Foram anunciados os os projetos pré-selecionados do Programa Pró-Amazônia. Foto: Eufran Amaral
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) anunciou na terça-feira (7), em cerimônia na sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), os projetos pré-selecionados do Programa Pró-Amazônia, que direcionará R$ 33,5 milhões para pesquisas voltadas à preservação ambiental, ao uso sustentável dos recursos naturais e ao fortalecimento da integração entre países amazônicos.
A chamada pública MCTI/CNPq nº 03/2025, desenvolvida em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), financiará 74 propostas de pesquisa distribuídas em 13 áreas estratégicas, entre elas biotecnologia, energias renováveis, recuperação e monitoramento de ecossistemas, tecnologias sociais, inteligência artificial aplicada à região, sistemas alimentares sustentáveis e gestão de recursos hídricos.
As iniciativas são lideradas por 32 instituições da Amazônia Legal e contam com 83 parcerias internacionais, principalmente com Colômbia, Peru, Bolívia e Equador.
Durante a cerimônia, o secretário-geral da OTCA, Martin von Hildebrand, destacou que cada projeto representa uma oportunidade de transformação. Ele afirmou que ao unir ciência moderna e saberes tradicionais, os países amazônicos constroem respostas conjuntas para proteger a floresta e promover um desenvolvimento sustentável e integrado.
Já a ministra Luciana Santos ressaltou que o programa consolida a ciência como instrumento de cooperação e ação conjunta entre os países amazônicos. Ela afirmou que enfrentar os desafios ambientais, culturais e sociais da região exige soluções construídas de forma coletiva, combinando conhecimento científico e saberes tradicionais. Para a ministra, o edital reforça uma visão de soberania e sustentabilidade que orienta a política científica do governo federal para a Amazônia.
O presidente do CNPq, Ricardo Galvão, disse que a qualidade das propostas e a importância da descentralização dos investimentos em ciência e tecnologia. Segundo ele, os resultados demonstram a capacidade científica das instituições amazônicas, a diversidade temática das pesquisas e o fortalecimento das redes de cooperação nacionais e internacionais.
Pró-Amazônia
Criado pelo MCTI com recursos do FNDCT, o Programa Pró-Amazônia faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da ciência e inovação na região. Além de apoiar pesquisas em áreas prioritárias, a iniciativa prevê investimentos em infraestrutura científica, inovação em biotecnologia e descarbonização, projetos em rede e cooperação internacional. As iniciativas contempladas pelo programa contribuem com a preservação ambiental, incentivando o monitoramento e a recuperação de ecossistemas, a proteção da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais. O Pró-Amazônia também valoriza conhecimentos tradicionais e culturais, promovendo a integração regional e o fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
Sobre a OTCA
A Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) é a principal entidade intergovernamental da região amazônica, criada com o objetivo de promover a cooperação entre os países membros – Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
Sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Foto: Reprodução/Amazon Sat
A OTCA atua em diversas frentes estratégicas, incluindo proteção da biodiversidade, manejo florestal, ciência e tecnologia, governança territorial, inclusão social e defesa dos direitos dos povos indígenas. Além disso, a organização desenvolve instrumentos de monitoramento ambiental e políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, buscando soluções integradas para o desenvolvimento econômico da região, além de consolidar políticas de sustentabilidade e proteção da biodiversidade amazônica.
*Com informação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA)
Fruto de quase três décadas de investigação científica, o ‘Atlas de Doenças de Búfalo no Brasil‘ consolida o conhecimento acumulado sobre as principais enfermidades que acometem a espécie no país, com atenção especial às condições da região amazônica.
A obra, publicada em formato digital pelos professores José Diomedes Barbosa e Carlos Magno Chaves, do Instituto de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com Marilena Brito e Pedro Malafaia, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), tornou-se uma referência técnica para médicos-veterinários, pesquisadores e produtores.
A obra reúne informações detalhadas sobre patologias que afetam a pecuária bubalina, uma atividade de grande importância econômica e social, especialmente na Amazônia, onde o búfalo é parte fundamental do sistema produtivo.
Com uma abordagem didática e linguagem acessível, o atlas oferece uma visão abrangente dos principais problemas sanitários que impactam o rebanho.
Organizado por temas, o conteúdo reúne informações sobre doenças infecciosas, parasitárias, metabólicas e reprodutivas, apresentadas com linguagem acessível e enriquecidas por imagens clínicas e histopatológicas obtidas em campo, necropsias e exames laboratoriais.
Foco é na saúde dos búfalos
Resultado de observações diretas e pesquisas aplicadas, o material preenche uma lacuna na literatura veterinária brasileira, contribuindo para o avanço técnico-científico e o fortalecimento da cadeia produtiva de búfalos no país.
Mais do que um compêndio diagnóstico, o livro reflete o compromisso dos pesquisadores com a melhoria da saúde animal e o desenvolvimento sustentável da pecuária amazônica.
A Universidade Federal de Rondônia homenageia a pianista Linda Bustani com o título de Doutora Honoris Causa, reconhecendo sua trajetória brilhante e influência na formação de gerações de músicos brasileiros. Nascida em Porto Velho, em 1951, Linda iniciou sua carreira aos cinco anos e, em 2026, completa sete décadas dedicadas à música.
Referência internacional na escola pianística russa, seu repertório inclui mais de 40 concertos para piano e orquestra. Solista, recitalista e pedagoga, Linda eleva o nome de Rondônia no cenário da alta performance artística — e também no universo acadêmico.
O que pensa a Geração Z: entre diversidade e conservadorismo
Pesquisa inédita revela os valores e hábitos dos jovens que vão dominar o mundo até 2030. Uma pesquisa da MindMiners encomendada pela revista VEJA traça o perfil da Geração Z — jovens nascidos entre 1997 e 2012 — que já estão moldando o futuro. Em 2030, eles representarão 25% da população mundial. O estudo ouviu mil brasileiros entre 18 e 28 anos e revelou um grupo conectado, consciente e paradoxal.
Principais dados da pesquisa: Conectividade: 66% acessam a internet todos os dias; 59% ficam entre 1 e 4 horas online; Relacionamentos: 61% buscam vínculos duradouros; 48% não priorizam o sexo; 67% apoiam a diversidade sexual; Consumo de substâncias: 55% não bebem álcool; 61% nunca usaram drogas; 48% são contra a legalização; Trabalho: 48% valorizam a segurança financeira; 35% abandonariam empregos tóxicos; Religião: 56% não seguem nenhuma; 25% acreditam em algo espiritual; Futuro: 44% enxergam o amanhã com pessimismo.
O paradoxo Z – Apesar de serem inclusivos e abertos à diversidade, muitos jovens da Geração Z demonstram traços conservadores em suas escolhas pessoais. Valorizam saúde, estabilidade e relações profundas — e desafiam os estereótipos de alienação digital. Eles estão prontos para transformar o mundo.
100 anos de Dió: o comunista que plantou utopias em Rondônia
Foto: Divulgação
Nascido em 7 de outubro de 1925, em Rio Branco (AC), Dionízio Xavier da Silveira — o lendário “Dió” — completaria um século em 2025. Cabo da Guarda Territorial durante a Segunda Guerra, entrou para o Partido Comunista e foi perseguido após a cassação do PCB em 1947. Um pouso forçado em Porto Velho mudou seu destino: ali fincou raízes e se tornou figura central da militância política e cultural da região.
Mascate, guarda-livros, jornalista e vereador na capital rondoniense, Dió foi pioneiro na luta contra os grileiros e fundador do jornal “A Palavra”, em Ji-Paraná. Atuou na clandestinidade durante a ditadura, enfrentou agressões e perseguições, mas nunca abriu mão de seus ideais.
Faleceu em 2001, aos 75 anos, deixando um legado de idealismo e amor profundo por Rondônia. Ele continua a inspirar gerações. Seu filho, o jornalista Zola Xavier, mantém viva essa memória: em 2019, lançou o documentário Caçambada Cutuba, e em 2023 publicou o livro Uma Frente Popular no Oeste do Brasil, onde Dió também figura como personagem central.
A mulher que batizou o Rio de “Cidade Maravilhosa”
Jane Catulle Mendès e o epíteto que virou identidade. Em setembro de 1911, a atriz e poeta francesa Jane Catulle Mendès desembarcou no Rio de Janeiro e, sem saber, eternizou a cidade com um nome que atravessaria gerações: “Cidade Maravilhosa”.
A expressão nasceu de um deslumbre — um pôr do sol na Baía de Guanabara — e foi registrada por Jane em uma dedicatória à equipe do jornal “A Imprensa”: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis éblouie” (“O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa que me deslumbra”).
Imagem: Divulgação
Viúva do escritor Abraham Catulle Mendès, Jane buscava autonomia intelectual e encantou a elite carioca com sua beleza, erudição e ousadia: viajava apenas com uma jovem assistente, algo incomum para a época. Em 1913, lançou “La Ville Merveilleuse”, livro de poemas inspirado no Brasil, selando sua paixão pela cidade.
O jornalista Rafael Sento Sé resgata essa história no livro “A Poeta da Cidade Maravilhosa” (Autêntica), recém-publicado, revelando como uma musa da Belle Époque francesa ajudou a moldar a alma do Rio com um simples gesto — e uma frase que virou símbolo.
Sobre o autor
Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.
Prefeitura de Boa Vista apoia todas as etapas do cultivo nas comunidades indígenas, do plantio à colheita. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Marcada pelo trabalho coletivo, a colheita de milho seco nas comunidades indígenas representa um momento de importância cultural e alimentar. Diante dos benefícios da produção agrícola para as famílias, o apoio da Prefeitura de Boa Vista ocorre em todas as etapas do processo de cultivo, como plantio, preparação do solo, aquisição de sementes e insumos.
Na comunidade indígena Lago Grande, localizada na região do Baixo São Marcos, as famílias agricultoras colheram cerca de 160 sacas de milho, com o apoio de técnicos agrícolas e colheitadeiras da prefeitura. De acordo com o prefeito Arthur Henrique, o município destina políticas públicas para a agricultura familiar e investe na sustentabilidade ambiental, social e econômica do município.
“Esse trabalho reforça o compromisso da nossa gestão em apoiar a agricultura familiar e valorizar as comunidades indígenas, que têm papel fundamental no desenvolvimento sustentável do nosso município. Com o incentivo da Prefeitura de Boa Vista garantimos não apenas o fortalecimento da produção local, mas também a geração de renda e segurança alimentar das famílias”, disse.
Neste ano, a produção nas áreas indígenas deve ultrapassar 600 toneladas de grãos. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Superação de plantio e colheita
A prefeitura plantou 865 hectares de milho no município, sendo 105 hectares nas comunidades indígenas. A colheita já está em andamento e deve ser concluída na segunda quinzena de outubro. Neste ano, a produção nas áreas indígenas deve ultrapassar 600 toneladas de grãos, além de a área cultivada ter superado as expectativas dos produtores e técnicos de Boa Vista.
Com relação a produtividade observada nas áreas já colhidas, a marca alcançou índices iguais ou superiores a 6 toneladas por hectare, o que equivale a uma média de 120 sacas de 50 kg por hectare. Sidney Tavares, 2º tuxaua da comunidade Lago Grande afirma que o investimento da prefeitura tem proporcionado um aumento significativo na lavoura indígena.
“Há 30 anos, o nosso povo produzia tudo de forma manual, no machado e com enxada em mãos. Claro que o tamanho da área de produção era bem menor, mas hoje, a Prefeitura de Boa Vista olha com carinho para a comunidade e o nosso trabalho recebe apoio técnico e de alta tecnologia aqui dentro. Neste ano, a gente aumentou o plantio e a expectativa é ampliar cada vez mais”, destacou.
Mulheres protagonizam o campo e impulsionam o crescimento da produção agrícola. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Mulheres no campo
Unindo força, cuidado e inovação no trabalho diário, as mulheres são protagonistas no campo, impulsionando a produção agrícola. Meirejane Lima, coordenadora das Mulheres Agricultoras da Comunidade Lago Grande, relata que o apoio da prefeitura tem proporcionado independência financeira para os produtores, além de incentivar as lavouras comandadas pelas mulheres.
“Os técnicos sempre veem nos acompanhando desde o início do plantio, com a adubação até agora, na colheita. A comunidade sempre esteve preocupada com a qualidade da produção e garantiu que o resultado fosse positivo. No início de tudo, a gente não sabia como trabalhar em grande proporção porque nós indígenas nunca tínhamos cultivado hectares. Era apenas um pedaço de linha, mas hoje, a realidade é outra”, apontou.
Idosos também participam. Nelcia Paixão, 73, marcou presença na colheita. Foto: Diane Sampaio/PMBV
Colheita envolve todas as idades
Essa prática fortalece a autonomia produtiva da comunidade e valoriza a agricultura sustentável, transmitida de geração em geração como parte essencial do modo de vida indígena. Durante a colheita, adultos, idosos, jovens e crianças participam ativamente do processo de colheita. Considerado dia de festa, as aulas das crianças são diferenciadas, pois todos são encaminhados para a lavoura, método para garantir a sucessão familiar.
Quem trabalhou por anos no campo também não ficou de fora, claro, agora em um ritmo mais lento, mas com muito a ensinar aos jovens. É o caso dos idosos que também são inseridos no processo. Nelcia Paixão, 73 anos, esteve a vida toda na roça e marcou presença na colheita. No rastro da colheitadeira, a idosa resgatou as espigas de milho que ficavam para trás e garantiu 100% de aproveitamento.
“Estou catando o milho para dar para as galinhas e para os porcos. Assim, a gente aproveita tudo e não estraga nada. Eu cresci trabalhando na roça. Desde que eu nasci, com a enxada nas mãos, fazendo farinha e tapioca. Agora eu estou velha e cansada e não tenho mais forças para trabalhar o dia todinho. Hoje, eu sou aposentada, mas meu dinheirinho não dá para comprar bastante comida para os animais”, contou.
O Amazonas conta, a partir de agora, com uma nova lei voltada à transformação social por meio da tecnologia. De autoria do presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Aleam), deputado Roberto Cidade (UB), a Lei Ordinária nº 7.715, de 17 de julho de 2025, institui diretrizes de incentivo ao empreendedorismo jovem no mercado digital, com prioridade aos jovens amazonenses em situação de vulnerabilidade.
A legislação estimula a criação de oportunidades econômicas e profissionais para jovens entre 18 e 29 anos, com foco em capacitação tecnológica, inovação e acesso a novas formas de geração de renda no ambiente digital.
“Com esta lei, queremos preparar nossos jovens para os desafios e oportunidades do futuro, promovendo a inclusão digital, o protagonismo e a autonomia financeira. O empreendedorismo digital é um caminho concreto para reduzir desigualdades e fortalecer a economia do Amazonas”, destacou o deputado Roberto Cidade.
A norma define diretrizes para o desenvolvimento de incubadoras e aceleradoras digitais, a oferta gratuita de cursos de formação em tecnologia, gestão e inovação, além da criação de linhas de crédito com condições especiais para jovens empreendedores.
Outro ponto de destaque é a criação de uma plataforma digital estadual, que servirá como vitrine para a divulgação e comercialização de produtos e serviços desenvolvidos pelos participantes do programa, estimulando o crescimento de negócios locais e o fortalecimento do ecossistema digital amazonense.
Roberto Cidade ressaltou que a iniciativa abre espaço para parcerias estratégicas entre o poder público, o setor privado, universidades e organizações da sociedade civil.
“O empreendedorismo digital é uma ferramenta de transformação social. Nosso papel, como representantes do povo, é garantir que os jovens do Amazonas tenham acesso a conhecimento, infraestrutura e oportunidades para prosperar nesse novo cenário econômico”, afirmou o presidente da Aleam.
O Projeto de Lei nº 91/2025 foi sancionado e transformado na Lei nº 7.715/2025 no dia 17 de julho de 2025.
Palmeira patauá (Oenocarpus bataua) em um baixio na Amazônia Central: espécie é a próxima em que pesquisadores vão instalar sensores para estimar armazenamento de água. Foto: Thaise Emilio/IB-Unesp
Uma das famílias de plantas mais abundantes na Amazônia, as palmeiras (Arecaceae) têm capacidade de armazenar duas vezes mais água do que as árvores dicotiledôneas – grupo de plantas como o ipê, o mogno e o eucalipto, com flores cujas sementes contêm dois cotilédones, que são as primeiras “folhas” do embrião e servem como fonte de alimento. A existência delas e de outras espécies de plantas associadas a climas úmidos, contudo, está ameaçada devido às mudanças que têm ocorrido no ciclo hidrológico da floresta amazônica.
Alguns resultados preliminares dos trabalhos em andamento foram apresentados em palestra durante o Fórum Brasil-França “Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas”, que aconteceu entre os dias 1º e 2 de outubro, no auditório da Fundação.
Organizado pelo Museu Nacional de História Natural (MNHN) da França, em Paris, pela Universidade de São Paulo (USP) e pela FAPESP, o objetivo do evento foi discutir a biodiversidade florestal, os ecossistemas e suas relações com as sociedades humanas, do passado e do presente.
“As palmeiras são grandes reservatórios ou caixas d’água da floresta”, disse Thaise Emilio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima.
A despeito de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, diz a cientista, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque.
Uma das hipóteses para explicar por que as palmeiras dominam a paisagem da floresta é que podem ter sido domesticadas pelas primeiras populações humanas que ocuparam e manejaram a Amazônia há milhões de anos.
“Há dúvidas, porém, se foram os humanos que enriqueceram a Amazônia com palmeiras ou se eles decidiram viver na floresta justamente por possuírem essas plantas tão abundantes e úteis, que têm grande importância econômica”, ponderou.
Aproximadamente 75% da produção brasileira de produtos florestais não madeireiros hoje é proveniente de palmeiras, sendo 50% só do açaí (Euterpe oleracea), sublinhou a pesquisadora.
Thaise Emílio, professora da Unesp, coordenadora do projeto e pesquisadora associada ao CBioClima: apesar de ser apenas uma entre 171 famílias de plantas arborescentes na Amazônia, as palmeiras são extremamente dominantes na floresta, tanto no dossel como no sub-bosque. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
Por muito tempo se pensou que as palmeiras fossem extremamente vulneráveis à seca em razão de sua arquitetura hidráulica. A fim de avançar no conhecimento sobre essa questão, a pesquisadora iniciou em 2017 uma colaboração com colegas do Soleil Síncrotron, de Paris, e da Universidade de Bordeaux, em que analisaram a resistência do xilema (tecido vascular responsável por transportar água e sais minerais das raízes para o resto da planta, especialmente para as folhas) de palmeiras à embolia induzida pela seca.
Esse quadro é caracterizado pela formação de bolhas de ar dentro dos vasos do xilema, interrompendo a coluna de água e o transporte do recurso hídrico e de nutrientes do solo para as folhas. Isso acontece quando o estresse hídrico (a falta de água) cria uma pressão negativa tão grande que a água líquida vira gás, prejudicando a função dos vasos e podendo levar à morte da planta.
Por meio de diferentes técnicas, os pesquisadores quantificaram a resistência à seca de seis espécies de palmeiras pertencentes às duas subfamílias mais amplamente cultivadas: a Arecoideae e a Coryphoideae.
As observações foram conduzidas em uma das linhas de feixe do Soleil Síncrotron – acelerador circular de partículas carregadas (elétrons) que gera uma radiação, chamada de luz síncrotron, que permite investigar a composição e a estrutura da matéria na escala dos átomos e das moléculas.
“Por meio das observações, constatamos que as palmeiras são vulneráveis à seca como qualquer outra angiosperma [plantas complexas que apresentam raiz, caule, folhas, flores, frutos e sementes] ou gimnosperma [plantas terrestres que possuem sementes, mas não produzem frutos]. Mas, diferentemente de outras plantas de regiões temperadas, elas têm mais água dentro dos troncos. Dessa forma, conseguem mobilizar mais água e isso acaba se tornando a estratégia mais importante para minimizar os riscos de embolia”, explicou Emilio.
Mais recentemente, ao monitorar, em parceria com colegas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, a quantidade de água armazenada pelas palmeiras, os pesquisadores constataram que, enquanto as árvores dicotiledôneas armazenam, no máximo, 50% de seu volume de água, as palmeiras chegam a reter 70%, e durante as épocas secas reservam ainda mais do que nas estações chuvosas.
“Isso tem enormes impactos na biodiversidade da floresta amazônica, que ainda não são estimados”, disse a pesquisadora.
Ao realizar trabalhos de pesquisa de campo na floresta durante os períodos de seca é comum observar só palmeiras com frutos, contou.
“A gente vê que só elas dão frutos nessas épocas de seca. Isso é muito importante para manter a alimentação dos animais na floresta e dos humanos, que dependem desses recursos. E uma das hipóteses pelas quais elas são capazes de manter esse serviço durante períodos de seca é justamente porque têm esse funcionamento diferente de outras plantas, conseguindo armazenar mais água.”
Esse serviço ecossistêmico prestado pelas palmeiras, contudo, está ameaçado em razão do declínio da abundância de espécies de plantas associadas a climas úmidos, devido à intensificação do ciclo hidrológico, caracterizada por secas e estações chuvosas mais intensas. “Isso terá um impacto muito importante para a dinâmica da floresta”, estimou Emilio.
Em um estudo em andamento, os pesquisadores têm avaliado por meio de modelagem o risco de morte de palmeiras em diferentes ambientes – em regiões com lençóis freáticos mais rasos ou mais profundos – e em anos mais secos ou mais úmidos. Resultados preliminares indicaram que elas morreriam duas vezes mais do que outras árvores.
“A combinação de anos chuvosos e secos está causando uma mudança na dinâmica e nas características de regiões da floresta”, afirmou Emilio.
Parceria Brasil-França
O evento integrou a Temporada França-Brasil 2025, uma programação conjunta de atividades culturais, científicas e acadêmicas promovidas para marcar os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
O encontro reuniu cientistas, artistas, gestores públicos, profissionais de museus, estudantes e representantes da sociedade civil em conferências, mesas-redondas e debates, além de visitas institucionais.
“Esse evento é a segunda parte de um encontro realizado em junho deste ano em Paris, que integrou a programação da FAPESP Week na França. Nossa experiência naquela ocasião foi muito intensa e produtiva em diferentes áreas, incluindo aeronáutica e espacial, medicina, inovação, sustentabilidade, biodiversidade e museologia”, avaliou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, na abertura do evento (leia mais em: agencia.fapesp.br/54994).
Zago sublinhou que a Amazônia Legal ocupa aproximadamente 4 milhões de quilômetros quadrados (km²) do Brasil, uma área que corresponde a mais ou menos 40% do tamanho da Europa, mas que essa imensa floresta estende-se também ao território francês, da Guiana Francesa.
“Temos, pois, nós, brasileiros e franceses, uma responsabilidade compartilhada sobre essa floresta que é uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. Portanto, seu destino pode determinar, em grande parte, o destino da humanidade”, avaliou.
Da esquerda para a direita, Jônatas Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP, Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo, Gilles Bloch, presidente do MNHN, e Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
O presidente do MNHN, Gilles Bloch, afirmou que “os desafios ambientais compartilhados pela França e pelo Brasil são muito sérios e a instituição está fortemente comprometida em trabalhar as questões de forma contundente”.
“Este fórum é bastante ambicioso e reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP. Todos os acordos que estamos celebrando nessa visita são uma grande honra para nós e vão facilitar a prática de ações e cooperação em um trabalho que precisa ser realizado em rede”, avaliou.
A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, anunciou em sua fala um projeto, atualmente em execução, de construção da Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ-USP) e de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP).
“No Brasil, os museus de história natural estão intimamente ligados ao surgimento da pesquisa científica no país. A Universidade de São Paulo tem acervos museológicos ímpares e coleções científicas e culturais entre as maiores do mundo. Temos um compromisso com nossos museus e esses acervos e, por isso, estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável do grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha [1928-2021]. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o país e para o mundo”, avaliou.
Também participaram da abertura do evento Alexandra Mias, consulesa-geral da França em São Paulo; Jônatas Souza da Trindade, subsecretário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo; Flávia Teixeira, gerente de Meio Ambiente, Responsabilidade Social Corporativa e Transição Energética da Fundação Engie; o diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FAPESP, Carlos Graeff; e o diretor administrativo da instituição, Fernando Menezes.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, escrito por Elton Alisson
Imagem colorida mostra reprodução de possível dinossauro sauropodes. Imagem: Divulgação/Museu de Queensland
Em 2020, trabalhadores que atuavam em uma obra de terraplanagem no município de Davinópolis, no Maranhão, encontraram vestígios do maior dinossauro já encontrado, que mudariam o cenário da paleontologia no estado. Durante a preparação do terreno para a instalação de uma estrutura ferroviária, ossos fossilizados foram localizados e, diante da dimensão e peculiaridade do achado, equipes ambientais entraram em contato com especialistas.
A primeira coleta ficou sob responsabilidade do professor Elver Luiz Mayer, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), que coordenava o Grupo de Estudos em Paleontologia do Instituto de Estudos do Xingu.
O material foi recolhido com urgência e transferido ao Pará para evitar danos e permitir sua preservação. Estudantes de Ciências Biológicas iniciaram um minucioso trabalho de preparação, que envolveu a remoção de rochas incrustadas, catalogação e restauração de fragmentos. Mais de 250 peças foram recuperadas, muitas em estado fragmentado, o que transformou o processo em uma espécie de quebra-cabeça científico.
As análises mostraram que os fósseis pertenciam a um dinossauro gigante do grupo dos saurópodes, conhecidos por seu porte avantajado, pescoço e cauda alongados e cabeça proporcionalmente pequena. Estimativas preliminares indicam que o animal poderia alcançar até 23 metros de comprimento, tornando-se o maior dinossauro já identificado no Maranhão.
Vista aérea do momento em que equipe identificou ossada do dinossauro no interior do Maranhão. Foto: Giovani T. Viecili/Amai Fotografia
Outro aspecto relevante é a idade do material. As rochas onde os fósseis foram encontrados datam do Cretáceo Inferior, com idade estimada entre 100 e 125 milhões de anos. A maior parte dos fósseis de dinossauro encontrados no Brasil provém do Cretáceo Superior, o que torna a descoberta ainda mais significativa para os estudos sobre a fauna pré-histórica do território nacional.
O processo de análise incluiu medições detalhadas, registros fotográficos, criação de modelos virtuais e comparações com outros espécimes já descritos. A pesquisa contou com a colaboração de especialistas de diferentes instituições, como o professor Manuel Alfredo Medeiros, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e o paleontólogo Julian Cristian Gonçalves da Silva Junior, pós-doutorando da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Os fósseis do dinossauro de Davinópolis têm se tornado objeto de estudos contínuos, envolvendo técnicas modernas de digitalização em 3D e comparações em bancos de dados internacionais. Esses métodos auxiliam na compreensão do parentesco evolutivo do animal em relação a outros saurópodes encontrados no Brasil e em outros continentes.
Foto: Reprodução/ Unifesspa
De acordo com os pesquisadores, o esforço conjunto entre Unifesspa, UFMA, Unesp e USP tem permitido não apenas aprofundar o conhecimento sobre a espécie, mas também incentivar a formação de novos pesquisadores.
Para eles, o achado é considerado um marco para a paleontologia maranhense e reforça o potencial do estado para novas descobertas. Até então, os principais registros fósseis no Maranhão estavam concentrados em áreas mais ao norte, mas a descoberta em Davinópolis aponta que outras regiões do interior também podem guardar importantes vestígios pré-históricos.
Exposição em São Luís
Foto: Elver Luis Mayer
Com o avanço das pesquisas, parte do material retornou ao Maranhão e foi incorporado ao acervo do Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia, localizado na Rua do Giz, no Centro Histórico de São Luís. Está aberta ao público a exposição que apresenta tanto fósseis originais quanto réplicas, além de painéis explicativos sobre o processo de escavação, análise e preservação.
Segundo a paleontóloga Agostinha Araújo Pereira, responsável pelo setor de paleontologia do centro de pesquisa, a exposição busca aproximar a população maranhense de seu patrimônio científico e destacar a relevância da região nos estudos da pré-história. Para o professor Manuel Medeiros, da UFMA, que também trabalha com o acervo, a mostra tem importância pedagógica, contribuindo para a formação de estudantes e pesquisadores.
A exposição está disponível por tempo indeterminado e pode ser visitada por moradores e turistas. Além de promover o acesso à ciência, a mostra reforça a importância da preservação do patrimônio fossilífero brasileiro e consolida o Maranhão como referência no estudo de dinossauros.
O café robusta produzido na região das “Matas de Rondônia” sequestra 2,3 vezes mais carbono da atmosfera do que emite durante o cultivo. A conclusão é de um estudo realizado pela Embrapa em 2024 e divulgado neste ano.
As Matas de Rondônia são uma área de Indicação Geográfica que reúne 15 municípios produtores, como Cacoal, São Miguel do Guaporé e Seringueiras. A região concentra mais da metade da produção do estado.
A pesquisa analisou 250 propriedades que cultivam o café robusta em Rondônia. Foi descoberto que cada hectare emite, em média, 2,9 mil quilos de gás carbônico (CO₂) por ano. Por outro lado, essas mesmas lavouras conseguem “puxar” da atmosfera cerca de 6,8 mil quilos de CO₂ por hectare, guardando esse carbono dentro das plantas. Ou seja, elas retiram mais do que emitem.
No fim das contas, segundo a pesquisa, cada hectare de café robusta deixa um saldo positivo de 3,8 mil quilos de carbono por ano.
Segundo o pesquisador da Embrapa, Enrique Anastácio Alves, práticas sustentáveis trazem benefícios não só para o meio ambiente, mas também para a qualidade da lavoura.
“Cobertura verde, manejo adequado e sistemas arborizados ajudam a criar um microclima positivo, reduzem o estresse das plantas, conservam água, aumentam a matéria orgânica e favorecem a ciclagem de nutrientes”, explica.
Além disso, o pesquisador ressalta que, embora o carbono capturado retorne à atmosfera quando a planta morre ou é cortada, as plantas envelhecidas podem ser utilizadas como lenha na torra do café. Isso substitui combustíveis fósseis e contribui para manter um balanço positivo de carbono.
O biólogo Marcelo Ferronato, presidente da ONG Ecoporé, destaca que, mesmo sequestrando menos carbono do que uma floresta nativa madura, o café robusta amazônico ainda representa um avanço importante para a sustentabilidade agrícola.
“Um hectare de café sequestra cerca de 6,8 toneladas de CO₂ por ano, enquanto uma floresta madura pode absorver mais de 10 toneladas. Mesmo assim, o café já compensa as emissões de três carros de passeio rodando durante um ano e aproxima a produção agrícola de um modelo mais sustentável”, afirma
Mas como é realizado o cálculo do sequestro de Carbono?
Uma calculadora desenvolvida a partir de pesquisas realizadas nas lavouras da região das “Matas de Rondônia” permite medir o balanço de carbono na produção.
Enrique Anastasio, pesquisador da Embrapa, explica que o aplicativo foi criado com base em análises feitas em 150 plantas, cujas raízes, troncos e folhas foram avaliados quanto ao conteúdo de carbono. A partir desses dados, foi estabelecida a média de sequestro de carbono das lavouras da região.
Além disso, os pesquisadores mapearam cada etapa da produção do café — como uso de adubos, mecanização, mão de obra e secagem — para determinar as emissões de carbono. Com esses parâmetros, a calculadora foi estruturada e aplicada a mais de 300 cafeicultores.
Na prática, o produtor responde, no aplicativo, a uma série de perguntas sobre seu sistema produtivo. A calculadora consulta um banco de dados com os padrões de emissão de cada atividade e estima, por hectare/ano, o quanto é emitido de carbono. Esse valor é então comparado ao potencial de sequestro já definido para o café da região, permitindo calcular o saldo final.
A ferramenta faz parte do Projeto CarbCafé e será apresentada na COP 30, compondo a vitrine de soluções verdes da conferência.
Rondônia lidera café sustentável
Rondônia é responsável por 87% da produção de café da Amazônia e ocupa o segundo lugar no ranking nacional de cultivo de robusta, atrás apenas do Espírito Santo. Em 2021, o café rondoniense recebeu o selo de Indicação Geográfica, valorizando a produção local, feita majoritariamente por agricultores familiares, que representam 95% dos produtores.
Com produtividade média de 68,5 sacas por hectare, o café robusta da Amazônia tem potencial para se tornar ainda mais sustentável. O uso de adubos orgânicos e sistemas agroflorestais pode aumentar a captura de carbono e reduzir a poluição.
O estudo também alerta para os desafios da cafeicultura diante das mudanças climáticas, como secas intensas e aumento de temperatura. Entre as soluções estão o uso de clones mais resistentes, economia de água e diversificação das plantações.
Para o especial ‘Um grau e meio’, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o geógrafo e pesquisador Carlos Durigan, que atua com projetos socioambientais há mais de 30 anos, discute como a humanidade se transformou na principal causadora da crise da biodiversidade.
O especialista indica possíveis caminhos para soluções e comenta como estão os esforços internacionais para reduzir os danos sobre as espécies, inclusive a humana. Confira a entrevista:
Quais são as principais causas da crise da biodiversidade?
A destruição e degradação dessas paisagens e o uso de recursos naturais sem o manejo adequado são uma ameaça muito grande, já que elas são áreas de vida, não só dos seres humanos, mas também de diversas espécies. O que está levando a uma erosão do conjunto de espécies existentes, um desbalanço entre elas. Onde ocorre um aumento populacional de espécies mais resilientes e a redução e extinção de muitas outras espécies.
O próprio IPBES, estima que em torno de um milhão de espécies estariam sofrendo algum grau de ameaça atualmente.
Assim como ocorre com a crise climática, que é basicamente provocada pelo ser humano, é a primeira vez que uma espécie sozinha, a humana, é responsável por uma crise que envolve a ameaça à sobrevivência de milhares de outras espécies.
Como a crise climática está relacionada com a crise de biodiversidade?
Há um processo de antropização do planeta. Com o aumento populacional e a forma de viver e produzir que temos exercido, desde a revolução industrial, geraram-se impactos em larga escala. Essa é a fonte de todas as crises de caráter ambiental que a gente vive atualmente.
Em um primeiro olhar, a crise climática e a crise sob a biodiversidade ocorrem em paralelo. O aumento das ações que degradam o planeta foi afetando populações de diversos organismos, seja pela superexploração de algumas espécies, por meio da caça, da pesca, da destruição de habitats, ou pela sua contaminação. Até o momento essas causas eram comuns a ambas as crises, seja climática, seja da biodiversidade.
Nas últimas décadas, começamos a sofrer consequências da crise climática, o aquecimento do planeta, a redução de chuvas em alguns lugares, o derretimento de calotas de gelo, tudo isso também começou a interferir na vida e na sobrevivência de algumas espécies.
É o que está ocorrendo nos recifes de corais com o branqueamento em várias partes do planeta, que tem relação com uma mudança química e de temperatura das águas. Isso já é uma consequência do aquecimento global.
Há também questões relacionadas às deformações dos ciclos, de mais ou menos chuvas, de circulação atmosférica da água, de regiões que estão se transformando em áreas mais áridas. Isso também começa a afetar a sobrevivência de muitas espécies, uma vez que se cria um cenário de muito desafio para as espécies que vivem nessas áreas.
Ainda não se conhecem muito bem alguns dos processos causados pela crise climática. Mas há hipóteses de que essas mudanças, de aumento de temperatura, redução de chuvas, estresse hídrico, estão levando espécies de plantas, por exemplo, a florescerem em épocas distintas das que floresciam no passado, ou a não florescer, ou a faltar o agente polinizador.
Foto: Reprodução/Greenpeace
É possível reverter a crise da biodiversidade?
Esse é um desafio bem grande que temos pela frente. Por meio da Convenção da Biodiversidade, tem se buscado caminhos para estabelecer alguns critérios que poderiam amenizar a perda de biodiversidade, que a meu ver tem se demonstrado irreversível.
Na COP15 da CDB, em Montreal (2022), foi adotado o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (GBF), estabelecendo metas para conter a perda de biodiversidade. Assim como o Acordo de Paris foi um marco para as Convenções do Clima, o Acordo de Kunming-Montreal foi um marco para as Convenções da Biodiversidade na busca de estabelecer ações emergenciais para reverter o cenário devastador sobre a biodiversidade que vivemos atualmente.
Algumas metas foram estabelecidas para buscar reduzir os impactos que estão comprometendo a sobrevivência de muitas espécies. A partir disso, a ideia é que a gente consiga, se não reverter, ao menos amenizar a extinção em massa que está em curso.
Que pontos você destaca desse acordo?
Uma das metas determina que precisamos proteger pelo menos 30% dos ambientes naturais do planeta, esse é um número para ser atingido até 2030.
Além de reduzir a influência dos agentes que mais causam problemas para a biodiversidade, como a utilização de pesticidas ou agrotóxicos, reduzir a poluição e prevenir e controlar espécies exóticas invasoras. E, ao mesmo tempo, buscar constituir fundos financeiros que apoiem as ações de conservação.
É importante manter o maior percentual de áreas naturais íntegras no planeta, porque esse é um elemento que está dentro das relações de causa e efeito: quanto mais floresta viva e saudável, mais a crise climática é reduzida. Isso melhora a qualidade de vida, a qualidade dos serviços ecossistêmicos e, obviamente, as chances de sobrevivência de muitas espécies que vivem nessas paisagens naturais, reduzindo a crise da biodiversidade.
O Acordo de Kunming-Montreal está sendo cumprido?
Alguns países têm se comprometido muito para cumprir com a sua parte, são quase 200 países que assinam o acordo e assumiram compromissos para buscar estabelecer essa agenda. O Brasil mesmo tem buscado fortalecer várias das agendas relacionadas a essas metas. Por exemplo, o processo voltado à destinação de terras públicas para áreas de conservação e manejo.
Mas acredito que a gente ainda tem muito a fazer, porque apesar de algumas frentes avançarem, esse avanço sempre é emperrado. É como se o carro tivesse andando com o freio de mão puxado.
Há setores da sociedade que ainda não se convenceram da importância de desenvolver ações para reduzir a nossa pegada ecológica no planeta. Ainda há muita resistência e isso acaba impactando sobre potenciais políticas públicas que poderiam estar caminhando com mais fluidez.
Está prevista alguma discussão específica sobre biodiversidade na COP30?
Na COP de Cali surgiu a ideia de que as convenções devam se integrar mais, a ideia é que haja espaço de discussão para buscar convergências.
A questão da adaptação, precisa ser uma agenda que trabalhe com a agregação de conceitos e metas estabelecidos em outras agendas também, como a meta de conservar 30% das paisagens naturais. Provavelmente vão haver fóruns de conversas que envolvam trazer a agenda estabelecida lá em Montreal, para alguns elementos começarem a ser incorporados na agenda de clima.
Principalmente, a meu ver, essa questão relacionada à proteção de ambientes naturais. A própria agenda do TFF (Fundo Florestas Tropicais Para Sempre), tem uma relação direta com a questão da biodiversidade, envolvendo a proteção de territórios. Como também promover ações voltadas ao envolvimento de ações produtivas de baixo impacto, isto é, usar a biodiversidade sem fazer com que ela acabe.
*O conteúdo foi originalmente publicado pelo IPAM, escrito por Karina Custódio
Nove estados compõem a Amazônia Legal. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante para se tornar parte do cotidiano na Amazônia Legal. Um levantamento realizado pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive, mostra que cerca de um terço da população da região (32%) afirma já ter sido diretamente afetada. Entre povos e comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, a proporção é ainda maior: 42,2%.
O estudo ‘Mais Dados Mais Saúde – Clima e Saúde na Amazônia Legal’ é o primeiro a reunir informações de residentes dos nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), incluindo grupos historicamente sub-representados em pesquisas nacionais. Foram ouvidas 4.037 pessoas entre maio e julho de 2025.
A pesquisa também mostra que a percepção sobre a crise climática é quase unânime na região: 88,4% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas estão ocorrendo no Brasil e no mundo, e 90,6% concordam que já vivemos um aquecimento global. Essa consciência, segundo os autores, reflete a convivência diária com fenômenos climáticos extremos que têm alterado a vida das pessoas e os ecossistemas amazônicos.
Mudança cada vez mais perceptível
Os resultados revelam que o aquecimento global já afeta a vida cotidiana: 83,4% dos entrevistados notaram aumento da conta de luz, 82,4% perceberam temperaturas mais altas e 75% apontaram piora na qualidade do ar. A ocorrência de desastres ambientais, como queimadas e secas prolongadas, foi mencionada por 74,4% dos respondentes, e 73% relataram alta nos preços dos alimentos.
“Enfrentar a crise climática na Amazônia é mais do que uma agenda ambiental — é uma agenda de saúde pública e de redução de desigualdades. Em um momento tão importante, com a chegada da COP30, esse módulo do Mais Dados Mais Saúde tem como intuito trazer dados inéditos, focados nas especificidades locais, para informar políticas públicas que protejam territórios e suas populações, sempre com um olhar para a redução das desigualdades”, afirma Thais Junqueira, superintendente da Umane.
Desmatamentos, queimadas e outros fatores contribuem para que mudança no clima seja cada vez mais perceptível. Foto: Divulgação
Os efeitos são ainda mais severos entre comunidades tradicionais: 24,1% relataram piora na qualidade da água e 21,4% citaram problemas na produção de alimentos, proporções mais altas que as da população em geral. “Esses grupos estão mais vulneráveis porque vivem em áreas de risco climático e dependem diretamente dos recursos naturais para subsistência”, explica Luciana Vasconcelos Sardinha, diretora-adjunta de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Vital Strategies.
O inquérito também registrou mudanças de comportamento e percepção. Metade dos entrevistados (53,3%) afirmou ter reduzido práticas que considera prejudiciais ao clima, e 38,4% disseram sentir culpa por desperdiçar energia. A separação de lixo é mais comum entre comunidades tradicionais (70,1%) do que entre os demais (59,2%).
Para a Vital Strategies, os resultados reforçam que a crise climática é também uma questão de saúde pública.
“Um terço dos moradores da Amazônia Legal já sofreu impactos diretos do clima, e a maioria depende exclusivamente do SUS. É urgente integrar políticas de saúde e clima para proteger os grupos mais vulnerabilizados”, conclui Pedro de Paula, diretor-executivo da organização no Brasil.
*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori