Home Blog Page 17

Pesquisa realizada em Cametá analisa relação da população com a feira municipal

0

Pesquisador defende a comida como importante símbolo nas relações entre as pessoas.

Feche os olhos e mentalize o espaço de uma feira. O que não faltaria nessa imagem? Cores? Sabores? Movimento? Sons? Cheiros? Provavelmente isso e mais. Lugares populares na cidade e no campo, as feiras são ricas em interações sociais e, portanto, terrenos férteis como fonte de pesquisa.

“Vi nesses espaços uma forma de compreender os saberes e fazeres de comunidades rurais em contato com espaços urbanos. Quando foquei meu trabalho na Antropologia da Alimentação, compreendi como a cultura oral estava presente nas diversas referências à comida e como a narrativa sobre o alimento é importante para a formação das identidades daquela comunidade”,

resume o professor Carlos Dias Júnior.

Foto: Weslley de Souza/Jornal Beira do Rio

Dias defende a comida como instrumento de expressão social e importante símbolo nas relações entre as pessoas. Com a tese ‘Da feira e da cozinha: consumo, identidade e linguagem em torno da comida na feira municipal de Cametá’, ele buscou compreender de que forma aquele espaço orienta e é orientado pelas trocas de consumo, processos de sociabilidade e marcas culturais das práticas alimentares de seus frequentadores. 

O trabalho, dividido em cinco capítulos, foi apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/IFCH) da UFPA, com orientação da professora Carmem Izabel Rodrigues.

“A pesquisa se deu em dois anos de trabalho de campo na Feira Municipal de Cametá. Além de observar os diversos fazeres dos feirantes naquele espaço, também realizei entrevistas, algumas com questionários e outras como conversas. Foquei, pela necessidade da pesquisa, em feirantes que trabalham com alimentos e nos espaços de venda de alimentos. O objetivo era compreender quais os principais pratos consumidos na cidade e entender como esse alimento se transforma desde o momento que sai da feira”,

explica o pesquisador, que também entrevistou e acompanhou a rotina de dez famílias frequentadoras da feira.

Para frequentadores, a feira é o oficial e o improvisado 

Em Cametá (PA), data de 1970 a origem da feira municipal, com a construção do Mercado Municipal, que, pouco a pouco, foi sendo tomado por barracas. Hoje, a feira está localizada em região mais central e se constitui de um espaço oficial, regulamentado pela prefeitura, composto pelos Mercado de Carne, Mercado de Peixe, Feira Livre, Feira do Açaí e Feira da Farinha, e um espaço improvisado, localizado no entorno do primeiro, ocupado pelos feirantes após um incêndio ocorrido em 2001. Na prática, os dois espaços se dividem apenas em função de feirantes credenciados e não credenciados. 

“Quando se diz que vai à feira, ninguém pergunta ‘em qual feira?’, porque a feira é entendida pelo cametaense como um todo simbólico, um espaço único que é praticado e que se torna ‘um lugar'”,

justifica Carlos Dias Júnior.

Durante a investigação, o pesquisador levantou a presença de 1.500 feirantes cadastrados e uma fila de outros 500 aguardando novos espaços. “O trabalho do feirante em Cametá está, a priori, ligado a questões de produção local, isto é, grande parte do que é comercializado na feira tem alguma relação com uma produção local – rural e ribeirinha -, seja o peixe, a farinha, as frutas ou os temperos”, detalha. 

Segundo o pesquisador, o espaço se constitui como o principal local de abastecimento interno, com destaque para as vendas de carnes, açaí e farinha.

Dias lembra que a feira é um espaço de negócios e que sua pesquisa considera esse aspecto ao se debruçar sobre as questões do encontro do rural com o urbano, do falar da ilha com o falar urbano, da forma de comer na ilha que se expande para as práticas urbanas. 

“Para além da perspectiva ‘simplista’, ainda podemos vislumbrar o modo de fazer e os saberes específicos de uma determinada cultura, no caso, o que define o amazônida, o paraense e o cametaense. Dentro desse processo, uma cultura com base na oralidade e na informalidade instaura as relações de ‘ânimo'”,

analisa.

Mapará: diferenças entre consumo e valor identitário

Na terra do mapará, a pesquisa não poderia deixar de fora uma análise sobre o consumo do peixe que se tornou símbolo do município. Apesar de não dar ênfase aos hábitos à mesa, Carlos Dias Junior acompanhou o cardápio alimentar de dez famílias frequentadoras da feira e verificou a quantidade de peixe, especialmente o mapará, consumida.

O objetivo era levantar dados mais específicos sobre o consumo do pescado e seu valor identitário para os locais. Como, durante o ano, há períodos de maior e menor oferta, o pesquisador considerou períodos desde a abertura da pesca até o mês de outubro. 

“Existe uma narrativa muito forte sobre o mapará. De fato, pude observar que existe um sentimento de pertencimento e identidade quando o cametaense fala do mapará, o que me intrigava, porque queria saber se o consumo de mapará era tão grande assim. É claro que, nos períodos de mais disponibilidade do peixe, ele é mais consumido, mas constatei que ele não é o alimento ‘mais consumido’. Ele ocupa um espaço simbólico importante, como se fosse a síntese do cametaense, além de ser um peixe de preparo versátil e de sabor atraente”,

destaca o professor, que aplicou um questionário sobre a preferência alimentar e observou a correlação com a faixa etária.

Cruzando os resultados encontrados nos cardápios das famílias e nos questionários aplicados, Carlos Dias Junior constatou a preferência pela carne bovina entre as famílias, em seus domicílios; e pelo peixe, na feira. Segundo o pesquisador, os dados coletados indicam que o consumo da carne bovina é grande em Cametá e que o peixe tem grande adesão entre adultos e idosos. 

“Mesmo não aparecendo como o alimento mais consumido pelos cametaenses, o mapará está no centro da sua identidade e se sustenta como um símbolo de feições narrativas, está na habitual composição de uma típica refeição mapará-farinha-açaí que se espelha na feira municipal e estabelece o diálogo entre cozinha e feira”,

conclui o professor.

*O conteúdo foi originalmente publicado no Jornal Beira do Rio, edição 168, da UFPA, escrito por Edmê Gomes

Exemplares de espécie de ave ameaçada de extinção no Brasil são encontrados em expedição no Pará

Há mais de 40 anos não se tinha registro de tantos exemplares do Mutum-pinima, agora localizado no Rio Jacundá e na Terra Indígena Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins.

Exemplares do Mutum-pinima (Crax fasciolata pinima), uma das espécies de ave mais ameaçada de extinção do Brasil, foram localizados durante a expedição empreendida no âmbito do Plano de Ação para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção do Território Meio-Norte (PAT Meio-Norte).

A expedição ocorreu entre 20 de setembro e 2 de outubro no Rios Jacundá e Maria, na Terra Indígena Mãe Maria, ambos no município de Bom Jesus do Tocantins, no estado do Pará. Além do Mutum-pinima, a bem-sucedida expedição localizou seis outras espécies, sendo elas: Azulona (Tinamus tao), Jacupiranga (Penélope pileata), Jacami-de-Costas-Pretas (Psophia obscura), Gavião-Real (Harpia harpyja), Tiriba Pérola (Pyrrhura coerulescens), Ararajuba (Guaruba guarouba) e Arapaçú-Barrado-do-Leste (Dendrocolates medius).

Foto: Divulgação/PAT Meio-Norte

Segundo o coordenador da expedição, o ornitólogo e consultor ambiental Gustavo Helal Gonsioroski da Silva, do Laboratório de Ornitologia, do Centro de Estudos Superiores de Caxias/Universidade Estadual do Maranhão, a localização do Mutum-pinima é um evento importantíssimo para a fauna silvestre. Gonsioroski explica que, após 40 anos sem registro da espécie, um exemplar macho da ave foi avistado em 2013 no Rio Maria e que durante a expedição deste ano foram localizados vários exemplares macho e fêmea.

Gonsioroski revela que durante a expedição em que foram localizados os exemplares do Mutum-pinima foram realizados cinco registros da ave. Sendo três nas margens do Rio Jacundá e outros dois no Rio Maria (dentro da Terra Indígena Mãe Maria), ambos em Bom Jesus do Tocantins (PA). Ele ressalta que, no total, foram documentados seis indivíduos, entre machos e fêmeas, sendo que um dos registros ocorreu fora da Terra Indígena Mãe Maria.

Sobre as próximas etapas da descoberta, o coordenador da expedição, que já programa uma nova incursão nos Rios Jacundá e Mãe Maria para dezembro, explica que as próximas etapas incluem a busca por parcerias com outras instituições; avaliação da probabilidade de se levar exemplares da ave em cativeiro e elaborar um plano de manejo, além de trabalhar com a comunidade indígena para cessar a caça do Mutum-pinima, substituindo a ave por outro tipo de proteína.

Conforme o biólogo do Naturatins, Oscar Vitorino, expedições como essas são fundamentais na localização de populações de espécies ameaçadas, pois permitem o desenvolvimento de ações de educação ambiental, capacitações, entre outras medidas a serem adotadas no contexto dos Planos de Ação Territoriais para garantir a conservação das espécies ameaçadas de extinção.

Sobre o Pró-Espécies 

A estratégia nacional para a conservação de espécies ameaçadas de extinção Pró-Espécies: Todos contra a extinção, tem como objetivo é adotar ações de prevenção, conservação, manejo e gestão para minimizar as ameaças, o risco de extinção e melhorar o estado de conservação das espécies ameaçadas. Financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, da sigla em inglês para Global Environment Facility Trust Fund), o projeto é coordenado pelo Departamento de Espécies (DESP/MMA) e implementado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), sendo o WWF-Brasil a agência executora e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática responsável pela iniciativa.


O projeto trabalha em conjunto no Maranhão, Bahia, Pará, Amazonas, Tocantins, Goiás, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo para desenvolver estratégias de conservação em 24 territórios, totalizando nove milhões de hectares. Prioriza a integração da União e Estados na implementação de políticas públicas, assim como procura alavancar iniciativas para reduzir as ameaças e melhorar o estado de conservação de pelo menos 290 espécies categorizadas como Criticamente em Perigo (CR) e que não contam com nenhum instrumento de conservação. 

Sobre o Pat Meio-Norte 

O Plano de Ação Territorial para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção do Território Meio-Norte (PAT Meio-Norte) é um instrumento desenvolvido para orientar as ações de preservação e redução de ameaças. A iniciativa busca desenvolver ações para melhorar o estado de conservação de espécies ameaçadas de extinção no Território Meio-Norte, que compreende os estados do Maranhão, Pará e Tocantins, no Bico do Papagaio.

Miriti: palmeira da Amazônia tem diversas utilidades, desde a criação de brinquedos a isolamento térmico

As funções da planta amazônida englobam isolamento térmico e acústico, cosmético, acessório, alimento e até filtro natural de água

Miriti é uma palmeira bem conhecida na região amazônica. Também chamada de buriti, é no mês de outubro, quando a capital do Estado do Pará inicia as celebrações da festa católica do Círio de Nazaré, que os brinquedos feitos a partir da planta chamam ainda mais atenção de quem passa pela cidade. Pelas mãos dos artesãos, as folhas do miritizeiro vão se transformando em coloridas rodas gigantes, pássaros, barcos e o que a imaginação permitir.

Leia também: Portal Amazônia responde: o que é miriti?

Mas Miriti não é só brinquedo. Com o nome cientifico de Mauritia flexuosa Mart, o miriti é também fonte de renda, isolante térmico e acústico, cosmético, acessório, alimento e até filtro natural de água.

“A presença da planta em áreas alagadas é um indicador de qualidade de águas, pois seu sistema radicular é formado por raízes secundárias muito finas (pelos) que auxiliam na filtragem da água, deixando-a limpa e potável. Então, onde há miriti significa que a água é boa para consumo, porque ele filtra a água e mantém a umidade no ambiente”,

explica a professora Gracialda Ferreira, doutora em botânica e docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), campus Belém.

Professora Gracialda Ferreira explica que a presença de palmeiras de miriti em um local são um indicativo de qualidade de água. Foto: Vanessa Monteiro

A professora explica que da palmeira do Miriti, tudo se aproveita. Caule, folha e fruto. “Já existem pesquisas e testes de resistência e qualidade mostrando as possibilidade de usos na até na construção civil. O miolo do pecíolo da folha do miriti também possui alta capacidade de isolamento acústico e térmico, que não deixa a desejar ao isopor ou gesso”, explica. Das folhas ainda são feitas cestarias, bolsas e artesanatos. 

E a indústria de cosméticos vem usando o óleo do fruto para produção de cosméticos. O fruto é utilizado como alimento por várias espécies de aves, e também na alimentação humana. 

“Um cacho de miriti tem em torno de 100 ou 150 kg de fruto, então cerca de metade disso é polpa, ou seja, é muito alimento fornecido”,

diz a professora.

Fruto do miriti é alimento para aves e também para humanos. Palmeira também é conhecida pelo nome de buriti. Foto: Vanessa Monteiro

No município de Abaetetuba, também conhecido como a capital do Miriti, há a safra do açaí e também a do miriti. Se costumeiramente é erguida uma bandeira vermelha para identificar que naquele local há venda de açaí, para identificar que há miriti a bandeira é laranja, mesma cor da polpa do fruto.

É também em Abaetetuba o município onde são produzidos os brinquedos comercializados durante o período do Círio. Mas o local já teve uma perda significativa de miritizeiros, por uma falta de entendimento sobre o manejo da planta. Em 2005 os pesquisadores da universidade foram procurados por um grupo de artesãos para que ajudassem a identificar o porquê de não estarem brotando novas plantas na região.

“Chegando lá, percebemos que haviam várias palmeiras no chão, derrubadas, porque eles identificaram que aquelas plantas não davam fruto. Acontece que o miritizeiro possui o sistema reprodutivo em plantas diferentes, ou seja, há miriti macho e miriti fêmea. Ao derrubarem as plantas masculinas não houve mais polinização. As flores femininas até abriam, mas não convertiam em fruto porque não tinha o pólen que vem da flor masculina”,

diz.

Ela explica que ambas as plantas florescem, mas tem estrutura morfológica e cores diferentes. A fecundação ocorre com a ajuda de um polinizador, como a abelha.

“Eles fizeram esse processo por uns três anos. Entre identificarmos o problema e conseguirmos recuperar a produção do miriti localmente, levou uns 15 anos. Hoje em dia já existe uma excelente produção local, mas é importante percebermos o que o manejo inadequado da planta pode impactar na natureza e a importância de preservar os polinizadores”,

alerta a professora.

O miritizeiro possui o sistema reprodutivo em plantas diferentes, ou seja, há miriti macho e miriti fêmea. Fecundação ocorre com a ajuda de polinizadores. Na imagem há a flor do miriti macho e a flor da fêmea, já fecundada. Foto: Vanessa Monteiro

Os brinquedos do miriti são produzidos a partir da parte interna da folha, mais especificamente da parte de dentro do “talo da folha”, o parênquima. “Uma folha completa possui limbo e pecíolo. O limbo é arredondado, grande, que fornece fibra muito utilizada para fazer bolsas. E aquele talo comprido é o pecíolo da folha, é essa parte que é utilizada para fazer o artesanato de tala, cestaria. A parte interna, o parênquima, a fibra, é usada para fazer os brinquedos”, explica. 

Para conseguir esculpir os brinquedos, os artesão precisam que a planta ainda seja jovem, até seis anos, quando o caule ainda não está formado. Após esse período, o caule, que estava submerso, começa a aparecer, com isso as folhas já estão mais altas e distantes do chão, dificultando a coleta quando tem fibras mais resistentes, deixando esse material interno mais endurecido, difícil de cortar e manejar.

“Eles precisam de um material macio, pra cortar e fazer as peças. Por isso utilizam a planta até essa idade, para obter o pecíolo. A planta tem de 12 a 15 folhas. No manejo adequado, os artesão tiram três, então novas folhas nascem, seis meses depois tiram mais três. Com isso a planta nunca fica com menos de seis folhas. A medida que a planta vai crescendo precisamos ter outras mais jovens que tenham o lançamento de folhas ideais”,

diz.

Com manejo adequado, demanda e qualidade do produto, a meta é conseguir certificação. Pesquisadores e artesão estão se reunindo para obtenção do selo de identificação geográfica, registro conferido a produtos ou serviços que são característicos de um determinado local de origem. O registro é um indicativo de qualidade, reputação e identidade própria de um produto.

Pesquisadores e artesãos agora buscam obtenção do selo de indicação geográfica. Foto: Vanessa Monteiro

Com manejo adequado, demanda e qualidade do produto, a meta é conseguir certificação. Pesquisadores e artesão estão se reunindo para obtenção do selo de identificação geográfica, registro conferido a produtos ou serviços que são característicos de um determinado local de origem. O registro é um indicativo de qualidade, reputação e identidade própria de um produto. 

“A obtenção do selo demanda uma única organização social que os represente, já que existem várias. Após esse processo de obtenção é preciso fazer a manutenção do selo. Que inclui desde o manejo até o produto finalizado. O selo de indicação geográfica agrega valor ao produto, traz reconhecimento em uma escala nacional e internacional, e traz a referência para o estado do Pará, que passa a ter Abaetetuba reconhecida nacional e internacionalmente como a capital do brinquedo de miriti”,

atesta.

Com a certificação há também aumento da demanda do produto. O que tornam necessárias ações que garantam o cultivo da planta, já que até então a retirada é extrativista, ou seja, as folhas são retiradas de plantas existentes na floresta. 

“Juntos nós estamos formatando um projeto para Implantação de áreas para manejo do miriti, áreas plantadas, para cultivo que atenda a demanda do artesanato aliado à recuperação de áreas degradadas. Mas para isso precisamos de mais pesquisas”,

finaliza.

*Por Vanessa Monteiro, jornalista da UFRA 

Grupo de trabalho analisa ampliação da defesa na fronteira da Amazônia Legal

0

Ação pode ampliar em 100 quilômetros a área de proteção.

Um grupo de trabalho para analisar a viabilidade e os possíveis mecanismos para o emprego das Forças Armadas em 250 quilômetros de fronteira terrestre, nos estados da Amazônia Legal, foi criado nesta segunda-feira (9) pelo governo federal.

A medida – que estuda ampliar em 100 quilômetros a área de defesa atual – foi publicada no Diário Oficial da União e as conclusões deverão ser apresentadas em 30 dias.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 A Constituição prevê a atuação das Forças Armadas em uma faixa de 150 quilômetros dos limites territoriais para dentro do país, mas a ideia que será discutida objetiva ampliar as ações de defesa em mais 100 quilômetros nas fronteiras com outros países nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Roraima, Rondônia e Tocantins.

Crimes transfronteiriços

De acordo com a publicação do Ministério da Defesa, a proposta visa ampliar as ações preventivas e repressivas contra crimes transfronteiriços e ambientais e somaria esforços com ações previstas no Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Amas), instituído em julho deste ano.

Com investimento de R$ 2 bilhões, o Amas prevê a instalação de 34 bases integradas da Polícia Federal com as polícias estaduais, centros de comando e de cooperação internacional, além de um centro de operações da Força Nacional, todos distribuídos pelo território da Amazônia Legal.

O grupo de trabalho que analisará a atuação das Forças Armadas será coordenado pelo subchefe de operações da Chefia de Operações Conjuntas (CHOC), do Ministério da Defesa, que terá mais quatro representantes, além de dois representantes de cada um dos comandos da Aeronáutica, Exército e Marinha, somando 11 integrantes titulares, com suplentes para casos de ausência.

As reuniões semanais serão na sede do Ministério da Defesa, em Brasília, e por videoconferência para os membros que estiverem em outros locais. E, por decisão da coordenação, especialistas militares ou civis de outros ministérios, instituições ou órgãos poderão ser convidados para contribuir com trabalhos. 

Círio de Nazaré: o material e o imaterial compõe a maior celebração católica do mundo

0

A celebração anual ocorre na interação dos fiéis com símbolos imateriais, que simbolizam a sua fé.

A maior celebração católica do mundo ocorre anualmente, em outubro, na capital do Pará. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré é uma manifestação religiosa/cultural que reúne dois milhões de pessoas na grande procissão, dando forma a um espetáculo amazônico nas ruas de Belém.

A devoção à Nazinha, em nossa região, data do início do século XVIII, quando Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nazaré às margens do igarapé Murutucu. A história conta que Plácido levou a imagem para casa, mas ela reapareceu no local onde foi encontrada. O fato se repetiu por diversas vezes, até que ali fosse construída uma pequena capela. Atualmente, o local do achado é o endereço da Basílica Santuário de Nazaré, destino de milhares de peregrinos que agradecem a Nossa Senhora pelas graças alcançadas.

Foto: Divulgação/ Círio de Nazaré

O encontro da Santa com o caboclo Plácido é o primeiro relato de interação entre um objeto material e o povo na história do Círio. Desde então, diversas materialidades simbólicas foram incorporadas, expandindo os sentidos que constituem a festa. A imagem da Santa continua sendo o elemento central, mas, além dela, há a corda que os devotos puxam, ligada à berlinda que transporta a imagem – sempre envolta em um manto, trocado a cada ano. 

O cartaz de divulgação é mais um item que faz parte da vivência material do Círio: lançado anualmente em maio e adquirido imediatamente pelos fiéis, que o exibem em suas casas e locais de trabalho, a peça também estampa campanhas publicitárias na mídia e nos espaços públicos da cidade, como na barreira de fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) entre os municípios de Ananindeua e Marituba, na Região Metropolitana de Belém.

Quando utilizamos a palavra “sentidos”, torna-se importante reconhecer sua ambiguidade, especialmente em relação ao Círio de Nazaré. O que o Círio significa para cada indivíduo? O que se sente ao participar do Círio e ao se aproximar da imagem de Nossa Senhora? Quem consegue responder a essas perguntas inevitavelmente cita os objetos símbolos da festa como componentes da experiência de devoção vivida coletivamente. Por isso podemos afirmar que o Círio é uma experiência de sentidos e sociabilidades que ocorre por meio da cultura material, ou seja, com as coisas que fazem parte do nosso mundo.

As considerações acima fazem parte da dissertação realizada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCom/UFPA), resultante de pesquisa conduzida entre os anos de 2020 e 2021. O estudo buscou refletir sobre o papel dos objetos materiais na constituição de processos comunicativos do Círio de Nazaré, considerando como esses processos foram adaptados durante a pandemia (período da pesquisa), que levou à suspensão das procissões e dos eventos presenciais nazarenos.

Além de sua natureza material, alguns objetos ganham “vida” durante o Círio. Um exemplo disso é a corda dos promesseiros, que foi utilizada pela primeira vez em 1855 unicamente para tirar a berlinda de um atoleiro em determinado trecho da procissão. Com o passar do tempo, a corda deixou de ser apenas um instrumento técnico para simbolizar sacrifício e aproximação com o sagrado, na metáfora de conexão umbilical entre a Virgem Maria e seus filhos. Durante a pandemia, a corda que não foi às ruas foi uma das ausências profundamente sentidas pelos participantes.

O desejo de ter uma imagem de Nossa Senhora leva à produção de diversos bens de consumo, como o cartaz de divulgação que é comprado, customizado e reproduzido em camisetas, feitas para grupos de amigos e familiares. A circulação econômica é também de ordem afetiva. O ato de colocar o cartaz na porta de casa, por exemplo, mesmo durante a suspensão das procissões, foi uma tradição mantida naquele contexto.

Outro hábito que se manteve durante a pandemia foi o almoço do Círio, reforçando a dimensão social da festa. As famílias que se reuniram para comer junto, fizeram-no em celebração pela vida e em memória de quem não estava mais à mesa. Seja no cenário de saúde desafiador, seja no Círio em que podemos nos abraçar, outubro em Belém é sempre uma oportunidade de encontro com lembranças afetivas e de conexão com as tradições paraenses.

Graças à vacinação em massa contra a covid-19, o Círio de Nazaré voltou ao seu formato completamente presencial desde 2022. Outra vez é tempo de sentir o clima da cidade que se prepara, sem restrições, para festejar a Rainha da Amazônia. E viva Nossa Senhora de Nazaré!

Gabriel da Mota é jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-UFPA. Acesse aqui a dissertação que deu origem a este artigo.

*Texto de Gabriel da Mota, originalmente publicado no Jornal Beira do Rio, da UFPA 

Campus Party Amazônia atrai jovens para torneios de e-Sports

Ao todo serão disputados os campeonatos de League of Legends, Valorant, CSGO e Free Fire

A 1ª edição da Campus Party Amazônia, que ocorrerá entre 11 e 15 de outubro, no Studio 5 Shopping e Convenções, em Manaus, terá entre suas atrações principais, atividades relacionadas ao universo gamer. Assim como nas outras edições realizadas pelo Brasil, a CPAmazônia promoverá torneios dos principais jogos de battle royale. As competições serão realizadas na Campus Play que contará ainda com palestras e workshops voltados para a temática. Os campeonatos acontecerão entre 12 e 15 de outubro e as inscrições para os interessados já estão abertas no site da Campus.

Foto: Divulgação

Agenda de competições 

 Os torneios disponíveis incluem o campeonato de Counter-Strike. A competição, que acontece em 12 de outubro, terá uma premiação ao campeão de R$2.000. Os times devem ser compostos por cinco jogadores e o sistema de disputa será eliminatório, no formato simples e melhor de três jogos.

Na sexta-feira, 13 de outubro, acontece o campeonato do tradicional game, League of Legends. O torneio dará ao vencer o prêmio de R$2.000. As equipes precisam ser compostas por cinco jogadores e as disputas serão no formato eliminatório. Outra competição confirmada é de Valorant. Também com a premiação ao campeão de R$2.000, o jogo de tiro em primeira pessoa será disputado por equipes de cinco jogadores, em partidas eliminatórias no dia 14 de outubro.

Foto: Divulgação

Taça das Favelas Free Fire 

A Campus Party Amazônia também será palco de uma etapa da Taça das Favelas Free Fire, uma competição organizada pela Federação Amazonense de E-sports (FAESP) e pela equipe STAFF. O torneio contará com uma seletiva masculina, na qual 48 times serão distribuídos em quatro grupos, e um torneio feminino, composto por 24 equipes divididas em dois grupos. Cada equipe deverá ser formada por seis jogadores. Os seis mais bem colocados na competição masculina avançarão para as semifinais, que serão realizadas no dia 25 de novembro na Casa de Praia Zezinho Corrêa. Da mesma forma, as seis melhores equipes femininas competirão na grande final, agendada para a mesma data. O prêmio total em disputa na Taça das Favelas Free Fire será de R$10 mil. 

Portal Amazônia responde: o que é a piracema?

Fenômeno anual ocorre em populações de peixes amazônidas como: aruanã, caparari, matrinxã, pacu e surubim.

A piracema é um fenômeno anual, no qual algumas espécies de peixe ao redor do mundo nadam rio acima para completar seu ciclo de vida e dar continuidade a sua espécie. Muitas espécies da Amazônia participam deste processo. 

“A piracema é o fenômeno anual em que determinadas espécies de peixes, como aruanã, caparari, mapará, matrinxã, pacu e surubim, nadam rio acima, contra a correnteza, em busca principalmente de locais adequados para desova e reprodução”,

explica o biólogo e mestrando pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Daniel Santos-Soares.

Foto: Antônio Trivelin/Arquivo Pessoal

O fenômeno migratório ocorre sazonalmente, nos períodos de chuva, nos quais a disposição de alimentos é aumentada, possibilitando a travessia de extensas áreas pelos cardumes. 

Santos indica que algumas espécies nadam por mais de dois mil quilômetros, passando por obstáculos, tanto naturais, quanto artificiais, como barragens de hidrelétricas. 

Essas barragens podem prejudicar diretamente o ciclo de vida destes animais, tendo em vista que este obstáculo artificial pode cansar os peixes e torna-los alvos fáceis para predadores. 

“Nadar em cardumes gera, também, um outro ponto negativo que é a fácil pesca desses peixes. Por isso, anualmente, no Estado do Amazonas há o período de defeso, onde a pesca das espécies que fazem parte desse fenômeno é proibida, visando a proteção delas”,

informa.

A própria etimologia da palavra “piracema” é carregada de significado, pois, como destaca Daniel, “a palavra se origina do tupi onde ‘pira’ significa peixe e ‘cema’ subida”.

Apesar da queda no número de queimadas, fumaça segue implacável na Amazônia

A queda é de 36% em comparação ao ano passado, mas ainda não é suficiente para deter a crise humanitária e ambiental que se instalou na região.

O número de focos de calor na Amazônia registra nova queda em setembro, de 36%, na comparação com o mesmo mês de 2022, segundo dados divulgados pelo Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas o resultado não chega a ser uma boa notícia, já que a base de comparação são os dados do ano passado, quando tivemos o pior setembro da última década, e o número de focos segue em um patamar inaceitável.

Segundo os dados do Inpe, em setembro foram registrados 26.452 focos de calor no bioma, contra 41.282 do mesmo mês de 2022. O estado do Pará segue com a liderança, com 35,94% dos focos detectados no mês (9.507), com destaque para Altamira e São Félix do Xingu, que lideraram o ranking de queimadas. A APA Triunfo do Xingu, também no estado, concentrou 42% dos focos de calor detectados em Unidades de Conservação.

Queimada em floresta pública não destinada federal localizada no município de Canutama, Amazonas, registrada em 2 de agosto de 2023. Foto: Marizilda Cruppe /Greenpeace

Já o Amazonas segue ostentando a segunda posição entre os que mais queimaram, o estado foi responsável por 26,43% dos focos (6.991), ou seja, 1 em cada 4 focos de calor ocorreram no estado. O Amazonas também teve o maior número de municípios no TOP 10 de focos de calor, com quatro municípios neste ranking: Lábrea, Novo Aripuanã, Boca do Acre e Humaitá.

O estado é o mais afetado pela severa estiagem que já atinge diversos estados na região Norte. Até 29 de setembro, 23 municípios entraram em estado de emergência, e o Governador decretou situação de emergência no Estado, onde mais de 170 mil pessoas já enfrentam dificuldades, com acesso restrito a itens básicos, como alimentos e água potável. A população do estado vive debaixo de fumaça há quase dois meses, devido a intensidade das queimadas, aliada ao tempo excepcionalmente quente e seco deste ano, com pouca ação por parte do governo estadual para deter a grilagem, o desmatamento e o fogo criminoso.  A situação vivida hoje, foi agravada pelo intenso incentivo à destruição visto nos últimos anos.

No acumulado de janeiro a setembro, o número de focos de calor chegou a 57.941, número 33% menor que o registrado no mesmo período de 2022, quando o número de focos já chegava a 87.304. Novamente, uma redução necessária, mas com números ainda aquém da necessidade que a emergência climática nos impõe.

Ativistas do Greenpeace fazem uma manifestação em área recém queimada em Porto Velho, Rondônia. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

Corrida contra o tempo 

As secas extremas que já afetam milhares de pessoas na região Norte são efeito da crise climática e agravadas pelo El Niño, que ganhou força em um ambiente já mais quente. Junte-se a isso a fumaça das queimadas e você tem uma crise humanitária, ainda sem prazo para acabar, já que a previsão é que a estiagem pode durar até pelo menos novembro.

Atualmente, 49% das emissões de gases do efeito estufa do Brasil vem do desmatamento e das queimadas. As mudanças climáticas intensificam os eventos extremos, como alerta o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e cientistas ja vinham avisando dos possiveis impactos do El Niño deste ano desde julho. 

Lago do Padre, em Manacapuru, Amazonas. Em 2023, estados da Amazônia enfrentam uma forte estiagem, que secou leitos de rios e lagos em diversos municípios. Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace

18% dos registros de envenenamento por serpentes estão incompletos no Maranhão

0

Casos registrados entre 2009 e 2019 apontam para a falta de informações essenciais à saúde pública, como a evolução do envenenamento.

Um estudo pioneiro sobre o atendimento a vítimas de picadas de animais peçonhentos no Maranhão identificou relatos clínicos com incoerências. Em 18% dos casos, não houve registro da evolução do envenenamento; em 10%, não houve a classificação dos sintomas; e em 6%, a espécie não foi reportada. O artigo com as constatações foi publicado na sexta, 6 de outubro, na ‘Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical’ por pesquisadoras da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Foram analisados registros de 17.658 acidentes causados por serpentes de importância médica no Maranhão entre 2009 e 2019 por meio das fichas de notificação compulsória fornecidas pela Secretaria de Saúde do estado. O preenchimento das fichas é obrigatório no território nacional desde 1986, mas os dados faltantes podem resultar em tratamentos inadequados.

Foto: Chokniti Khongchum/Pixabay

O preenchimento correto das fichas de notificação permite que informações importantes sejam coletadas pelos profissionais da saúde. Thaís Guedes, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas, comenta que “as fichas fornecem informações cruciais que podem ser reunidas e analisadas para que o planejamento de saúde para tratar esse tipo de agravo seja feito de forma eficiente em nível estadual, como o caso do Maranhão, mas também no país todo”.

Outros fatores evidenciam a falta de treinamento e possíveis inadequações na terapêutica adotada. 

“Identificamos fichas relatando sintomas que não coincidem com o gênero da serpente informado como causadora do acidente, indicando incoerência sobre o reconhecimento clínico dos sintomas dos acidentados”,

diz Guedes.

O tempo entre a picada e o início do atendimento médico está diretamente associado à gravidade do envenenamento por picada de cobra, de forma que o acesso precoce a cuidados médicos especializados é fundamental.

A autora destaca a necessidade de ações de curto prazo para capacitar profissionais de saúde a lidar com acidentes provocados por serpentes. 

“Quando a vítima busca os centros médicos logo após a picada, a vida dessas pessoas é responsabilidade deles, é inadmissível perder vidas se temos tratamento”,

diz.

O próximo passo, segundo os pesquisadores, é preparar as informações para divulgação acessível aos maranhenses e às Secretarias de Saúde. O tema também está sendo investigado em escala nacional, e estudos voltados ao Rio de Janeiro e à Amazônia devem estar disponíveis em breve. 

*O conteúdo foi originalmente publicado pela Agência Bori 

Em 37 anos, áreas reservadas à agropecuária no país cresceram 50% e as maiores estão na Amazônia

Áreas convergidas em pastagem equivalem a 10,6% do território nacional.

No período de 1985 a 2022, a área reservada à agropecuária no Brasil cresceu 50%, ocupando 95,1 milhões de hectares (ha). A área equivale a 10,6% do território nacional e é maior que a do Estado de Mato Grosso, por exemplo. A análise é da rede colaborativa de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas) e foi divulgada em 6 de outubro.

O levantamento aponta que quase dois terços (64%) da expansão da agropecuária no país – ou 64,5 milhões de hectares – deriva do desmatamento para pastagem. Já o desmatamento feito como etapa de preparo da terra para a agricultura corresponde a 10% da expansão e equivale a 10 milhões de hectares. 

Pouco mais de um quarto (26%) da ampliação da atividade agrícola – ou 26,7 milhões de hectares – abrange terras que já passaram por um processo de transformação devido à ação do ser humano.

Foto: Reprodução/Embrapa

Em 1985, a agropecuária ocupava um quinto (22%) do território do Brasil, ou 187,3 milhões de hectares. Quase quatro décadas depois, constata-se que a proporção cresceu para 282,5 milhões de hectares, ou um terço do território brasileiro. Desse total, 58% são de pastagens, que tiveram um crescimento de mais de 60% entre 1985 (103 milhões de hectares) e 2022 (164,3 milhões de hectares).

O aumento da área que serve ao cultivo agrícola foi de 41,9 milhões de hectares, no intervalo analisado pela equipe do MapBiomas. Nesse caso, o espaço utilizado passou de 19,1 milhões de hectares para 61 milhões de hectares. Em termos comparativos, pode-se dizer que o aumento foi de duas vezes a extensão do Paraná.

Cultivo 

Dois tipos de lavoura respondem por praticamente todo o movimento de expansão (96%), sendo que triplicaram no período de análise: a de grãos e a de cana. Em 1985, os dois tipos de cultivo ocupavam 18,3 milhões de hectares e, em 2022, sua área equivalia a 7% do território nacional, ou 58,7 milhões de hectares.


Dessa parcela, 35 milhões de hectares são oriundos do aumento no protagonismo da soja que, sozinha, aumentou a área cultivada quatro vezes, e do milho cultivado após a colheita da soja, conforme lembram os pesquisadores do MapBiomas. 

“A soja, o milho, a cana-de-açúcar são as três culturas com maior área, no Brasil. Existe também uma demanda muito importante para o arroz. A área dessas culturas reflete a demanda que você tem para as condições de produção no país. No caso da soja, o principal destino é a alimentação animal e, no caso da cana, o setor de energia”,

observou o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo.

Outro aspecto que a equipe de especialistas destaca é que, embora tenha havido constância, houve mudanças na distribuição geográfica dessas conversões. As novas fronteiras agrícolas se concentram na região conhecida como Matopiba (acrônimo que se refere aos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), Amacro (território de fronteira entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e um dos eixos do agronegócio) e no bioma Pampa.

A maior parte (72,7%) das áreas agrícolas convertidas surgiu no contexto de forte interferência do ser humano, marcado pela intensificação agrícola, com destaque para áreas que anteriormente eram moldadas para a pastagem. 

Leia também: Com dados dos últimos 40 anos, pesquisadores observam aumento de temperatura e secas mais severas no Matopiba

Pastagem 

O levantamento também fornece informações sobre o desenvolvimento de áreas de pastagem ao longo das décadas. Entre 1985 e 2022, os cinco estados com maiores áreas de desmatamento para conversão à pastagem foram Pará (18,5 milhões de hectares), Mato Grosso (15,5 milhões de hectares), Rondônia (7,4 milhões de hectares), Maranhão (5,4 milhões de hectares) e Tocantins (4,5 milhões de hectares) – estados da Amazônia e Matopiba.

Levando em conta o mesmo intervalo de tempo, o que se observa pelos dados coletados é que os cinco estados com maiores áreas de desmatamento para conversão direta para agricultura foram Mato Grosso (3 milhões de hectares), Rio Grande do Sul (2,6 milhões de hectares), Bahia (1,8 milhão de hectares), Maranhão (790 mil hectares) e Goiás (550 mil hectares).

No caso do desmatamento para pastagens que posteriormente foram convertidas em áreas agrícolas, os destaques são os estados de São Paulo (2 milhões de hectares), Mato Grosso do Sul (1,2 milhão de hectares), Rio Grande do Sul e Mato Grosso (1,1 milhão de hectares cada) e Paraná (1 milhão de hectares).