação. Missa às 16h30 e saída às 17h30, do Colégio Gentil Bittencourt
  • 11/10 (domingo): Círio. Missa às 6h e saída às 7h, da Catedral Metropolitana
  • 17/10 (sábado): Ciclo Romaria. 8h, saída da Basílica Santuário
  • 17/10 (sábado): Romaria da Juventude. Missa às 15h e saída às 16h, da Paróquia Santa Cruz
  • 18/10 (domingo): Romaria das Crianças. Missa às 7h e saída às 8h, da Praça Santuário
  • 24/10 (sábado): Romaria dos Corredores. 6h, saída do Calçadão da Basílica
  • 24/10 (sábado): Romaria da Acessibilidade. 8h, saída da Praça Santuário
  • 24/10 (sábado): Procissão da Festa. Missa às 16h e início às 17h, na Comunidade N.S. das Graças
  • 26/10 (segunda): Recírio. Subida da Imagem às 6h30, missa às 7h e saída às 8h, da Praça Santuário

Confira os roteiros:

*Com informações da Ascom FDN