Indígena do povo Asurini colhe alimentos em sua roça, na aldeia Ita´Aka, Terra do Meio (PA). Foto: Fellipe Abreu/ISA
Cerca de 40 organizações da sociobioeconomia estão mobilizadas na campanha “Sociobio nas Urnas”, reunindo demandas dos povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares. Com o lema “Deixa a sociobio crescer!”, a campanha é coordenada pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e apresenta às candidaturas da Eleição 2026 uma carta com 46 propostas de políticas públicas organizadas em oito eixos temáticos.
O documento visa apresentar aos candidatos e candidatas a oportunidade de assumirem um compromisso público de criar ou adequar políticas públicas para que a economia da sociobiodiversidade tenha acesso às mesmas condições de crédito, infraestrutura, políticas de fomento, regras sanitárias que os modelos produtivos convencionais já têm garantidos há décadas.
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“A sociobioeconomia gera renda, trabalho e conserva os territórios, mas ainda enfrenta barreiras que limitam seu potencial. O que estamos propondo é que ela deixe de ser tratada como exceção e passe a ocupar o lugar que merece nas políticas de desenvolvimento do Brasil. Queremos que os candidatos reconheçam essa economia como estratégica e assumam compromissos concretos para fazê-la crescer”, diz a secretária-executiva do ÓSocioBio, Laura Souza.

Secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Dione Torquato reforça que a garantia do território é essencial para o avanço do tema. “Nessas eleições, o que está em jogo é garantir que os povos e comunidades tradicionais e os agricultores e agricultoras familiares continuem vivendo e produzindo em seus territórios”, diz.
Um exemplo da disparidade vem do crédito rural. Entre 2013 e 2025, 91,6% do crédito rural foi destinado a médios e grandes produtores, e só 8,4% para a agricultura familiar. No Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que é destinado justamente para os pequenos, R$151,7 bilhões foram para produção de commodities versus R$3,26 bilhões para sociobio entre 2020 e 2024 — uma diferença de 46,5 vezes.
“Há uma assimetria histórica nas políticas públicas, nos incentivos e nos recursos destinados aos diferentes modelos de uso da terra, e precisamos corrigi-la”, afirma Fabíola Zerbini, Diretora Executiva da Conexsus.
As Economias da Sociobiodiversidade são promovidas por povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, estando baseadas na diversidade, no conhecimento tradicional e na inovação, nos sistemas socioprodutivos locais e nos produtos e serviços gerados a partir de recursos da biodiversidade — conectados aos modos de vida, às práticas e saberes desses povos, e à melhoria da qualidade de vida e bem viver das comunidades em seus territórios e maretórios.
Hoje, os territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais cobrem cerca de ¼ do Brasil e mais da metade da Amazônia; é sobre essa base, e sobre os biomas que ela mantém, que o setor se sustenta. Segundo estimativas, essa economia movimenta hoje R$17,4 bilhões e 525 mil postos de trabalho.
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Mas os benefícios não ficam restritos a quem vive dela. Ela contribui para enfrentar o desmatamento, a mudança do clima e a desigualdade social, gerando emprego e renda, conservando e restaurando territórios e distribuindo riqueza.
Como destaca o documento, a sociobio funciona, essencialmente, como a infraestrutura natural da economia brasileira: sustenta o regime de chuvas, a regulação climática, a fertilidade do solo e a polinização dos quais dependem setores inteiros, do agronegócio à energia hidrelétrica. Mais de 95% da área agrícola e 99% das pastagens do Brasil dependem da chuva regulada pela floresta, conforme dados da WRI.
As organizações vão levar o documento às candidaturas ao longo da campanha eleitoral, coletando compromissos públicos que servirão de base para cobrança de mandato após a eleição. O lançamento aconteceu, em agosto, de forma online pelo site, onde é possível ler a carta na íntegra, além das redes sociais das organizações que compõem o ÓSócioBio.
Candidatos podem assinar o compromisso público com a carta pelo link e pessoas físicas podem apoiar assinando o abaixo-assinado aqui.
Sobre ‘Sociobio nas Urnas 2026’
É uma campanha suprapartidária do ÓSócioBio, rede composta por mais 40 organizações das economias da sociobiodiversidade. Com o lema “Deixa a sociobio crescer!”, a campanha pede compromisso das candidatas e candidatos deste ciclo eleitoral com destravar e adequar as políticas públicas para que os agentes possam aprimorar cada vez mais seu modelo de desenvolvimento que distribui renda entre muitos enquanto conserva as riquezas naturais do nosso país.
*Conteúdo foi publicado originalmente pelo Instituto Socio Ambiental – ISA.
