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Livro didático reúne informações sobre vigilância e monitoramento da exposição mercurial em populações indígenas

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Livro reúne informações sobre a exposição de indígenas ao mercúrio. Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

O Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) finalizou a produção do livro Mercúrio na Amazônia – Aspectos Introdutórios sobre Vigilância e Monitoramento em Populações Indígenas Expostas e Potencialmente Expostas‘.

A obra é resultado do Acordo de Cooperação Técnica celebrado entre Ministério Público do Trabalho, Procuradoria Regional do Trabalho da 1ª Região (RJ), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec).

O livro foi utilizado como material didático do Curso de Capacitação Profissional em Vigilância e Monitoramento da Exposição Mercurial em Populações Indígenas, oferecido pela Fiocruz Amazônia, com a finalidade de instrumentalizar trabalhadores da saúde atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS) nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) Porto Velho e Vilhena (RO), responsáveis por cuidados em saúde e socioambientais junto a indígenas dos estados do Amazonas, Rondônia e Mato Grosso, historicamente atingidos pela contaminação mercurial.

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A autoria do livro é do pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, com coautoria da pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Lihsieh Marrero, e do supervisor do Centro de Formação do Museu das Culturas Indígenas de São Paulo, Aly David Arturo Yamall Orellana.

Orellana explica que o livro se propõe a discutir alguns aspectos introdutórios sobre a vigilância do mercúrio em terras indígenas na Amazônia, destacando que a poluição ambiental por contaminantes químicos se constitui, cada vez mais, como uma séria ameaça à saúde humana.

“O mercúrio, em particular, está entre os três contaminantes mais importantes, sendo que a maior fonte de exposição na Amazônia a esse metal é o garimpo de ouro. Há mais de 50 anos, diferentes gerações de amazônidas têm testemunhado e sido fortemente impactadas pela extração predatória do ouro na região, especialmente ribeirinhos e povos indígenas”, relata.

De acordo com o pesquisador, nas últimas três décadas, as estratégias e maquinário usado para a extração ilegal de ouro têm amplificado os danos ambientais, especialmente em solos e corpos d ́água o que, consequentemente, agrava ainda mais a exposição de populações reconhecidamente vulneráveis aos efeitos negativos da poluição ambiental.

“Exposições em quantidades acima do tolerável, segundo critérios da Organização Mundial da Saúde, podem resultar em danos aos sistemas nervoso central e periférico, renal, cardiovascular, digestivo, pulmonar, imunológico, endócrino e, até mesmo, à morte”, alerta.

Estudos sugerem que a exposição pré-natal ao metilmercúrio pode estar relacionada com atrasos cognitivos, quadros de retardo mental leve e até mesmo danos na audição e visão, após o nascimento.

Leia também: Mercúrio é detectado em peixes do rio Madeira; estudo alerta ribeirinhos para riscos à saúde

Livro representa preocupação com o cenário

Com 68 páginas, o livro está dividido em cinco capítulos/seções:

  • “Introdução à toxicologia do mercúrio e aspectos históricos”;
  • “Ciclo do mercúrio no ambiente e atividades antrópicas”;
  • “Exposição aguda e crônica ao mercúrio na Amazônia”;
  • “Principais ameaças e riscos do mercúrio à saúde humana”,
  • e “Desafios da vigilância do mercúrio em indígenas da Amazônia”.

Jesem Orellana observa que o preocupante cenário põe em evidência a importância não apenas de monitorar os efeitos da contaminação mercurial em indivíduos expostos ou potencialmente expostos, como também de prevenir ou manejar da melhor maneira possível a exposição humana ao mercúrio, em particular no segmento materno-infantil indígena.

“De um lado, pouco se sabe sobre o assunto e, de outro, permanecem substanciais desafios na atenção qualificada à saúde, o que inclui a formação profissional focada na contaminação/exposição ao mercúrio”, destaca.

Segundo Orellana, a produção do livro esteve articulada ao planejamento e oferta de um curso de capacitação profissional, alinhado às prioridades do Ministério da Saúde, contribuindo à exploração do tema na região.

Livro didático reúne informações sobre vigilância e monitoramento da exposição mercurial em populações indígenas
Capa do livro. Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

Cursos nos DSEIs

Entre os últimos dias 17 e 25 de março, sob coordenação de Orellana, com o apoio da UEA, e dos docentes da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Cristiano Lucas de Menezes Alves e Maurício Viana Gomes de Oliveira, bem como o apoio direto de técnicos designados pelos DSEIs Porto Velho e Vilhena, foi conduzido um curso de capacitação profissional nos municípios de Cacoal (RO) e Humaitá (AM) sobre os riscos associados à exposição mercurial, estratégias de vigilância, monitoramento e mitigação dos dados nas populações potencialmente expostas e expostas a contaminação mercurial. O curso, com duração de 20 horas, foi preparado para trabalhadores de saúde atuantes na APS dos dois DSEIs.

“Foi uma experiência que utilizou estratégias de ensino e aprendizagem, centradas em metodologias participativas, que potencializam a fixação de novos conhecimentos, a partir da articulação com os saberes e vivências dos profissionais participantes”, destaca Lihsieh Marrero.  

Para Orellana, a pauta da exposição mercurial em populações indígenas ainda é pouco valorizada ou inexistente no processo formativo de trabalhadores de saúde, não apenas na região Amazônica, mas no Brasil como um todo.

“O uso indiscriminado do mercúrio existe, há pelo menos 40 anos, em garimpos ilegais, acarreta não apenas a destruição e contaminação dos nossos solos e águas, como também gera uma variedade de efeitos negativos à saúde humana, deixando populações historicamente vulneráveis como os indígenas da Amazônia Legal, em risco ou ameaça ainda maior”, enfatizou o pesquisador.

*Com informações do ILMD/Fiocruz Amazônia

Ufopa estuda estratégias para conservação e uso sustentável da planta unha-de-gato

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Foto: Nils Servientis/BioDiversity4All

A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) tem avançado na construção de uma estratégia integrada de conservação e uso sustentável da Uncaria tomentosa, conhecida como unha-de-gato. A espécie medicinal é amplamente utilizada na Amazônia e vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental. Essa erosão pode resultar em menor capacidade de adaptação, maior vulnerabilidade a doenças e risco de extinção da unha-de-gato.

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A iniciativa integra ações de pesquisa, extensão e inovação em saúde desenvolvidas no âmbito do projeto FarmaFittos, que envolve a Ufopa, a Arquidiocese de Santarém, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) de Santarém e instituições parceiras, como a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), responsável por parte do desenvolvimento científico associado à conservação genética da unha-de-gato.

Estudos científicos, como os conduzidos pela professora Dra. Ana Maria Soares (Unaerp), apontam que a variabilidade genética da unha-de-gato  se encontra distribuída de forma desigual entre populações naturais, muitas vezes isoladas, o que pode comprometer a capacidade adaptativa da espécie e sua sobrevivência a longo prazo. Esse cenário reforça a necessidade de estratégias que integrem conservação, cultivo e uso racional da planta, visando diminuir o processo de erosão genética.

Uncaria tomentosa é uma planta medicinal valiosa e de grande interesse do Sistema Único de Saúde (SUS). É conhecida por suas propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e imunomoduladoras.

Leia também: Medicina da floresta: pesquisador usa uxi amarelo, unha de gato, marapuama e outras plantas para tratamentos

Planta Unha-de-gato vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental.
Planta medicinal vem sendo associada a riscos de erosão genética em função da exploração extrativista e da fragmentação ambiental. Foto: Acervo FarmaFittos

Ciência aplicada à conservação da biodiversidade

Na Ufopa, esse trabalho com a unha-de-gato vem sendo desenvolvido desde meados de 2024, a partir da implantação de um banco de germoplasma, uma estrutura para conservação da espécie, e de técnicas de multiplicação de plantas em ambiente controlado, no Laboratório do Núcleo de Bioativos do projeto de pesquisa e extensão Maniva Tapajós.

Parte desse material genético foi introduzido por meio de cooperação com a Unaerp e vem sendo reproduzido localmente, garantindo a preservação de diferentes genótipos da espécie.

Leia também: Ufopa é reconhecida como universidade mais sustentável da Região Norte

Ufopa
Ufopa articula saberes e políticas públicas para o cultivo da unha-de-gato. Foto: Divulgação/Ufopa

Segundo os pesquisadores envolvidos, o objetivo não é apenas conservar a planta, mas também criar condições para seu uso sustentável da unha-de-gato, evitando a pressão sobre populações naturais.

“O trabalho tem sido desenvolvido com foco na conservação da diversidade genética associada ao cultivo orientado, o que permite reduzir a coleta predatória e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso seguro à planta para uso medicinal”, afirma o professor Dr. Wilson Sabino, docente do Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa e coordenador do Grupo de Extensão FarmaFittos.

Produção em escala e fortalecimento comunitário

Atualmente, o projeto entra em uma nova fase, com a meta de produção de aproximadamente 1.000 mudas de Uncaria tomentosa até o final de 2026. Essa etapa será realizada em parceria com o Projeto Saúde e Alegria e com agricultores familiares de comunidades ribeirinhas do Alto Tapajós.

Além da produção, a iniciativa envolve processos de capacitação comunitária, com foco no cultivo sustentável da espécie e na valorização dos sistemas produtivos locais.

A proposta é que as mudas da unha-de-gato produzidas a partir de material geneticamente conservado sejam incorporadas aos territórios, promovendo uma alternativa ao extrativismo predatório e contribuindo para a geração de renda e o fortalecimento da autonomia das comunidades.

Integração com o SUS e institucionalização da política

As ações do FarmaFittos passaram a integrar uma estratégia institucional vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de um termo de cooperação técnica firmado entre a Prefeitura de Santarém, a Ufopa e a Arquidiocese de Santarém.

O acordo prevê a implementação da primeira fase do programa Farmácia Viva, incluindo a produção de insumos vegetais, elaboração de protocolos clínicos, mobilização comunitária e fornecimento de mudas, em conformidade com as diretrizes nacionais de fitoterapia no SUS.

Essa articulação estabelece uma governança compartilhada, na qual a universidade atua na base científica, a gestão pública na coordenação e financiamento das ações, e a Arquidiocese na mobilização social e territorial.

Atualmente, o projeto trabalha com as plantas erva-baleeira, chambá, erva-penicilina, folha-da-fortuna, açafrão, e outras espécies, que estão sendo cultivadas em um espaço da Arquidiocese de Santarém, o Centro de Formação Emaús, localizado à rodovia Curuá-Una.

*Com informações da Ufopa

“Não são lendas, são crenças”: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas

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Foto: Divulgação

O paraense Marcio Neco, professor e pesquisador licenciado em História Faculdade Faveni de Belém e com pós-graduação em Ciências da Religião pela mesma instituição, é o autor do livro ‘COP30 nas Escolas’. Ele destaca a importância de figuras como a Matim-Taperê e o Boto como parte da cultura espiritual dos povos indígenas.

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Em 2025, Neco recebeu a Comenda “Ernesto Cruz”, a maior honraria concedida a historiadores em Belém. Confira a entrevista completa cedida à Um grau e meio, do IPAM.

Quais são as lendas mais conhecidas da floresta amazônica e o que elas revelam sobre a relação histórica das populações com a natureza?

Marcio Neco: Acredito que essas figuras têm um papel que vai além do religioso, elas também são profundamente pedagógicas. Personagens como o Curupira, a Matim-Taperê e o Anhangá ensinam, por meio das narrativas, valores como o respeito à natureza, aos animais e aos limites do que devemos retirar da floresta.

Por exemplo, o Curupira pune quem desmata, e o Anhangá protege os animais em situações vulneráveis, como na amamentação. Isso mostra uma ética muito clara: usar a natureza com equilíbrio e responsabilidade.

Essas lendas surgem de observações do cotidiano da floresta? Que elementos da vida amazônica costumam dar origem a essas narrativas?

Marcio Neco: Antes de tudo, é importante lembrar que a Amazônia sempre foi habitada por diversos povos originários, cada um com suas próprias crenças. Com a colonização, essas crenças foram demonizadas e reduzidas a “lendas” ou “folclore”.

Mas figuras como Curupira, Matim-Taperê e Boto não são apenas lendas, são crenças desses povos, ligadas à vida na floresta e ainda presentes entre comunidades ribeirinhas. Por isso, é importante desconstruir essa visão colonizadora e reconhecer esses saberes como legítimos.

Leia também: Lendas amazônicas: Onde estão as cobras grandes da Amazônia?

Muitas dessas histórias trazem personagens que protegem a natureza ou punem excessos humanos. O que isso nos diz sobre a ética ambiental presente nas culturas tradicionais?

Não são lendas, são crenças: afirma pesquisador paraense sobre figuras amazônicas
Foto: Divulgação

Marcio Neco: Ao analisar as crenças dos povos originários, percebemos que cada divindade está ligada a uma força da natureza e também cumpre uma função pedagógica. A Matim-Taperê, por exemplo, não é uma “bruxa”, mas uma entidade ligada aos espíritos e à proteção da floresta. 

O Curupira protege as matas, o Anhangá cuida da caça, e o Boto, além de estar ligado aos rios, também orienta questões de educação sexual. Já o Curupira aparece como uma divindade da fecundidade e das colheitas. Outro conceito importante é o dos “encantados”, seres que transitam entre o mundo espiritual e o material.

Ao longo do tempo, essas narrativas foram sendo tratadas apenas como “folclore”. O que se perde quando elas deixam de ser compreendidas como formas de conhecimento?

Marcio Neco: Hoje, essas divindades podem ter um papel didático muito eficaz na educação. O processo de demonização e imposição de uma religião única fez com que essas divindades fossem reduzidas a “lendas” e inseridas no folclore. Com isso, perde-se o respeito pela religião desses povos e a compreensão dos valores que essas entidades transmitem. Essa redução gera confusão e apaga parte importante da cultura.

O senhor trabalha o conceito de “imaginação amazônica”. Como ele ajuda a entender por que essas histórias seguem vivas, mesmo em um mundo cada vez mais urbano e tecnológico?

Marcio Neco: Mesmo no mundo urbano e tecnológico, também produzimos nossas próprias lendas, como as lendas urbanas. Elas não têm um autor específico e fazem parte do imaginário coletivo, muitas vezes com base em histórias que circulam com variações.

Um exemplo é a “moça do táxi”, que aparece em diferentes versões pelo Brasil, inclusive em Belém e São Paulo, sempre com mudanças na narrativa, mas mantendo uma estrutura semelhante. Essas variações mostram como essas histórias se adaptam aos contextos locais e continuam sendo reproduzidas.

Em um cenário de crise climática e degradação ambiental, como as lendas da floresta podem contribuir para novas formas de educação ambiental e sensibilização?

Marcio Neco: A crise climática também está ligada à falta de uma educação ambiental que reconheça a relação entre o ser humano e a natureza. Hoje, até se tenta resgatar esses símbolos, como o Curupira, mas ainda muitas vezes ele é visto apenas como folclore. Esse resgate é importante, pois essas crenças têm grande potencial educativo e de conscientização.

Utilizar essas divindades e seus ensinamentos pode nos ajudar no combate às crises climáticas, promovendo respeito, cuidado e uma relação mais equilibrada com a natureza.

Que ensinamento central as lendas amazônicas deixam para quem vive fora da Amazônia e tenta compreender a floresta à distância?

Marcio Neco: Muitas das nossas ideias sobre povos indígenas vêm de uma educação equivocada desde a infância, que reforça estereótipos, como associar o indígena apenas a arco, flecha ou oca. Isso cria uma visão limitada e incorreta, ignorando a diversidade desses povos, seus modos de vida e suas escolhas.

Com a chegada dos portugueses, houve um processo de demonização e distorção dessas crenças, apagando sua verdadeira dimensão cultural e religiosa. Por isso, é importante estudar e ressignificar esses conhecimentos para compreender que eles fazem parte de sistemas de crença legítimos, que existiam muito antes da colonização.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Suellen Nunes

Manaus, capital da ZFM: tormenta tropical escancara miséria das favelas que tomam conta da cidade

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Foto: William Duarte/Rede Amazônica AM

Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com

Em sua clássica obra “Tristes Trópicos” (1955), Claude Lévi-Strauss, um dos antropólogos mais influentes do século XX e figura central na fundação da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou sociologia entre 1935 e 1938, com base em suas experiências no Brasil (1935-1939) consolidou visão crítica, melancólica e estruturalista sobre a urbanização rápida e o contraste com o passado. Para ele, as cidades latino-americanas eram basicamente “implantadas para serem rapidamente renovadas, o que resultava em uma “doença crônica” de má construção”.

Diferentemente das cidades europeias, que amadurecem com o tempo, “as americanas passavam da juventude à decadência sem nunca chegarem a ser saudáveis; evoluíam ‘da frescura’ à ‘decrepitude’ sem passar pela antiguidade”. Portanto, “não amadurecem, apenas envelhecem precocemente devido à má construção, que gera constante necessidade de renovação rápida”.

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O evoluir do tempo demonstrou certo exagero em tais assertivas, visto que importantes núcleos urbanos, no decorrer da história, esquivaram-se dessa visão conjuntural do mestre. Ao que me parece, entretanto, Manaus, a capital do Amazonas, e outras cidades latino-americanas e amazônicas, em particular, apontam sinais de enquadramento no determinismo histórico e sociológico do antropólogo francês. Ao menos foi o que deixou evidente, mais uma vez, as chuvas torrenciais que na quarta-feira, 25, se abateram sobre a capital amazonense.

Toda a população ficou estarrecida e amedrontada com tal volume de água, quanto com seu poder destrutivo da infraestrutura urbana da cidade. Dados das estações meteorológicas da Prefeitura de Manaus revelam que a tempestade tropical resultou num acumulado de chuva que chegou a 160 milímetros (o equivalente a 160 litros de água em cada metro quadrado (m²) de área) no bairro Santa Etelvina, Zona Norte da capital.

A tormenta provocou 59 de alagamentos; bueiros entupidos, erosões de alta gravidade; 13 desabamentos de muros e casas; 24 deslizamentos de barrancos; rachaduras, tromba d’água e outros sérios danos, especialmente nas zonas faveladas da cidade.

De acordo com o Censo do IBGE de 2022, Manaus registrou um crescimento expressivo no número de favelas, 60% delas concentradas na capital amazonense. Bairros como Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, na Zona Norte, é a quarta maior favela do Brasil, com mais de 55 mil moradores, seguida pela comunidade São Lucas.

Os estudos apontam que, dentre as principais áreas vulneráveis da cidade encontram-se a Comunidade São Lucas (Bairro São José, Zona Leste), concentrando mais de 53 mil pessoas; Zumbi dos Palmares/Nova Luz (Zona Leste), com mais de 11 mil domicílios; a Compensa (Zona Oeste), com altos índices de risco, conforme mapeamento geológico.

As pesquisas revelam que Manaus lidera o ranking nacional de áreas urbanizadas em favelas. No período 1985/2024, verificou-se um crescimento de 160% na ocupação dessas comunidades enquanto a expansão urbana ocorreu de forma brutalmente desigual e improvisada, sem a necessária e obrigatória observância dos direcionamentos estabelecidos no Plano Diretor Urbano e Ambiental do Município de Manaus, instituído pela Lei Complementar Nº 2/2014.

Os dados censitários (Ibge 2022) revelam que o Amazonas possui 398 favelas, registrando o maior crescimento populacional nessas áreas do Brasil, indicando que Manaus é uma das capitais com a maior proporção de moradores em comunidades. O levantamento mostra que entre as 20 favelas mais populosas do Brasil, seis estão localizadas nas zonas Leste e Norte da capital. Aqui se concentram os setores mais críticos de moradias precárias e áreas de risco. Os dados do IBGE sinalizam que o aumento das favelas reflete a necessidade de regularização fundiária e pesados investimentos em saneamento básico e infraestrutura urbana, para poder conferir um mínimo de dignidade à massa populacional vítima das intempéries.

Leia também: A guerra no Irã já afeta negativamente a economia brasileira

Sobre o autor

Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Atlas lançado na COP15 mostra rotas migratórias de aves vulneráveis das Américas

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Uma ferramenta que mapeia rotas de migração, locais de parada e repouso mais importantes para 89 espécies de aves migratórias das Américas foi lançada, no dia 26 de março, na programação da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em Campo Grande (MS).

Disponível online, o Atlas de Rotas Migratórias das Américas vai ajudar a identificar locais onde os esforços de governos e cooperação internacional são mais necessários.

“Em termos de políticas públicas, a gente consegue definir, com maior precisão, áreas geográficas que precisam de mais atenção para a conservação, para criação de áreas protegidas, públicas ou privadas”, explica o diretor de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Braulio Dias.

Leia também: COP15 discute relação de áreas úmidas e proteção de espécies migratórias

Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Braulio Dias, diretor do Departamento de Conservação e Biodiversidade do MMA, destacou a importância do Atlas de Rotas Migratórias das Américas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O processo de licenciamento ambiental para empreendimentos como os de geração de energia com linhas de transmissão ou torres eólicas também será beneficiado com as informações disponibilizadas pela ferramenta, afirma Braulio Dias.

“Se a localização dessas linhas de transmissão e das torres eólicas não for muito bem-feita, pode resultar em alta mortalidade de aves e também de morcegos”, reforça.

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As áreas de concentração de aves (ACAs) podem ser visualizadas em um mapa interativo que demonstra, por espécie, a trajetória percorrida em cada época do ano. “Também tem o uso para a sociedade em geral. Quem gosta de aves, quer fazer uma atividade de turismo numa região, já pode consultar ali para saber que espécies são mais comuns em um local, onde procurar”, detalha o diretor do MMA.

Dados das aves migratórias

A base de dados faz uso de milhões de registros gerados por ciência-cidadã na plataforma eBird e deverá ser ampliada, chegando a 622 espécies que percorrem 56 países nas rotas migratórias das Américas, que se estendem do Ártico canadense à Patagônia chilena.

Um exemplo de ave catalogada pelo atlas é o pássaro conhecido como veste-amarela ou pássaro-preto-de-veste-amarela, que em sua jornada passa pelo Sul do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. A espécie sofre com declínio acentuado da sua população e, por isso, integra a lista de espécies ameaçadas de extinção da Convenção de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS).

Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Christopher Wood, diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, participa do lançamento do Atlas de Rotas Migratórias das Américas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

“Este atlas mostra o que é possível quando se reúne milhões de observações de aves, a partir da contribuição de pessoas de toda a América”, ressalta o diretor do Centro de Estudos de Populações de Aves do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, Christopher Wood, que participou da equipe de desenvolvimento da ferramenta.

O atlas é resultado de uma iniciativa do secretariado da CMS, em parceria com o Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS).

Durante o lançamento, a secretária executiva da CMS, Amy Fraenkel destacou que o atlas reforça o compromisso compartilhado de fortalecer conectividade ecológica além fronteiras em um momento em que as espécies migratórias precisam de ações coordenadas.

*Com informações da Agência Brasil

Amazônia Que Eu Quero promove painel em Roraima sobre democracia na era digital e tecnologia no processo eleitoral

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Foto: Divulgação

A Fundação Rede Amazônica (FRAM), por meio do projeto Amazônia Que Eu Quero (AMQQ), realiza no dia 31 de março de 2026, em Boa Vista (RR), o primeiro painel da temporada de debates, com foco na construção de soluções para o desenvolvimento sustentável da região.

O encontro acontece a partir das 13h, na sede administrativa do Sebrae Roraima, com transmissão ao vivo pelo G1 Roraima, Portal Amazônia e pelo canal Amazon Sat, a partir das 14h.

Com mediação do jornalista Luciano Abreu, o painel terá como tema “Democracia na era digital: a tecnologia aliada ao voto” e reúne especialistas com atuação nas áreas de sistemas eleitorais, comunicação e governança pública.

Especialistas contribuem para construção de soluções

Entre os painelistas confirmados está Fábio Rogério Santos Barros, mestre em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos, com atuação na área de tecnologia da informação do Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR), onde ocupa a chefia da Seção de Sistemas Eleitorais, contribuindo para a gestão e segurança dos sistemas que garantem o processo eleitoral.

Também participa Sheneville Araújo, jornalista e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Roraima (UFRR), com experiência em comunicação, educação midiática e análise dos impactos das tecnologias e da informação na sociedade.

Completando o painel, Celso Duarte de Sousa Júnior, coordenador do Núcleo de Prevenção à Corrupção e ouvidor da Controladoria-Geral da União (CGU) em Roraima, com trajetória na área de controle social, transparência e integridade na gestão pública.

Os convidados reúnem diferentes perspectivas e contribuem com análises técnicas sobre os desafios da democracia na era digital, incluindo o papel das tecnologias, da informação e da participação social no fortalecimento das instituições.

Diálogo qualificado para o desenvolvimento da Amazônia

O projeto Amazônia Que Eu Quero promove encontros em diferentes estados da região, reunindo especialistas, lideranças e a sociedade para discutir caminhos que fortaleçam o desenvolvimento sustentável.

A iniciativa tem como base a escuta ativa e a construção coletiva de propostas, que posteriormente são consolidadas em um caderno de soluções voltado ao apoio à formulação de políticas públicas.

O Amazônia Que Eu Quero é uma realização da Fundação Rede Amazônica (FRAM) e uma iniciativa do Grupo Rede Amazônica.

Pará mantém liderança na produção de açaí: 89,5% do total

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Foto: Rafael Rocha/Embrapa

Base alimentar da população paraense e símbolo da Amazônia, o açaí consolidou-se como um dos principais indutores de desenvolvimento sustentável. De acordo com estudo da Fundação Amazônia de Amparo e Pesquisa (Fapespa), a produção do fruto saltou de quase 150 mil toneladas para cerca de dois milhões de toneladas em 38 anos, de 1987 a 2024, um crescimento de 14 vezes.

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Nesse cenário, o Pará mantém a liderança absoluta, com 89,5% do total nacional, seguido por Amazonas, com 7,2%, e Amapá, com 1,3%.

Em termos financeiros, o valor da produção paraense saltou de quase R$ 510 milhões, em 1994, para quase R$ 9 bilhões, em 2024, respondendo por 93,8% do valor total gerado no setor no Brasil.

Leia também: Açaí é reconhecido por lei como fruta nacional

açaí de belém
Foto: Vanessa Monteiro/Ascom Ufra

Açaí reflete no reflorestamento

O presidente da Fapespa, Marcel Botelho, destaca o reflorestamento como resultado da alta produção:

“O reflorestamento é extremamente relevante para a cultura do açaí. O projeto Manejaí, coordenado pela Embrapa, já trouxe esses indicadores de uma forma muito clara. O açaí é uma planta nativa da nossa região e depende desse ecossistema para a sua produtividade. Então, é necessário que haja o reflorestamento das áreas do entorno da plantação do açaí. Esses são os indicadores que a ciência está mostrando, que o reflorestamento aumentou a produtividade do açaí”.

Entre 2015 e 2024, a área reflorestada com o fruto no Pará cresceu de 135 mil para 252 mil hectares. Esse avanço permitiu que o estado quase dobrasse sua capacidade de captura de dióxido de carbono (CO₂), atingindo quase um milhão de toneladas capturadas em 2024.

*Com informações da Rádio Agência Nacional

Indica Tapajós: tecnologias digitais reforçam monitoramento territorial em comunidades da Amazônia

Foto: Reprodução/Sapopema

Comunidades do PAE Tapará, em Santarém (PA), receberam a primeira rodada de instalação de tecnologias digitais e formação para monitoramento territorial no âmbito do Projeto Indica Tapajós, entre os dias 10 e 14 de março. A iniciativa é desenvolvida pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces) e a Sociedade para Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), com financiamento da União Europeia.

Durante cinco dias de atividades, representantes de organizações comunitárias participaram de formações práticas e receberam kits de inclusão digital com antenas de internet, computadores, celulares, GPS e drones. Os equipamentos vão apoiar ações de monitoramento territorial independente, com foco em diferentes ações. No Tapará apoiarão na vigilância de acordos de pesca e no fortalecimento do manejo comunitário do pirarucu.

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A iniciativa integra um conjunto de estratégias voltadas à inclusão digital e ao fortalecimento das organizações locais que atuam na defesa de seus territórios.

“Nós estamos no PAE Tapará desenvolvendo uma série de iniciativas voltadas para inclusão territorial e para o fortalecimento do monitoramento territorial independente. Esse é um momento muito importante para fortalecer essas quatro organizações, que são as primeiras de uma série de 20 selecionadas no projeto Indica Tapajós”, explicou Samela Bonfim, gestora do programa de comunicação comunitária e inclusão digital da Sapopema.

Indica Tapajós: tecnologias digitais reforçam monitoramento territorial em comunidades da Amazônia
Foto: Reprodução/Sapopema

A atividade também incluiu formações sobre uso da internet segura, operação de drones, GPS e aplicativos de celular voltados ao monitoramento territorial. “Jovens, mulheres e pessoas que atuam frente a frente com esse monitoramento estão sendo treinados para utilizar essas tecnologias digitais, conseguir coordenadas geográficas, realizar denúncias mais qualificadas e vigiar seus lagos com mais segurança”, destaca.

A mobilização das organizações comunitárias e o engajamento dos pescadores foram marcantes em meio a uma semana chuvosa no inverno amazônico. “Foi uma semana muito rica, tanto pelas contribuições para o território quanto pela mobilização das associações de pescadores da região. Fiquei muito impressionado com o engajamento dos pescadores no monitoramento da pesca e na vigilância das regras do acordo de pesca”, esclareceu Eric Macedo, pesquisador do FGVces.

O uso de tecnologias digitais também foi pensado como estratégia para ampliar a participação da juventude nas ações de proteção territorial. “A gente focou no uso de tecnologias digitais, como drones, GPS e aplicativos de celular, justamente para criar um apelo para que os jovens se engajem nessas atividades que são fundamentais para a preservação dos recursos essenciais para a vida das comunidades”, complementou.

Leia também: Impactos da presença de “limo” em praias do rio Tapajós são analisados no Pará

Foto: Reprodução/Sapopema

Indica Tapajós fortalece vigilância

Nas comunidades do Tapará, os equipamentos chegam para fortalecer um trabalho de vigilância e manejo que já vem sendo realizado pelos próprios pescadores. “Essa chegada desses equipamentos para nossa região vai evoluir muito o nosso trabalho nos acordos de pesca. A fiscalização vai ser mais extensa e vai ajudar muito a combater a pesca predatória e pessoas que não querem respeitar o acordo”, avalia Rionaldo Pereira, presidente do Conselho Regional de Pesca do Tapará.

O fortalecimento dos acordos comunitários é apontado como uma estratégia central para garantir a conservação dos recursos pesqueiros e a segurança alimentar das famílias. “A importância do acordo de pesca para a região é muito grande, porque a gente faz a preservação do futuro da nossa família e das nossas crianças”, reforça.

Na comunidade Santa Maria do Tapará, a chegada dos equipamentos é vista como um reforço para o monitoramento do manejo do pirarucu e de outras espécies. “Esse equipamento veio para somar principalmente na fiscalização do monitoramento da pesca. Sabemos que enfrentamos muitas dificuldades para fiscalizações, então esses equipamentos vieram para melhorar muito a nossa comunidade”, comenta Odirlei Souza, presidente da comunidade.

Foto: Reprodução/Sapopema

Na comunidade Pixuna, a iniciativa também foi recebida como um instrumento para fortalecer as ações de conservação. “É de grande importância receber esse projeto na nossa comunidade. Veio para somar como um instrumento para melhorar o acordo de pesca e o manejo do pirarucu”, observa Lino, presidente da associação local.

O treinamento para pilotagem de drones despertou interesse entre os participantes, especialmente entre os jovens envolvidos nas ações de monitoramento.

“Foi a primeira vez que pilotei um drone e foi uma maravilha. Ver ele subir, descer e filmar foi muito bom. Vai servir para monitoramento de lago e para identificar invasões”, conta um Odirclei Viegas, participante da formação.

As lideranças comunitárias avaliam que a tecnologia pode ampliar o alcance das ações de fiscalização, principalmente em áreas de difícil acesso. “Esse equipamento vai nos ajudar muito na fiscalização, porque ainda existem irregularidades dentro dos nossos acordos. Muitas vezes a gente não tem acesso para chegar em determinados lugares, mas com o drone vai ser possível identificar essas situações”, explica Ronaldo Pereira dos Santos, coordenador da base de Pixuna do Tapará.

Foto: Reprodução/Sapopema

A chegada dos equipamentos também fortalece um trabalho comunitário construído ao longo de décadas em torno do manejo do pescado. “Nós já trabalhamos há mais de 25 anos com manejo e monitoramento do pescado. Um equipamento como esse vem só fortalecer o nosso trabalho e ajudar no desenvolvimento do conhecimento sobre a natureza”, ressalta Amarildo Ribeiro Fernandes.

Para as lideranças locais, o projeto Indica Tapajós representa um passo importante no fortalecimento das estratégias comunitárias de proteção dos lagos e territórios pesqueiros.

“Esse projeto vem fortalecer muito o nosso trabalho comunitário e a vigilância dos lagos. Era um sonho que nós estávamos esperando”, celebra Geraldo Ferreira de Santos, coordenador do núcleo de pesca da Costa do Tapará.

O Projeto Indica Tapajós irá apoiar 20 organizações de povos e comunidades tradicionais da bacia do Tapajós e do Baixo Amazonas com equipamentos, conectividade e capacitações voltadas ao monitoramento territorial independente. As organizações receberão kits digitais e antenas de internet, com o custo do serviço garantido pelo projeto por um período de 18 meses.

Além do acesso à conectividade, o projeto prevê formações sobre monitoramento territorial independente, uso de equipamentos e aplicativos, segurança digital, formulação de denúncias e gestão comunitária da internet. As organizações participantes também passam a integrar a Rede de Monitoramento Territorial Independente (Rede MTI), fortalecendo a articulação entre comunidades que atuam na proteção de seus territórios na Amazônia.

*O texto foi originalmente publicado pela Sapopema

Mulheres de Roraima recebem capacitação para produção de cajuína

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Foto: Taíse Pereira

Com foco no fortalecimento da agroindústria e no aproveitamento integral do caju, a Embrapa Roraima realizou no final de fevereiro o Curso de Produção de Cajuína. A capacitação ocorreu no Laboratório de Pós-colheita da Unidade e reuniu agricultoras familiares e indígenas dos municípios de Bonfim e Normandia.

O treinamento foi uma realização da Embrapa Roraima e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), por meio do programa Quintais Produtivos, via Termo de Execução Descentralizada (TED) do MDA. A iniciativa integra as ações de desenvolvimento da cajucultura no estado, viabilizadas por emenda parlamentar da deputada federal Helena Lima (MDB/RR), e contou com o apoio estratégico do Sebrae, Senai, Di Fruta’s e Bebidas Monte Roraima.

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Muito além do caju: ciência e prática no campo

O curso foi ministrado pelos pesquisadores Ingrid Moraes e Gustavo Saavedra, da Embrapa Agroindústria Tropical (CE), em parceria com as pesquisadoras Caroline Coelho e Mariana Fensterseifer, da Embrapa Roraima. A programação integrou teoria e prática, abordando desde o preparo da matéria-prima e todas as etapas de produção da cajuína, incluindo extração, clarificação, padronização, rotulagem e controle de qualidade, conforme as exigências do mercado.

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Treinamento foi ministrado por pesquisadores da Embrapa. Foto: Taíse Pereira
Treinamento foi ministrado por pesquisadores da Embrapa e integrou teoria e prática das etapas de produção da cajuína. Foto: Taíse Pereira

Para o pesquisador Gustavo Saavedra, o potencial de Roraima é estratégico, pois o pedúnculo do caju possui grande potencial de aproveitamento e pode ser utilizado na produção de polpa, suco clarificado, cajuína e doces, agregando valor à cadeia produtiva: 

“Quando trabalhamos o aproveitamento integral do fruto, ampliamos as possibilidades de geração de renda e fortalecemos as comunidades produtoras. Esse avanço é resultado de décadas de pesquisa sobre o caju, com estudos iniciados ainda nas décadas de 1950 e 1970. A parceria entre as Unidades é fundamental para garantir a transferência desse conhecimento e das tecnologias já consolidadas, permitindo que essas soluções científicas sejam aplicadas de forma prática nas comunidades locais”, afirmou Gustavo.

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Curso de produção de cajuína reuniu agricultores e indígenas de Roraima. Foto: Divulgação/Embrapa
Curso de produção de cajuína reuniu agricultores e indígenas de Roraima. Foto: Divulgação/Embrapa

Fortalecimento da Agricultura Familiar

Entre o público-alvo, destacaram-se as mulheres da Associação das Mulheres Rurais de Normandia (ASMURN) e da Associação Reviver, de moradores indígenas da sede de Bonfim. Ambos os grupos já recebem orientações técnicas da Embrapa e veem no processamento do caju uma oportunidade de independência econômica.

Lucineia Sagica, presidente da Associação Reviver, destacou o impacto da capacitação para a comunidade.

“Aproveitamos o caju nativo, mas antes parte da produção se perdia, porque fazíamos apenas doce e o ‘mocororó’, bebida tradicional fermentada à base de suco de caju, comum nas comunidades indígenas. Com o curso, aprendemos como produzir cajuína com qualidade. Isso vai transformar a rotina da associação e valorizar o trabalho das mulheres indígenas”, afirmou.

*Com informações da Embrapa

Brasil tem potencial para reduzir 28% das emissões de metano até 2035, mostra artigo

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Foto: Breno Lobato

O Imaflora publicou um artigo nesta semana que revela o potencial do Brasil para reduzir até 28% das emissões de metano (CH₄) no setor agropecuário brasileiro até 2035 em comparação com o ano de 2020. O metano é o principal gás de efeito estufa emitido pelo setor e correspondeu a 20,3% das emissões nacionais em 2024. 

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Com o título ‘Solutions for methane mitigation in Brazilian agriculture: achieving a 28% reduction by 2035‘, o artigo foi elaborado considerando as atividades de produção da pecuária e agricultura, abordando propostas de soluções de mitigação possíveis de serem adotadas pelo setor e que já ocorrem.

Para a pecuária, foi proposta a melhoria da dieta, da genética e da manipulação da fermentação ruminal de bovinos de corte e leite, além do abate precoce e do aumento e melhoria do manejo alimentar de bovinos de corte.

O tratamento de dejetos da produção de suínos, de vacas leiteiras e de corte também é uma solução sugerida pelos especialistas. Já para a agricultura, foi proposto o melhor manejo do solo e da irrigação do cultivo do arroz e a eliminação na queima dos resíduos agrícolas, especialmente da cana-de-açúcar.

agricultura familiar amazonas brasil
Agricultura familiar brasileira. Foto: Mauro Neto/Secom AM

Para todas as soluções abordadas foram estabelecidas metas de adoção até o ano de 2035, de modo que contribuam com o aumento da produtividade e produção, além da redução das emissões pelo setor.

“As propostas e resultados do artigo indicam o potencial que agropecuária brasileira possui de reduzir suas emissões de metano (CH₄) em diferentes atividades produtivas. Reduzir as emissões é uma oportunidade que o setor tem de aumentar a eficiência e produtividade, visto que várias das soluções apresentam esses benefícios ao mesmo tempo”, explica Gabriel Quintana, analista de Ciência do Clima no Imaflora e um dos autores do artigo. 

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Soluções para o Brasil

As soluções propostas pela publicação favorecem também o cumprimento das metas nacionais para a redução de gases de efeito estufa, definidas pela atual Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira.

“As soluções sugeridas pelo artigo já existem e parte delas já são abordadas pelo Plano ABC+ para promover uma agropecuária de baixas emissões. Muitas delas já são inclusive aplicadas em campo, devendo ser destacadas e monitoradas para permitir a melhor representatividade do setor. A grande oportunidade é a inclusão de outras estratégias que são viáveis, conciliando com uma melhor produtividade e maior produção”, afirma Gabriel. 

O artigo foi publicado pela Frontiers in Sustainable Food Systems, uma revista multidisciplinar de pesquisa básica e aplicada que explora soluções sustentáveis ​​para o desafio da segurança alimentar global. Esse estudo faz parte de um trabalho integrado do Imaflora para fomentar soluções de redução de emissões de gases de efeito estufa no setor agropecuário.

Para ler na íntegra, acesse este link.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imaflora