Na oficina agitada do Curral Lindolfo Monteverde, entre tecidos, penas e estruturas coloridas, uma figura se destaca pelo olhar atento e pelas mãos que transformam ideias em arte: Alessandro Oliveira, figurinista do Boi da Baixa do São José, em Parintins. Aos 32 anos, ele é responsável por criar as indumentárias de quatro importantes itens da apresentação vermelha: a Cunhã-Poranga (Isabelle Nogueira), a Rainha do Folclore (Lívia Christina), o Pajé (Adriano Paketá) e o Apresentador (Israel Paulain).
Com um sorriso tímido, mas um orgulho evidente, Alessandro compartilha que sua história no Festival de Parintins começou cedo.
“Trabalho no festival desde os 16 anos. No Garantido mesmo, entrei em 2017, na transição para 2018. Desde então, venho trilhando esse caminho com muito respeito à cultura e à tradição do boi”, contou.
O trabalho de Alessandro vai muito além de costurar figurinos: ele realiza verdadeiras transformações. “A parte mais difícil do meu trabalho são essas mudanças. Cada figurino precisa se transformar na arena, contar uma história viva diante do público”, explicou. Ele especifica que essas transformações exigem criatividade, técnica e, principalmente, muito planejamento e articulação com os demais artistas e setores do bumbá.
Lidar com prazos apertados, alinhar equipes e garantir que tudo funcione no ritmo intenso do festival faz parte da rotina dentro do Lar do Garantido.
“Graças a Deus, consigo administrar bem a minha equipe e ainda manter um diálogo constante com a direção do boi. Tudo flui porque todos aqui compartilham o mesmo objetivo: emocionar o público”, falou Alessandro.
Entre os muitos momentos marcantes de sua trajetória, um em especial permanece vivo em sua memória: a primeira vez que assinou um figurino principal. “Foi em 2018, na segunda noite do festival. O item era o Pajé, representado à época pelo André Nascimento. O figurino era inspirado em cobras. Ver aquilo ganhando vida na arena foi emocionante demais”, relembrou, com brilho nos olhos.
Ao longo dos anos, Alessandro testemunhou a evolução do Festival de Parintins. Para ele, a principal mudança está na visibilidade que o evento conquistou. “A cada edição, o festival cresce. Este ano, então, a atenção do Brasil inteiro parece estar voltada para Parintins. É uma alegria ver nossa cultura amazônica ganhando reconhecimento nacional”, afirmou.
A equipe de Alessandro enfrenta uma verdadeira maratona antes do Festival de Parintins. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
Quando questionado sobre o que sente ao vestir o Boi Garantido com sua arte, Alessandro não hesita:
“Gratidão. Porque o Festival de Parintins é uma vitrine gigante. A gente trabalha duro o ano inteiro, e quando chega o festival, é como ver nossa alma dançando na arena”, diz.
No mundo encantado dos bumbás, onde tudo se transforma em magia e tradição, Alessandro Oliveira é um dos artistas que dão vida ao espetáculo. Seus figurinos não apenas vestem personagens: eles contam histórias, emocionam e reforçam a grandiosidade de um festival que emociona a Amazônia.
No coração do Curral Zeca Xibelão, onde os tambores não param e os ensaios ganham ritmo acelerado na contagem regressiva para o Festival Folclórico de Parintins, no fim do mês de junho, um outro tipo de agitação toma conta de um dos espaços mais visitados do reduto azul e branco: a loja oficial do Boi Caprichoso. A loja se tornou ponto de encontro para quem busca levar consigo uma lembrança da magia do boi preto.
À frente desse espaço que une arte, identidade cultural e economia criativa está Amaury Vasconcelos. Compositor apaixonado pelo Caprichoso e gestor dedicado, Amaury assumiu há seis anos a missão de conduzir a operação das lojas oficiais do boi, tanto em Parintins quanto na capital amazonense, Manaus.
“Faço parte da gestão do Boi nessa área comercial. Sou responsável pelas lojas oficiais, que têm como objetivo levar ao cliente final um pedacinho da arte parintinense, seja no artesanato ou na criação de uma camisa feita por nossos designers e pintada pelos artistas da terra”, explica.
Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
A loja oficial é mais do que um ponto de venda, é uma vitrine viva da criatividade local. Cada peça, seja uma camiseta estampada, um colar artesanal ou uma toalha bordada, carrega consigo a essência do Caprichoso e o talento dos artistas que dão vida às alegorias, aos figurinos e à musicalidade do festival.
Segundo Amaury, esse é o diferencial que encanta visitantes de todo o Brasil e do mundo. “É gratificante receber essas pessoas. A gente consegue compartilhar um pouco do nosso conhecimento sobre o Bumbá com quem vem encantado conhecer a nossa cultura”, diz.
Mesmo diante dos desafios logísticos impostos pela geografia amazônica, Amaury mantém a qualidade como prioridade. “Muita coisa vem de fora – São Paulo, Rio Grande do Norte, Santa Catarina -, passa por Manaus até chegar aqui. A logística é complicada, mas a gente dá um jeito porque o padrão Caprichoso exige excelência”, afirma.
Além de ser um elo entre os artistas e o público, Amaury vê na loja uma extensão de sua paixão pelo Boi. “O Caprichoso me inspira todos os dias. Como compositor, ele me inspira musicalmente. E na loja, ele me inspira a buscar sempre o novo, produtos diferentes, tecnologias novas. É essa inspiração que nos move a manter o padrão Caprichoso de qualidade”, resumiu com orgulho.
Quando perguntado sobre como definiria, em uma palavra, o amor que sente pelo Boi Caprichoso, a resposta vem rápida e certeira:
Por Julio Sampaio de Andrade – juliosampaio@consultoriaresultado.com.br
Há quanto tempo não fazem a você esta pergunta? Provavelmente, fizeram várias vezes, como fizeram a mim, quando era criança. As respostas mais comuns para as crianças da minha época costumavam ser: médico, engenheiro, advogado, jogador de futebol… sempre se referindo a profissão que elas pretendiam seguir. Ou seja, o que elas iriam Fazer e não Ser. A pergunta mais correta então seria: o que você quer fazer quando crescer? Ser e Fazer não são a mesma coisa, não é mesmo?
Sobre o que você ainda quer ser, ou se tornar, o que você responderia hoje?
Como adultos somos capazes de diferenciar verbos como Ter, Fazer e Ser, mas há situações em que eles se confundem. Na base da pirâmide de Maslow, está a satisfação das necessidades básicas, diretamente relacionadas ao Ter. A sociedade de consumo, com todas as suas virtudes e defeitos, nos mantém por muito tempo na esfera do Ter, muito além das necessidades básicas. Incorporamos desejos que não são originariamente nossos e os transformamos em necessidades. Somos estimulados a crer que o nosso mérito está relacionado a termos coisas, que viram símbolos de conquistas, de competência e até de valor. Nesta faixa, valemos o que temos. Há pessoas que se situarão aí até o fim de suas vidas. É um tipo de crença que não permite liberar o nosso maior potencial e está fortemente relacionada ao apego, seja a pessoas, a objetos, ao dinheiro ou ao poder. No nível do Ter, a felicidade pode ser muito frágil.
Já a dimensão do Fazer, nos traz um outro tipo de gratificação. Aqui, o importante é a construção. É a energia própria dos empreendedores e muitos tipos de realizações são geradas a partir destas pessoas. Idealistas costumam ser capazes de grandes esforços em nome de algo em que acreditam. Artistas podem almejar a criação e a manifestação de seus sentimentos acima de qualquer outra coisa. Na esfera do Fazer também podemos encontrar a ilusão do movimento, um outro tipo de crença, a do estar sempre fazendo algo, ocupando o tempo com alguma coisa, mesmo que, ao final, não seja o que nos fará feliz.
É na esfera do Ser que se encontram as nossas maiores possibilidades de construir a felicidade. Aqui vale o antigo conselho de Sócrates: “Conheça-te a ti mesmo”, um importante passo para responder à pergunta: “o que você quer ser?”. Ou seja, qual é o ponto A em que você se encontra hoje e qual é o ponto B desejado? Processos de coaching frequentemente fazem uso desta lógica. A jornada do autoconhecimento, quando aprofundada, nos permite intuir a nossa missão, seja de vida, de um papel que exercemos ou de uma atividade a realizar. Nos possibilita também desenvolver um propósito, algo que nos move interiormente e a deixar um legado, fruto do que construímos ao longo do caminho.
Quando refletimos sobre o que queremos ser, somos estimulados a ser melhores pessoas, mesmo que não sejamos más pessoas. Sempre há o que evoluir. Podemos ainda ser mais gratos, mais altruístas, mais resilientes, mais desapegados e, no conjunto, mais felizes.
Pessoalmente, a esta altura da vida, tenho ainda muito a me tornar. Espero ainda ter tempo para crescer no Ser, muito além do que poderia Fazer ou Ter.
E você? O que deseja ainda se tornar? O que você deseja Ser e ainda não é?
Sobre o autor
Julio Sampaio (PCC,ICF) é idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute, diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching e autor do livro Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital). Texto publicado no Portal Amazônia e no https://mcinstitute.com.br/blog/.
O Bumbódromo também funciona como centro cultural. Foto: Clarissa Bacellar/Portal Amazônia
O Centro Cultural de Parintins, mais conhecido como Bumbódromo, não é apenas a casa que recebe o embate anual entre Caprichoso e Garantido, mas também a casa em que muitos artistas se formam. Isso porque o Centro abriga o Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, a primeira unidade mantida pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, fora da capital Manaus.
O Bumbódromo também funciona como centro cultural. Foto: Secom/AM
Segundo o turismólogo do Liceu, Jair Almeida, em pouco mais de uma década, o local já transformou a realidade dos parintinenses. Entenda como funciona:
Esta em Parintins para o Festival Folclórico e quer conhecer outros pontos da cidade, mas não sabe por onde começar? A Estação do Turismo tem uma forma de ajudar: com o Passaporte Parintins, uma ação do Governo do Amazonas, por meio da Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur).
Todos os anos, o Festival Folclórico de Parintins celebra a rica herança cultural da Amazônia. Em 2025, na 58ª edição da festa, o boi-bumbá Caprichoso leva para a arena a participação ativa de representantes dos povos originários, que reforçam a autenticidade das narrativas apresentadas e valorizam a ancestralidade da cultura amazônica, sob o tema ‘É tempo de retomada’.
Veja quais lendas, mitos, figuras e rituais foram apresentadas ao público nesta edição:
1ª noite – 27 de junho: Amyipaguana, retomada pelas lutas
Lenda amazônica – Yurupari: da demonização à retomada indígena
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
Na primeira noite do Festival Folclórico de Parintins 2025, o Boi Caprichoso leva para a arena do Bumbódromo um território de afirmação indígena e espiritual com o tema central ‘Yurupari: Da Demonização à Retomada Indígena’.
Yurupari deriva do nheengatu yuru (boca) e pari (armadilha para peixe) e foi historicamente distorcido pelos missionários cristãos, que o demonizaram como forma de enfraquecer a religiosidade indígena e forçar a conversão ao cristianismo. No entanto, longe da figura demoníaca atribuída por interpretações coloniais, Yurupari é, para os povos Dessana, Baniwa, Tariana e Tukano, uma entidade sagrada ligada aos ciclos da natureza e da vida coletiva.
O Caprichoso propõe a ‘desdemonização’ do personagem, devolvendo-o ao seu papel espiritual e simbólico original. Ao som das toadas e com a força das alegorias, o boi denuncia o processo de apagamento histórico promovido pelo ‘livro preto’, a Bíblia nas mãos de seus intérpretes colonizadores, e celebrou Yurupari como expressão legítima indígena.
A luz e a sombra são imanentes à vida, partilham do mesmo corpo, da mesma energia, nem bem, nem mal, posto que não se anulam ou rivalizam, como quer a religião dos não-indígenas. Sob as bênçãos do kumu Rogério Marinho Tukano, o Legislador será revelado ao mundo em sua faceta ancestral.
Figura Típica Regional: Majés, As Senhoras Da Cura
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
A figura típica regional da noite traz ao centro do espetáculo as Majés, mulheres indígenas que carregam e compartilham saberes milenares de cura.
Parteiras, benzedeiras, erveiras e conselheiras, essas mulheres são as guardiãs do ventre do mundo, o corpo sagrado da Terra, e com suas mãos, elas mantêm vivas as tradições que curam o corpo e o espírito.
Ritual Indígena – Ritual Tupinambá, a retomada da verdade originária
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
Encerrando a apresentação, o Caprichoso resgata um dos rituais mais mal compreendidos da história indígena, o rito de antropofagia Tupinambá.
Supostamente, no rito de antropofagia Tupinambá, este povo devorava os guerreiros considerados virtuosos, corajosos, dignos, com o intuito de absorver suas virtudes. O cativo era humilhado, amarrado pela cintura e, após isso, morto e cozido para ser consumido e ter suas virtudes assimiladas, por meio do corpo do prisioneiro de guerra, as qualidades dos considerados ‘grandes guerreiros’ passariam a ser parte dos Tupinambá que fizessem parte deste ritual antropofágico.
A verdade originária para os Tupinambá, é de que o Manto sustenta este povo e fala por intermédio de seus ‘parentes’. Esse manto era usado apenas pelos pajés, quando precisavam se comunicar com a ancestralidade, e na arena, o Caprichoso ecoa o clamor por justiça e reparação, reforçando a luta pela restituição dos bens sagrados dos povos originários.
2ª noite – 28 de junho: Kizomba, retomada pela tradição
Figura típica regional: Marandoeiros e marandoeiras da Amazônia
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
Marandoeiros significa contadores de histórias da Amazônia. Contar essas histórias se configura como um dos hábitos mais prazerosos do cotidiano de quem vive nos interiores da Amazônia, já que nas noites enluaradas, os mais jovens se reúnem para ouvir os mais velhos que, por meio das suas falas, revivem ‘causos’ de encantamentos e encantes, fatos históricos marcantes como grandes cheias ou severas estiagens.
O Boi de Parintins homenageia os contadores/as de história como Tia Dora, Seo Dray, o pedreiro, Adolfo Lourindo, Julita Cid, Mestre Waldir Viana, Marujo Marina, dona Siloca, Coracy, dentre tantos e tantas relicários da contação ancestral, em forma de versos, de história ou por meio do tambor.
Lenda Amazônica: Sacaca Merandolino, o encantado de Arapiuns
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
Na segunda noite de espetáculo, a Lenda Amazônica a ser apresentada emerge do reconhecimento da importância da memória de um povo, como ato de resistência.
Contam os antigos que quando Merandolino inalava o seu fumegante tauari e mergulhava nas águas do Arapiuns, os peixes de todas as espécies o ladeavam e assistiam seu engeramento numa imensa serpente que deslizava nas profundezas das águas entre botos, arraias e poraquês, para boiar em outras comunidades para fazer uso do seu dom de curar.
Merandolino tornou-se encantado, recebendo a missão de ser o eterno guardião das águas escuras do rio Arapiuns, um rio de águas e direitos. E hoje, quando alguém tenta profanar suas sagradas águas, logo surge uma luz azul anunciando que ele está vindo.
Ritual Indígena: Musudi Munduruku, a retomada dos espíritos
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
O povo indígena Munduruku ficou historicamente conhecido pela sua tradição guerreira que se estendeu por todo o Vale do Rio Tapajós, na chamada “Mundurukânia”. Donos de uma rica cosmogonia, os Wuy Jugu acreditam em espíritos de seres que habitam o ar, a água, o mundo subterrâneo e que permanecem vivos mesmo após a morte física.
O Boi Caprichoso escolheu trabalhar a retomada dos espíritos Munduruku, como forma de resistência da vida na floresta. Por não estar dentro do território politicamente demarcado pelo estado brasileiro, o local de descanso dos guerreiros Munduruku foi corrompido descaradamente, com a construção da hidrelétrica Teles Pires.
3ª Noite – 29 de junho: Kaá-eté – Retomada pela vida
Lenda Amazônica: Waurãga e os Wauã-kãkãnemas
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
Waurãga é uma entidade sagrada da floresta amazônica, reverenciada como a “mãe de todas as mães da mata”. Segundo o mito contado por anciãs do povo Maraguá, ela surge em defesa da floresta sempre que o território é ameaçado por ações predatórias, como garimpo e desmatamento. Waurãga sente o cheiro da destruição e responde com fúria, convocando os Wauã-Kãkãnemas, espíritos encantados da mata que se manifestam por meio dos animais, para lutar pela justiça.
Esse mito será levado à arena pelo Boi Caprichoso por sua conexão com os povos indígenas da Amazônia e pelo simbolismo da luta pela preservação. A história de Waurãga representa a resistência da floresta viva e dos saberes ancestrais, diante da ganância e destruição provocadas pelos homens, já que sempre que houver ameaça, ela se levanta, com sua força espiritual para proteger a Amazônia.
Figura típica regional – O seringueiro da Amazônia
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
O seringueiro é uma figura essencial na história da Amazônia, especialmente quando se fala em resistência e convivência harmônica com a floresta. Representado por nomes como Chico Mendes, ele é visto como um herói das matas, por ter lutado pela preservação ambiental e pelos direitos dos povos da floresta.
O Caprichoso resgata essa memória reforçando a importância dos seringueiros como parte fundamental da construção da identidade amazônica.
Esses trabalhadores, muitos deles vindos do Nordeste, misturaram-se aos povos originários, e viviam do extrativismo do látex, em condições muitas vezes semelhantes à escravidão. Dorothy Stang, Zé Cláudio e outros também fazem parte dessa resistência, mantendo viva a semente plantada por Chico Mendes.
Ritual indígena – Ritual de cura Yawanawá
Imagem: Reprodução/Revista Caprichoso 2025
O ritual de cura Yawanawá é uma prática espiritual conduzida pelos pajés (Rumeya) desse povo indígena que vive às margens do Rio Gregório, no Acre. O processo começa quando o pajé, avisado em sonhos sobre a enfermidade de alguém, inicia uma cerimônia chamada mariri, reunindo a comunidade em círculo para fortalecer a cura, e durante o ritual, elementos da floresta como kambô (veneno da rã), rapé, ayahuasca e tabaco são usados em comunhão com seres espirituais.
O momento mais sagrado acontece quando o pajé entra em transe e realiza o Shuanka, retirando o mal do corpo do doente. Esse conhecimento ancestral é passado oralmente e representa a “medicina da floresta”, que vai além do físico, tocando o espiritual.
O Caprichoso encena esse ritual para valorizar os saberes indígenas e reafirmar a importância da preservação cultural e espiritual dos povos originários da Amazônia.
As famosas filas para entrar no Bumbódromo. Foto: Diego Oliveira/Portal Amazônia
O calor da Amazônia, o som das toadas no volume máximo e o espírito do Festival Folclórico de Parintins no ar. Se você encontrar centenas de pessoas em filas vivendo isso, deixe elas lá, pois é onde elas querem estar. Pode até parecer absurdo ou meme, mas essa é a realidade das filas para as Galeras dos bois Caprichoso e Garantido no bumbódromo.
Antes, até mesmo acampamentos por vários dias aconteciam, para garantir o primeiro lugar na fila, mas após decisão do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) este ano, as filas foram desfeitas e só liberadas às 10h do primeiro dia do evento. Ainda assim, a espera, para muitos, é sinônimo de paixão, resistência e entrega total à tradição que move a ilha Tupinambarana.
Além do tradicional Festival Folclórico de Parintins, que ocorre no último fim de semana de junho, a cidade se transforma num intenso polo cultural com eventos diversos. Em 2024 e 2025, algumas iniciativas ganharam destaque e tem contribuído para espalhar a cultura parintinense: Panavueiro Fest, Festa dos Visitantes e Estação da cultura. Cada um deles atrai públicos variados, reforçando o ambiente festivo da Ilha Tupinambarana.
Esses três eventos paralelos ao Festival Folclórico de Parintins complementam a programação oficial, atraindo públicos que vão além dos torcedores dos bois Caprichoso e Garantido. Os festivais ocupam diferentes espaços como rua, resort, clube, praça e até o próprio Bumbódromo.
Esses eventos também movimentam alojamentos, transporte, alimentação, artesanato e serviços, incentivando a geração de renda e impulsionando a economia local. A diversidade estimula turistas a prolongarem a estadia, mesclando tradição, cultura gastronômica e música local.
Por Osíris M. Araújo da Silva – osirisasilva@gmail.com
“Não entra na minha cabeça o discurso de que não se deve pavimentar por não haver como controlar movimentos relacionados à grilagem e invasões de terras. Como o governo federal não consegue monitorar uma rodovia na Amazônia?”. Este o tom expresso pelo governador amazonense, Wilson Lima, em entrevista ao jornal O Globo na última terça-feira, 24, ao questionar o presidente Lula da Silva sobre a conclusão das obras de recuperação da rodovia BR-319, único meio terrestre de ligação dos estados de Roraima e Amazonas ao resto do Brasil.
“Não dá para querer construir uma imagem de protetor da floresta deixando a população de Manaus de joelhos. O que tem sido feito é uma covardia com o povo”, afirmou, cobrando incisivamente posicionamento claro e conclusivo do chefe da nação sobre as obras, emperradas por supostas e inexplicáveis dificuldades de aprovação das licenças ambientais pelo Ibama. Ora, mas a rodovia já existe desde sua inauguração, em 1976, e operou satisfatoriamente até 1988 quando, por falta de manutenção, sucumbiu ao tempo.
Reportagem de A Crítica na edição de quarta-feira, 25, relata uma série de contradições a respeito das obras. O aspecto mais grave revela uma só verdade: a obra não avança por injunção da ministra Marina da Silva, do Meio Ambiente, e omissão do presidente Lula da Silva. Estaria a Manaus-Porto Velho mais exposta a danos ambientais do que a transposição do rio S. Francisco, no Nordeste, a rede de hidrelétricas que cobrem todo o território nacional ou as obras de infraestrutura executadas no país desde o Império? Com certeza, a depender do Ibama, o Brasil ainda estaria no ciclo da cana-de-açúcar. “Governar é abrir estradas”!, lema do ex-presidente da República, Washington Luís (1926-1930), ao expressar a ideia de que o desenvolvimento de um país encontra-se intrinsecamente ligado aos transportes, comunicação, educação e cultura, saneamento básico, saúde pública, pesquisa e desenvolvimento. Efetivamente, nenhum país do mundo conseguiu, ao longo da história, se desenvolver sem o atendimento dessas pré-condições. Desenvolvimento, em síntese, é função d qualidade da infraestrutura social, política e econômica de uma nação.
A argumentação de alguns pretensos ambientalistas de que “a pavimentação da BR-319 atravessaria uma das regiões mais biodiversas do planeta, ampliando o desmatamento, a grilagem e a invasão de territórios indígenas, o que traria impactos diretos no clima e riscos à saúde pública global, devido à possibilidade de liberação de patógenos desconhecidos” não procede. Há na verdade uma balbúrdia desenfreada (supostamente proposital por ação de ONGs) quanto ao Plano Básico Ambiental (PBA), condicionante à obtenção da Licença de Instalação (LI) da obra. A vítima é o DNIT, o bode expiatório, que não teria até hoje providenciado a LI. A BR 319, saliente-se, é protegida por uma verdadeira “barreira verde” instituída pelos governos federal e estaduais (Amazonas e Rondônia) via Unidades de Conservação (UCs) situadas ao longo da extensão de 875 km da rodovia.
Normas do MMA determinam como objetivos das UCs assegurar garantias segundo os princípios de ordenamento territorial e conservação ambiental em relação aos municípios do Sul do Amazonas e de Porto Velho, Rondônia. No total, 28 unidades, sendo 11 federais, 9 do Amazonas e 8 de Rondônia tem por função assegurar eficazmente a proteção do bioma em toda sua extensão. Vale salientar que apenas o estado do Amazonas, conforme dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti), possui 54,73% de áreas protegidas de seu território distribuídas entre União, Estado e Terra Indígena. O que então falta para afastar poderosas resistências contrárias à 319? Informações estratégicas fora do alcance de Brasília? Caberia a ela única e exclusivamente a tarefa de dedicar-se, com bravia indômita, à defesa do meio ambiente brasileiro?
Sobre o autor
Osíris M. Araújo da Silva é economista, escritor, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e da Associação Comercial do Amazonas (ACA).
O 58º Festival Folclórico de Parintins chega no fim de junho e, durante os dias 27, 28 e 29, os bois Caprichoso e Garantido apresentam a cultura amazônica para mundo direto do Bumbódromo, a arena da disputa dos bumbás na cidade amazonense. No final dos três dias de apresentações, os jurados lançam suas notas aos 21 itens e escolhem o boi campeão.
Dos 21 itens, nove são individuais e a rivalidade entre eles acende as torcidas. Saiba quem são:
Item 1 – Apresentador
A pontuação do apresentador é definida pelo domínio de arena e de público, fluência verbal, carisma, impostação sem interferência ou intervenção que dificulte a audição ou compreensão do espetáculo de voz, dicção, alegria, atenção constante no desenvolvimento do tema levado pela agremiação.
Caprichoso: Edmundo Oran tem 30 anos e desde 2017 defende o item 1 do Boi Caprichoso
Garantido: Israel Paulain tem 42 anos e desde 2002 é apresentador do Garantido, substituindo o saudoso Paulinho Faria
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 2 – Levantador de toadas
A pontuação do item 2 dos dois bois é definida pela interpretação, afinação, dicção, timbre e técnica de canto, além da avaliação da variedade de decisões interpretativas.
Caprichoso: Patrick Araújo tem 25 anos e desde 2021 defende este item pelo Caprichoso
Garantido: David Assayag tem 57 anos e mais de trinta anos de carreira. Com passagem pelos dois bois no mesmo item, David está no Garantido desde a sua volta em 2021
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 5 – Porta-estandarte
É avaliada pela dança e performance, indumentária, interação entre o Item e o estandarte, habilidade e consciência dos movimentos durante apresentação. Além disso a porta-estandarte deve ter domínio corporal, percepção e domínio do espaço cênico.
Caprichoso: Marcela Marialva tem 32 anos e desde 2027 é Porta-Estandarte do Caprichoso como item oficial
Garantido: Jeveny Mendonça tem 23 anos e defende o item 5 do Garantido pela primeira vez este ano como item oficial
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 6 – Amo do Boi
É o versador do Boi e representa o dono da fazenda. É avaliado pelo timbre, afinação, fluência na dicção, e sua capacidade de improvisar melodias, versos e qualidade poética.
Caprichoso: Caetano Medeiros tem 33 anos e é amo do Caprichoso pela primeira vez este ano
Garantido: João Paulo Faria tem 35 anos e desde 2020 defende o item 6 do Garantido
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 7 – Sinhazinha da Fazenda
Representa a filha do dono da fazenda, além de possuir uma beleza angelical. Seus pontos são avaliados pela leveza, graça, desenvoltura, simplicidade e alegria na apresentação
Caprichoso: Valentina Cid possui 25 anos e defende o item 7 do Caprichoso desde 2017
Garantido: Valentina Coimbra tem 24 anos e é sinhazinha do Garantido desde 2020
Foto: Reprodução/Site oficial Caprichoso
Item 8 – Rainha do Folclore
Representa as tradições, as lendas, histórias e costumes da região amazônica vinda dos povos originários. Seus pontos são avaliados pela dança, performance e indumentária, composição da personagem, habilidade e consciência dos movimentos durante apresentação, além de necessitar de domínio corporal, percepção e domínio do espaço cênico.
Caprichoso: Cleise Simas possui 28 anos e é Rainha do Folclore do Caprichoso desde 2028
Garantido: Lívia Christina tem 25 anos e desde 2023 é o item 8 do Garantido
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 9 – Cunhã-poranga
A Cunhã-poranga é a “moça bonita” da aldeia. A guardiã de seu povo. Expressa força através da beleza e é avaliada pelos mesmo critérios da Rainha do Folclórico.
Caprichoso: Marciele Albuquerque tem 31 anos e é item 9 do Caprichoso desde 2017
Garantido: Isabelle Nogueira tem 32 anos e está desde 2018 no Garantido
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 10 – Boi Bumbá evolução (Tripa do Boi)
Símbolo da manifestação popular, motivo e razão de ser do festival, o tripa do boi é avaliado pela coreografia e movimentos da figura de um boi real durante a apresentação no bumbódromo.
Caprichoso: Alexandre Simas Azevedo tem 33 anos e desde 2016 é item oficial do Caprichoso
Garantido: Denildo Piçanã tem 56 anos e já defende o item 10 do Garantido desde 1995
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido
Item 12 – Pajé
É avaliado pela composição e interpretação cênica, habilidade e consciência corporal, variação do repertório de movimentos e domínio do espaço cênico, além da composição da personagem, performance cênico/dramática, performance corpo/coreográfica, adequação da personagem à temática e caracterização.
Caprichoso: Erick Beltrão tem 35 anos e desde 2020 é o item 12 do Caprichoso
Garantido: Adriano Paketá tem 39 anos e desde 2019 é o Pajé do Garantido
Foto: Reprodução/Site oficial CaprichosoFoto: Reprodução/Site oficial Garantido