Roraima bate recorde histórico de focos de calor e área atingida pelo fogo cresce 66% em 2024

Estado registrou 5.358 focos de calor, o maior número desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpa) começou a monitorar as queimadas na Amazônia. 

Fogo em floresta no município de Amajari, no interior de Roraima, em 2024. Foto: Oseias Martins/Rede Amazônica RR

Sob o efeito do fenômeno El Niño, em 2024, Roraima registrou um recorde histórico no número de focos de calor: 5.358, o maior número para o estado desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a monitorar as queimadas na Amazônia. Focos de calor são zonas que há ressecamento e elevação de temperatura, que podem ocasionar incêndios.

O número supera o registrado cinco anos antes, em 2019, quando o estado teve 4.784 focos de calor. Os outros três anos com mais focos de calor foram:

  • 2003: 3.987
  • 2016: 3.870
  • 2007: 3.244

Em 2024, o mês com mais registros de focos de calor foi fevereiro, quando o estado atingiu a maior marca para o período na série histórica, com 2.057. O número começou a cair em abril, mês em que inicia o período de chuvas, mas chegou a menor marca em julho do ano passado, quando foram apenas três.

Os focos atingiram áreas de assentamento rural, propriedades privadas, terras indígenas, florestas e áreas de proteção ambiental no estado.

Em 2024, a população enfrentou uma estiagem severa, que aumenta as possibilidades de incêndio, a seca do Rio Branco, o principal do estado,  e às chamas. Com o solo e a vegetação seca, as temperaturas altas e a falta de chuva, o fogo se espalhou pelo estado e consumiu casas, animais e vegetação.

Resultado dos incêndios que atingiram Roraima, por vários dias a fumaça “tomou” o céu da capital Boa Vista e de municípios do interior do estado. A “cortina cinzenta” até fechou salas de aula, medida para evitar a exposição.

A seca severa também reduziu a vazão dos principais rios e levou 14 dos 15 municípios a decretarem emergência. Desses, pelo menos quatro tiveram o fornecimento de água encanada interrompido naquele ano e a população só teve acesso a água para beber e tomar banho por meio de caminhões-pipa.

Mais chuvas, menos focos em 2025

Do dia 1° de janeiro de 2025 até esse domingo (23), Roraima teve uma redução de 81% no número de focos de calor, em comparação com o mesmo período do ano passado. Até agora, foram 456 focos, já em 2024 o número era de 2.495 — ou seja, 2.039 focos a menos.

A queda é causada pelas mudanças climáticas, de acordo com o chefe do Programa Queimadas do Inpe, Fabiano Morelli. Diferente do ano passado, em 2025 o Brasil é impactado pelo fenômeno climático La Niña, que diminui as temperaturas e causa mais chuvas no Norte do país, onde Roraima está.

Com isso, a previsão é de que o estado tenha chuvas mais intensas.

“Isso se deve a mudança das condições climáticas. Saindo de um ano de El Niño com aquecimento no Atlântico Norte que favorece a ocorrência de fogo na região Norte do Brasil, para um período de La Niña onde as chuvas estão mais intensas em Roraima”, Fabiano Morelli, chefe do Programa Queimadas do Inpe.

O La Niña ocorre quando há o resfriamento da faixa Equatorial Central e Centro-Leste do Oceano Pacífico. Ele é estabelecido quando há uma diminuição igual ou maior a 0,5°C nas águas do oceano. O fenômeno acontece a cada 3 ou 5 anos.

No Brasil, os efeitos clássicos do La Niña são:

  • Aumento de chuvas no Norte e no Nordeste;
  • Tempo seco no Centro-Sul, com chuvas mais irregulares;
  • Tendência de tempo mais seco no Sul;
  • Condição mais favorável para a entrada de massas de ar frio no Brasil, gerando maior variação térmica.

Apesar disso, Roraima já figura entre os estados com os maiores números de focos desde o início de 2025. Com 456 focos registrados até essa segunda-feira (24), o estado é o terceiro com mais focos de calor. Ele está atrás do Maranhão, que tem 534, e do Mato Grosso, que já contabiliza 479.

Além disso, dos dez municípios brasileiros com mais focos de calor, sete são roraimenses. Pacaraima e Normandia, localizados ao Norte, e Caroebe, que está ao Sul, estão no topo do ranking com 72, 69 e 43 focos, respectivamente.

Para Fabiano, no entanto, o estado não deve registrar novos recordes em 2025 devido as chuvas causadas pelo La Niña. O pico de queimadas deve ocorrer no mês de março, conforme os dados históricos registrados em anos anteriores.

Área queimada

Incêndio atinge Amajari, Norte de Roraima. Foto: Samantha Rufino/Rede Amazônica RR

Em 2024, o fogo queimou 2.517.096 milhões de hectares em Roraima, a maior degradação dos últimos seis anos, de acordo com dados do Monitor do Fogo, plataforma do MapBiomas, que monitora áreas afetadas por queimadas.

O número representa um crescimento de 66% em comparação com o ano de 2023, quando o estado teve 1.511.154 milhões de hectares atingidos pelas chamadas. O Monitor também mostrou que Roraima liderou o ranking dos estados com mais áreas devastadas de janeiro a abril de 2024.

O estado foi um dos que mais queimou no ano passado, ocupando o quarto lugar. O pódio é liderado pelo Pará, com 7,3 milhões de hectares, Mato Grosso que teve 6,8 milhões e o Tocantins, com 2,7 milhões de hectares.

Em todo o Brasil, mais de 30,8 milhões de hectares foram queimados entre janeiro e dezembro de 2024. A Amazônia, que Roraima também integra, foi o bioma mais afetado: 60% de tudo o que foi destruído pelo fogo, foram 17.904.407 milhões de hectares consumidos pelo fogo no ano passado.

Com base em números como esse, em janeiro deste ano o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou que o governo de Roraima, federal e outros nove governos da Amazônia e do Pantanal apresentem quais são os planos emergenciais contra queimadas.

Em nota, à época, o governo informou que apresentaria “formalmente, no prazo legal, os planos emergenciais relativos à conscientização e manejo integrado do fogo, que incluem campanhas educativas, publicidade e mobilização social.” Disse ainda que “dispõe de vários mecanismos e políticas públicas de controle e de combate contra queimadas ilegais”.

*Por Yara Ramalho, da Rede Amazônica RR

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