Após registrar três dias mais quentes do ano numa mesma semana, com temperaturas que ultrapassaram os 36°C, Manaus (AM) enfrenta um período de calor intenso, estiagem e aumento de focos de queimadas. Diante desse cenário, a Prefeitura de Manaus passou a reforçar orientações para prevenir problemas de saúde em crianças, grupo considerado mais vulnerável aos efeitos das altas temperaturas e da piora da qualidade do ar.
As altas temperaturas aumentam o risco de desidratação, insolação, exaustão pelo calor e agravamento de doenças respiratórias, principalmente entre menores de cinco anos, prematuros, crianças com deficiência e aquelas com doenças crônicas, como asma.
O alerta ocorre em meio a um período mais seco que o normal. Dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) mostram que Manaus registrou cerca de 3,5 milímetros de chuva nos primeiros dez dias de agosto, o equivalente a aproximadamente 1% da média esperada para o período.
Segundo a chefe do Núcleo de Atenção à Saúde da Criança e do Adolescente da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Janaína de Sá Terra, as orientações estão sendo reforçadas nas unidades de saúde devido ao calor intenso e à estiagem registrados durante o verão amazônico.
Uma das dicas é evitar que crianças brinquem expostas ao sol entre 9h a 16h. Foto: Reprodução/Pixabay
Como proteger as crianças
Entre as principais recomendações da especialista estão:
Oferecer água com frequência, mesmo sem que elas sintam sede;
Manter a amamentação em livre demanda para bebês menores de seis meses;
Priorizar frutas, verduras e legumes ricos em água;
Evitar refrigerantes, bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados;
Não deixar crianças sozinhas dentro de veículos, nem por poucos minutos;
Evitar exposição ao sol entre 9h e 16h;
Dar preferência a roupas leves, claras e confortáveis;
Manter os ambientes ventilados e com equipamentos de climatização limpos;
Reduzir atividades ao ar livre em dias com muita fumaça de queimadas.
Quais sinais podem indicar desidratação?
Os responsáveis devem procurar atendimento médico se a criança apresentar:
Boca seca;
Diminuição da urina;
Ausência de lágrimas ao chorar;
Olhos fundos;
Sonolência excessiva;
Irritabilidade;
Fraqueza ou prostração;
Respiração acelerada;
Pulso fraco.
Fumaça exige atenção redobrada
Além do calor, a fumaça das queimadas pode provocar irritação das vias respiratórias e agravar doenças como asma e outras condições respiratórias.
“Nos dias em que houver intensa fumaça proveniente de queimadas ou piora da qualidade do ar, a recomendação é que sejam evitadas atividades físicas e a permanência prolongada ao ar livre”, orientou Janaína.
A pediatra Lucíola Peixoto ressalta que as crianças são mais vulneráveis aos efeitos do calor e da fumaça.
“A gente sabe que o organismo delas é bem diferente do adulto. A temperatura corpórea das crianças não tem uma regulação igual ao do adulto. A criança perde água mais facilmente, o que dificulta regular a temperatura do corpo de forma mais eficiente”, explica.
Segundo a médica, bebês, menores de cinco anos, prematuros e pacientes com doenças crônicas estão entre os grupos que exigem maior atenção durante o período de estiagem.
*Com informações da Rede Amazônica AM e Prefeitura de Manaus
Manaus fica localizada a mais de dois mil quilômetros do epicentro do terremoto que atingiu a Colômbia. Foto: Divulgação/Prefeitura de Manaus
O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia no dia 10 de agosto foi sentido também por moradores de prédios localizados em Manaus, no Amazonas. O abalo sísmico, considerado o mais forte da década no país colombiano, deixou mais de 230 mortos e cerca de três mil desaparecidos, segundo os números divulgados pelo governo nacional nesta quarta-feira (12).
Mas por que um terremoto ocorrido há mais de dois mil quilômetros de distância conseguiu ser sentido por manauaras? De acordo com o mestre em geologia e especialista em engenharia geotécnica, Adnilson Cruz da Silva, a explicação está nas características geológicas da região onde ocorreu o terremoto e também no solo da capital amazonense.
“Manaus vai sentir esse efeito do tremor que aconteceu na Colômbia em decorrência do embasamento rochoso. Aquela região da Colômbia está em uma zona de confluência de placa tectônica, entre a placa de Nazca e a placa Sul-Americana. O embasamento rochoso faz com que essas ondas se propaguem a longa distância”, explicou.
O embasamento rochoso é a camada de rocha que fica abaixo do solo e de outros materiais, como areia, argila e sedimentos. Ele funciona como a base sólida do terreno e pode estar mais perto ou mais distante da superfície, dependendo da região. Para o especialista, as características do subsolo de Manaus também contribuíram para que as ondas sísmicas fossem percebidas na cidade.
“A região de Manaus está localizada em uma região de bacia sedimentar, principalmente na Formação Alter do Chão, que é esse solo que a gente vê sob Manaus. Essa formação é muito profunda. Existem zonas mapeadas dentro de Manaus que chegam a mais de um quilômetro e meio de profundidade”, disse.
Por que o tremor é mais percebido em prédios altos?
Moradores que estavam em edifícios, principalmente nos andares mais altos, relataram ter percebido o movimento com maior intensidade. Segundo o especialista, isso ocorre devido à ressonância das estruturas.
“Como esses prédios localizados em Manaus são prédios mais altos, a partir do oitavo andar, nessas estruturas se percebe essa ressonância. Elas começam a funcionar como se fossem um pêndulo invertido. Então, as pessoas que estão localizadas acima do oitavo andar acabam sentindo, mas é um efeito normal”, explicou.
O movimento, segundo ele, ocorre por causa da movimentação elástica das estruturas e não significa, por si só, que o prédio esteja sofrendo danos. “Esse balanço por ressonância seria um movimento seguro e não preocupante. Ele é percebível pela movimentação elástica das estruturas. Elas balançam, mas tendem a voltar ao normal. Elas não levam a uma ruptura. Só se percebe esse balanço, que é comum”, afirmou.
Apesar do susto causado pelo tremor, Adnilson explica que a distância entre Manaus e San José del Palmar, onde ocorreu o epicentro do terremoto, faz com que as ondas cheguem à capital com intensidade muito menor.
“Manaus está distante dessa região, então não vão chegar grandes vibrações aqui, só vai chegar a ressonância desses abalos”, disse.
O especialista também destaca que, mesmo não estando em uma área de ocorrência frequente de terremotos, os edifícios de Manaus são projetados para suportar movimentações provocadas por ventos fortes. Ele explica que isso ocorre devido a uma norma brasileira que estabelece critérios relacionados à ação dos ventos nas estruturas.
Lustre treme dentro de apartamento em Manaus. Vídeo: Reprodução/g1 AM
Mapa mostra epicentro do terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia em 10 de agosto de 2026. Arte: Reprodução/Rede Amazônica AM
“Mesmo que a gente não esteja numa zona sísmica, os prédios de Manaus acabam sendo construídos para resistir às ventanias que balançam esses prédios. Existe uma norma, a 6123, que garante que os prédios novos trabalhem para ter resistência a fortes ventanias. Então, não apresentaria riscos aos nossos prédios”, explicou.
Terremoto na Colômbia
O terremoto de magnitude 7,4 atingiu a Colômbia na segunda-feira (10). Segundo balanço oficial do governo divulgado nesta quarta-feira (12), 233 pessoas morreram e mais de 500 ficaram feridas. O tremor provocou o colapso de 61 edifícios e 1.300 casas, deixando pessoas presas sob os escombros. As equipes de emergência trabalham na busca por possíveis sobreviventes.
O epicentro do tremor ocorreu em San José del Palmar, no oeste colombiano, a uma profundidade de 110 km, segundo a agência geológica dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês).
A cidade fica a cerca de 230 km de Bogotá e a cerca de 150 km de Medellín e de Cáli. Uma réplica de magnitude 5.0 e 100 km de profundidade foi registrada cerca de uma hora depois. (Veja mapa abaixo).
O tremor foi o mais forte registrado na Colômbia na última década, segundo o Serviço Geológico do país.
*Com informações de Karla Mendes, da Rede Amazônica AM
Dados sobre o desmatamento na Amazônia são analisados pelo Sistema Deter. Foto: Marcello Nicolato/ Unicamp
O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) indicou que as áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia registraram redução de 36,05%, que totaliza 2.874,38 km2, entre agosto de 2025 a julho de 2026. O dado foi divulgado no dia 7 de agosto durante uma coletiva de imprensa realizada em São José dos Campos (SP). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin participaram da reunião.
O resultado representa o menor valor da série histórica, iniciada em 2016. O número ficou abaixo da média dos últimos dez ciclos. A divulgação dos dados coincide com o aniversário de 65 anos do instituto, completados no dia 3 de agosto.
O Deter também analisou áreas de desmatamento no bioma Cerrado, apontando redução de 7,8%, com 5. 119,46 km² de área identificados entre agosto de 2025 e julho deste ano. Diferentemente da Amazônia, nas áreas de Cerrado registradas, a maior parte é de propriedade privada.
Estados onde foi detectado desmatamento por km²
Pará (987,27 km²)
Mato Grosso (834,41 km²)
Amazonas (433,9 km²)
Roraima (272,6 km²)
Acre (153,8 km²)
Rondônia (114,3 km²)
Em relação ao ano anterior, o Pará apresentou redução de 25,5%; o Mato Grosso, de 49%; o Amazonas, de 46,7%; o Acre, de 35,3%; e Rondônia, de 41,2%. Em Roraima, os alertas registraram aumento de 32,5%. No Cerrado, os alertas apresentaram uma queda de 7,8%, com 5.119,46 km² identificados no mesmo intervalo. Além disso, no Maranhão, concentrou-se a maior área sob alerta, com 1.276,92 km².
FIEAM articula implantação de selo fiscal para indústrias de água mineral no Amazonas. Foto: Reprodução/FIEAM
A implantação de um sistema de rastreabilidade para a indústria de águas minerais voltou ao centro da agenda do setor produtivo amazonense. Em reunião realizada no dia 5 de agosto, na sede da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), o presidente da entidade, Antonio Silva, reuniu representantes da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), da Associação Brasileira da Indústria de Águas Minerais Naturais (Abinam), do Sindicato Nacional da Indústria de Águas Minerais Naturais (Sindinam) e do setor industrial para discutir a implantação, no Amazonas, do Selo Fiscal de Controle e Procedência para água mineral, água natural e água potável de mesa.
Embora tenha como base um mecanismo de fiscalização tributária, a proposta apresentada durante o encontro foi tratada como uma ferramenta de governança do mercado. O sistema reúne três funções complementares (sanitária, ambiental e fiscal), permitindo rastrear cada embalagem desde a linha de envase até o consumidor final, ampliando a transparência da cadeia produtiva e fortalecendo o combate à informalidade.
Para o presidente da FIEAM, Antonio Silva, o debate ultrapassa a questão arrecadatória e está diretamente relacionado à competitividade da indústria instalada no Amazonas. Segundo ele, a implantação do selo fiscal é uma pauta construída ao longo dos últimos cinco anos e representa uma resposta à necessidade de assegurar isonomia entre empresas que cumprem suas obrigações legais e aquelas que atuam à margem das exigências fiscais e regulatórias.
“Há cinco anos trabalhamos nesse pleito. Os argumentos são sólidos e estão baseados em experiências concretas de outros estados. Precisamos dar uma resposta definitiva, porque a concorrência precisa acontecer em igualdade de condições”, afirmou.
FIEAM articula implantação de selo fiscal para indústrias de água mineral no Amazonas. Foto: Divulgação
A experiência apresentada pela Abinam mostra que o modelo já está consolidado em estados como São Paulo, Ceará, Goiás, Pernambuco e Alagoas. O sistema utiliza um identificador eletrônico (DataMatrix) impresso diretamente nas embalagens, permitindo identificar fabricante, produto, data de envase, linha de produção e demais informações vinculadas à origem da água. Todo o processo é integrado eletronicamente aos sistemas da Secretaria da Fazenda, proporcionando monitoramento da produção em tempo real e consulta pública da procedência do produto.
Selo tem como objetivo segurança do consumidor
Ao apresentar o modelo, o presidente da Abinam e do Sindinam, Carlos Lancia, enfatizou que o sistema não deve ser interpretado apenas como um mecanismo de fiscalização tributária. “Esse não é um selo arrecadatório. Ele é, primeiro, sanitário; depois ambiental; e, por último, fiscal. Ele protege o consumidor, fortalece o controle ambiental e promove uma competição mais justa entre as empresas”, destacou.
Outro aspecto destacado durante a reunião foi o baixo impacto financeiro da medida. Conforme a apresentação técnica, os equipamentos necessários para operação do sistema são fornecidos pela empresa credenciada, sem investimento do Estado ou das indústrias, enquanto o custo do selo fiscal é estimado em R$ 0,03 por unidade produzida.
Sob a perspectiva econômica, os defensores da proposta argumentam que a ampliação do controle tende a reduzir distorções competitivas no mercado. Segundo o advogado Rafael Oliveira, a medida beneficia principalmente as empresas que cumprem integralmente suas obrigações tributárias, trabalhistas e ambientais.
“A Federação das Indústrias é a casa das boas causas. Não defendemos interesses isolados, mas um ambiente de negócios mais saudável. Há empresas que assumem todos os custos da regularidade e outras que não cumprem as mesmas obrigações. O selo fiscal contribui para reduzir essa assimetria competitiva”, afirmou.
FIEAM articula implantação de selo fiscal para indústrias de água mineral no Amazonas. Foto: Divulgação
Do ponto de vista regulatório, a principal discussão concentrou-se nos procedimentos necessários para implementação da medida. O secretário executivo da Receita da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz-AM), Luiz Aurélio Leite, afirmou que a proposta do selo fiscal encontra receptividade técnica, mas ressaltou que eventuais incentivos fiscais vinculados ao selo fiscal exigem observância das regras do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), incluindo estudos de impacto e tramitação específica.
“Entendemos a proposta com bons olhos. Ela é importante para o controle e para a saúde pública. O que precisamos é avaliar os impactos e cumprir todos os procedimentos legais para que sua implementação ocorra com segurança jurídica”, afirmou.
Na avaliação do deputado estadual Sinésio Campos, presidente da Comissão de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás, Energia e Saneamento da Assembleia Legislativa, o debate já atingiu maturidade suficiente para avançar. “Diversos estados brasileiros já adotaram esse modelo. Estamos falando de uma iniciativa que reúne proteção ambiental, segurança sanitária e controle tributário, pilares fundamentais para o desenvolvimento do setor”, afirmou.
Também presente à reunião, o secretário de Estado de Energia, Mineração e Gás, Ronney Peixoto, avaliou que existe um ambiente institucional favorável para que a proposta avance. “O segmento quer, o Estado quer, e a sociedade ganha com mais segurança. Vamos trabalhar para superar os pontos técnicos restantes e entregar esse resultado para o Amazonas”, declarou.
Ao final do encontro, o consenso entre os participantes foi de que a discussão deixou de ser sobre a viabilidade técnica do sistema e passou a concentrar-se na definição do melhor caminho jurídico e administrativo para sua implementação. A expectativa é que a proposta avance nos próximos meses, consolidando um modelo capaz de ampliar a segurança do consumidor, fortalecer a fiscalização e elevar a competitividade da indústria de águas minerais no Amazonas.
Orientações contra maus-tratos aos animais são divulgadas em Porto Veho. Foto: Divulgação/Secom Porto Velho
Um latido de dor, um animal preso sem água ou comida, um cachorro abandonado em situação de sofrimento. Infelizmente, cenas como essas ainda fazem parte da realidade e, muitas vezes, poderiam ser evitadas com uma simples denúncia.
Em Porto Velho (RO), orientações de fortalecimento para proteção animal e agilidade no atendimento tem sido divulgadas à população. Quais órgãos devem ser acionados? Entenda como funciona o sistema em cada tipo de ocorrência envolvendo maus-tratos a animais:
Foto: Reprodução/Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas
Quando o animal estiver dentro de uma residência ou propriedade particular, a denúncia deve ser feita imediatamente pelo 190. A ocorrência será encaminhada à Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes Contra o Meio Ambiente (DERCCMA), responsável pela investigação dos crimes contra animais. Caso seja necessário apoio de fiscalização ambiental, a população também pode entrar em contato com a DFIS/SEMA, pelo telefone (69) 98423-4092.
Já quando o animal estiver em vias públicas, ferido, abandonado ou sofrendo maus-tratos, o contato deve ser feito diretamente com a Coordenadoria de Proteção Animal, pelo telefone (69) 98423-4091. Para agilizar o atendimento, é importante que o denunciante informe o endereço ou localização exata, descreva o que aconteceu, informe se o animal ainda permanece no local e, sempre que possível e com segurança, envie fotos ou vídeos da situação.
Combate aos maus-tratos é coletivo
De acordo com André Oliveira, Coordenador de Proteção Animal da Sema, a colaboração da população é fundamental para garantir uma resposta rápida e proteger animais que muitas vezes não têm como pedir ajuda.
“Toda denúncia é importante e pode representar a diferença entre a vida e a morte de um animal. Pedimos que a população não se omita. Ao identificar qualquer situação de maus-tratos ou abandono, procure o canal correto e forneça o máximo de informações possíveis. Quanto mais detalhes recebemos, mais rápido conseguimos agir para proteger esses animais”.
“Nossa gestão tem o compromisso de fortalecer a proteção animal em Porto Velho. Estamos organizando os canais de atendimento para que cada denúncia seja encaminhada ao órgão competente com mais rapidez e eficiência. Cuidar dos animais também é cuidar da nossa cidade. Contamos com a participação da população para denunciar qualquer ato de crueldade e garantir que os responsáveis sejam responsabilizados”, disse o prefeito Léo Moraes.
Indígenas aprendem técnicas para tornar mais seguro o uso do fogo no preparo das roças e na limpeza de áreas. Foto: Lucas Wilame/Rede Amazônica RR
O risco de períodos mais quentes e secos provocado pelo El Niño tem feito comunidades indígenas de Roraima a mudarem a forma de lidar com o fogo. Na Terra Indígena São Marcos, em Boa Vista, moradores estão reduzindo o uso das queimadas nas roças e participam de treinamentos para evitar que o fogo usado nas roças se transforme em incêndios de grandes proporções.
O El Niño é um fenômeno meteorológico e climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. O El Niño deve ganhar força no segundo semestre de 2026 e pode persistir até o início de 2027. Em Roraima, pode impactar em períodos mais quentes e secos, alterar o regime de chuvas e aumentar o risco de incêndios florestais.
Na comunidade Campo Alegre, na Terra São Marcos, cerca de 100 pessoas, entre estudantes e agricultores familiares indígenas, participaram de um treinamento sobre prevenção e combate ao fogo. Até agora, sete comunidades indígenas receberam o treinamento em todo o estado.
A capacitação faz parte de oficinas de educação ambiental realizadas em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Moradores da comunidade Campo Alegre, na Terra Indígena São Marcos, participaram de treinamento sobre prevenção e combate a incêndios. Foto: Lucas Wilame/Rede Amazônica RR
A ideia é orientar os indígenas sobre o uso seguro do fogo, tendo em vista que a prática faz parte da rotina nas comunidades, como o preparo das roças, a limpeza de áreas e a renovação de pastagens, conforme explica o supervisor estadual das Brigadas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) de Roraima, Bruno Eduardo Wapichana.
“As comunidades tradicionais que usam muito fogo tanto nas queimas prescritas, queimas controladas, rebrote de pastagem. Elas precisam estar ciente de que esse fogo colocado num período errado pode se tornar um grande incêndio florestal, trazendo muitas consequências não agradáveis à população”, disse.
Em Roraima, o período seco ocorre entre outubro e março. Com temperaturas mais altas e menor volume de chuva, aumenta o risco de incêndios em áreas de mata e no lavrado, tipo de savana comum no estado, presente na comunidade Campo Alegre.
Oficinas
Bruno explica que durante as oficinas, os indígenas aprendem técnicas de prevenção e manejo do fogo, além de orientações sobre reciclagem, descarte de resíduos e planejamento agrícola. O treinamento também aborda o chamado Manejo Integrado do Fogo, que busca tornar mais seguro o uso das queimadas em situações como o preparo para plantios.
Segundo o Ibama, algumas comunidades têm substituído ou reduzido o uso do fogo, enquanto outras aprendem a planejar melhor quando a prática ainda é necessária. A mudança faz parte da adaptação aos novos cenários e busca adaptar práticas tradicionais às novas condições do clima.
Plantações cultivadas no lavrado dependem das chuvas e ficam mais vulneráveis ao calor durante o período de estiagem. Foto: Lucas Wilame/Rede Amazônica RR
O segundo tuxaua da comunidade Campo Alegre, Jadeson Barista da Silva, afirma que a mudança ocorre porque as alterações no clima, causados pelo El Niño, já impactam o dia a dia e exigem que os conhecimentos sobre preservação sejam repassados às novas gerações. Por isso, os moradores participaram do treinamento.
“Estamos aprendendo mais ainda como trata o meio ambiente. A gente observa durante esse tempo o aquecimento global e nós já estamos sendo afetado. Nossa preocupação é que nós vamos transmitir pro nosso futuros, nossos jovens, de saber como é que vai ser no futuro, se a tendência, cada vez mais, é esquentar o globo terrestre”, disse.
Mudança para proteger território
Em Campo Alegre, a comunidade reduziu o uso do fogo e transferiu parte das roças das áreas de mata para o lavrado. A mudança também inclui evitar o plantio em áreas de mata para reduzir a pressão sobre a floresta e preservar os recursos naturais usados pelas comunidades.
O novo método, no entanto, trouxe outro desafio: as plantações no lavrado dependem do período de chuvas e ficam mais vulneráveis ao calor intenso durante a estiagem.
Segundo Jadeson, quando as temperaturas aumentam, a produção de mandioca é prejudicada e parte das plantações corre até o risco de ser perdida.
“Nossas roças que nós usávamos no leito dos rios, nós estamos transferindo elas para o lavrado. Só que o lavrado nós usamos no período de inverno, devido à chuva regar nossas roças. Só que quando chega o período de calor, nas manivas, as batatas, devido ao grande calor, cozinham e nisso não tem como a gente tirar a produção devido ao problema do aquecimento global”, explicou a liderança indígena.
Um dos agricultores indígenas que mantém plantações em uma área de lavrado é Auquino Pereira Augusto. Ele cultiva cerca de 60 variedades em cinco hectares, entre elas graviola, manga, abacaxi, banana, café, uva, feijão, pimenta, pimentão, cebolinha, mamão e maracujá. A produção é a principal fonte de renda da família.
Com as projeções de um período mais seco em razão do El Niño, Auquino teme não conseguir água suficiente para manter as plantações.
“Com certeza, me preocupa muito, porque a gente tem uma área de lavrado, é muito seca e a gente tem muitas plantações para molhar no dia a dia. A minha preocupação é não ter condição de molhar essas plantas todas. Pelo jeito que eu estou vendo, vou perder quase todas, porque a gente não está tendo água”, afirma.
A Terra Indígena São Marcos abrange os municípios de Boa Vista e Pacaraima. A comunidade Campo Alegre fica a cerca de 50 quilômetros da área urbana da capital.
O Brasil registrou, entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área sob alerta de desmatamento na Amazônia nos últimos dez anos, desde que foi iniciada a série histórica em 2016. A área sob alertas foi de 2.874,38 km², o que representa uma redução de 36% em relação ao período anterior, o menor valor registrado e um resultado 55,6% abaixo da média de 2015/2016 a 2024/2025. Já no Cerrado, a área sob alertas foi de 5.119,46 km², com redução de 7,8% em relação ao período anterior e o menor valor dos últimos cinco anos.
Os dados são do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) e foram apresentados na última sexta-feira, 7, na sede do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). São eles que produzem alertas diários para orientar ações de fiscalização e controle do desmatamento. Na ocasião, também foram divulgados os resultados do Prodes, que faz o mapeamento anual da supressão de vegetação nativa e produz dados utilizados no acompanhamento das políticas públicas de proteção dos biomas.
Vista aérea de trecho florestal da Amazônia. Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace
Queda do desmatamento em outros biomas
Cerrado. Foto: Paulo Bernardino
Os dados também apontaram a redução em áreas do desmatamento de outros biomas. Na Caatinga, a área desmatada foi de 2.289,54 km², uma redução de 34,3% em relação ao período anterior. Na Mata Atlântica, a área desmatada foi de 402,36 km², uma redução de 15,32%.
No Pampa, a área desmatada foi de 305,48 km², uma redução de 41,7%, e a maior queda proporcional entre os três biomas. Os dados e as apresentações técnicas do Deter e Prodes estão disponíveis na plataforma TerraBrasilis e nos canais oficiais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do INPE.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e atua em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico nas áreas espacial, atmosférica e ambiental. Desde 1988, o INPE produz estimativas anuais do desmatamento na Amazônia Legal. Atualmente, realiza também o monitoramento anual da supressão da vegetação nativa em todos os biomas brasileiros.
A inauguração da Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), marcou uma nova fase da arte visual roraimense. A exposição coletiva, que aconteceu no dia 7 de agosto, no Complexo de Artes da instituição, apresentou ao público um panorama da diversidade das artes visuais produzidas no estado. Entre artistas experientes e estreantes, mestres dos saberes tradicionais, estudantes universitários, artistas indígenas e não indígenas, a mostra trouxe diferentes formas de criar, narrar e compreender o território amazônico.
Realizada pelo Núcleo de Apoio à Vida de Boa Vista (Navibv), a exposição marcou também o encerramento da residência artística promovida pelo Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima. Ao todo, oito artistas integraram a mostra: Alcione Peres, Ehuana Yaira Yanomami, Francisco Alves, Isaías Miliano, Joana Fidélix, José Leonel Casado Cliffe (Anâkok Taûrepang), Luis Antonio Hernandez Garcia (Lu Is Art) e Sourrio Nascente.
Sete deles foram selecionados por edital para participar da residência artística, recebendo uma bolsa de criação de R$ 3 mil destinada ao desenvolvimento de pesquisas e produções inéditas. A artista visual Ehuana Yaira Yanomami participou como convidada e também integra a exposição.
Ancestralidade, território e identidade
Um dos aspectos que mais se destacou na exposição foi a presença de artistas indígenas de quatro povos distintos: Patamona, Macuxi, Taurepang e Yanomami. Suas obras dialogam com ancestralidade, preservação cultural, espiritualidade e a relação entre os povos originários e seus territórios.
Isaías Miliano. Foto: Paulo Trindade
Com mais de 35 anos dedicados às artes visuais, Isaías Miliano, do povo Patamona, levou para a mostra uma produção marcada pelo diálogo entre arte, memória, ancestralidade e defesa do território. Natural da Serra do Mutum e residente em Boa Vista, o artista mantém um ateliê no bairro Jóquei Clube, espaço que também recebeu atividades da residência artística e serviu como ambiente de criação e troca entre os participantes.
‘Artivista’ (escultor, artesão e artista plástico), Isaías utiliza a arte como instrumento de denúncia política e socioambiental, promovendo reflexões sobre os direitos dos povos indígenas, a preservação da natureza e o patrimônio rupestre de Roraima.
Na exposição, apresentou a instalação “Raízes Aéreas em Mutação”, obra que chama atenção para os impactos da contaminação dos rios, igarapés, lagos e bacias hidrográficas sobre a fauna e os modos de vida tradicionais. O trabalho integra também uma mostra em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, ampliando o alcance das discussões propostas pelo artista.
Representando uma nova geração de artistas indígenas, a wapichana Alcione Peres, de 24 anos, participou de sua primeira exposição. Estudante do curso de Artes Visuais da UFRR, ela destacou que a residência proporcionou muito mais do que aprendizado técnico.
“Eu particularmente aproveitei cada momento com os demais artistas, ouvindo suas experiências, trocando conversas, energia e boas risadas”, relatou a indígena.
Sua obra aborda a simbiose entre o ser humano e a terra. Para a artista, a exposição representou o início de novas oportunidades. “Espero que esse trabalho coletivo possa nos abrir portas além daqui”, afirma.
Joana Fidélix. Foto: Paulo Trindade
Também integrou a mostra a mestra indígena macuxi Joana Fidélix, referência na preservação dos saberes tradicionais relacionados à cerâmica. Recentemente, ela recebeu o Título de Notório Saber durante o Encontro de Mestras e Mestres do Notório Saber no Brasil, realizado em Maceió (AL), reconhecimento nacional por sua trajetória na valorização dos conhecimentos ancestrais.
Na residência artística, Joana compartilhou conhecimentos tradicionais com os demais participantes. Durante uma das imersões realizadas no Espaço Jamaxim, conduziu um momento simbólico de proteção, aplicando urucum em cada integrante do grupo antes do início das atividades. Na exposição, apresenta a obra Ko’ko.
Anâkok Taurepang. Foto: Paulo Trindade
Outro estreante na galeria foi José Leonel Casado Cliffe, de 22 anos, conhecido artisticamente como Anâkok, palavra da língua Taurepang que significa “pássaro misterioso”.
Embora tenha sido a sua primeira participação numa exposição nesse formato, ele explica que sua trajetória artística começou ainda na infância.
“Já venho construindo uma trajetória na arte independente, com participações em outras mostras e projetos visuais. Trago a bagagem que desenvolvi desde criança com o desenho, o carvão e, mais recentemente, com a pintura acrílica sobre tela”, contou.
Ehuana Yaira Yanomami. Foto: Paulo Trindade
Segundo o artista, suas obras dialogaram diretamente com a proposta da exposição. “Minhas obras focam na preservação cultural, na ancestralidade indígena e na conexão profunda com a terra. Através das cores e das formas, busco retratar a identidade e a espiritualidade que sustentam o meu povo no território”, explicou José.
Fechando o conjunto de artistas indígenas, Ehuana Yaira Yanomami foi convidada especial da residência artística. Professora, pesquisadora, artista visual e liderança do povo Yanomami, a artista é uma das principais referências da arte indígena contemporânea brasileira.
Natural da região do Demini, na Terra Indígena Yanomami, sua produção artística registra e compartilha aspectos da cosmologia, do cotidiano e do protagonismo das mulheres Yanomami. Suas obras já integraram importantes exposições nacionais e internacionais, incluindo mostras na Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, em Paris. Atualmente, também exerce o cargo de primeira tesoureira da Hutukara Associação Yanomami (HAY).
Sourrio Nascente. Foto: Paulo Trindade
Diversidade de linguagens
A pluralidade da exposição também se manifesta nas diferentes linguagens artísticas apresentadas ao público.
Pessoa não binária, Sourrio Nascente já participou de outras exposições, mas esta foi a de maior dimensão de sua trajetória até o momento. Em sua produção artística, utiliza materiais naturais, materiais reutilizados e técnicas que dialogam com a natureza e a espiritualidade a partir das vivências do cotidiano como pessoa trans, nortista e peregrine.
Segundo a artista, a produção dialoga com sua própria experiência de vida. “Essas obras falam sobre corpos não binários, corpos trans e espiritualidade. Trago para a minha arte essa conversa entre identidade, existência e o meu entendimento sobre o mundo”, contou.
Luis Antonio Hernandez. Foto: Paulo Trindade
O artista venezuelano Luis Antonio Hernandez Garcia, conhecido como Lu Is Art, também integrou a exposição. Com uma trajetória construída desde a infância, ele já participou de diversas mostras coletivas na Venezuela e no Brasil.
Francisco Alves. Foto: Paulo Trindade
Para esta exposição, apresentou a série “Symploké: os três gêneros da realidade”, composta pelas obras M1 Física, M2 Psicológica e M3 Ideal/Abstrata. Segundo o artista, participar da residência foi uma oportunidade de compartilhar o processo criativo com outros artistas que atuam em Roraima. “A exposição foi composta por grandes trabalhadores das artes e por uma ampla variedade de técnicas artísticas diferentes”, afirma.
A programação da abertura contará ainda com performances do artista e professor Francisco Alves, reconhecido por sua atuação nas artes cênicas em Roraima. Entre elas está Oratório Negro, intervenção que amplia a experiência do público e propõe reflexões sobre memória, identidade e resistência.
Contemplado pelo Programa Rouanet Norte e patrocinado pelo Banco do Brasil, o Nortear – Projeto de Formação e Fomento das Artes Visuais em Roraima busca fortalecer as artes visuais e a economia criativa na Região Norte. A iniciativa promove formação artística, incentivo à produção cultural e valorização da diversidade, reunindo artistas de diferentes trajetórias em processos colaborativos de criação.
Como visitar a Galeria de Arte Dam Kuy A’ki
A exposição poderá ser visitada gratuitamente de 10 de agosto a 10 de setembro, em dias úteis, das 14h às 18h, na Galeria de Arte Dam Kuy A’ki, localizada no Complexo de Artes da UFRR, na Avenida Ene Garcez, nº 2413, bairro Aeroporto, em Boa Vista, ao lado do Centro Amazônico de Fronteiras (CAF/UFRR).
Informações sobre o projeto Nortear – Formação e Promoção das Artes Visuais em Roraima e sobre as ações desenvolvidas pelo Navibv podem ser obtidas pelo telefone (95) 99172-1487, pelo e-mail navibv.boavista@outlook.com ou pelo Instagram.
Área de garimpo ilegal no interior do Amazonas. Foto: Divulgação
O Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça que obrigue órgãos federais e estaduais a criar uma estrutura permanente para combater o garimpo ilegal no Amazonas. A ação civil pública inclui rios, terras indígenas e unidades de conservação, do Vale do Javari ao rio Abacaxis.
O MPF quer a criação de uma coordenação permanente, um calendário integrado de operações, bases fixas de fiscalização e um plano estadual de combate ao garimpo ilegal. Também pede reforço de equipes e equipamentos.
São alvos da ação a União, o Governo do Amazonas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Segundo o MPF, investigações realizadas em diferentes regiões do estado mostram que o garimpo ilegal continua avançando mesmo após operações de fiscalização. O órgão atribui o problema, entre outros fatores, à falta de coordenação e continuidade entre as instituições.
“O que se pede aqui não é mais uma operação. Operação já houve, e muita: centenas de dragas foram destruídas e, meses depois, tudo estava de volta ao mesmo lugar. O que falta é organização permanente. Cada órgão trabalha isolado, sem planejamento comum e sem continuidade, e é justamente essa desorganização que garante ao garimpo ilegal a certeza de que pode voltar. Enquanto isso, o mercúrio segue no peixe que as comunidades comem todos os dias, e as pessoas seguem ameaçadas dentro das próprias aldeias”, ressalta o procurador da República André Porreca, titular do 2º Ofício da Amazônia Ocidental (19º Ofício da PR/AM) do MPF.
O que o MPF pede?
Entre as principais medidas solicitadas estão:
criação de uma estrutura permanente para coordenar os órgãos;
calendário anual de operações integradas;
plano estadual de combate ao garimpo ilegal;
bases fixas de fiscalização no Vale do Javari e nos rios Madeira, Japurá, Puruê e Abacaxis;
protocolo para prisões em flagrante;
participação permanente da Polícia Militar do Amazonas e do Ipaam;
apoio das Forças Armadas;
reforço de equipes e equipamentos.
Em caráter de urgência, o MPF pede que a estrutura de coordenação seja criada em até 60 dias e que o calendário de operações seja apresentado em até 90 dias.
O órgão também quer que a Justiça acompanhe o cumprimento das medidas por meio de relatórios e audiências.
Garimpo em diferentes regiões
Na sub-bacia do rio Madeira, um sobrevoo realizado em julho de 2025 registrou mais de 400 dragas entre Calama (RO) e Novo Aripuanã (AM). Em agosto de 2024, 459 embarcações haviam sido destruídas. Meses depois, imagens de satélite identificaram cerca de 130 balsas novamente na região.
Nos rios Japurá e Puruê, na fronteira com a Colômbia, a Polícia Federal identificou dragas avaliadas em mais de R$ 10 milhões e a atuação de dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
No Vale do Javari e no Alto Solimões, relatórios da Funai e do Ibama apontaram a presença de dragas, escavadeiras e pistas de pouso clandestinas em áreas indígenas, inclusive onde vivem povos isolados e grupos de recente contato.
Em Humaitá e na região do rio Abacaxis, as investigações registraram degradação ambiental, assoreamento de rios, grupos armados e episódios de violência relacionados ao garimpo.
Mercúrio e violência
Segundo o MPF, a expansão do garimpo também provoca contaminação por mercúrio e aumento da violência. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) citado na ação apontou que 21,3% das amostras de peixes analisadas em seis estados da Amazônia tinham níveis de mercúrio acima do limite de segurança.
Entre mulheres e crianças Yanomami das aldeias Maturacá e Ariabu, 56% apresentaram contaminação acima dos parâmetros de referência.
As investigações também registraram ameaças contra agentes públicos, confrontos durante operações e intimidação de lideranças indígenas. O MPF afirma ainda que o garimpo ilegal tem ligação com organizações criminosas, narcotráfico e lavagem de dinheiro.
Falta de estrutura
O MPF também aponta falta de servidores e equipamentos para a fiscalização. O Ibama informou ter 26 agentes ambientais federais no Amazonas. O ICMBio informou que a Estação Ecológica Juami-Japurá tem três servidores com perfil operacional.
Destruição de Garimpo ilegal. Foto: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
A Polícia Militar disse não ter embarcações próprias para patrulhar os rios. Já o Ipaam declarou não ter realizado ações de fiscalização em 2024 e afirmou não possuir conhecimento técnico para inutilizar balsas usadas no garimpo.
Segundo o MPF, uma operação da Polícia Federal chegou a ser cancelada devido à paralisação do Ibama. Para o órgão, o caso demonstra a falta de integração entre as instituições.
Tentativas antes da ação
Antes de recorrer à Justiça, o MPF realizou audiências públicas em outubro de 2025 e, no mês seguinte, enviou uma recomendação a 15 instituições.
Entre as propostas estavam a criação de uma estrutura permanente de coordenação, um calendário integrado de operações e bases fixas de fiscalização.
Segundo o MPF, mais de sete meses depois, nenhuma das medidas havia sido implementada.
“Roraima mostrou que o problema tem solução. A diferença entre os dois estados não está no tamanho do garimpo, está na existência de coordenação. É exatamente isso que o Amazonas não tem”, enfatiza o procurador da República André Porreca.
O manual Poranga Marandúa foi lançado na Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação
O manual de jornalismo indígena Poranga Marandúa, lançado no dia 10 de agosto na Câmara dos Deputados, em Brasília, é uma ferramenta inédita e reúne termos, orientações e princípios a partir da perspectiva dos povos indígenas.
Segundo a coordenadora geral da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), Luciene Kaxinawá, o manual é o resultado de um trabalho desenvolvido pela articulação entre mais de 40 povos indígenas.
“Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, reforça.
A primeira edição do Poranga Marandúa foi editada e revisada pela Organização Indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está disponível online, de forma gratuita.
Para os integrantes da Abrinjor, a chegada do manual, após um ano e meio de trabalho, é uma “boa notícia” – que é o significado da expressão Poranga Marandúa, na língua Nheengatu, da família Tupi-Guarani.
A inovação trazida pelo manual deve servir como um instrumento de trabalho para jornalistas em todo o país, mas também como uma ferramenta de educação, afirma Sônia Kaingáng, jornalista indígena pioneira e comunicadora do Inka.
“A gente precisa destacar que chegamos aqui pela via da educação. Nós somos brasileiros e temos visto que muitos brasileiros querem uma via que não é a da educação”, destaca.
Jornalismo e inclusão
Para a pesquisadora e comunicóloga Andreza Baré, são exatamente os jornalistas que saem das universidades e escolas de jornalismo que muitas vezes invisibilizam os povos indígenas.
“Essa é uma grande oportunidade que a gente oferece para os currículos, para as ementas dos cursos de jornalismo, que inclua esse manual como uma ferramenta pedagógica de redação antirracista para falar de povos indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais.”
Samela Sateré Mawé é assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e acredita que a ferramenta também servirá para estimular a chegada de mais indígenas a ocuparem os espaços de comunicação das entidades representativas e dos canais de comunicação de todo o país.
“Esse manual é uma porta que vai se abrir para dentro do movimento indígena que vai se abrir para os jornalistas indígenas ocupando esses espaços, porque ninguém melhor que a gente para falar sobre a gente”, conclui Samela.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Fabíola Sinimbú