O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai investir R$ 500 milhões no desenvolvimento de tecnologias e atividades econômicas inovadoras e sustentáveis na Amazônia Legal. Os recursos serão destinados pelo Pró-Amazônia, programa criado pelo Conselho do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para articular iniciativas locais e gerar conhecimento sobre a sociobiodiversidade amazônica.
A gestão desse processo é da Subsecretaria de Ciência e Tecnologia para a Amazônia (SCTA) do MCTI, criada em 2023 para cuidar de temas amazônicos. Segundo o coordenador geral de Programas e Projetos para Amazônia do MCTI, Eliomar Mota da Cunha, a SCTA é uma ação estratégica da pasta para ampliar sua atuação na Amazônia Legal.
“A criação da subsecretaria neste governo serve como guia e articulador das políticas públicas do governo para a região. Já temos no local órgãos tradicionais, como o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Museu Goeldi e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, mas era importante que o próprio ministério tivesse uma representação mais formal na região”, afirmou Cunha, em visita à 76ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece de 7 a 13 de julho em Belém, no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Este ano, a reunião da SPBC tem como tema ‘Ciência para um futuro sustentável e inclusivo: por um novo contrato social com a natureza’. Para o coordenador, é uma oportunidade para a SCTA estreitar laços com a comunidade científica da Amazônia Legal. “O mundo inteiro está com os olhos voltados para a Amazônia e Belém é a porta de entrada. Realizar a SBPC aqui é algo simbólico e, para nós, da SCTA, é muito importante estar presente em um evento deste porte, pois mostra o tamanho da nossa responsabilidade para com a ciência e a tecnologia aqui na região amazônica”, diz.
Coordenadora geral de Articulação e Fomento da SCTA, Cassia Damiani explica que o principal projeto da pasta para a região é o Pró-Amazônia. “O programa tem quatro linhas da atuação concebidas para articular os projetos de ciência e tecnologia na região”, explica Cassia.
A primeira linha do Pró-Amazônia é voltada para a infraestrutura de pesquisa científica e tecnológica com foco na recuperação e criação de laboratórios e institutos de ciência e tecnologia na Amazônia Legal.
Uma segunda vertente se destina ao apoio a projetos de inovação de empresas nas áreas de bioeconomia, cidades sustentáveis, descarbonização de processos produtivos, transformação digital, restauração florestal e monitoramento ambiental. No valor de R$ 100 milhões, o edital de fomento para essa linha de atuação foi lançado nesta segunda-feira (8) pelo MCTI, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
A terceira linha de fomento do programa da SCTA vai para projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico em rede, com o objetivo de apoiar ou criar centros avançados em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável da região. Por fim, a quarta linha do Pró-Amazônia se destina ao apoio a projetos de cooperação internacional, visando ao desenvolvimento sustentável.
“A primeira linha é uma das que mais dialogam com as necessidades objetivas debatidas na SBPC, que é a de estruturação e apoio à infraestrutura de laboratórios, institutos de ciência e tecnologia e inovação”, afirma Cassia. A coordenadora informa que o programa prevê investimentos de R$ 110 milhões para reestruturação da infraestrutura local, além de R$ 10 milhões para recuperação do herbário do Inpa e outros R$ 20 milhões para recuperação do Museu Goeldi. Dentro dessa proposta, a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, anunciou na segunda-feira (8), o investimento de R$ 20 milhões para a criação do Museu das Amazônias, em Belém.
“O nosso principal objetivo nesse edital da linha 1 é recompor ou criar institutos de ciência e tecnologia e laboratórios nas regiões fora das capitais, no interior dos estados amazônicos”, explica a coordenadora, que também destaca a abertura do edital de chamamento para empresas de bioeconomia, que já está aberto, como parte da segunda linha do Pro-Amazônia. “Queremos dinamizar a potencialidade de inovação e negócios das empresas da região”.
A coordenadora pontua ainda o investimento de R$ 150 milhões para a formação de uma rede de pesquisadores, como parte da terceira linha do Pro-Amazônia. “Isso está muito em sintonia com a proposta da pasta e da SBPC, de articular desenvolvimento, sustentabilidade e inclusão, pois vai proporcionar uma efervescência de pesquisadores em rede, que têm vinculo com projetos na Amazônia legal. É um esforço de fixação desses pesquisadores na região, que evadem por falta de condições objetivas”, diz Cassia.
“Os demais editais estão prontos e serão lançados nos próximos dias. Não são só promessas, eles já se transformaram, inclusive em termos de referência”, conclui a coordenadora da SCTA.
A chamada pública para o edital de subvenção de empresas pode ser acessada AQUI.
A proposta de uma educação anticolonial, vivenciada em diferentes territórios indígenas, é o que busca Duã Busã, professor, pajé e líder da etnia Huni Kuï. O educador vive e trabalha na aldeia Coração da Floresta, no Alto Rio Jordão, divisa do estado do Acre com o Peru. Em suas aulas, ele aplica os princípios do movimento Shubu Hiwea (Escola Viva), que luta para sustentar mundos. Para atravessar a perspectiva formal da escola que prioriza letras e números, a Escola Viva adentra a floresta e usa plantas, rios, sonhos e atividades do cotidiano como instrumentos pedagógicos que acordam memórias ancestrais.
Este pensamento é uma resposta crítica à violência colonial presente no ensino indígena no Brasil, marcado por séculos de imposição da cultura cristã e europeia aos povos indígenas, com a catequização forçada executada por jesuítas e missionários. Devido à catequese, os saberes indígenas foram adormecidos e deixaram de ser praticados. A pedagogia integracionista não respeitava as práticas e conhecimentos ancestrais de diferentes etnias e povos.
Como forma de expandir os saberes compartilhados pelo pajé Duã Busã e fortalecer as culturas indígenas dentro dos territórios, nasceu a iniciativa das Escolas Vivas, coordenada por Cristine Takuá, educadora, artesã, escritora, parteira e pensadora do povo Maxakali que habita há 20 anos a Terra Indígena Ribeirão Silveira, dos Guarani-Mbya, no litoral norte de São Paulo. Ela também é fundadora do Instituto Maracá, entidade voltada para a promoção da cultura, arte e literatura indígena.
O projeto recebe ainda contribuições de outras lideranças indígenas, como Ailton Krenak, e é apoiado pelo Selvagem – ciclo de estudos sobre a vida, espaço que compreende diversos temas a partir da integração de conhecimentos indígenas, científicos e filosóficos.
A mestra indígena é responsável por dialogar com as escolas vivas acompanhadas pelo programa em cinco territórios entre São Paulo, Minas Gerais, Acre e Amazonas: Shubu Hiwea (Escola Viva Huni Kuï), do povo Huni Kuï ; Apne Ixkot Hâmhipak (Aldeia Escola Floresta), do povo Maxakali; Mbya Arandu Porã (Ponto de Cultura), do povo Guarani Mbya; Bahserikowi (Centro de Medicina Indígena), dos povos Tukano, Desana e Tuyuka; e Wanheke Ipanana Wha Walimanai (Escola Viva Baniwa), do povo Baniwa.
“As escolas vivas são formas próprias de transmissão de conhecimentos. Todos os territórios indígenas são espaços de escolas vivas. Debaixo da árvore, na beira do rio, na casa de reza, são lugares onde os saberes e fazeres ancestrais são repassados de geração em geração. A ação das escolas vivas é um processo de tecer redes de afeto e cuidado para acordar essas memórias que foram adormecendo com o passar dos anos”, explica Takuá em entrevista ao Nonada Jornalismo.
Escola Viva Baniwa. Foto: Divulgação/Ciclo Selvagem
Ela foi professora por 12 anos na Escola Estadual Indígena Txeru Ba’e Kuai’, no litoral de São Paulo, território onde vive, e saiu da unidade de ensino por não aceitar o sistema colonial que lá se impõe: “um currículo quadrado e desrespeitoso com a cultura de cada povo”, avalia.
O objetivo das escolas vivas é despertar em crianças, jovens e adultos indígenas a vontade de dar continuidade a transmissão de saberes ancestrais dentro dos territórios, em um processo geracional. São espaços de resistência criativa formadora de outros mestres e mestras dos conhecimentos indígenas.
Além disso, as escolas vivas se preocupam em cuidar dos territórios e conseguir manter as crianças e jovens sonhando e praticando os conhecimentos ancestrais para que as futuras gerações não esqueçam mais. “Não deixem adormecer toda a riqueza dos saberes de saúde dos avós”, completa Takuá.
De acordo com a educadora, é a partir da compreensão de que cada povo tem um modo particular de preparação e proteção de sua gente, desde antes do nascimento até depois da morte, que as escolas vivas operam seus currículos e atividades, em contraponto às escolas formais clássicas.
“As escolas vivas se diferenciam das outras escolas na medida que não priorizam o conhecimento ocidental, mas sim o saber oral dos anciãos, das plantas e dos sonhos. Não temos um currículo definido, mas uma infinidade de trama de possibilidades de transmitir o conhecimento respeitando o dom e principalmente, o tempo de cada pessoa”, explica Cristine.
Culturas contracoloniais
Nascida na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a antropóloga, fotógrafa e pesquisadora indígena Francy Baniwa, do povo Baniwa, pesquisou e escreveu durante seis anos o livro Umbigo do Mundo para documentar as histórias da origem de seu povo.
Sua preocupação como mulher indígena e pesquisadora era fortalecer entre as novas gerações as danças de seu povo e as práticas cotidianas como cuidar da roça e fazer beiju. Essas atividades permearam a infância de Francy, diferente do que ela observa com a infância de sua filha, por exemplo, vivida entre território e cidade.
“A gente tem um grande desafio de fortalecer essa cultura. Eu sou dona de roça com muito orgulho, faço farinha e me orgulho demais em ser dona de roça que nem minha mãe. Além de ser pesquisadora, para mim o meu mundo é muito válido e poder conhecer meu território, poder estar na minha casa, na minha comunidade, como uma mulher Baniwa, não tem preço”, diz.
A obra foi feita em diálogo com seu pai, Francisco Luiz Fontes Baniwa (Matsaape), narrador das histórias orais tradicionais do povo Baniwa, e seu irmão Frank Fontes Baniwa (Hipattairi), autor das 74 aquarelas criadas para o livro. Desse trabalho, surgiu a possibilidade de realizar o sonho coletivo da aldeia Assunção de fortalecer a transmissão de saberes dos mais velhos e aprender com eles, que são os pilares e a fonte de sabedoria da comunidade.
A Wanheke Ipanana Wha Walimanai (Escola Viva Baniwa) foi inaugurada no território do Alto Rio Negro em março deste ano, em uma emocionante celebração que mobilizou toda a comunidade de Assunção. “Foi um momento muito importante porque a comunidade começou a entender que a gente precisa publicar mais livros, que a oralidade precisa ir para a escrita e quem pode fazer isso somos nós professores e alunos indígenas”, relata.
Mulheres reunidas na Escola Viva Baniwa. Foto: Francy Baniwa
A comemoração com danças, cantos e rituais contou com a presença dos 12 conhecedores da Escola Viva Baniwa, todos professores indígenas e mestres da comunidade. O calendário e o planejamento da escola são específicos e decididos entre a aldeia e os conhecedores, para construir um espaço de saberes que pretende valorizar a cultura desse povo entre os mais jovens.
A Escola Viva Baniwa trabalha com eixos temáticos que interseccionam arte e educação, por meio de confecção de cestaria de arumã; confecção de instrumentos musicais, de pesca, de caça e tecelagem em tucum; e uso das artes visuais, do audiovisual e da fotografia.
A liderança Cristine Takuá descreve que o papel da arte e da cultura no eixo de ensino das Escolas Vivas é a extensão do que já acompanha os povos indígenas a cada passo, “seja preparando um remédio, fazendo um parto, preparando uma armadilha, entoando um canto sagrado, tecendo uma rede, preparando uma argila que se transformará numa panela, a arte é o coração da cultura e segue nas escolas vivas sendo praticada e valorizada”.
A musicalidade é outro aspecto abordado pela Escola Viva Baniwa, onde os cantos, danças e performances musicais fazem parte das atividades conduzidas pelos conhecedores Baniwa. As línguas Baniwa e Nheengatu também são centrais na metodologia de ensino.
A expectativa é integrar ao projeto as outras 95 comunidades Baniwa que existem na Terra Indígena Alto Rio Negro e incentivar a nova geração a ocupar espaços de referência na comunidade, como futuras lideranças e sábios. São Gabriel da Cachoeira é o município com maior diversidade indígena do país. São 23 etnias diferentes.
Os Baniwa têm uma relação especial de respeito com a terra. Segundo Francy Baniwa, sua comunidade sempre foi escola viva por manter práticas milenares que remontam aos conhecimentos da natureza e a manutenção da língua materna.
“A gente é escola viva porque a gente fala nossa língua, a gente entende o mundo da roça, o que é ser dona de roça.
A escola viva somos nós dentro dos territórios, a escola viva é você conhecer o seu território e saber que naquela terra firme dá para fazer uma roça. A escola viva é saber que dá para plantar e que vai ter muita fartura, seja de banana ou pimenta. A Escola Viva é saber que naquele rio existem diversos tipos de peixes e dominar esse conhecimento do território”, manifestou a liderança.
Oralidade priorizada
Inauguração da Escola Viva Baniwa. Foto: Francy Baniwa
O papel do ensino da oralidade para as novas gerações constitui um caminho para que os saberes ancestrais sejam “sempre trilhados pelos mais jovens e assim eles seguirão repassando todas essas memórias às futuras gerações”, garante a educadora Cristine Takuá, que reforça o conhecimento dos povos indígenas transmitido de forma oral por meio de cantos, narrativas, diálogos com as plantas e com os animais.
Para a antropóloga Francy Baniwa, o exercício da oralidade e da prática entre pessoas e o seu território configura como escola viva nos afazeres do cotidiano, como acordar pela manhã e se banhar no rio. São escolas vivas as mulheres, crianças e homens indígenas que conhecem o seu próprio mundo. “É esse conhecimento nosso que temos de único, a língua, as narrativas presentes, as regras da floresta e os segredos”.
A Escola Viva Baniwa trabalha para que a consciência da importância da oralidade seja estabelecida entre as novas gerações Baniwa. A intenção de Francy Baniwa é transmitir o entendimento sobre as narrativas Baniwa que falam de cura e do cuidado com a alimentação, para que essa memória não seja esquecida.
“Explicar porque é tão importante ter resguardo, porque o benzimento é tão importante. Se eu não descrever as narrativas e explicar o que elas significam hoje ninguém vai conseguir entender porque que eu não posso comer o peixe cru, que isso me faz mal. A gente entende nosso mundo de um jeito, a gente tem essa diversidade muito rica dentro da comunidade”, detalhou.
Francy acredita que o conhecimento da oralidade de um povo é a chave para que os jovens não fiquem perdidos sobre o que são as narrativas, em um escuta constante com os mais velhos. Seu medo é que os filhos e netos esqueceram de onde vieram. Para isso, fortalece a Escola Viva Baniwa com o ensinamento específico Baniwa.
“Sentar, abrir a mente e deixar entrar e fluir e viajar nas narrativas é você percorrer esse trajeto de universidade que a gente faz. A oralidade precisa estar viva porque se a gente não fortalecer hoje, daqui uns 20 anos os nossos filhos e netos não vão saber de onde vieram e porque vieram”.
Produção de conhecimento e ciência ancestral
Em Manaus, no Amazonas, o Bahserikowi (Centro de Medicina Indígena) é outro projeto contemplado pela iniciativa das Escolas Vivas. O centro disponibiliza tratamentos tradicionais de cura e proteção guiados por pajés das etnias Desana, Tuyuka e Tukano.
São os Kumuã — anciãos indígenas conhecedores da medicina da floresta — os especialistas que dominam as práticas milenares de cuidado da saúde na medicina dos povos indígenas do Alto Rio Negro, como o Bahsese (“benzimento”, na língua Tukano) para tratar doenças ao invocar substâncias curativas dos vegetais, minerais e animais, e o Wetidarese (proteção) para afastar agressões pessoais.
As plantas medicinais também são usadas para curar diversos tipos de doenças no espaço idealizado pelo antropólogo indígena da etnia Tukano João Paulo Lima Barreto. O Bahserikowi é resultado da luta pelo respeito às medicinas tradicionais indígenas. No mundo ocidental, essas práticas ainda são vistas apenas como espirituais, e por isso não fazem parte das Práticas Integrativas e Complementares (PICS), regulamentadas e oferecidas gratuitamente à população pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O Bahserikowi – Centro de Medicina Indígena está localizado no Centro Histórico de Manaus. Foto: Pedro Tukano
Ivan Tukano, cofundador e coordenador do centro, afirma que o lugar foi criado porque a medicina ocidental não aceita que os especialistas indígenas tenham preparo para cuidar da saúde das pessoas. Ao longo dos oito anos de existência do centro, já passaram pelos benzimentos mais de 13 mil pessoas.
“Por preconceito não aceitam que nós temos a nossa própria ciência e tem o pensamento que indígena é aquele bicho do mato, sem tecnologias e incapaz de inserir numa sociedade o que a gente cria”, ressaltou.
Para além das consultas e tratamentos de saúde, o Bahserikowi é uma escola viva e centro de estudos avançados sobre os conhecimentos e práticas indígenas. Uma casa de oficinas de saberes indígenas para jovens indígenas e não indígenas, de festas tradicionais e de formação de futuros novos Kumuãs.
“O Centro de Medicina Indígena foi fundado com o objetivo de mostrar para a sociedade não indígena que nós temos a nossa própria medicina, onde as pessoas possam ter contato com os nossos especialistas de cura e a partir disso usufruir, ver e sentir as nossas práticas”, completa Ivan.
A reivindicação é para que o conhecimento dos Kumuã seja incorporado às políticas públicas de saúde. “A palavra para nós é concreta, diferente do mundo não indígena que dá importância a aquilo que está escrito. Através da oralidade, nos formamos pessoas que entendemos o nosso mundo, que cuidamos da saúde, do corpo, da floresta, porque o nosso corpo tem esta conexão com a natureza”, diz.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Nonada Jornalismo, escrito por Nicoly Ambrosio
Com formato de coroa e feito com polvilho, leite de coco, manteiga, açúcar e uma pitadinha de sal. Este é o biscoito amor-perfeito, um dos mais famosos do Tocantins. Produzido de forma artesanal, tem como principal produtor o município de Natividade, no sudeste do Estado.
Seu sucesso se deve à família de Ana Benedita de Cerqueira e Silva, a ‘Dona Naninha’, que popularizou o biscoito em todo Estado e que, agora, entra para lista de comidas que são Patrimônio Cultural e Gastronômico do Tocantins.
Além do popular doce, o famoso espetinho também foi decretado Patrimônio Cultural e Gastronômico com a lei sancionada no Diário Oficial do dia 9 de julho (página 6). Eles se unem ao chambari, à buchada e ainda à paçoca de carne seca, receitas consideradas patrimônio desde 2017. O novo texto com a adição foi publicado no Diário Oficial, alterando a lei nº 3.252 (de 31 de julho de 2017).
Dona Naninha, que seguia a tradição culinária fazendo-a famosa no Estafo morreu em 14 de abril do ano passado aos 85 anos.
Durante a 76ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Belém (PA), a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, anunciou o investimento de R$ 10 milhões para construir o novo Herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), uma das maiores coleções de plantas da Amazônia.
Na oportunidade, a ministra também nomeou o diretor do Inpa, o professor Henrique Pereira, como coordenador brasileiro do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica (CFBBA), uma cooperação que foi retomada em março de 2024 entre o Brasil e a França. Os anúncios foram feitos na segunda-feira (8).
O recurso para o projeto do herbário faz parte de uma negociação do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI) com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Luciana Santos enfatizou a necessidade de proteger o maior acervo de plantas amazônicas.
Atualmente, quase 300 mil espécimes estão depositadas no Herbário (plantas e fungos), a maior coleta de espécimes vegetais para a Amazônia brasileira e o quinto maior Herbário do Brasil. O Inpa, unidade vinculada ao MCTI, está localizada em Manaus (AM).
“Temos mais R$ 10 milhões para salvaguardar os acervos do Programa de Coleções Científicas e Biológicas do Inpa, onde iremos construir um novo herbário, para abrigar uma das maiores coleções de plantas da Amazônia”, enfatizou Luciana Santos.
De acordo com o diretor do Inpa, esse aporte será destinado a um projeto sob encomenda que visa a construção de um novo espaço para abrigar o acervo do herbário, que hoje ocupa um dos prédios mais antigos do campus do Instituto.
“Necessitamos de instalações adequadas, mais amplas, então esse novo projeto irá permitir duplicar a capacidade da Coleção de Plantas. Será um herbário diferente, interativo, com espaço para reuniões, para visitação pública. E esse novo herbário também irá abrigar laboratórios temáticos, na área de palinologia, estudo de fungos, de pólen, será um complexo de estudo da flora amazônica”, contou Pereira.
No total, serão investidos R$ 500 milhões em programas para a região amazônica com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), para os programas Pró-Amazônia e Segurança Alimentar e Erradicação da Fome. Foram destinados R$ 360 milhões para o Programa Pró-Amazônia e R$ 184,2 milhões para o Programa de Segurança Alimentar.
Cooperação com a França
O anúncio de Henrique Pereira como coordenador brasileiro do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica (CFBBA) aconteceu na reunião com outros dirigentes de unidades vinculadas do MCTI. “Foi uma surpresa, nós sabíamos que era aguardado o anúncio do escolhido para coordenar a parte brasileira, mas foi uma surpresa. Agora é receber as devidas orientações e começar o trabalho”, pontua o diretor do Inpa.
Pereira comenta, ainda, que o Inpa já foi sede de uma missão permanente da agência de cooperação científica da França, hoje conhecida como IRD, por mais de 20 anos. “Quem sabe uma das metodologias seja a retomada de missões de pesquisadores visitantes entre Brasil e França, até porque ainda hoje mantemos cooperações com a França, mas muito menos intensas”, frisa.
A ideia do Centro é ser uma rede constituída pelas instituições francesas e brasileiras de ciência que atuam no tema da biodiversidade na região amazônica. Outro ponto favorável ao Centro é o fato que a França tem um território na Amazônia, a Guiana Francesa.
“A maior fronteira da França é com o Brasil, na fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa, então esperamos ter uma inserção das organizações do estado do Amapá, onde devem se concentrar parte das atividades, nessa região de fronteira”, completa Pereira.
O Inpa e outras instituições brasileiras, como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), cooperam há muitos anos com o Institut de Recherche pour le Développement (IRD) da França. Além disso, o governo francês coopera com outros países amazônicos, como, por exemplo, a Rede HyBam. A relação de fronteira com os países Guiana e Brasil torna essa escolha do Brasil mais distinta.
O tradicional Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, e os Bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) estão a um passo de serem reconhecidos como manifestação da cultura nacional. A Comissão de Educação e Cultura (CE) aprovou nesta terça-feira (9) o Projeto de Lei (PL) 2.610/2023, que tem esse objetivo. O texto recebeu parecer favorável do senador Plínio Valério (PSDB-AM) e, como foi alterado pelo relator, volta para a análise da Câmara dos Deputados.
O Festival Folclórico de Parintins, que põe frente à frente os Bois Caprichoso e Garantido, ocorre há quase 60 anos sempre na última semana de junho. Um corpo de jurados é convidado a avaliar, a cada edição, as performances dos grupos e decidir o campeão. Na Arena do Bumbódromo, a 370 quilômetros de Manaus, um público apaixonado veste as cores preferidas e torce pelo seu boi.
Plínio Valério aponta que o Sistema Nacional de Cultura detalha, entre os deveres do Estado, a garantia de plena liberdade de expressão artística. Ele apresentou emenda para que o poder público, além de garantir a livre atividade do festival, também destine recursos ao evento.
“Quem não foi, precisa ir. É algo que não dá para definir. O espetáculo é impressionante. O Festival Folclórico de Parintins, há muito tempo, clamava por esse reconhecimento”, disse o senador.
O Iphan, em 2018, reconheceu o Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins como patrimônio cultural imaterial.
Quem encontra um cacaueiro vicejando numa agrofloresta amazônica não imagina quanta história carrega o fruto. Por muito tempo se creditou a origem do cacau ao endereço errado. Evidências arqueológicas apontavam o sul do México e a América Central, a chamada Mesoamérica, como local onde se iniciou a domesticação do fruto há cerca de 4 mil anos. Acreditava-se que, apenas depois, o cacau teria sido levado à América do Sul.
“Ao percorrermos a selva do Alto Amazonas [no Equador], sempre encontrávamos cacaueiros, que lembravam os povos que viveram nesta região há milhares de anos, mas, na época, não sabíamos que o cacau era uma planta nativa da região”, conta Francisco Valdez, arqueólogo do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD) na França.
Foi no início dos anos 2000, junto com uma equipe de arqueólogos e antropólogos franceses e equatorianos, que Valdez começou a estudar evidências que pudessem trazer novos conhecimentos sobre os povos antigos que prosperaram no Alto Amazonas, parte andina da Bacia Amazônica localizada no Equador, Peru, Colômbia e Venezuela.
Entre diversas descobertas, os pesquisadores se surpreenderam ao encontrar o DNA do cacau em cerâmicas milenares de uso doméstico e para tradições funerárias. Isso levou a uma reavaliação da origem do fruto: com raízes sul-americanas, as evidências apontam que há cerca de 5.500 anos o cacau já circulava por 19 culturas pré-colombianas.
“A característica mais importante de nossa pesquisa é o fato de colocar as culturas do Alto Amazonas em seu devido lugar, como um povo inovador e fundamental no surgimento dos fenômenos civilizatórios”, diz Valdez. “Agora a sua importância é duplamente reconhecida. Os amazônicos foram capazes de grandes conquistas civilizacionais e a interação regional foi um fator importante”.
Escultura asteca do século 15 com fruto de cacau.Foto: Reprodução/Museu do Brooklyn
Cacau para além da vida
O trabalho dos pesquisadores revelou 400 sítios arqueológicos na região e evidenciou a interação que existia entre os habitantes da Amazônia, das terras altas dos Andes e das planícies e margens da costa do Pacífico.
Ao descobrir as partículas de cacau nas cerâmicas de civilizações de mais de 5 mil anos, a pesquisa revelou que o cacau já era um alimento básico entre os povos daquele tempo. “Estas evidências apareceram no interior de vasos funerários que acompanharam vários indivíduos para a vida após a morte. As mesmas evidências foram também encontradas nas escavações domésticas”, conta Valdez.
Na época, o cacau era degustado em forma de polpa, como bebida, e em receitas elaboradas com o pó da semente torrada, além de ser usado como antisséptico para fins medicinais.
A descoberta foi publicada num artigo em 2018, mostrando que na Alta Amazônia o cacau já existia 1.500 anos antes do que na Mesoamérica.
Foto: Marlon del Aguila Guerrero/CIFOR.
A partir desta descoberta, os estudos sobre o cacau se intensificaram na região. A análise de DNA de mais de 350 peças arqueológicas de museus e de novas escavações, abrangendo um período de quase 6 mil anos, revelou que cerca de 30% delas guardam rastros do fruto.
“A genética é provavelmente a ferramenta mais valiosa que está revolucionando a ciência nos últimos 30 ou 40 anos, e a sequenciação do DNA tem mudado todas as ideias pré-concebidas sobre as espécies humanas e outras espécies biológicas”, aponta Valdez, um dos autores do artigo publicado em março de 2024.
O novo artigo relata que as partículas de cacau encontradas em cerâmicas de 19 culturas pré-colombianas revelam a mistura genética entre espécies de cacau distantes geograficamente entre si, apontando para as trocas e interações que devem ter ocorrido entre povos da Amazônia e costa do Pacífico e para a adaptação da planta em ambientes diversos.
“Esses dados mostram para nós que o cacau é uma planta sul-americana que foi levada há muito tempo, milhares de anos atrás, em redes de troca desde o centro de sua origem, que está ali na fronteira atual entre o Peru e Equador, no oeste da Amazônia, no sopé dos Andes, e foi levado dali para outras regiões da América do Sul e também para outras regiões das Américas”, avalia Eduardo Góes Neves, arqueólogo e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).
“Isso é muito interessante por duas razões: além de reforçar a ideia de que a Amazônia é um centro de produção de agrobiodiversidade, também mostra que havia redes de troca de comércio muito antigas conectando a América Central, a América do Norte e a América do Sul”, observa Neves.
Os pesquisadores sugerem que a história complexa da domesticação do cacau é a base das populações atuais de cacaueiros e este conhecimento pode contribuir para o gerenciamento dos recursos genéticos da planta em tempos de mudanças climáticas.
Entre rios e montanhas
Os primeiros registros históricos do cultivo do cacau na Amazônia brasileira estão ligados à colonização portuguesa e datam da segunda metade do século 17.
Fernando Mendes, engenheiro agrônomo que trabalha com cacau há 44 anos, conta que o fruto teria sido combustível de discórdias entre o Marquês de Pombal e os jesuítas, que na época viam na sua comercialização uma fonte substancial de renda.
Sempre se soube, no entanto, que a domesticação do cacau em terras ameríndias é muito mais antiga do que a invasão dos europeus. “Em sua segunda viagem à América em 1502, Cristóvão Colombo estava em Honduras quando encontrou uma canoa indígena e lá dentro tinha frutos de cacau. Ele ficou muito impressionado com aquele fruto que não conhecia”, conta Mendes, autor de diversos livros sobre o cacau e coordenador regional de pesquisa e inovação da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).
Segundo o pesquisador, é difícil precisar quando o cacau entrou em terras brasileiras e igualmente complexo avaliar o início de sua domesticação, que deve ser mais antiga do que os 5 mil anos comprovados pelas partículas detectadas nas peças de cerâmica.
“Ele vem sendo trazido de mão em mão pelos rios ou pelas montanhas a partir das sementes, que eram trocadas e que os índios foram plantando. Então, a partir desse momento, começa a domesticação”, diz Mendes. “Essa data a gente não tem”.
Mendes aponta que a milenar domesticação do cacau por terras amazônicas tornou a espécie mais resistente às mudanças climáticas porque a planta se adaptou ao cultivo em sub-bosque, protegida da luz direta do sol.
Por ser uma planta perene e dispensar o uso do fogo, em sistemas agroflorestais o cacau contribui, inclusive, com a mitigação das mudanças climáticas e ajuda na regeneração da floresta.
“Desde 1996, a Ceplac, na Amazônia, tem como diretriz só oferecer assistência para os produtores que fazem um plantio em áreas antropizadas, nunca utilizando áreas de mata virgem”, diz Mendes. “A nossa contabilidade informa que, de 1996 a 2023, o programa de cacau no estado do Pará já recuperou cerca de 160 mil hectares de áreas”.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Mongabay, escrito por Sibélia Zanon
A primeira etapa da construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Raiz já alcançou 45% de execução da obra. O empreendimento faz parte do programa “Trata Bem Manaus”, que tem como objetivo a universalização do serviço de coleta e tratamento de esgoto. Nesta primeira fase, já será possível tratar mais de sete milhões de litros de esgoto por dia.
A ETE está localizada na rua Independência, no bairro Raiz. O local fica às margens do Igarapé do 40, considerado um dos principais corpos hídricos que cortam a capital amazonense. A nova estação irá garantir que todo esgoto coletado da região passe por tratamento e retorne à natureza livre de contaminações.
O projeto está dividido em quatro etapas. A primeira tem previsão de conclusão neste ano e irá beneficiar mais de 55 mil pessoas. Os outros módulos entrarão em execução, gradativamente, com operação total em 2027.
“Esta é uma obra importante, pois estamos falando que em menos de quatro anos, vamos devolver para o Igarapé do 40, mais de 31 milhões de litros de esgoto tratado. É um benefício que chega para a população, que terá mais qualidade de vida e saúde, e para o meio ambiente. Estamos dentro da maior bacia hidrográfica do mundo e obras como esta são um salto importante para a preservação da natureza”, destaca o diretor-presidente da Águas de Manaus, Diego Dal Magro.
Foto: Divulgação/Águas de Manaus
O empreendimento conta com a mão de obra direta de mais de 100 pessoas. Iniciada no início deste ano, a obra já concluiu a etapa de fundação das principais estruturas. A partir de agora, estão sendo construídas as grandes estruturas como tratamento preliminar, desidratação do lodo, sala de polímeros e subestação, para posteriormente serem realizadas as instalações mecânicas e elétricas.
O andamento da obra também é acompanhado pelo poder concedente do município. O vice-prefeito, Marcos Rotta, esteve no local e destacou a importância da ETE para melhoria da qualidade de vida da população. “Esta obra vai, sem sombra de dúvida, vai mudar a vida de muitas pessoas. Estamos falando de mais qualidade de vida para mais de 220 mil pessoas. Esta é uma forma indelével. A parceria entre a prefeitura e a concessionária irá melhorar o esgotamento sanitário e a saúde pública em Manaus”, destacou Rotta.
ETE Raiz
A estação será uma das maiores da capital amazonense. Ela irá ocupar uma área de 9,6mil m² e terá capacidade de tratar mais de 31 milhões de litros de esgoto por dia. A ETE irá receber o esgoto produzido e coletado nos bairros Petrópolis, Japiim, Praça 14 de Janeiro, Cachoeirinha, São Francisco e Armando Mendes.
A obra é um dos empreendimentos do Trata Bem Manaus. O programa prevê a universalização do serviço de coleta e tratamento de esgoto em menos de 10 anos. Com investimentos de mais de R$2 bilhões, a Águas de Manaus irá realizar a implantação de mais de 2,7 milhões de metros de rede coletora de esgoto, além da ampliação e construção de mais de 70 estações de tratamento, espalhadas por todas as zonas da cidade.
Após quase 30 anos fechado, o Museu Casa de Rondon foi reaberto para visitação, na última semana, em Vilhena (RO). O local é tombado como patrimônio histórico e cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) e faz parte da história da cidade.
Quando construído, no início dos anos 1900, o museu era uma estação telegráfica construída a pedido do Tenente Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon.
“A ‘Casa de Rondon’ significa o nome da própria cidade de Vilhena, porque quando surgiu, aquele espaço era o posto telegráfico do Álvaro Vilhena, resultando no nome da cidade. Então tem uma relevância histórica muito importante”, aponta o jornalista, escritor e historiador Júlio Olivar.
A estação foi transformada no Museu Marechal Cândido Rondon, popularmente conhecido como Casa de Rondon em meados de 1980. Em anexo ao museu, foi construído um zoológico, que funcionou por alguns anos antes de ser desativado.
Em 1996, a Casa Rondon foi fechada para uma reforma e desde então não foi mais reaberta. Impasses sobre o domínio da área dificultaram a revitalização.
Onça no antigo zoológico de Vilhena. Foto: Júlio Olivar/Acervo pessoal
O governo do Estado conseguiu uma autorização para revitalizar o espaço em 2017. A obra contou com investimento de R$ 546 mil do Ministério do Turismo. O Governo de Rondônia entregou as obras de restauração e ampliação em 2021. No local foram construídos uma sede administrativa e banheiros, além de calçamento e paisagismo.
Mesmo após a conclusão das obras, o local permaneceu fechado. Apenas visitas agendadas eram possíveis, para escolas da cidade, como uma alternativa de extensão ao conhecimento da história regional.
Com a reabertura, o local deve funcionar de quarta a sexta-feira, das 15h às 18h e sábados e domingos das 16h às 20h. A entrada é gratuita.
Instalação ‘Amazônia Mapeada’ combina ciência e arte em alerta pela preservação no INPA, em Manaus. — Foto: Divulgação
Uma instalação imersiva, com videoarte e sons de DNA ambiental, estará aberta ao público por um mês, a partir do dia 16 de julho, no Paiol da Cultura, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus (AM). Intitulada ‘Amazônia Mapeada: Imagens e Sons do DNA Ambiental’, a ação combina ciência e arte para destacar a necessidade urgente de preservação da biodiversidade e de ações efetivas de controle das mudanças climáticas.
A abertura da exposição terá um evento fechado para colaboradores acadêmicos e parceiros locais do projeto, no Paiol da Cultura, no dia 15 de julho.
A exposição é promovida pela iniciativa da Swissnex no Brasil com o objetivo de conectar a pesquisa “Amazônia Mapeada” da artista Sonia Guggisberg, com o trabalho realizado pelo grupo de cientistas da iniciativa CLabs (DNA of Music), liderada por Andrea Desiderato, integrante do ETH BiodivX.
A exposição é uma proposta que combina ciência e arte para destacar a necessidade urgente de preservação da biodiversidade e de ações climáticas.
O projeto aborda a fragmentação dos ecossistemas devido à negligência e à falta de políticas voltadas para práticas sustentáveis na região. As imagens captadas em vídeo mostram a realidade do solo seco e da fumaça de queimadas que apaga as paisagens naturais de vegetação e compromete a sobrevivência da fauna e dos rios exuberantes.
Por meio da videoarte documental e da decodificação do DNA ambiental (eDNA), a instalação “Amazônia Mapeada: Imagens e Sons do DNA Ambiental” busca ampliar o debate sobre as complexidades amazônicas. Examina, criticamente, a crise ambiental e as suas implicações.
Além de estimular conscientização e espalhar conhecimento, para construir uma memória social, o projeto destaca a relevância de ações de preservação que tenham como suporte a ciência e a arte. ‘Amazônia Mapeada’ aproveita o poder da arte e da ciência para promover um diálogo crítico sobre a conservação da biodiversidade e a ação climática.
Pesquisa e metodologia
A investigação de Sonia Guggisberg ilustra como a regressão ecológica se estende à vida social. Suas intervenções e videoinstalações são ações micropolíticas que visam reativar valores como afeto, pertencimento e memória.
Em parceria com uma equipe de fotógrafos locais, Sonia Guggisberg utiliza múltiplas telas e mapeamentos para entrelaçar diversas perspectivas sobre a Amazônia e revelar o impacto humano das intervenções na floresta. A abordagem reforça o poder dos documentários não lineares, com videografia e intertextos artísticos.
Sete artistas da região Amazônica foram convidados a colaborar na produção de um vídeo sobre secas e incêndios na Amazônia em 2023. Os artistas amazonenses Raphael Alves, Tadeu Lima da Rocha e Silva, Michael Dantas, Orlando Junior, Cesar Nogueira, Val Ricardo e Tiago da Mota e Silva reuniram diferentes perspectivas de pessoas que vivenciaram o problema.
Andrea Desiderato apresentará uma obra sonora que expressa a exuberância natural da Amazônia. Os sons de DNA ambiental são derivados de vestígios de expedições.
Parcerias
A Swissnex é uma rede global suíça que conecta educação, pesquisa e inovação. Tem como foco apoiar o intercâmbio internacional de conhecimentos, ideias e talentos.
A equipe ETH BiodivX, liderada pela ETH Zurich, inclui 50 pesquisadores de diversas disciplinas em todo o mundo. O seu trabalho envolve o desenvolvimento de drones para recolher dados florestais e a parceria com comunidades locais e especialistas globais para visualizar e interpretar os dados.
A suíça brasileira Sonia Guggisberg vive e trabalha em São Paulo. Possui doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), pós-doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e mestrado em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Guggisberg atua como artista, videomaker e pesquisadora, participando de exposições individuais e coletivas, palestras e workshops no Brasil e no exterior desde a década de 1990.
Andrea Desiderato, professor assistente do Departamento de Zoologia e Hidrobiologia de Invertebrados da Universidade de Lodz, na Polônia, possui graduação em Ciências Naturais (Universidade de Bari, Itália, 2013), mestrado em Biologia Marinha (Universidade de Bolonha, Itália, 2015) e doutorado em Zoologia (Universidade Federal do Paraná, Brasil, 2020).
David Dao, cofundador do GainForest e colíder do grupo ETH BiodivX, disse que a iniciativa está focada em desenvolver tecnologias tão inclusivas quanto possível para os indígenas e as comunidades.
Há muito tempo, na intocada floresta amazônica, os espíritos ancestrais dos Yanomami escolheram um lugar sagrado para residir: o Yaripo, conhecido por nós como Pico da Neblina, Serra dos Ventos ou a Casa dos Espíritos, montanha que carrega histórias que são passadas de geração em geração. Segundo as lendas, o grande Pajé Yoyoma, em uma visão espiritual, descobriu a imponente montanha que agora abre a sua temporada de visitação para 2024 e 2025 para receber viajantes em busca de aventura e (re)conexão com a natureza.
Uma das principais crenças está relacionada ao poder de cura e proteção espiritual. “O Pico da Neblina é a casa dos espíritos, onde fazem, às vezes, as invocações de espíritos para poder salvar uma pessoa quando ela está doente espiritualmente, que é diferente da dor física”, explica Renê da Cruz Pinto, Yanomami e guia de turismo.
É desta forma que a vida é levada no ponto mais alto do Brasil, a 2.995 metros. “A gente se salva, espiritualmente, pelos Pajés, e fisicamente, pelo posto de saúde. Nossa cultura é forte e viva, e é por isso que o nosso Yaripo é sagrado”, afirma Renê.
Antes de pessoas não indígenas subirem a Serra dos Ventos, elas recebem uma proteção dos caciques e tuxauas, membros de grande respeito, espiritualidade e liderança dentro da comunidade. “A gente acredita, espiritualmente, que o Pico da Neblina é muito perigoso para a visita que as pessoas desconhecidas fazem. Então, para não acontecer alguma coisa ruim para os não indígenas, os Pajés fazem uma proteção para as pessoas não ficarem doentes ou se machucarem”, destaca Érica Figueiredo, coordenadora do projeto Yaripo.
O Pico da Neblina fica em uma sobreposição entre duas unidades de conservação. Foto: divulgação
20 anos de visitação suspensa
O Pico da Neblina fica em uma sobreposição entre duas unidades de conservação, a Terra Indígena (TI) Yanomami com quase quase 10 milhões de hectares e o Parque Nacional Pico da Neblina, com cerca de 2,2 milhões de hectares. Por mais de 20 anos, a visitação ao Yaripo foi suspensa, sendo retomada apenas em 2021, após alguns anos de conversas e estruturações para que as vivências fossem realmente sustentáveis e positivas para os viajantes e a comunidade, que deve ser protagonista e a maior beneficiada financeiramente. Durante os próximos três anos, duas empresas que conseguiram a anuência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o recredenciamento do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), estão aptas e credenciadas a operar roteiros na região com exclusividade global.
“Historicamente, desde a década de 80 acontecia a visitação desordenada ao Pico da Neblina com a invasão de turistas sem anuência dos indígenas, desrespeito aos lugares sagrados e todo lucro sendo levado para fora da Terra Indígena Yanomami”, destaca Daniel Assis, chefe do núcleo de gestão integrada ICMBio Pico da Neblina.
Uma das empresas credenciadas é a Vivalá, que atualmente promove experiências de ecoturismo, turismo de aventura e de turismo de base comunitária em 26 unidades de conservação de 15 estados do país.
“O povo Yanomami é um povo de contato recente, com menos de 70 anos de proximidade com a sociedade não indígena. Então, tudo foi feito com muito cuidado. Desde o ano passado, participamos do edital de lançamento, feito pelo ICMBio, Funai e ISA, buscando a organização ideal para tocar esse projeto em conjunto com o povo Yanomami. Foi aí que entramos nessa história, e fomos escolhidos pelo governo e, mais importante, pelo povo Yanomami, para desenvolver esse projeto em conjunto. Estamos muito felizes em iniciar agora nossa jornada ao ponto mais alto do Brasil e que ela possa gerar preservação ambiental, enaltecimento cultural e experiências inesquecíveis”, afirma Daniel Cabrera, Cofundador e Diretor Executivo da Vivalá.
Retomada do turismo precisou ser aprovada por lideranças
O retorno dos viajantes é recente, mas a vontade é antiga. Desde 2014, os Yanomami possuíam o forte desejo de tornar realidade o plano de ecoturismo na região. Para isso, alguns parceiros estratégicos passaram a fazer parte do projeto. “ICMBio, Funai, Exército e Instituto Socioambiental (ISA) entraram na trilha aberta pelos Yanomami rumo ao Yaripo, acreditando no potencial da iniciativa como atividade econômica sustentável para a comunidade”, diz Assis.
“Chamamos a ICMBio e a FUNAI para nos apoiar nessa luta e conseguimos fazer a parceria com a ISA, que nos ajudou a construir o plano de visitação e nos apresentou a esse mundo”, relembra Renê. O plano foi feito em quatro anos, de forma colaborativa, entre organizações governamentais, não-governamentais e os Yanomami. Um dos principais pontos era o de proteção da fronteira e da sociobiodiversidade, além do bem-estar dos povos.
Retornar com as visitações no Pico não foi uma tarefa fácil, mas com certeza, já está valendo a pena. O turismo na região contribui com o desenvolvimento da comunidade, além de trazer melhorias e suporte, vindo junto com as duas empresas que chegaram na região. “Podemos chamar o Projeto Yaripo de iniciativa, para que ele não tenha fim e continue trazendo o desenvolvimento para as comunidades indígenas do povo Yanomami, mas de forma ordenada, com cautela e sempre respeitando a singularidade deste povo ancestral”, comenta Sheldon Yupuri, facilitador e agente temporário ambiental do ICMBio.
Agora, após muitos anos de planejamento e desenvolvimento do plano junto às autoridades e lideranças indígenas, a Vivalá começa a operar o roteiro para o Pico da Neblina pelos próximos três anos. A temporada 24 e 25 terá 12 datas de saída, nas quais mais de 120 pessoas do mundo inteiro poderão participar de experiências sustentáveis pelo Brasil. Os viajantes terão a oportunidade de conhecer comunidades indígenas e os povos originários, mas também ribeirinhos, quilombolas, sertanejos, caiçaras, entre outros grupos.
Roteiro ao ponto mais alto do Brasil dura 15 dias
A expedição ao Pico da Neblina é uma jornada de 15 dias, ideal para amantes de grandes aventuras de trekking. Iniciando em São Gabriel da Cachoeira (AM), os participantes se preparam na pousada e exploram a cidade antes de embarcar numa viagem que combina estradas, voadeiras e trilhas profundamente imersivas. O roteiro atravessa paisagens diversas, desde a Serra dos Ventos até a densa floresta amazônica, guiando os viajantes até Maturacá e além e colocando o povo Yanomami como protagonista da terra sagrada.
“A relação do povo Yanomami com o Pico da Neblina e a região é fundamental para entendermos a profunda ligação que os povos indígenas têm com a natureza. A integração deles com o meio ambiente é muito maior do que a nossa, e eles compreendem que fazemos parte da natureza e não a dominamos. A experiência com o povo Yanomami, na maior terra indígena do Brasil, nos ensina muito sobre a sabedoria ancestral, a inteligência e a capacidade de viver em harmonia com a natureza, aprendizados valiosos que nos inspiram a ter uma relação mais respeitosa com o meio ambiente”, complementa Daniel Cabrera, cofundador e diretor executivo da Vivalá.
Os primeiros dias são marcados por experiências autênticas, como receber bênçãos dos Pajés Yanomami e acampar em locais estratégicos como Irokae e Gavião. À medida que a jornada avança, os desafios se intensificam com elevações íngremes e trilhas exigentes até o acampamento Laje, a 1.600 metros de altitude, oferecendo vistas impressionantes do Pico da Neblina. O ponto alto da expedição é a ascensão final ao acampamento Base, a 2.030 metros, preparando os aventureiros para a escalada final até os 2.995 metros.
“Os cenários são deslumbrantes, e lá você encontra uma Amazônia extremamente única: cheia de serras e de endemismos da flora por conta da altitude. Todos aqueles que pretendem subir o Pico da Neblina recebem uma bênção dos caciques (os “tuxauas”) para proteção durante toda a jornada. Os Yanomami reverenciam a montanha, que pra eles é viva, e o caminho deve ser feito com muito respeito à natureza e aos espíritos que ali habitam”, conta Letícia Cristina, produtora de experiências da Vivalá e que realizou uma ida piloto ao Pico, onde passou nove dias e se impressionou com a tamanha diversidade, seja de culturas, línguas ou até de vistas.
Após a conquista do pico mais alto do Brasil, os viajantes desfrutam de momentos de despedida com os Yanomami, compras de artesanato local e celebrações em São Gabriel da Cachoeira. Serão somente 12 saídas e 120 vagas na temporada 2024/2025, entre setembro deste ano e dezembro do ano que vem para aventureiros de todo o mundo. Segundo a agência de turismo, o investimento é R$ 17.500.
A expedição inclui também treinamentos antes da viagem, hospedagem em pousada em São Gabriel da Cachoeira por quatro noites, duas noites na sede do projeto Yaripo em Maturacá e oito noites em acampamentos na floresta, transporte terrestre e aquático, equipamentos coletivos de acampamento, alimentação, taxa de entrada nas comunidades e uma equipe capacitada para guiar a expedição com grande atenção a segurança. Ainda há vagas disponíveis para a primeira expedição que acontecerá em 07 de setembro. Para mais detalhes sobre o roteiro e reservas em setembro ou outras datas, acesse.
Sobre a Vivalá
A Vivalá atua no desenvolvimento do Turismo Sustentável no Brasil, promovendo experiências que buscam ressignificar a relação que as pessoas têm com o Brasil, sua biodiversidade e comunidades tradicionais. Atualmente, a Vivalá atua em 26 unidades de conservação do país, contemplando os biomas da Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Caatinga, e trabalha em conjunto com mais de 700 pessoas de populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, sertanejas e caiçaras.
Com 15 prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais, a Vivalá tem a confiança da Organização Mundial do Turismo, ONU Meio Ambiente, Braztoa, Embratur, Aberta, Fundação do Grupo Boticário, Yunus & Youth, além de ter uma operação 100% carbono neutro e ser uma empresa B certificada, tendo a maior nota no turismo do Brasil e a 7ª maior em todo o setor de turismo no mundo. Até junho de 2024, a Vivalá já embarcou mais de 4 mil viajantes, além de ter injetado mais de R$ 5 milhões em economias locais através da compra de serviços de base comunitária e consumo direto dos viajantes. Para mais informações, acesse aqui.