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Marinha do Brasil aumenta calado e reforça segurança da navegação na foz do Amazonas

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Medida visa ampliar a navegabilidade de embarcações de maior porte e com maior carga na região do ‘Arco Lamoso’. Foto: Reprodução/Marinha do Brasil

A Marinha do Brasil (MB) concluiu o aumento do calado operacional no “Arco Lamoso”, trecho estratégico localizado na foz do Rio Amazonas, elevando a capacidade de navegação em uma das principais rotas hidroviárias do País. A medida amplia a segurança do tráfego marítimo e fluvial e fortalece o escoamento da produção nacional, com impactos diretos para a economia da região Norte e para o comércio exterior brasileiro.

Calado é a distância vertical entre a linha de flutuação de uma embarcação na superfície da água e a parte mais baixa da quilha, a parte mais baixa do casco do navio ou barco. Essa medida é essencial para determinar a profundidade mínima que uma embarcação precisa para navegar com segurança, sem risco de encalhar o colidir com o fundo do mar ou rios.

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Calado de uma embarcação
Imagem: Reprodução/FazComex

Com a alteração, o novo calado passou a ser de 11,85 metros para navios mercantes com cargas comuns e de 11,65 metros para navios-tanque e embarcações transportando cargas perigosas. Esses índices são relativos ao período entre 1º de fevereiro e 15 de agosto de cada ano. Para os outros meses, o novo limite é de 11,70 metros para navios mercantes e de 11,50 metros para navios-tanque e embarcações com cargas perigosas.

A atualização das condições de navegabilidade permite a passagem de embarcações com maior porte e maior carga, reduzindo restrições operacionais e aumentando a eficiência logística. Em uma região marcada por intensa dinâmica sedimentar, como é o caso do estuário amazônico, ações contínuas de levantamento hidrográfico e atualização cartográfica são essenciais para garantir rotas seguras.

O “Arco Lamoso” é a área mais crítica e rasa dentro da Barra Norte, na foz do Rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá, se estendendo por cerca de 45 quilômetros. O Diretor do Centro de Hidrografia e Navegação do Norte (CHN-4), Capitão de Fragata Anselmo Vinicius de Souza, destacou os principais desafios para se navegar na região.

“Os principais desafios são inerentes à grande dinâmica hidrológica da região, que é influenciada principalmente pela interação entre as diferentes massas d’água que confluem para o trecho da foz. Além disso, há também a ocorrência de um regime pluviométrico sazonal, caracterizado pelos períodos de “cheia” e de “seca” dos rios”, comentou o Capitão de Fragata Anselmo.

Relevância Econômica

O “Arco Lamoso” integra um corredor logístico vital para o escoamento de cargas, especialmente commodities oriundas das Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. A ampliação do calado possibilita maior eficiência no transporte, reduz custos logísticos e aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.

A importância desse tipo de operação da MB se torna ainda mais evidente quando analisada à luz da chamada Economia do Mar. No Brasil, mais de 95% do comércio exterior é realizado por via marítima, evidenciando a dependência do País de rotas seguras e eficientes para a entrega de mercadorias.

Região do ‘Arco Lamoso’ é a principal saída das exportações do Brasil para o mar na região Norte. Imagem: Reprodução/Praticagem Brasil

Segundo dados apresentados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), os portos e terminais da região Norte registraram o maior crescimento percentual do Brasil em 2025 – cerca de 10,4%, chegando a 163,3 milhões de toneladas, dado superior à média nacional (6,1%), o que pode indicar um redirecionamento do eixo logístico do País. O Diretor do CHN-4 ainda explica, em números, o impacto do aumento do calado na região.

“A quantidade de carga acrescida com o aumento do calado varia de acordo com as características de cada navio. Para os navios do tipo ‘Panamax’, que são as embarcações cujas as suas dimensões alcançaram o tamanho limite para passar nas eclusas do Canal do Panamá, por exemplo, o aumento pode representar até cerca de dez mil toneladas por embarcação, representando um ganho aproximado de US$ 1 milhão de carga por navio – cerca de R$ 5 milhões”, completou.

Leia também: Marinha realiza levantamento hidrográfico em área de 714 km² no rio Amazonas

O papel da Marinha do Brasil

A MB, por meio do Serviço de Sinalização Náutica e da atividade de Hidrografia, garante a segurança da navegação nas águas sob jurisdição brasileira. Para isso, algumas missões operativas são realizadas frequentemente, como os levantamentos hidrográficos, a produção e a atualização de cartas náuticas e a divulgação de informações essenciais aos navegantes.

No caso do “Arco Lamoso”, a atuação da Força Naval envolveu também o monitoramento das condições do leito do rio, a análise da dinâmica sedimentar e a atualização dos parâmetros de navegação, permitindo a redefinição segura do calado na região. Ao todo, cerca de 110 quilômetros quadrados foram sondados na área da Barra Norte para a garantia de um aumento seguro do calado.

Essas ações integram o esforço contínuo para assegurar a navegabilidade em áreas críticas, especialmente na Amazônia, onde fatores naturais como correntes, marés e sedimentação exigem acompanhamento constante.

Navio Balizador ‘Tenente Castelo’ (H19) é um dos responsáveis pelo levantamento hidrográfico na área da região Norte. Foto: Reprodução/Marinha do Brasil

Hidrovias: eficiência logística e alívio para o transporte terrestre

O transporte hidroviário desempenha papel estratégico na matriz logística brasileira, especialmente no escoamento de grandes volumes de carga. Embora ainda subutilizado, o modal já responde por uma parcela relevante do transporte nacional e apresenta elevado potencial de expansão. O transporte por rios e canais é considerado mais econômico e energeticamente eficiente, sendo especialmente adequado para cargas de grande volume, como grãos e minérios, que representam parcela significativa das exportações brasileiras.

Na prática, o fortalecimento do transporte hidroviário pode contribuir para reduzir a sobrecarga das rodovias, diminuindo custos logísticos, o desgaste da infraestrutura terrestre e a emissão de poluentes. Em regiões como a Amazônia, onde a malha rodoviária é limitada, as hidrovias são, muitas vezes, o principal meio de integração e transporte de mercadorias, consolidando-se como elemento essencial para o desenvolvimento regional.

Iniciativas que ampliam as condições de navegação, como o aumento do calado em áreas estratégicas, não apenas elevam a segurança do tráfego aquaviário, mas também contribuem para uma matriz de transporte mais equilibrada, eficiente e sustentável no País.

*Com informações da Marinha do Brasil


Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental

Foto: Caio Lira e Bruno Carachesti

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) lançaram, no dia 12 de maio, durante o Bioeconomy Amazon Summit (BAS) 2026, em Belém, a publicação do Plano de Transformação Ecológica da Bioeconomia (PTEB) na Amazônia Ocidental.

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A iniciativa estratégica propõe diretrizes para transformar a região em um polo de bioeconomia sustentável, capaz de ampliar a agregação de valor nos territórios, fortalecer cadeias produtivas locais e reduzir desigualdades territoriais. 

O lançamento integrou a programação do BAS 2026, realizado de 12 a 14 de maio, na capital paraense. A FAS participou do evento com a presença da superintendente-geral adjunta da instituição, Valcléia Lima, além dos gerentes do Programa de Políticas Públicas em Clima e Conservação e de Empreendedorismo da FAS, Gabriela Sampaio e Wildney Mourão, que contribuíram com debates estratégicos sobre os caminhos da bioeconomia na Amazônia.

Leia também: Bioeconomy Amazon Summit debate inovação e bioeconomia em Belém

Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental
Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Dirce Quintino

Liderado pela FAS em parceria com a ABDI, o PTEB abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá. O plano está alinhado ao Plano de Transformação Ecológica (PTE) federal e à Estratégia Nacional de Bioeconomia (ENB), estruturando-se em três agendas prioritárias: bioindustrialização e biotecnologia; concessões florestais e territórios; e sistemas agroalimentares sustentáveis.

A publicação partiu de um diagnóstico técnico e de um amplo processo de escuta multissetorial, que analisou desafios históricos enfrentados pelos territórios amazônicos, como a dependência de importações, a baixa agregação de valor local, os desafios logísticos e a fragmentação institucional.

Entre os dados sistematizados, estão 230 instrumentos legais e normativos analisados, 368 iniciativas em curso mapeadas, 952 atores identificados, 200 gargalos estruturais sistematizados e 55 oportunidades de incidência, das quais 16 foram priorizadas de forma participativa.

Leia também: Desenvolvimento sustentável: como o fator social pode auxiliar na preservação ambiental?

Para Gabriela Sampaio, gerente do Programa de Políticas Públicas em Clima e Conservação da FAS, o lançamento da publicação representou um passo importante para aproximar o debate sobre bioeconomia da realidade dos territórios amazônicos.

“Pensar a bioeconomia amazônica passa por conectar floresta, ciência, indústria e os conhecimentos das populações da região. A proposta do Plano foi construída com essa proposta: contribuir para o debate sobre caminhos possíveis para que a Amazônia Ocidental e o Amapá avancem na agregação de valor em seus próprios territórios, fortalecendo cadeias produtivas locais e ampliando oportunidades a partir da floresta em pé”, afirmou Gabriela. 

Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Dirce Quintino

Leia também: O impasse amazônico: como construir a terceira natureza e promover o desenvolvimento sustentável da região

Um dos principais diferenciais do PTEB é combinar planejamento econômico, governança e estratégias voltadas à implementação da bioeconomia. O plano organiza mecanismos de governança, estratégias financeiras, indicadores de monitoramento e oportunidades de incidência voltadas à implementação prática da bioeconomia amazônica. A proposta também prevê a implantação de três a cinco hubs regionais de bioindustrialização, articulando infraestrutura local, inovação tecnológica e inclusão produtiva.

A diretora interina de Economia Sustentável e Industrialização da ABDI, Neide Freitas, destaca a relevância estratégica do projeto para a política industrial do país.

“O PTEB é a materialização da Nova Indústria Brasil na Amazônia. Não estamos falando apenas de preservação, mas de uma estratégia industrial que utiliza a inovação e a bioindustrialização para agregar valor às nossas riquezas naturais. Nosso objetivo na ABDI é transformar o potencial da biodiversidade em competitividade global, garantindo que a transição para uma economia de baixo carbono seja o motor de um novo ciclo de desenvolvimento regional, com geração de emprego qualificado e protagonismo brasileiro na agenda verde”, disse.

O documento apresenta estimativas relacionadas a impactos econômicos, sociais e ambientais de grande escala, incluindo a mobilização de R$ 12 bilhões a R$ 20 bilhões, a geração de 50 mil empregos diretos, a manutenção de 500 mil hectares de floresta em pé e o fortalecimento de bioindústrias comunitárias.

Plano propõe caminhos para fortalecer o desenvolvimento sustentável na Amazônia Ocidental. Foto: Michael Dantas

A implementação do PTEB foi organizada em horizontes progressivos. No curto prazo, estão previstas ações como formalização da governança, lançamento de editais para plantas piloto e prospecção de bioativos, estruturação de plataformas de financiamento e inteligência territorial, além da valorização da cadeias produtivas e iniciativas ligadas à sociobioeconomia amazônica.

No médio e longo prazo, o plano prevê a consolidação de hubs regionais de bioindustrialização, mecanismos de rastreabilidade, integração logística, expansão de mercados sustentáveis e escalonamento industrial de bioinsumos amazônicos.

Com a publicação, FAS e ABDI buscaram fortalecer o debate sobre caminhos de desenvolvimento para a Amazônia baseados na floresta em pé, na inovação e no protagonismo das populações amazônicas na construção de caminhos sustentáveis e resilientes para a região. 

O plano de bioeconomia está disponível no site da FAS.

Sobre a FAS

A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Sua missão é contribuir para a conservação do bioma, para a melhoria da qualidade de vida das populações da Amazônia e para a valorização da floresta em pé e de sua biodiversidade.

*Com informações da Fundação Amazônia Sustentável

Névoa da Amazônia revela papel ambiental pouco estudado, indica pesquisa

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Vista das plataformas do Observatório de Torre Alta, em estação científica no Amazonas, mostra neblina densa como névoa sobre as copas das árvores. Fotos: Bruna Sebben/Acervo pessoal

O ponto a 43 metros de altura de uma plataforma metálica no meio da Floresta Amazônica, na Estação Científica de Uatumã, tem sido o local de trabalho recorrente da pesquisadora curitibana Bruna Sebben nos últimos sete anos. No Observatório de Torre Alta (ATTO), aonde se chega do aeroporto de Manaus (AM) por um trajeto de seis horas que envolve rodovia, barco e estrada de terra, pesquisadores do Brasil e da Alemanha buscam entender a relação entre floresta e atmosfera.

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Para Bruna Sebben, estar na Amazônia significa desvendar a dinâmica e as funções da neblina amazônica. Talvez pouca gente saiba, mas a névoa é um fenômeno frequente da floresta. Ocorre entre as 3 e as 7 horas da manhã, coincidindo com o nascer do dia. Gera uma massa densa que envolve a vegetação e muda a paisagem na copa das árvores, entre 30 e 150 metros de altura.

“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve a cientista vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Saiba mais: Projeto ATTO completa dez anos da maior torre de monitoramento climático do mundo

A neblina é resultado da perda de calor para a atmosfera à noite e de como esse resfriamento impacta a umidade (o vapor d’água) que a floresta produz o tempo todo.

Além de uma característica da Amazônia, a neblina é um dos processos do ciclo da água que fazem da floresta a “bomba d’água” do planeta. Mas, ao contrário dos rios voadores — as correntes de umidade que circulam pela Terra impulsionados pela floresta —, a neblina é menos estudada porque sua presença é local.

A pesquisadora Bruna Sebben, do Laboratório de Análise de Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR, no ponto de coleta de amostras da névoa, a 43 metros. Foto: Bruna Sebben/Acervo pessoal

Resultado da pesquisa de mestrado de Bruna Sebben, um estudo publicado com outros 35 autores no periódico Communications Earth & Environment traz elucidações sobre o papel ambiental da neblina amazônica. A pesquisa foi liderada pelo professor Ricardo Godoi, orientador da pesquisadora no mestrado que também coordena o Laboratório de Análise e Qualidade do Ar (LabAir) da UFPR.

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Névoa da Amazônia revela papel ambiental pouco estudado, indica pesquisa

As análises indicaram que a neblina sustenta a vida microscópica da floresta, dispersando nutrientes e servindo de habitat para microrganismos, como fungos e bactérias. Também é uma facilitadora dos ciclos biogeoquímicos, ou seja, dos ciclos naturais que “reciclam” os elementos químicos necessários à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.A vida que mora na neblina amazônica

Neblinas são formadas basicamente por água condensada, o vapor de água que acabou de passar para o estado líquido. A pesquisa constatou que a neblina amazônica consegue carregar pela atmosfera partículas químicas, mas também microrganismos e até fragmentos de seres vivos macroscópicos (visíveis a olho nu).

Assim, a análise revelou que a neblina é um habitat temporário para microrganismos ativos. As amostras apresentaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água. Ou seja, a névoa é o ambiente de comunidades vivas de bactérias e de fungos que têm funções ambientais importantes.

“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro. De forma geral, os fungos e as bactérias observados são essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a reposição de nutrientes ao solo”, conta a pesquisadora.

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No caso das bactérias, foram encontradas oito espécies vidas. Entre as mais frequentes estão a Sphingomonas paucimobilis e a Pseudomonas putida, que têm função no ciclo do fósforo, ajudando na fertilidade do solo. Houve ainda registros de bactérias que agem na decomposição de compostos orgânicos (Serratia marcescens e Ralstonia pickettii).

Em situações específicas, como em ambientes hospitalares ou frequentados por pessoas com problemas de imunidade, algumas dessas espécies são capazes de provocar infecções no ser humano. Na floresta, porém, têm funções ecológicas reconhecidas pela ciência e participam do equilíbrio de locais sem interferência humana, caso do ponto de vegetação contínua onde foram colhidas as amostras.

Névoa age como uma ponte de água entre a atmosfera e o solo

O diferencial da pesquisa está em apresentar o nevoeiro como um transportador desses microrganismos vivos, ultrapassando a imagem dele como fenômeno meteorológico.

Segundo os cientistas, a neblina funciona como uma ponte biológica que facilita o transporte vertical (do ar para o solo) de bactérias e fungos. Assim, esses micro-organismos que costumam ficar suspensos no ar, acima da copa das árvores, acabam depositados vivos sobre as superfícies das plantas e do solo.

“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica [as reações químicas de troca com o ambiente que mantêm um organismo vivo], porque as protege da radiação solar e da desidratação”, avalia a pesquisadora.

“Quando o nevoeiro goteja nas folhas e no solo esses microrganismos são depositados ainda metabolicamente ativos, facilitando seu papel ecológico e populando outras regiões”.

Descendo à altura das árvores, esses micro-organismos passam a compor as colônias que vivem sobre a superfície das plantas, outro universo particular chamado de filosfera. Essa relação com bactérias e fungos costuma proteger as plantas contra doenças, secas e radiação solar, além de beneficiar o seu crescimento pela produção de hormônios vegetais.

Ainda na graduação em Engenharia Ambiental da UFPR, Bruna Sebben examinou como esporos (células de reprodução de plantas, fungos e bactérias) e pólens de plantas da Amazônia se relacionam com a neblina. A conclusão foi de que, nesse caso, o nevoeiro funciona como ambiente de preservação dessas partículas, mais do que de transporte.

“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior, isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”.

Colaboração mútua: o mundo microscópico depende do nevoeiro e ajuda a provocar o fenômeno

Outra indicação do estudo é que os micróbios e demais partículas da neblina amazônica ajudam que o próprio fenômeno exista.

Isso porque essas partes sólidas agem de duas formas para que a água do vapor da floresta se condense. Primeiro, pela sua capacidade de absorver água, o que atrai mais umidade para a região onde ocorre a neblina.

A outra forma é pela carga elétrica. As paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga superficial negativa. Essa carga negativa é atraída pelas gotas de água, facilitando a incorporação e a estabilidade dos seres vivos dentro da neblina.

Essas características mostram a facilitação que gera a dependência mútua entre a comunidade de micróbios e a neblina.

No artigo, cientistas descrevem essa relação como colaborativa. Os microrganismos ajudam a criar a gota d’água ao servirem de base para a condensação. Em troca, ganham um microhabitat protegido contra a radiação solar, poluentes e desidratação, o que garante sua sobrevivência durante o transporte pela floresta.

Dessa forma, os microrganismos não são apenas passageiros passivos, porque agem na dinâmica das nuvens baixas na Amazônia.

Assim sendo, queimadas e desmatamento, dois problemas da Floresta Amazônica, afetam a neblina tanto aumentando as temperaturas quanto impedindo que a comunidade de micróbios permaneça vida e ativa.

Ainda que tenha havido queda nos alertas dos últimos três anos, segundo a medição do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre janeiro e março de 2026 a floresta perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento.

No mesmo período, a Amazônia figura no sistema do Inpe como o bioma com mais área queimada (quase 9,4 mil quilômetros quadrados).

A neblina ocorre em áreas contínuas de floresta, o que significa que sua presença é um indicativo dos locais intocados e dos que mostram capacidade de se adaptar aos problemas.

“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, acredita Bruna Sebben.

Leia também: Análise revela extensão do desmatamento não autorizado no Brasil

Um parêntese: como se coletam amostras de neblina?

Para coletar a neblina na Amazônia, os pesquisadores utilizaram a versão pequena de um dispositivo científico que colhe amostras de gotículas de nuvens e névoa. O aparelho coleta gotículas por meio de fileiras de fios de Teflon, material que não altera a composição das gotas e permite que elas gotas se acumulem quando o vento da névoa passa em alta velocidade.

“As gotinhas de nevoeiro impactam [nos fios] e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica Bruna Sebben.

Instalação do dispositivo para coleta de amostras, no observatório da Estação Científica de Uatumã. Foto: Bruna Sebben/Acervo pessoal

Para a pesquisa, o amostrador foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma no lado nordeste da torre principal do Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), que possui 325 metros no total. Localizado no Amazonas, o observatório é uma parceria entre Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Instituto Max Planck, da Alemanha.

As mostras de névoa foram coletadas três vezes entre 2022 e 2023, de 13 nevoeiros diferentes. Depois de recolhida, a água de névoa coletada precisa ser acondicionada em garrafas esterilizadas, para impedir contaminação. Essa parte da pesquisa ficou a cargo do LabAir da UFPR, em Curitiba, especializado em estudos ambientais relacionados ao ar.

Também foram realizadas na UFPR, no Laboratory of Cancer Drug Resistance, as análises de citometria de fluxo. Essa técnica laboratorial usa laser e corantes fluorescentes para quantificar a concentração total de células e avaliar se os microrganismos estão vivos e viáveis (o equivalente a “saudáveis” para seres unicelulares).

Por fim, as partículas encontradas na névoa foram incubadas sob temperaturas controladas. Assim fungos e bactérias cresceram e as espécies puderam ser isoladas e identificadas. O principal método para isso, a espectrometria de massa, que analisa a estrutura química dos microrganismos, ocorreu no Laboratório de Micologia no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.

Como resultado, o estudo, financiado por agências públicas, entre elas o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), quantificou que dezenas de milhares de seres vivos habitam cada gota de névoa.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Ciência UFPR, escrito por Camille Bropp

Leis da Amazônia permitem receber terra pública mesmo sem morar ou trabalhar nela

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Área desmatada preparada para agricultura em Cujubim, Rondônia. Foto: Nilo D’Avila/Greenpeace

Após analisar 41 leis, decretos ou normas administrativas federais e dos nove estados da Amazônia Legal sobre regularização fundiária, um estudo mostrou que é possível receber terra pública mesmo sem morar ou trabalhar nela. E pior: com ocupação e desmatamento recentes. Na prática, é como dar um prêmio para quem comete crimes ambientais.

Análise Comparativa da Legislação de Regularização Fundiária na Amazônia Legal
Estudo Análise Comparativa da Legislação de Regularização Fundiária na Amazônia Legal. Foto: Divulgação

Realizado pelo instituto de pesquisa Imazon em parceria com o Observatório de Políticas de Governança de Terras (OPGT), o estudo aponta também que essas normas permitem que pessoas que já possuem outros imóveis recebam terras públicas nessas condições.

“A regularização fundiária, para a qual há dispensa de licitação, deveria ser um instrumento de justiça social e promoção do uso sustentável da terra, focado no público da agricultura familiar, que trabalha diretamente na terra e não possui outros imóveis. Porém, as leis vigentes acabam permitindo transferir terras públicas para quem descumpre lei ambiental, possui outros imóveis e não usa a terra para seu sustento direto”, afirma a pesquisadora Brenda Brito, autora da pesquisa.

Conforme a Constituição, a destinação de terras públicas deve priorizar o reconhecimento de terras indígenas, territórios quilombolas e de comunidades tradicionais, além da criação de unidades de conservação, concessões florestais e políticas de acesso à terra para agricultura familiar.

A regularização fundiária de ocupações individuais de médios e grandes imóveis até 2.500 hectares pode ocorrer apenas quando não houver sobreposição com essas prioridades, mas poucas das leis avaliadas explicitam esses impedimentos.

Sem essa previsão nas regras fundiárias, os órgãos fundiários podem não adotar procedimentos para verificar se há demandas prioritárias que deveriam impedir a titulação de ocupações individuais. 

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Governos cobram em terras públicas até 95% a menos que o mercado

Outro grande incentivador da grilagem na Amazônia por meio das leis de regularização fundiária é o baixo preço cobrado pelas terras públicas. De acordo com o estudo, o preço cobrado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão responsável por conceder títulos individuais de terras públicas, é, em média, 77% menor que o valor de mercado, chegando a 90% em três estados: Maranhão, Mato Grosso e Pará.

A discrepância é ainda maior nas legislações estaduais, nas quais o preço base cobrado pelos governos representa em média apenas 5% do valor de mercado por hectare. Além disso, as leis fundiárias concedem descontos expressivos para quitação à vista ou por outros fatores, reduzindo ainda mais o custo de aquisição da terra. Há também amplas facilidades de parcelamento e períodos de carência prolongados.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é grilagem de terras?

Área de floresta derrubada no noroeste do Mato Grosso. Foto: Mayke Toscano/Secom/MT/Fotos Públicas

“Esses benefícios acabam diminuindo o risco do investimento em ocupações ilegais. Na prática, são subsídios financeiros para que invasores e desmatadores de terras públicas possam se tornar donos legítimos delas, contribuindo para a manutenção do ciclo de grilagem na Amazônia e impedindo investimentos em desenvolvimento sustentável nessas áreas”, explica o pesquisador Josevando Silva, também autor da pesquisa.

Leia também: Portal Amazônia responde: qual foi a primeira lei ambiental do Brasil?

União e estados descumprem determinação do STF

Além disso, em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que União e estados adotem regras que impeçam a titulação de terras em áreas com desmatamento e queimadas ilegais, decisão que ainda não foi cumprida.

Segundo a pesquisa, nenhuma norma impõe uma vedação absoluta à titulação de imóveis alvo de crimes ambientais, como o desmatamento. Em apenas três estados, Pará, Rondônia e Amapá, há proibições parciais.

“As poucas restrições existentes não abrangem imóveis com desmatamento ilegal que ainda não tiveram fiscalização. Essa ilegalidade pode ser facilmente detectada pelos próprios órgãos fundiários durante a análise de pedidos de regularização, que utilizam imagens de satélite para avaliar o imóvel. Assim, qualquer desmatamento deveria ser comunicado aos órgãos ambientais e aqueles ocorridos após julho de 2008 (de acordo com o Código Florestal) deveriam impedir a titulação do imóvel”, alerta Brenda.

Desmatamentos de terras.
Área de terra desmatada. Foto: Proteção Animal Mundial

Além disso, cinco estados não estabelecem data limite para ocupação elegível à titulação, o que cria incentivos para novas ocupações de terra pública. Nos estados que possuem este tipo de marco temporal, as datas variam de 2008 a 2021, e algumas leis (como a federal e de Roraima) já estenderam esses prazos ao longo do tempo.

“Essas extensões para ocupações cada vez mais recentes das terras públicas reforçam a expectativa de que novas ocupações sempre poderão ser beneficiadas com mudanças na lei, o que também favorece a grilagem”, complementa a pesquisadora.

O estudo ressalta que estabelecer um marco temporal para regularização fundiária individual difere do que se tentou fazer com direitos territoriais indígenas. Os povos originários têm garantia constitucional ao seu território tradicionalmente ocupado, não sendo possível limitar seu direito à prova de que sua ocupação estava ocorrendo em uma data específica. Porém, esta lógica não se aplica a ocupações individuais privadas em terra pública.

Saiba mais: Governo Federal investe R$ 132 milhões em regularização fundiária na Amazônia

Recomendações para adequação as normas

Esses incentivos à grilagem colocam mais de 100 milhões de hectares de terras públicas não destinadas em risco de invasão e desmatamento na Amazônia, dos quais 52% pertencem aos estados e 48% à União. Uma área maior do que o estado de Mato Grosso ou do que a França e a Alemanha juntas. Por isso, a pesquisa aborda sete recomendações principais:

  • Impedir titulação de terra de ocupações individuais sobrepostas a áreas requeridas por povos e comunidades tradicionais: Explicitar proibição de titulações individuais sobrepostas a florestas públicas e territórios ocupados, pleiteados e reconhecidos por povos indígenas, comunidades quilombolas, populações tradicionais. Além disso, vedar a possibilidade de emissão de título de terra em imóveis formados majoritariamente por área de floresta (acima de 80% de cobertura florestal).  
  • Definir  uma data limite para ocupação de terra pública que pode ser titulada: Explicitar a data limite para ocupação elegível para regularização fundiária, preferencialmente seguindo a regra federal. Esta recomendação se aplica apenas a ocupações individuais, não sendo pertinente para demandas territoriais coletivas, como de povos indígenas. Além disso, incluir previsão na constituição dos estados impedindo a alteração da data definida.  
  • Impedir titulação de imóveis desmatados após o Código Florestal: Proibir a regularização de imóveis com desmatamento ou queimadas ilegais ocorridas após 22 de julho de 2008, data definida pelo Código Florestal para área rural consolidada.  
  • Restringir a titulação à função social da terra: Definir renda máxima mensal da família do requerente (para doação), impedir titulação para quem possui outro imóvel ou já foi beneficiado com regularização fundiária, exigir ocupação e exploração direta (pelo requerente e família), além de morada permanente. Proibir titulação para quem ocupa cargo público no Poder Executivo, Legislativo e Judiciário.  
  • Criar requisito de gênero: Inserir obrigação de emitir título em nome do casal, incluindo em uniões estáveis e uniões homoafetivas.  
  • Cobrar preços de mercado pela terra: Cobrar preços compatíveis com o mercado de terra, usando como referência o Atlas de Mercado de Terras elaborado pelo Incra.  
  • Impedir desmatamento ilegal no futuro: Exigir cumprimento do Código Florestal e prever perda do imóvel em casos de desmatamento ou queimadas sem autorização de órgão ambiental. Além disso, manter esta obrigação por prazo mínimo de dez anos, mesmo se houver quitação do valor do imóvel antes desse período.

Estudo integra Observatório das Políticas de Governança de Terras (OPGT)

A pesquisa “Análise Comparativa da Legislação de Regularização Fundiária na Amazônia Legal“ integra uma série de estudos realizados para o Observatório das Políticas de Governança de Terras (OPGT), do qual o Imazon é uma das organizações participantes.

Criado em 2025, o OPGT é um coletivo técnico e acadêmico formado por pesquisadores, profissionais especializados e organizações da sociedade civil cuja missão é ser uma referência nacional no monitoramento das políticas públicas de governança de terras.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Imazon

Ufam passa a integrar projeto internacional de fortalecimento de pesquisas sustentáveis

Foto: Divulgação

A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) passou a integrar, em 2026, o projeto internacional ECOS (Higher Education Partnership to Promote Sustainable Communities: Advancing Teaching and Research in Ecological Construction and in the Optimization of Renewable Energy Systems), voltado ao fortalecimento do ensino e da pesquisa nas áreas de construção ecológica e fontes renováveis de energia, com ênfase em energia solar fotovoltaica.

A iniciativa foi submetida em julho de 2025 no âmbito da chamada Sustainable Development Goals, do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). O acordo de cooperação reúne a Ufam, a Technische Hochschule Ingolstadt (THI) da Alemanha, e a Universidad EIA da Colômbia.

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Pela UFAM, participam diretamente os professores Alessandro Bezerra Trindade, do Departamento de Eletricidade e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PPGEE), e Caren Michels, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Design (PPGD), que atuaram na elaboração da proposta.

O projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), com destaque para:

  • ODS 4 (Educação de Qualidade),
  • ODS 7 (Energia Acessível e Limpa),
  • ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura)
  • e ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis).

Também dialoga com os ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) e 17 (Parcerias para os Objetivos).

Intercâmbio acadêmico e modernização de laboratórios

Entre as atividades previstas no plano de trabalho estão workshops de revisão curricular para atualização de disciplinas da graduação e da pós-graduação nas áreas de construção ecológica e energias renováveis, além da realização de palestras conjuntas, hackathons, eventos acadêmicos híbridos, intercâmbios e pesquisas colaborativas.

O projeto também prevê a aquisição de literatura especializada e equipamentos para modernização de laboratórios, intercâmbio de docentes entre as instituições parceiras e estágios de pesquisa para estudantes da graduação e da pós-graduação. A proposta inclui ainda a criação de uma Comunidade de Prática (CoP), com encontros periódicos voltados à troca de experiências acadêmicas e metodológicas, além de mesas-redondas com representantes da indústria, governo e sociedade civil.

Ufam oferece vários cursos voltados à Amazônia. Foto: Divulgação/Ufam
Ufam oferece vários cursos voltados à Amazônia. Foto: Divulgação/Ufam

Alinhamento com o PDI da Ufam

De acordo com o documento encaminhado à Reitoria, o projeto ECOS também está alinhado às metas do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2026-2030 da Ufam, especialmente nas áreas de internacionalização, formação acadêmica e fortalecimento de redes de pesquisa internacionais. Entre os pontos destacados estão a ampliação de parcerias internacionais para a pós-graduação e a promoção da capacitação docente

Segundo o coordenador do projeto na Ufam, professor Alessandro Bezerra Trindade, todas as ações financeiras e administrativas relacionadas à aquisição de equipamentos e gestão dos recursos serão conduzidas pela instituição alemã parceira, não havendo repasse direto de recursos financeiros à Universidade.

Leia também: 6 curiosidades da fauna e flora da UFAM que você não conhecia

O alinhamento do projeto ECOS com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável amplia as possibilidades de desenvolvimento de pesquisas aplicadas na Ufam, especialmente nas áreas de construção ecológica, energias renováveis, inovação, infraestrutura sustentável e formação acadêmica. Nesse contexto, a participação da Universidade em atividades de internacionalização torna-se fundamental, pois permite a inserção da Ufam em redes de cooperação científica, acadêmica e tecnológica, projetando cada vez mais sua atuação em um cenário global.

A assessora de relações internacionais e interinstitucionais, Sheila Cordeiro, destaca a importância da participação da Ufam em uma parceria internacional com a THI, da Alemanha, e a EIA, da Colômbia, estabelecendo debates sobre sustentabilidade, transição energética e Amazônia.

“A iniciativa fortalece a internacionalização institucional por meio de intercâmbio de docentes e discentes, estágios de pesquisa, eventos acadêmicos, hackathons, mesas-redondas com stakeholders e cooperação científica aplicada, contribuindo para ampliar a visibilidade da Ufam e reafirmar seu papel como instituição amazônica produtora de conhecimento e soluções sustentáveis”, afirma.

*Com informações da Ufam

Da damurida ao pudim: como as mulheres da Serra da Lua reinventaram o uso do tucupi

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Foto: Fabrício Araújo/ISA

Derivado da mandioca brava, o tucupi é um preparo artesanal de fermentação, típico dos indígenas do Norte. É como se fosse uma calda de mandioca cujo preparo leva horas de cozimento para remover toxinas venenosas. 

Já o tucupi preto é uma redução do amarelo, tem uma consistência similar a de brigadeiro de panela e durante décadas apenas quatro mulheres de Roraima – Carol, Lorena, Terezinha e Norma – eram capazes de prepará-lo. As wapichana que viviam mais próximas à Guiana Inglesa foram as responsáveis por desenvolver a receita.

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Enquanto o tucupi amarelo era usado em molhos de pimenta e tacacá, o preto tinha o uso restrito à damurida, um prato típico dos indígenas de Roraima, um tipo de sopão de peixe com pimentas. 

Há uma década, Norma e a até então sogra Carolina da Silva enxergaram um potencial maior na iguaria preta. Em uma conversa rotineira, elas resolveram experimentar o ingrediente em saladas, pato, frango, pães, pudins e até sorvete. 

“O amarelo serve para fazer damurida, para preparar molho de pimenta. Já o tucupi preto também usávamos para a damurida, mas eu resolvi experimentar na galinha caipira, no pato e como molho para salada. Depois, eu tive a ideia de fazer um pudim de tucupi preto. Eu nunca vi ninguém fazer, mas tive curiosidade e quis experimentar”, disse Norma.

A cozinheira wapichana descobriu a paixão pela culinária na vida adulta. Se inspirou em Ana Maria Braga reproduzindo receitas exibidas no programa Mais Você, cozinhou em dezenas de eventos na Terra Indígena Yanomami e criou receitas com o tucupi preto que encantaram a comunidade dela.

As comunidades Wapichana da região do lavrado de Roraima são tradicionalmente agricultoras de mandioca e produtoras de farinha. O tucupi é um dos subprodutos da mandioca com os quais os Wapichana trabalham. 

Leia também: Como usar o tucupi em 5 receitas da culinária da Amazônia

A descoberta da profissão

Norma é uma cozinheira natural da Terra Indígena Tabalascada, localizada na região da Serra da Lua, no município de Cantá, em Roraima – o estado mais ao norte do Brasil.

A wapichana trabalha desde os 13 anos, foi babá, doméstica, manicure, mas só começou a se descobrir como cozinheira aos 29 anos quando iniciou a venda de cachorro-quente e salgados durante o dia e espetinhos de churrasco durante a noite.

“Eu aprendi a fazer salgados com o senhor que me fornecia para venda. Um dia ele resolveu ir embora e só me disse: ‘não vou mais vender salgado para você. Eu vou te ensinar a fazer e vou deixar meus materiais para você’”, relembrou com um sorriso no rosto.

Leia também: Chef Wapichana Kalu Brasil lança livro de receitas indígenas

Quando chegou aos 36, Norma sentiu vontade de explorar receitas diferentes e resolveu testar o que via Ana Maria Braga preparar em seu programa de TV no canal aberto. Ela ainda lembra exatamente qual foi a primeira receita que replicou.

“Eu sempre gostei de assistir a Ana Maria. Admirava as receitas até que resolvi experimentar. A primeira receita que eu repliquei dela foi um bolo de abacaxi, na hora que eu vi, eu pensei: ‘vou fazer para o Natal’”, contou.

Norma exibindo o sorvete de tucupi preto que fez especialmente para equipe do ISA em Roraima. Foto: Fabrício Araújo/ISA

Norma administrou o próprio negócio por um ano e meio. Então, em junho de 2004 recebeu o convite para se juntar à equipe de cozinha do Instituto Insikiran, um espaço de formação superior para indígenas da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

“Na cozinha do Insikiran, nos dias de quarta-feira e sexta-feira, eu ficava na churrasqueira assando carne para 500 alunos. Também ajudava fazendo salgados, bolo e suco para os estudantes”, contou com orgulho da própria trajetória.

Até que em julho de 2007 ela recebeu o convite para cozinhar nos eventos da Hutukara Associação Yanomami (HAY). Desde então, ela nunca mais parou de trabalhar em parceria com a HAY e com o Instituto Socioambiental (ISA). 

Norma afirma que já perdeu as contas de quantas visitas fez ao território Yanomami, tendo atuado principalmente na região do Demini, local que tem o xamã Davi Kopenawa como maior liderança.

“Estive em todos os Fóruns de Lideranças da Terra Indígena Yanomami, em todas as assembleias da Hutukara, quase todos os Encontros de Mulheres, estive em várias oficinas de formação. São 19 anos de relação com os yanomami e ye’kwana e estive, inclusive, no aniversário de 20 anos da Hutukara”, afirmou.

Atualmente, ela conta com uma equipe de seis ajudantes que a acompanham em eventos promovidos pelo ISA e pela Hutukara. Sobre o futuro, ela só tem uma certeza: “não me vejo parando de cozinhar, é o que eu gosto”.

Preparo tradicional

O tucupi é um ingrediente tradicional dos indígenas do norte do Brasil. Usado em molhos de pimenta, tacacá e na damurida, ele acrescenta textura e sabor aos pratos. O cozimento do tucupi leva horas, pois exige cuidado para retirar a toxina venenosa que, segundo Norma, é capaz de “derrubar um boi”.

“O tucupi para quem não conhece é difícil explicar, mas ele vem da mandioca. É uma calda de mandioca, é isso que é o tucupi”, explica Carolina da Silva, a wapichana que ensinou Norma a como reduzir o tucupi amarelo.

Embalagem do tucupi preto produzido pelas wapichana para venda. Foto: Fabrício Araújo/ISA

As mulheres da Serra da Lua trabalham em todas as etapas desde a plantação. Elas colhem, raspam, lavam, sevam, retiram a goma, deixam o líquido decantar por seis horas, coam dentro de uma panela e cozinham em fogo médio. 

“Esse cozimento precisa ser no fogo de lenha, conforme se cozinha, sobe uma espuma que é o veneno do tucupi, então vamos tirando a espuma, quando reduzir dois dedos tira o panelão do fogo, passa para outra panela coando e cozinha até reduzir”, explica Norma.

O processo de cozinhar e coar é repetido até que o tucupi amarelo fique preto. Norma afirma que ele está no ponto certo quando começa a parecer um brigadeiro. Em nenhuma etapa as mulheres adicionam açúcar à mistura e ainda assim o tucupi preto possui um sabor forte de doce, mas não chega a ser enjoativo.

Ainda de acordo com Norma, o tucupi preto demanda grande quantidade de mandioca. Em um de seus testes ela chegou a reduzir 60 litros de tucupi amarelo que renderam 2,5 litros de tucupi preto. Atualmente, cada pote de tucupi preto é vendido com 300ml.

Os Baniwa que vivem no Rio Negro também produzem o tucupi preto, mas com diferenças de sabor, textura e coloração da iguaria wapichana. O dos Baniwa costuma ser mais ácido lembrando um molho shoyu.

Marcolino da Silva, analista do ISA, pesquisou a agricultura tradicional da Tabalascada. Ele analisou a relação dos produtos com o avanço do capital em uma monografia publicada em 2018. Esta pesquisa aponta a mandioca como um produto base na alimentação e economia dos wapichana.

“A mandioca é o alimento básico e mais tradicional, é consumida na forma natural em alimentos derivados, como o caso do beiju, a farinha d’água, goma, farinha de goma, carimã, tucupi, sobretudo, é utilizada também na produção de bebidas, como, pajuarú ou caxiri servidos como complementação de alimentação. Geralmente, o caxiri, por exemplo, é servido nos trabalhos comunitários ou nos trabalhos individuais e em festas comemorativas culturais”, diz trecho da pesquisa.

Leia também: Portal Amazônia responde: a mandioca é tóxica?

Kanyzzy Pudidi’u e a retomada do conhecimento

Natural de uma área da Terra Indígena Tabalascada, muito próxima à Guyana Inglesa, Carolina afirma que o segredo no preparo do tucupi preto já era conhecido há décadas pelas mulheres que vieram antes dela na família.

“Eu aprendi a fazer há muito tempo, as minhas avós já faziam o tucupi, mas era só para a damurida. Eu aprendi quando tinha oito anos e tem uns 20 anos que trabalho com o tucupi negro. Depois que montamos o projeto, ensinamos como fazer para os mais jovens. Há vários que estão aprendendo e não são só mulheres, não”, afirma Carol.

Durante anos, o conhecimento ficou compartilhado entre apenas quatro mulheres até que Norma e Marcolino buscaram o ISA em julho de 2017 a fim de fortalecer o projeto Kanyzzy Pudidi’u (nome do tucupi preto em Wapichana), envolvendo  a juventude e mostrando as possibilidades gastronômicas do produto para cozinheiros também de fora das aldeias.

O propósito era repassar os conhecimentos aos mais jovens a partir da perspectiva de valorização dos produtos da roça, do trabalho e dos conhecimentos das agricultoras indígenas. 

Assim, o projeto começou com oficinas de formação envolvendo 30 pessoas. Entre os participantes, havia dois professores com o objetivo de levar o conhecimento para as escolas da Tabalascada.

O ponto de encontro para as oficinas era o Sítio Recanto da Roça. Antes, o local havia sido invadido e transformado em uma fazenda. Então, após a homologação da Terra Indígena Tabalascada, em 19 de abril de 2005, ocorreu a desintrusão e este sítio se tornou um espaço comunitário.

Por ser um símbolo de retomada para os Wapichana, o Sítio Recanto da Roça também foi escolhido para a construção da Casa da Mandioca. O local guarda ferramentas necessárias para a abertura de roças, pois o tucupi demanda grande quantidade de mandioca, e para o preparo de produtos diversos, como farinha e beiju.

No início, Norma era a responsável por conduzir o projeto. Então, com o conhecimento difundido, a comunidade decidiu que era a hora de passar o bastão para a juventude. Mickelly Pereira é coordenadora do projeto atualmente.

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo Instituto Socioambiental, escrito por Fabrício Araújo

Estudo comprova efeito neuroprotetor do açaí em cérebros adolescentes

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Foto: Miguel Monteiro/ Instituto Mamirauá

Euterpe oleracea, popularmente conhecida como açaí, é uma fruta amazônica amplamente consumida pelas populações locais do estado do Pará. Em razão do seu alto teor de compostos bioativos, o açaí tem ganhado atenção nacional e internacional como alimento funcional e nutracêutico.

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Isso porque a ciência tem comprovado diversas das propriedades tradicionalmente relatadas pelos povos da Amazônia: o açaí possui atividade anti-inflamatória, antioxidante, anticancerígena, cardioprotetora e neuroprotetora. 

Esses benefícios estão diretamente ligados aos compostos fenólicos presentes na fruta, especialmente as antocianinas (cianina-3-glucosídeo e cianidina-3-rutinosídeo), responsáveis pela cor roxa do açaí.

Leia também: Pesquisa indica informações técnicas e econômicas sobre o cultivo do açaí no Amazonas

Estudo comprova efeito neuroprotetor do açaí em cérebros adolescentes
Foto: Alexandre Ruiz/Envato

Nas comunidades ribeirinhas, o consumo de açaí é comumente praticado desde os primeiros anos de vida e é associado a uma sensação de ‘relaxamento’.

A curiosidade sobre esse efeito amplamente conhecido pela população local deu luz a uma parceria científica que tem mostrado como o fruto pode atuar como um importante neuroprotetor, com ação contra ansiedade e depressão em adolescentes.

Da Bélgica ao Pará

Esse fruto tão saboroso e único encantou o professor Hervé Rogez, um cientista belga que reside há 32 anos no Pará. Atualmente, ele coordena o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Motivado a conhecer melhor as propriedades do açaí, o professor Hervé e seus alunos percorrem as áreas de várzea das ilhas ribeirinhas que cercam Belém (PA) para coletar frutos de açaí.

A ideia era tentar entender se essa sensação de relaxamento estaria também ligada aos compostos fenólicos do fruto. Ele então me procurou, por minha expertise em avaliação neurocomportamental associada ao uso de substâncias psicoativas, como coordenadora da área de comportamento do Laboratório de Farmacologia da Inflamação e do Comportamento (LAFICO).

Imagem colorida mostra açaí brotando em árvora
Estudo comprova efeito neuroprotetor do açaí em cérebros adolescentes. Foto: Divulgação/ Idam

Leia também: Pesquisadores da UFPA indicam que o açaí pode proteger a retina de diabéticos

O professor Hervé liderou o desenvolvimento do suco de açaí clarificado, um produto biotecnológico obtido através da centrifugação e microfiltração da polpa do açaí, representando uma fração aquosa, rica em polifenóis e sem fibras, proteínas, carboidratos e lipídios. Desta forma, qualquer resultado apontado em pesquisa pode ser associado aos compostos fenólicos, e não aos demais constituintes do açaí.

E esse suco de açaí clarificado foi então avaliado num projeto liderado pela doutoranda Taiana Simas, orientada pelo professor Hervé e por mim e que também assina esse texto, como um possível fator neuroprotetor contra ansiedade e depressão.

A pesquisa

A adolescência é marcada por um período de vasta maturação cerebral, onde se tem o refinamento das sinapses, intensa remodelação estrutural e funcional, reorganização de circuitos neurais e elevada plasticidade sináptica. Por conta disso, o cérebro adolescente tem maior sensibilidade a fatores ambientais e estressores — como, por exemplo, o uso de drogas ou álcool.

Por isso, nos interessava investigar como esse suco de açaí clarificado poderia proteger cérebros adolescentes em desenvolvimento. E, como em todas as pesquisas científicas dessa natureza, começamos com os testes preliminares. Investigamos, assim, a ação do suco em ratos do sexo masculino, com idades equivalentes ao início da adolescência humana (aproximadamente 10-18 anos).

Um estudo anterior do professor Hervé constatou que as comunidades do entorno de Belém consomem por volta de 500mL de açaí por dia e que o teor de antocianinas na polpa do açaí está em torno de 865mg/L. Para mimetizar o consumo da população ribeirinha da Amazônia, calculamos a dose para os animais: 5,85mL de suco clarificado de açaí.

Estudo comprova efeito neuroprotetor do açaí em cérebros adolescentes; Foto: Reprodução/Acervo/Rede Amazônica AP

Leia também: Minidocumentário mostra como o açaí se tornou identidade de ribeirinhos no Pará

Os ratos recebiam o suco através de pequenos bebedouros posicionados nas gaiolas, e podiam tomar livremente o açaí clarificado durante um período de 12 horas por dia, entre 18h e 6h.

Após 10 dias de ingestão do suco de açaí clarificado, os animais foram submetidos a uma bateria de testes comportamentais a fim de investigar os comportamentos do tipo ansioso, depressivo, além de efeitos sobre a cognição.

Foram realizados os seguintes testes nos animais:

  • Teste do campo aberto: os animais são colocados numa arena de livre locomoção. Em geral, animais apresentam uma clara aversão ao centro do equipamento, visto que as paredes são consideradas locais seguros para os ratos. Assim, foram avaliados o quanto os animais deambularam nos espaços do aparato, e o aumento de locomoção na área central reflete um comportamento menos ansiogênico do animal.
  • Teste do labirinto em cruz elevado: tem-se um aparato em formato de cruz, com duas extremidades opostas fechada e duas opostas abertas, em que se avalia a emocionalidade relacionada a um comportamento ansioso do animal, analisando o conflito entre a tendência natural de roedores de explorar novos ambientes e a aversão às áreas abertas. É considerado um teste padrão-ouro para esse tipo de comportamento.
  • Teste do labirinto em Y: num equipamento constituído por três braços idênticos, um dos braços é fechado durante a fase de treinamento e posteriormente aberto para investigação. Com isso, analisa-se o índice de novidade versus familiaridade do animal, que está relacionado à capacidade do animal de reconhecer um espaço anteriormente já visitado, e assim, é considerado um teste para avaliação de memória.
  • Teste do nado forçado: em um cilindro com água à profundidade de 40cm, avalia-se o tempo de imobilidade do animal. Esse teste é utilizado como um indicador do comportamento do tipo depressivo.

O estudo mostrou que a introdução do suco clarificado do açaí na rotina alimentar dos animais não promoveu nenhuma alteração em sua locomoção. Por outro lado, induziu um comportamento ansiolítico, demonstrado pela maior exploração da área central do campo aberto pelos animais que consumiram o açaí.

O efeito de redução do comportamento do tipo ansioso foi confirmado pelo teste do labirinto em cruz elevado, cujos resultados mostraram aumento da porcentagem de entrada e tempo nos braços abertos, além da diminuição do índice de ansiedade e da porcentagem de tempo no braço fechado, indicando um comportamento ansiolítico nos animais que consumiram a bebida.

Diminuição de estresse oxidativo

Outro importante resultado comportamental foi o efeito do tipo antidepressivo, observado através da diminuição do tempo de imobilidade no teste do nado e aumento do tempo de escalada dos animais que consumiram o suco clarificado.

O estudo também realizou a avaliação de possíveis benefícios na diminuição do estresse oxidativo ocasionados pela suplementação da bebida clarificada. O açaí exibiu uma resposta antioxidante através do aumento da glutationa peroxidase (uma enzima antioxidante que protege as células contra o estresse oxidativo) no córtex pré-frontal, que é uma área cerebral importante para a emocionalidade e tomada de decisão.

O aumento da glutationa peroxidase significa o menor acúmulo de espécies reativas de oxigênio, menor dano oxidativo a lipídios, proteínas e DNA, além de maior proteção celular e manutenção da função neuronal.

Leia também: Conheça o processo de produção do açaí até ficar pronto para consumo

Da floresta ao mercado: desafios e oportunidades para os sistemas produtivos locais na Amazônia
Estudo comprova efeito neuroprotetor do açaí em cérebros adolescentes. Foto: Reprodução/ Unicamp

Em outra região importante do Sistema Nervoso Central para os comportamentos emocionais — a amígdala —, o açaí apresentou uma redução do dano oxidativo, que parece ter contribuído para os efeitos comportamentais observados.

Na região do hipocampo, outra importante região encefálica para o comportamento, o açaí aumentou a atividade enzimática da catalase, o que reforça a regulação das defesas antioxidantes centrais.

O estudo, portanto, demonstrou que, por ser rica em antocianinas, a suplementação de açaí clarificado atua modulando a capacidade neuroprotetora, promovendo efeitos do tipo ansiolítico e antidepressivo em animais adolescentes, ou seja, em fase de neurodesenvolvimento.

Claro que o estudo possui limitações: ainda estamos na fase dos testes em animais e precisamos de mais pesquisas para elucidarmos completamente as vias relacionadas aos efeitos ansiolíticos e antidepressivos do açaí. Mas nossos resultados se mostram promissores rumo a mais uma comprovação científica de benefícios do açaí há tempos conhecidos das comunidades ribeirinhas.


*Este artigo é fruto de uma nova parceria do The Conversation Brasil com o Amazônia Vox

Autores

  1. Cristiane do Socorro Ferraz Maia– Professora Titular do Instituto de Ciências da Saúde, Faculdade de Farmácia, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  2. Eneas de Andrade Fontes Junior– Professor Associado II do Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  3. Hervé Rogez – Professor titular, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  4. Jofre Jacob da Silva Freitas – Professor titular de Histologia, Universidade do Estado do Pará (UEPA)
  5. Marta Eduarda Oliveira Barbosa – Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas, Universidade Federal do Pará (UFPA)
  6. Taiana Cristina Vilhena Carvalheiro-Simas – Doutoranda em Farmacologia e Bioquímica, Universidade Federal do Pará (UFPA)

*O conteúdo foi originalmente publicado pelo The Conversation sob a licença Creative Commons, com a colaboração de seis pesquisadores. Leia o original AQUI.

The Conversation

Música, poesia e sons da Amazônia aproximam estudantes da criação artística em Manacapuru

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Foto: Pedro Carrilho

A cidade de Manacapuru (AM) recebeu mais uma etapa do ‘Amazônia das Palavras – Quarta Edição’, projeto que percorre municípios do interior do Amazonas promovendo oficinas literárias, atividades culturais e ações de incentivo à leitura e à arte em escolas públicas. A programação aconteceu na Escola Estadual José Seffair, reunindo estudantes, educadores e comunidade escolar em torno da literatura, da música e da formação humana.

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Conhecida como a “Princesinha do Solimões”, Manacapuru é um dos municípios mais populosos do Amazonas, com cerca de 100 mil habitantes. Localizada às margens do Rio Solimões e ligada a Manaus pela Rodovia Manuel Urbano, a cidade carrega forte tradição cultural, marcada especialmente pelo Festival de Cirandas, além da relação cotidiana com os rios, a floresta e os sons característicos da vida amazônica.

Durante a programação do projeto, estudantes participaram de oficinas de produção literária, slam, cinema, animação, moda, música e outras linguagens artísticas. Entre elas, ganhou destaque a oficina “Música e Literatura”, conduzida pelo compositor, cantador e educador Thiago Thiago de Mello.

A arte como descoberta

Criado no interior da Amazônia, na cidade de Barreirinha, Thiago desenvolve projetos artísticos e pedagógicos guiados pela relação entre palavra, memória, música e território amazônico. Em sua oficina, os estudantes foram convidados a criar composições a partir de sons da natureza, objetos do cotidiano e experiências vividas na própria região.

A proposta partiu da ideia de que a arte pode funcionar como instrumento de descoberta pessoal e expressão criativa.

“Quando a gente fala sobre educação, a origem da palavra remete a ‘tirar de dentro’. Não é colocar algo de fora, mas fazer com que os alunos percebam aquilo que já existe neles”, afirma o oficineiro.

Música, poesia e sons da Amazônia aproximam estudantes da criação artística em Manacapuru
Foto: Divulgação

Segundo ele, o principal objetivo da atividade foi despertar nos estudantes o sentimento de autoria e pertencimento artístico. “Muita gente pergunta quais autores eu trabalho nas oficinas. E eu sempre respondo: se eu conseguir, não vou trabalhar com nenhum, porque os autores e autoras estão sentados na minha frente. São os próprios alunos”, destaca.

Leia também: Amazônia das Palavras: quarta edição realiza programação cultural e educativa em Coari

Ao longo da oficina, os participantes utilizaram sons produzidos por objetos simples, referências da natureza amazônica e memórias auditivas do cotidiano para construir narrativas musicais e poéticas.

Para Thiago, a arte também ocupa um papel importante na formação emocional e humana dos estudantes. “A escola é um lugar de aprendizagem em muitas áreas, mas também precisa ser um espaço para falar da importância da arte, da poesia e da música como formas de expressão e transformação”, completa.

Música como forma de expressão

Entre os estudantes, a oficina despertou identificação imediata com a música e com o processo criativo. A aluna Isabel Miranda Conceição destacou o envolvimento da turma durante as atividades. “Estou aprendendo coisas novas sobre música e sobre composição. O professor é muito intuitivo, diverte a gente e faz com que a gente participe mais. A música ajuda muito a expressar aquilo que às vezes a gente não consegue falar”, relata.

A estudante também comentou sobre a relação afetiva que possui com a música no cotidiano. “Eu gosto muito das letras, das melodias, dos poemas. Muitas vezes a música fala por mim”, afirma.

Representando a direção da Escola Estadual José Seffair, a professora e pedagoga Sandra Mara Acioles destacou o impacto da programação dentro do ambiente escolar e a importância do acesso dos estudantes a diferentes experiências culturais.

“Projetos como o Amazônia das Palavras ampliam o olhar dos estudantes e mostram que a educação também acontece através da arte, da música e da literatura. É uma oportunidade de despertar talentos, fortalecer a criatividade e incentivar os alunos a enxergarem novas possibilidades para o próprio futuro”, afirma, em nome da diretora da escola, Meiriane Ferreira Vieira.

Além das oficinas realizadas ao longo do dia, o projeto promoveu programação cultural gratuita aberta ao público durante a noite, com apresentações artísticas, exibição audiovisual, homenagens literárias e espetáculo circense com o Palhaço Xuxu.

Foto: Divulgação

Percurso segue pelo Amazonas

Após a passagem por Manacapuru, o Amazônia das Palavras segue para os municípios de Iranduba e Manaus, mantendo a proposta de levar literatura, arte e formação cultural a diferentes regiões do estado.

O Amazônia das Palavras – Quarta Edição é patrocinado pela TAG, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura; apoio da Cigás; promoção da Fundação Rede Amazônica. Realização da Associação Mapinguari, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Startup de Rondônia é habilitada pelo Ministério da Saúde para integrar o Laboratório InovaSUS Digital

Foto: Divulgação/UNIR

A startup Ecotech Amazônia, criada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), foi recentemente habilitada pelo Ministério da Saúde (MS) para integrar o Laboratório InovaSUS Digital. Com o resultado final da seleção de parceiros digitais divulgado no fim de abril (acesse aqui), a iniciativa reforça o protagonismo da Amazônia no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

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A startup Ecotech Amazônia foi selecionada por meio de um chamamento público coordenado pela Secretaria de Informação e Saúde Digital do MS, passando a compor um banco estratégico de instituições aptas a desenvolverem projetos voltados ao SUS Digital e ao programa Agora Tem Especialistas.

Inovação desenvolvida a partir da realidade amazônica

Um dos principais diferenciais da startup está justamente na forma como enfrentou desafios reais da vigilância em saúde. A principal solução apresentada, a plataforma EGGSCAN-AI, voltada ao monitoramento do Aedes aegypti, surgiu a partir de um problema prático: a baixa qualidade das amostras de palhetas das ovitrampas coletadas em campo.

Coletadas em ambiente externo, as amostras frequentemente apresentam sujeira, presença de outros insetos e variações que dificultam a identificação dos ovos do mosquito, que são extremamente pequenos.

Leia também: Ovitrampas: nova estratégia vai monitorar o Aedes aegypti em Manaus para combater a dengue

Startup de Rondônia é habilitada pelo Ministério da Saúde para integrar o Laboratório InovaSUS Digital
Foto: Divulgação/UNIR

Segundo o coordenador do programa, Ilton Alves, o desenvolvimento da plataforma enfrentou obstáculos importantes relacionados à qualidade das amostras coletadas em campo.

“Os principais desafios técnicos foram encontrar um padrão nas palhetas, que vêm com muita sujeira e insetos por serem coletadas em campo. Nenhum algoritmo convencional funcionou por causa da dificuldade em identificar os ovos do Aedes aegypti, que são muito pequenos. A solução foi usar scanners de impressoras para gerar imagens de alta qualidade em ambiente controlado e viabilizar o treinamento da inteligência artificial”.

Após cerca de dois anos de testes sem sucesso com métodos convencionais, a equipe da startup encontrou uma solução criativa: utilizar scanners de impressoras comuns para capturar imagens em alta resolução e em ambiente controlado. A estratégia permitiu gerar grandes volumes de imagens com qualidade suficiente para treinar os modelos de inteligência artificial, superando um dos principais gargalos do projeto.

Tecnologia acessível e eficiente

Outro ponto que diferencia a EGGSCAN-AI é sua acessibilidade. Ao contrário de outras soluções que exigem microscópios ou equipamentos de alto custo, a plataforma foi desenvolvida para funcionar com um scanner doméstico e em ambiente web, sem necessidade de infraestrutura avançada.

O sistema utiliza redes neurais especializadas em visão computacional, mas foi otimizado para operar sem uso intensivo da Unidade de Processamento Gráfico (GPU), o que permite sua adoção por municípios e equipes com recursos limitados.

Leia também: SUS na Amazônia: ponto de atendimento à saúde é inaugurado onde uma consulta podia exigir até 3 dias de viagem de barco

Além disso, a tecnologia foi pensada especificamente para o substrato oficial utilizado pelo Ministério da Saúde, a palheta de fibra de madeira, o que facilita sua integração com os protocolos já existentes no país.

Testada em 130 palhetas reais coletadas em campo, a solução alcançou cerca de 98% de precisão em comparação com a contagem manual feita por especialistas. Na prática, isso significa reduzir significativamente o tempo de análise e ampliar a capacidade de monitoramento sem necessidade de ampliar equipes.

Startup integra ensino, ciência e tecnologia

O desenvolvimento da plataforma também evidencia o papel da formação acadêmica na inovação. Três estudantes participaram diretamente do projeto, integrando diferentes áreas do conhecimento.

O pesquisador William Cardoso Barbosa iniciou sua trajetória ainda na graduação, na UNIR, e atualmente integra o programa de pós-graduação em Ciências de Computação e Matemática Computacional da Universidade de São Paulo (USP). Atuando no desenvolvimento técnico da solução, ele foi responsável pela modelagem da inteligência artificial, processamento das imagens e construção da plataforma web.

Já os estudantes Matheus de Araújo Paz e Mirilene Mendes Martins, vinculados ao programa de Biologia Experimental da Fiocruz em parceria com a UNIR, atuaram na parte entomológica do projeto. Eles foram responsáveis pela instalação das ovitrampas, pela coleta das amostras em Porto Velho e pela contagem manual dos ovos em microscópio, etapa essencial para treinar e validar o sistema.

A colaboração entre computação e biologia foi determinante para o sucesso da iniciativa, unindo conhecimento técnico e experiência de campo.

Próximos passos 

Com a habilitação no InovaSUS Digital, a Ecotech Amazônia passa a integrar um seleto grupo de instituições aptas a colaborar com o Ministério da Saúde em projetos estratégicos. Embora não haja contratação imediata, a startup poderá ser acionada para futuras demandas dentro do SUS.

A expectativa agora é avançar para novas etapas de validação e expansão da tecnologia, ampliando seu uso em diferentes regiões do país e contribuindo para o enfrentamento de arboviroses que seguem como um dos principais desafios da saúde pública brasileira.

*Com informações da UNIR

Formigas ajudam a recuperar florestas, mas falta de dados reduz seu uso na restauração

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A interação das formigas funciona como uma engenharia invisível. Foto:

Quando as sementes caem muito perto da planta-mãe, as novas mudas acabam competindo com a própria “família” por luz, água e nutrientes. A proximidade derruba as chances de sobrevivência. Para resolver o problema, a natureza usa dispersores que levam as sementes para novos territórios. Em áreas degradadas, onde vertebrados frugívoros — como mamíferos e aves de maior porte — já desapareceram devido à caça excessiva e ao desmatamento, as formigas assumem o protagonismo e atuam como pequenas engenheiras na reconstrução dos ambientes naturais.

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Um novo estudo brasileiro, recém-publicado na revista Brazilian Journal of Biology, revela um grave apagão de dados sobre como as formigas atuam na dispersão de sementes em biomas ameaçados, como a Amazônia, o Pantanal e o Pampa. A pesquisa foi conduzida por especialistas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

A equipe analisou dez anos de literatura científica global e descobriu que a maioria das pesquisas nacionais prioriza apenas a mata atlântica e o cerrado. O dado é ainda mais paradoxal quando se considera que o Brasil foi o país com o maior número absoluto de publicações sobre o tema no período analisado, com 27 artigos — 17,9% de toda a produção mundial

Formigas ajudam a recuperar florestas
Foto: Ayrton Lopes/Fapeam

Mesmo liderando globalmente, a ciência brasileira concentra esse esforço em apenas dois biomas, deixando vastas regiões sem qualquer informação empírica. A ausência de informações nos outros ecossistemas acontece exatamente durante o avanço acelerado do desmatamento e das queimadas, o que bloqueia a compreensão real sobre o funcionamento dessas áreas.

“Na prática, isso cria um ‘apagão de informação’: justamente onde mais precisamos de conhecimento ecológico, sabemos menos. E isso pode levar a estratégias de conservação menos eficientes ou até equivocadas, porque estamos tomando decisões sem conhecer bem os processos naturais que sustentam esses ecossistemas”, alerta Ricardo Vicente, pesquisador da UFAM e um dos autores do estudo.

Formigas tem parceria pouco explorada

Na natureza, essa parceria recebe o nome de mirmecocoria e opera à base de recompensa. As plantas desenvolvem uma parte nutritiva acoplada à semente. Os insetos levam a estrutura até o ninho, consomem apenas a parte de interesse e descartam a semente intacta em um local rico em matéria orgânica, favorecendo a germinação.

O artigo aponta uma falha comum na ciência mundial: apenas 17,9% dos estudos analisados verificaram explicitamente se as sementes foram de fato dispersas ou simplesmente consumidas pelas formigas, e somente 16,6% realizaram testes para avaliar se as sementes permaneciam viáveis após o manuseio pelos insetos.

“O problema é que muitos estudos registram apenas que a formiga ‘removeu’ a semente, mas não acompanham o que acontece depois. No campo, isso costuma ser interpretado como algo negativo, como se a formiga estivesse apenas consumindo ou destruindo a semente”, explica o cientista.

Leia também: A vida secreta das formigas: estudo revela diferenças entre formigas terrestres e arborícolas da Amazônia

Esse erro de método acaba gerando confusão entre a dispersão verdadeira e a predação (quando o inseto de fato destrói a semente). Sem provas claras, gestores ambientais costumam encarar todas as formigas como vilãs devido ao histórico de pragas das cortadeiras. Na prática, o medo leva ao uso desnecessário de inseticidas em áreas de plantio florestal.

“Sem esse entendimento sobre a ‘remoção de sementes’, existe o risco de tomar decisões baseadas em percepção e não em evidência, como eliminar indiscriminadamente formigas que poderiam estar ajudando na recuperação da área”, destaca Vicente.

Os autores defendem agora a adoção de metodologias padronizadas que exijam o acompanhamento do destino final das sementes nos trabalhos de campo. Ao mapear as melhores parcerias ecológicas, os formuladores de políticas públicas terão a chance de aproveitar o trabalho silencioso dos insetos para baratear e turbinar a restauração das florestas brasileiras.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori