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Poranga Marandúa: jornalistas indígenas lançam manual inédito de comunicação

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O manual Poranga Marandúa foi lançado na Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação

O manual de jornalismo indígena Poranga Marandúa, lançado no dia 10 de agosto na Câmara dos Deputados, em Brasília, é uma ferramenta inédita e reúne termos, orientações e princípios a partir da perspectiva dos povos indígenas.

Segundo a coordenadora geral da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), Luciene Kaxinawá, o manual é o resultado de um trabalho desenvolvido pela articulação entre mais de 40 povos indígenas.

“Este manual carrega essa diversidade e reafirma nosso compromisso com uma comunicação construída a partir dos nossos territórios, das nossas línguas e dos nossos modos de contar histórias”, reforça.

A primeira edição do Poranga Marandúa foi editada e revisada pela Organização Indígena Instituto Kaingáng (Inka) e está disponível online, de forma gratuita.

Para os integrantes da Abrinjor, a chegada do manual, após um ano e meio de trabalho, é uma “boa notícia” – que é o significado da expressão Poranga Marandúa, na língua Nheengatu, da família Tupi-Guarani.

Leia também: Constituição brasileira tem primeiras traduções para línguas indígenas além do Nheengatu

Foto do manural de jornalismo indígena poranga marandua
Imagem: Divulgação

A inovação trazida pelo manual deve servir como um instrumento de trabalho para jornalistas em todo o país, mas também como uma ferramenta de educação, afirma Sônia Kaingáng, jornalista indígena pioneira e comunicadora do Inka.

“A gente precisa destacar que chegamos aqui pela via da educação. Nós somos brasileiros e temos visto que muitos brasileiros querem uma via que não é a da educação”, destaca.

Jornalismo e inclusão

Para a pesquisadora e comunicóloga Andreza Baré, são exatamente os jornalistas que saem das universidades e escolas de jornalismo que muitas vezes invisibilizam os povos indígenas.

“Essa é uma grande oportunidade que a gente oferece para os currículos, para as ementas dos cursos de jornalismo, que inclua esse manual como uma ferramenta pedagógica de redação antirracista para falar de povos indígenas e de outros povos e comunidades tradicionais.”

Samela Sateré Mawé é assessora de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e acredita que a ferramenta também servirá para estimular a chegada de mais indígenas a ocuparem os espaços de comunicação das entidades representativas e dos canais de comunicação de todo o país.

“Esse manual é uma porta que vai se abrir para dentro do movimento indígena que vai se abrir para os jornalistas indígenas ocupando esses espaços, porque ninguém melhor que a gente para falar sobre a gente”, conclui Samela.

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Brasil, escrito por Fabíola Sinimbú

Seca em Roraima ameaça colheita de soja; risco é de 50% na queda da produção do alimento

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Plantação de soja pronta para colheita em Roraima. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro

A colheita da soja começou em Roraima, mas a falta de chuva durante o desenvolvimento das lavouras deve reduzir a produtividade da safra pela metade. A previsão inicial era superar 500 mil toneladas do grão, mas o estado pode deixar de colher aproximadamente 260 mil toneladas, conforme estimativa da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja).

No ano passado, Roraima colheu mais de 430 mil toneladas de soja. Neste ano, a falta de chuva, influenciada pelo El Niño, afetou o desenvolvimento das lavouras e reduziu a expectativa para a safra.

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O impacto também é financeiro, já que a Aprosoja estima que as perdas na colheita devem chegar a R$ 500 milhões. Considerando os impactos nos demais setores ligados ao agronegócio, o prejuízo para a economia de Roraima pode ultrapassar R$ 2 bilhões.

A falta de água que comprometeu as lavouras era prevista pelos órgãos de monitoramento climático. A estiagem está associada à influência do El Niño, fenômeno que altera o regime climático em diferentes regiões do país. A Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) havia alertado para os efeitos do fenômeno no estado durante este período.

Plantação de soja em Roraima. Foto: Raquel Maia/Rede Amazônica RR

Início da colheita

Na Fazenda Flórida do Norte, na zona rural de Boa Vista, as máquinas começaram a entrar nos talhões para colher há poucos dias. O produtor rural Lucas Cavalcante explica que a colheita ocorre de forma escalonada, conforme cada área atinge o ponto ideal. A soja cultivada na propriedade tem um ciclo de aproximadamente 90 dias, mas a falta de chuva também alterou o manejo de algumas áreas.

Apesar de as primeiras áreas apresentarem resultado satisfatório, Lucas afirma que a expectativa para o restante da colheita é de uma produtividade menor.

“A gente está tendo uma boa produtividade, poderia ser melhor, mas o estado sofreu muito com a seca este ano. Então as primeiras sojas a gente está tendo um bom resultado, mas a tendência daqui para frente é que infelizmente não seja um ano muito bom”, destacou.

Leia também: Soja, arroz e milho se destacam na safra da agricultura de Roraima em 2025

Colheitadeira de Soja em Roraima
Colheitadeira em plantação de soja em Roraima. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro

A água é fundamental para o desenvolvimento da soja, principalmente durante as fases de floração e enchimento dos grãos. Quando a planta passa por um período prolongado de estiagem, reduz a absorção e o transporte de água e nutrientes. Na prática, isso pode resultar na formação de menos grãos e no menor enchimento dos que já se desenvolveram, o que reduz o peso e, consequentemente, a produtividade final da lavoura.

Como a colheita ainda está em andamento na Fazenda Flórida do Norte, o produtor não consegue mensurar com precisão o tamanho da perda. A estimativa, no entanto, é de uma redução de aproximadamente 30% na produtividade, podendo ser ainda maior nas áreas mais afetadas pela falta de água.

Para o produtor, a atividade rural exige capacidade de adaptação diante das dificuldades e disposição para seguir produzindo mesmo quando as condições não são as esperadas.

“A gente sabia da possibilidade do El Niño, mas acho que ninguém previu que ia cortar tão cedo a chuva. Então assim é um ano bem difícil para o estado. É mais um desafio que a gente vai ter que enfrentar. O agricultor é resiliente, não desiste fácil. Então, os problemas que tiverem, a gente vai resolver e vai continuar trabalhando”, disse Lucas.

Em 2025, o estado tinha 132.421 hectares plantados. Para 2026, a estimativa era de aumento para 144.893 hectares, conforme previsão do governo, por meio da Secretaria de Agricultura, Desenvolvimento e Inovação (Seadi).

*Por Raquel Maia, da Rede Amazônica RR

Presidente Figueiredo, no Amazonas, mantém cultivo do cupuaçu mesmo com doença da vassoura-de-bruxa

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Vassoura-de-bruxa reduz cultivo, mas cupuaçu ainda garante sustento de famílias em Presidente Figueiredo. Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Presidente Figueiredo, no Amazonas, já foi referência na produção de cupuaçu. Hoje, a área cultivada caiu para pouco mais de 55 hectares por causa da doença conhecida como vassoura-de-bruxa. Durante a safra, agricultores despolpam o fruto e congelam a polpa para garantir renda ao longo do ano. Balas somem rápido das prateleiras. O mesmo acontece com o licor e o tradicional salame da fruta.

Para atender à demanda, as doceiras Carmem Ribeiro e Maria Aparecida intensificam a produção e aproveitam cada quilo de polpa armazenado. A atividade garante renda durante o ano inteiro, mas cresce ainda mais no período da Festa do Cupuaçu, quando a fabricação praticamente triplica.

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Vassoura-de-bruxa afeta plantações no Amapá desde 2023
Vassoura-de-bruxa reduziu áreas de cultivo do cupuaçu em Presidente Figueiredo. Foto: Reprodução/Embrapa

Maria Aparecida conta que já produziu bastante e corre para concluir encomendas antes da festa. Carmem Ribeiro confirma o aumento da procura.

“Muito trabalho, mas a gente produz e vende bastante. Todas as pessoas querem as balas nesse período”, reforça.

Por trás das iguarias está uma história de resistência. O cupuaçu, fruto tradicional da Amazônia, já teve grandes plantações em municípios como Presidente Figueiredo, Itacoatiara, Manacapuru e Autazes. Mas a vassoura-de-bruxa, doença causada por fungo, destruiu boa parte dos pomares.

O agricultor Withan Silva Laborda lembra que o cupuaçu já foi o carro-chefe da produção. Com a doença, houve queda e muitos deixaram de replantar, passando apenas a comercializar o que restava nas propriedades.

Hoje, agricultores apostam em espécies mais resistentes. Na propriedade de Alex Xavier, os cupuaçuzeiros já passam de três metros de altura. A expectativa é colher cerca de 650 quilos de polpa nesta safra.

Leia também: Terras das frutas: conheça municípios que são famosos pela produção no Amazonas

Agricultores de cupuaçu no município

cupuaçu
Foto: Felipe Santos da Rosa/ Embrapa

Segundo a Secretaria Municipal de Agricultura, Presidente Figueiredo tem hoje 98 agricultores cultivando a fruta em 55 hectares. Nas safras de 2025 e 2026, foram colhidas cerca de 165 toneladas, o equivalente a 63 toneladas de polpa. Os números mostram que a produção segue importante para o município, mas ainda está longe do potencial registrado décadas atrás.

O secretário de Produção Rural, Jean Barros, explica que já existem variedades resistentes e que há parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para fornecimento de material genético e mudas. Neste ano, a Secretaria de Produção Rural comprou mil quilos de polpa de cupuaçu e distribuiu para seis doceiras cadastradas. A medida garante matéria-prima e ajuda a preservar um dos sabores mais tradicionais da Amazônia.

*Por Francisco Carioca, da Rede Amazônica AM

Publicação em revista internacional destaca ameaças a terras indígenas na Amazônia

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A comunidade Huni Kuī do Centro Huwá Karu Yuxibu, em Rio Branco, no Acre, que teve 100 de seus 200 hectares queimados em 2019 é um dos exemplos da publicação. Foto: Denisa Sterbova/Cimi

Artigo científico publicado na revista internacional Nature Sustainability, no mês de julho de 2026, aponta as crescentes ameaças em terras indígenas na Amazônia, com destaque à Terra Indígena Vale do Javari, localizada no estado do Amazonas. A pressão se dá, principalmente, pelas frequentes atividades ilegais registradas na região, como desmatamento, mineração, exploração madeireira, caça, pesca ilegal e narcotráfico.

Um dos coautores da publicação é o professor Dr. Wilderclay Barreto Machado, docente do curso de Ciências Atmosféricas do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). O docente contribuiu com análises no âmbito do sensoriamento remoto aplicado aos estudos ambientais, que constitui um dos pilares metodológicos do trabalho, especialmente no uso de dados para o monitoramento do desmatamento e da degradação ambiental em terras indígenas amazônicas.

O sensoriamento remoto é a técnica de coletar dados e imagens da superfície da Terra usando sensores distantes, como satélites, aviões ou drones. Nos estudos ambientais, ele serve para monitorar florestas, águas, o clima e mudanças no uso do solo de forma rápida e em grandes áreas.

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De acordo com professor Wilderclay Machado, o estudo possibilitou a observação das pressões impostas à TI Vale do Javari:

“A análise demonstra que, embora o desmatamento no interior da Terra Indígena permaneça relativamente baixo, houve um aumento expressivo do desmatamento em seu entorno entre 2017 e 2022, indicando a intensificação das pressões de fronteira”.

O pesquisador acrescentou que o estudo reforça a necessidade de fortalecimento da fiscalização ambiental, da proteção das zonas de amortecimento, do combate à grilagem e da implementação de políticas públicas voltadas à conservação da Amazônia, à proteção dos povos indígenas e à manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais.

E ainda destacou o papel da Universidade Federal do Oeste do Pará nas discussões: “A publicação representa um importante reconhecimento internacional da produção científica desenvolvida na Ufopa e reforça o protagonismo da universidade nas pesquisas sobre Amazônia, mudanças climáticas, conservação ambiental e povos indígenas”.

O artigo completo (em inglês) pode ser acessado AQUI, após cadastro no periódico.

Localização geográfica da TI Vale do Javari inserida na publicação. Imagem: Reprodução

A pesquisa foi liderada pelo professor Dr. Gabriel de Oliveira, da University of South Alabama (Estados Unidos), pesquisador do Dauphin Island Sea Lab e embaixador da American Geophysical Union (AGU). Reúne pesquisadores de diversas instituições, entre elas:

  • NASA Goddard Space Flight Center,
  • Purdue University,
  • University of California Santa Barbara,
  • University of Kansas,
  • Michigan State University,
  • University of Helsinki,
  • University of Manchester,
  • Rice University,
  • Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE),
  • Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),
  • Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM),
  • além da participação de importantes lideranças indígenas do Vale do Javari.

Leia também: Terras Indígenas são as áreas mais preservadas do Brasil, aponta estudo

Publicação no periódico internacional reforça importância das pesquisas

A revista Nature Sustainability é um dos periódicos científicos mais prestigiados do mundo que faz a publicação de pesquisas originais sobre sustentabilidade, suas dimensões políticas e soluções práticas, abrangendo as áreas de ciências naturais, sociais e engenharia.

*Com informações da Ufopa

Startup que busca reduzir viagens de dias para horas na Amazônia avança com projeto de veículo tecnológico

Avião é desenvolvido com apoio do Programa Centelha. Foto: Divulgação/Programa Centelha

Uma viagem que hoje pode levar dias pelos rios da Amazônia talvez passe a durar apenas algumas horas nos próximos anos. Essa é a proposta da AeroRiver, startup criada por engenheiros do Norte do país e apoiada pela segunda edição do Programa Centelha, que desenvolve uma tecnologia voltada para solucionar os problemas na logística do transporte, que hoje é um dos maiores gargalos para o desenvolvimento da região.

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Fundada em 2020 por engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a empresa desenvolve veículos de efeito solo, tecnologia que combina características de embarcações e aeronaves e permite operar poucos metros acima da água.

A solução foi pensada para regiões onde as estradas são escassas, aeroportos são limitados e o transporte fluvial tradicional ainda representa a principal alternativa de deslocamento.

“A região possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo, mas enfrenta limitações significativas em mobilidade. Existe um compromisso claro da empresa em desenvolver soluções adaptadas à realidade local, que sejam eficientes do ponto de vista técnico e  também gerem impacto social relevante”, afirma Lucas Guimarães, diretor executivo da AeroRiver.

Leia também: Startup AeroRiver, do Amazonas, conquista edital Finep em aviação sustentável

A ideia surgiu a partir da própria experiência dos fundadores com os desafios logísticos da Amazônia. Segundo a empresa, além das longas distâncias, muitos deslocamentos ficam ainda mais difíceis durante períodos de seca dos rios, quando comunidades inteiras enfrentam limitações de acesso.

Hoje, a startup trabalha no desenvolvimento de veículos capazes de transportar passageiros e cargas em alta velocidade utilizando a estrutura fluvial da região, sem necessidade de infraestrutura aeroportuária complexa.

Startup foca em solução logística

Antes da participação em programas de apoio, a AeroRiver operava com foco quase exclusivo em pesquisa e validações preliminares. Lucas afirma que um dos principais desafios no início foi transformar o projeto em uma empresa estruturada. Foi nesse momento que ingressou no Programa Centelha, iniciativa voltada ao incentivo de negócios inovadores no Brasil que está atualmente em sua terceira edição.

“O Centelha teve um papel importante na transformação da ideia em um projeto estruturado e financiável. O apoio permitiu viabilizar as primeiras etapas formais de desenvolvimento, incluindo formalização da empresa, desenvolvimento do plano de negócios e amadurecimento da proposta de valor”, explica o diretor.

A partir do programa, a startup avançou na construção de protótipos experimentais e passou a organizar processos de gestão e desenvolvimento do negócio.

Além da redução no tempo de deslocamento, a AeroRiver projeta impactos econômicos na região ao diminuir custos logísticos e ampliar a conexão entre comunidades remotas e centros urbanos. A empresa também aposta na possibilidade de operação em áreas sem infraestrutura rodoviária ou aeroportuária como um diferencial para a realidade amazônica.

Atualmente, a startup se prepara para novas etapas de validação tecnológica, incluindo testes operacionais em ambiente e protótipos tripulados em escala real. Paralelamente, a empresa trabalha na definição de rotas prioritárias e em parcerias para futura expansão das operações.

“A meta é consolidar uma operação regular em rotas estratégicas da Amazônia e transformar a tecnologia em uma alternativa viável para regiões onde o transporte ainda representa um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico e social”, conclui o diretor.

Relembre: Proposta de barco voador é apresentada na Campus Party Amazônia

Imagem mostra projeção de veículo da startup Aeroriver voando a poucos metros da água
Startup investe no projeto do modelo de veículo que combina embarcação e aeronave. Foto: Divulgação/Programa Centelha

Sobre o Centelha 

O Programa Centelha incentiva a transformação de ideias inovadoras em negócios por meio da oferta de recursos financeiros em formato de subvenção econômica, bolsas de apoio técnico, capacitações e suporte. Em sua terceira edição, o programa chega a todos os 26 estados e ao Distrito Federal.

A iniciativa é promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e a Fundação CERTI.

Tambaqui está ameaçado de extinção? Entenda classificação do peixe típico da Amazônia

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Foto: Raquel Maia/ Rede Amazônica Roraima

O tambaqui está ameaçado de extinção? A resposta é sim. A espécie está classificada como “Vulnerável (VU)” na avaliação de risco de extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) o que, segundo o órgão, significa que o peixe enfrenta risco alto de extinção na natureza.

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A classificação consta no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), na ficha da espécie Colossoma macropomum, nome científico do peixe amazônico.

O ICMBio classifica o risco de extinção das espécies em oito categorias:

  • Extinta (EX): Não há dúvida de que o último indivíduo morreu;
  • Extinta na Natureza (EW): Sobrevive apenas em cativeiro ou cultivo;
  • Criticamente em Perigo (CR): Enfrenta risco extremamente alto de extinção na natureza;
  • Em Perigo (EN): Enfrenta risco muito alto de extinção na natureza;
  • Vulnerável (VU): Enfrenta risco alto de extinção na natureza;
  • Quase Ameaçada (NT): Próxima de atingir os critérios de ameaça no futuro;
  • Menos Preocupante (LC): População abundante e segura no momento;
  • Dados Insuficientes (DD): Sem informação suficiente para avaliar o risco

Além da avaliação do ICMBio, o tambaqui também aparece na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção – Peixes e Invertebrados Aquáticos. A lista foi reconhecida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) por meio da Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026.

Leia também: Nível de estresse em tambaqui cultivado o faz mudar de cor, mostra estudo

Tambaqui está ameaçado de extinção? Entenda classificação do peixe típico da Amazônia
Tambaqui. Foto: Shutterstock/Reprodução

Assim, o tambaqui é classificado como espécie vulnerável pelo ICMBio desde 4 de setembro de 2023, enquanto a inclusão na lista oficial reconhecida pelo MMA ocorreu em 2026.

Por que o tambaqui foi classificado como vulnerável?

O ICMBio aponta que o tambaqui ocorre naturalmente nas bacias dos rios Amazonas e Orinoco, com ocorrência em Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela e Brasil. Em território brasileiro, é natural nas várzeas do rio Amazonas, incluindo os estados do Acre, Rondônia e Amazonas.

A ficha do ICMBio aponta que o tambaqui apresenta tendência populacional de declínio. O documento apresenta análises populacionais feitas com dados do Ibama e projeções para a espécie.

Uma das análises apresentadas na ficha projeta uma redução populacional global de 43,4% em três tempos geracionais. O documento informa ainda que o tempo geracional do tambaqui foi estimado em 22 anos.

Foto: Reprodução/Embrapa

Leia também: Integração de espécies eleva produtividade e reforça sustentabilidade na piscicultura amazônica

Entre as ameaças registradas na ficha está o uso de recursos biológicos, especificamente a pesca e o uso de recursos aquáticos.

O documento informa que Colossoma macropomum é uma espécie amplamente utilizada na piscicultura e na pesca comercial e de subsistência. O tambaqui já esteve entre as dez espécies de peixes mais exploradas na região Amazônica.

A ficha do ICMBio afirma que quase a totalidade do abastecimento de tambaquis nas feiras, mercados e frigoríficos de Manaus é composta por exemplares oriundos de piscicultura.

Tambaqui já tinha classificação de risco

A ficha do órgão registra que, na avaliação nacional realizada em 2014, o tambaqui era classificado como Quase Ameaçado (NT).

O histórico do processo de avaliação informa que, na avaliação anterior, fatores como a presença da espécie em áreas protegidas e a oferta abundante de exemplares provenientes de piscicultura foram considerados para atenuar o risco de extinção da espécie no curto período.

Foto: Reprodução/FAS

Na nova avaliação, porém, o documento afirma que, apesar de esses fatores terem sido considerados nas análises, não houve entendimento de que eles pudessem atenuar o risco de extinção, de acordo com as informações consideradas no estudo.

‘É mais um alerta para a espécie’, diz professor e biólogo

Para o professor e biólogo Edinbergh Caldas de Oliveira, ainda não é possível indicar locais específicos onde haveria uma redução no número de tambaquis na natureza. Segundo ele, não existem dados estatísticos suficientes sobre a pesca ou sobre o volume de desembarque de tambaquis provenientes dos rios.

O especialista explica que a avaliação considerou principalmente áreas que não são protegidas por lei, ou seja, que não fazem parte de Unidades de Conservação (UCs) federais e estaduais ou de reservas protegidas. Segundo ele, essas áreas correspondem a cerca de 40% do território amazônico.

Por isso, Edinbergh considera a classificação como mais um alerta para a espécie. Ele afirma que ainda não há dados suficientes para determinar uma proibição ou uma liberação completa da pesca do tambaqui.

Produção de tambaqui. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro/Rede Amazônica

“Não temos estudos populacionais para a bacia como um todo e, com as secas cada vez mais severas nos rios e o aquecimento global, temos que planejar com pesquisas mais apuradas e por área a pesca na bacia”, afirmou.

Segundo o professor, existe ainda um prazo de 180 dias para que sejam ajustados os planos de manejo relacionados à exploração da pesca nessas áreas fora do período de defeso.

Ele também reforçou que a portaria ainda deverá passar por ajustes. “A portaria terá um tempo para ser ajustada”, afirmou.

O que o ICMBio recomenda?

Entre as ações de conservação registradas na ficha está a recomendação de uma suspensão temporária de cinco anos na pesca comercial do tambaqui na Amazônia brasileira, seguida de medidas complementares de manejo.

O documento também menciona a manutenção de medidas relacionadas a tamanho mínimo e período de defeso.

STF julga recursos contra partes da decisão que anulou marco temporal

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Indígenas protestam em Brasília contra o Marco Temporal definido no Congresso Nacional. Foto: Antônio Cruz/ Agência Cruz

O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou nesta sexta-feira (7) a análise dos recursos apresentados contra a decisão que considerou inconstitucional o marco temporal para a demarcação de terras indígenas. O julgamento ocorre no plenário virtual da Corte e tem previsão de encerramento em 18 de agosto.

A discussão havia sido interrompida em junho, após um pedido de vista do ministro Edson Fachin. Com a devolução do processo, Fachin apresentou divergências em sete pontos do voto do relator, ministro Gilmar Mendes, ampliando o debate sobre indenizações, novos processos demarcatórios e critérios para definição dos territórios indígenas.

Entenda o marco temporal

Em dezembro de 2025, o STF derrubou a tese de que os povos indígenas somente poderiam reivindicar terras que estivessem sob sua ocupação em 5 de outubro de 1988, data em que a Constituição Federal foi promulgada, ou que fossem alvo de disputas naquela ocasião.

Além de afastar esse entendimento, a Corte definiu parâmetros para os processos de demarcação, o pagamento de indenizações a ocupantes não indígenas e o direito de permanência nas áreas até determinadas condições serem cumpridas.

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Após a decisão, a Advocacia-Geral da União (AGU), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), partidos políticos e outras organizações apresentaram recursos. Entre os pontos contestados estão as regras para indenização pela terra nua, os prazos fixados pelo Supremo, a possibilidade de redimensionamento de territórios e a tramitação dos procedimentos de demarcação.

Leia também: Indígenas protestam contra a lei do marco temporal na BR-174 em Roraima

O julgamento desses recursos teve início em junho, mas foi suspenso depois que Fachin solicitou vista do processo.

Votos dos ministros

Relator do caso, Gilmar Mendes votou pela rejeição da maior parte dos recursos. De forma geral, o ministro manteve as regras estabelecidas pelo STF no julgamento realizado em dezembro e acolheu parcialmente os embargos apresentados pela AGU em relação ao prazo de 180 dias para que o Poder Público cumpra as determinações da Corte.

O ministro Edson Fachin foi o terceiro e último a votar até sexta-feira (7) – Foto: Antônio Augusto/ STF

O ministro Cristiano Zanin apresentou divergência parcial sobre as indenizações. Para ele, o pagamento referente à terra nua deve ocorrer apenas em situações excepcionais e obedecer aos parâmetros estabelecidos no Tema 1.031 da repercussão geral, incluindo a existência de justo título e a comprovação de boa-fé do ocupante.

Fachin, por sua vez, apresentou uma divergência mais abrangente ao devolver o processo para julgamento. Embora acompanhe Gilmar Mendes em questões processuais, o ministro propõe alterações em sete pontos. Na avaliação dele, existem incompatibilidades entre o acórdão de dezembro e os parâmetros anteriormente definidos pelo próprio Supremo no Tema 1.031.

Novas reivindicações territoriais

Entre os principais questionamentos apresentados por Fachin está o prazo de um ano estabelecido para novas reivindicações de territórios indígenas. Após esse período, os pedidos seriam encaminhados por meio de desapropriação por interesse social, em vez de seguirem pelo procedimento tradicional de demarcação.

Para Fachin, essa limitação entra em conflito com a natureza originária e imprescritível dos direitos territoriais dos povos indígenas. Na avaliação do ministro, a regra poderia representar uma nova restrição temporal ao reconhecimento desses direitos.

“Não é coerente declarar inconstitucional o marco temporal de 1988 e, simultaneamente, instituir um novo marco temporal, agora ancorado no trânsito em julgado desta ação, com idêntico efeito extintivo.”

O ministro defende, portanto, a retirada do prazo de um ano e a garantia de acesso ao processo demarcatório enquanto permanecer caracterizada a ocupação tradicional, independentemente da data em que o pedido tenha sido protocolado.

Fachin também propôs que o prazo de 180 dias concedido ao Poder Público para cumprir as determinações do STF comece a ser contado somente após o trânsito em julgado da decisão.

Critérios para demarcações

Outro ponto questionado pelo ministro é a utilização da proporcionalidade entre população e extensão territorial como parâmetro para eventual redimensionamento de terras indígenas.

Segundo Fachin, a dimensão de um território tradicional não pode ser calculada apenas com base na quantidade de pessoas que integram determinada comunidade. Para ele, a ocupação indígena também considera espaços necessários à proteção ambiental, à qualidade de vida e à continuidade física e cultural dos povos.

Congresso Nacional teve diversas discussões sobre Marco Temporal. Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

“A demarcação reflete, ou deve refletir, o modo de viver tradicional, o qual não é matemático.”

O ministro também votou pela retirada da chamada “prioridade negativa”, mecanismo que coloca no fim da fila os processos de comunidades envolvidas em invasões ou retomadas de territórios. Fachin ainda se posicionou contra a adoção da ordem cronológica de protocolo como critério absoluto para a avaliação dos processos do Marco Temporal

Na visão do ministro, a Administração Pública deve considerar também circunstâncias como vulnerabilidade, risco e urgência na definição da prioridade dos procedimentos.

Sobre a possibilidade de transferência para um território alternativo na legislação do Marco Temporal, Fachin entende que essa medida somente deve ser adotada quando houver impossibilidade absoluta de demarcar a área tradicional. Essa condição, segundo ele, deverá ser verificada pela Funai, com participação das comunidades afetadas.

Regras de indenização sobre o marco temporal

Na questão das indenizações, Fachin se aproximou do entendimento apresentado anteriormente por Cristiano Zanin.

O ministro defendeu que o pagamento pela terra nua continue condicionado aos requisitos previstos no Tema 1.031. Ele também esclareceu que o chamado valor incontroverso corresponde à quantia calculada administrativamente pela União.

De acordo com o voto, o ocupante não indígena mantém o direito de retenção da área somente até o pagamento desse valor. Depois que o montante for depositado, eventuais divergências sobre a quantia deverão ser discutidas em processos separados, sem interromper o andamento da demarcação.

Fachin também propôs que a portaria declaratória da terra indígena seja adotada como marco final para o reconhecimento da boa-fé do ocupante.

O julgamento sobre o Marco Temportal envolve a ADC 87 e as ADIs 7.582, 7.583 e 7.586

*Com informações da Agência Brasil e do Migalhas

Faturamento do Polo Industrial de Manaus cresce quase 10% e chega a R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre de 2026

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Linha de produção Polo Industrial de Manaus. Foto: Arquivo g1 AM

O Polo Industrial de Manaus (PIM) faturou R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo dados divulgados pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) nesta sexta-feira (7). O resultado representa uma alta de quase 10% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o faturamento foi de R$ 110,8 bilhões.

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O desempenho foi registrado entre janeiro e junho e mantém os principais setores da indústria em ritmo de produção. Em moeda americana, o faturamento do PIM chegou a US$ 23,53 bilhões no período.

As exportações somaram US$ 391,04 milhões no primeiro semestre. Apenas em junho, as vendas externas alcançaram US$ 51,56 milhões. Já em relação as vagas de trabalho, o PIM registrou média mensal de 130.903 empregos entre janeiro e junho de 2026.

Leia também: Zona Franca de Manaus completa 59 anos como principal motor econômico na Amazônia

Produção de motocicletas na Zona Franca de Manaus
Faturamento do Polo Industrial de Manaus cresce quase 10% e chega a R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre de 2026. Foto: Abraciclo

Informática impulsiona e bebidas em alta: o faturamento por setores

O segmento de Bens de Informática liderou a participação no faturamento do polo, com 22,01% do total. Em seguida aparecem Duas Rodas, com 19,77%; Eletroeletrônico, com 15,90%; e Químico, com 10,87%.

Também tiveram participação relevante os setores Termoplástico, com 10,49%; Metalúrgico, com 8,78%; e Mecânico, com 6,33%. Veja o gráfico abaixo:

Foto: Reprodução/g1 Amazonas

Entre os segmentos, o setor de Bebidas apresentou a maior alta percentual no faturamento. O crescimento foi de 48,05% no primeiro semestre.

Entre os principais produtos fabricados no PIM estão motocicletas, motonetas e ciclomotores. Ao todo, foram produzidas 1.152.715 unidades no primeiro semestre.

A produção de telefones celulares chegou a 6.226.893 unidades no período.

Algumas linhas também registraram crescimento na quantidade produzida. A fabricação de home theaters, por exemplo, chegou a 24.465 unidades, alta de 30,70%.

A produção de lâminas e cartuchos somou 46.121.608 unidades, crescimento de 28%. Já a fabricação de microcomputadores desktop chegou a 5.813 unidades, alta de 19,73%.

Avaliação

Segundo a Suframa, os resultados do primeiro semestre confirmam a manutenção do nível de produção do Polo Industrial de Manaus e repetem o padrão observado em períodos anteriores.

Polo industrial de Manaus
Faturamento do Polo Industrial de Manaus cresce quase 10% e chega a R$ 121,8 bilhões no primeiro semestre de 2026. Foto: Josney Benevuto/Rede Amazônica

A distribuição do faturamento também permaneceu concentrada nos segmentos de Bens de Informática, Duas Rodas, Eletroeletrônico e Químico, que seguem entre os principais setores da indústria do polo.

*Por Rede Amazônica Amazonas.

Como os rios de água barrenta, preta ou clara influenciam na alimentação das populações do Amazonas

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O jaraqui é um dos peixes mais consumidos no Amazonas. Foto: Matheus Castro/Acervo Rede Amazônica AM

O tipo de rio pode ajudar a explicar a diversidade de peixes encontrados nas mesas dos amazonenses. Essa é a relação apresentada pelo gastrônomo carioca Thiago Loeser, criador do projeto Odisseia Gourmet, que analisou como as características das águas da Amazônia estão ligadas aos ambientes, à biodiversidade e aos hábitos alimentares de diferentes regiões do estado.

Em um vídeo que ganhou repercussão nas redes sociais, Loeser defende que o Amazonas não possui uma única culinária, mas diferentes formas de alimentação construídas a partir da relação das populações com os rios. Segundo o gastrônomo, fatores como composição da água, temperatura e origem dos rios ajudam a entender por que determinadas espécies são mais presentes em algumas áreas da Amazônia.

“No Amazonas, quem manda na cozinha não é só o rio, e sim o tipo de rio. Lá existem três tipos de água e cada uma monta uma mesa completamente diferente”, sintetiza Loeser.

A relação, porém, é mais complexa para a ciência. O pesquisador e doutor em ecologia aquática Edinbergh Caldas de Oliveira explica que, embora os rios tenham características próprias, muitas espécies de peixes circulam por diferentes ambientes e não ficam restritas a um único tipo de água.

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Gastrônomo carioca, Thiago Loeser é criador do projeto Odisseia Gourmet, que aborda sobre alimentos brasileiros, inclusive da região amazônica. Foto: Reprodução/Youtube-Odisseia Gourmet

Como os diferentes tipos de água formam ambientes distintos

A análise apresentada por Thiago Loeser considera conceitos da limnologia, ciência que estuda as águas continentais. As características dos rios influenciam os ambientes onde vivem plantas e animais e ajudam a explicar a relação entre natureza, pesca e alimentação.

As águas barrentas, como as do Rio Solimões, nascem na Cordilheira dos Andes e chegam à Amazônia carregadas de sedimentos e minerais. Com coloração semelhante a um “café com leite”, elas fertilizam as áreas de várzea durante os ciclos de cheia e seca. Esse ambiente favorece a agricultura ribeirinha e também abriga espécies de grande porte e importância comercial, como o tambaqui.

Já as águas pretas, como as do Rio Negro, têm coloração escura, semelhante à de um chá forte. São águas mais ácidas e com pouca quantidade de sedimentos minerais. Apesar da aparência, o Rio Negro abriga uma das maiores biodiversidades de peixes do planeta. A presença de espécies menores e com populações reduzidas ajudou a transformar Barcelos em referência mundial no aquarismo e na pesca sustentável do peixe-cardinal.

Os rios de água clara também fazem parte da diversidade amazônica e apresentam características próprias, que influenciam os ambientes encontrados em cada região.

Leia também: Conheça as diferentes cores de águas em rios da Amazônia e entenda suas mudanças

O encontro das águas mostra diferenças entre os rios

Encontro das águas
Encontro das águas no Amazonas — Foto: Reprodução/G1 Amazonas

Um dos exemplos mais conhecidos da diversidade dos rios amazônicos está em Manaus, no encontro das águas dos rios Negro e Solimões. O Rio Negro tem água mais quente, ácida e com movimento mais lento. Já o Solimões possui água mais fria, densa e rápida.

As diferenças entre eles fazem com que os rios sigam lado a lado por quilômetros antes de se misturarem completamente. O fenômeno ocorre pela diferença de densidade das águas e se tornou uma das paisagens naturais mais famosas da Amazônia. Ao g1, Thiago Loeser contou que o projeto nasceu da vontade de mostrar a gastronomia como uma forma de entender a cultura e o ambiente de cada região.

“Quando vou decidir os temas de uma região, tento ir além da receita típica. Como gastrônomo, analiso o ambiente, pois o ecossistema afeta a biodiversidade e os costumes. A composição do rio define quais insumos estarão acessíveis ao nativo”, explica.

O material é produzido de forma independente, com pesquisas acadêmicas, imagens e relatos de moradores locais.

“Muito da nossa cultura alimentar não tem documentação acadêmica. Ela sobrevive na oralidade de ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Não posso ter um pensamento elitizado de que só o que está em artigo é válido. É preciso respeitar a ciência, mas também entender a riqueza do conhecimento popular.”

O que a ciência diz sobre a relação entre rios e peixes

Edinbergh Caldas de Oliveira concorda que os rios amazônicos possuem características diferentes, mas destaca que a distribuição das espécies depende de vários fatores e não apenas do tipo de água. Segundo ele, a biodiversidade do Rio Negro está ligada a cadeias alimentares complexas, mas esse ambiente também possui maior fragilidade.

“É um ecossistema com enorme riqueza de espécies devido a cadeias alimentares muito complexas, mas que são frágeis em razão da baixa produção primária. Há muitas espécies envolvidas, mas elas ocorrem em números populacionais pequenos se comparados aos rios de água branca”, detalha o professor.

Em períodos de crise climática e secas severas, essa característica torna rios de água preta e clara mais vulneráveis do que o Solimões/Amazonas, que possui maior volume de água e recuperação mais rápida.

Leia também: Portal Amazônia responde: como os peixes enxergam nas águas dos rios Negro e Solimões?

Rio Negro. Foto: Arquivo pessoal/Marcos Amend

Peixes circulam por diferentes ambientes da Amazônia

A principal ressalva do pesquisador é sobre a ideia de que cada tipo de água determina, sozinho, quais espécies chegam à mesa. Segundo Edinbergh, muitos peixes amazônicos são migratórios e percorrem grandes distâncias ao longo da vida.

“Do ponto de vista ecológico, é difícil fazer essa separação rígida por rios. Espécies de grande valor comercial e alimentar, como o tambaqui, o jaraqui e grandes bagres (piraíba, surubim), são migratórias. Elas possuem áreas de vida que cobrem centenas de quilômetros, circulando entre a calha dos rios, os lagos e as florestas inundadas (igapós e várzeas) para desovar, crescer e se alimentar”, esclarece.

Produção de tambaqui. Foto: Raquel Maia/Amazônia Agro/Rede Amazônica

O pesquisador explica que algumas espécies, como pirarucu e tucunaré, permanecem mais associadas a determinados lagos e áreas de várzea. Outras dependem da conexão entre diferentes ambientes da bacia amazônica para completar o ciclo de vida.

Conservação ajuda a manter os peixes nos rios

Reserva de Desenvolvimento Sustentável é referência em manejo do pirarucu. Foto: Divulgação

Apesar de partirem de perspectivas diferentes, gastronomia e ciência destacam a importância de compreender e preservar os rios amazônicos. Iniciativas como o manejo comunitário do pirarucu e a pesca sustentável do peixe-cardinal, em Barcelos, no interior do Amazonas, mostram que o uso responsável dos recursos naturais pode proteger espécies e manter a atividade pesqueira

Para Edinbergh, a preservação depende da união entre conhecimento tradicional, pesquisa científica e políticas públicas. “O manejo comunitário é essencial para administrar os recursos da nossa bacia com ética e sustentabilidade. Esse diálogo entre a ciência e a sociedade precisa do apoio de políticas públicas sérias, conscientização, fiscalização rigorosa no cumprimento do Defeso e o combate a obras que destruam os corredores ecológicos indispensáveis para a nossa biodiversidade”, concluiu.

*Como informações de Lucas Macedo, do G1 Amazonas.

Conheça as Plantas Alimentícias Não Convencionais encontradas em Rondônia

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Flor de ora-pro-nóbis, faz parte das PANCs. Foto: Acervo pessoal/Osvanda Silva

Conhecidas como Plantas Alimentícias Não Convencionais, as PANCs são, em sua maioria, mais nutritivas do que hortaliças tradicionais e apresentam um teor muito elevado de vitaminas, minerais, proteínas e fibras. Em Rondônia, por exemplo, algumas espécies como taioba, ora-pro-nóbis, caruru e beldroega costumam crescer espontaneamente em quintais, calçadas e terrenos baldios.

Apesar de muitas vezes serem tratadas como “mato”, elas fazem parte das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), grupo de vegetais com alto valor nutricional. É o que explica a professora de Botânica da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Osvanda Silva de Moura.

“São plantas ou vegetais ou partes de plantas comestíveis que não fazem parte do nosso hábito alimentar cotidiano. Elas não possuem uma cadeia produtiva em larga escala, como acontece com a alface, por exemplo”, detalha a especialista.

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Quais são as PANCs encontradas em Rondônia?

Flor da PANC Begônia — Foto: Acervo Pessoal/Osvanda Silva de Moura

De acordo com a professora, por causa da biodiversidade amazônica, Rondônia reúne uma grande variedade dessas plantas. Entre as mais conhecidas estão:

  • Taioba;
  • Caruru;
  • Beldroega;
  • Ora-pro-nóbis;
  • Inhame;
  • Caapeba;
  • Pajurá;
  • Araçá-boi;
  • Lambari-roxo;
  • Camu-camu.

No Viveiro Educativo da Unir também são cultivadas espécies como buganvília (primavera), brilhantina, erva-de-jabuti, begônia e sara-tudo.

Como consumir com segurança?

Apesar dos benefícios, Osvanda alerta que é fundamental identificar corretamente cada espécie antes do consumo.

“Nunca deve consumir uma planta se tiver dúvidas sobre a espécie, porque muitas plantas tóxicas podem se parecer com PANC”, orienta.
Ela cita a taioba como um dos principais exemplos. A espécie comestível costuma ser confundida com a taioba-brava, que possui altos níveis de oxalato de cálcio e pode provocar irritações e intoxicações, mesmo após o cozimento.

Leia também: Conheça as PANC, plantas alimentícias não convencionais da Amazônia

Dindin feito da PANC Vinagreira
Dindin feito na Unir da PANC Vinagreira. Foto: Acervo Pessoal/Osvanda Silva de Moura

Também é recomendado evitar colher plantas em locais com risco de contaminação, como áreas próximas a esgoto, vias com tráfego intenso ou locais frequentados por animais. A higienização também é indispensável antes do preparo. As PANCs podem ser consumidas de diferentes formas, dependendo da espécie. Algumas são usadas em saladas, sucos e pratos frios, enquanto outras precisam ser cozidas antes do consumo. Também podem ser utilizadas em sopas, refogados, bolos, pães e massas.

“Nós já fizemos patê com ora-pro-nóbis, pizza e suco com lambari-roxo, bolo de capim-santo, picolé de vinagreira e suco de buganvília”, conta a professora.

Professora Osvanda Moura segurando uma PANC e Planta Medicinal Lambari-roxo. Foto: Acervo Pessoal

Segurança alimentar

Além dos benefícios nutricionais, a pesquisadora ressalta que as PANCs podem contribuir para ampliar o acesso à alimentação. O maior desafio, porém, é o descontentamento da população.

“Elas servem de alternativa também para essas pessoas, porque são de fácil cultivo, crescem rápido, não precisam de agrotóxicos e raramente sofrem com pragas. Muitas pessoas ainda associam essas plantas apenas ao ‘mato’ e têm receio de consumi-las por falta de informação”, conclui Osvanda.

*Material publicado originalmente pelo G1 Rondônia, com informações de Raíssa Fontes.